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O guinéu da órfã (Charles Dickens)

I

O céu estava sombrio – céu de dezembro – e o calçamento das ruas desaparecia sob a neve, neve de Londres, meio derretida e lamacenta. Nunca se me varrera da memória a recordação dessa neve, apesar de terem passado quinze anos desde a última vez que vira a sua triste cor. Ali a tinha, diante de mim, com os mesmos sulcos e ocultando os mesmos perigos para os transeuntes. Havia apenas uma hora que eu tinha chegado da América do Sul a bordo do vapor-correio de Southampton, e ora estava encostado à janela do meu quarto no Hotel Morley, Charing Cross, contemplando com ar sombrio os jogos de água da Praça de Trafalgar, ora passeava agitadamente de um extremo ao outro do aposento, fazendo esforços para me distrair e pensando que não era um vagabundo desterrado, mas um homem que regressava ao seu país.

Aproximei a cadeira da chaminé e, enquanto atiçava o lume, evoquei através da chama o quadro da minha vida passada. Recordei-me da infância que tornou extremamente desgraçada a dependência de um tio velho e rico que me olhava como a um obstáculo porque não acreditava que eu viesse um dia a honrar o seu nome e os seus benefícios. Esta excelente pessoa tinha quase tanto de avaro como de vaidoso. Eu sentia a necessidade do estímulo e se me tivessem obrigado com algumas palavras ternas a abrir o meu coração juvenil, teriam descoberto o reconhecimento mais sincero, a ânsia de carinho, o instinto e o amor por tudo quanto é bom e belo. Mas, ah! todos estes honrados sentimentos estavam reconcentrados na minha alma pela ironia de quantos me rodeavam. Que contente ficou meu tio quando lhe disse que estava disposto a ir procurar a fortuna do outro lado dos mares! Com que frieza se despediu de mim o meu único primo! Como compreendi que havia chegado por fim a hora de me separar de um país onde, na opinião da minha própria família, era incapaz de usar honradamente o meu nome e de conquistar uma posição social! Parti com a triste convicção de que estava só no mundo e com a impaciência de demonstrar aos meus desdenhosos parentes que não merecia tão depreciativo conceito.

Quando regressei, depois de quinze anos, ignorava tudo o que se passara na minha família, que talvez me tivesse esquecido ao perder-me de vista.

Chamei e entrou no quarto um criado velho de cuja fisionomia me recordava. Conhecia meu primo Jorge que, antigamente, sempre que vinha a Londres se hospedava no Hotel Morley, como nosso tio. Mas, agora, Jorge chegara a posição demasiado alta para se permitir freqüentar um hotel de segunda ordem, quando, pela primavera, ia passar na capital um ou dois meses. Nesta época do ano Jorge Rutland não abandonava o seu castelo solarengo e eu tinha certeza de o encontrar em Rutland-Hall, condado de Kent.

Apressei-me a escrever-lhe a seguinte carta:

Querido Jorge:

Estou convencido de que te causará tanto espanto reconhecer a minha letra como se o meu espectro te surgisse. Tranqüiliza-te quanto à aparição do espectro. Como sabes, eu estou há muito convencido de que não sirvo para nada, e deves saber também que o céu não me concedeu a felicidade de morrer. Sinto certa vergonha ao confessar-te que não cheguei do outro mundo com a minha fortuna feita. Asseguro-te, contudo, que trabalhei para fazê-la; mas no mundo não basta querer; necessita-se, também, sorte para poder.
Felizmente ainda tenho tempo para reparar a perda dos quinze melhores anos da minha vida, e estou disposto a lançar mão de tudo, sempre que a ocupação seja digna de um cavalheiro. Entretanto, ardo em desejos de ver-te e aos teus. Uma longa ausência da pátria e da família é o que mais nos faz compreender quanto vale o aperto de uma mão amiga. Não espero, pois, que me respondas. Depois de amanhã seguirei para Kent e julgo que estarei aí à hora do jantar. Já vês que confio no teu bom acolhimento e hospitalidade durante algumas semanas, até que me resolva a tomar uma determinação.
Agora e sempre, meu querido Jorge, é teu velho amigo e primo

Guy Rutland

Dobrei a carta e coloquei-a no envelope.

– Breve saberei o que são realmente os meus queridos parentes, pensei alegremente enquanto escrevia o endereço:

Jorge Rutland, esquire
Rutland-Hall
(Kent).

Seriam aproximadamente sete da tarde quando cheguei ao imponente vestíbulo de Rutland-Hall. O primo Jorge não veio receber-me. Sem dúvida, esqueci-me dos costumes do país. Provavelmente o primo Jorge espera-me no alto da escada.

