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Ruivo (Maksim Górki)

Não há muito tempo, um homem de uns quarenta anos, chamado Vaska e apelidado “Ruivo”, era empregado numa casa de prostitutas de uma cidade do Volga. Devia o apelido ao seu cabelo, que era de um vermelho brilhante e ao seu rosto gordo, que tinha a cor de carne crua.
Com lábios muito grossos e orelhas que se destacavam da cabeça como as asas de um grande vaso, o que nele mais chamava a atenção era a expressão cruel de seus olhos pequenos e incolores. Afundados nas órbitas, brilhavam como dois pedaços de gelo e, apesar da aparência robusta e bem alimentada de seu possuidor, tinham sempre expressão faminta, de uma fome voraz e desesperada.
Baixo e troncudo, usava eternamente uma blusa cossaca, azul, largas calças de lã e botas altas de couro pregueado, sempre bem engraxadas. Seus cabelos encaracolados, quando ele punha seu elegante gorro de peles, formavam uma franja e davam a impressão de que uma grinalda vermelha lhe coroava a cabeça.
Era chamado ruivo por seus camaradas; as mulheres chamavam-no Carrasco, porque ele gostava de torturá-las.
Havia na cidade muitos institutos de ensino superior, e muita gente moça; por isso, a zona de prostituição era todo um bairro, incluindo uma longa avenida e ruas transversais. Vaska era conhecido em todas as casas. Só o seu nome bastava para aterrorizar as mulheres, e quando elas brigavam entre si, ou discutiam com a patroa, esta ameaçava:
– Cuidado! Não me aborreçam, senão eu chamo o Ruivo!
Geralmente esta ameaça era suficiente para acalmar as mulheres e fazê-las esquecer suas queixas, que eram às vezes perfeitamente justas e razoáveis, como, por exemplo, as que se referiam à comida que lhes serviam, ou à proibição de deixar a casa, para dar um passeio.
Mas se a ameaça não fosse suficiente, a patroa mandava chamar Vaska.
Ele vinha, no passo calmo de um homem despreocupado, fechava-se na sala com a patroa, sem fazer comentários, ouvia a narração do crime e o nome da culpada. No fim, dizia simplesmente:
– Está bem…
E punha-se em campo. As mulheres ficavam pálidas e tremiam à sua vista. Ele notava isso, e saboreava-lhes o medo. Se a cena ocorria na cozinha, onde geralmente as mulheres almoçavam ou tomavam chá, ele ficava muito tempo na porta, de pé, olhando para elas, silencioso e imóvel como uma estátua – e elas sofriam tanto naqueles instantes como durante as torturas físicas que ele lhes infligia.
Quando se cansava de contemplá-las, dizia, num tom indiferente, seco:
– Machka, venha cá…
– Vassili Mironich! – a indicada às vezes dizia, numa voz dolorida mas firme — Não me toque! Se você me bater, se você me bater… eu me enforco!
– Venha cá, sua boba, eu te darei a corda… — respondia Vaska, descuidadamente, sem sequer dar à voz um tom de desprezo.
Ele preferia sempre que as culpadas viessem até ele voluntariamente, por si mesmas.
– Eu pedirei socorro!… Eu quebrarei a vidraça!… – desfalecendo de medo, a mulher enumerava tudo o que faria.
– Quebra a vidraça… Eu te farei engolir o vidro. — respondia Vaska.
E na maioria das vezes a recalcitrante desanimava, e caminhava até ele. Se isso demorava muito, Vaska aproximava-se dela, agarrava-a pelos cabelos, e atirava-a ao chão. Eram as próprias amigas da vítima, sofrendo às vezes tanto como esta, que lhe amarravam os pés e as mãos, amordaçavam-na, e a abandonavam ao Carrasco. E ali mesmo, sobre o chão da cozinha, diante de todos, ele executava o castigo.
Se se tratava de uma moça corajosa, capaz de se apresentar na polícia, ele cobria-lhe as costas com um lençol úmido, o que impedia a formação de vergões, e a espancava com uma pesada cinta de couro, que não cortava a pele. Longos cilindros de panos, cheios de areia e pedregulho bem moído, podiam também ser usados. Um golpe nos quadris com semelhante instrumento causa uma dor profunda, que custa a passar…
Contudo, a crueldade da punição dependia mais do tamanho da culpa e da disposição do Ruivo do que do caráter da vítima. Às vezes, mesmo as temerárias ele espancava impiedosamente, sem tomar nenhuma precaução.
Trazia sempre consigo, no bolso traseiro, um chicote formado por três correias presas a um cabo curto de madeira, já polido pelo uso; enrolada em cada correia havia uma espiral de arame fino, que formava uma bainha na ponta. Esse chicote penetrava até os ossos, e, geralmente, para aumentar a dor, o Ruivo aplicava sobre os cortes um emplastro de mostarda, ou panos embebidos em salmoura.
Durante os espancamentos Vaska não demonstrava nenhuma emoção: era sempre o mesmo homem impassível e taciturno, mas seus olhos nunca perdiam a expressão faminta. Apenas, de vez em quando, ele franzia as sobrancelhas, o que tornava seu olhar ainda mais penetrante.
Seus processos de tortura não se limitavam aos diferentes meios de surrar. A imaginação de Vaska era inexaurível no que se referia à invenção de coisas novas e, sem dúvida, ele atingia de quando em quando a máximos de refinamento em suas criações, como, por exemplo, no caso de Vera Kopteva.
Vera trabalhava em uma das boas casas e foi acusada de ter roubado cinco mil rublos de um freguês. Esse freguês, um negociante siberiano, declarou à polícia que estivera no quarto de Vera com esta e uma outra moça, Sara Sherman. Após uma hora mais ou menos, Sara fora-se e ele passara o resto da noite com Vera, na companhia de quem se embebedara.
O processo seguiu seu curso normal. As investigações arrastaram-se como de direito, ambas as acusadas foram presas, julgadas e, por insuficiência de provas, absolvidas.
Contudo, quando chegaram a casa, de volta do tribunal, foram submetidas a nova investigação: a madame estava convencida de que elas eram culpadas e queria sua parte no roubo.
Sara conseguiu provar que nada tinha a ver com o negócio e a patroa resolveu forçar Vera a indicar-lhe onde escondera o dinheiro. Para tal, trancou-a na casa de banhos e sujeitou-a a uma dieta de caviar salgado. Apesar disso, Vera não confessou. Tornou-se necessário recorrer à intervenção de Vaska. A cafetina prometeu-lhe cem rublos pela descoberta do dinheiro.
No meio da noite, o carrasco apareceu diante de Vera, que jazia encolhida num canto do aposento, atormentada pela sede, pela escuridão e pelo medo. Do peito peludo de Vaska desprendia-se uma fumaça azulada que cheirava a enxofre; no lugar de seus olhos estavam duas brasas fosforescentes. Ele chegou o rosto bem perto da mulher e gritou, numa voz aterrada:
– Você roubou! Confesse!
Ela enlouqueceu de terror.
Era inverno. Na manhã seguinte, descalça, pisando a neve funda do pátio, vestida apenas com uma combinação, Vera foi trazida da casa de banhos para o edifício principal. Ela veio rindo baixinho e repetindo alegremente:
– Amanhã eu irei de novo à missa, com mamãe. Irei de novo à missa!
Quando Sara Sherman a viu nesse estado, disse bem alto, na frente de todos, em tranqüila estupefação:
– Mas fui eu que tirei o dinheiro.
Era difícil saber se as mulheres odiavam Vaska mais do que o temiam.
