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Os Dois Pecadores (Hermann Hesse)

Num lugar recôndito de Tebas viveram por muito tempo dois irmãos cremitas que haviam renunciado à vida mundana e resolvido, ainda jovens, levar uma vida de santa conduta, em expiação de pecados anteriores. Um deles chamava-se Basílio, o outro Justino; e, embora não fossem dados a excessos, possuíam ambos um temperamento alegre e descuidado, de modo que não tinham conseguido manter uma conduta imaculada em sua cidade natal. Basílio, o mais velho, gostava de beber e jogar dados, ao passo que o mais novo, .lustino, tinha uma inclinação especial pelo convívio com mulheres c pelos prazeres do nmor. Como ambos já tinham experimentado o grande poder da tentação e a força dos maus exemplos, e conhecido o perigo de serem indulgentes para com as inclinações naturais, mas ansiavam fervorosamente por triunfar sobre si próprios, por dominar suas paixões e ser senhores de sua vontade, abandonaram o lar e todos os bens, para, levarem uma existência santa de prática religiosa e mortificação. No início da vida de anacoretas, procuraram imitar os santos padres. Dedicavam-se a rezas e meditações, liam um livro sagrado que continha as epístolas de Paulo aos Coríntíos, e alimentavam-se frugalmente das reservas que tinham levado com eles, na esperança de que, quando se espalhasse a notícia de sua santidade, receberiam o necessário para viver dos devotos e suplicantes que os visitassem. Foi, porém, uma esperança vã e bem depressa se viram esquecidos em suas tebaidas, passando necessidades. Aos dois penitentes ocorreu, então, que o Senhor podia alimentar os profetas e os eleitos de um modo transcendente, mas não estaria, por certo, propenso a desperdiçar seus milagres com preguiçosos. Por isso decidiram trabalhar e não tardaram em receber as bênçãos celestes pelo trabalho de suas mãos. Colhiam frutas, bagos e raízes, plantaram mudas de árvores, cultivaram um pedaço de terra e nela semearam trigo e milho. Também escavaram uma alverca para receber a água pura que jorrava de uma fonte nas rochas, e com ela regavam a pequena horta. E todo esse esforço e trabalho tornou-os mais rijos e fortes, e mais fácil a luta contra as antigas paixões e desejos — bem mais fácil do que quando se dedicavam apenas a leituras e orações. Da exígua leira, como das palmeiras e figueiras, eles apenas colhiam, entretanto, os frutos escassos que lhes supriam as necessidades cotidianas. Ei pensavam, angustiados, onde iriam conseguir o grão e a semente para lançarem à terra na próxima época das sementeiras. Também sentiam falta de algumas ferramentas e de roupas. Assim foi que cogitaram seriamente em melhorar sua precária situação e em ganhar algum dinheiro para os tempos ruins. .lustino dedicou-se então a fazer cestas de ramos de salgueiros entrançados que, depois de algum treino, começaram a ser bonitas e em variados formatos. Basílio, por seu lado, adquirira em anos anteriores alguns conhecimentos de plantas medicinais e colhia-as, com afinco, onde quer que as encontrasse, secava-as e limpava com cuidado suas ha.stes, folhas e sementes. Com essas atividades, para preencher o tempo, além do trabaIho na horta, os dois eremitas tinham esperança de que, no futuro, não passariam pelas mesmas privações anteriores. Desta vez, a esperança não os traiu. Quando empreenderam sua primeira viagem à cidade, numa caminhada de meio-dia, conseguiram vender aos mercadores por bom preço e facilmente tudo o que tinham colhido e feito, inclusive as bonitas cestas de Justino, e voltaram ao seu solitário refúgio carregados de provisões e sementes. Mas a visão da cidade, a agitação dos homens de negócios, os atrativos do comércio e a fartura de coisas não lhes fez bem. Pelo contrário, excitouos e neles despertou as adormecidas paixões. Apesar de terem abandonado honradamente o lugar, foi mais como fugitivos do que como triunfadores que voltaram ao silêncio do deserto, para reencetarem sua luta purificadora à força de trabalho, oração e temperança. Daí em diante, a vida dos dois irmãos transcorreu nesse ritmo por largos anos. Justino