Avancemos.

Junto da escada recebeu-me um criado tão grave e tão automático como se o meu regresso para junto dos parentes fosse um fato que ele presenciasse todos os dias. Introduziu-me numa sala, mas tampouco ali pisavam o tapete os pés impacientes do cerimonioso dono da casa.

– Ah! pensei, talvez haja alguma outra regra de etiqueta que eu tenha esquecido. Sem dúvida, meu primo espera-me no salão a fim de me dar o tempo necessário para que me lave e escove e esteja apresentável à hora do jantar.

– Acompanhe-me ao quarto que me destinam, disse a outro criado que tomou conta da minha manta de viagem.

Segui este novo guia resignadamente, observando que me hospedavam um pouco alto; mas quando me encontrei só pensei que talvez tivesse sido precedido por alguns outros hóspedes que ocupassem quartos mais ricamente mobiliados que o meu.

Quando terminei apressadamente a minha toilette, toquei a campainha, apareceu novamente o criado e pedi-lhe que me acompanhasse ao salão. Pelo caminho, fui construindo algumas frases discretas para entabular conversação com os diferentes membros da minha parentela. Eu não sou fluente, mas quando quero ser agradável consigo-o algumas vezes e naquele dia estou bem certo de que não teria representado mal o meu papel.

O criado abriu a porta e retirou-se ato contínuo, fechando-a. Em vez de fazer surpresa, fiquei eu próprio surpreendido ao encontrar-me só numa enorme sala, mal-iluminada, se é que não estava completamente às escuras.

Mas não, não me encontrava só, porque numa poltrona, junto do fogão, estava preguiçosamente reclinada uma menina em cujo rosto se refletiam as labaredas vermelhas da chaminé. Era uma rapariga de quinze ou dezesseis anos, modestissimamente vestida com uma bata de lã escura, que estava estropiando a vista lendo à luz do fogão. Tinha a cabeça encostada ao espaldar da poltrona, coberta com as madeixas de abundante cabeleira loira, e sustentava o livro aberto à altura dos olhos.

A jovem estava tão absorvida com a leitura, a porta tinha sido aberta tão de mansinho e a sala era tão grande, que me vi obrigado a tossir uma ou duas vezes para chamar a sua atenção. A princípio assustou-se; depois, deixando cair o livro, endireitou-se na cadeira, estendeu a mão e pegou num objeto que eu não tinha visto ainda e estava junto da poltrona: uma muleta. Apoiando-se nesta muleta, levantou-se, e ficou de pé diante de mim…

A pobre menina era coxa.

Apresentei-me eu próprio e o meu nome tranqüilizou-a. Convidou-me a sentar-me dando-se ares de pessoa da casa. Levantou o livro, pô-lo sobre os joelhos, e depois, metendo a mão num dos ângulos da poltrona, tirou uma rede em cujas malhas aprisionou os seus abundantes cabelos.

Terminada esta operação ficou com as mãos apoiadas nas muletas (porque tinha duas) como se se preparasse para me deixar só logo que eu lhe dissesse que ela era ali de mais.

– Tompson, disse-me como quem se desculpa, julgou sem dúvida que não estava aqui ninguém. Eu estou sempre nos aposentos dos meninos, salvo quando os senhores saem. Então desço ao salão para me entreter um pouco lendo.

– O sr. Rutland não está em casa? perguntei.

– Não; foram jantar fora.

– Deveras? Então seu pai não recebeu a minha carta!…

Ouvindo estas palavras, ruborizou-se.

– Eu não sou filha de Rutland. Chamo-me Teresa Ray, e sou órfã. Meu pai, que era parente afastado e amigo do sr. Rutland, recomendou-me a este à hora da morte… e o sr. Rutland trouxe-me para sua casa… por caridade.

Pronunciou esta última frase com amargura; mas, depois de morder os lábios, continuou:

– Nada sei relativamente à carta de que me fala; mas parece-me ter ouvido dizer que esperavam alguém… Sem dúvida não julgavam que o senhor chegasse esta noite, visto que toda a família foi jantar na casa de uns vizinhos.

– Bonita conclusão! disse eu com os meus botões. E pus-me a refletir na afetuosa recepção que me fizera meu primo Jorge. Se era eu que ele esperava, não havia dúvida de que a carta tinha chegado ao seu destino, e portanto sabia, não só o dia, mas também a hora da minha chegada.

– Oh Jorge, meu bom primo, tu não mudaste!