– Todas entregavam-se a ele, tentando ganhar-lhe a simpatia. Todas ansiavam pela honra de ser sua favorita. Ao mesmo tempo, sem que Vaska soubesse, instigavam os fregueses mais amigos e os colegas de Vaska para que lhe dessem uma sova. Mas ele era incrivelmente forte e nunca se embebedava. Seria difícil vencê-lo. Mais de uma vez colocaram arsênico em sua comida, em seu chá, em sua cerveja, e um dia ele chegou a ser envenenado, mas curou-se. Um certo instinto prevenia-o das ciladas que lhe armavam. Contudo, pelo menos aparentemente, o conhecimento do risco que corria por viver entre incontáveis inimigos não aumentava nem diminuía sua fria crueldade para com as mulheres. Com sua habitual impassibilidade, costumava dizer:
– Eu sei que vocês me reduziriam a cacos, se pudessem… Mas não se preocupem. Nada me acontecerá.
E apertando os lábios grossos, fungava na cara das mulheres. Era seu modo de rir-se delas.
Seus companheiros eram empregados nas outras casas, inspetores de polícia, detetives privados – a espécie de gente que vive em redor das prostitutas. Mas, mesmo entre eles, não tinha amigos. Não havia um só de seus conhecidos que gostasse de ver mais do que os outros. Tratava-os a todos com a mais completa indiferença. Bebia com eles, conversava em sua roda sobre os escândalos que todas as noites surgiam na zona. Contudo, nunca deixava a casa em que era empregado; a não ser a serviço, isto é, para administrar uma surra, ou como ele dizia, para infundir o temor de Deus na alma de alguma perdida.
A casa de que tomava conta era de tipo médio. Três rublos para entrar, cinco para passar a noite. A proprietária, Fekla lermolaievna, era uma cinqüentona corpulenta, estúpida mas maliciosa. Considerava muito Vaska, apesar de temê-lo também, e pagava-lhe quinze rublos por mês, dando-lhe ainda casa e comida. Ele morava num pequeno quarto no segundo andar e, graças a ele, reinava na casa a mais perfeita ordem. As onze mulheres que moravam no estabelecimento viviam mansas como cordeiros.
Quando a proprietária estava de bom humor, conversava com os fregueses, e discorria sobre suas mulheres como quem se refere a porcos ou vacas.
– As minhas são de primeira classe – dizia, sorrindo, cheia de orgulho. — São todas novinhas e sadias. A mais velha tem vinte e seis anos. Claro, ela não é uma pessoa com quem se possa ter uma conversa interessante, mas, em compensação, que corpo! Olhem para ela: uma maravilha! Ksiuchka, venha cá…
Ksiuchka vinha, rebolando como um pato. O freguês a examinava, com maior ou menor atenção, e sempre ficava satisfeito com seu corpo.
Ksiuchka era uma moça de altura média, rechonchuda, e dava a impressão de ter sido talhada numa só peça, tão firmes eram as linhas de seu corpo. Tinha seios altos e fartos, rosto redondo, a boca pequena, de lábios grossos, vermelhos e brilhantes. Seus olhos, vazios e absolutamente desprovidos de expressão, pareciam os de uma boneca. O nariz chato e uma franjinha que lhe cobria a testa, tornavam ainda mais acentuada a sua aparência de boneca, e destruíam no menos apressado dos fregueses o desejo de entabular conversação, qualquer que fosse o assunto. Por isso, todos se limitavam a dizer-lhe:
– Venha.
E ela ia, no seu andar bamboleante, sorrindo seu sorriso sem sentido, e rolando os olhos de um lado para o outro. Isto lhe fora ensinado pela madame e se destinava a “seduzir o freguês”. Tinha de tal modo acostumado os olhos a essa operação que a iniciava no momento em que, ao cair da noite, vestida a caráter, entrava no salão ainda vazio. E seus olhos não paravam até à madrugada, não importando que estivesse sozinha, ou apenas com as outras mulheres. Tinha ainda outro hábito curioso: costumava enrolar sua longa trança cor de junco novo em volta do pescoço, deixando cair a ponta entre os seios, onde a segurava com a mão esquerda, como se eternamente usasse um laço ao pescoço.
Sua história, como ela a contava, era curta e sem interesse. Dizia chamar-se Aksinia Kalugina, ter nascido na província de Riasan e ter um dia “pecado” com Fedka, e por isso dado à luz uma criança. Como ama de leite, viera para a cidade com a família de um oficial reformado, mas perdera o emprego porque seu filho morrera. Então, fora “contratada” pela dona do bordel. E ali estava há quatro anos…
– Gosta disso aqui? — perguntavam-lhe.
– Não tenho queixa. Há bastante comida, tenho sapatos, roupa… Pena é que não se tem sossego… E ainda há Vaska… Ele bate na gente, o demônio.
– Mas aqui… é alegre?
– Onde? — indagava — virando a cabeça e correndo os olhos pela sala, como se quisesse saber onde o freguês tinha visto a alegria.
Em torno dela havia ruído e algazarra, e tudo ali lhe era familiar, a madame, as outras mulheres, as tábuas do forro, tudo.
Falava numa voz cheia e grave, e ria só quando lhe faziam cócegas, e o riso fazia tremer-lhe o corpo inteiro, um riso alto e grosseiro, como o de um mujik. A mais estúpida e sadia das mulheres era talvez a menos infeliz.
Naturalmente, era na casa onde trabalhava que Vaska era mais temido e mais odiado. Quando bêbadas, as mulheres não escondiam seus sentimentos, e abertamente queixavam-se de Vaska aos seus fregueses. Mas, como afinal os fregueses não tinham vindo ali para defendê-las, essas queixas não tinham sentido nem resultado. Às vezes uma das moças levava suas lamúrias até ao histerismo, com gritos e choro. Se Vaska a ouvia, sua cabeça vermelha aparecia na porta, e ele dizia na sua voz oca e indiferente:
— Ei!… Você aí, não seja criança.
— Carrasco! Monstro! – gritava a mulher. – Você me desfigurou! Olhe, moço, olhe como ele deixou as minhas costas! — e a mulher tentava rasgar a combinação para mostrar as cicatrizes.
Nessa altura Vaska aproximava-se, tomava a mão da moça, e sem mudar de voz — o que era particularmente terrível —• repreendia-a:
– Não faça barulho! Vamos! Veja o que está dizendo! Cuidado!
As mulheres nunca tinham ouvido de Vaska uma palavra amável, se bem tivesse dormido com quase todas elas. Ele as tomava sem a menor cerimônia. Se uma o agradava, dizia:
– Hoje, vou ficar com você.
E dormia com ela durante alguns dias, semanas, até que, sem explicações, deixava de procurá-la.
— Que demônio! – diziam dele as mulheres. – Parece feito de pedra!
Na casa em que vivia fizera isso com quase todas as mulheres, inclusive com Aksinia. E foi numa das ocasiões em que Aksinia era a favorita que ele lhe deu uma surra impiedosa.
Sadia e preguiçosa, ela gostava muito de dormir, e às vezes adormecia na sala, apesar de todo o barulho. Sentada num dos cantos cessava bruscamente de “seduzir o freguês” com seus estúpidos olhos, que, de repente, se fixavam em alguma coisa; logo suas sobrancelhas desciam vagarosamente, enquanto seu lábio inferior caía um pouco, descobrindo-lhe os dentes grandes e brancos. E, tranqüilamente, começava a roncar, o que provocava verdadeiros acessos de riso entre os fregueses e as outras mulheres. Mas esse riso não acordava Aksinia.
Isso acontecia freqüentemente. Madame gritava com ela e a esbofeteava, mas isso não afugentava seu sono. Aksinia chorava de novo um pouco, e adormecia.
E assim foi, até o Ruivo entender que era tempo de tomar providências.
Uma noite, quando a moça adormeceu num sofá, ao lado de um freguês bêbado que também cochilava, Vaska puxou-a pela mão, acordou-a e, sem dizer nada, levou-a com ele.
– Você vai me bater, de verdade? – perguntou Aksinia.
– É preciso – disse Vaska.
Quando chegaram à cozinha, ele lhe ordenou que se despisse.
– Ao menos não me machuque muito – pediu ela.
— Vamos com isso, vamos…
Antes de tirar a camisa, ela deteve-se.
– Isso também – ordenou Vaska.
