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Posts Tagged ‘Três Lendas de Tebas’

Os Dois Pecadores (Hermann Hesse)

Num lugar recôndito de Tebas viveram por muito tempo dois irmãos cremitas que haviam renunciado à vida mundana e resolvido, ainda jovens, levar uma vida de santa conduta, em expiação de pecados anteriores. Um deles chamava-se Basílio, o outro Justino; e, embora não fossem dados a excessos, possuíam ambos um temperamento alegre e descuidado, de modo que não tinham conseguido manter uma conduta imaculada em sua cidade natal. Basílio, o mais velho, gostava de beber e jogar dados, ao passo que o mais novo, .lustino, tinha uma inclinação especial pelo convívio com mulheres c pelos prazeres do nmor. Como ambos já tinham experimentado o grande poder da tentação e a força dos maus exemplos, e conhecido o perigo de serem indulgentes para com as inclinações naturais, mas ansiavam fervorosamente por triunfar sobre si próprios, por dominar suas paixões e ser senhores de sua vontade, abandonaram o lar e todos os bens, para, levarem uma existência santa de prática religiosa e mortificação. No início da vida de anacoretas, procuraram imitar os santos padres. Dedicavam-se a rezas e meditações, liam um livro sagrado que continha as epístolas de Paulo aos Coríntíos, e alimentavam-se frugalmente das reservas que tinham levado com eles, na esperança de que, quando se espalhasse a notícia de sua santidade, receberiam o necessário para viver dos devotos e suplicantes que os visitassem. Foi, porém, uma esperança vã e bem depressa se viram esquecidos em suas tebaidas, passando necessidades. Aos dois penitentes ocorreu, então, que o Senhor podia alimentar os profetas e os eleitos de um modo transcendente, mas não estaria, por certo, propenso a desperdiçar seus milagres com preguiçosos. Por isso decidiram trabalhar e não tardaram em receber as bênçãos celestes pelo trabalho de suas mãos. Colhiam frutas, bagos e raízes, plantaram mudas de árvores, cultivaram um pedaço de terra e nela semearam trigo e milho. Também escavaram uma alverca para receber a água pura que jorrava de uma fonte nas rochas, e com ela regavam a pequena horta. E todo esse esforço e trabalho tornou-os mais rijos e fortes, e mais fácil a luta contra as antigas paixões e desejos — bem mais fácil do que quando se dedicavam apenas a leituras e orações. Da exígua leira, como das palmeiras e figueiras, eles apenas colhiam, entretanto, os frutos escassos que lhes supriam as necessidades cotidianas. Ei pensavam, angustiados, onde iriam conseguir o grão e a semente para lançarem à terra na próxima época das sementeiras. Também sentiam falta de algumas ferramentas e de roupas. Assim foi que cogitaram seriamente em melhorar sua precária situação e em ganhar algum dinheiro para os tempos ruins. .lustino dedicou-se então a fazer cestas de ramos de salgueiros entrançados que, depois de algum treino, começaram a ser bonitas e em variados formatos. Basílio, por seu lado, adquirira em anos anteriores alguns conhecimentos de plantas medicinais e colhia-as, com afinco, onde quer que as encontrasse, secava-as e limpava com cuidado suas ha.stes, folhas e sementes. Com essas atividades, para preencher o tempo, além do trabaIho na horta, os dois eremitas tinham esperança de que, no futuro, não passariam pelas mesmas privações anteriores. Desta vez, a esperança não os traiu. Quando empreenderam sua primeira viagem à cidade, numa caminhada de meio-dia, conseguiram vender aos mercadores por bom preço e facilmente tudo o que tinham colhido e feito, inclusive as bonitas cestas de Justino, e voltaram ao seu solitário refúgio carregados de provisões e sementes. Mas a visão da cidade, a agitação dos homens de negócios, os atrativos do comércio e a fartura de coisas não lhes fez bem. Pelo contrário, excitouos e neles despertou as adormecidas paixões. Apesar de terem abandonado honradamente o lugar, foi mais como fugitivos do que como triunfadores que voltaram ao silêncio do deserto, para reencetarem sua luta purificadora à força de trabalho, oração e temperança. Daí em diante, a vida dos dois irmãos transcorreu nesse ritmo por largos anos. Justino trançava suas bonitas cestas, que cada vez mais aperfeiçoava e cada vez mais lucro lhe rendiam; Basilio colhia ervas medicinais, preparava com elas pós e ungüentos; e juntos cuidavam da horta, colhiam frutos e mantinham em santa ordem a pobre mas disciplinada vida. Em dias determinados, jejuavam e liam seu livro sagrado, santificavam o sétimo dia e, por vezes, recebiam a visita de irmãos, de passagem para outros e distantes eremitérios. Só visitavam a cidade duas vezes por ano, o que era inevitável por causa das sementeiras, pois nessa região a terra podia ser semeada e dar duas safras por ano e, assim, tinham necessidade de comprar aos negociantes a cevada e a espelta, o centeio e o milho, visto que a pequena colheita era aproveitada por eles até ao último grão. Essas peregrinações à cidade provocavam nos penitentes uma excitação cada vez maior, o que muito os angustiava, quer alguns dias antes da jornada quer depois dela, porquanto a aproximação do pecado e a visão de um