trançava suas bonitas cestas, que cada vez mais aperfeiçoava e cada vez mais lucro lhe rendiam; Basilio colhia ervas medicinais, preparava com elas pós e ungüentos; e juntos cuidavam da horta, colhiam frutos e mantinham em santa ordem a pobre mas disciplinada vida. Em dias determinados, jejuavam e liam seu livro sagrado, santificavam o sétimo dia e, por vezes, recebiam a visita de irmãos, de passagem para outros e distantes eremitérios. Só visitavam a cidade duas vezes por ano, o que era inevitável por causa das sementeiras, pois nessa região a terra podia ser semeada e dar duas safras por ano e, assim, tinham necessidade de comprar aos negociantes a cevada e a espelta, o centeio e o milho, visto que a pequena colheita era aproveitada por eles até ao último grão. Essas peregrinações à cidade provocavam nos penitentes uma excitação cada vez maior, o que muito os angustiava, quer alguns dias antes da jornada quer depois dela, porquanto a aproximação do pecado e a visão de um mundo de prazeres lhe perturbavam o os sentidos, inflamavam no peito os antigos e malignos desejos e provocavam grande abalo no aperfeiçoamento da alma que ambos buscavam. Tudo isso só podia ser remediado posteriormente, vagarosamente, com redobradas orações, penitências e flagelos. Sim, podia-se dizer que cada uma dessas idas à cidade destruía mais da metade do que a solidão e a penitência tinham construído no coração de cada um deles. De modo que, na verdade, os dois devotos homens ficavam livres de novos pecados mas retrocediam sempre um pouco e viam-se, por isso mesmo, obrigados a multiplicar seus esforços, de ano para ano, a fim de conseguirem o tão almejado estado de santidade. Essa era a situação de nossos bons irmãos quando chegou o tempo de voltarem a oferecer o produto de seus trabalhos, trocando-o por víveres, sementes e linho. Nenhum deles se atrevia a proferir a palavra “cidade” mas ambos passavam as noites ansiosos, mudos, suspirando baixinho. Acercava-se a época da sementeira e Justino tinha uma enorme quantidade de cestas prontas para vender. Basílio colocou suas ervas, poções e ungüentos em sacos e cestinhas aprontando tudo para a viagem. Ele, como o mais velho, foi quem primeiro abordou o assunto. — O que é que você acha, irmão? — perguntou. — Devemos partir amanhã, com a graça de Deus? Justino encarou-o e, com um gemido, respondeu: — Já que assim é preciso! Minhas cestas estão prontas. Teu coração está, porventura, tão inquieto e angustiado quanto o meu? — Sim, meu irmão — disse Basílio, numa voz embargada de tristeza. — Já estou antevendo o falso brilho dos prazeres do mundo ofuscando-me a alma e é mister que me domine, para que meu coração não ceda às vãs seduções. Com isso quer Deus provar-nos, miseros penitentes. A Ele entrego a salvação de minha alma. Oremos, irmão Justino! E ambos ajoelharam-se, lastimaram-se e rezaram até altas horas da noite. Mas tiveram de gritar e flagelar-se para não ceder ao Mal, pois a iminente visita à cidade cercava-os de um capitoso perfume, embriagava-os e fazia vacilar todas suas boas intenções, tal como as artes com que um mágico fascina as pobres crianças e as conduz a seu bel-prazer. Na manhã seguinte, depois de dormirem muito pouco, os dois levantaram-se ao mesmo tempo. Carregavam suas mercadorias sobre os ombros; as sandálias grosseiras ressoando nas pedras. Caminhavam silenciosos mas os pensamentos voavam céleres e fixavamse nos prazeres da cidade, com tamanha intensidade que Justino via aglomerarem-se à sua volta lindas e voluptuosas mulheres e Basilio farejava o aroma de vinhos doces e condimentadas iguarias, ouvia o rolar dos dados no tampo das mesas de mármore. E, apesar de lutarem contra seus ncfandos desejos, estes tomavam sempre o mesmo rumo, enquanto o suor lhes corria pela testa em grossas gotas e os lábios ressequidos se agitavam em mudas orações. Quem os visse não os tomaria por ingênuos peregrinos, mas por dois seres desesperados. Chegaram às portas da cidade, na muralha do leste, uma hora antes do meio-dia. Em sua ânsia, que tanto poderia atribuir-se ao medo como à avidez, atravessaram correndo a grande