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Archive for the ‘Escritores Franceses’ Category

Canção da Torre Mais Alta (Arthur Rimbaud)

ImagemMocidade presa
A tudo oprimida
Por delicadeza
Eu perdi a vida.
Ah! Que o tempo venha
Em que a alma se empenha.

Eu me disse: cessa,
Que ninguém te veja:
E sem a promessa
De algum bem que seja.
A ti só aspiro
Augusto retiro.

Tamanha paciência
Não me hei de esquecer.
Temor e dolência,
Aos céus fiz erguer.
E esta sede estranha
A ofuscar-me a entranha.

Qual o Prado imenso
Condenado a olvido,
Que cresce florido
De joio e de incenso
Ao feroz zunzum das
Moscas imundas.

 

Arte Poética

Paul VerlaineVERLAINE ( Tradução de Augusto de Campos )

Antes de tudo, a música preza
portanto, o ímpar. Só cabe usar
o que é mais vago e solúvel no ar
sem nada em si que pousa ou que pesa.

Escolher palavras é preciso,
mas com certo desdém pela pinça;
nada melhor do que a canção cinza
onde o indeciso se une ao preciso.

uns belos olhos atrás do véu,
o lusco-fusco no meio-dia
a turba azul de estrelas que estria
o outono agônico pelo céu!

pois a nuance é que leva a palma,
nada de cor, somente a nuance!
nuance, só, que nos afiance
o sonho ao sonho e a flauta na alma!

foge do chiste, a farpa mesquinha,
frase de espírito, riso alvar,
que olhe do azul faz lacrimejar,
alho plebeu de baixa cozinha!

a eloquência? torce-lhe o pescoço!
e convém empregar de uma vez
a rima com certa sensatez
ou vamos todos parar no fosso!

quem nos dirá dos males da rima!
que surdo absurdo ou que negro louco
forjou em jóia este toco oco
que soa falso e vil sob a lima?

música ainda e eternamente!
que teu verso seja o vôo alto
que se desprende da alma no salto
para outros céus e para outra mente.

que teu verso seja a aventura
esparsa ao árdego ar da manhã
que enche de aroma ótimo e a hortelã…
e todo o resto é literatura.

Um Louco? (Guy de Maupassant)

QUANDO me contaram: “Sabe que Jacques Parent morreu numa casa de saúde?”, um doloroso calafrio, um calafrio de medo e angústia me percorreu pelos ossos; e revi bruscamente, depois de tanto tempo, aquele corpulento e estranho louco, talvez, maníaco inquietador, medonho mesmo.
Era um homem de quarenta anos, alto, magro, meio curvo, com olhos de alucinado, olhos negros, tão negros que não se lhe distinguiam as pupilas, móveis, inquietas, enfermas, angustiantes. Aquele ser singular, perturbador, que emanava, que lançava em redor de si um vago mal- estar, da alma, do corpo, uma dessas incompreensíveis reações nervosas que fazem crer em influências sobrenaturais.
Ele possuía um sestro aborrecido: a mania de esconder as mãos. Porque jamais ele as deixava errar como nós fazemos sobre todos os objetos, em cima das mesas. jamais ele agarrava as coisas com aquele gesto familiar que todos temos. jamais ele as conservava nuas, aquelas mãos ossudas, magras, algo febricitantes.
F,Ia as afundava nos bolsos, sob as axilas, ao cruzar os braços. Diziam que receava elas praticassem, à sua revelia, algum gesto proibido, que cometessem alguma ação vergonhosa ou ridícula, caso as deixasse livres em seus movimentos.
Quando era obrigado a servir-se delas, para os usos comuns da vida, fazia-o por movimentos bruscos, rápidos impulsos dos braços, como se não lhes quisesse dar tempo de agir por si próprias, de fugirem à sua vontade, de executarem outros movimentos. A mesa, servia-se do copo, do garfo ou da faca tão rapidamente que nunca se tinha tempo de prever o que iria fazer antes que ele completasse o gesto.
Então, certa noite, tive a explicação da surpreendente doença de sua alma.
Ele vinha passar, de tempos em tempos, algum dia comigo no campo, e, naquela noite, apareceu-me particularmente agitado.
Uma tempestade desenhava-se no céu, abafado e negro, depois de um dia de calor atroz. Nenhum sopro de ar movia as folhas. Um calor de forno oprimia os rostos, fazendo os peitos ofegarem. Eu me sentia mal, agitado, e desejava ir para a cama.
Quando percebeu que me levantava para sair, Jacques Parent segurou, me pelos braços, num gesto sobressaltado.
– Oh, não, fique mais um pouco! – exclamou.
Fitei-o com surpresa, e murmurei:
– Essa tempestade próxima abala-me os nervos.
Ele gemeu, ou melhor, berrou:
– E a mim, então? Oh, fique, rogo-lhe, pois não posso estar sozinho!
Pareceu-me desvairado.
Perguntei-lhe:
– Que tem você? Perdeu a cabeça?
– Sim, em alguns momentos, como em noites assim, noites plenas de eletricidade. . . eu tenho… eu tenho… tenho medo… tenho medo de mim mesmo … Não me compreende? É que sou dotado de um poder … não, de uma potência… de uma força… Enfim, não sei explicar o que seja, mas existe em mim uma ação magnética tão extraordinária que me apavora, que me faz temer a mim mesmo, como lhe disse há pouco.
E, ao falar, sentia estranhos arrepios, suas mãos vibravam, ocultas, por baixo do paletó. E eu mesmo me senti logo invadido de um temor confuso, poderoso, horrível. Tive vontade de partir, salvar-me, de nunca mais vê-lo, de jamais tornar a ver aqueles olhos errantes pousarem em mim, e depois se afastarem, fixarem-se no teto, à procura de algo, de algum canto sombrio onde se firmarem, como se ele quisesse ocultar, também, seu temível olhar.
Balbuciei a custo:
– Você nunca me disse isso.
E ele retrucou:
– E quer que conte isso a qualquer um? Vamos, ouça, esta noite não mais me posso calar. E apraz-me, realmente, que você fique sabendo de tudo. Sim,- até poderá socorrer-me, se for preciso.
“0 magnetismo! Sabem lã o que é? Não. Ninguém o sabe. Todavia, o constatam. Reconhecem-no os próprios médicos, que o praticam. Um dos mais ilustres, Charcot, professa-o; então, sem dúvida, existe.
“Um homem, um ser, possui o poder terrível e incompreensível de adormecer, com a força de sua vontade, outro ser, e, durante o sono deste, rouba-lhe o pensamento, ou melhor, sua alma; a alma, esse santuário, esse recesso do Eu, a alma, esse segredo que o homem julga impenetrável, a alma, esse refúgio dos indecifráveis pensamentos, de tudo que ocultamos, de tudo quanto amamos, de tudo que desejamos furtar aos olhos humanos. E ele a abre, viola-a, escancara-a, mostra-a em público! Não é isso atroz, .criminoso, infame?
– Porque, como se pode fazer tal coisa? Quem poderá sabê-lo?
” Tudo é mistério. Nós não nos comunicamos com as coisas senão por meio de nossos miseráveis sentidos, incompletos, frágeis, tão débeis que mal têm o poder de verificar o que nos rodeia. Tudo é mistério. Pense na música, essa arte divina, essa arte que nos arrebata a alma, que a transporta, que a embriaga, que a enlouquece; e que e ela, então? Nada!
“Você não me compreende? Ouça. Dois corpos se chocam. 0 ar vibra. Essas vibrações são, mais ou menos, numerosas, mais ou menos rápidas, mais ou menos fortes, segundo a natureza do choque. Agora, nós temos no ouvido uma pequena membrana, que recebe essas vibrações do ar e as transmite ao cérebro, em forma de som. Imagine que um copo de água se transforme em vinho em sua boca. 0 tímpano realiza essa incrível metamorfose, esse surpreendente milagre de transformar o movimento em som. E isso é tudo.
“A música, essa arte complexa e misteriosa, exata como a álgebra e vaga como um sonho, essa arte feita de matemáticas vibrações, resulta, portanto, da estranha propriedade de uma membrana. Se não existisse essa membrana, o som também não existiria. porque ele, em si, não passa de uma vibração. Sem o ouvido, se tornaria ele em música? Não! Pois bem, nós somos rodeados de coisas que Jamais perceberemos, porque nos faltam os órgãos necessários que no-las revelem.
“0 magnetismo pode ser uma dessas coisas, talvez. Nós não podemos senão pressentir-lhe o poder, mal tentamos timidamente sentir a proximidade dos espíritos, sem poder explicar esse novo segredo da natureza, porque não possuímos o instrumento revelador.
“Quanto a mim- Quanto a mim, sou dotado de um poder espantoso. Dir-se-ia haver outro ser encerrado em mim, que deseja, sem cessar, evadir-se, agir à minha revelia, um ser que se move, que me rói, que me possui. Quem é ele? Nada sei, mas somos dois em meu pobre corpo, e é ele, o outro, que freqüentemente é o mais forte, como acontece esta noite.
“Basta-me apenas olhar para as pessoas para adomecê-las. como se lhes houvesse ministrado ópio. Basta-me estender as mãos para produzir coisas… coisas horríveis. Você quer saber? Sim, você quer saber! Meu poder estende-se não só sobre os homens mas também sobre os animais e, mesmo… sobre os objetos.
“E isso me atormenta e me apavora. Quantas vezes me assaltou o desejo de vazar os olhos e decepar as mãos!
“Mas eu quero… quero que você saiba de tudo! Venha! Vou mostrar-lhe aquilo… não sobre criaturas humanas, que isso todos sabem fazer, vê-se: em toda parte, mas sobre… sobre… um animal.
“Chame Mirca!
Ele caminhava a passos largos, feito um alucinado, e suas mãos saíram dos bolsos. Elas surgiram assustadoras, como se ele houvesse desnudado duas espadas.
Eu lhe obedecia maquinalmente, subjugado, vibrando de terror, mas devorado por uma espécie de desejo impetuoso de ver, de saber. Abri a porta e assobiei para minha cadela, que dormia no vestíbulo. Ouvi-lhe logo o raspar das unhas junto às escadas e ela surgiu alegre, balançando o rabo.
Em seguida, fiz-lhe sinal para deitar-se numa poltrona; ela obedeceu e Jacques começou a olhar para ela, afagando-a.
A Principio, a cadela parecia inquieta: estremecia, virava a cabeça. a fim de evitar o olhar fixo do homem, tomada de um medo sempre crescente. De repente, principiou a tremer, como tremem os cães. Todo seu corpo palpitava, sacudido de longos arrepios, e quis fugir dali. Mas Jacques pousou a mão sobre o crânio do animal, que emitiu, ao ser tocado, um desses longos uivos que se ouvem à noite pelos campos.
Sentei-me, também assustado, estarrecido, tanto, como se estivesse enjoando a bordo de um barco em mar agitado. Eu via os móveis caindo, moverem-se pelas paredes. E gaguejei:
– Chega, Jacques, chega!
Mas ele não mais me escutava, olhava para Mirza com um olhar fixo, contínuo, assustador. Ela cerrou os olhos enquanto deixava tombar a cabeça como se houvesse adormecido. Jacques olhou para mim.
– Está feito, agora você já viu.
E, atirando seu lenço para o outro lado do quarto, gritou:
– Traga-mo!
0 animal então se levantou e, tropeçando, cambaleando, como se estivesse cego, mexendo suas patas a custo, como os paralíticos fazem com suas pernas, seguiu na direção do lenço, que parecia uma mancha branca no chão. Ela tentou várias vezes pegá-lo na boca, mas mordia aos lados, sem atingi-lo, como se não o visse. Afinal alcançou-o e voltou para nosso lado, sempre . parecendo um cão presa de sonambulismo.
Era um espetáculo horrível de ver. Jacques ordenou:
– Deite-se!
Ela deitou-se. Então, ele lhe tocou a testa e disse:
– Uma lebre! Pega, pega!
– E o animal, sempre de lado, tentou correr movendo-se como se estivesse dormindo, e emitiu, sem abrir muito a goela, pequenos latidos de ventríloquos.
Jacques parecia ter enlouquecido. 0 suor jorrava-lhe da testa. Gritou:
– Morda, morda seu patrão!
A cadela teve dois ou três terríveis sobressaltos. Eu teria jurado que ela estava resistindo à ordem, que relutava. Ele repetiu:
– Morda-o!
Então, levantando-se, a cadela veio para meu lado. e eu recuei para junto da parede, fremindo de medo, o pé levantado para repeli-la.
Mas Jacques ordenou:
– Aqui, depressa!
Ela obedeceu-lhe. Então, com suas mãos enormes, ele pôs-se a esfregar a cabeça do animal, parecendo desembaraçá-lo de invisíveis liames.
Mirza reabriu os olhos:
– Pronto, está acabado, – disse Jacques.
Não ousei sequer tocá-la, e enxotei-a até à porta, por onde saiu. Caminhava lentamente, insegura, esgotada, e ouvi suas unhas novamente arranharem o chão.
Jacque; dirigiu-se a mim novamente:
– E isso não é tudo. 0 que mais me espanta, eis aqui, tome! Os objetos me obedecem também.
Ele tinha posto sobre a mesa uma espécie de corta, papel, de que me servia para cortar as páginas dos livros. Estendeu a mão para o objeto, que parecia rastejar, aproximando-se lentamente; e de súbito eu vi, sim, o corta- papel estremecer, depois agitar-se, deslizar suavemente, sozinho, sobre a madeira, rumo à mão que o aguardava, colocando-se-lhe entre os dedos.
Pus-me a gritar de terror. Também acreditei ter enlouquecido, mas o agudo de minha voz logo me acalmou.
Jacques recomeçou:
– Todos os objetos vêm, assim, à minha ordem. É por isso que oculto as mãos. Que será isso? Magnetismo, eletricidade, ímã? já não sei mais nada, porém, isso é horrível.
“E compreende você, também, por que é horrível? Quando estou só, assim que me encontro só, não posso impedir-me de atrair tudo quanto me rodeia.
“E passo dias inteiros mudando as coisas de lugar, não deixando nunca de experimentar esse abominável poder, como para verificar se ele não me deixou!
Ele havia metido de novo suas enormes mãos nos bolsos e olhava para as trevas, além da vidraça. Um pequeno ruído, um leve movimento pareceu sacudir a folhagem, por entre o arvoredo.
Era a chuva que começava a cair.
Murmurei:
– É espantoso!
Fie acrescentou:
– É horrível.
Um estrondo percorreu a folhagem, semelhante a uma rajada de vento. Era o aguaceiro, a pancada d’água, chovia torrencialmente.
Jacques começou a respirar a plenos pulmões, soerguendo o tórax.
– Deixe-me, – disse – a chuva vai acalmar-me. Neste momento, desejo ficar só.

Avatar (Theophile Gautier)

NINGUÉM podia compreender qual a doença que ia consumindo lentamente Otávio de Saville. Não se encontrava acamado, conduzia vida regular, nunca um lamento lhe saiu dos lábios; entretanto, definhava a olhos vistos. Examinado pelos médicos, que a solicitude dos parentes o obrigavam a consultar, não acusava nenhum sofrimento determinado, e a ciência não descobria sintoma algum grave. Mas a vida afastava-se dele, fugindo por umas dessas frestas invisíveis, de que, segundo Terêncio, o homem está repleto.
As vezes, uma singular síncope o tornava branco e frio qual mármore. Durante um minuto ou dois, passava por morto, mas logo se reanimava, e Otávio parecia estar despertando de um pesadelo. Fizera uma estação de águas, viajara, mas nem mesmo sob o belo sol de Nápoles obtivera melhores resultados, pois, onde os “lazzaroni” seminus se bronzeavam, Otávio sentira-se gelar.
Voltara, portanto, ao seu apartamento da Rua São Lázaro, e retomara, aparentemente, seus velhos hábitos. Aquele apartamento de solteiro, mobiliado com elegância, com todo conforto, parecia sofrer a influência e o pensamento de quem ali habitava, pois também era triste, apesar do luxo que nele reinava. João, o velho servo de Otávio, qual uma sombra, na ponta dos pés, porque, impressionado pela melancolia do patrão, perdera sua habitual loquacidade. Estatuetas, troféus de caça, máscaras artísticas. armas, pendiam das paredes. Uma carta mal começada. livros abertos, permaneciam pelas mesas. Embora habitado. o apartamento parecia deserto. A vida estava ausente dali e os raros visitantes tinham a impressão de receber no rosto um sopro de ar gélido, do que sai das sepulturas quando se abrem.
Nessa lúgubre morada, onde jamais uma mulher jovem pusera pé, Otávio se encontrava mais à vontade do que em qualquer outra parte: o silêncio, o abandono, a tristeza, convinham-lhe. Fugia ao tumultuar das festas, cessara de lutar contra aquela misteriosa dor e deixara o tempo correr, entregando a Deus a solução do seu caso.
Todavia, antes de assim enlanguescer, Otávio tinha sido o que se chama um belo rapaz: espessos cabelos negros, crespos e brilhantes nas têmporas, olhos longos e aveludados, de azul profundo, encimados por sobrancelhas recurvas, davam a impressão de pertencerem a algum oriental; tez olivastra, mãos finas e delicadas, pés pequenos e arqueados. Trajava-se bem, sabia explorar seus dotes naturais, e recepções.
E por que esse moço, belo e rico, tendo tudo para ser feliz, ia definhando lentamente? Porque os médicos não atinavam a causa de sua moléstia, porque a alma não fora ainda secionada. nos laboratórios anatômicos de Paris.
Estava nesse ponto, quando resolveu procurar um médico famoso, recém-chegado das índias, gozando da fama de operar curas. miraculosas. Otávio, porém, parecia temer esse encontro com o doutor Baltasar Cherbonneau, que sua mãe, tão aflita, lhe recomendara.
Quando o médico chegou, o jovem estava estendido no divã, debaixo de um cobertor, tendo ao lado a mesinha repleta de vidros de remédios. Não fora pela sua palidez e a atonia profunda do olhar, seu aspecto seria de uma pessoa sadia.
Embora já indiferente a tudo, a presença do médico o chocou. Baltasar Cherbonneau dava a impressão de uma figura fugida de um conto fantástico de Hoffmann. Rosto bastante escuro, que terminava, ao alto, num crânio enorme, cuja calvície tornava ainda mais vasto, liso e brilhante como marfim. Os raros cabelos, grisalhos, estavam ajeitados em mechas, junto às orelhas e na nuca. Porém o que mais atraia a atenção eram seus olhos. Naquele rosto magro e ossudo, pele de pergaminho, onde a ciência havia impresso sua marca, eles resplendiam. como duas estrêlas azuis, límpidos, frescos, cheios de mocidade. Seu trajo era
passava por dandy ou gentleman rider. O mais clássico dos médicos: casaco comprido, calças negras, camisa branca, ande, no peitilho, reluzia um enorme diamante. Sua magreza era impressionante, dando-lhe um aspecto de um faquir, ossudo, comprido.
– Então, meu senhor? – disse o médico, após um agencio, que lhe serviu para uma rápida inspeção – já vi que o senhor não é um caso de patologia vulgar, não tem nenhuma dessas moléstias que os médicos curam ou pioram e, depois de examiná-lo, fique certo de que não lhe darei nenhum papel rabiscado, desses que os farmacêuticos tanto gostam de aviar.
Otávio sorriu debilmente, mas o médico prosseguiu:
– Dê-me a mão.
Quando Cherbonneau tomou nas suas mãos ossudas, que pareciam garras, a mão delicada e úmida do moço, este sentiu uma ansiosa emoção, pois lhe parecia que o outro lhe arrancasse a alma, com aquela pressão.
– Meu caro senhor, – sentenciou o médico, abando, dando a mão do jovem – suas condições são muito mais graves do que está pensando, e a ciência, ao menos a européia, nada pode fazer. 0 senhor não possui mais vontade de viver, sua alma se destaca lentamente do corpo. Caso raro e curioso: se eu não me opuser, o senhor acabará morrendo, sem qualquer lesão interna ou externa. Fez bem em chamar-me, porque o espírito está preso à matéria por um fio. Mas, saberemos dar-lhe um belo nó.
E o médico esfregou alegremente as mãos, com um grotesco sorriso.
– Senhor Cherbonneau, não sei se irá curar-me, nem tenho desejo que assim o faça, mas devo confessar que de relance a causa do misterioso estado em que me encontro. A vida para mim não passa de uma pantomima, que eu represento ainda para não afligir mais minha Pobre mãe, pois já me sinto fora da esfera humana.
– 0 senhor está com uma impossibilidade de viver. Que dor lhe dilacera o fígado? De que alta
ambição tombou? É muito moço para essas coisas… Alguma mulher o enganou? Love’s labours lost, que quer dizer, se me não engano, penas de amor perdidas…