mundo de prazeres lhe perturbavam o os sentidos, inflamavam no peito os antigos e malignos desejos e provocavam grande abalo no aperfeiçoamento da alma que ambos buscavam. Tudo isso só podia ser remediado posteriormente, vagarosamente, com redobradas orações, penitências e flagelos. Sim, podia-se dizer que cada uma dessas idas à cidade destruía mais da metade do que a solidão e a penitência tinham construído no coração de cada um deles. De modo que, na verdade, os dois devotos homens ficavam livres de novos pecados mas retrocediam sempre um pouco e viam-se, por isso mesmo, obrigados a multiplicar seus esforços, de ano para ano, a fim de conseguirem o tão almejado estado de santidade. Essa era a situação de nossos bons irmãos quando chegou o tempo de voltarem a oferecer o produto de seus trabalhos, trocando-o por víveres, sementes e linho. Nenhum deles se atrevia a proferir a palavra “cidade” mas ambos passavam as noites ansiosos, mudos, suspirando baixinho. Acercava-se a época da sementeira e Justino tinha uma enorme quantidade de cestas prontas para vender. Basílio colocou suas ervas, poções e ungüentos em sacos e cestinhas aprontando tudo para a viagem. Ele, como o mais velho, foi quem primeiro abordou o assunto. — O que é que você acha, irmão? — perguntou. — Devemos partir amanhã, com a graça de Deus? Justino encarou-o e, com um gemido, respondeu: — Já que assim é preciso! Minhas cestas estão prontas. Teu coração está, porventura, tão inquieto e angustiado quanto o meu? — Sim, meu irmão — disse Basílio, numa voz embargada de tristeza. — Já estou antevendo o falso brilho dos prazeres do mundo ofuscando-me a alma e é mister que me domine, para que meu coração não ceda às vãs seduções. Com isso quer Deus provar-nos, miseros penitentes. A Ele entrego a salvação de minha alma. Oremos, irmão Justino! E ambos ajoelharam-se, lastimaram-se e rezaram até altas horas da noite. Mas tiveram de gritar e flagelar-se para não ceder ao Mal, pois a iminente visita à cidade cercava-os de um capitoso perfume, embriagava-os e fazia vacilar todas suas boas intenções, tal como as artes com que um mágico fascina as pobres crianças e as conduz a seu bel-prazer. Na manhã seguinte, depois de dormirem muito pouco, os dois levantaram-se ao mesmo tempo. Carregavam suas mercadorias sobre os ombros; as sandálias grosseiras ressoando nas pedras. Caminhavam silenciosos mas os pensamentos voavam céleres e fixavamse nos prazeres da cidade, com tamanha intensidade que Justino via aglomerarem-se à sua volta lindas e voluptuosas mulheres e Basilio farejava o aroma de vinhos doces e condimentadas iguarias, ouvia o rolar dos dados no tampo das mesas de mármore. E, apesar de lutarem contra seus ncfandos desejos, estes tomavam sempre o mesmo rumo, enquanto o suor lhes corria pela testa em grossas gotas e os lábios ressequidos se agitavam em mudas orações. Quem os visse não os tomaria por ingênuos peregrinos, mas por dois seres desesperados. Chegaram às portas da cidade, na muralha do leste, uma hora antes do meio-dia. Em sua ânsia, que tanto poderia atribuir-se ao medo como à avidez, atravessaram correndo a grande porta e penetraram no febril torvelinho das ruas. Pararam no mercado e despediram-se um do outro, para que cada um fosse resolver seus negócios. Como sempre, combinaram encontrar-se em tal e tal estalagem, onde era costume fazerem uma refeição frugal e, após breve repouso, abandonarem rapidamente a cidade pérfida. E assim se separaram mais uma vez. Aconteceu, porém, que os negócios de Justino foram resolvidos mais depressa e melhor do que em ocasiões anteriores. Logo na primeira rua por onde passou foi chamado por um atacadista, ao seu armazém, que lhe ficou com todas as cestas, sem regatear e por um bom preço, pois acabara de receber uma grande remessa de azeitonas e queria colocá-las sem demora nas cestas para mandá-las ao mercado. Assim, o eremita viu-se logo livre de sua grande carga e de preocupações, e com duas grandes moedas de prata na mão. Agradecido, atribuiu sua sorte à providência divina e dirigiu-se imediatamente, para evitar qualquer dissabor, ao albergue onde esperava encontrar Basílio. Este, porém, estava ainda muito atareafado e não pudera chegar tão cedo. A essa hora o albergue estava deserto e o dono dormia no chão, em cima de uma grande esteira. Justino foi sentar-se timidamente num banco, esperando paciente que o dono acordasse. O homem, porém, continuou dormindo imperturbável; mas em seu lugar apareceu logo uma jovem criada que lhe perguntou o que queria. Justino pediu pão e tâmaras. Apesar de não se atrever a olhar o rosto da moça e conservar a vista baixa, não precisou erguer os olhos enquanto ela se afastava. Viu-lhe o corpo cheio e roliço, os cabelos pretos, a nuca morena, os braços fortes e bem torneados, o movimento ondulante das ancas, belos, e delicados pés. O pobre eremita sentiu a testa alagar-se-Ihe de suores frios ante aqueles atrativos, e, enquanto ainda olhava fascinado para o vazio, sua alma confusa era tomada de vergonha, angústia e medo. Gemia baixo, limpava a testa na manga do hábito e, quando a jovem criada voltou, manteve os olhos pregados