Enquanto assim pensava, notei que a jovem tinha fixos em mim os seus grandes olhos observadores, cuja curiosa expressão podia facilmente traduzir. A ter coragem para tanto, ter-me-ia dito:

– Também eu leio claramente no seu pensamento, senhor viajante, e tenho pena do senhor. Veio aqui com uma esperança que verá frustrada. Melhor teria feito demorando a sua visita até que o convidassem. Que vem o senhor fazer aqui? Se eu pudesse sair desta casa nunca mais tornaria a pôr os pés aqui. Se nesse mundo donde o senhor vem eu visse qualquer caminho aberto, tenha a certeza de que iria por ele com decisão, apoiando-me nas minhas muletas. Juro que não tornaria a ter o gosto de ver-me aqui, nem sequer para roubar uma hora ao aborrecimento nesta magnífica poltrona estofada.

Como pode dizer tanto um olhar? Eis um enigma; mas o fato é que o olhar de Teresa Ray me dizia tudo isso, palavra por palavra. Um laço de simpatia unia-nos rapidamente.

– Miss Ray, disse-lhe, que pensará de um homem que depois de passar quinze anos da sua vida no estrangeiro, tem o descaramento de voltar à pátria sem um xelim no bolso? Não lhe parece que merece ser apedrejado?

– Eu supunha isso mesmo, respondeu ela movendo a cabeça e dirigindo-me outro dos seus penetrantes olhares. Eu supus isso mesmo quando vi que lhe destinavam um dos piores quartos, reservando os melhores para as visitas que são esperadas na semana próxima. No dia de Natal a casa estará cheia… Eu não posso admitir o que o senhor me disse.

– Que é que não pode admitir? perguntei.

– Que não tenha um xelim no bolso. Rir-se-iam todos à sua custa e os criados sabê-lo-iam logo. Eu tenho um guinéu que a boa lady Thornton me deu no dia do meu aniversário e se me permite que lhe empreste, dar-me-á com isso muito prazer. Não me faz falta e o senhor restituir-me-á quando for rico.

Fez-me este oferecimento com tanta gravidade, que tive de fazer um esforço para não desatar a rir. A pequena tomava-me evidentemente sob a sua proteção e, adivinhando para mim afrontas que se considerava no dever de evitar, amparava-me com a sua experiência e com a sua superior perspicácia.

Pareceu-me muito divertido o deixar-me proteger por ela e entregar-me àquele amável interesse que lhe despertava a minha situação financeira.

Pelo que, deixando-me arrebatar por uma intimidade espontânea, lhe respondi com a maior gravidade:

– Agradeço o seu oferecimento e aceito-o. Tem aí o guinéu?

– Não, mas vou buscá-lo. E apoiando-se nas muletas saiu para voltar poucos minutos depois com uma bolsinha que me entregou. Abri-a e encontrei um guinéu cuidadosamente envolvido em papel prateado.

– Sinto não ter mais, disse-me ao ver que eu metia a bolsinha na algibeira, mas recebo tão poucos presentes deste gênero!

Nesse momento, o orgulhoso criado que me tinha acompanhado até à porta do salão, veio anunciar-me que tinha o jantar na mesa.

Quando acabei de jantar tive o desgosto de saber que a minha pequena benfeitora estava junto dos meninos. Não a tornei a ver naquela noite e dormi até o dia seguinte pela manhã.

II

No dia seguinte, ao almoço, apresentaram-me a toda a parentela. Encontrei primos e primas tal como os havia imaginado. O primo Jorge convertera-se num grave chefe de família.

– Alegra-me muito tornar a ver-te, disse apertando-me a mão; mas compreendi que não se alegrava em demasia. A mamã Rutland fez-me também o mais cortês acolhimento… de palavras. Os jovens priminhos trataram-me com certo desdém do melhor tom. Era preciso ser mais cândido do que me havia julgado na véspera a minha protetora para não perceber o lugar que me reservavam… debaixo da mesa.

Eu estava condenado a esse papel que só se aceita no caso de uma extrema necessidade: o papel de uma personagem sem importância.