– Como você é ruim — suspirou a rapariga, pondo-se nua.
Com a correia, Vaska deu-lhe o primeiro golpe, nas espáduas.
– Vamos para o quintal!
– Vaska, por favor! Estamos no inverno! Vou gelar!
Ele empurrou-a porta a fora, batendo-lhe até chegarem ao quintal. Lá, ordenou-lhe que se deitasse sobre um monte de neve.
– Vaska… como é que você pode fazer isso?
– Vamos, vamos!
Para que seus gritos não pudessem ser ouvidos, ele empurrou-lhe a cabeça, afundando-a na neve, e surrou-a por muito tempo, repetindo a cada golpe:
– Não durma, não durma, não durma…
Quando ele a soltou, entre soluços e lágrimas a rapariga exclamou:
– Você não perde por esperar, Vaska! Há de chegar o seu dia!… Você há de chorar, também! Há um Deus, Vaska!
— Não resmungue — respondeu ele, calmamente. – Durma de novo na sala que eu faço o que fiz hoje e depois derramo água em cima de você…
A vida tem sua sabedoria, que se chama acaso. O acaso às vezes nos premia, mas é mais comum que ele nos castigue e, assim como o sol dá a cada objeto uma sombra, assim a sabedoria da vida dá a cada homem a paga de seus atos. Isto é verdadeiro, é inevitável, e nunca o devemos esquecer…
O dia do acerto de contas chegou também para Vaska.
Uma tarde, quando as mulheres estavam jantando, antes de se arrumarem para ir para a sala, uma delas, Lina Chernogorova, uma moça viva e inteligente, dona de uma linda cabeleira castanha, olhou pela janela e informou:
– Vaska chegou.
As moças resmungaram, aborrecidas.
– E vejam só! – gritou Lina. — Ele está bêbado! Vem uma polícia com ele… Vejam!
Todas correram para a janela:
– Ele veio de carro e está sendo carregado… não pode andar. Meninas! – Lina afinou a voz, tal era sua alegria – Ele sofreu algum desastre!
A cozinha encheu-se de exclamações e risos maldosos — o alegre riso da vingança. As moças foram até a porta, empurrando-se, correndo, para receber o inimigo tombado.
Vaska entrou, nos braços do policial e do cocheiro. Muito pálido, com grandes gotas de suor escorrendo-lhe pela testa, ele vinha arrastando penosamente a perna esquerda.
– Vassili Mironich! O que foi isso? — gritou a madame.
Desencorajado, Vaska sacudiu a cabeça e respondeu numa voz rouca, irreconhecível:
– Eu caí.
– Ele caiu do bonde – explicou o policial. – Caiu, e ficou com a perna debaixo da roda. Está com a perna quebrada.
As moças estavam imóveis, mas seus olhos brilhavam como brasas.
Acomodaram Vaska em seu quarto, puseram-no na cama, e mandaram chamar um médico. Todas em redor do leito, as raparigas trocavam olhares ardentes, mas continuavam em silêncio.
– Saiam! — gritou Vaska. Nenhuma se mexeu.
– Ah! Estão contentes!…
– Não, estamos tristes – respondeu Lina, com um sorriso hipócrita.
– Fekla Iermolaievna, mande-as embora… o que querem elas?… ver?
– Com medo? – perguntou Lina, curvando-se sobre ele.
– Vamos, meninas, vamos… – ordenou a madame.
Elas obedeceram, mas, enquanto se retiravam, cada uma delas o olhava significativamente, e Lina resmungou, agourentamente:
– Nós voltaremos!
Quanto a Aksinia, ela o ameaçou com o punho, e gritou:
– Ó seu demônio! Então está aleijado? Bem feito…
Tamanha audácia surpreendeu suas companheiras.
Longe do quarto, elas foram tomadas por um verdadeiro êxtase de maldade, de vingança, cuja doçura cruel haviam experimentado. Loucas de alegria, escarneceram de Vaska todo o tempo em termos que assustaram a dona da casa. Ela também estava satisfeita de ver o Ruivo punido pelo destino, porque também tinha suas queixas contra ele, principalmente porque ele a tratava como se fosse o patrão e ela a empregada; mas sabia muito bem que sem ele não conseguiria dominar as mulheres e por isso solidarizava-se de um modo um tanto prudente à alegria geral.
O médico veio, enfaixou a perna do acidentado, receitou, e foi-se embora, dizendo à dona da casa que seria bom mandar Vaska para um hospital.
– E então, meninas, devemos estar ao lado do nosso querido doentinho! – exclamou Lina, num tom de decisão desesperada.
Puseram-se a caminho, com risos e gritinhos.
Vaska estava com os olhos fechados. Sem abri-los, ele disse:
– Vocês voltaram…
– Como temos pena de você, Vassili Mironich!
– Como nós gostamos de você!
– Lembra-se você de quando?…
Falavam baixo mas firmemente e, de novo em redor do leito, contemplavam o rosto pálido do Ruivo com olhos alegres mas ameaçadores. Ele também as contemplava, e nunca brilhou tanto em seus olhos a insatisfeita, a insaciável e incompreensível fome que eles sempre exprimiam.
–  Meninas… Cuidado! Eu me levantarei um dia… Lina interrompeu-o:
–  Ora, talvez, com a graça de Deus, você nunca se levante…
Vaska apertou os lábios, e não respondeu.
–  Qual das suas pernas é que dói, querido? – perguntou uma das moças, aproximando-se dos pés da cama, muito pálida, e com a boca entre aberta, mostrando os dentes. – É esta?
Agarrou a perna enfaixada e puxou-a.
Vaska cerrou os dentes e gritou. Seu braço esquerdo também está ferido; levantou o braço direito e, tentando atingir a moça, deu um soco no próprio estômago.
Uma gargalhada geral sacudiu  as paredes.
– Vacas! – gritou ele, com os olhos injetados. — Eu matarei vocês todas!
Mas elas dançavam em redor da cama, beliscavam-no, agarravam-lhe os cabelos, cuspiam-lhe no rosto, puxavam-lhe a perna quebrada. Seus olhos lançavam chispas, e elas riam, xingavam-no, uivavam como cães. A brincadeira estava tomando um caráter incrivelmente cínico. Estavam de vingança, quase delirantes de amarga satisfação.
Todas de branco, seminuas, encorajando-se umas às outras, eram monstruosas e terríveis.
Vaska rugia de impotência, agitando no ar seu braço direito, enquanto a dona da casa, aterrorizada, gritava da porta:
–  Chega! Chega! Eu chamarei a polícia! Vocês o estão matando… o estão matando!
Não a ouviam. O Ruivo as atormentara por anos e anos e elas tinham apenas minutos para se vingar. Tinham pressa…
De repente a algazarra da estranha orgia foi cortada por uma voz cheia e grave, que implorava:
– Chega! É bastante… Tenham piedade, ele também é… ele também… ele também sente dor! Sejam boas, pelo amor de Deus, sejam boas…
Essa voz agiu como uma ducha sobre as raparigas; assustadas, apressadamente afastaram-se do enfermo.
Aksinia é que falara; estava junto à janela, tremendo dos pés à cabeça, e curvava-se suplicantemente em direção às amigas, ora apertando o estômago com as mãos, ora estendendo-as absurdamente para a frente.
Vaska estava imóvel, estirado na cama. Sua camisa estava rasgada, deixando à mostra seu largo peito coberto de pêlo vermelho, que agora se levantava e abaixava rapidamente, como se alguma coisa estivesse batendo dentro dele, tentando desesperadamente escapar. Um ruído esquisito saía-lhe da garganta, e seus olhos estavam fechados.
Reunidas junto à porta, parecendo formar um só e enorme corpo, as mulheres ouviam em silêncio o soluçar indistinto de Aksinia e os estertores de Vaska. Lina, na frente de todas, estava limpando nervosamente a mão direita dos cabelos vermelhos que lhe tinham ficado entre os dedos.