à força no tampo da mesa. Ela aproximou-se para servir-lhe a refeição e observou atentamente o forasteiro. Notou-lhe a perturbação e, com sua indoie perversa, concluiu que aquele peixe mordera seu anzol, no que — infelizmente — tinha razão, se bem que Justino jamais o admitisse. Mas seu coração batia desordenadamente e os olhos faziam força para voltar à moça. Ela sorriu de leve e disse, em tom grave: — Estou vendo. Sois um penitente e santo homem. Acaso tendes dinheiro para pagar vossa comida? Sou a responsável pelo que vos servi. Justino sacou imediatamente as duas moedas de prata e mostrou-as à moça. — Está bem, confio em vós — prosseguiu a moça. — E ficai sabendo que tenho a contar-vos uma coisa deveras importante. Mas não pode ser aqui, pois o hospedeiro seria capaz de escutar ludo e o meu assunto é confidencial. Peço-vos, santo homem, que aceiteis sair por um instante comigo. O assunto é muito importante para mim. Atordoado e perplexo, Justino a seguiu mas, de súbito, a moça puxou-o para seu quarto e deixou cair o corpete vermelho que lhe cobria os seios; apertando Justino contra si, sorriu-lhe de um jeito infinitamente caricioso e disse: — Dá-me uma moeda de prata e poderás contemplar toda a minha beleza. Dá-me duas moedas e poderás dormir comigo. Tudo isto sobreveio como o vento cálido do deserto. Justino não podia mais pensar desde que a prostituta tocara com as mãos suaves nas dele, aproximara seus olhos dos dele. Tremendo, entregou-lhe as duas moedas de prata, ouviu as risadas da moça, via-lhe sob os lençóis de linho fino os ombros e os alvos segredos brilhando. Mergulhou, perdido, em seus braços, balbuciando ternas palavras esquecidas, e pecou, inconsciente e cego como um bêbedo. Pouco depois, encontrou-se de novo sentado à mesa do albergue, pão e tâmaras à sua frente, o albergueiro roncando sobre a esteira. Como se tivesse despertado de um delírio profundo e convulso dos sentidos, encarou o dia e todas as coisas à sua volta com um olhar toldado. Deu-se conta do que fizera, levou ambas as mãos ao rosto e afundou numa tristeza infinita. O arrependimento, a vergonha e o desespero apossaram-se dele. Pareceu-lhe inacreditável o que acontecera e compreendeu que todos aqueles anos em seu árduo retiro tinham sido apagados ante Deus, todas as penitências e esperanças destruídas. Foi nesse estado de ânimo que Basilio o encontrou uma hora mais tarde, depois de ter resolvido seus negócios e ganho uma moeda de prata. — Que aconteceu contigo? — perguntou-lhe Basilio assustado e pousando carinhosamente a mão no ombro do irmão. — Ai de mim, estou perdido! — gritou Justino, lavado em pranto. Mas não conseguindo confessar o que lhe acontecera, apenas sacudia a cabeça, desesperado, e mostrando as mãos vazias. Basilio conduziu-o carinhosamente para fora da cidade. Diante da grande porta, Justino sentou-se numa pedra à beira da estrada e disse, com o olhar vazio: — Me abandone aqui, bom irmão, e siga sozinho! Eu me entreguei ao demônio e não há mais esperança. Contou-lhe tudo. Basilio podia bem imaginar como se sentia seu desditoso irmão e não era essa a melhor hora para censuras ou sermões. Seu coração sangrava por aquela alma decaída, e no seu aflito e compassivo amor, engendrou então um bem-intencionado mas arriscado ardil para consolá-la. Esse ardil era uma mentira. — A h , irmão — disse ele com dissimulação e fingida vergonha — quão errado estás em pedir que me afaste! Se soubesses o que vai na minha consciência! Pois fica sabendo, querido irmão, que enquanto me esperavas na estalagem e pecavas, eu cometia coisas bem piores. E, mentindo, contou que tivera três moedas de prata, entrara numa taverna, comera e bebera, jogara dados, tendo tomado todo o dinheiro de um moço e depois perdido tudo para outros jogadores. Humilhava-se profundamente para animar o irmão, acusava-se para consolá-lo, maculava-se para purificá-lo. Atônito, Justino o escutava. Deu-lhe a mão, chorando, e disse: — A h , querido irmão, que será de nós agora? Basilio ajudou-o a levantar-se, abraçou-o e disse consolador: — Com Deus há perdão. Voltemos para o deserto e façamos penitência. Percorreram o longo caminho de regresso em silêncio, cada um mergulhado em seus pensamentos, e chegaram, altas horas da noite.

à gruta. Melancólico, Justino contemplou o lugar e seu leito limpo, Não se deitou na cama de palha, mas jogou-se sobre uma pedra fria, e adormeceu ao amanhecer, após infinitas auto-acusações e votos de contrição. Com Basílio, as coisas passaram-se de modo diferente. O que contara ao irmão era mentira e as mentiras contêm sementes ruins. Ao mesmo tempo que consolava o irmão, sua história envenenava a ele próprio e incendiava sua imaginação. Justino pecara e arrependera-se amargamente; mas ele, apesar da sua boa intenção, brincara com o pecado e assim abrira uma porta para o M a l . Agora, todos os pensamentos tomavam esse rumo e imaginava tudo o que inventara por amor a Justino nas cores mais alegres, e ardia na paixão ruim que lhe roubava o sono. Assim foi que, nessa noite, Justino se arrependeu dolorosamente de haver pecado e Basílio, com dor não menos intensa, se arrependia de ter