porta e penetraram no febril torvelinho das ruas. Pararam no mercado e despediram-se um do outro, para que cada um fosse resolver seus negócios. Como sempre, combinaram encontrar-se em tal e tal estalagem, onde era costume fazerem uma refeição frugal e, após breve repouso, abandonarem rapidamente a cidade pérfida. E assim se separaram mais uma vez. Aconteceu, porém, que os negócios de Justino foram resolvidos mais depressa e melhor do que em ocasiões anteriores. Logo na primeira rua por onde passou foi chamado por um atacadista, ao seu armazém, que lhe ficou com todas as cestas, sem regatear e por um bom preço, pois acabara de receber uma grande remessa de azeitonas e queria colocá-las sem demora nas cestas para mandá-las ao mercado. Assim, o eremita viu-se logo livre de sua grande carga e de preocupações, e com duas grandes moedas de prata na mão. Agradecido, atribuiu sua sorte à providência divina e dirigiu-se imediatamente, para evitar qualquer dissabor, ao albergue onde esperava encontrar Basílio. Este, porém, estava ainda muito atareafado e não pudera chegar tão cedo. A essa hora o albergue estava deserto e o dono dormia no chão, em cima de uma grande esteira. Justino foi sentar-se timidamente num banco, esperando paciente que o dono acordasse. O homem, porém, continuou dormindo imperturbável; mas em seu lugar apareceu logo uma jovem criada que lhe perguntou o que queria. Justino pediu pão e tâmaras. Apesar de não se atrever a olhar o rosto da moça e conservar a vista baixa, não precisou erguer os olhos enquanto ela se afastava. Viu-lhe o corpo cheio e roliço, os cabelos pretos, a nuca morena, os braços fortes e bem torneados, o movimento ondulante das ancas, belos, e delicados pés. O pobre eremita sentiu a testa alagar-se-Ihe de suores frios ante aqueles atrativos, e, enquanto ainda olhava fascinado para o vazio, sua alma confusa era tomada de vergonha, angústia e medo. Gemia baixo, limpava a testa na manga do hábito e, quando a jovem criada voltou, manteve os olhos pregados à força no tampo da mesa. Ela aproximou-se para servir-lhe a refeição e observou atentamente o forasteiro. Notou-lhe a perturbação e, com sua indoie perversa, concluiu que aquele peixe mordera seu anzol, no que — infelizmente — tinha razão, se bem que Justino jamais o admitisse. Mas seu coração batia desordenadamente e os olhos faziam força para voltar à moça. Ela sorriu de leve e disse, em tom grave: — Estou vendo. Sois um penitente e santo homem. Acaso tendes dinheiro para pagar vossa comida? Sou a responsável pelo que vos servi. Justino sacou imediatamente as duas moedas de prata e mostrou-as à moça. — Está bem, confio em vós — prosseguiu a moça. — E ficai sabendo que tenho a contar-vos uma coisa deveras importante. Mas não pode ser aqui, pois o hospedeiro seria capaz de escutar ludo e o meu assunto é confidencial. Peço-vos, santo homem, que aceiteis sair por um instante comigo. O assunto é muito importante para mim. Atordoado e perplexo, Justino a seguiu mas, de súbito, a moça puxou-o para seu quarto e deixou cair o corpete vermelho que lhe cobria os seios; apertando Justino contra si, sorriu-lhe de um jeito infinitamente caricioso e disse: — Dá-me uma moeda de prata e poderás contemplar toda a minha beleza. Dá-me duas moedas e poderás dormir comigo. Tudo isto sobreveio como o vento cálido do deserto. Justino não podia mais pensar desde que a prostituta tocara com as mãos suaves nas dele, aproximara seus olhos dos dele. Tremendo, entregou-lhe as duas moedas de prata, ouviu as risadas da moça, via-lhe sob os lençóis de linho fino os ombros e os alvos segredos brilhando. Mergulhou, perdido, em seus braços, balbuciando ternas palavras esquecidas, e pecou, inconsciente e cego como um bêbedo. Pouco depois, encontrou-se de novo sentado à mesa do albergue, pão e tâmaras à sua frente, o albergueiro roncando sobre a esteira. Como se tivesse despertado de um delírio profundo e convulso dos sentidos, encarou o dia e todas as coisas à sua volta com um olhar toldado. Deu-se conta do que fizera, levou ambas as mãos ao rosto e afundou numa tristeza infinita. O arrependimento, a