Precisamente… – e Otávio empalideceu. ao ralar. – Mas. não espere nada de romanesco, doutor, é uma aventura comum, tão vulgar, que até sinto acanhamento em confessar a um homem tão viajado e vivido… Pois bem, doutor, eu estou morrendo de amor…
“Encontrava-me em Florença, em 184… em fins do verão, a melhor estação para se ver Florença. Eu possuía tempo, dinheiro, boas cartas de recomendação, e era um rapaz bem humorado, que desejava divertir-se. Visitei todos os museus e pontos pitorescos da cidade, diverti-me a valer, passei um mês dos mais felizes de minha vida, mas minha ventura não podia durar. Um dia, uma rica e nobre carruagem passou por mim. Era uma caleça aberta, com criados de libré e brasão impresso aos lados. Nela estava uma dama trajada de verde, mas de um verde prateado, uma loura esplendorosa, dessas cuja beleza é até um insulto, tanto estava segura de si. Seu rosto tinha, como auréola, um chapeuzinho da mais fina palha florentina e a sua única jóia era um bracelete de ouro, marchetado de turquesas. Testa cândida e pura, cílios que lembravam miniaturas medievais, boca divinal, e seus olhos azuis tinham estranhas mutações. Tudo nela me encantou, fazendo-me esquecer os amores passados. Uma nova vida começou para mim, depois daquele fatal encontro.
“Soube, mais tarde, que era a condessa Prascóvia Labinski, lituana de ilustre linhagem, riquíssima, cujo marido fazia dois anos que combatia no Cáucaso. Graças a minhas influências, consegui ser recebido por ela, e, se sua maravilhosa beleza me encantara, mais ainda me seduziu seu espírito. Não lhe confessei meu amor, pois em sua presença eu ficava inibido até de pensar. Vinte vezes tomei essa resolução, porém, uma incrível timidez me impedia as palavras. Saía de sua casa, murmurando-lhe o nome, baixinho, e experimentava um singular prazer em pronunciar-lhe as sílabas repetidamente. E traçava aquele nome adorado em tudo quanto era papel que me surgisse à frente. Deixei de ler, de escrever, de ir a festas, não mais me importavam as cartas que recebia de França. Contentava-me em amar, sem nada pedir, sem a menor sombra de esperança, pois a virtude da condessa era inatacável.
“Um dia, porém, não mais podendo conter o desejo de rever a minha visita habitual. Encontrei-a a sós, reclinada no canapé. Nunca me pareceu tão linda como naquele langoroso abandono.
Acenou-me uma poltrona a seu lado. Sentei-me, e reinou entre nós, por alguns momentos, um desses silêncios que se tornam tão penosos em certas circunstâncias. Meu cérebro estava em chamas, ondas de fogo me subiam do coração à boca e meu amor me gritava: “Não perca esta suprema ocasião!” Não sei que teria dito, quando a condessa, talvez adivinhando a causa de minha perturbação, estendeu para mim sua linda mão, como para fechar-me a boca, e disse:
“- Não diga uma palavra, Otávio. 0 senhor me ama, sinto-o, mas não o culpo, porque o amor é involuntário. Outras mulheres, mais severas, poderiam ofender-se, mas eu o lamento, porque não posso corresponder-lhe, e dói-me vè4o sofrer. Amaldição o capricho que me fez vir para cá. Pensei, a princípio, que minha indiferença poderia faze-lo desistir, mas o verdadeiro amor não recua nunca. Eu devo, porém, proteger meu nome e do meu marido, o conde Labinski, a quem adoro, e que é louco por mim.
“Uma torrente de lágrimas brotou-me dos olhos, ante essa declaração, tão franca, nobre e leal. Prascóvia, como- vida, passou o lenço pelos meus olhos.
“- Não chore, está proibido de chorar. Faça de conta que morri, viaje, pratique o bem, viva, console-se na arte, em outro amor… Pode continuar a visitar-me, que será sempre bem recebido, mas creio que será melhor afastar-se de mim, a distância deve ser o remédio mais adequado. Penso que, daqui a dois anos… poderemos encontrar-nos sem perigo.
“No dia seguinte, deixei Florença, mas nem as viagens nem o estudo e tampouco o tempo tiveram a força de diminuir-me os sofrimentos, e sinto-me morrer. Não mo impeça, doutor!
– Nunca mais viu a condessa? – perguntou o médico, cujos olhos brilhavam singularmente.
– Não, mas ela se encontra aqui, em Paris…
E, ao responder, apresentou um cartão de visita, onde se lia: “A condessa Prascóvia Labinski recebe às quintas-feiras”.
Dois anos haviam transcorrido desde que a condessa Labinski sustara nos lábios de Otávio a declaração de amor que ela não devia ouvir. 0 rapaz, caído do alto de seu sonho de amor, afastara-se, levando consigo a devoradora mágoa, e nunca mais dera notícias de si a Prascóvia. Mais de uma vez, porém, a condessa pensara, com tristeza, em seu pobre admirador. Tê-la-ia esquecido? Sua alma bem formada sofria em pensar que alguém era infeliz por sua causa.
Prascóvia e Olaf amavam-se desde a infância e, ao voltar ele da guerra, o amor entre ambos aumentara. Nada poderia perturbar sua felicidade. 0 conde era esbelto, elegante, e, sob uma aparência delicada, ocultava músculos de aço. Sua presença, em grande uniforme, nas festas, provocava a inveja dos homens e a admiração das mulheres. Era realmente um rival contra quem nada poderia fazer Otávio de Saville. Desde sua chegada a Paris, a condessa enviara aquele cartão e, ao ver que ele não aparecia, dizia entre si, com mal contido prazer: “Ele ainda me ama!” Apesar disso, era uma mulher angelicamente pura e casta como a neve dos mais excelsos cumes do Himalaia.
– Sua história prova-me que qualquer esperança de sua parte seria quimérica, pois a condessa jamais correspondera ao seu amor, – sentenciou o médico. – Mas existem poderes ocultos que a ciência moderna desconhece, e dos quais se conserva a tradição nesses estranhos países chamados bárbaros por uma ignorante civilização. Aqueles sábios, que possuem visões estranhas e que sequem de êxtase em êxtase as ondulações que deixam as eras desaparecidas sobre o oceano da eternidade, percorrem o infinito em todas as direções, assistem à criação dos universos, à gênese dos deuses e às suas metamorfoses. São tidos por loucos, mas são quase deuses!
Otávio ouvia, perplexo. Que conexão poderia haver entre os sábios hindus e sua paixão pela condessa? 0 doutor lia-lhe o pensamento, e prosseguiu: Paciência, meu caro senhor. Vai ver que não me entrego a digressões inúteis. Farto de interrogar cadáveres, que não me respondiam, nas frias pedras do necrotério, concebi um projeto, tão ousado quanto o de Prometeu, que escalou o céu para roubar o fogo: o pensamento de chegar até à alma, surpreendê-la, analisa-la e secioná-la. Abandonei a ciência materialista, cuja vacuidade eu sentira. Tentei o hipnotismo, catalepsia, sonambulismo, tudo foi por mim observado. Estudei os arcanos gregos, hebraicos, egípcios, mas meu sonho científico não estava concretizado. A alma me fugia sempre: entre mim e ela, permanecia um véu tênue de carne, que eu era incapaz de remover. parti para a índia, buscando encontrar a chave do enigma. Aprendi o sânscrito, conversei com os brâmanes, decifrei as esculturas simbólicas e os emblemas dos deuses híbridos e exuberantes como a própria natureza da índia. Meditei sobre o circulo de Brama, de Visnu, a cobra de Siva, e todas essas figuras monstruosas me diziam, em sua linguagem de pedra: “Não somos mais que formas, o espírito agita a matéria”.
“E, após tantos anos de pesquisas, encontrei, junto a um velho e santo sacerdote, Brama-Logum, o que eu tanto procurava: conseguir destacar a alma do corpo! Visnu, o deus das dez encarnações, revelara-lhe a palavra misteriosa, que lhe guiara as várias formas, em seus, Avatares.
E agora, meu caro senhor, se assim me aprouvesse, após fazer os gestos rituais, eu pronunciasse aquela palavra, a= alma iria habitar o corpo do homem ou do animal que eu lhe designasse. Só eu possuo, no mundo, este segredo!
– Que está dizendo, doutor? – exclamou Otávio, assustado.
– Quero dizer que a condessa Prascóvia seria demasiado sábia se conseguisse reconhecer a alma de Otávio de. Savifie rio corpo de Olaf Labinski…
0 doutor Baltasar Cherbonneau estava em seu misterioso e exótico consultório, sempre imerso em suas lucubrações – Nos cantos, viam-se os mais fantásticos ídolos de todas as religiões, e obras de pintores famosos, representando os nove AvaWes cumpridos por Visnu, em peixe, tartaruga, porco, leão de cabeça humana, anão brãmane, rã, herói combatendo gigantes, menino prodígio, em que certos sonhadores vêem um Cristo hindu, e, no meio da via-láctea, esperando sua última encarnação em cavalo branco alado, cujos coices irão provocar o fim do universo.
0 conde Olaf Labinski ouvira falar nos milagres operados pelo médico, e sua curiosidade semi incrédula despertara. As raças eslavas possuem uma tendência inata para lo sobrenatural. Quando ele penetrou no gabinete, sentiu sufocar-se de calor, todo o sangue lhe afluiu às têmporas, os ouvidos zumbiram, mas bastou o médico traçar umas fórmulas mágicas no espaço e a temperatura se tornou agradável.
– Está melhor, agora, senhor conde? Seus pulmões, habituados às brisas do Báltico, devem sofrer, neste ambiente calidíssimo, mas no qual eu tremo de frio. Certamente, o senhor já ouviu falar em meus jogos de prestidigitação e deseja pôr à prova minha habilidade…
– Não, senhor, minha curiosidade não é assim tão frívola; respeito a ciência.
– Não sou um cientista, no sentido que aqui dão a essa palavra. Apenas, estudei as potências ocultas, espreito a alma. 0 espírito é tudo, a matéria não existe, o universo talvez não passe de um sonho de Deus. 0 senhor já deve ter ouvido falar no espelho mágico, onde Mefistófeles fez o doutor Fausto ver a imagem de Helena. Queira curvar-se sobre essa inocente taça de água, e pense intensamente na pessoa que deseja ver. Viva ou morta, próxima ou distante, ela atenderá ao seu apelo, do outro lado do mundo ou da profundidade da História!
0 conde inclinou-se sobre a taça, e logo viu a água turvar-se e um círculo, irisado por todas as cores do prisma, se espalhou pelas orlas do vaso, emoldurando o quadro que se esboçava sob a nuvem alvacenta. Logo a névoa se dissipou. Uma jovem senhora, de olhos verde-mar e cabelos de ouro, sentada ao piano, que, em trajes de casa, passava suas mãos distraídas por sobre o teclado, desenha-se na água, que se tornara transparente; era Prascóvia Labinski, que, ignara de tudo, atendia à apaixonada invocação do marido.
– E, agora, passemos para algo mais curioso – disse o médico, apanhando a mão do conde e pousando-a numa das varetas de aço que estavam sobre a mesa.
Mal 01a1 tocou o metal carregado de fulgurante magnetismo, caiu como se fora atingido por um raio. Baltasar Cherbonneau recebeu-o nos braços, levantou-o qual uma pluma e colocou-o num divã. Em seguida, chamou o criado e disse:
– Mande entrar o Senhor Otávio de Saville.
Quando Otávio – viu o conde Olaf Labinski estendido, imóvel, pensou logo num assassínio, e emudeceu de horror, mas, após um exame mais atento, percebeu que o homem apenas estava adormecido.
Otávio, perturbado pela estranheza das coisas, nada respondia; continuava a fitar Olaf, que jazia com sua nobre figura, qual uma efígie desses cavaleiros que se vêem nas sepulturas góticas. Sentia um vago remorso só em pensar que em breve iria furtar-lhe o corpo. 0 médico, ao vê-lo assim pensativo, sorriu com desdém, e preveniu-o:
– Se não estiver firme em sua convicção, posso reanimar o conde, mas, pense bem, ocasião como esta talvez nunca mais se apresente. Todavia, por muito que seu amor me comova e por mais vivo que seja meu desejo de realizar uma experiência nunca tentada na Europa, não devo ocultar-lhe que essa permuta de almas tem seus perigos. Interrogue bem seu coração. Está disposto a arriscar francamente sua vida nesta suprema cartada?
– Estou pronto – foi a simples resposta.
– Está bem, rapaz – exclamou o médico, esfregando as mãos mornas e secas, com grande rapidez, à maneira dos selvagens quando acendem o fogo. – Essa paixão, que nada faz recuar, agrada-me. Ali, meu velho Brama-Logum. você vai ver, do fundo dos céus da Índia, que não me ensinou em vão a palavra mágica!
“Sente-se nessa poltrona, à minha frente, e confie em mim. Olhos nos olhos, mãos nas mãos… 0 encantamento já está agindo… as noções do tempo e do espaço desaparecem, a consciência do eu se evola, as pálpebras se fecham, os músculos não recebem mais ordens do cérebro, relaxam-se; o pensamento se embota, todos os delicados fios que prendem a alma se soltam. Brama, em seu ovo de ouro, onde sonhou durante dez mil anos, não estava mais separado das coisas exteriores. Saturemo-lo de eflúvios, inundemo-lo de raios… – e o médico, ao murmurar essas frases, não parava de traçar círculos mágicos, de seus dedos brotavam faíscas luminosas, que iam atingir – testa e o coração do paciente, em redor do qual se formava, aos poucos, uma áurea visível e fosforescente.
Isto feito, envergou com solenidade um roupão de linho, lavou as mãos em água perfumada, apanhou de diferentes caixas certos pós, com que traço, nas faces e na testa do moço, sinais hieráticos, cingiu nos braços o cordão brâmane, leu alguns poemas sagrados, abriu totalmente as bocas dos aquecedores e logo a atmosfera se tornou tórrida, insuportável.
– É necessário que estas duas centelhas de fogo divino, que agora irão encontrar-se nuas e despojadas de seu invólucro mortal por alguns segundos, não venham a empalidecer-se e apagar-se em nossa atmosfera glacial – murmurou o médico, olhando para o termômetro, que marcava 1209 Fahrenheit.
Entre aqueles dois corpos mortos, Cherbonneau, em suas brancas vestes, parecia o sacerdote daquelas religiões sanguinárias, que atiravam corpos humanos nas fogueiras de seus deuses. Aproximou-se do conde Olaf, que jazia imóvel, e pronunciou a inefável sílaba, que depois repetiu sobre Otávio, imerso em sono profundo. Ninguém reconheceria naquela figura hoffinaniana, que exercitava aquele sinistro ritual, o médico de pouco antes.
Aconteceram, então, coisas estranhas. Otávio de Saville e Olaf Labinski foram tomados, simultaneamente, uma convulsão quase agõnica: seus rostos se decompuseram, leve espuma subiu-lhes aos lábios, a tez se lhes cobriu de mortal palidez, ao passo que duas chamazinlias azuis e tênues cintilavam, trêmulas, sobre suas cabeças. A um gesto fulmíneo do médico, que traçava o caminho que elas deviam seguir, no ar, as duas faúlhas fosforescentes moveram-se, deixando atrás de si um sulco luminoso, indo para suas novas moradas; a alma de Otávio ocupou o corpo do conde e, a deste, o corpo de Olaf. 0 avatar fora cumprido!
Um leve rubor indicava que a vida já reentrara naquelas figuras de argila, tornadas exanimes por alguns segundos e das quais o Anjo Negro não tardaria a apossar-se, sem o poder do médico, cujas pupilas flamejavam de triunfo.
– Médicos e cientistas de todas as eras, um humilde faquir sabe mil vezes mais que vocês! Que importa o ,`cadáver, quando se governa o espírito? Agora, despertemo-los.
E, após um singular bailado, sacudindo os dedos a todo instante, o estranho personagem fez Otávio Labinski (assim chamaremos, doravante, o jovem francês) despertar e sentar-se. Otávio passou as mãos pelos olhos e olhou em redor de si, atônitamente, pois sua consciência ainda estava adormecida. Quando recobrou a lucidez, a primeira coisa que viu foi seu próprio corpo sobre um divã. Lançou’ um grito, e aquela voz, que não era mais a sua, aterrorizou-o.
– Então, que lhe parece sua nova residência? – interrogou Cherbonneau, depois de gozar bastante com o espanto do moço. – Não deseja mais morrer? Agora, as portas do palácio Labinski estão abertas para o senhor.
– Doutor… o senhor possui o poder de um Deus. . ou de um demônio…
– Oh, não tenha medo, não lhe farei assinar nenhum pacto infernal! Nada mais simples, o que aqui ocorreu. 0 Verbo, que criou a luz, pode mudar uma alma de lugar.
– Como pagar este inestimável serviço, doutor?
– Nada me deve. Seu caso me interessava. Revelou-me o verdadeiro amor. Ande, levante-se, caminhe, veja SC seu invólucro não o embaraça!
Otávio Labinski obedeceu, deu alguns passos. Embora a alma fosse outra, o corpo do conde conservava o impulso de seus hábitos antigos e o hóspede recente entregou-se àquelas recordações físicas, gostando de tomar o porte, o andar, os gestos do proprietário expulso.
– Se não tivesse eu mesmo efetuado essa troca de almas, não acreditaria – comentou o médico, cheio de orgulho. – Mas, é quase meia-noite, vá para junto de Prascóvia Labinski, antes que ela o censure pela demora. Não comece sua vida conjugal com discussões, seria de mau augúrio.
Otávio Labinski reconheceu a justeza das ponderações e retirou-se logo. Aos pés da escadaria de entrada, estava uma riquíssima carruagem. Otávio entrou e deu ordem ao cocheiro para seguir rumo ao palácio.
Aquela imponente mansão impressionou-o, a principio, pois mil pensamentos lhe turbilhonavam na mente. E não era para menos, pois ignorava os labirintos internos e os hábitos do conde. Ao chegar ao salão, puxou o cordão de uma campainha; surgiu uma camareira, que lhe disse:
– A Senhora. está à sua espera.
Olaf de Saville (assim ficará sendo chamado, agora) saiu qual um fantasma dos limbos do profundo sono, tendo a impressão de haver sofrido um doloroso pesadelo. Os espetáculos estranhos a que assistira, antes de adormecer, aquele recinto abafado, repleto de figuras estranhas e tétricas, tudo o assustava. A sua frente, porém, se encontrava Baltasar Cherbonneau, sorrindo, bonachão.
– Está satisfeito, o senhor conde, com minhas experiências? Agora, acreditará que o magnetismo não é um jogo de prestidigitação, como dizem os cientistas!
Olaf de Savílle acenou afirmativamente e apressou-se em sair. Estranhou, na verdade, a voz do cocheiro, que não tinha sotaque húngaro. Seu espírito ainda se debatia nas estranhas cenas a que presenciara e caiu numa espécie de modorra, despertando somente quando o carro parou. Isso o trouxe novamente a si. Baixou o vidro, olhou para fora e viu uma rua desconhecida, uma casa que não era a sua.
Onde me trouxe ? Este não é o palácio Labinski!
Perdão, senhor, – murmurou o cocheiro – não
entendi bem.
– Imbecil, você deve estar bêbado ou louco! – berrou .01af de Saville, empurrando o homem.
– – Bêbado ou louco deve estar o senhor – retrucou o
cocheiro.
– – Caie-se, animal, bandido! Saia daqui, antes que suje minhas mãos no sangue ignóbil de um lacaio! É trata seu amo, o Senhor de Labinski?
Aos primeiros gritos, acorrera a criadagem, e um dos famulos adiantou-se e disse:
– já que o senhor pretende ser o Conde Labinski, olhe para cima e veja-o descer as escadas.
Um suor frio banhou as têmporas de Olaf de Saville. jovem elegante, de rosto oval, olhos negros, nariz a os bigodes louros, o qual não era outro senão um espectro modelado pelo diabo, dirigiu-se a ele numa atitude fria e altiva.
– Senhor, pare de insultar os criados. Se deseja falar o conde Labinski ele o receberá do meio-dia às duas. A condessa recebe, às quintas-feiras, as pessoas que tiveram a honra de ser-lhe apresentadas.
Dito isto. o falso conde retirou-se tranqüilamente, ao – que Olaf dé Saville era levado para dentro da casa, desmaiado.
Quando recuperou os sentidos, jazia numa cama que não era a dele, num quarto desconhecido, e junto a si estava Uni criado estranho, que lhe segurava a cabeça e dava-lhe – Para cheirar.
– 0 senhor está melhor? – perguntou julgando estar falando com Otávio.
Sim, mas deixe-me só.
0 criado acendeu a luz dos candelabros e saiu. Olaf dé Sáville foi até o espelho, onde viu a imagem de um -. de cabelos negros e bastos, olhos de um azul escuro, ave, Pálido, melancólico, ornado por uma barbicha ****0- que olhava para ele com ar espantado. A princípio, Po” que fosse brincadeira de algum amigo. Passou a mão por trás de si mas nada encontrou. Notou que suas mãos eram mais compridas e que, no anular direito, havia um anel com um brasão baronal. Nunca tinha visto aquela jóia. Pós a mão no bolso e encontrou alguns cartões de visita, com este nome: Otávio de Saville. Uma completa transformação se operara nele, sem que o soubesse. Algum mago, ou demônio, roubara-lhe a personalidade, deixando- lhe somente a alma. E o pior é que não poderia fazer valer seus direitos de conde Labinski, pois passaria por louco ou impostor, sua própria esposa o repeliria. Uma idéia atroz picou-lhe o coração!
– Mas esse conde fictício, a estas horas, em forma de vampiro, habita meu palácio, está pondo seu pé de cabra no recinto sagrado de Prascóvia, e esta lhe sorri e se entrega a ele.
0 sangue subia-lhe à cabeça, qual fogo ardente; gritava, mordia os punhos, vagava pelo quarto como fera enjaulada. Estava prestes a enlouquecer. Afinal, readquiriu a calma e mergulhou a cabeça n’água, dizendo a si mesmo que aquilo talvez não passasse de uma brincadeira de mau gosto daquele feiticeiro negro. Atirou-se à cama e mergulhou num sono pesado, opaco, semelhante à morte.
0 conde abriu os olhos e lançou em torno de si um olhar indagador. Viu um quarto bem mobiliado, onde abundavam cortinas e bibelôs, mas que em nada se parecia com o do palácio em que vivera até então. João aproximou-se.
– 0 senhor vai levantar-se? – perguntou o servo, apresentando ao amo o traje que Otávio costumava usar pela manhã.
Embora lhe repugnasse vestir a roupa de um estranho, o conde vestiu-a e, a outra pergunta de João, respondeu que desejava o almoço à hora de sempre. Depois, abriu a correspondência, revistou as gavetas, e convenceu-se de que Otávio de Saville existia mesmo, que não era nenhum fantasma. Recebeu a visita do Senhor. Alfredo Humbert, que, após achá-lo algo abatido, convidou-o para uma ceia, à noite. A tristeza do conde ia aumentando gradativamente. João, o criado, tomara-o pelo patrão, os amigos de Otávio também, mas faltava a derradeira prova. A porta abriu-se, e entrou uma senhora de cabelos grisalhos, muito da com o retrato que se via numa das paredes da sala de estar.
– Como vai o meu querido filho? – perguntou ela, sentando-se no divã. – João disse-me que você ontem chegou muito tarde, num estado de debilidade que até assustava. Cuidado, meu filho, sabe quanto o amo, apesar do desgosto que me dá em não querer confiar-me suas penas.