Jorge entreteve-se alguns dias mostrando-me as suas extensas propriedades; mas quando chegaram hóspedes de mais consideração fiquei abandonado aos meus próprios recursos para passar o tempo. As filhas de Rutland tinham-me dispensado a honra de aceitar a minha escolta quando passeavam a cavalo; mas desde que tiveram outros cavaleiros mais distintos à sua disposição já não houve cavalo para mim. Quanto à castelã, minha nobre prima, dissimulava mal o aborrecimento que lhe causava a minha importuna visita, se bem que nem Jorge nem sua mulher ocupassem a alta situação que a herança de meu tio lhes conferia no condado. Não eram, precisamente, nobres de fresca data, mas eram de uma grande mesquinhez. Por isso sentiam-se humilhados tendo na sua nobre companhia um parente pobre que se roçava por eles e lhes chamava primos. Confesso que experimentava um prazer maligno em fingir que não percebia o papel que desempenhava em Rutland-Hall. Tudo me parecia bem, inclusive as chufas que me dirigiam, e em vez de me incomodar, esforçava-me por parecer cada vez mais amável, agradecendo todas as atenções de que não era objeto. Bem sabia eu que não era este o melhor meio para me tornar simpático aos olhos de meus primos. Mais lhes teria agradado um pouco de suscetibilidade da minha parte; mas eu era tão feliz desfrutando a hospitalidade daquele suntuoso castelo! Ele era como que o porto de salvação após uma viagem tormentosa… E vendo-me tão bem acolhido por tão carinhosos parentes, como não havia de sentir-me de bom-humor!

Além disso, eu desfrutava tanta liberdade como os outros hóspedes de Rutland-Hall, que de moto próprio escolhiam as suas distrações e dispunham do seu tempo. Quando me aborrecia com a palestra do salão, ia para os aposentos dos meninos, onde cresciam cinco rebentos da família. Havia uma hora do dia em que nem o papá, nem a mamã, nem os irmãos mais velhos entravam naquele pequeno reino: às cinco da tarde, quando os meninos tomavam chá. Eu tinha conquistado pouco a pouco a boa vontade de Jenny, a criada particular dos priminhos, muito sensível aos presentinhos que eu lhe fazia intencionalmente, e muito discreta quando sabia que a sua discrição seria recompensada. Até os próprios pequenos me tinham um certo afeto, conquanto não fossem precisamente uns anjos; mas eu tinha encontrado o caminho dos seus corações presenteando-os com livros de estampas, polichinelos, bonecas e guloseimas que adquiria com o guinéu de Teresa Ray. Esta admirava-se das coisas que eu comprava com uma única moeda de ouro e elogiava a minha habilidade para obter tudo tão barato.

Por má que fosse a minha situação em Rutland-Hall a de Teresa Ray era simplesmente intolerável.

Uma alma menos resoluta teria sucumbido, e uma natureza menos delicada teria perdido toda a doçura com que o céu a tivesse dotado. Os criados não tinham com ela a menor atenção, os pequenos achincalhavam-na, sacrificando-a a todos os seus caprichos. Só Jenny tinha certa simpatia pela pobre rapariga, mas apenas a defendia da perseguição dos seus tiranos quando podia fazê-lo sem se expor também à sua tirania.

Infelizmente não estava autorizada a fazê-los entrar na ordem pelo único meio que teria impressionado aqueles meninos mal-educados. Pelo que respeitava às filhas mais velhas de Rutland, a presença momentânea da órfã ou a simples menção do seu nome bastavam para perturbar a paz de suas almas.

– Que havemos de fazer desta rapariga, ouvi dizer um dia à senhora Rutland, falando com uma de suas filhas. Se não fosse coxa poderíamos obrigá-la a ganhar o pão de uma maneira ou de outra; mas necessitando de muletas para andar…

A senhora de Rutland não acabou a frase, mas o seu pensamento ficou clarissimamente expresso com um desdenhoso movimento de ombros e certo trejeito com que os seus lábios supriam perfeitamente as reticências da linguagem.

Como suportava Teresa Ray tudo isto? Sem se queixar nem protestar, sem lágrimas e sem entreabrir os lábios. Sob o seu simples traje negro havia uma verdadeira armadura de resignação angélica. A experiência parecia demasiado amarga, mas ela submetia-se sem humildade degradante, com uma expressão tranqüila no olhar, que parecia dizer:

– Por muitos que sejam os sofrimentos que me imponham saberei calar-me, porque nada me devem e talvez sofresse mais em outra parte. A gratidão impede-me de me queixar.

Casualmente encontrei pela segunda vez a minha pequena benfeitora um dia ou dois depois da nossa primeira entrevista no salão. Nos terrenos anexos ao solar reatamos a conversação do dia anterior, e havia para mim tal doçura na sua simpatia, que acrescentei mais alguns capítulos à novela da minha falta de recursos e de todas as dificuldades que me esperavam no país natal, onde quinze anos de ausência me faziam quase estrangeiro. Com que encantadora credulidade me escutava! Que belos conselhos me deu! Com que amável interesse me ofereceu, ao separarmo-nos, dar-me outros conselhos em melhor ocasião!