evitado pecar. Eis como as boas e más forças se cruzam e entrechocam no espírito do homem. Quando, pela manhã, Justino despertou em seu duro leito, encontrou-se sozinho. Fez, em silêncio, suas orações e encaminhouse, apesar do cansaço, para as labutas cotidianas, presumindo que seu irmão andasse pelos campos em busca de ervas. Mas, como Basílio demorasse e não tivesse aparecido sequer ao cair da noite, Justino — de nada suspeitando — acreditou, em seu humílimo arrependimento, que ele o tivesse repudiado e que depois de seu erro não quisesse mais tê-lo como irmão. Lembrava-se, sem dúvida, da confissão de Basílio mas sua própria falta parecia-lhe muito maior e mais monstruosa. Por isso se entregava a penitências mais severas, llageiava-se com varas de vime até sangrar e, de noite, só dormia sobre as pedras. Enquanto i,sso, Basílio, que sumira durante a noite e caminhara secretamente para a cidade, freqüentava as tavernas gregas, com a bolsa cheia de dinheiro ganho nos dados, e saciava seus maus instintos em orgias, até cair de bêbedo. Ora, poderá parecer que a justiça divina esquecera esses dois homens, que as dedicadas penitências de tantos anos tinham fracassado e se tornaram farsa. Mas os desígnios de Deus são insondáveis. Não Lhe passara despercebido que, nesses dois penitentes, o os desejos mundanos não tinham sido extintos e por isso os deixou decair, mas não para perdê-los Enquanto Justino cumpria sua dura penitência, a paz penetrava em sua alma e ele reconhecia que os maus desejos tinham sido para sempre expulsos de seu íntimo. Mas não se regozijava com isso: perseverava na humildade, procurando todas as ocasiões para castigar-se. E rogava a Deus um sinal, porquanto era seu firme propósito não pôr fim às suas mortificações até que, por vontade divina, seu desaparecido irmão voltasse e o perdoasse. Então Deus compadeceu-se daquele espirito valoroso e fez-lhe ouvir uma voz durante o sono da noite, que lhe disse como Basílio, por compaixão, se fizera mentiroso, e de mentiroso se fizera pecador; e ordenou-lhe que procurasse o transviado, para que a misericórdia de Deus fosse concedida a ambos. Justino empreendeu jubilosamente a viagem, antes do amanhecer; e corria como se tivesse asas nos pés, rumo à cidade — e era a primeira vez que se aproximava dela com o coração livre e sem angústias. Chegou cedo na cidade, cruzou confiante a grande porta da muralha e dirigiu-se para o mercado, em busca do irmão perdido. Ao passar por uma taverna mal-afamada, ouviu lá dentro um pandemônio de imprecações, gritos, gargalhadas e injúrias obscenas. De súbito, rasgou-se a cortina da porta e cambaleante, enxotado a murros e pontapés, surgiu da taverna um bêbedo com as roupas rasgadas, o rosto machucado e sangrando que veio rodopiando até cair na lama. Ninguém o ajudou, pelo contrário, só insultos o acompanhavam. Cão vadio e patife lhe chamou o taverneiro, que cuspiu e lhe virou as costas. Justino debruçou-se, horrorizado e, destruído, compadecido, sobre o miserável que com a visão turva, os olhos pestanejando, estava todo ensangüentado. E Justino reconheceu no infeliz seu irmão Basílio; tomou-o nos braços e com ele se afastou. “Tudo isto ele sofreu por minha causa”, dizia Justino para si mesmo, com os olhos rasos d’água e apertando contra o peito o depravado que era o irmão dileto de seu coração. Lavou-o num poço, levou-lhe água à boca na concha da mão e amparou-o, cambaleante, através das ruas onde a turba zombava deles. Com muito sacrifício, conseguiu levá-lo de volta à velha gruta, preparou-lhe o leito, tratou de seus membros feridos, cuidou dele e o animava com desvelo amoroso. E como à medida que o corpo de Basílio sarava mais sua alma afundava nas trevas e, no desespero, Justino não saia de junto dele, consolando-o, rezando e fazendo-o saber como a misericórdia de Deus cuidara de ambos.

Dias depois, decidiram cogitar sobre o melhor modo de honrar a Deus. Flagelariam o corpo, é claro, para dele apagar todas as manchas do pecado. Mas isso não bastaria. Resolveram então fazer um voto: nenhum deles voltaria a pôr os olhos na cidade. Juraram mutuamente que preferiam morrer à mingua de pão e água, passar por inimagináveis privações, a ter de voltar alguma vez a tratar de negócios terrenos. E levaram daí em diante, por muitos e muitos anos, uma vida tranqüila e serena, trabalhando na santa paz do Senhor. Envelheceram, esqueceram o mundo, mas não o seu voto. E a vida de Justino e Basilio muito agradou ao Senhor. Houve, por aquela época, um ano de safras ruins. Os campos estiolavam à mingua de água. Até as palmeiras e figueiras se recusavam a dar fruto. Os eremitas padeciam uma fome indescritível, mas longe estava do pensamento deles quebrarem o voto sagrado e procurarem o auxilio dos homens. Confiavam unicamente em Deus e se Lhe aprouvesse morreriam de fome em sua gruta. Mas quando os dois irmãos já estavam há dois dias sem alimento, sentindo que a chama da vida começava a se extinguir em seu corpo mortificado, eis que o Senhor lhes mandou um corvo a levar-lhes o pão celestial, e o deixou aos penitentes para que se alimentassem como só Deus sabe alimentar seus eleitos.