– Não se impressione, mamãe, estou bem melhor, hoje.
A boa senhora, tranqüilizada, levantou-se e saiu, pois sabia quanto seu filho amava ficar só.
– Eis-me, então definitivamente, Otávio de Savifie!
desabafou o conde, quando a Senhora de Saville se retirou. – Ninguém reconheceu minha alma neste invólucro. Mas saberei fugir desta túnica de Nesso! E porque não posso voltar ao meu palácio. Vamos ver o que há nesta carteira…
Ao abrir a carteira, encontrada no bolso, seu espanto argumentou. Como se encontrava ali o retrato de sua esposa? Aquela Prascôvia, tão religiosamente amada, teria descido de seu pedestal para entregar-se a outro? Sentia que a luz da – estava prestes a deixá-lo-ei, louco de dor e desespero. foi lendo algumas frases que constavam de várias M” que acompanhavam o retrato, de traços incertos, talvez desenhado de memória.
Jamais ela me amará… li a sentença de morte em meigo olhar… Que infeliz sou eu… Não posso d- só em pensar em Prascóvia… Se adormeço, ela me surge, em sonhos, mais bela que nunca… Ouço espectro invisíveis oficiando a missa fúnebre de meu coração morto. Ela no paraíso e eu no inferno… Oh, como é aquele estrangeiro. Que sublime vida anterior houve nele para Deus recompensá-lo desta forma?
Inútil seria ler mais. Estava claro que Prascóvia se conservara fiel. Otávio de Saville devia ter feito algum pacto com o demônio, para roubar-lhe o amor de Prascóvia o maneira. A lembrança do demo sugeriu-lhe uma visita ao doutor Baltasar Cherboneau.
0 estranho médico estava, como sempre, sentado, de pernas cruzadas, sobre o tapete, segurando um pé, embebido em suas meditações, alheio às coisas deste mundo. Ao ouvir passos, levantou a cabeça.
– Oh, é o senhor, meu caro Otávio? Bom sinal quando o doente vem visitar o médico.
– Sabe muito bem que não sou Otávio, mas sim o conde Olaf Labinski, porque ontem, nesta mesma sala, o senhor roubou-me o corpo, mediante suas exóticas bruxarias! – retrucou o conde, cego de raiva.
0 médico prorrompeu numa gargalhada convulsa, de- pois disse, secamente:
– Estou vendo que preciso mudar de tratamento, pois a sua melancolia está-se transformando em loucura.
– Não sei o que me contém que o não estrangule, médico do inferno!
Cherboneau, sorrindo, tocou-lhe o braço com uma varinha. Olaf de Saville recebeu tamanho choque que lhe pareceu ter partido o braço.
– Oh, nós temos meios de reduzir à impotência os doentes recalcitrantes – disse o médico, lançando no moço um olhar gelado como as duchas que domam os loucos. – Vá para casa e tome um banho para acalmar sua super- excitação.
0 conde, atordoado pelo choque elétrico, foi procurar o doutor B., em Passy.
– Encontro-me presa de forte alucinação – disse-lhe.
Quando olho para o espelho, meu rosto me parece com traços diferentes… tenho a impressão de não ser mais eu Mesmo.
– Em que aspecto se vê? 0 engano pode ser dos olhos ou do cérebro.
– Vejo-me com cabelos negros, olhos azuis, rosto pálido e barba negra.
– É o que o senhor é na realidade.
– Então, que devo fazer? Não estou louco, tenho certeza. Sou o conde Olaf Labinski. mas, desde ontem, me chamam Otávio de Savilie.
– È exatamente o que penso. Q senhor é Saville e julga-se Labinski. Venha passar quinze dias em minha clínica. Os banhos, o repouso, o convívio com a natureza, dissiparão esses fluidos. .
0 conde agradeceu e prometeu voltar. Não sabia mais que pensar de seu caso. Ao reentrar em seu quarto, viu casualmente o convite da condessa Labinski.
– Com este talismã, – murmurou – poderei vê-la amanhã.
Enquanto o conde vivia as torturas do inferno, Otávio de Labinski se encontrava no paraíso terrestre. Seguiu-se e penetrou no recesso de sua deusa. junto à janela, num delicioso abandono, cabelos soltos pelos ombros, radiante de viço e beleza, esperava-o Prascóvia Labinski, numa visão de sonho! Naquela displicência, era ainda mais bela do que em Florença. Se Otávio não estivesse já louco de amor, teria ensandecido ali. A angústia saía-lhe à garganta, emudecendo-o. Mas reagiu e adiantavam-se, a passos resolutos.
– Ah, é você, Olaf? Veio muito tarde, esta noite!
exclamou ela, sem voltar-se, pois a camareira estava ajeitando-lhe as tranças.
– Otávio Labinski apanhou a mão suave como uma flor, que ela lhe estendia, e imprimiu-lhe um beijo ardente, onde todo o fevor de sua alma.
Não sabemos que instinto de divino pudor, que irracional intuição lhe brotou do coração, mas a mulher retirou logo a mão, entre pejada e indignada. Os lábios de Otávio haviam produzido a sensação de ferro em brasa. Entretanto, logo reagiu e sorriu de sua própria puerilidade. – Você não me responde, caro Olaf. Sabe que já fui – de seis horas que o não vejo? – disse,- Nunca me abandonou tanto assim. Pensou em, ao menos?
– Sempre – respondeu o moço (e era verdade). Oh, não! Eu sei quando você pensa deveras em mim. Esta noite, por exemplo, quando eu estava ao piano, percebi sua alma voejar perto de mim. Por isso, não minta, pois eu adivinho seus pensamentos.
Prascóvia, com certeza, referia-se ao instante em que Olaf lhe evocara a imagem, no laboratório do médico. Após a saída da camareira, Otávio Labinski ali permaneceu, seguindo os movimentos de Prascóvia, com olhos acesos. Perturbada, abrasada por aquele olhar, ela envolveu-se em um peignoir, de onde se via somente sua encantadora cabeça, ainda desnorteada pela expressão que lia nos olhos do marido, que, ela lembrava, sempre tinham sido calmos, suaves, inocentes como os dos anjos. Agora, uma paixão terrestre incendiava aquelas pupilas. E mil hipóteses lhe atravessaram o pensamento. Seria ela, agora, para Olaf, nada mais que uma mulher vulgar, uma cortesã, desejada apenas pela sua beleza? A sublime harmonia de suas almas ter-se-ia rompido? A corrupção de Paris teria afetado aquele coração, que fora sempre tão casto? Um misterioso pavor a possuía, como se estivesse ante um perigoso desconhecido. Levantou-se, agitada, nervosa, e correu para seu quarto. Otávio Labinski seguiu-a e cingiu- lhe a cintura, tal como vira Otelo fazer com Desdêmona. Mas, quando chegaram à porta, Prascóvia virou-se, parou um instante, lançou no moço um olhar de terror, depois entrou e fechou violentamente, a chave.
– 0 olhar de Otávio! – murmurou, caindo, semi desfalecida, numa poltrona.
Quando se reanimou, disse entre si: “Como pude ver aquele olhar nos olhos de meu marido? No entanto, eu o vi, havia neles aquela chama sombria e desesperada… Teria Otávio morrido? Seria um último adeus de sua alma, antes de deixar este mundo? Olaf, Olaf, perdoe-me se cedi loucamente a vãos temores! Mas, se o recebesse esta noite, estaria certa de entregar-me a outro. ”
Deitou-se, mas a noite toda foi presa de pesadelos, de sentimentos de angústia, e somente ao amanhecer conseguiu adormecer. Sempre aqueles olhos ardentes a lançar-lhe jactos de fogo. 0 conde Olaf também lhe apareceu, mas era um sonho absurdo, o marido estava revestido de uma forma estranha.
Não tentaremos descrever a desilusão de Otávio ao dar com a cara na porta. Sua suprema esperança desmoronava-se! Recorrera às potências infernais, arriscando sua vida neste mundo e a própria salvação eterna no outro, para conquistar uma mulher, que, afinal, lhe fugia das mãos. Fora repelido como amante e agora o era, também, como marido. A soleira do quarto nupcial, ela lhe aparecera qual um anjo fulminando o espírito do mal. Todavia, não podia permanecer a noite inteira ali, naquela ridícula condição. Procurou o quarto do conde e caiu no leito, esgotado de tantas emoções que sofrera durante o dia, amaldiçoando o doutor Baltasar Cherbonneau.
Acordou bem disposto. 0 criado ajudou-o a vestir-se. E foi a passos tranqüilos que Otávio Labinski seguiu o camareiro, pois não sabia onde ficava a sala de refeições. Admirou, de passagem, as armas e os quadros, as várias manifestações de luxo e esplendor que reinavam no suntuoso palácio. A mesa estava posta à moda russa. Flores, riquíssima baixela, e dois criados de libré, aos lados, imóveis quais estátuas.
Mal sentara, quando ouviu um passo leve deslizar pelo tapete. Um breve roçagar de sedas fê-lo voltar a cabeça para trás. Era a condessa Labinski, que entrava. Após um sinal amistoso, ela sentou-se também. Vestia um penteador de tafetá quadriculado, em verde e branco, mas seus cabelos de ouro, enrolados em vistosas tranças, davam-lhe o aspecto nobre de uma escultura grega. Parecia um pouco pálida e uma auréola mal perceptível lhe circundava os lindos olhos, incutindo-lhe um ar lânguido e cansado. Sua beleza, porém, assim, era mais penetrante, tinha algo de humano, a deusa se tornava mulher. Otávio moderou o ardor de suas pupilas, disfarçou seu mudo êxtase com a máscara da indiferença.
A condessa, sacudindo levemente os ombros, como que desejando repelir um último calafrio de febre, fixou os belos olhos naquele homem que julgava seu marido, e, com voz harmoniosa e meiga, plena de carícias, disse-lhe uma frase em polonês. Em Florença, ela. lhe falara sempre CM francês ou italiano. A idéia de aprender o idioma de Mckiewicz nunca lhe ocorrera. 0 pobre enamorado ficou
– Sim, – respondeu o verdadeiro Saville – está louco de amor! Positivamente, condessa Prascóvia, você é demasiado bela!
Duas horas depois dessa cena, o falso conde recebeu uma carta, com o sinete de Otávio de Saville. Continha poucas linhas, que denotavam grande nervosismo de parte de quem as escrevera:
– Lida por qualquer outra pessoa, esta carta poderia parecer vinda do manicômio, mas o senhor me compreende. Circunstâncias jamais vistas no mundo obrigam-me a escrever a mim mesmo. De que tenebrosas maquinações eu tenha sido vítima, ignoro-o, mas o senhor deve saber. E este segredo, se o senhor não for um covarde, vai perguntar-lhe na ponta do cano de minha pistola. Um de nós dois deve morrer, amanhã. Este vasto mundo é pequeno para conter-nos a ambos. Eu matarei meu corpo, habitado pelo seu espírito impostor, ou o senhor matará o seu, onde minha alma se revolta por estar ali presa. Não tente fazer-me passar por louco, pois, onde eu o encontrar, o insultarei. As minhas testemunhas irão entender-se consigo, quanto à hora, o local e as condições”.
Tal desafio deixou Olaf de Saville perplexo. Repugnava-lhe bater-se contra si mesmo; ante ser insultado publicamente, resolveu aceitar o duelo. Mas, onde ir buscar suas testemunhas? Apanhou dois cartões de visita, ao acaso. Eram todos de nobres estrangeiros, o que atestava a vida nômade de Olaf, que tinha amigos em todos os países. Apanhou dois, sem escolher. Eram do Marquês de Sepúlveda e do conde Zamoieczki. Ambos aceitaram a missão.
De sua parte, o falso Otávio também esbarrava com dificuldades, mas, usando a mesma tática do rival, escolheu Alfredo Humbert e Gustavo Raimbaud, embora estes estranhassem tal atitude num homem que fazia um ano que vivia recluso.
Quando tudo ficou estabelecido, era quase meia-noite. Otávio bateu de leve à porta do quarto da esposa, que recusou recebê-lo, aconselhando-o a voltar depois de reaprender a língua – polonesa.
Na manhã seguinte, o doutor Cherbonneau – veio buscá-lo, em companhia das testemunhas. Subiram ambos num carro, enquanto o conde e o marques seguiam num cupê.
– Então, meu caro Otávio, a aventura virou tragédia?
disse o médico – Eu devia ter deixado o conde dormir uma semana, em meu divã. Mas, sempre nos esquecemos de algo… E agora, conte-me como a condessa Prascóvía recebeu seu apaixonado de Florença, em sua transfiguração.
– Creio que me reconheceu, apesar da metamorfose, ou seu anjo da guarda lhe murmurou algo ao ouvido. Encontrei-a casta e pura como a neve polar. Sinto-me ainda mais infeliz de quando a visitei pela primeira vez.
– Quem poderá assinalar os limites da alma? – murmurou o médico, pensativo – Ainda mais quando ela se conserva incontaminada pelo barro humano, tal qual saiu das mãos de Deus, na luz, na contemplação do amor. Sim, ela o reconheceu, seu instinto a protege. Tenho pena de si, pobre Otávio, pois seu mal é realmente sem cura. Se estivéssemos na Idade Média, eu lhe aconselharia o claustro.
– já pensei nisso.
Tinham chegado. Aquela hora matutina, o bosque apresentava um aspecto pitoresco, mas a poesia da natureza, em toda a beleza do seu despertar, pouco impressionou os dois adversários e suas testemunhas. A vista do doutor Cherbonneau causou desagradável impressão no conde Labinski, que soube, porém, dominar-se.
Mediram as espadas e designaram os lugares dos combatentes, que, em mangas de camisa, puseram-se em posição de guarda, ponta contra ponta.
– Vamos, senhores! – gritaram as testemunhas.
0 duelo começou, mas suas condições eram sobremaneira estranhas para os adversários, que tinham à sua frente, cada qual, o próprio corpo. Surgiram vários ataques de parte a parte, bem contidos. 0 conde, graças à sua educação, era ótimo esgrimista, mas não contava com um braço firme para obedecer-lhe. Otávio, ao contrário, no corpo, do conde, sentia um vigor que jamais possuíra.
Olaf lançava golpes ousados, porém Otávio, mais frio e mais calmo, inutilizava-lhe os esforços. A cólera começava a apoderar-se do conde, que desejava, a todo custo, matar aquele corpo impostor, mesmo ao preço de permanecer para sempre Otávio de Saville. Sem meditar no perigo, tentou, num só golpe, atravessar o corpo e a alma do rival, mas este conseguiu desarmá-lo, atirando-lhe a espada distante.
A vida do marido de Prascávia ficou à mercê de Otávio, que, longe de aproveitar-se dá oportunidade, também lançou fora sua espada, e, fazendo um sinal às testemunhas, foi até o conde, que ficara atônito, e levou-o para dentro da mata.
– Por que não me matou? – indagou o conde lá sabe muito bem que o sol não deve projetar nossas duas sombras na arena e que a terra deverá tragar um de nós.
– Ouça-me com paciência – retrucou Otávio – Sua felicidade está em minhas mãos. Eu posso guardar para sempre este corpo, que lhe pertence. Se recomeçarmos a luta, eu o matarei. 0 conde Olaf Labínski é mais forte do que Otávio de Saville, que o senhor encarna. Sentirei muito em matá-lo, só em pensar a dor que causaria a minha mãe. Além disso, já deve saber que, durante três anos, morri de amores pela condessa Labinski, sem esperança alguma.
– Sim, eu sei… – respondeu Olaf, mordendo os lábios de ódio.
– Pois bem, para chegar até ela, recorri ao doutor Cherbonneau, que realizou, por mim, uma obra prodigiosa, um milagre de estarrecer todos os taumaturgos do mundo. Após adormecer a ambos, trocou-nos as almas. Milagre inútil! Prascóvia não me ama. No corpo do esposo, reconheceu a alma do amante.
Otávio falava com tamanho poder de convicção, e de suas palavras transparecia tanta mágoa, que o conde ficou comovido e acreditou no que dizia.
– Sou um homem enamorado, mas nunca um ladrão – acrescentou o moço – já que aquilo que mais desejo na terra não pode pertencer-me, não sei por que continuar de posse do que é seu. Vamos, dê-me o braço, mostremo-nos reconciliados, agradeçamos às testemunhas, levemos conosco o medico e retornemos ao laboratório mágico de onde saímos transfigurados. 0 velho brâmane saberá bem desmanchar o que fez.
Sustentando ainda seu papel de conde Labinski, Otávio disse às testemunhas:
– Senhores, meu adversário e eu nos reconciliamos. Nada para esclarecer bem as idéias como cruzar espadas.
Durante o percurso do Boís de Boulogne para a casa do médico, Otávio perguntou a este:
– Caro doutor, vou pôr à prova mais uma vez sua ciência. Precisa reintegrar nossas almas em seus respectivos domicílios naturais. Não lhe será difícil, dado seu poder sobrenatural.
– A operação, desta vez, será mais fácil – concordou Cherbonneau. – Os imperceptíveis filamentos que ligam a alma ao corpo ainda não tiveram tempo de se reajustarem. 0 senhor conde saberá perdoar a um pobre cientista, que não resistiu ao desejo de realizar uma difícil experiência. Considerem esta metamorfose apenas como um sonho e talvez, mais tarde, vocês me agradecerão por haverem sentido a estranha sensação de terem sido alma de dois corpos. A metamorfose é uma ciência antiga, mas, antes de praticá-la, as almas devem beber da taça do esquecimento, pois nem todos podem, como Pitágoras, se recordarem de haver assistido à guerra de Tróia.
– 0 benefício de restituir-me a individualidade equivale ao dano de haver-me expropriado dela – respondeu gentilmente o conde – Não quero que o Senhor de Saville leve a mal estas palavras, porém.
Otávio sorriu, mas pensava em suas esperanças frustradas, na sua derrota, e sentia que os liames da vida se lhe haviam novamente partido. Não desejava infligir a sua boa mãe a desolação de seu suicídio e procurava um meio de morrer tacitamente. Alma obscuramente sublime, sabia somente amar ou morrer.
Ao chegarem, o médico conduziu ambos para o recinto Olide fora efetuada a primeira transformação. Girou o disco da máquina elétrica, agitou as varetas, abriu as bocas do aquecedor, para aumentar a temperatura, leu algumas linhas dos exóticos papiros e, dali a minutos, disse aos dois jovens:
– Senhores, estou pronto! Podemos começar?
Enquanto procedia aos preparativos, perturbadoras reflexões assaltavam o cérebro do conde.
– Quando eu adormecer, que fará de minha alma, esse velho macaco? Não será um novo ardil? Contudo, a situação não pudera ser pior do que esta. Otávio podia ter-me morto, e ninguém o acusaria. Pensemos em Prascóvia, e nada de falsos temores. Tentemos a única solução para reconquistar minha esposa.
E tal como já havia feito Otávio, Olaf também segurou a vareta que Cherbonneau lhe apresentava. Fulminados pelos condutores metálicos repletos de fluidos magnéticos, os dois caíram num torpor tão profundo que qualquer um os tomaria por mortos. 0 médico cumpriu o ritual, pronunciou as poderosas sílabas e, logo, duas pequenas centelhas surgiram sobre os dois corpos imóveis, numa luz tremeluzente.
Ele reconduziu à sua primitiva morada a alma de Olaf Labinski, a qual obedeceu, com um rápido vôo, ao sinal do magnetizador. Mas, a alma de Otávio de Saville ia-se afastando lentamente do corpo do conde e, ao invés de retornar ao seu próprio, subia, subia, jubilosa de sentir. se livre, relutando em volver à sua prisão. Baltasar Cher, bonneau ficou tomado de infinita piedade por aquela Psique, que se debatia, palpitava hesitante, e perguntou a si mesmo se seria mesmo um beneficio deixá-la neste vale de lágrimas. Durante aquele minuto, a alma subia sempre e quando o médico, recordando-se de seu dever, repetiu, com acento misterioso, a palavra mágica e projetou um gesto de comando, a débil luz trêmula já estava fora de sua esfera de ação. Transpôs o vidro superior da janela e desapareceu.
Charbonneau cessou os esforços agora já inúteis e acordou Olaf. Este, ao ver-se num espelho, em seu verdadeiro invólucro, lançou um grito de alegria. Mal olhou para os despojos de Otávio e saiu correndo, após apertar a mão do médico.
0 velho encontrou-se a sós com o cadáver de Otávio.
– Diabos, abri a gaiola e o pássaro fugiu! Deve estar, agora, tão distante deste mundo que nem o próprio Brama Loguni. o apanharia. E aqui estou eu, com um cadáver nas mãos … Poderia dissolvê-lo num banho corrosivo, mas, depois …
E, aqui, uma idéia luminosa brilhou no espírito do médico. Apanhou uma pena e escreveu, velozmente, algumas linhas numa folha de papel, que guardou na gaveta da mesa. Eis o que escrevera:
– Não tendo parentes, nem colateraís, lego todos meus haveres ao Senhor Otávio de SaviI1è, a quem me liga particular afeição, deixando-lhe apenas a obrigação de pagar a quantia de cem mil francos ao hospital brâmane de Ceilão, para animais velhos, cansados ou enfermos, de passar rima renda vitalícia de mil e duzentos francos ao meu servo hindu e ao meu camareiro inglês e de remeter à Biblioteca Mazarina meu manuscrito das leis de Manu.
Este testamento, feito por um vivo a favor de um morto, parece uma das mais bizarras coisas de nossa história, mas logo ela se tornará clara.
0 médico tocou o corpo de Otávio de Saville, que o calor da vida ainda não abandonara. Viu, no espelho, seu rosto velho e rugoso, com ar de supremo desdém, e, fazendo em si mesmo o gesto de quem atira fora uma roupa velha, murmurou a fórmula de Brama Logun. Incontinenti, o corpo do doutor Baltasar caiu fulminado no tapete e o de Otávio se levantou, forte, ágil, vivaz.
Otávio Cherbonneau permaneceu algum tempo contemplando seus magros restos mortais, ressequidos, ossudos, lívidos, que, não mais escorados pela alma poderosa onde estiveram até então, exibiam os sinais de uma extrema senilidade e tomaram logo o aspecto cadavérico.
– Adeus, pobre farrapo humano, mísero invólucro que arrastei, durante setenta anos, por todas as partes do mundo. Você prestou-me bons serviços e deixo-o com alguma tristeza. Mas, neste jovem envoltório, que minha ciência saberá tornar robusto, ainda poderei trabalhar, estudar, ler mais palavras do grande livro, sem que a morte o feche à página mais atraente, dizendo: Basta!
Depois desta oração fúnebre, dirigida a si próprio, Otávio Cherbonneau saiu tranqüilamente, para ir tomar posse de sua nova residência.
No dia seguinte, revestido de sua nova -aparência, acompanhou seu antigo corpo ao cemitério, viu-se enterrar, ouviu, com ar compungido, muito bem simulado, os discursos que foram pronunciados à beira de sua cova, e nos quais se deplorava a irreparável perda que sofrera a ciência. Depois, voltou para a Rua São Lázaro, e esperou a abertura do testamento escrito a seu próprio favor.
Nos vespertinos, entre os faits divers, lia-se:
– 0doutor Baltasar Cherbonneau, bastante conhecido pela sua longa permanência na Índia, seus conhecimentos filológicos, suas curas maravilhosas, foi encontrado morto, ontem, em seu gabinete. 0 exame minucioso do cadáver eliminou inteiramente qualquer suspeita de crime. 0 Senhor Cherbonneau sucumbiu, sem dúvida, devido a excessivos trabalhos intelectuais, ou, talvez, por causa de alguma audaz experiência.
Dizem que um testamento ológrafo, descoberto na escrivaninha do médico, deixou à Biblioteca Mazarina preciosos manuscritos e constitui seu herdeiro universal um jovem pertencente a respeitável família: 0 Senhor 0. de S.”.