Ainda mesmo que meu querido primo e minhas simpáticas primas não me tivessem abandonado tanto, privando-me do prazer de os acompanhar nas suas excursões, eu teria preferido sempre o prazer de procurar Teresa Ray nos seus passeios solitários ou nos aposentos dos pequenos, onde praticava o meu sistema de corrupção com o mesmo cuidado que empregaria se se tratasse de uma intriga eleitoral. A conversação em passeio agradava-me muito mais que na barulhenta sala dos pimpolhos, onde mantinha a minha popularidade e a minha influência com tão pouco dinheiro. Mais de uma vez me esqueci dos rigores da estação escutando Teresa Ray que, coxeando nos atalhados da horta, queria resolver algum novo problema que eu propunha para aprender com ela a arte de conseguir com pouco dinheiro uma existência agradável. Um dia parou subitamente e cravando as muletas na neve endurecida, disse-me:

– O senhor devia deixar Rutland-Hall e procurar trabalho… Oh! se eu pudesse trabalhar…

III

Chegou a Rutland-Hall um tal sir Harry. Como não estou muito certo da ortografia do seu outro apelido, creio que não há necessidade de escrevê-lo. Era um solteirão rico, pertencente a uma família nobre, e a castelã observava com interesse todos os seus atos e movimentos. O tal sir Harry teve o capricho de ir todos os dias até a horta fumar um charuto, e encontrou mais de uma vez a minha pequena benfeitora, a qual notou que ele a olhava com modo muito singular, o que acabou por provocar uma pudica exaltação na cor do seu rosto, tão lindo como fresco. Torceu caminho, como a lebre que espera despistar o caçador; mas sir Harry soube encontrá-la de novo e assediou-a com os seus galanteios, cheios de lugares-comuns. Chegou o caso aos ouvidos da senhora de Rutland, que inventou uma porção de trapalhadas a propósito da pobre órfã. Ignoro as tristes acusações que lhe dirigiu, dando-lhe por fim uma reprimenda que durou uma hora; mas nessa noite, quando entrei nos aposentos dos pequenos com uma bola de borracha para Jack, o mais novo e o menos tirano da família, percebi pelos olhos inchados de Teresa Ray que a pobrezinha chorara uma torrente de lágrimas. Contive-me para não dizer em voz alta o que pensava da senhora Rutland, e quando Jenny interveio para apaziguar o tumulto promovido porque o primo Guy não tinha trazido um presente para cada menino, eu disse a Teresa Ray:

– Então! Para quando guarda a sua filosofia?

Doravante não admitirei nenhuma reconvenção se continuar a dar-me tão mau exemplo.

Teresa não me respondeu uma única palavra nem desviou o olhar do guarda-fogo. O golpe tinha sido rude e a ferida profunda. Ah! sr. Harry e senhora de Rutland, com que prazer eu teria feito rolar as vossas cabeças naquele momento.

– Teresa, disse-lhe, a menina ainda tem um amigo, embora de fraco valimento.

Então dirigiu-me uma dessas respostas mudas que eu estou bem certo de ter traduzido literalmente e que dizia:

– Tem razão; deposito no senhor toda a confiança, mas neste momento não posso falar.

Recobrou, contudo, gradualmente a tranqüilidade e aproximou-se da mesa para tomar a sua xícara de chá com biscoitos, enquanto eu consertava o desmantelado arco de Tommy.

Tommy era o mais turbulento e malicioso daqueles selvagenzinhos, um pequeno chefe bárbaro, a quem, dois dias depois, eu teria dado uma boa surra. Lembrou-se de dizer a Teresa uma das suas graçolas mais pesadas. Tirou-lhe as muletas, e servindo-se delas, imitando a pobre coxa, saiu da sala e só voltou depois de as ter feito em pedaços.

Foram inúteis todas as súplicas de Teresa ao maldoso fedelho. A pobrezinha ficou prisioneira durante as festas do Natal, sem poder fazer outra coisa que contemplar os campos através dos vidros da janela.

Tommy ria-se da sua resignação… mas talvez eu faça mal acusando Tommy.

Suspeitava então e continuo suspeitando que outra cabeça, que não era a daquele diabinho, era a inventora da conspiração contra o pobre pássaro, a fim de que não saísse da sua gaiola.

O pássaro definhava no seu ninho, mas quem se compadecia dele? Talvez Jenny, que por compaixão ou porque participava das generosidades do meu inesgotável guinéu, se atreveu a lamentar em voz alta a situação da prisioneira e a condenar o procedimento de Tommy.