–  E se ele morrer? – cochichou alguém, sem que ninguém se atrevesse a responder.
Uma atrás da outra, evitando fazer barulho, as mulheres saíram vagarosamente do quarto, deixando-o cheio de farrapos espalhados no chão…
Apenas Aksinia ficou.
Respirando agitadamente, ela aproximava-se de Vaska e perguntou-lhe, com sua voz profunda:
– E agora? Que é que eu posso fazer por você?
Ele abriu os olhos, contemplou-a, mas não respondeu.
– Pode falar, agora… Quer que eu vá embora? Eu irei. Talvez você queira água. Quer água?
Vaska sacudiu a cabeça, silenciosamente, e moveu os lábios, mas não falou.
– Então é isso: você não pode nem falar! – disse Aksinia, enrolando a trança no pescoço. — Nós não fomos muito amáveis, está certo… E doeu, Vaska? Tenha paciência, isso passa… é fé no princípio que dói… Eu sei.
Um nervo tremeu no rosto de Vaska, e ele disse, roucamente:
— Água.
E a inexplicável fome sumiu de seus olhos.
Aksinia permaneceu ao lado de Vaska, aparecendo na cozinha apenas para comer, tomar chá, ou buscar qualquer coisa para o doente. As outras mulheres não falavam com ela, não faziam perguntas, e a proprietária não fazia objeções a seu papel de enfermeira, nem a chamava à noite, para atender os fregueses.
Aksinia acostumou-se a sentar junto da janela, no quarto de Vaska, e olhar para fora, para os tetos cobertos de neve, para as árvores brancas de geada, para a fumaça que subia em nuvens negras para o céu. Quando se cansava de olhar, adormecia ali mesmo na cadeira, com os cotovelos apoiados na mesa. À noite, dormia no chão, junto da cama de Vaska.
Os dois quase não conversavam. Vaska pedia água, ou outra qualquer coisa; ela trazia o que ele queria, olhava-o, suspirava, e voltava para a janela.
Assim se passaram quatro dias. A dona da casa ainda não tinha conseguido arranjar lugar para Vaska em nenhum hospital.
Uma tarde, quando a sombra já tinha invadido o quarto do Ruivo, este levantou a cabeça e chamou:
– Aksinia, você está aí?
Ela estava cochilando, mas acordou.
– Onde havia eu de estar? — replicou.
– Venha cá…
Ela aproximou-se do leito, e deteve-se, como de costume, com a trança em redor do pescoço, e a mão esquerda dobrada, segurando-a.
– O que é que você quer?
– Traga a cadeira e sente aqui perto…
Suspirando, ela foi até a janela, trouxe a cadeira e sentou-se junto à cabeceira da cama.
– Que é?
— Nada, eu… Sente-se um pouco…
Na parede em frente estava suspenso o grande relógio de prata de Vaska, que batia rapidamente. Um trenó passou pela rua, e eles ouviram o deslizar das sapatas. Na casa, as moças estavam rindo, e uma delas cantava em voz muito fina:
– “Um estudante faminto tem meu coração…”
– Aksinia! — disse Vaska.
– O que?
– Ouça… Se nós vivêssemos juntos?
– Já não estamos vivendo juntos? — perguntou ela, preguiçosamente.
– Não, não assim. Eu digo, viver direito…
– Está bem.
– Muito bem…
Ele calou-se e ficou muito tempo com os olhos fechados.
– Sim… Saíremos daqui, iremos para bem longe… começaremos tudo de novo.
– Iremos para onde?
– Para qualquer lugar… Eu vou acionar a companhia de bondes por causa do desastre… Eles têm de pagar, é a lei. Além disso, eu tenho algum dinheiro meu, uns seiscentos rublos.
– Quanto? – perguntou ela.
– Seiscentos rublos.
– Tanto assim?! – comentou a rapariga, bocejando.
– Sim… Só com esse dinheiro eu já posso abrir uma casa, por minha conta… e se eu fizer a companhia pagar alguma coisa… Iremos para Simbirsk, ou para Samara… e lá abriremos uma casa… Será a melhor da cidade… Teremos as melhores mulheres… Cobraremos de entrada cinco rublos.
– Você não quer nada! – disse Aksinia, sorrindo.
– Por que não? É assim que vai ser…
— Não diga!…
– É assim que vai ser… Se você quiser, poderemos casar.
– O quê?! — exclamou Aksinia, pestanejando ridiculamente.
– Poderemos casar. — repetiu Vaska, um pouco perturbado.
– Você e eu?
– Sim. É claro.
Aksinia começou a rir. Na cadeira, com as mãos nos quadris, balançando o busto para a frente e para trás, ela alternava sua conhecida risada, cheia e grave, com um risinho estridente, que nunca ninguém ouvira.
– Que é isso? Que é que você tem? — perguntou Vaska, e de novo surgiu em seus olhos o olhar de fome. Ela continuava gargalhando.
– Por que você ri?
Afinal, do meio de seu riso e seus soluços ela conseguiu dizer:
– Estou rindo do nosso casamento. Você acha que essas coisas são para nós? Há três anos ou mais que eu não entro numa igreja! Que engraçado que você é! Eu, sua mulher… Você decerto quer também que eu lhe dê filhos, não? Ah! Ah! Ah!
A idéia de filhos fez-lhe voltar a vontade de rir. Vaska olhava-a em silêncio.
– E você julga que eu iria a algum lugar com você? Que idéia! Você me levaria para longe, e me mataria. Todo mundo sabe como você gosta de maltratar os outros.
– Ora, cale a boca. – disse Vaska, brandamente.
Mas ela continuou falando de sua crueldade lembrando-lhe incidentes passados.
– Fique quieta — pediu ele. E como ela ainda continuasse falando, ele gritou rudemente: — Fique quieta!
Durante aquela tarde não se falaram mais. À noite, Vaska teve febre e delirou; um ronco, um estertor vinha de seu peito. Trincava os dentes, e agitava o braço direito no ar, às vezes batendo no próprio peito.
Aksinia acordou, e por muito tempo ficou ao lado da cama, contemplando o rosto de Vaska, assustada. Depois, acordou-o.
– Que é que você tem? O fantasma da casa estava te estrangulando, ou o que?
– Nada, eu estava sonhando… — respondeu Vaska, fracamente. — Dê-me um pouco de água.
Depois de beber, ele sacudiu a cabeça e declarou: — Não, não abrirei uma casa. Seria melhor uma loja… É melhor. Não quero uma casa.
– Uma loja… — disse Aksinia, pensativa. — Sim, uma loja… É boa coisa, uma loja.
— Você virá comigo? Você virá? — perguntou Vaska, com serena ansiedade.
– Você quer que eu vá, mesmo? — perguntou Aksinia, afastando-se da cama.
– Aksinia Semionovna — disse Vaska, respeitosamente e bem alto, levantando a cabeça do travesseiro — eu juro por…
Acenou com a mão direita, e calou-se.
– Eu não irei a parte alguma com você — respondeu Aksinia sacudindo a cabeça, resolutamente, depois de esperar que ele terminasse a frase. – A parte alguma!
– Se eu quiser, você irá — respondeu Vaska, serenamente.
– Não irei a parte alguma!
– Mas eu não quero assim… Mas se eu quisesse, você iria.
– Não…
– Que diabo! – exclamou Vaska, irritado. — Você anda por aqui o dia inteiro, tratando de mim, e por que não quer?…
– Isso é outra coisa – explicou Aksinia. – Mas, viver com você, não! Tenho medo de você. Você não presta.
– Ora, você!… Que é que você sabe? – exclamou Vaska, amargamente. – “Não presta”! Você é uma boba. “Não presta”, você diz, e pronto. Decerto pensa que é fácil não prestar.
Calou-se, e ficou em silêncio por algum tempo, esfregando o peito com a mão sadia. Depois, ternamente, com a voz cheia de angústia e os olhos cheios de medo, recomeçou:
– Você está vendo só o que está em cima. “Não presta”, bem, tem certeza que é só isso? Ah! Que é que sempre exigiram de mim? Você virá comigo, Aksinia Semionovna?