A Missa das Sombras (Anatole France)

Eis o que o sacristão da igreja de Santa Eulália, em Neuville-d’Aumont, me contou debaixo da latada do Cavalo-Branco, numa bela noite de verão, bebendo uma garrafa de velho vinho, à saúde de um morto muito abastado, que ele havia enterrado honrosamente naquela manhã mesma, sob um tecido cheio de belas lágrimas de prata.

“Meu finado e pobre pai (quem fala é o sacristão) foi, em vida, coveiro. Era de humor agradável, e isso sem dúvida decorria de sua profissão, porque se tem reparado que as pessoas que trabalham nos cemitérios possuem espírito jovial. A morte não os atemoriza absolutamente; jamais se preocupam com ela. Eu, que lhe estou falando, senhor, penetro num cemitério, à noite, tão serenamente quanto no caramanchão do Cavalo-Branco. E se, por acaso, encontro um espectro, não me inquieto absolutamente com isso, porque reflito que ele pode perfeitamente ir cuidar de seus negócios, da mesma forma que eu dos meus. Conheço os hábitos dos mortos e seu caráter. Sei a tal respeito coisas que os próprios sacerdotes ignoram. E o senhor ficaria surpreso se lhe contasse tudo que tenho visto. Mas, nem todas as verdades são próprias para serem contadas, e meu pai, que, todavia, gostava de narrar histórias, não revelou a vigésima parte do que sabia. Em compensação, repetia muitas vezes as mesmas narrativas e. ao que eu saiba, relatou bem umas cem vezes a aventura de Catarina Fontaine.

Catarina Fontaine era uma velha solteirona, que ele se lembrava de ter visto em criança. Não me surpreenderia se ainda houvesse na região, até, uns três velhos que ainda se recordem de ter ouvido falar a seu respeito, porque ela era muito conhecida e considerada, embora pobre. Morava numa esquina da Rua das Freiras, na torrezinha que o senhor ainda pode ver e que depende de um velho palacete arruinado, que dá para o jardim das Ursulinas. Há. nessa torrezinha, figuras e inscrições meio apagadas. 0 falecido pároco de Santa Eulália, Levasseur, dizia aí estar escrito, em latim, que “o amor é mais forte que a morte”. 0 que se refere, acrescentava, ao amor divino.

Catarina Fontaine vivia sozinha nessa pequena habitação. Fazia rendas. 0 senhor sabe que as rendas de nossa região eram, antigamente, muito afamadas. Não se conheciam parentes ou amigos seus. Dizia-se que amara, aos dezoito. anos, o jovem cavaleiro d’Aumont”, com quem noivara secretamente. Mas as pessoas de bem não queriam acreditar absolutamente nisso e diziam tratar-se de uma história que fora imaginada, porque Catarina Fontaine lembrava mais – uma dama, que uma operária, conservava ‘sob seus cabelos brancos os vestígios de uma grande beleza, possuía um ar triste e se lhe podia ver, na mão, um desses anéis em que o ourives colocara duas mãozinhas unidas e que era costume outrora os noivos trocarem. 0 senhor saberá, daqui a pouco, o que isso significa.

Catarina Fontaine vivia santamente. Freqüentava as igrejas e, todas as manhãs, qualquer que fosse o tempo, ia ouvir a missa de seis horas, em Santa Eulália.

Ora, uma noite de dezembro, quando ela estava deitada em seu pequeno quarto, foi despertada pelo toque dos sinos; certa de estarem eles anunciando a primeira missa, a piedosa senhora vestiu-se e desceu à rua, onde a noite era tão fechada que se não viam absolutamente as casas; claridade alguma era perceptível, no céu negro. E reinava tamanho silêncio nessas trevas – que nem penso um cão ladrava ao longe – que a pessoa se sentia completamente separada do mundo dos vivos. Mas Catarina Fontaine, que conhecia cada uma das pedras onde pisava e que podia ir à igreja de olhos fechados, alcançou, sem dificuldade, a esquina da Rua das Freiras com a Rua da Paróquia, no ponto onde se ergue a casa de madeira que exibe uma árvore de Jessé, esculpida numa volumosa trave. Tendo alcançado esse local, ela viu que as portas da igreja estavam abertas e que deixavam sair uma grande claridade de círios. Continuou a caminhar e, tendo entrado, encontrou-se numa reunião, que enchia a igreja. Ela, porém, não reconhecia nenhum dos presentes, e estava surpresa ao ver – aquelas pessoas trajadas de veludo e de- brocado, – plumas no chapéu e trazendo espada, à maneira dos tempos de antanho. Havia senhoras que seguravam longas bolsas de castão de ouro e damas com toucados de nadas, presos com um pente em diadema. Cavaleiros de e Luís davam a mão a essas senhoras, que escondiam atrás do leque um rosto pintado, do qual só era visível um sinal no canto dos olhos! E todos iam colocar-se em seu lugar, sem o menor ruído, e não se ouvia,, enquanto andavam, nem o som dos passos no lajedo, nem o roçagar dos tecidos.

As naves laterais enchiam-se de multidão de jovens artesãos, de casaco pardo. calções de fustão e meias azuis, que seguravam pela cintura raparigas lindíssimas, rosadas, que conservavam os olhos baixos. E, junto ás pias de água benta, camponesas de saia vermelha e corpinho de atar, sentavam-se no chão com a tranqüilidade dos animais domésticos . enquanto uns mocetões, de pé atrás delas, – alavam os olhos, rodando o chapéu nos dedos. E todas aquelas fisionomias silenciosas pareciam imobilizadas para sempre, no mesmo pensamento, suave e triste. Ajoelhada em seu lugar costumeiro, Catarina Fontaine viu o sacerdote caminhar para o altar, precedido por dois acólitos. Não reconheceu nem o sacerdote, nem os ajudantes. Começou a missa. Era uma silenciosa missa, na qual não se ouvia absolutamente o som dos lábios que se agitavam, nem o rumor da sinéta agitada inutilmente. Catarina Fontaine sentia-se sob o olhar e sob a influência de seu misterioso vizinho e, tendo olhado, sem quase volver a c- reconheceu o jovem cavaleiro d’Aumont-Cléry, que a havia amado e que morrera fazia quarenta e cinco anos. Reconheceu-o por um sinalzinho que ele possuía sob a Orelha esquerda e, principalmente, pelo sombreado dos longos cílios negros em seu ‘rosto. Vestia o traje de caça, com botões dourados, que ele usara no dia em que tendo-a encontrado no bosque de São Bernardo, roubara-lhe um beijo. Conservava a Sua Mocidade e seu bom aspecto. Seu sorriso ainda mostrava uma dentadura de jovem lobo. Catarina disse-lhe, baixinho:

Senhor, vós que fostes meu amigo e a quem dei outrora o que uma jovem possui de mais precioso, Deus vos tenha em sua graça! Possa ele me inspirar, finalmente, o pesar pelo pecado que cometi convosco: porque é verdade que, de cabelos brancos e próxima da morte, ainda não me arrependo de vos ter amado. Mas, finado amigo, meu belo senhor, dizei-me, quem são essas pessoas trajadas à maneira antiga, que estão assistindo aqui a esta silenciosa missa.