Não quero fazer acreditar ao leitor que o inesgotável guinéu era uma dessas milagrosas moedas de ouro que, nos contos de fada, recheiam a bolsa de Fortunato. Sem explicar ainda todo o mistério, direi contudo que havia, como eu, outra pessoa que se interessava pela órfã, e essa pessoa era a mesma lady Thornton que lhe havia dado o guinéu, a qual era, não só bastante rica, mas também bastante caridosa para, se eu lhe tivesse pedido, me ter emprestado mais alguns guinéus.

Lady Thornton vinha de vez em quando a Rutland-Hall e eu tinha feito todo o possível para conquistar sua simpatia.

Durante a prisão de Teresa Ray teve lugar uma dessas visitas e quis o acaso que eu me encontrasse só no salão quando ela entrou. Vinha convidar toda a família e todos os seus hóspedes, grandes e pequenos, a festejarem a noite de Natal no seu castelo, situado a três ou quatro milhas de Rutland-Hall.

Aproveitei a ocasião para lhe contar a história das muletas de Teresa.

– Que pequeno travesso! Que pequeno travesso! exclamou. É preciso que Teresa tenha outras muletas para a festa do Natal.

A boa lady fixou em mim um olhar perscrutador através das lentes dos seus óculos.

– Que espécie de interesse lhe merece Teresa? perguntou.

– Eu e Teresa somos dois bons amigos.

– O senhor e Teresa! Permita-me que lhe peça explicações, porque ignoro se o senhor sabe que Teresa Ray tem dezoito anos.

– Dezoito anos? Deveras? Pois eu julgava-a ainda uma criança!

– Teresa não é uma criança, sr. Guy Rutland. Teresa é já uma senhora.

Teresa Ray uma senhora! Não pude deixar de rir. Como assim? A minha pequena benfeitora, a minha mamãzinha… O meu riso devia ter escandalizado lady Thornton, mas Christina Rutland, que entrou nesse momento no salão, pôs termo à difícil situação.

No entanto, mais de uma vez durante o dia caí na gargalhada, lembrando-me do caso. Teresa Ray uma senhora! Que idéia!…

IV

Ainda faltavam cinco ou seis dias para a festa a que lady Thornton nos havia convidado, quando ocorreu um incidente curioso, que determinou um conselho dos donos da casa, na biblioteca, antes do almoço.

Chegara de Londres uma grande caixa endereçada a miss Teresa Ray, e quando a abriram encontraram um par de muletas.

E que par de muletas! Uma obra de arte no seu gênero, madeira esculpida, com incrustações de madrepérola, aplicações de prata e almofadinhas de veludo bordado.

Os srs. de Rutland estavam assombrados! Quem teria feito aquele magnífico presente? Quem? E quem, fora de Rutland-Hall, tinha ouvido falar de Teresa Ray? Recaíram suspeitas em sir Harry, e eu esfreguei as mãos de contente, rindo perdidamente, ao ter conhecimento do caso.

Mas o grande conselho ponderou ainda o seguinte:

Entregariam a Teresa Ray aquele rico presente? De modo nenhum; o melhor seria fingir ignorância do caso. Aquelas muletas não estavam em harmonia com a situação da órfã e podiam inspirar-lhe idéias absurdas! Apesar das suas novas muletas, Teresa Ray continuaria prisioneira. Ocultaram a caixa e ninguém disse palavra sobre a existência dela.

Esperei alguns dias para ver se os srs. de Rutland reconsideravam, mas tudo foi inútil. O pássaro continuava definhando na gaiola, sem que nenhuma mão amiga se mostrasse disposta a abri-la, restituindo-lhe a liberdade.

Enquanto toda a gente se movia em volta de Teresa Ray, preparando-se para gozar o convite de lady Thornton, Teresa continuava sentada, costurando aventais para as criadas ou remendando as meias dos pequenos, que a viam impávidos, arrastando-se pela sala ou dirigindo os seus tristes olhares para a janela. Mostravam-lhe as roupas que estreariam na noite da festa e os laços com que adornariam os chapéus. Naquele dia, como nos restantes do ano, Teresa ficaria só em casa com o seu vestidito preto.

Suspirando, Teresa tinha-se despedido daquela festa, para a qual tinha sido inutilmente convidada, assim como os que lhe diziam: i…˜Despacha-te, Teresa, que se vai aproximando o dia; ainda falta pôr estas fivelas nos sapatos ou fazer um laço para o vestido. No entanto, estas palavras eram de todo desnecessárias, porque a pobre mamãzinha trabalhava com a atividade de uma abelha.