Os Pãezinhos Doces (Hermann Hesse)

As mui venerandas crônicas de antanho sobre a vida dos santos eremitas no deserto de Tebas mencionam, freqüentemente, quão variadas foram as tentações que os demônios procuraram infligir a esses bem-aventurados anacoretas. Entretanto, foi comprovado pelo exemplo de São João Egipcíaco, que a própria bondade de Deus também exporia à tentação um desses eremitas. Vivia em Heliópolis um homem abastado que, embora não levasse precisamente uma vida censurável, gostava muito dos prazeres mundanos. Freqüentava o circo e os banhos, gostava de mulheres e como era de índole pacífica, um tanto indolente, dedicava-se sobretudo aos prazeres da mesa. Ora, certo dia, esse bom homem, obrigado a recolher-se, após lauta refeição, com violentas dores que lhe traspassavam o corpo latejante, pressentiu que havia nisso um desígnio de Deus e, reconhecendo com pavor a futilidade de sua existência, decidiu imediatamente que, desse momento em diante, só viveria para a salvação de sua alma. Passou a procurar o convívio dos devotos cristãos e a evitar todas as relações pecaminosas. Tanto se sentiu transformado pela bondade divina que fez uma promessa: doravante, recusaria todo e qualquer prazer mundano e dedicaria sua existência a orações e atos de renúncia, como eremita penitente. Assim ele se mudou da cidade de Heliópolis para o deserto, como nessa época costumavam fazer muitos homens de fé e religiosos; procurou uma caverna num lugar ermo e lá ficou. Apenas com as próprias mãos, lavrou uma exígua leira de terra, onde semeou trigo, centeio e lentilhas para seu sustento. Seguindo o exemplo dos santos monges, jamais se alimentava enquanto o sol percorria o arco celeste, somente o fazendo após o crepúsculo e, mesmo assim, contentava-se com um punhado de cereal ou de lentilhas deixadas de molho na água de uma fonte que havia perto e onde ele se dessedentava. Imitava também os piedosos anacoretas ao reduzir sua vida cotidiana à prática de penitências e às orações e hinos em louvor a Deus. Um anjo observava, divertido, todo esse esforço. Com outros irmãos seus, visitava amiúde essas paragens longínquas para espiar a vida dos anacoretas. O anjo sentia especial prazer em acompanhar esse penitente e, invisível, muitas vezes esteve perto dele, ouvindo seus suspiros e lamentações, as preces e orações, em testemunho a Deus de toda sua dedicação e devoção. O anjo, depois dessa silenciosa observação, muitos anos a fio, animou-se o bastante para se acercar do trono de Deus e assim falar: — Senhor, conheço um anacoreta do deserto que leva uma vida humilde e de incontáveis provações há muitos anos, em Tua homenagem. Permite-me que lhe leve um pouco de alegria e refrigério como sinal de Tua infinita bondade. E o senhor indagou: — Que tem de extraordinário esse eremita para que queiras agraciá-lo antes dos demais? — Bem, de extraordinário ele nada fez — disse timidamente o anjo. — Seu coração é bondoso e ingênuo demais para que ele pense em fazer algo de incomum entre os eremitas. Só que eu gosto muito dele. O Senhor sorriu e falou: — Está bem, consinto que lhe prepares uma agradável surpresa. Mas não o estragues!

O anjo entoou um hino de louvor e apressou-se para chegar ao deserto onde vivia o penitente. O sol acabara de pôr-se na orla do deserto e o santo homem preparava-se para meter na água um punhado de lentilhas. Ao anjo ocorreu, de repente, o que deveria fazer e afastou-se, voando. Quando, na noite seguinte, o eremita abandonava a gruta, onde costumava rezar, e que já tinha uma cova no lugar onde punha sempre os joelhos, sentiu penetrar em suas narinas um delicado e há muito não sentido aroma. E foi encontrar sobre uma mesa de pedra três pães alvos como a neve, macios como lã e doces como favos de mel. Cheirou-os, tocou-os, arrancou uma migalha e Icvou-a à boca. Seu rosto iluminou-se suavemente, caiu de joelhos, comeu o primeiro pãozinho e achou que tinha, realmente, gosto de mel. O segundo sabia a pêssego e desmanchava-se na boca; derretiase entre os dentes, tal como um pêssego maduro. O terceiro, que se deixava absorver devagar, tinha um aroma ainda mais delicioso e o sabor de abacaxi. Com esse gosto na boca, o ditoso penitente suspirava baixinho, como num sonho. No dia seguinte, iniciou suas penitências com redobrada gratidão. Ao avizinhar-se a noite, porém, lançou olhares para a posição do sol e mal o disco vermelho sumiu no horizonte correu afogueado, pressuroso, para a mesa. E ali estavam mais três pães, sabendo um a maçã, outro a framboesa e o terceiro a marmelo. O pãozinho de marmelo provocou no religioso novos suspiros de gratidão. No terceiro dia, logo após a refeição da manhã, os pensamentos do anacoreta voltavam-se apenas para a chegada da noite, imaginando com imensa curiosidade como seriam os pãezinhos daquele dia. No entanto, logrou dominar-se, rezou, flagelou-se rolando o corpo no chão áspero e rochoso, mas logo lhe acudia à idéia o sabor ora de morango, ora de pcra, ora de manteiga fresca ou frango assado. Após a refeição, já não sentia vontade de galgar novamente o rochedo c rezar. Recitou, sentado, uma breve oração de louvor e deitou-se satisfeito, dormindo a sono solto até o dia seguinte, e sonhou com toda a espécie de alimentos que há muitos anos não lhe passavam sequer pela mente. Na manhã seguinte, flagelou-se e decidiu pedir a Deus que, por favor, não lhe mandasse mais pãezinhos. Mas não conseguiu levar adiante o seu piedoso intento e procurou con\enccr-se de que, se o fizesse, seria um ingrato. Por isso, decidiu de manhã que não comeria pãozinho algum nesse dia; relaxou um pouco ao meio-dia, quando jurou a si próprio que só comeria um pãozinho. Porém, ao pôr-do-sol, re.solvcu comer dois. O terceiro, de que só se deliciou com o cheiro, deixou-o ficar onde