— Nem mais uma palavra sobre isso! Não irei! – declarou Aksinia teimosamente, afastando-se com um olhar desconfiado.
Não se falaram mais. O luar entrava no quarto, e sob ele o rosto de Vaska parecia cinzento. Por muito tempo ele ficou acordado, ora com os olhos abertos, ora fechando-os. Ouvia os ruídos da casa: dança, cantorias, risos.
Logo ouviu-se o ronco confortável de Aksinia. Cansado, Vaska suspirou.
Dois dias mais, e a dona da casa arranjou um leito num hospital. Uma ambulância veio para buscar Vaska. Os dois enfermeiros o carregaram cuidadosamente, e na cozinha ele viu todas as moças apinhadas no corredor.
Seu rosto tremeu, mas ele nada disse. Elas o encararam severamente, mas era impossível descobrir pelos seus olhos o que pensavam elas à vista de Vaska. Aksinia e madame ajudaram-no a vestir o sobretudo, enquanto reinava na cozinha um silêncio pesado e soturno.
— Adeus — disse Vaska, de repente, de cabeça baixa, sem olhar para as moças. — Adeus!
Algumas acenaram-lhe com a cabeça, em silêncio, mas ele não o percebeu. Lina disse calmamente:
– Adeus, Vassili Mironich.
– Adeus… Sim…
Os dois enfermeiros suspenderam-no pelas axilas e o conduziram do banco até à porta. Aí ele voltou-se para as moças.
– Adeus. Eu sei, eu era…
Duas ou três vozes responderam:
– Adeus, Vassili!
– Para que fingir? – Sacudiu a cabeça e apareceu-lhe no rosto uma expressão estranha, desconhecida nele. -Perdoem-me… Perdão… Pelo amor de Deus… aquelas… que… que eu…
– Eles o estão levando! Eles estão levando embora o meu querido! – gritou Aksinia selvagemente, deixando-se cair no banco.
Vaska assustou-se, e levantou a cabeça. Seus olhos brilhavam raivosamente. Por um momento ouviu atentamente os gritos dela, e depois, com os lábios a tremer, disse gentilmente:
– Que boba! Que grande boba!
– Venha, venha – disseram os enfermeiros, franzindo a testa.
– Adeus, Aksinia, não se esqueça de ir me ver no hospital – exclamou Vaska, bem alto.
Mas Aksinia continuava gemendo:
– Quem me confortará?
Impassíveis, as outras a rodearam, olhando calmamente para as lágrimas que desciam em torrentes de seus olhos.
Lina, curvando-se sobre ela, consolou-a duramente:
– Por que você está chorando, Ksiuchka? Ele não morreu! Você irá vê-lo… você irá vê-lo amanhã…

O Aleijado (Maksim Górki)

Foi numa escura e abafada noite de verão que encontrei, numa viela de arrabalde, um estranho quadro: no meio de grande poça lamacenta uma estranha mulher chapinhava na água suja como crianças gostam de fazer. Cantava, ao mesmo tempo, com voz fanhosa, uma canção indecente.
No dia anterior houvera forte trovoada e a pesada chuva tinha dissolvido o barro, a poça estava funda, a água lodosa chegava quase aos joelhos da criatura; a julgar por sua voz ela devia estar embriagada. Achei que se ela escorregasse poderia afogar-se e resolvi tirá-la de lá.
Puxei os canos das botas, entrei na poça e, agarrando um braço da mulher, tratei de puxá-la para um lugar seco. De início, aparentemente assustada, acompanhou-me docilmente. Mas, quando eu menos esperava uma reação, safou o braço direito, bateu-me no peito e berrou:
— Acuuudam!
Em seguida, tratou de voltar para a poça, arrastando-me com ela.
— Diabo! — murmurava ela — Não vou! Posso viver sem você… quero ver você viver sem mim… Socooorro!
O guarda-noturno apareceu da escuridão e, parando a uns cinco passos de nós, perguntou:
– Quem está fazendo escândalo aqui?
Expliquei-lhe que receava que a mulher se afogasse na lama e que tentara tirá-la de lá; o guarda olhou-a atentamente, escarrou com gosto e mandou:
– Saia daí, Mariana!
– Não quero.
– Estou mandando — Saia!
– Eu não.
– Vai apanhar, peste — avisou-a o guarda com toda a calma e, em seguida, informou-me bonachão: — É moradora daqui, cordoeira, chama-se Maria Froliha. Tem um cigarro?
Fumamos. A mulher andava dentro d’água exclamando:
– Autoridades! Sou eu, a minha autoridade… Se eu quiser, tomo banho e acabou-se!
– Toma banho coisa nenhuma! — advertiu-a o guarda, velho forte e barbudo. — São raras as noites em que ela não faz semelhante escândalo. E tem um filho aleijado em casa…
– É longe a casa dela?
– Merece morrer — afirmou o guarda sem responder à minha pergunta.
– Convém levá-la para a casa dela — sugeri.
O guarda riu-se, iluminou-me o rosto com a brasa do cigarro e afastou-se, ruidosamente, pisando o barro molhado.
– Pode levar… mas, olhe a cara dela primeiro.
A mulher sentou-se no meio da lama e, fazendo gestos como se estivesse remando, cantou com voz esganiçada:
— No mar, no vasto mar…
Perto dela brilhava o reflexo de uma estrela; quando seus movimentos encresparam a água, o brilho desapareceu. Entrei novamente na poça, peguei-a por baixo dos braços, soergui-a e empurrando a cantora com os joelhos fui levando-a para a cerca; a mulher resistia, e desafiava-me:
— Bata-me, pode bater! Bata, não faz mal… seu animal, bata!
Encostei-a à cerca, finalmente, e perguntei-lhe onde morava. Ela ergueu a cabeça olhando-me com olhos que antes pareciam manchas escuras e pude ver então que o nariz havia afundado, motivo por que a ponta ficou erguida e, o lábio superior repuxado pela cicatriz, descobria os dentes miúdos e brancos. Parecia que o rosto pequeno e rechonchudo estivesse sorrindo continuamente, de maneira repelente.
– EStá bem, vamos — concordou a mulher.
Partimos, esbarrando na cerca. A saia molhada chicoteava minhas pernas.
— Vamos, meu bem — murmurava a mulher aparentemente voltando a si. — vou agasalhá-lo… posso consolá-lo.
Levou-me ao quintal de um casarão de dois pavimentos. Cautelosamente, como se fosse cega, procurou caminho entre carroças estacionadas desordenadamente, pilhas de caixas, barris e lenha. Parando diante de um buraco nos alicerces, convidou-me a entrar.
Apoiando-me na parede escorregadia, amparando com a destra o corpo mole da minha protegida, desci a custo uns degraus traiçoeiros, chegando diante de uma porta; apalpando, encontrei o trinco, abri a porta e parei, hesitando em prosseguir.
– Mãe, é você? — indagou na escuridão uma voz mansa.
– Sou-u-u…
Forte odor de matéria decomposta de mistura com cheiro de alcatrão estonteou-me momentaneamente. Um fósforo ardeu, sua luz iluminou por instantes um pálido rosto infantil e apagou-se.
— Quem haveria de ser, senão eu?… — disse a mulher pendendo do meu braço.
Novamente, ardeu um fósforo e, desta vez, fina e estranha mão de criança acendeu pequeno lampião a querosene.
— Meu consolador, querido… — exclamou a mulher no instante em que seu corpo tombava sobre uma baixa e larga cama armada num canto do cubículo.
A criança cuidava do lampião e reduzia a torcida, quando ela começava a soltar fuligem. Seu rostinho compenetrado caracterizava-se por um narizinho pontudo e lábios cheios, de menina. O rosto delicado apresentava feições que pareciam desenhadas com fino pincel de grande mestre e parecia deslocado no úmido e escuro cômodo daquele porão. Conseguindo uma chama boa, encarou-me com estranhos olhos peludos e perguntou:
— Embriagada?