A ninguém ocorria dizer a Teresa:

– E tu, que vestido vais usar?

Como imaginar que Teresa podia ir à festa com a sua perna coxa e sem muletas?

Contudo, alguém pensava nisto; alguém que tinha dito: um vestido novo de seda irá divinamente em Teresa, e um laço cor-de-rosa ou azul destacará muito bem entre os seus cabelos louros.

No próprio dia da festa eu tive que tratar de um assunto urgente na cidade mais próxima, e à tarde, antes de regressar a Rutland-Hall, entrei em casa da melhor modista para trazer certa caixa de papelão.

– Quer ver o vestido da senhora?

Abriram a caixa e desdobraram um vestido de seda com aplicações de rendas, que eu não posso descrever em termos técnicos, mas em que pude admirar a elegância do corte e a harmonia das cores.

– Desculpe-me, mas parece-me que a saia está um pouco larga.

– Como o senhor disse que era para uma menina de dezoito anos e elas agora vestem tal qual as mães…

Era já tarde quando voltei a Rutland-Hall e vi partir as carruagens repletas de alegres convidados. Subi rapidamente aos aposentos dos pequenos com a minha caixa debaixo do braço e encontrei Teresa só com Jenny, a fronte apoiada na mão, contemplando melancolicamente a alcatifa cheia de pedacinhos de gaze e seda.

Vendo-me, o seu rosto iluminou-se.

– Ah! disse-me, pensei que tinha ido com os outros.

– Ainda não, mas não tardarei a reunir-me a eles e venho buscá-la.

– Eu! eu! exclamou tristemente; bem sabe que não posso ir, porque ainda mesmo que tivesse muletas não tinha o que vestir.

– Um amigo mandou-lhe um vestido e eu sei, também, que há muletas. Jenny tome conta desta caixa e ajude a vestir a menina Teresa, porque a carruagem espera-nos.

Teresa ruborizou-se e os olhos marejaram-se-lhe de lágrimas; depois empalideceu sufocada pela comoção, enquanto Jenny, a quem eu tinha feito um bom presente de Natal, se extasiava diante do conteúdo da caixa.

– Teresa, disse-lhe pela segunda vez, não há tempo a perder; estarei de volta dentro de dez minutos.

E deixei-a trêmula e docemente emocionada entregue a Jenny, que procedeu imediatamente à toilette.

Teresa estava já vestida quando eu entrei com as muletas incrustadas de prata e madrepérola.

Quando digo que Teresa estava vestida não quero significar que encontrei uma menina com o traje próprio das que vão a uma festa de crianças, mas que o vestido tinha transformado a minha mamãzinha, a minha pequena benfeitora numa jovem elegante, que, vendo a sua imagem no espelho, se assombrava da metamorfose.

Da Teresa de há pouco apenas conservava a linda cabecinha de cândida expressão… Quanto ao resto… sim, lady Thornton falara verdade quando me dissera que a órfã era já uma senhora.

Jenny, que até então tinha tratado Teresa como uma criança, não era a menos assombrada dos três, e eu ignoro o indefinível sentimento que sucedeu à minha surpresa, porque tanto tinha de medo como de satisfação.

Quando apresentei as muletas a Teresa, Jenny mirou-me como se eu fosse algum desses príncipes possuidores de talismã das Mil e uma noites.

Teresa experimentou as muletas e imediatamente atravessou a sala com passo seguro e desceu as escadas até ao vestíbulo. As muletas desapareciam entre as pregas da saia e as aplicações de tule que envolviam os seus alvos ombros.

Com que satisfação me lembrei naquele momento de certa bolsinha e de certo guinéu que ainda estavam ocultos na velha mala que eu tinha escolhido para ir passar uns dias em Rutland-Hall.

A carruagem esperava-nos. Era já tarde para eu me arrepender daquele ato preparado tão discretamente, apesar de me sentir muito mais tímido do que tinha previsto, ao ver-me frente a frente com a atriz, a quem até então havia atribuído um papel tão passivo.

Não descreverei o que se passou naquela memorável noite, nem a sensação que produziu a nossa entrada em casa de lady Thornton. Esta, deixando os hóspedes entregues à sua mortificação, aproximou-se de mim e disse-me ao ouvido maliciosamente:

– Estou ansiosa por ver o desenlace de tudo isto.