estava quando foi deitar-se. Mas não conseguiu dormir. Uma hora depois levantou-se, olhou para o pãozinho, colocou-o na palma da mão e deitou-se novamente. Passou outra hora e ei-lo de novo levantado, agora firmemente decidido a comer o pão. Mas este tinha desaparecido! Começaram para o eremita dias ruins. Às vezes, conseguia deixar um pão ou dois, outras vezes comia todos, e nunca estava satisfeito consigo próprio. Entrementes, com a boa alimentação, o sangue voltara a seu rosto e a força a seus membros. Sonhava com bandejas carregadas de iguarias deliciosas, com ânforas de vinho de Chipre, banhos tépidos e perfumados. Finalmente, abandonou as penitências e orações, ansiando cada vez mais pelo cair da noite e mantendo-se deitado longas horas na gruta. O anjo percebeu, pesaroso, o que tinha feito. Não se atrevia a tirar por completo os pães do penitente, para que este pão duvidasse da bondade de Deus. Mas, às vezes, colocava apenas um pão, outras vezes meio pão; e quanto mais o comportamento do eremita piorava, menor a quantidade e pior a qualidade do pão que encontrava de noite sobre a pedra. Mas não era dessa maneira que poderia ajudar o homem. Dele se apoderou uma nostalgia imensa do mundo a que renunciara e, por fim, a tentação venceu. Guardou dois pães e pôs-se a caminho da cidade de Heliópolis, em busca do antigo conforto. O anjo presenciou com espanto o que estava acontecendo, voou para o trono de Deus, confessou-Lhe tudo e arrojou-se chorando aos pés do Senhor. Entrementes, o eremita corria, corria ansiosamente, e seus pés saltitavam no caminho como se dançasse, e tinha a cabeça repleta de tentadoras imagens. O cansaço, porém, foi se apoderando dele aos poucos e, ao cair da noite, sentiu-se feliz por encontrar algumas choupanas onde viviam outros penitentes cristãos. Aproximou-se deles, saudou-os e pediu abrigo por aquela noite. Receberam-no fraternalmente, ofereceram-lhe água e nozes, comeram com ele e perguntaram-lhe donde vinha. E quando o peregrino lhes contou sua vida, a todos pareceu estarem na presença de um grande santo; como prova de grande respeito, solicitaram sua benção c manlivcram com ele um elevado diálogo repleto de bons ensinamentos e edificantes palavras. Mas o eremita a tudo escutava angustiado, pois eram bem diferentes seus pensamentos mais íntimos. Sentia-se na obrigação de contar tudo a seus companheiros e, enquanto falava de sua longa vida no deserto, percebia quão perto sua alma estivera de Deus e quanto se distanciara agora d’Ele. Finalmente, um dos frades, um jovem, pediu-lhe um conselho e disse: — Ajudai-me, caro e piedoso padre. Não tenho outro desejo senão entregar minha alma incólume a Deus. Mas ainda sou jovem e, por vezes, a tentação e a luxúria me assaltam. Vós, que já haveis superado tudo isso, dizei-me: como vencer as tentações? Ouvindo essas sentidas palavras, o eremita rompeu em convulsivo pranto e confessou aos irmãos tudo o que lhe acontecera. Eles esforçaram-se por consolá-lo, rezaram com ele e conservaramno mais alguns dias em seu meio. Depois, despediram-se dele como de uma alma novamente redimida que se encaminharia à sua velha gruta, c certamente iria fazer suas penitências, reencontrando a vida santa. Não encontrou os pãezinhos doces e teve de voltar à pequena lavoura, cuidando-a com o suor de seu rosto. Mas o anjo o acompanhou, sem ser visto, e quando a hora chegou, recebeu sua alma e, louvado seja o Senhor, levou-o finalmente liberta, para o Céu.

O Demônio do Campo (Hermann Hesse)

Na época em que, no Egito, o paganismo decadente cedia cada vez mais terreno à nova doutrina e floresciam nas cidades e mais humildes lugarejos inúmeras congregações cristãs, os antigos demônios viam-se forçados a retirar-se mais e mais para o deserto tebano. Era um vasto ermo então completamente desabitado, pois os devotos penitentes e os eremitas ainda não se atreviam a penetrar nessa perigosa região e preferiam viver, fechados a toda comunicação com o mundo, em pequenos hortos ou palheiros vizinhos das aldeias ou para além das grandes cidades. Assim, esse grande deserto estava completamente à disposição de Belzebu, com seu exército e séquito, pois as únicas criaturas que lá habitavam eram as feras e uma infinidade de vermes e répteis venenosos. A elas se juntavam agora — desalojados de toda a parte pelos santos e penitentes — os demônios superiores e os diabos inferiores, assim como todos os seres pagãos e heréticos. Entre estes havia os sátiros ou faunos, chamados demônios do campo ou silvanos, os unicornes e centauros, os druidas e muitos outros espíritos; pois Belzebu exercia poder sobre todos eles e era tido como certo que, tanto pela sua origem pagã como pela conformação meio animal, eram desprezados por Deus e não podiam jamais aspirar à sua glória. Entre esses homens-animais e ídolos pagãos derrubados nem todos eram maus; alguns só a contragosto se submetiam a Belzebu. Outros, porém, obedeciam-lhe com prazer e, em sua raiva, comportavam-se de maneira muito diabólica, visto não saberem por que motivo haviam sido expulsos de sua anterior existência, tranqüila e inofensiva, e empurrados para o seio das criaturas desprezadas, perseguidas e maldosas. Segundo as crônicas da vida do saudoso eremita Paulo e as notícias de Atanásio sobre o santo frade Antônio, parece que os centauros eram seres hostis e malignos mas os sátiros ou demônios do campo eram, até certo ponto, pacíficos e mansos. Pelo menos, está escrito que o bem-aventurado Antônio, durante sua prodigiosa viagem pelo deserto ao encontro de Paulo, deparou-se com um centauro e um demônio do campo; enquanto o primeiro o tratou com rudeza e malícia, o sátiro, pelo contrário, conversou amenamente com o santo e demonstrou até desejo de receber a sua bênção. É desse sátiro ou demônio do campo