0 cavaleiro d’Aumont-Cléry respondeu com uma voz mais débil que um sopro e, não obstante, mais clara que o cristal:
– Catarina, esses homens e essas mulheres são almas do purgatório, que ofenderam a Deus, pecando, a nosso exemplo, pelo amor das criaturas, mas que nem por isso estão desligadas de Deus, porque seu pecado foi, a exemplo do nosso, sem maldade. Enquanto separadas daqueles que amavam sobre a terra, elas se purificam no fogo do purgatório, padecem as dores da ausência, e para elas esse sofrimento é o mais cruel. São tão infelizes que um anjo do céu se apiedou de seu martírio de amor. Com o consentimento de Deus, reúne, todos os anos, durante uma hora da noite, o amigo à amiga em sua igreja paroquial, onde lhes é permitido assistir à missa das sombras, segurando-se pela mão. Esta é a verdade. Se me foi permitido ver-te aqui antes de tua morte, Catarina, tal coisa não se realizou sem a permissão de Deus. E Catarina Fontaine lhe respondeu:
– Bem desejaria morrer para voltar a ser formosa como nos dias, meu finado senhor, em que te dava de beber na floresta.
Enquanto falavam assim, baixinho, um cônego muito idoso recolhia as esmolas e apresentava uma grande salva de cobre aos presentes, que ali deixavam cair sucessivamente moedas antigas, desde muito tempo fora de circulação: escudos de seis libras, florins, ducados, nobres com a rosa, e as moedas caíam em silêncio.

Quando a salva de cobre lhe foi apresentada, o cavaleiro depositou um luís, que não fez mais ruído que as outras moedas de ouro ou de prata.
Depois, o velho cônego parou em frente de Catarina Fontaine, que procurou em seu bolso, sem nele encontrar, um real. Então, não desejando recusar sua dádiva, tirou do dedo o anel que o cavaleiro lhe dera na véspera de sua morte, e atirou-o na concha de cobre. 0 anel de ouro, ao cair. ressoou como um pesado badalo de sino e, ao ruído atroador que ele fez, o cavaleiro, o cônego, o oficiante, os agitaram, as damas, os cavaleiros, toda a assistência desapareceu; os círios se apagaram e Catarina Fontaine ficou sozinha nas Trevas”.

Tendo concluído assim sua narrativa, o sacristão bebeu um grande copo de vinho, ficou um instante a meditar e depois prosseguiu, nestes termos:
“Contei-lhe esta história exatamente como a ouvi muitas vezes de meu pai e creio que é verdadeira, porque corresponde a tudo o que tenho observado das maneiras e dos costumes peculiares dos defuntos.
“Convivi com os mortos, desde minha infância, e sei que eles costumam voltar a seus amores.
– É por isso que os mortos avarentos vagam, à noite, nas proximidades dos tesouros que eles esconderam durante a vida. Montam boa guarda à volta de seu ouro; mas os cuidados que eles tomam, longe de lhes servirem, prejudicam-nos, e não é raro descobrir-se dinheiro enterrado na terra, pesquisando-se o sítio freqüentado por um fantasma. Da mesma forma, os finados maridos vêm atormentar, à noite, suas mulheres, casadas em segundas núpcias, e eu poderia indicar muitos que vigiaram melhor suas esposas depois de mortos do que o haviam feito em vida…
Esses são dignos de censura, porque, em boa justiça, os defuntos não deveriam ser ciumentos. Mas lhe estou Contando o que tenho observado. Por isso é que se deve ter cuidado quando se desposa uma viuva. Aliás, a história que lhe relatei tem sua comprovação no seguinte fato:
“Na manhã seguinte a essa noite extraordinária, Catarina Fontaine foi encontrada morta em seu quarto. E o padre de Santa Eulália encontrou, na salva de cobre que servia para o peditório, um anel de ouro, com duas mãos entrelaçadas. Aliás, não sou homem que conte histórias para fazer rir. E se pedíssemos outra garrafa de vinho?. . . “

Carlos Magno e o Anjo (Dumas Pai)

Por volta do ano 868, Carlos Magno tinha resolvido fazer construir um palácio que dominasse o Reno, e em 874 esse palácio estava construído. Era um magnífico edifício, metade fortaleza, metade castelo, sustido por cinqüenta colunas de mármore e cinqüenta colunas de granito. Estas colunas de mármore lhe tinham sido enviadas de Roma e de Ravena, pelo papa Estevão III, e as colunas de granito tinham sido tiradas de Adenwald. De modo que, vendo sua nova morada imperial tão lindamente acabada, ele resolveu convocar aí uma assembléia. Em conseqüência, os príncipes e os senhores das cercanias foram convocados para essa grande solenidade.

Na noite que precedeu a data em que a assembléia devia se realizar, quando o imperador acabava de adormecer, um anjo lhe apareceu e disse estas palavras: “Carlos, levanta-te e rouba”. Carlos Magno se levantou depressa e sentiu um perfume celestial no quarto. Mas, como as palavras que o anjo dissera lhe soavam mediocremente em relação com os preceitos de Deus e da Igreja, afigurou-se-lhe haver sonhado, e readormeceu.

Porém, mal o imperador tinha fechados os olhos, a mesma visão lhe apareceu de novo, e, com um rosto severo, como o de um mensageiro que tem direito de censurar, se não lhe obedecem às ordens, o anjo repetiu pela segunda vez, com voz grave, as palavras que tinha dito e que o imperador acreditava ter ouvido mal. Ele abriu depressa os olhos e viu o quarto pleno de uma luz celestial, que foi, pouco a pouco, enfraquecendo, e acabou por se extinguir completamente.

Entretanto, a ordem tinha sido tão estranha, que Carlos Magno hesitou ainda em obedecer, e, repousando a cabeça no travesseiro, dormiu uma terceira vez. Dessa feita ainda, o mesmo anjo apareceu, mas com um semblante ameaçador, e reiterou a mesma ordem, com uma voz tão imperiosa, que o imperador, que, entretanto, não era absolutamente fácil de se amedrontar, estremeceu de terror e se levantou sobressaltado. Dessa vez, não somente o mesmo celestial aroma se espalhava, e a mesma luz resplandecente brilhava, mas ainda o anjo estava de pé, junto ao seu leito, e não foi senão quando teve certeza de que o imperador não podia duvidar da realidade de sua presença, que ele estendeu suas asas de ouro e desapareceu. Dessa vez, Carlos Magno não teve nenhuma dúvida de que a ordem lhe vinha do céu, porque o mensageiro era belo demais para ser um enviado do inferno.

Carlos Magno não hesitou mais, então; levantou-se depressa, vestiu-se às apalpadelas, deplorando esse mandado do céu, que lhe ordenava começar tão tarde um serviço tão infame. Mas o imperador era como Abraão, decidido a tudo sacrificar a Deus, mesmo sua honra. Em conseqüência, revestiu-se da couraça, cingiu a espada e tomou o capacete na mão, como se fosse comandar uma dessas expedições guerreiras, pelas quais tinha tanta simpatia, quanto tinha repugnância por aquela; enfim, ele saiu de seu quarto e, parando numa galeria que dominava toda a região, fez uma pausa para decidir de que lado iria ser esse roubo que o embaraçava tanto realizar.

De resto, a noite estava sombria, como convém a tal expedição; mas, por inspiradora que fosse a escuridão, o imperador era de tal modo noviço na nova arte que lhe era preciso exercer, que, por mais que vagueasse no sentido do comprimento e no da largura, depois de quase uma hora, ainda não lhe tinha chegado a menor idéia, quando, de súbito, percebeu que acabavam de lhe furtar o capacete que ele tinha pousado na balaustrada da galeria. 0 imperador procurou bem de todos os lados, olhou dentro e fora; mas toda a busca foi inútil: o capacete tinha desaparecido.

Tanto o furto era audacioso, como o ladrão era hábil; e tanto mais o ladrão era hábil, mais, em semelhante circunstância, ele podia dar um bom conselho ao imperador. Assim, pareceu-lhe que esse ladrão era um novo favor do céu que, vendo seu embaraço, tinha tido piedade dele. Em conseqüência, levantou a voz:

– Que aquele que me furtou o capacete – gritou ele – se apresente diante de mim, e, sob minha palavra de rei, em lugar de ser castigado, ele receberá uma recompensa de cem ducados.

Logo, uma explosão de riso agudo retiniu na própria galeria, e de sob a tapeçaria que recobria uma mesa, Carlos Magno viu sair seu anão, que se aproximou e lhe estendeu o capacete, a fim de que ele jogasse ali dentro a soma prometida.

– Ah! és tu, infame ladrão – disse Carlos Magno; – eu deveria ter visto que ninguém, senão tu, seria capaz de semelhante golpe; e deveria ordenar que te dessem cem vergastadas, em lugar de te prometer imprudentemente que daria cem ducados.

– Sim, mestre – disse o anão -, teria sido mais econômico, é verdade; mas um homem honesto não tem senão uma palavra. Eis o capacete; onde estão os cem ducados?

– Tu os terás de pronto, quando me tiveres dado um bom conselho.

– Os cem ducados – disse o anão – foram prometidos pelo capacete e não pelo conselho; dá-me os cem ducados pelo capacete e terás o conselho de graça.

Carlos Magno estendeu a mão para segurar o engraçado que lhe falava com tanta ousadia; mas o anão viu o movimento, e, rápido como o pensamento, saltou por sobre a balaustrada, com a destreza e a agilidade de um macaco, pôs-se a subir ao longo de uma das colunas, e não parou senão quando ficou a cavalo numa das folhas do capitel. Lá, ele se pos a cantar uma canção de que compunha, a um só tempo, a música e as palavras. Esta canção dizia:

“Eu já tenho um capacete, um belo capacete, um capacete encimado por uma coroa real: um capacete que me custa cem ducados”.
Eu vou tratar de obter pelo mesmo preço uma couraça e uma espada, e então me farei armar cavaleiro, por algum imperador que jamais tenha faltado à sua palavra”.
“Depois, quando eu tiver sido armado cavaleiro, terei uma grande espada e uma boa lâmina, ir-me-ei por montes e vales, fazendo justiça, porque nos países da Germânia e da França justiça é de grande necessidade que seja feita”.
“Mas, olá! onde encontrarei, para me armar cavaleiro, um imperador que não tenha jamais faltado à sua palavra?”

0 ruído de uma bolsa que tombava nas lajes interrompeu o improviso do cantor; o anão compreendeu que a lição de moral tinha produzido seu efeito, desceu da cornija e foi apanhar a bolsa, com um olho nela e outro no imperador.

– Vamos, vem aqui, tolo – disse Carlos Magno -, e não temas. Preciso de ti.

– Ah! agora – disse o anão -, se tens necessidade de mim, é outra coisa, e não tenho mais medo.

– Eu desejaria roubar – disse Carlos Magno.

– Péssima profissão – disse o anão -, sobretudo quando se dá o caso com pessoas que prometem e que não sustentam; também, atende-me, uma vez que tiveste a infelicidade de ter nascido homem honrado, permanece honrado.

– Eu te digo que quero roubar – disse Carlos Magno com um tom que provava que ele começava a se cansar das reflexões filosóficas do seu interlocutor.

– Ah! então – disse o anão –, se é uma vocação decidida, não há nada a dizer. Que queres roubar?

– Ah! É justamente o que não sei – disse Carlos Magno. – Porém quero roubar alguém, isto imediatamente, esta noite.

– Diabo! disse o anão. Pois está bem! Roubemos.

– Mas roubar quem? – perguntou Carlos Magno.

– Presta atenção – disse o anão, estendendo a mão. – Vês esta pobre cabana?

– Sim – disse o imperador.

– Pois bem! Trata-se de um bom golpe a dar. Não pobre como te pareça, ela contém hoje cem florins; há perto de dez anos o camponês que a habita trabalha todos os dias desde às cinco horas da manhã até às oito da noite, de maneira que, à força de remover a terra, pôs de lado esta soma. A porta fecha mal, o homem tem sono pesado, tu vês que é fácil de roubar.

– Miserável! – gritou Carlos Magno. – Tu queres que eu vá tomar a um desgraçado o fruto de dez anos de trabalho, um dinheiro todo molhado com seu suor!

– Eu! – disse o anão – eu não quero nada; tu me pedes um conselho, eu to dou, eis tudo.

– Um outro, um outro! – gritou Carlos Magno.

– Vês aquela casa de campo? – disse o anão, estendendo o dedo em outra direção.

– Vejo-a – respondeu o imperador.

– É um comerciante rico. Não são florins que tu encontrarás em casa dele, são ducados, e não os contarás por centenas, mas por milheiros.

– E sem dúvida – disse Carlos Magno – foi praticando a usura e vendendo com pesos falsos que ele adquiriu semelhante fortuna.

– Não – disse o anão -, não, foi fazendo para ele, como para os outros, cálculos rigorosamente exatos, que sua probidade tornou-se proverbial, e, por acaso, para aquele a honestidade trouxe o que traz para outros a velhacaria.

– Como! Patife! – disse o imperador. – E é justamente um homem que faz fortuna de maneira tão honesta que queres que eu arruíne?

– Eu não quero nada – disse o anão. – És tu, ao contrário, que queres roubar. Eu te digo quais são aqueles que têm o dinheiro, eis tudo.

– Sim, sem dúvida, eu quero roubar – disse o imperador -, mas não o pobre trabalhador, não o comerciante industrioso; preferia roubar algum abade, engordado pelo repouso, enriquecido com o dízimo, que não tenha jamais feito nada senão dormir, comer e beber. Eis quem eu queria roubar, se tu queres saber.

– Peste! para um principiante – disse o anão -, não está mal raciocinado; mas, roubando tal homem, seria o mesmo que roubar os pobres, porque ele saberia bem se fazer pagar, no dia seguinte, pelo povo, o dobro do que tu lhe tivesses tomado.

– Pois bem; então – disse o imperador -, eu queria roubar qualquer um desses maus cavaleiros, que não vivem senão de pilhagens e ladroeiras; que traem aqueles que deveriam servir, e que oprimem os que deveriam defender.

– Ah! então é outra coisa, porque não te explicaste em seguida? – disse o anão. – Eu tenho o que te serve. Vês aquele castelo?

– Sim – disse Carlos Magno.

– Pois bem! É do sr. Harderic, o maior malfeitor que existiu sobre a terra, desde o rei Atila e o falso profeta Maomé.

– Tanto melhor – disse o imperador.

– Mas lá, a coisa não será fácil. Ele tem o sono leve e a mão pesada. Haverá golpes para receber.

– Tanto melhor, tanto melhor! – disse o imperador.

– Pois bem! Vai colocar outra couraça, uma couraça sombria como a noite na qual é preciso que deslizemos. Toma um punhal curto, em lugar dessa longa espada. A espada é uma arma do dia, para atingir de longe. À noite não se golpeia senão o que se toca. Têm-se os olhos na mão, e não é preciso que os olhos estejam muito longe da lâmina. Vai e volta, espero aqui, contando os ducados para ver se minha conta está certa.

0 imperador não esperou que lhe dissesse duas vezes; tornou a entrar em casa, e voltou logo, coberto com uma cota de malhas de aço brunido, que lhe tomava o corpo como um gibão e se lhe encaixava na cabeça como um capuz. Ele tinha mais, na cintura uma faca larga, curta e cortante, como o gládio romano. 0 anão o examinou dos pés à cabeça, e fez um sinal de aprovação.

– Então – disse Carlos Magno -, a caminho.

– A caminho – disse o anão.

E saíram os dois do palácio; e na estrada, a mais direta, isto é, atravessando as terras, avançaram para o castelo de Harderic.

Caminhando, Carlos Magno encontrou um marco, que servia para delimitar um campo; arrancou-o da terra e colocou ao ombro.

– Que diabo fazes tu? – disse o anão.

– Acreditas que encontraremos a porta aberta? – perguntou o imperador.

– Não – respondeu o anão.

– Pois então! Eu levo com que arrombá-la.

0 anão desatou a rir.

– Isto – disse ele -, e à primeira pancada que bateres, a guarnição inteira estará de pé, e então que encontrarás tu para apanhar? Algum frango assustado, que terá escapado para os fossos. Eu te acreditava mais forte, mestre!

– 0 que é preciso então fazer? – perguntou Carlos Magno, meio confuso com a sua inexperiência.

– Isto me concerne – disse o anão.

Carlos Magno deixou-o tomar seu marco e continuou o caminho sem dizer uma única palavra.

Chegando à porta, como tinha pensado Carlos Magno, encontraram-na fechada. Então ele olhou para seu anão, como para lhe perguntar o que era preciso fazer; o anão lhe fez sinal para se manter o mais perto da porta que lhe fosse possível; e, lançando-se sobre uma figueira que crescia nos fossos, e da figueira agarrando-se à muralha, ele subiu, enfiou sucessivamente as mãos e os pés nos intervalos das pedras, até as seteiras, e desapareceu. Um instante depois, Carlos Magno ouviu uma chave ranger na fechadura: a porta se moveu pesadamente, mas sem ruído, depois permaneceu entreaberta justamente o necessário para deixar passar um homem. Carlos Magno passou; o anão fechou a porta com as mesmas precauções que tinha tomado para abri-la, e os dois ladrões se acharam dentro do pátio do castelo.

– Eis aqui vosso caminho – disse o anão, mostrando a Carlos Magno a escada que conduzia aos aposentos do castelo , e eis o meu – continuou, mostrando a cavalariça.

– Por que não vens comigo? – perguntou Carlos Magno.

– Porque eu também tenho meu golpe para dar – disse o anão.

E, pondo-se a correr de quatro patas como um cão, a fim de não ser reconhecido por nenhuma criatura humana, no caso de ser visto, ele atravessou o pátio e entrou na baia.