A mãe, largada através da cama, soluçava e ressonava.
– Precisa despi-la — falei.
– Então, dispa-a — respondeu o menino baixando os olhos.
Quando comecei a tirar as saias molhadas”, o menino perguntou:
– Apago a luz?
– Para quê?
A criança nada respondeu e lidando com o corpo inerte da mãe, observei o menino: estava sentado dentro de um caixão colocado embaixo da única janela; o lado do caixão trazia em grandes letras a inscrição:
CUIDADO
N. R. & Cia. Ltda.
A parte inferior da janela achava-se à altura dos ombros do menino; ao longo da parede, havia diversas prateleiras estreitas e nestas enfileiravam-se pilhas de caixas de fósforos e caixinhas de papelão. Ao lado do caixão, que abrigava o menino, havia outro de boca para baixo, coberto com papel amarelo, servindo de mesa. O menino cruzara os bracinhos esquálidos atrás da nuca e fixara a vista nas escuras vidraças.
Terminei de despir a mulher, joguei suas roupas molhadas em cima do fogão, lavei as mãos numa bacia de barro que achei no canto e, enxugando-as no lenço, disse ao menino:
– Então, adeus!
Olhou-me e perguntou ciciando um pouco:
– Apago a luz agora?
– Como quiser.
– Vai embora mesmo, não vai deitar?
Esticou a mão apontando a mãe:
– Com ela?
– Para quê? — indaguei, sem propósito.
– Você há de saber — disse o menino numa simplicidade terrível e, esticando-se, acrescentou:
– Todos deitam.
Fiquei confuso e olhei em redor: à direita vi um fogão disforme, louça suja pendurada numa armação, num canto um rolo de cabo alcatroado e um monte de estopa, lenha e um pau de carregar baldes.
A meus pés o corpo amarelo, adormecido da mulher.
– Dá para ficar um pouco com você? — perguntei
O menino olhou-me de esguelha, ao responder:
– Ela só vai acordar quando for dia.
– Não me importa.
Acomodei-me de cócoras ao lado do caixão e contei-lhe como havia encontrado a mãe dele, tratando de dar um cunho humorístico à narrativa:
— …Sentou-se na lama, ficou a remar com as mãos, cantando sempre…
O menino esboçou um gesto concordando, sorriu mansamente e, coçando o peitinho mirrado, disse:
— É que estava embriagada. Mesmo sóbria ela gosta de brincar. Parece criança.
Pude então observar bem seus olhos. Realmente davam a impressão de estarem cobertos de pêlos; as sobrancelhas muito compridas e pestanas longas e arcadas davam essa impressão. Olheiras azuladas destacavam-se no rosto pálido. Acima da ampla testa branca e lisa aparecia a vasta cabeleira quase ruiva e encaracolada Impossível descrever a expressão de seus olhos. Pude suportar com dificuldade a intensidade daquele olhar que, embora calmamente compenetrado, tinha algo de sobre-humano.
— Que há com as suas pernas?
O menino remexeu no monte de trapos, que lhe serviam de cobertas, e levantando-a com a mão ergueu uma perninha seca, mais parecida com uma raiz ressequida. Pondo-a no bordo do caixão explicou:
– Minhas pernas são assim, as duas. De nascimento. Não andam, não vivem…
– E nas caixinhas, o que há?
– Jardim zoológico — respondeu o menino. Pegou em seguida, a perninha, recolocou-a no fundo do caixote, cobriu-a e sorrindo amistosamente indagou:
– Quer que lhe mostre? Então, sente-se direito; você nunca viu coisa semelhante.
Seus braços compridos e as mãos delgadas moviam-se com surpreendente agilidade enquanto tirava as caixinhas das prateleiras, uma por uma, e as apresentava.
– Não abra, senão fogem! Encosta ao ouvido e escute — que tal?
– Alguma coisa se mexe.
– Isso, é uma aranha safada. O nome dela é Tambor, êeta bicho ladino!
Os maravilhosos olhos do menino brilhavam animados. Os dedos ágeis tiravam as caixinhas, encostavam-nas no ouvido dele, em seguida no meu, enquanto ele explicava:
— Aqui mora uma barata, o nome dela é Anissim. Gosta de contar vantagens, que nem os soldados. Aqui é a casa da mosca. Chama-se Funcionária, é uma peste! Ronca o dia inteiro, xinga a todo o mundo, chegou até a puxar a mãe pelos cabelos. Nem parece mosca — é funcionária, tal e qual, que passa o dia falando mal de todos, mexericando. Aqui está um besouro preto, enorme, é o Patrão; não é mau camarada, só que pau d’água e muito dissoluto. Quando bêbedo fica engatinhando no pátio, pelado, cabeludo, parece um cão preto. Aqui é um besouro, Tio Nicodim, agarrei-o no pátio; é um andarilho malandro, daqueles que pedem esmola dizendo que fazem coleta para a igreja. Mamãe o chama O Barato — também é amante dela. Ela tem amantes à vontade, embora não tenha nariz.
– Ela não bate em você?
– Qual nada! Ela não pode viver longe de mim. Ela é boa, só que bebe, mas na nossa rua todos bebem… Ela é bonita e alegre, o diabo é que bebe muito! Eu peço sempre “deixe, boba, de beber vodca, você pode até ficar rica se deixar”. Ela ri apenas. É mulher — e mulher boba ainda por cima… Mas é boazinha; quando ela acordar você vai ver!
Seu sorriso cativante era tão encantador que senti vontade de chorar, de berrar, de fazer alguma loucura, tal foi a pena e compaixão que senti por ele.
A linda cabecinha balançava no pescocinho magro, parecendo estranha flor tangida pelo vento; o brilho de seus olhos maravilhosos prendia-me mais e mais.
Ao ouvir sua conversa infantil, mas assustadora, eu esquecia por vezes onde me achava, para depois, de repente, voltar à realidade, quando avistava a janela com grades cheias de barro, a bocarra negra do fogão, o monte de estopa e o corpo amarelo da mulher-mãe.
– Gostou do jardim zoológico? — perguntou o menino, orgulhoso.
– Muito.
– Só não tenho borboletas…
– Como se chama?
– Leonhka!
– É meu chará.
– Não diga! E você, que espécie de homem é?
– Nada de especial… como outro qualquer.
– Essa não! Todos os homens são diferentes — são alguma coisa, eu sei. Você é bom.
– Talvez.
– É sim. E acanhado também.
– Essa, por quê?
– Sei que é!
O menino sorriu e piscou-me o olho.
– Mas, por que acha que sou acanhado?
– Está fazendo horas comigo, quer dizer que receia partir de noite!
– Mas, já está amanhecendo.
– Pois é, quando amanhecer irá embora.
– Voltarei para estar com você.
O menino não acreditou, cobriu os maravilhosos olhos com as pestanas e refletindo um pouco perguntou:
– Para quê?
– Para ficar com você. Acho você muito interessante. Posso vir?
– Pode. Muita gente vem aqui…
Suspirou e disse:
– Não acredito que volte…
– Por Deus do céu! Volto, sim!
– Então venha. Venha ver-me, não a mãe, ela que vá lamber sabão! Seremos amigos, nós dois, tá?
– Tá.
– Isso sim. Não faz mal que você é grande. – Que idade tem?
– Vinte e um.
– Eu vou fazer doze. Não tenho amigos, só Katya, filha do aguadeiro, mas a mãe bate nela quando ela vem me ver… Você é gatuno?
– Não. Por que?
Seu rosto é muito feio, tão magro e tem um nariz como os gatunos têm. Dois gatunos costumam vir aqui: um é Sachka, é bobo e mau; o outro é Joãozinho; esse é bem, tão bonzinho como um cachorro. Você tem caixinhas?
– Trarei algumas.
– Traga, sim. Eu não direi a mamãe que você vem…
– Por que não?