que trata esta lenda. O demônio do campo, com outros da sua estirpe, acompanhara os demais espíritos maus até o deserto inóspito e nele vagueava. Como vivera outrora numa frondosa e bela floresta e suas relações se limitavam unicamente aos seus semelhantes e às graciosas driades, ou ninfas dos bosques, o pobre sátiro ressentia-se profundamente desse exílio para lugar tão selvático e da convivência com os espíritos e demônios malignos. Durante o dia, gostava de afastar-se dos outros, errando solitário entre os rochedos e dunas de areia, sonhando com os lugares verdejantes e férteis de sua vida anterior, despreocupada, alegre, e cochilando umas horas na sombra rala das palmeiras esparsas. De noite, costumava sentar-se em um vale sombrio, rochoso e agreste, de onde brotava um riacho, e aí ficava tocando em sua flauta de junco nostálgicas e dolentes canções, a que sempre acrescentava uma nova. Quando escutavam, ao longe, essas melodias plangentes, os faunos relembravam, pesarosos, os melhores tempos passados. Alguns deles soltavam doloridos suspiros ou entregavam-se a penosas lamentações. Outros, que não sabiam mais do que isso, entregavam-se a danças turbulentas, soltando gritos e silvos estridentes, para esquecer mais depressa o que haviam perdido. Os demônios superiores, porém, debochavam do solitário e pequeno sátiro, arremedavam-no, troçavam dele e ridicularizavam-no de inúmeras maneiras. Pouco a pouco, depois de ter largamente meditado sobre o motivo de sua tristeza, ter chorado os antigos e perdidos prazeres, e lamentado a desprezível existência atual no deserto, o sátiro passou a discutir tais assuntos com seus irmãos. E logo se formou entre os demônios do campo mais sérios uma pequena comunidade, empenhada em investigar as causas de sua degradação e a possibilidade de refletir sobre retorno ao antigo e paradisíaco estado de espírito. Todos eles tinham consciência de se encontrarem submetidos ao poder supremo de Belzebu e suas hostes, pois o mundo era regido agora por um novo Deus. Desse novo Deus pouco sabiam. Mas da conduta e modo de ser do Príncipe das Trevas sabiam muito. E do que sabiam não gostavam. Era poderoso, sem dúvida, e entendia muito de feitiçarias, tendo com elas dominado a todos, e suas leis eram duras e terríveis. Mas, agora, davam-se conta de que o todo-poderoso Belzebu também fora exilado e obrigado a refugiar-se no deserto. Por conseguinte, o novo Deus teria certamente de ser ainda mais poderoso do que ele. Assim, os demônios do campo acabaram por chegar à conclusão de que seria talvez melhor para eles manterem-se-sob as leis de Deus, em vez de obedecerem às de Lúcifer. E por isso estavam ansiosos por conhecer melhor esse Deus, resolvendo procurar todas as informações possíveis sobre Ele. Então, se gostassem do que lhes fosse dito, tratariam de se aproximar d’Ele. Assim vivia essa pequena comunidade desalentada de demônios do campo, sob a direção daquele que era exímio tocador de flauta, numa tênue esperança de que seus tristes dias pudessem ter fim. Ignoravam, porém, até que ponto era grande o poder de Lúcifer sobre eles. Mas não tardariam em sabê-lo. Na verdade, foi por essa mesma época que os piedosos eremitas devotos deram os primeiros passos no deserto tebano, até então jamais pisado por seres humanos. Só há pouco anos Frei Paulo, e mais ninguém, ousara penetrar nessas paragens. Dele conta a santa lenda que, durante esses anos, levou uma vida de penitente, vivendo numa estreita caverna, alimentando-se unicamente da água de uma fonte, dos frutos de uma palmeira e de um pedaço de pão que lhe era trazido diariamente das alturas por um corvo. Foi justamente desse Paulo de Tebas que um dia o demônio do campo tomou conhecimento e como uma certa inclinação, embora tímida, o atraia para as pessoas, procurava observar e escutar freqüentemente o santo eremita. Achava maravilhoso o modo de vida desse homem; pois Paulo vivia na mais santa pobreza e em completa solidão. Não comia nem bebia mais do que um pássaro, cobria o corpo de folhas de palma, dormia sem esteira, numa estreita gruta, e suportava o calor, as geadas, os ventos e a umidade sem um queixume, sujeitando-se ainda a penitências extraordinárias, como ficar rezando de joelhos, horas a fio, numa rocha áspera, ou jejuar dias inteiros, evitando até sua tão parca refeição. Tudo isso parecia sumamente estranho ao curioso demônio do campo que, no começo, considerou aquele homem um tanto louco. Mas logo notaria que, afinal, Paulo levava realmente uma vida triste e dura, mas sua voz, quando ele orava, tinha um timbre singularmente suave e fervoroso, como se fosse o eco de uma grande felicidade interior; no rosto descarnado pairava uma expressão de tranqüila bem-aventurança e sobre a cabeça grisalha havia como que uma auréola luminosa. O demônio do campo ficou espiando o penitente durante dias ê chegou à conclusão de que esse anacoreta era um homem feliz e recebia fluidos de uma felicidade extraterrena que brotavam de ignotas fontes. E como o ouvia louvar e evocar tantas vezes o nome de Deus, concluiu que Paulo era, certamente, um servo e amigo desse novo Deus e que seria bom pertencer-Lhe. Assim foi que, um dia, se armou de coragem, saiu de trás de uma rocha e acercou-se do encanecido eremita. Este desviando-se dele exclamou: — Para trás! Para trás, Satanás! — Mas, ignorando as imprecações, o demônio do campo saudou-o humildemente e, em voz baixa, disse: — Vim porque gosto de t i , eremita. Se porventura és um servo de Deus, oh, fala-me então d’Ele, conta-me algo do teu Deus e ensina-me o que é preciso fazer para que também eu possa servi-Lo. Ouvindo essas palavras, Paulo hesitou e, movido pela sua natureza benévola, explicou: — Deus é amor, fica sabendo. E bem-aventurado é aquele que O serve e por Ele sacrifica