Essa confiança do anão excitou o amor-próprio de Carlos Magno; ele subiu a escada o mais suavemente que pode, entrou nos aposentos e, graças a um raio de luar que apareceu no céu justamente nesse momento, ele chegou até o quarto situado antes daquele em que Harderic dormia com sua mulher. Chegando lá, estendeu a mão para ver se não encontraria nada que pegar, e sua mão caiu sobre um cofre rodeado de ferro, que lhe pareceu dever conter dinheiro ou jóias. Nesse momento o cavalo do castelão relinchou tão violentamente, que Carlos Magno estremeceu.

– Ei – disse Harderic, despertando, sobressaltado. – Que se passa em minha cavalariça?

– Nada – respondeu sua mulher -, é o teu cavalo que relincha.

– Meu cavalo não tem o costume de relinchar assim – disse Harderic -, é preciso que alguém que ele não conheça tente desatá-lo.

– E quem pensas que quer soltar teu cavalo?

– Quem? Por Deus! Um ladrão!

E, a essas palavras, Carlos Magno escutou Harderic descer do leito e tomar a espada. Então ele se afastou e, graças ao raio de luar, viu-o passar. Carlos Magno permaneceu num canto, amaldiçoando o anão, e mantendo, em todo caso, a mão sobre a guarda da espada. Ao fim de um instante, o castelão voltou.

– E então? – disse-lhe a mulher. – Que havia na cavalariça?

– Não havia nada – respondeu Harderic -, mas há três ou quatro noites que não consigo dormir.

– E tu não podes dormir porque meditas, sem dúvida, alguma coisa.

– É verdade disse o castelão.

– E que meditas tu?

– Posso te dizer agora – respondeu Harderic – porque o tempo em que nosso projeto deve se realizar está quase chegando; amanhã eu e onze outros condes, barões e senhores, devemos matar o rei Carlos, que nos impede de ser os donos de nossos domínios; estamos cansados de suportar isso, e não o queremos mais sofrer.

– Ah! Ah! Ah! – fez baixinho Carlos Magno.

– Oh! meu Deus, meu Deus! – disse a castelã, desolada. – E se vosso conluio malogra, vós estais perdidos.

– Impossível – disse o castelão -, estamos ligados entre nós por juramentos os mais terríveis; amanhã, convocados para a assembléia, como todos os outros, nós entramos no palácio, sem despertar nenhuma suspeita; estaremos bem armados, e ele não estará, cercaremos seu trono, bater-lhe-emos e ele cairá.

– E quais são os conjurados?

– É o que não posso dizer, mesmo a ti; mas seu compromisso assinado com seu sangue está aqui no quarto ao lado, fechado no cofre que se acha sobre a mesa.

Carlos Magno alongou a mão, o cofre estava bem ali onde havia indicado Harderic.

– Está bem – disse a castelã. – Deus ajude que tudo isto corra bem.

– Amém! disse o castelão.

E ele voltou a dormir: durante algum tempo ainda, ouviram-se os suspiros da castelã, mas bem depressa sua respiração doce e igual se misturou aos roncos do esposo; os dois tinham retomado o sono interrompido.

Então Carlos Magno apanhou o cofre, pô-lo embaixo do braço, atravessou os aposentos, desceu a escada e chegou ao pátio. Viu lá seu anão que se debatia sobre o cavalo de guerra do castelão, o qual relinchava e escavava o solo, como se julgasse indigno dele obedecer a um tão miserável escudeiro. Mas então o bom imperador se atirou sobre ele, e mal o cavalo sentiu o peso de um homem, e compreendeu com que cavaleiro exercitado tinha que se haver, tornou-se doce como um cordeiro. Então Carlos Magno pegou o anão pela gola de sua roupa, pô-lo na garupa e partiu num grande galope.

Chegando ao castelo, Carlos Magno abriu o cofre que tinha roubado, e aí encontrou o compromisso dos doze conjurados, assinado com sangue. Então fez despertar sua gente e ordenou que num dos pátios do palácio se construíssem onze forcas de proporções ordinárias e uma décima segunda mais alta que as outras, e no alto de cada um dos doze patíbulos fez gravar numa tabuleta o nome de um dos doze conjurados, e sobre a forca mais alta o nome de seu chefe Harderic.

Depois, como tinha duas entradas no palácio, ordenou que se recebessem todos os outros barões convocados por uma porta e em um outro pátio, e que não recebessem senão os conspiradores pela porta e no pátio das forcas.

E aconteceu assim como Carlos Magno tinha ordenado, tão bem, que, quando viu todos os barões reunidos, relatou-lhes a conspiração tramada contra ele, mostrou-lhes o compromisso assinado com o sangue dos doze conjurados, e lhes perguntou que pena tinham merecido: e todos os barões, a uma só voz, disseram que tinham merecido a morte.

Então Carlos Magno fez abrir as janelas que davam para o segundo pátio, e os barões viram os doze conspiradores pendurados nas doze forcas.

E, em memória da aparição celestial, à qual ele devia a vida, denominou o palácio onde isto aconteceu “Ingelheim” ou a Casa do Anjo.

Extraído do blog Contos do Covil

O Horla (Guy de Maupassant)

8 de maio. Que dia lindo! Passei a manhã toda deitado na relva, na frente de casa, sob o enorme plátano que a encobre toda. Gosto desta região, de viver aqui, pois aqui estão velhas recordações, aquelas raízes profundas e delicadas que prendem o homem ao solo onde seus antepassados nasceram e morreram, que o ligam às idéias e costumes do lugar e também, à comida às expressões locais, ao cheiro da terra do próprio ambiente.
Adoro a casa onde cresci. Das janelas, vejo o Sena, correndo ao lado do jardim, no outro lado da estrada, quase atravessando minhas terras, o grandioso e extenso Sena, que vai a Rouen e a Havre, apinhado de barcos que passam para lá e para cá.Lá embaixo, a esquerda, está a grande cidade de Rouen, com seus telhados azuis e pontiagudas torres góticas. Estas últimas são incontáveis, largas ou estreitas, dominadas pela espiral da catedral e cheias de sinos que tocam no ar azul de belas manhãs, enviando até minha casa seu doce e distante tinido, canção de metal que a brisa impele em minha direção, ora forte, ora débil, conforme a intensidade do vento.Como a manhã estava agradável!Lá pelas onze horas, uma longa fila de barcos. puxados por um rebocador do tamanho de uma mosca, que mal conseguia resfolegar enquanto soltava espessa fumaça, passou em frente a meu portão.Depois de duas escunas inglesas. com a bandeira vermelha ondulando ao vento, passou um magnífico barco brasileiro de três mastros, todo branco, muito limpo e lustroso. Saudei-o, sem saber bem por quê, a não ser que a visão do navio deu-me grande prazer.

12 de maio. Tenho estado um pouco febril nos últimos dias e sinto-me doente, ou antes, desalentado.De onde vêm essas misteriosas influências que transformam a alegria em desânimo e a autoconfiança em acanhamento? Poder-se-ia quase dizer que o ar, o ar invisível, está cheio de forças incompreensíveis, cuja presença misteriosa temos de suportar. Acordo com a melhor disposição, sentindo vontade de cantar. Por quê? Desço até a beira da água e, de repente, depois de andar um pouco, volto para casa infeliz, como se uma desgraça estivesse esperando por mim. Por quê?Seria um calafrio que me passou pela pele e abalou meus nervos, deixando-me desanimado? Seria a forma das nuvens, a cor do céu ou dos objetos ao redor de mim tão inconstante, que perturbou meus pensamentos, quando passaram diante de meus olhos?Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que tocamos sem querer, tudo o que manejamos sem sentir, tudo o que encontramos sem ver claramente, tem rápida, surpreendente e inexplicável influência sobre nós e nossos sentidos e, através destes, em nossas idéias e até em nosso coração.Como esse mistério do Invisível é profundo! Não podemos compreendê-lo com nossos sentidos miseráveis, olhos incapazes de perceber o que for muito grande ou muito pequeno, esteja muito perto ou muito longe: nem os habitantes de uma estrela, nem os de uma gota de água. Nem com ouvidos que nos enganam, pois transmitem-nos as vibrações do ar em notas sonoras. São fadas que realizam o milagre de mudar essas vibrações em sons e, por meio dessa metamorfose, fazem surgir a música que transforma o silencioso movimento da natureza… nem com o sentido do olfato, menos aguçado que o de um cão… nem com o sentido do paladar, que mal percebe a idade do vinho!Como seria bom se tivéssemos outros órgãos que realizassem outros milagres a nosso favor! Quantas coisas novas poderíamos descobrir a nossa volta!

16 de maio. Positivamente, estou doente! E estava tão bem no mês passado! Estou com febre, horrivelmente febril, ou melhor, em um estado de debilitação febril, que faz a alma sofrer tanto quanto o corpo. Tenho, continuamente, a horrível sensação de perigo iminente, o receio de alguma futura desgraça ou da morte próxima. Pressentimento que é, sem dúvida, o acesso de uma doença ainda desconhecida, que germina na carne e no sangue.

17 de maio. Acabo de consultar o médico, pois não conseguia mais dormir. Ele disse que o pulso estava rápido, os olhos, dilatados, os nervos, à flor da pele, mas que não encontrou sintomas alarmantes. Devo tomar algumas duchas e brometo de potássio.

25 de maio. Nenhuma mudança! Meu estado é realmente estranho. Quando a noite se aproxima, sou invadido por uma incompreensível sensação de intranqüilidade, como se a noite escondesse alguma catástrofe ameaçadora. Janto às pressas e então procuro ler, mas não compreendo as palavras e mal distingo as letras. Caminho de um lado para outro da sala, acabrunhado por uma sensação confusa de medo irresistível, medo do sono e medo da cama.Lá pelas dez horas subo ao quarto. Assim que entro dou duas voltas à chave e ponho a tranca na porta. Tenho medo… de quê? Até há pouco, não tinha medo de nada… Abro os armários e olho embaixo da cama. Escuto… o quê? Não é estranho que uma simples sensação de mal-estar, a má circulação, talvez a irritação de um filamento nervoso, uma ligeira congestão, um pequeno distúrbio no imperfeito e delicado funcionamento de nosso mecanismo vivo, possa transformar o mais despreocupado dos homens em melancólico e em covarde o mais valente?Vou para a cama e espero o sono como um homem que espera o carrasco. Com medo, espero sua chegada, o coração bate e as pernas tremem e todo o corpo tem calafrios debaixo do calor das cobertas, até que adormeço de repente, como alguém que mergulhasse em uma poça de água estagnada a fim de afogar-se. Não o sinto vir como antigamente, este traiçoeiro sono que está perto de mim, vigiando-me e que vai agarrar-me pela cabeça, fechar meus olhos e aniquilar-me.Durmo… bastante tempo… talvez duas ou três horas… Então um sonho… não… um pesadelo apossa-se de mim. Sinto que estou na cama, dormindo… Sinto e sei disso… e sinto também que alguém se aproxima, olha-me, toca-me, sobe em minha cama, ajoelha-se sobre meu peito, toma meu pescoço entre as mãos e o aperta… aperta com toda a força a fim de estrangular-me.Luto, dominado por aquela terrível sensação de impotência que nos paralisa durante os sonhos. Tento gritar… mas não consigo. Quero mover-me… não consigo. Faço os mais violentos esforços, respiro fundo, para tentar virar-me e derrubar essa criatura que está me esmagando, me sufocando… não consigo!E, então, acordo de repente, tremendo e banhado em suor. Acendo uma vela e descubro que estou sozinho. Depois dessa crise, que acontece todas as noites, finalmente caio no sono e durmo em paz até de manhã.

2 de junho. Meu estado de saúde piorou. O que está acontecendo comigo? O brometo não está adiantando de nada e as duchas não produzem resultado. As vezes, a fim de ficar bem cansado, embora já esteja bastante fatigado, vou dar um passeio na floresta de Roumare. Costumava pensar que o ar fresco, leve e suave, impregnado do cheiro de ervas e folhas, instilaria sangue novo em minhas veias e daria nova energia a meu coração. Enveredava por uma larga estrada de caça e então seguia na direção de La Bouille, por uma estreita trilha entre duas fileiras de árvores de uma altura descomunal, que formavam um espesso teto de um verde quase negro entre o céu e eu.Um repentino arrepio percorreu-me a espinha, não de frio, mas um estranho arrepio de agonia. Apressei o passo, apreensivo por estar sozinho na floresta, estupidamente amedrontado sem razão, por causa da completa solidão. De repente pareceu-me estar sendo seguido, que havia alguém nos meus calcanhares, perto, bem perto de mim, próximo o bastante para tocar-me.Voltei-me precipitadamente, mas estava só. Nada vi atrás de mim, exceto a larga trilha reta, vazia, cercada de altas árvores, horrivelmente vazia; à minha frente também se estendia a perder de vista, parecendo sempre a mesma, terrível.Fechei os olhos. Por quê? Comecei a rodar como pião, bem depressa. Quase caí e abri os olhos: as árvores dançavam ao meu redor e a terra girava. Fui obrigado a sentar-me. E, então, que idéia estranha! Não sabia de mais nada. Saí para a direita e voltei à avenida que me conduzira ao centro da floresta.

2 de junho. Passei uma noite horrível. Vou partir por algumas semanas, pois sem dúvida uma viagem me fará bem.

2 de julho. Voltei, completamente curado e ainda fiz ótima viagem. Fui ao Mont-Saint-Michel, que ainda não conhecia.Que vista, quando se chega a Avranches como eu, quase no fim do dia! A cidade está sobre uma colina e fui conduzido ao jardim público, nos limites da cidade. Dei um grito de assombro! Uma enorme baía estendia-se diante de mim, até onde os olhos alcançavam, entre duas colinas que a neblina impedia de serem vistas. No meio dessa imensa baía, sob um claro céu dourado, erguia-se uma estranha colina, sombria e pontiaguda, no meio da areia. O sol acabara de se pôr e, no horizonte ainda flamejante, aparecia o contorno do fantástico rochedo com um fantástico monumento em seu cume.Quando raiou o dia, fui para lá. Como na noite anterior, a maré estava baixa e vi diante de mim a admirável abadia, cada vez mais próxima. Depois de andar algumas horas, alcancei a enorme massa de rochas sobre a qual se localiza a cidadezinha, dominada pela grande igreja. Depois de subir a rua íngreme e estreita, entrei no mais admirável edifício gótico já construído para Deus na terra, grande como uma cidade, cheio de salas de teto baixo que parecem enterradas sob abóbadas e de grandiosas galerias sustidas por delicadas colunas.Entrei nessa gigantesca jóia de granito, leve como renda, coberta de torres, com esguios campanários de escadas em caracol, que erguem as estranhas cabeças eriçadas de quimeras, de demônios, de animais fantásticos, com flores monstruosas, para o céu azul durante o dia e negro à noite, e são ligados por arcos finamente entalhados.Quando cheguei ao ponto mais alto da abadia, disse ao monge que me acompanhava:Padre, como devem ser felizes aqui! Ao que respondeu:- Venta muito, monsieur!Começamos a conversar, enquanto assistíamos à subida da maré, que corria pela areia, e parecia cobri-la com uma couraça de aço.O monge contou-me histórias, todas as velhas histórias do lugar, lendas, nada mais que lendas.Uma delas impressionou-me bastante. Os camponeses, aqueles que fazem parte do lugar, dizem que à noite podem-se ouvir vozes nas areias e depois duas cabras balindo, uma com voz forte, a outra com voz fraca. As pessoas incrédulas afirmam que é apenas o grito das aves do mar, que às vezes parecem balidos e, outras, lamentos humanos. Todavia, pescadores que se atrasaram para voltar juram ter encontrado um velho pastor vagando, entre uma maré e outra, pelas areias ao redor da cidadezinha. Traz a cabeça totalmente coberta por um manto e é seguido por um bode com cara de homem e uma cabra com cara de mulher, ambos com longos cabelos brancos, falando sem parar e discutindo em uma língua desconhecida. Calam-se de repente e começam a balir a plenos pulmões.- Acredita nisso? – perguntei ao monge.- Não sei ao certo – retrucou.Continuei:- Se existem outras criaturas na terra além de nós, como ainda não as conhecemos e por que vocês ainda não as viram? Como é que eu ainda não as vi?Respondeu:- Será que vemos a centésima milésima parte do que existe? Olhe aqui, aí está o vento, a maior força que existe na natureza, que derruba homens e edifícios, destrói penhascos e joga grandes navios contra os rochedos, o vento que mata, que assobia, que suspira, que ……. já o viu? Pode vê-lo? Apesar disso, no entanto, ele existe!Calei-me diante desse raciocínio tão simples. Aquele homem era um filósofo ou, talvez, um tolo. Não saberia dizer qual, exatamente, por isso fiquei quieto. O que dissera, eu já havia pensado muitas vezes.

3 de julho. Dormi mal. Certamente há alguma influência febril aqui, pois meu cocheiro está sofrendo exatamente como eu. Ontem, quando voltei para casa, notei que estava muito pálido e lhe perguntei:- O que tem, Jean?- Não consigo repousar, e as noites devoram meus dias. Desde que partiu, monsieur, parece que estou enfeitiçado. Entretanto, os outros criados estão todos bem. Estou com muito medo de ter outro ataque.

4 de julho. Estou de novo doente, pois meu antigo pesadelo voltou. A noite passada, senti alguém inclinando-se sobre mim e sugando minha vida por entre meus lábios. Sim, estava sugando-a de minha garganta, como uma sanguessuga. Depois, levantou-se, saciado, e acordei, tão cansado, esmagado e fraco que não conseguia mover-me. Se isso continuar por mais alguns dias, viajarei novamente.

5 de julho. Será que estou louco? O que aconteceu a noite passada é tão estranho que perco a cabeça só de pensar!Trancara a porta, como faço todas as noites, e, tendo sede, bebi meio copo de água, notando, por acaso, que a garrafa de água estava cheia até o gargalo.Fui para a cama e passei por um de meus sonhos terríveis, do qual acordei cerca de duas horas depois, com um choque ainda maior.Imagine um homem adormecido sendo assassinado e que acorda com uma faca no pulmão e cuja respiração está arquejante, coberto de sangue, que não consegue mais respirar, está quase morrendo e não compreende… aí está.Tendo recuperado os sentidos, senti sede novamente, por isso acendi uma vela e fui até a mesa onde estava a garrafa de água. Ergui-a e virei-a sobre o copo, mas nada saiu. Estava vazia! Completamente vazia! A princípio não consegui entender absolutamente nada. Mas, de repente, tive uma sensação tão horrível que precisei sentar-me, ou melhor, caí numa cadeira! Saltei da cadeira e olhei à volta, sentei-me de novo, tomado de espanto e medo, em frente à garrafa de cristal. Encarava-a, tentando adivinhar, e minhas mãos tremiam. Alguém bebera a água, mas quem? Eu? Eu, sem dúvida. Só poderia ter sido eu. Nesse caso era sonâmbulo. Vivia, sem saber, a misteriosa vida dupla que nos faz pensar que talvez existam duas criaturas dentro de nós ou que um ser estranho, incompreensível e invisível, anima nosso corpo cativo que o obedece como a nós e mais do que a nós, quando nossa alma está entorpecida.Quem entenderá minha terrível agonia? Quem entenderá a emoção de um homem, são de espírito, completamente acordado, cheio de bom senso, que procura através do cristal de uma jarra um pouco de água que desapareceu enquanto dormia?Fiquei nessa posição, até o dia surgir, sem me arriscar a voltar para a cama.