Teresa, sem refletir no caso, entregara-se desde o primeiro momento ao prazer de proporcionar uma surpresa aos seus amigos; mas não tardou em recear ter ofendido os srs. de Rutland. Mais de uma vez tremeu nos momentos mais alegres da festa, pensando na tempestade que, mais cedo ou mais tarde, se desencadearia sobre a sua cabeça. Meu primo Jorge e sua mulher não dissimulavam o seu desgosto, e quando chegou a hora do regresso a Rutland-Hall, tivemos a sorte de encontrar ainda a carruagem que nos trouxera, porque não nos ofereceram lugar nas da família.

Quando chegamos fomos avisados de que os srs. de Rutland nos esperavam na biblioteca, onde os encontramos com cara de poucos amigos. A senhora de Rutland encarregou-se de Teresa, deixando-me entregue ao seu caro esposo.

Não quero entrar nos detalhes desta explicação.

– Cavalheiro, disse-me ao concluir o meu amável primo, sofremos demasiado tempo a tua insolente intervenção, e peço-te que saias daqui amanhã.

– Primo Jorge, respondi, não tenho inconveniente em partir já amanhã, mas com a condição de Teresa Ray ir comigo se assim o desejar.

Olhou-me estupefato.

– Sabes, disse-me, que é uma órfã sem um pêni, que eu recolhi por caridade?

– Quero fazer dela minha mulher, se tiver a felicidade de Teresa aceitar a minha mão, repliquei solenemente.

– E uma vez casados, disse-me com ironia, com que pensam viver? Do ar ou à custa da família?

– Tem a certeza de que não será à tua custa, respondi-lhe, lançando-lhe um olhar que nada tinha de humilde. Conheço-te bem, Jorge Rutland.

– Palavras, palavras! Pois bem, não te esqueças de que eu lavo as minhas mãos relativamente ao que possa suceder-te e a Teresa Ray.

– Amém, respondi, e dando uma volta sobre os calcanhares, retirei-me para o meu quarto.

No outro dia muito cedo, bati à porta que dava ingresso aos aposentos das crianças e pedi a Jenny

que acordasse miss Ray e lhe dissesse que eu a esperava no jardim.

– Era dia de Natal, dia de paz e de amor, e conquanto não possa dizer que a paz reinava no meu coração quando abracei com o olhar a paisagem branca de neve, devo confessar que não sentia ódio por ninguém.

Teresa não tardou, mas a mesma Teresa de antes, com o seu vestidinho preto e um tanto envergonhada das suas novas muletas. Senti uma grande alegria ao vê-la assim, porque a linda rapariga que eu criara na noite anterior me fazia medo. Contudo, quanto mais a olhava mais obrigado me via a reconhecer que não era já a simples Teresa a quem tinha tratado como criança antes da metamorfose. Mudara muito, ou talvez fosse em mim que a mudança se operara… ou nos

dois… Apesar de tudo, tal mudança nada tinha de desagradável.

Saímos juntos do jardim e tomamos por um dos nossos atalhos favoritos, onde abrimos mutuamente os corações. Quando voltamos à casa, disse a Teresa:

– Em conclusão, Teresa, não tem receio de viver comigo na miséria? Consente em correr esse perigo?

Teresa respondeu meneando a linda cabecinha.

– Prepare-se, pois, para sairmos daqui depois do almoço. Não traga nada, Teresa. Ainda me resta algum dinheiro do troco do guinéu e com ele compraremos tudo o que for necessário.

Teresa foi buscar o chapéu e voltou. Partimos e ao cabo de uma hora estávamos casados. Rezamos juntos na igreja, um ao lado do outro, e depois voltamos a Rutland-Hall para fazermos as nossas despedidas.

Eu creio que nos tomaram a mim por um doido e a ela por uma estouvada, pelo menos até meu primo Jorge receber a carta-ordem, que eu lhe enviei no dia seguinte contra um banqueiro de Londres, para que cobrasse a importância da despesa feita por minha mulher na sua casa.

Então, e pelo que me dizia respeito, começaram a mudar de opinião.

Percorri o continente com minha mulher. A enfermidade dela não era incurável: o tempo e cuidados inteligentes tornaram inúteis as muletas.

Ninguém, pois, estranhará, que ao regressarmos à Inglaterra os nossos parentes tivessem dificuldade em reconhecer Teresa na senhora Guy Rutland, casada com um milionário. Lady Thornton acolheu-nos com a sua graciosa amabilidade… Mostrei-lhe o milagroso guinéu que ainda conservo muito bem guardado e a que chamo o dote de Teresa. Será necessário dizer que as preciosas muletas incrustadas de prata e madrepérola não tinham sido um presente de sir Harry?

Também as conservo como uma relíquia de família.

Extraído do site A Garganta da Serpente.