– Porque sempre fica contente quando os homens voltam. Gosta tanto de homens — é uma vergonha! Ela é engraçada — minha mãe. Estava com quinze anos quando me deu à luz — e nem sabe como foi! Quando você volta?
– Amanhã, à noite.
– À noite, ela já estará bêbada de novo. Que você faz para ganhar a vida, já que não é ladrão?
– Vendo cidra bávara.
– Não diga? Traga uma garrafa, sim?
– Claro. Bem, tenho que ir indo.
– Então vá. Mas, volta mesmo?
– Sem falta!
O menino estendeu-me ambas as mãozinhas magras e peguei-as com ambas as minhas apertando aqueles ossinhos finos e frios; tratei de sair sem olhar para ele.
Amanhecia. Vênus, o astro da madrugada, brilhava acima das úmidas e dilapidadas casas. Numa carroça próxima do portão dormia um camponês; seus enormes pés descalços sobravam para fora do veículo, a barba dura, aparada em ponta, espetava o céu, os dentes brancos que apareciam através dos fios da barba davam a impressão de que o homem estivesse rindo fazendo pouco caso de tudo e de todos. Um velho cachorro, em cujo lombo aparecia um lugar depilado, onde ele havia levado um jato de água fervente, aproximou-se de mim, cheirou minhas calças e soltou um lamento obrigando-me a sentir pena dele.
As poças d’água nas ruas que, durante a noite foram apenas repugnantes, refletiam o azul do céu e brilhavam sob os raios do sol nascente — esse embelezamento parecia deslocado, desnecessário e portanto ofensivo.
No dia seguinte falei com as crianças que moravam na minha rua e pedi-lhes que apanhassem besouros e borboletas, fui à farmácia e comprei umas caixinhas bonitas, arranjei duas garrafas de cidra, bolachas, balas, uns pães doces — e assim armado fui visitar o meu chará.
O menino recebeu os presentes maravilhado, abrindo desmesuradamente os olhos que, à luz do dia, eram mais encantadores ainda que de noite.
— Oo — ho! — ho! — exclamou com voz baixa que não parecia a de uma criança, — quanta coisa trouxe! Então você é rico? Mas como pode ser isso? — é mal vestido, mas é rico — e diz que não é ladrão? Mas que caixinhas lindas! Meu Deus, nem quero tocar nelas com as mãos sujas… Que é isso? Um besouro, mas que lindo! Parece de bronze, é esverdeado até! ó diabo, quer fugir? Deixe disso!
De repente, gritou todo alegre:
– Mãe! Venha cá, lave-me as mãos! Venha ver só o que ele trouxe! É aquele mesmo, de ontem, o que trouxe você para casa como se fosse um guarda — tudo é dele! É meu chará também…
– Precisa agradecê-lo — ouvi às costas uma estranha voz.
O menino abanou a cabeça diversas vezes, concordando :
— Obrigado, muito obrigado!
O porão estava cheio de estranha poeira cabeluda e através dela tive pena ao entrever em cima do fogão a cabeça despenteada e o rosto disforme da mulher, o
brilho de seus dentes num eterno sorrir que ela nunca podia apagar em seu rosto aleijado.
– Boa tarde!
– Boa tarde! — respondeu a mulher; sua voz rouca era baixa mas animada, quase alegre. Olhava-me de olhos apertados; pareceu-me perceber certa ironia.
O menino esqueceu minha presença; mastigava uma bolacha, cantarolava de boca cheia e cuidadosamente abria as caixinhas — as compridas pestanas lançavam sombras nas faces realçando o azul das olheiras. Através das vidraças sujas, aparecia um sol baço e apagado como o rosto de homem velho iluminando os cabelos encaracolados do garoto. Sua camisa estava desabotoada e pude ver as pulsações de seu coração que, a cada batida, agitava a pele fina do aleijadinho.
A mãe desceu do fogão, molhou a ponta de uma toalha e, pegando a mão esquerda do garoto, quis lavá-la.
— Fugiu! Pare! Fugiu! — gritou Leonhka e começou a remexer nos panos malcheirosos, descobrindo as pernas azuis, imóveis. A mulher riu-se e aos gritos — Pega o fujão! — ajudou na busca.
Quando pegou o besouro colocou-o na mão espalmada e olhando-o com os olhos cor do céu, disse-me com ar de intimidade como se fôssemos amigos de longa data:
– Desses há muito!
– Não esmague! — advertiu-a o garoto. — Sabe, um dia quando ela estava bêbada, sentou-se em cima do meu zoológico — nem sei quantos bichinhos esmagou!
– Esqueça isso, meu bem!
– Trabalhei tanto para enterrá-los!
– Mas, em compensação, quantos não apanhei e trouxe para você.
– Apanhou! Apanhou, sim, mas acontece que aqueles outros eram ensinados. Os que morrem eu enterro embaixo do fogão, sabe? Lá é meu cemitério… Eu tinha uma aranha, chamava-se Minca — era tão parecida com um dos amantes da mãe, um que está na cadeia agora, gorduchão, alegre…
– Filho meu, querido — disse a mulher acariciando a cabecinha do menino com sua mão pequena de dedos rombudos. Empurrou-me com o cotovelo e sorrindo com os olhos perguntou:
– Não é bonito meu filhinho? Que olhinhos tem, hein?
– Tome um olho e me dê as pernas — propôs o garoto sorrindo sem parar de observar o besouro. — Que bicho! Parece de ferro… gordão… Mãe! É parecido com o monge para quem você fez a escada de cordas, lembra?
– Lembro-me, claro!
Rindo-se começou a me contar:
— Sabe, apareceu um dia um monge, grandalhão, custou a entrar até. Perguntou-me então: “Pode fazer uma escada de cordas para mim?” Eu nem ouvira falar em tais escadas; então, respondi que não, que nunca havia feito. “Eu ensino”, disse ele. Abriu a sotaina e não é que toda a barriga dele estava enleada com uma corda fina, mas forte, forte? Ensinou-me. Fiquei fazendo a tal escada, enquanto pensava: para quê será que ele precisa da escada? Deus o livre que tencione assaltar uma igreja!
A mulher riu-se abraçando o filho e acariciando-o sempre.
— Quando ele veio buscar a escada eu falei: Se for para coisa desonesta não entrego. Ele riu-se, assim com ar de espertalhão e respondeu: “Não, isso é para trepar no muro; o nosso muro é muito alto, somos pobres pecadores e o pecado mora do lado de lá do muro — entendeu?” Entendi e rimo-nos juntos, rimos tanto!
— É, você ri muito, até demais — disse o garoto tal e qual um adulto repreendendo uma criança. — Que tal se você fizesse chá para nós?
– Não temos açúcar…
– Compre então…
– Dinheiro também não temos.
– Gastou tudo em bebida! Peça a ele…
Virando-se para mim, o rapazinho perguntou:
– Você tem dinheiro?
Dei dinheiro à mulher; ela não esperou mais nada — saltou
de pé, agarrou o encardido samovar e desapareceu pela porta afora, cantarolando.
— Mãe! Lave a janela. Está escuro, não enxergo nada! Minha mãe é esperta, só vendo — confiou-me o garoto distribuindo cuidadosamente as caixinhas e colocando-as nas prateleiras de papelão dependuradas com barbantes amarrados a pregos, que haviam sido enfiados nos tijolos úmidos. — É muito trabalhadeira. Quando começa a desmanchar cabos para fazer estopa, fica uma poeira! Peço então que ela me leve para fora para respirar ar fresco e ela diz: “tenha paciência filho, agüente mais um pouco, sem você fico triste! Gosta muito de mim. Trabalha e canta — conhece milhares dê canções,
O menino começou a reproduzir uma das canções que aprendera com a mãe, mas foi interrompido pelos sons de um realejo que começou a gemer no pátio. O menino alvoroçado pediu-me que o erguesse à janela para que pudesse escutar melhor.