sua vida. Tu me pareces um espirito impuro, por isso não posso dar-te a bênção de Deus. Para trás, demônio! O demônio do campo afastou-se muito triste, carregando consigo as palavras do crente. Teria dado com prazer sua vida para assemelhar-se àquele servo de Deus. As palavras Amor e BemAventurança, apesar de seu significado um tanto obscuro, soavamlhe promissoras e deliciavam seu coração, despertando nele uma nostalgia violenta, não menos doce e forte do que a saudade dos perdidos tempos passados. Após alguns dias de silenciosa inquietação, lembrou-se novamente de seus amigos que, como ele, estavam cansados de ser diabos, e contou-lhes tudo. Discutiram muito sobre o caso, suspiraram e não sabiam ao certo o que fazer. Aconteceu então que nessa mesma época surgiu um outro penitente. Foi instalar-se num lugar ermo e uma multidão de vermes asquerosos fugia e contorcia-se diante de seus pés. Era o santo Antônio. Lúcifer, porém, irritado com a presença do intruso e temendo por sua soberania nesse deserto, logo se empenhou em usar todo seu poder para afastá-lo daqueles lugares. É do conhecimento geral os mil e um ardis a que Lúcifer recorreu para desencaminhar, assustar e afugentar o santo homem. Surgiu-lhe como uma bela e sedutora mulher, como um irmão e confrade; ofereceu-lhe deliciosas iguarias e colocou prata e ouro em seu caminho. Como tudo fosse em vão, passou a apavorá-lo. Espancava o santo até jorrar sangue, aparecia-lhe nas mais pavorosas formas, atravessava sua caverna com hostes de diabos, espectros, duendes, sátiros e centauros, ou com verdadeiros exércitos de lobos ferozes, panteras, leões e hienas. Também o melancólico demônio do campo tinha de participar nessas cavalgadas tenebrosas mas, quando se acercava do mártir, fazia apenas gestos suaves e compadecidos. Se os seus irmãos zombavam dele, puxando-lhe a barba ou o grosseiro hábito, o demônio do campo pousava o olhar envergonhado no santo e pedia-lhe um silencioso perdão. Mas Antônio não entendia e tomava as atitudes do infeliz sátiro como chocarrice de um espírito maligno. Tendo assim resistido a todas as tentações diabólicas, pôde então viver muitos anos de solitária vida santa. Quando chegou aos noventa anos, Deus achou por bem dar-lhe a saber que nesse mesmo deserto vivia um ainda mais velho e digno penitente, e Antônio imediatamente se decidiu a visitá-lo. Sem conhecer o caminho certo, peregrinou ao acaso pelos ermos; mas o melancólico demônio do campo seguia-o furtivamente e ajudava-o, de modo discreto, a encontrar o rumo exato. Por f i m , com a sua habitual timidez, apareceu diante de Antônio. Saudou-o com humildade e disse-lhe que ele e seus irmãos ansiavam por conhecer Deus, rogando-lhe que os abençoasse. Mas como Antônio desconfiasse dele, o sátiro afastou-se, entre lamentações compungidas, como também está escrito em todas as antigas crônicas das Vitae Pa trum.

Prosseguindo Antônio em seu caminho, encontrou Paulo, lançou-se-lhe aos pés e foi seu hóspede. Paulo morreu aos cento e treze anos e Antônio foi testemunha de que surgiram dois leões ferozes, rugindo lamentosamente, e com as garras cavaram a sepultura para o santo. Depois disso abandonou a região e regressou ao seu lugar anterior. O demônio do campo presenciara todos esses acontecimentos à distância. Sentia profundamente no inocente e magoado coração que os dois santos padres o tivessem rechaçado sem consolo. Como decidira ser preferível morrer a continuar escravo da maldade e como observara, e gravara bem o modo de vida e os gestos do saudoso Paulo, penetrou na mísera caverna onde ele vivera, vestiu seus trajes de penitente, feitos de folhas de palmeira, e passou a alimentar-se de água e tâmaras, ficava horas e horas ajoelhado numa postura incômoda, cheio de dores, sobre duras pedras, e procurava imitar em tudo o eremita defunto. Apesar de tudo, seu coração entristecia cada vez mais. Era evidente que Deus não o aceitava como a Paulo, pois o corvo que vinha diariamente visitar o ancião nunca mais aparecera. Além disso, bem vira, quando foi visitar Frei Antônio, que o mesmo corvo lhe levara o dobro do pão. Na caverna havia um fólio com os Evangelhos mas o demônio do campo não sabia ler. Em certos momentos, quando ficava ajoelhado até à exaustão e clamava fervorosamente por Deus, sentia perpassar em seu íntimo como que uma suave e furtiva sombra, um pressentimento de Sua presença, mas não conseguia chegar ao pleno reconhecimento. Lembrou-se então das palavras de Paulo, que para a salvação é preciso morrer por Deus, e decidiu morrer. Nunca vira um seu semelhante morrer e a idéia de morte parecia-lhe algo terrível e amargo. Mas sua intenção era firme. Deixou de comer e beber, e passava dia e noite de joelhos, repetindo incansavelmente o nome de Deus.

E assim morreu. Morreu ajoelhado, tal como vira Frei Paulo. Momentos antes da morte, viu com espanto o corvo aproximar-se com um pão igual ao que costumava levar ao santo e apoderou-se dele um profundo júbilo, agora certo de que Deus aceitara o seu sacrifício e o elegera para a Redenção. Pouco tempo depois de sua morte apareceram novos peregrinos, no intuito de se instalarem naquela região do deserto. Quando avistaram o vulto imóvel de joelhos, em traje de penitência e amparado pela rocha, acercaram-se e percebendo que estava morto, decidiram enterrá-lo cristãmente. Cavaram uma pequena sepultura, pois o morto era de pouca estatura, e entoaram preces. Mas âo levantar o cadáver para sepultá-lo, os peregrinos observaram que, por baixo dos cabelos desgrenhados, havia dois pequenos chifres; e sob as folhas de palmeira viram ocultos dois pés de cabra. Então gritaram apavorados, crentes de que tudo não passava de uma zombaria do Príncipe do Mal. Largaram o morto e fugiram, entoando em altas vozes suas orações.