6 de julho. Estou ficando louco. Mais uma vez todo o conteúdo da jarra de água foi tomado durante a noite… ou melhor, eu o bebi!Mas será que sou eu? Sou eu? Quem poderia ser? Quem? Oh, meu Deus! Estou ficando louco? Quem me salvará?

10 de julho. Acabo de passar por surpreendentes experiências. Decididamente, estou louco! Todavia…A 6 de julho, antes de ir para a cama, coloquei vinho, leite, água, pão e morangos sobre a mesa. Alguém bebeu, eu bebi, toda a água e um pouquinho do leite, mas o vinho, o pão e os morangos não foram tocados.Em 7 de julho, repeti a mesma experiência, com os mesmos resultados, e em 8 de julho não deixei água nem leite, e nada foi tocado.Por fim, 9 de julho, deixei sobre a mesa apenas água e leite, tomando o cuidado de envolver os frascos em musselina branca e de amarrar as tampas. Esfreguei os lábios, a barba e as mãos com grafita e me deitei.Um sono irresistível se apossou de mim, seguido de um terrível despertar. Não me movera, não havia marcas de grafita nos lençóis. Corri até a mesa. A musselina ao redor dos frascos estava intacta. Desamarrei as tampas, tremendo de medo. Toda a água fora bebida, assim como o leite! Meu Deus! Preciso partir imediatamente para Paris.Paris,

12 de julho. Devo ter perdido a cabeça nos últimos dias. Devo ser joguete de minha imaginação exacerbada, a menos que seja realmente sonâmbulo ou que tenha estado sob o poder daquelas influências até agora sem explicação, chamadas sugestões. Em todo caso, meu estado mental chegava às raias da loucura, e vinte e quatro horas em Paris bastaram para restaurar meu equilíbrio.Ontem, depois de resolver alguns negócios e fazer algumas visitas que instilaram em minha alma ar novo e revigorante, terminei a noite no Théâtre-Français. Estava sendo apresentada uma peça de Alexandre Dumas, filho, e sua imaginação ativa e poderosa completou minha cura. É certo que a solidão é perigosa para as mentes ativas. Precisamos de homens que saibam pensar e conversar. Quando ficamos sozinhos por muito tempo, povoamos o espaço com fantasmas.Pelos bulevares, voltei ao hotel muito bem-humorado. No meio dos empurrões da multidão, pensava, não sem uma ponta de ironia, em meus terrores e conjeturas da semana anterior, porque acreditara (sim, acreditara) que uma criatura invisível vivia debaixo de meu teto. Como nosso cérebro é fraco, como se assusta à toa e é induzido a erro por um pequeno fato incompreensível! Em vez de dizer apenas: “Não entendo porque não conheço a causa”, imaginamos imediatamente mistérios terríveis e forças sobrenaturais.

14 de julho. Festa da República. Passeei pelas ruas, entusiasmado com os fogos e as bandeiras, como uma criança. Ainda assim, é tolice ficar alegre em data marcada, obedecendo a um decreto do governo. O populacho é um imbecil rebanho de carneiros, de uma paciência estúpida ou com uma revolta feroz. Digam-lhe: “Divirtam-se”, e o povo se diverte. Digam-lhe: “Vão lutar com o vizinho”, e o povo vai e luta. Digam-lhe: “Votem pelo imperador”, e o povo vota pelo imperador. Então digam-lhe: “Votem pela República”. e o povo vota pela República. Os que dirigem o povo também são estúpidos, só que, ao invés de obedecer aos homens, obedecem aos princípios que só podem ser estúpidos, estéreis e falsos, pela simples razão de serem princípios, isto é, idéias consideradas como certas e imutáveis, neste mundo, onde não se tem certeza de nada, já que a luz é uma ilusão, já que o barulho é uma ilusão.

16 de julho. Ontem vi uma coisa que me deixou muito preocupado.Jantava em casa de minha prima, Mme. Sable, cujo marido é coronel no 76° Batalhão de Caçadores, em Limoges. Estavam lá duas jovens, uma delas casada com um médico, Dr. Parent, especialista em doenças nervosas e que dá muita atenção às notáveis manifestações causadas pela influência do hipnotismo e da sugestão. Contou-nos com alguns detalhes os maravilhosos resultados obtidos por cientistas ingleses e médicos da escola de Nancy, e os fatos que expôs pareceram-me tão estranhos que me declarei completamente incrédulo. — Estamos prestes a descobrir um dos mais importantes segredos da natureza, isto é, um dos mais importantes segredos nesta terra, pois certamente existem outros, de outra espécie de importância, lá em cima, nas estrelas — disse ele. — Desde que o homem começou a pensar, desde que conseguiu expressar e anotar os pensamentos, tem-se sentido próximo a um mistério inacessível a seus sentidos incompletos e imperfeitos. Procura, então, suprir a ineficiência dos sentidos por meio do intelecto. Enquanto o intelecto manteve-se em um estágio rudimentar, as aparições dos espíritos invisíveis assumiam formas comuns, embora assustadoras. Daí surgiu a crença popular no sobrenatural, as lendas das almas penadas, fadas, gnomos, fantasmas, posso mesmo dizer, a lenda de Deus, pois nossa concepção do artífice-criador, seja qual for a religião que no-la transmitiu, é certamente a mais vulgar, estúpida e inacreditável invenção que já saiu do cérebro amedrontado dos seres humanos. Nada é mais verdadeiro do que o dito de Voltaire: “Deus criou o homem à Sua imagem, mas o homem pagou-lhe na mesma moeda”. Entretanto — continuou o Dr. Parent –, há cerca de um século, os homens parecem pressentir algo novo. Mesmer e outros conduziram-nos a uma trilha inesperada e, principalmente nos últimos dois ou três anos, conseguimos resultados realmente surpreendentes. Minha prima, também muito incrédula, sorriu, e o Dr. Parent disse-lhe: — Gostaria que eu tentasse fazê-la dormir, madame? — Sim, certamente. Ela sentou-se em uma poltrona, e ele começou a olhá-la fixamente, como se quisesse encantá-la. Comecei a sentir-me pouco à vontade, com o coração batendo e uma sensação sufocante na garganta. Vi os olhos de Mme. Sable tornarem-se pesados, a boca crispar-se e o peito arfar. Em dez minutos estava dormindo. — Fique atrás dela — disse-me o médico. Sentei-me atrás dela. Pôs um cartão de visitas entre as mãos dela e lhe disse: — Isto é um espelho. O que vê nele? Ela respondeu: — Vejo meu primo. — O que ele está fazendo? — Torcendo o bigode. — E agora? — Está tirando uma fotografia do bolso. — Fotografia de quem? — Dele mesmo. Era verdade. A fotografia fora-me entregue no hotel aquela noite. — Como é a foto? — Ele está em pé, com o chapéu na mão. Enxergava, pois, naquele cartão, naquele pedaço de papelão branco, como se olhasse através de um espelho. As jovens ficaram assustadas e exclamaram: — Chega! Já chega! Mas o médico ordenou a Mme. Sable: — Levante-se amanhã às oito horas, vá visitar seu primo no hotel e peça-lhe cinco mil francos emprestados que seu marido está precisando e que exigirá da senhora quando partir para a próxima viagem. Depois disso, o médico acordou-a. Na volta ao hotel, fui meditando sobre essa curiosa sessão. Enchia-me de dúvidas, não quanto à absoluta e sincera boa-fé de minha prima, pois conhecia-a como a uma irmã desde criança, mas quanto a um possível truque da parte do médico. Não teria, talvez, um espelho escondido na mão, mostrando-à jovem adormecida, ao mesmo tempo que mostrou o cartão? Os mágicos fazem coisas desse tipo. Cheguei ao hotel e fui para a cama. Esta manhã, mais ou menos às oito e meia, o criado de quarto acordou-me e disse-me: Mme. Sable pede para vê-lo imediatamente, monsieur. — Vesti-me às pressas e fui recebê-la. Sentou-se um tanto preocupada, de olhos baixos e, sem erguer o véu do chapéu, disse-me: — Caro primo, vim pedir-lhe um grande favor. — Que favor, minha prima? — Não quero pedir-lhe, mas tenho de fazê-lo. Preciso urgentemente de cinco mil francos. — O quê? Você? — Sim, eu, ou melhor, meu marido pediu-me para consegui-los. Fiquei tão atônito que gaguejava as respostas. Perguntava-me se ela não estaria zombando de mim, juntamente com o Dr. Parent, se tudo não seria apenas uma bem ensaiada farsa. Olhando-a atentamente, entretanto, todas as minhas dúvidas desapareceram. Estava trêmula de desgosto, pois essa atitude lhe era penosa, e percebi que a garganta lhe travava os soluços. Sabia que era muito rica, por isso continuei: — Como? Seu marido não tem cinco mil francos à disposição? Vamos, pense. Tem certeza de que ele a encarregou de consegui-los? Hesitou alguns segundos, como se fizesse grande esforço de memória e respondeu: — Sim… sim, tenho certeza. — Ele lhe escreveu? Hesitou novamente e refletiu. Percebi a tortura de seus pensamentos. Não sabia. Sabia apenas que tinha de conseguir comigo cinco mil francos emprestados para seu marido. Assim, mentiu: — Sim, escreveu-me. — Rogo-lhe que me diga quando ele o fez. Não falou sobre isso ontem. — Recebi a carta hoje pela manhã. — Pode mostrá-la para mim? — Não… não… continha assuntos íntimos… coisas muito pessoais… Queimei-a. — Então seu marido está endividado? Hesitou mais uma vez e murmurou: — Não sei. Disse-lhe sem cerimônia: — No momento não posso dispor de cinco mil francos, cara prima. Deu um grito, como se estivesse sentindo alguma dor e disse: — Oh, suplico-lhe, rogo-lhe que os consiga para mim…Parecia perturbada e juntava as mãos como a implorar-me! Sua voz mudou de tom. Chorava e gaguejava, inquieta e dominada pela ordem irresistível que recebera. — Por favor, imploro-lhe… se soubesse o que estou sofrendo… preciso do dinheiro hoje. Fiquei com pena: — Você terá daqui a pouco, juro. — Obrigada, obrigada. Agradeço-lhe muito. — Lembra-se do que aconteceu em sua casa ontem à noite? — continuei. — Sim. — Lembra-se de que o Dr. Parent fez você dormir? — Sim. — Muito bem então. Mandou que viesse procurar-me esta manhã e pedisse cinco mil francos emprestados. Neste momento, você está obedecendo a essa sugestão. Refletiu por alguns momentos e respondeu: — Mas é como Se meu marido precisasse deles…Durante uma hora tentei convencê-la, sem conseguir. Quando se foi, procurei o médico. Estava de saída, ouviu-me com um sorriso e disse: — Acredita, agora? — Sim, não tenho outra saída. — Vamos à casa de sua prima. Ela já estava meio adormecida em uma espreguiçadeira, vencida pelo cansaço. O médico tomou-lhe o pulso, observou-a por algum tempo, com a mão erguida em frente aos olhos dela. Sob a irresistível influência de sua força magnética, fechou os olhos. Quando adormeceu, o médico disse: — Seu marido não precisa mais dos cinco mil francos. Deve, portanto, esquecer que os pediu emprestado a seu primo e, se ele tocar no assunto, não entenderá de que se trata. Acordou-a. Peguei a carteira e disse: — Aqui está o que me pediu esta manhã, cara prima. Ficou tão surpresa, que não me atrevi a insistir. Contudo, tentei fazê-la lembrar-se do que acontecera. Negou energicamente, achando que me divertia às suas custas e, no fim, quase perdeu a paciência. Pronto! Acabo de chegar e não consegui almoçar, pois essa experiência deixou-me completamente abalado.

19 de julho. As pessoas a quem contei essa aventura riram-se de mim. Não sei mais o que pensar. Diz o sábio: “Pode ser!”

21 de julho. Jantei em Bougival e passei a noite em um baile de barqueiros. Decididamente, tudo depende do local e do ambiente. Seria muita tolice acreditar no sobrenatural quando se está na Île de la Grenouilliére… mas, e no Mont-Saint-Michel?… e na Índia? Somos terrivelmente influenciados pelo que nos rodeia. Na semana que vem, voltarei para casa.

30 de julho. Voltei ontem para casa. Tudo vai bem.

2 de agosto. Nada de novo. O tempo está esplêndido e passo os dias a olhar o Sena.

4 de agosto. Desavenças entre os criados. Alegam que à noite os copos são quebrados nos armários. O criado acusa o cozinheiro, que acusa a costureira, que acusa os outros dois. Quem é o culpado? Só alguém muito esperto poderia dizer.

6 de agosto. Desta vez não estou louco. Eu vi… eu vi… não posso mais duvidar… eu o vi!As duas horas, em pleno sol, passeava entre as roseiras… entre as rosas de outono que começam a cair. Quando parei para olhar um géant de bataille, com três rosas esplêndidas, vi perfeitamente a haste de uma das rosas perto de mim inclinar-se, como se uma mão invisível a forçasse a quebrar-se, como se estivesse sendo colhida! Então, a flor ergueu-se, seguindo a curva que a mão teria feito ao levá-la até a boca e permaneceu suspensa no ar, sozinha e imóvel, terrível mancha vermelha, quase diante de meus olhos. Em desespero, corri para agarrá-la. Nada achei, ela desaparecera! Fiquei com muita raiva de mim mesmo, pois um homem sério e razoável não deveria ter tais alucinações.Mas seria uma alucinação? Voltei-me para olhar a haste e encontrei-a imediatamente, na roseira, quebrada de pouco, entre duas rosas que continuavam no galho. Voltei para casa, bastante perturbado, pois estou certo agora, como certo estou da alternância entre o dia e a noite, de que existe perto de mim uma criatura invisível, que vive a leite e água, pode tocar objetos, pegá-los e mudá-los de lugar, sendo, portanto, dotado de natureza material, embora seja imperceptível a nossos sentidos. Vive como eu, debaixo de meu teto…

7 de agosto. Dormi tranqüilamente. Ele bebeu a água da garrafa, mas não perturbou meu sono. Pergunto a mim mesmo se não estarei louco. Agora mesmo, passeando ao sol à beira do rio, tive dúvidas quanto a minha sanidade. Não dúvidas vagas como as que tive ultimamente, mas dúvidas absolutas e precisas. Já vi gente louca e conheci alguns loucos que são inteligentes, lúcidos, até mesmo perspicazes em tudo, exceto em um ponto. Falavam pronta, clara e profundamente sobre todos os assuntos, até que, de repente, a mente ia de encontro aos escolhos de sua loucura, partia-se ali e se dispersava e debatia naquele mar furioso e terrível, cheio de ondas agitadas, de neblina e pés-de-vento, que se chama Loucura. Com certeza eu deveria pensar que estava louco, completamente louco, se não estivesse consciente, não conhecesse perfeitamente meu estado, não o analisasse com a mais completa lucidez. De fato, devo ser apenas um homem racional, sofrendo uma alucinação. Deve ter surgido em minha mente algum distúrbio desconhecido, um dentre aqueles que os fisiólogos modernos tentam observar e confirmar. Esse distúrbio deve ter causado profunda brecha na minha mente e na seqüência lógica das idéias. Fenômenos semelhantes acontecem nos sonhos que nos levam a imaginar coisas irreais, sem nos causar surpresa, porque o aparelho de verificação, nosso órgão de controle está adormecido, enquanto a faculdade da imaginação está acordada e ativa. Não é possível que uma das imperceptíveis unidades do teclado cerebral tenha ficado paralisada em mim? Alguns homens perdem a lembrança de nomes próprios, de verbos ou números, os simplesmente de datas, como conseqüência de algum acidente. A localização de todas as variações de pensamento já está estabelecida atualmente. Por que, então, seria surpreendente se minha faculdade de controlar a irrealidade de algumas alucinações estivesse temporariamente adormecida? Pensava em tudo isso, enquanto andava pela beira da água. O sol brilhava intensamente sobre o rio e tornava a terra agradável, enchendo-me de amor pela vida, pelas andorinhas cuja agilidade sempre encanta meus olhos, pelas plantas à beira do rio, de cujas folhas o farfalhar é um prazer aos ouvidos. Aos poucos, entretanto, uma indefinível sensação de mal-estar se apossava de mim. Parecia que uma força desconhecida estava me entorpecendo e detendo, impedindo-me de seguir adiante e chamando-me de volta. Senti aquele penoso desejo de voltar que nos oprime quando deixamos um doente querido em casa e somos tomados por um pressentimento de que piorou. Assim, voltei contra a minha vontade, certo de que encontraria alguma má noticia à espera, talvez uma carta ou telegrama. Não havia nada, e fiquei mais surpreso e inquieto do que se tivesse tido outra visão fantástica.

8 de agosto. Ontem, passei uma noite horrível. Não se mostra mais, porém, sinto-o perto de mim vigiando-me, olhando-me, penetrando-me, dominando-me, e mais temível quando se oculta dessa forma do que se manifestasse sua presença constante e invisível através de fenômenos sobrenaturais. Entretanto, consegui dormir.

9 de agosto. Nada, mas estou com medo.

10 de agosto. Nada. O que acontecerá amanhã?

11 de agosto. Nada ainda. Não consigo ficar em casa com este medo pairando sobre mim e estes pensamentos na cabeça. Vou embora.

12 de agosto. Dez horas da noite. O dia todo tentei partir e não consegui. Gostaria de realizar este simples e fácil ato de liberdade – sair -, entrar em meu carro e partir para Rouen… e não consigo. Por que razão?

13 de agosto. Quando somos atacados por certas doenças, todas as molas de nosso corpo parecem estar quebradas, todas as nossas energias, destruídas, todos os nossos músculos, relaxados. Nossos ossos amolecem como carne, e o sangue vira água. Estou tendo essas sensações em minha existência moral de modo estranho e angustioso. Não tenho mais força, coragem, autocontrole, nem mesmo o poder de exercer minha vontade. Não tenho mais vontade de nada, mas alguém a tem por mim e eu lhe obedeço.