vergonha e o desespero apossaram-se dele. Pareceu-lhe inacreditável o que acontecera e compreendeu que todos aqueles anos em seu árduo retiro tinham sido apagados ante Deus, todas as penitências e esperanças destruídas. Foi nesse estado de ânimo que Basilio o encontrou uma hora mais tarde, depois de ter resolvido seus negócios e ganho uma moeda de prata. — Que aconteceu contigo? — perguntou-lhe Basilio assustado e pousando carinhosamente a mão no ombro do irmão. — Ai de mim, estou perdido! — gritou Justino, lavado em pranto. Mas não conseguindo confessar o que lhe acontecera, apenas sacudia a cabeça, desesperado, e mostrando as mãos vazias. Basilio conduziu-o carinhosamente para fora da cidade. Diante da grande porta, Justino sentou-se numa pedra à beira da estrada e disse, com o olhar vazio: — Me abandone aqui, bom irmão, e siga sozinho! Eu me entreguei ao demônio e não há mais esperança. Contou-lhe tudo. Basilio podia bem imaginar como se sentia seu desditoso irmão e não era essa a melhor hora para censuras ou sermões. Seu coração sangrava por aquela alma decaída, e no seu aflito e compassivo amor, engendrou então um bem-intencionado mas arriscado ardil para consolá-la. Esse ardil era uma mentira. — A h , irmão — disse ele com dissimulação e fingida vergonha — quão errado estás em pedir que me afaste! Se soubesses o que vai na minha consciência! Pois fica sabendo, querido irmão, que enquanto me esperavas na estalagem e pecavas, eu cometia coisas bem piores. E, mentindo, contou que tivera três moedas de prata, entrara numa taverna, comera e bebera, jogara dados, tendo tomado todo o dinheiro de um moço e depois perdido tudo para outros jogadores. Humilhava-se profundamente para animar o irmão, acusava-se para consolá-lo, maculava-se para purificá-lo. Atônito, Justino o escutava. Deu-lhe a mão, chorando, e disse: — A h , querido irmão, que será de nós agora? Basilio ajudou-o a levantar-se, abraçou-o e disse consolador: — Com Deus há perdão. Voltemos para o deserto e façamos penitência. Percorreram o longo caminho de regresso em silêncio, cada um mergulhado em seus pensamentos, e chegaram, altas horas da noite.

à gruta. Melancólico, Justino contemplou o lugar e seu leito limpo, Não se deitou na cama de palha, mas jogou-se sobre uma pedra fria, e adormeceu ao amanhecer, após infinitas auto-acusações e votos de contrição. Com Basílio, as coisas passaram-se de modo diferente. O que contara ao irmão era mentira e as mentiras contêm sementes ruins. Ao mesmo tempo que consolava o irmão, sua história envenenava a ele próprio e incendiava sua imaginação. Justino pecara e arrependera-se amargamente; mas ele, apesar da sua boa intenção, brincara com o pecado e assim abrira uma porta para o M a l . Agora, todos os pensamentos tomavam esse rumo e imaginava tudo o que inventara por amor a Justino nas cores mais alegres, e ardia na paixão ruim que lhe roubava o sono. Assim foi que, nessa noite, Justino se arrependeu dolorosamente de haver pecado e Basílio, com dor não menos intensa, se arrependia de ter evitado pecar. Eis como as boas e más forças se cruzam e entrechocam no espírito do homem. Quando, pela manhã, Justino despertou em seu duro leito, encontrou-se sozinho. Fez, em silêncio, suas orações e encaminhouse, apesar do cansaço, para as labutas cotidianas, presumindo que seu irmão andasse pelos campos em busca de ervas. Mas, como Basílio demorasse e não tivesse aparecido sequer ao cair da noite, Justino — de nada suspeitando — acreditou, em seu humílimo arrependimento, que ele o tivesse repudiado e que depois de seu erro não quisesse mais tê-lo como irmão. Lembrava-se, sem dúvida, da confissão de Basílio mas sua própria falta parecia-lhe muito maior e mais monstruosa. Por isso se entregava a penitências mais severas, llageiava-se com varas de vime até sangrar e, de noite, só dormia sobre as pedras. Enquanto i,sso, Basílio, que sumira durante a noite e caminhara secretamente para a cidade, freqüentava as tavernas gregas, com a bolsa cheia de dinheiro ganho nos dados, e saciava seus maus instintos em orgias, até cair de bêbedo. Ora, poderá parecer que a justiça