14 de agosto. Estou perdido. Alguém possui minha alma e a domina. Alguém ordena todos os meus atos, todos os meus movimentos, todos os meus pensamentos. Não sou mais nada, exceto espectador escravizado e amedrontado de tudo o que faço. Quero sair, não posso. Ele não quer, e assim permaneço, trêmulo e perplexo, na poltrona onde ele me mantém sentado. Desejo apenas levantar-me e me animar, mas não posso! Estou preso à cadeira, e esta adere ao chão de tal maneira que não existe força capaz de mover-nos.De repente, sinto que devo, preciso ir ao fundo do quintal colher morangos e comê-los, e lá vou eu. Colho os morangos e como-os! Meu Deus! Meus Deus! Deus existe? Se existe, libertai-me! Salvai-me! Socorrei-me! Perdão! Piedade! Misericórdia! Salvai-me! Quanto sofrimento! Que tormento! Que horror!

15 de agosto. Então era desse modo que minha pobre prima se encontrava, e era controlada, quando veio pedir-me os cinco mil francos emprestados. Estava sob o poder de uma estranha vontade que entrara dentro dela, como outra alma, como outra alma parasita e dominadora. Será que o mundo está para acabar? Mas quem é ele, este ser invisível que me governa? Este ser irreconhecível, este pirata de raça sobrenatural? Existem, então, seres invisíveis! Por que não se manifestaram desde o começo do mundo, precisamente como fazem comigo? Nunca li nada parecido com o que acontece em minha casa. Oh, se pudesse deixá-la, se pudesse ir embora, fugir e nunca mais voltar! Estaria salvo, mas não posso.

16 de agosto. Hoje consegui escapar por duas horas, como um prisioneiro que, por acaso, encontra a porta da masmorra aberta. De repente, senti que estava livre e que ele estava muito longe; assim, dei ordens para atrelar os cavalos o mais depressa possível e partir para Rouen. Como é agradável conseguir dizer a um homem que nos obedece: — Vá… a Rouen! Mandei parar em frente à biblioteca e pedi que me emprestassem o tratado do Dr. Hermann Herestauss sobre os habitantes desconhecidos do mundo antigo e moderno. Ao voltar para o coche, pretendia dizer: “Para a estação!”, em vez disso gritei… não disse, gritei, tão alto que os passantes voltaram-se: — Para casa! — e caí para trás, na almofada do carro, tomado de angústia. Ele voltara a me encontrar e retomara a posse de mim.

17 de agosto. Ah, que noite! Que noite! E contudo parece-me que devia alegrar-me. Li até a uma da manhã! Herestauss, doutor em Filosofia e Teogonia, escreveu a história da manifestação todos esses seres invisíveis que pairam em volta dos homens ou com quem os homens sonham. Descreve sua origem, domínio, poder, mas nenhum se assemelha ao que me assedia. Pode-se dizer que, desde que começou a pensar, o homem pressente um novo ser, mais forte, seu sucessor neste novo mundo e que, sentindo sua presença e não conseguindo prever a natureza desse mestre, criou toda uma raça de seres ocultos, de vagos fantasmas, nascidos do medo. Depois de ler até a uma da manhã, sentei-me à janela aberta, a fim de refrescar a fronte e os pensamentos, no ar calmo da noite agradável e quente. Como teria apreciado semelhante noite em outros tempos! Não havia lua, mas as estrelas lançavam sua luz no céu escuro. Quem habita esses mundos? Que formas, que seres vivos, que animais existem lá em cima? O que sabem os pensadores naqueles mundos distantes que não sabemos? O que podem fazer, e nós não? O que vêem que não conhecemos? Será que um deles, algum dia, atravessando o espaço, aparecerá na Terra para conquistá-la, exatamente como os escandinavos cruzaram o mar a fim de conquistar nações mais fracas do que eles? Somos tão fracos, tão indefesos, tão ignorantes, tão pequenos, nós que vivemos nesta partícula de lama que gira em uma gota de água! Adormeci assim, sonhando no fresco ar da noite, e depois de dormir cerca de três quartos de hora abri os olhos sem me mexer, acordado por não sei que confusa e estranha sensação. A princípio não vi nada, mas de repente tive a impressão de que uma página do livro que ficara aberto sobre a mesa virou-se sozinha. Nenhuma aragem passara pela janela, por isso, surpreso, esperei. Depois de uns quatro minutos, eu vi, eu vi, sim, vi com meus próprios olhos, outra página levantar-se e cair sobre as outras, como se um dedo a tivesse virado. A poltrona estava vazia, parecia vazia, mas sabia que ele estava lá. Sentado em meu lugar e lendo. Com um pulo, o pulo furioso de um animal selvagem enraivecido, que salta sobre o domador, atravessei a sala para agarrá-lo, estrangulá-lo, matá-lo! Porém, antes que pudesse alcançá-la, a cadeira virou-se como se alguém tivesse fugido de mim… a mesa balançou, a lâmpada caiu e se apagou e a janela fechou-se, como se um ladrão tivesse sido surpreendido e fugido noite afora, fechando-a atrás de si. Então ele fugira. Tivera medo, medo de mim! Mas… mas… amanhã… ou mais tarde… algum dia… conseguirei agarrá-lo e esmagá-lo contra o chão! Às vezes os cães não mordem e estraçalham o dono?

18 de agosto. Estive pensando o dia todo. Sim, vou obedecer-lhe, seguir seus impulsos, realizar seus desejos, mostrar-me humilde, submisso, covarde. Ele é o mais forte, mas há de chegar a hora…

19 de agosto. Eu sei… eu sei… eu sei tudo! Acabei de ler o seguinte, na Revue du Monde Scientifique: “Curiosa noticia chega-nos do Rio de Janeiro. Loucura, uma epidemia de loucura, comparável à loucura contagiosa que atacou a população da Europa, na Idade Média, está, neste momento, grassando na província de São Paulo. Os habitantes, aterrorizados, abandonam suas casas, dizendo que estão sendo perseguidos, possuídos, dominados como gado humano por seres invisíveis, mas tangíveis, uma espécie de vampiro, que se alimenta da vida deles enquanto estão dormindo, e que, além disso, bebe água e leite, sem aparentemente tocar nenhum outro alimento. “O professor Pedro Henrique, acompanhado por vários médicos, foi à província de São Paulo, a fim de estudar a origem e as manifestações dessa surpreendente loucura, no local, e propor ao imperador as medidas que lhe pareçam mais cabíveis para fazer com que a população recupere a razão. “Ah! ah! lembro-me agora daquele belo navio brasileiro de três mastros que passou em frente às minhas janelas, subindo o Sena no dia 8 de maio passado! Achei que parecia tão formoso, tão branco e brilhante! Aquele Ente estava a bordo, vindo de lá, onde sua raça se originou. E me viu! Viu minha casa, também branca, e saltou do navio para terra. Oh, céu misericordioso! Agora sei, posso adivinhar. O reino do homem acabou, e ele chegou. Ele, que era temido pelo homem primitivo, ele, que padres preocupados exorcizavam, que feiticeiras evocavam em noites escuras, sem tê-lo visto aparecer, a quem a imaginação dos senhores provisórios do mundo emprestavam todas as monstruosas ou graciosas formas de gnomos, espíritos, gênios, fadas e almas familiares. Depois dos conceitos imprecisos baseados no medo primitivo, homens mais sensíveis anteviram-no mais claramente. Mesmer o pressentiu, e, há dez anos, médicos descobriram, com precisão, a natureza de sua força, antes mesmo que ele a exercesse. Divertiram-se com essa nova arma do Senhor, o domínio de uma vontade misteriosa sobre a alma humana que se tornara escrava. Chamaram-no de magnetismo, hipnotismo, sugestão… sei lá! Vejo-os divertindo-se, como crianças imprudentes, com essa força terrível! Ai de nós! Ai dos homens! Ele chegou, o… o… como se chama… o… Imagino que está gritando seu nome e não consigo ouvi-lo… o… sim… está gritando… estou ouvindo… Não consigo… Ele o repete… o… Horla… ou,… o Horla… ele chegou! Ah! O abutre devorou a pomba, o lobo devorou o cordeiro, o leão devorou o búfalo de chifres pontiagudos. O homem matou o leão com a flecha, com a espada, com a pólvora. Mas o Horla fará do homem o que fizemos do cavalo e do boi: objeto, escravo e alimento, só porque é sua vontade. Ai de nós! Contudo, às vezes, o animal revolta-se e mata o homem que o subjugou. Eu também gostaria de… serei capaz de… mas preciso conhecê-lo, tocá-lo, vê-lo! Os cientistas afirmam que os olhos dos animais, sendo diferentes dos nossos, não distinguem os objetos da mesma forma que nós. E meus olhos não conseguem distinguir esse recém-chegado que me oprime. Por quê? Agora me lembro das palavras do monge do Mont-Saint-Michel: “Será que vemos a centésima milionésima parte do que existe? Veja, lá está o vento, a maior força da natureza, que derruba homens e edifícios, desenraiza árvores, faz o mar erguer-se como montanhas de água, destrói penhascos e joga grandes navios contra as ondas. O vento que mata, que assobia, que suspira, que ruge… já o viu? Consegue vê-lo? Contudo, ele existe”. E continuei a pensar: “Meus olhos são tão fracos, tão imperfeitos, que nem mesmo distinguem corpos sólidos, se estes forem transparentes como o vidro! Se não houver um papel prateado atrás de um vidro em meu caminho, colidirei com ele, da mesma forma que um pássaro, voando para dentro de uma sala, bate a cabeça contra a vidraça”. Existem mil coisas que enganam o homem e o induzem ao erro. Por que haveria de ser surpreendente o fato de não conseguir perceber um corpo desconhecido que a luz consegue atravessar?Um novo ser! Por que não? Com certeza estava destinado a vir! Por que deveríamos ser os últimos? Não o distinguimos mais do que todos os outros criados antes de nós! Isso acontece porque sua natureza é mais perfeita, tem o corpo mais apurado e mais bem acabado que o nosso, tão fraco, de construção tão desajeitada, atravancado de órgãos que estão sempre cansados, sempre tenso como um mecanismo muito complicado, que vive como planta e como animal, nutrindo-se com dificuldade de ar, ervas e carne, máquina animal vitima de doenças, má-formação, decadência; arquejante, mal-regulado, simples e extravagante, originalmente malfeito, obra ao mesmo tempo grosseira e delicada, esboço irregular de uma criatura que poderia tornar-se inteligente e grandiosa. Somos apenas alguns, tão poucos neste mundo, da ostra ao homem. Por que não poderîa haver mais um, uma vez passada a época que separa as sucessivas aparições de todas as espécies diferentes? Por que não mais um? Por que não, também, outras árvores com flores imensas e esplêndidas, perfumando regiões inteiras? Por que não outros elementos além do fogo, ar, terra e água? Existem quatro, só quatro, amas-secas de seres diferentes! Que pena! Por que não existem quarenta, quatrocentos, quatro mil? Como tudo é pobre, mesquinho e miserável! Produzido de má vontade, construído irregularmente, inabilmente feito! Ah, o elefante e o hipopótamo, que graça! E o camelo, que elegância! Mas a borboleta, dirão, uma flor voadora? Sonho com uma tão grande como cem universos, com asas cuja forma, beleza, e movimentos não consigo nem mesmo exprimir. Porém a vejo… esvoaça de uma estrela a outra, refrescando-as e perfumando-as com a aragem leve e harmoniosa de seu vôo! E as pessoas lá em cima olham-na quando passa em um êxtase de prazer! O que está acontecendo comigo? É ele, o Horla, que me persegue e que me faz pensar essas tolices! Está dentro de mim, está se transformando em minha alma. Pretendo matá-lo!

19 de agosto. Vou matá-lo. Eu o vi! Ontem, sentei-me à mesa e fingi escrever com bastante atenção. Sabia muito bem que viria rondar-me, bem perto de mim, tão perto que, talvez, conseguisse, tocá-lo, agarrá-lo. E então… então eu conseguiria a força do desespero. Teria as mãos, os joelhos, o peito, a fronte, os dentes para estrangulá-lo, esmagá-lo, morde-lo, fazê-lo em pedaços. E o aguardava com todos os sentidos alerta. Acendera as duas lâmpadas e as oito velas de cera sobre a lareira, como se com toda essa luz pudesse descobri-lo. À minha frente, estava a cama, a velha cama de colunas de carvalho; à direita, a lareira; à esquerda, a porta, fechada cuidadosamente, depois que a deixei aberta algum tempo, a fim de atrai-lo; atrás de mim, estava o guarda-roupa, muito alto, com o espelho diante do qual fazia a barba e me vestia todos os dias e no qual costumava ver-me de relance, da cabeça aos pés, toda vez que passava diante dele. Fingia estar escrevendo a fim de enganá-lo, pois ele também me vigiava e, de repente, senti… tinha certeza de que estava lendo por cima de meu ombro, que estava lá, roçando minha orelha.Levantei-me com as mãos estendidas e virei-me tão depressa que quase caí. Quê! Bem? Estava claro como se fosse o meio-dia, mas não conseguia ver meu reflexo no espelho! Estava vazio, claro, profundo, cheio de luz! Só que minha imagem não estava refletida nele… E eu, eu estava na frente do espelho! Examinei o grande e claro espelho, de cima a baixo, olhei-o com olhos vacilantes. Não ousei aproximar-me, não me arrisquei a fazer um movimento sequer, sentindo que ele estava ali, mas que novamente me escapara, ele cujo corpo imperceptível absorvera meu reflexo.Como eu estava amedrontado! E então, subitamente, comecei a ver-me através de uma névoa no fundo do espelho, uma névoa que parecia um lençol de água. Parecia-me que a água escorria mais clara a todo momento. Era como o fim de um eclipse. O que quer que ocultasse minha imagem não parecia possuir contornos definidos, mas uma espécie de transparência opaca que ia clareando aos poucos.Afinal, consegui distinguir meu reflexo completamente, como acontece todos os dias quando me olho no espelho. Eu o vira! O horror dessa visão ficou comigo e, mesmo agora, faz-me tremer.

20 de agosto. Como poderia matá-lo, se não consegui agarrá-lo? Veneno? Mas ele me veria misturá-lo à água, e então teria nosso veneno algum efeito em seu corpo impalpável? Não… não há dúvida sobre isso… Então… então…

21 de agosto. Chamei um ferreiro de Rouen e encomendei venezianas de ferro para meu quarto, iguais às que alguns hotéis de Paris têm no andar térreo, para impedir a entrada de ladrões, e ele também vai fazer-me uma porta de ferro. Estou parecendo covarde, mas não me importo!

10 de setembro. Rouen, Hotel Continental. Está feito… está feito… mas será que está morto? O que vi deixou-me a mente completamente abalada.Bem, ontem, depois que o serralheiro colocou as venezianas e a porta de ferro, deixei tudo aberto até a meia-noite, embora estivesse esfriando. De repente, senti que ele estava lá, e uma alegria, uma louca alegria apossou-se de mim. Levantei-me silenciosamente e andei algum tempo de um lado para outro, para que ele não suspeitasse de nada. Tirei as botas e calcei os chinelos despreocupadamente, fechei as venezianas de ferro, fui até a porta, tranquei-a rapidamente com um cadeado e guardei a chave no bolso. Percebi de súbito que ele se movia nervosamente a minha volta, que, por sua vez, estava amedrontado e ordenava-me que o deixasse sair. Quase lhe obedeci. Em vez disso, entretanto, com as costas contra a porta, abri-a apenas o suficiente para poder sair de costas e, como sou muito alto toquei a esquadria com a cabeça. Estava certo de que ele não tinha conseguido escapar e deixei-o fechado sozinho, completamente sozinho. Que felicidade! Conseguira prende-lo. Então corri para baixo, para a sala de visitas que ficava embaixo do meu quarto. Peguei os dois lampiões e despejei todo o querosene no tapete, na mobília, em toda parte. Toquei fogo e fugi, depois de trancar cuidadosamente a porta. Escondi-me no fundo do quintal, em uma moita de louros. Como parecia demorar! Tudo estava escuro, silencioso, imóvel, sem a mais leve brisa, sem uma estrela, somente camadas de nuvens, que não se podia ver, mas que pesavam, oh, como pesavam, em minha alma. Fiquei esperando, olhando para a casa. Como demorava! Começava a pensar que o fogo se apagara sozinho, ou que ele o extinguira, quando uma das janelas do andar térreo cedeu sob a violência das chamas e uma longa, suave, acariciante e rubra língua de fogo subiu pela parede branca e envolveu-a até o telhado. O clarão atingiu as árvores, os galhos e as folhas, e um arrepio de medo também os invadiu! Os pássaros acordaram, um cachorro começou a uivar, e pareceu-me que o dia estava nascendo! Quase imediatamente, duas outras janelas se arrebentaram e vi que toda a parte de baixo da casa era apenas uma fornalha incandescente. Um grito, horrível, estridente, de partir o coração, um grito de mulher, soou dentro da noite, e duas janelas do sótão se abriram! Esquecera-me dos criados! Vi os rostos apavorados e os braços agitando-se freneticamente. Tomado de pavor, comecei a correr para a cidade, gritando:- Socorro! Socorro! Fogo! Fogo! — Encontrei algumas pessoas que já vinham correndo e voltei com elas. Nessas alturas, a casa não era mais que uma horrível e imponente pira funerária, monstruosa pira funerária que iluminava tudo, pira funerária onde homens ardiam, e ele também estava sendo queimado. Ele, ele, meu prisioneiro, o novo Ser, o novo Senhor, o Horla! De repente, o telhado desabou entre as paredes, e um vulcão de chamas voou até o céu. Pelas janelas abertas naquela fornalha, vi as chamas disparando e pensei que ele estivesse lá, naquele forno, morto. Morto? Talvez?… Seu corpo? Não seria seu corpo, transparente, indestrutível pelos meios que conseguiam matar os nossos? E se ele não estivesse morto?… Talvez só o tempo tenha poder sobre esse Ser Invisível e Terrível. Qual a razão desse corpo transparente e irreconhecível, esse corpo pertencente a um espírito, se também tem de temer doenças, fraquezas e ruína prematura? Ruína prematura? Todo o terror humano tem aí sua origem! Depois do homem, o Horla. Depois daquele que pode morrer todo dia, a toda hora, a todo momento, de qualquer acidente, veio o que morreria apenas na hora, no dia e no minuto apropriado, porque tocara os limites de sua própria existência! Não… não… sem dúvida… não está morto… Então… então… acho que terei de me matar!…