divina esquecera esses dois homens, que as dedicadas penitências de tantos anos tinham fracassado e se tornaram farsa. Mas os desígnios de Deus são insondáveis. Não Lhe passara despercebido que, nesses dois penitentes, o os desejos mundanos não tinham sido extintos e por isso os deixou decair, mas não para perdê-los Enquanto Justino cumpria sua dura penitência, a paz penetrava em sua alma e ele reconhecia que os maus desejos tinham sido para sempre expulsos de seu íntimo. Mas não se regozijava com isso: perseverava na humildade, procurando todas as ocasiões para castigar-se. E rogava a Deus um sinal, porquanto era seu firme propósito não pôr fim às suas mortificações até que, por vontade divina, seu desaparecido irmão voltasse e o perdoasse. Então Deus compadeceu-se daquele espirito valoroso e fez-lhe ouvir uma voz durante o sono da noite, que lhe disse como Basílio, por compaixão, se fizera mentiroso, e de mentiroso se fizera pecador; e ordenou-lhe que procurasse o transviado, para que a misericórdia de Deus fosse concedida a ambos. Justino empreendeu jubilosamente a viagem, antes do amanhecer; e corria como se tivesse asas nos pés, rumo à cidade — e era a primeira vez que se aproximava dela com o coração livre e sem angústias. Chegou cedo na cidade, cruzou confiante a grande porta da muralha e dirigiu-se para o mercado, em busca do irmão perdido. Ao passar por uma taverna mal-afamada, ouviu lá dentro um pandemônio de imprecações, gritos, gargalhadas e injúrias obscenas. De súbito, rasgou-se a cortina da porta e cambaleante, enxotado a murros e pontapés, surgiu da taverna um bêbedo com as roupas rasgadas, o rosto machucado e sangrando que veio rodopiando até cair na lama. Ninguém o ajudou, pelo contrário, só insultos o acompanhavam. Cão vadio e patife lhe chamou o taverneiro, que cuspiu e lhe virou as costas. Justino debruçou-se, horrorizado e, destruído, compadecido, sobre o miserável que com a visão turva, os olhos pestanejando, estava todo ensangüentado. E Justino reconheceu no infeliz seu irmão Basílio; tomou-o nos braços e com ele se afastou. “Tudo isto ele sofreu por minha causa”, dizia Justino para si mesmo, com os olhos rasos d’água e apertando contra o peito o depravado que era o irmão dileto de seu coração. Lavou-o num poço, levou-lhe água à boca na concha da mão e amparou-o, cambaleante, através das ruas onde a turba zombava deles. Com muito sacrifício, conseguiu levá-lo de volta à velha gruta, preparou-lhe o leito, tratou de seus membros feridos, cuidou dele e o animava com desvelo amoroso. E como à medida que o corpo de Basílio sarava mais sua alma afundava nas trevas e, no desespero, Justino não saia de junto dele, consolando-o, rezando e fazendo-o saber como a misericórdia de Deus cuidara de ambos.

Dias depois, decidiram cogitar sobre o melhor modo de honrar a Deus. Flagelariam o corpo, é claro, para dele apagar todas as manchas do pecado. Mas isso não bastaria. Resolveram então fazer um voto: nenhum deles voltaria a pôr os olhos na cidade. Juraram mutuamente que preferiam morrer à mingua de pão e água, passar por inimagináveis privações, a ter de voltar alguma vez a tratar de negócios terrenos. E levaram daí em diante, por muitos e muitos anos, uma vida tranqüila e serena, trabalhando na santa paz do Senhor. Envelheceram, esqueceram o mundo, mas não o seu voto. E a vida de Justino e Basilio muito agradou ao Senhor. Houve, por aquela época, um ano de safras ruins. Os campos estiolavam à mingua de água. Até as palmeiras e figueiras se recusavam a dar fruto. Os eremitas padeciam uma fome indescritível, mas longe estava do pensamento deles quebrarem o voto sagrado e procurarem o auxilio dos homens. Confiavam unicamente em Deus e se Lhe aprouvesse morreriam de fome em sua gruta. Mas quando os dois irmãos já estavam há dois dias sem alimento, sentindo que a chama da vida começava a se extinguir em seu corpo mortificado, eis que o Senhor lhes mandou um corvo a levar-lhes o pão celestial, e o deixou aos penitentes para que se alimentassem como só Deus sabe alimentar seus eleitos.

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