Levantei o frágil esqueleto contido no invólucro de pele fina e cinzenta. Leonhka enfiou a cabecinha pela janela aberta e ficou ansiosamente imóvel; só as perninhas impotentes balançavam arranhando a parede. O realejo lançava ao ar farrapos irreconhecíveis de uma melodia qualquer, uma criança gritava deliciada e um cão uivava. O aleijadinho absorvia ansiosamente a sinfonia bárbara e produzia sons com a boca fechada, tentando acompanhar a melodia fugidia.
No porão havia menos poeira e por isso enxergava-se melhor. Pude ver sobre a cama da mãe barato relógio de pêndulo. A louça na prateleira continuava suja e grossa camada de poeira cobria tudo. Nos cantos havia grandes teias de aranha e a poeira depositara-se nelas transformando-as em panos fúnebres. O lar do pobre estropiado antes parecia monturo onde as ofensivas características da pobreza saltavam à vista fosse para onde fosse que o observador dirigisse o olhar.
Ouvimos o canto familiar do samovar e, como que assustado por ele, o realejo parou de repente. Em lugar deste, ouvimos a voz feroz de alguém que rosnava:
– …esfarrapados!…
– Tire-me daí — suspirou o menino. — Enxotaram-nos.
Recoloquei-o cuidadosamente em seu caixão-cama; o menino esfregou o peitinho e, tossindo com receio, disse:
– Doe-me o peitinho, não posso respirar ar de verdade por muito tempo… Escute, você já viu diabinhos?
– Não.
– Nem eu. De noite costumo olhar embaixo do fogão para ver se não aparece algum, mas qual — não aparecem. Não é verdade que os diabos aparecem nos cemitérios?
– Para que queres os diabos?
– É interessante. Quem sabe um deles seria bonzinho? Katya, a filha do aguadeiro, viu um diabinho no porão e assustou-se, mas eu não tenho medo dessas coisas.
Acomodando-se melhor em seu leito, o garoto continuou vivamente:
— Gosto até, gosto de pesadelos, viu? Um dia sonhei com uma árvore que cresceu às avessas — as folhas espalhadas pelo chão e as raízes apontando o céu. Até suei de medo e acordei. Outro dia sonhei com a mãe — ela estava deitada toda nua e um cachorro arrancava-lhe o ventre aos pouquinhos. Tirava um bocado e cuspia, tirava outro e cuspia. Outra noite foi a nossa casa que estremeceu e toca a deslizar pela rua batendo as portas e janelas e a gata da funcionária corria atrás da casa…
O rapazinho estremeceu como se sentisse frio, apanhou uma bala e, tirando-lhe o papel, endireitou-o meticulosamente depondo-o no peitoril da janela.
— Desses papéis farei alguma coisa bonita. Ou, então, darei a Katya; ela também gosta de coisinhas bonitas — cacos de louça, pedaços de vidro, papeizinhos, qualquer coisa. Escute, se a gente alimentar bem uma barata ela pode ficar do tamanho de um cavalo?
Era evidente que o menino acreditava nessa possibilidade, por isso respondi:
– Alimentando bem, é capaz.
– Pois então — exclamou radiante — e mamãe, bobona, acha graça!
Terminou, usando palavra ofensiva a qualquer mulher.
– Ela é tola! Um gato então é fácil fazer ficar do tamanho de um cavalo não é?
– É pena que não tenho comida que chegue — seria tão divertido!
O garoto estremeceu de entusiasmo e apertou o peito com as mãozinhas.
— As moscas ficariam do tamanho de cachorros, e as baratas poderiam puxar tijolos. Se eles fossem do tamanho de cavalos, seriam fortes, não seriam?
– Os bigodes iriam atrapalhar…
– Qual nada! Os bigodes serviriam de rédeas. Ou, então, apareceria uma aranha grande, mas a aranha não deveria ficar maior que um gatinho, senão a gente ficaria com medo. Não tenho pernas, mas se tivesse, iria trabalhar e arranjaria comida suficiente para fazer crescer todos os meus bichinhos. Iria comerciar e compraria para mamãe uma casa, lá no campo. Você já esteve no campo?
– Já, muitas vezes.
– Conte-me como é!
Comecei a contar-lhe dos campos e prados. Escutava-me atentamente; as pálpebras desciam-lhe sobre os olhos, a boquinha abria-se e o garoto parecia estar adormecendo; diante disso passei a falar cada vez mais baixo, mas então, apareceu a mãe trazendo o chá, um pacote em baixo do braço e uma garrafa de vodca enfiada entre os seios.
– Pronto! Já cheguei!
– Que beleza… — suspirou o menino, — só grama e flores e mais nada. Mãe, você poderia arranjar um carrinho e me levar ao campo um dia! Senão eu morro algum dia desses, sem conhecer os campos. Você não presta, mãe… — terminou o garoto, tristonho e ofendido.
A mãe não se ofendeu e aconselhou, com brandura:
– Não me xingue, filho, você ainda é pequeno.
– Não me xingue!… Você está bem, pode ir aonde quer, como um cachorro. Você é feliz… Escute — disse virando-se para meu lado — foi Deus quem fez o campo?
– Decerto foi.
– Para quê?
– Para os homens passearem.
— Campo cheio de flores… — suspirou o garoto. — Eu levaria lá o meu zoológico e soltaria todos… que passeassem à vontade. Mas, diga-me, quem fez Deus?
A mulher quase morreu de riso. Caiu na cama, esperneava e gania entre acessos de risadas sufocantes:
– Ai, ai, ai! Que pergunta! Mas que menino! Matou-me! Matou-me de uma vez!
O garoto olhou a mãe com sorriso condescendente e sem irritação, sem maldade, como se usasse um termo carinhoso, proferiu palavra das mais obscenas.
– Parece criança, gosta de dar risadas, só vendo… — e repetiu o termo obsceno.
– Deixe que ria, isso não ofende a ninguém — defendi a mulher.
– É, ofender, não ofende — concordou o aleijadinho. — Só fico zangado com ela quando não lava a janela. Peço, peço, digo “Mãe, lave a janela; não consigo ver a luz de Deus!” — e ela esquece sempre…
A mãe, lavando a louça, piscava-me o olho dizendo:
— Que tal meu filhinho? Não fosse ele eu me jogaria no rio, por Deus do céu! Ou me enforcava.
Dizia-o sorrindo.
De repente, o menino perguntou-me:
– Você é bobo?
– Não sei. Por que?
A mãe diz que é…
– Ora, mas não vê por que eu disse? — exclamou a, mulher sem se constranger por Isso. — Trouxe da rua mulher bêbeda, pô-la a dormir e foi-se embora! Foi por isso que falei, não foi por mal — e você conta…
A mulher falava como criança, seu fraseado lembrava o de meninas adolescentes. Seus olhos também eram límpidos, jovens, tanto mais espantoso era seu rosto desfigurado, seu lábio repuxado e dentes a mostra.
— Vamos tomar chá! — convidou ela solenemente. O samovar, sobre uma caixa ao lado do menino, soltava alegres fiapos de vapor e o garoto apanhava-os sonhador e, sentindo na palma da mão a umidade condensada, enxugava nos cabelos cacheados.
— Quando eu for grande, mamãe vai arranjar para mim um carrinho com que eu poderei andar pelas ruas pedindo esmolas. Quando ganhar o bastante para o dia, deixarei as ruas e sairei para os campos…
A mulher suspirou pesarosa: — Ele imagina que os campos são um paraíso! Em vez, lá estão os acampamentos cheios de soldados malvados, camponeses embriagados…
– Mentira — interrompeu-a o garoto. — Pergunte a ele como são os campos. Ele viu.
– E eu, não os vi, também?
– Embriagada?
Discutiram com o ardor e falta de lógica de crianças. Lá fora anoitecia; no céu cor de rosa parou uma grande nuvem imóvel, o porão tornou-se escuro.
O menino tomara uma caneca de chá quente. Transpirou, olhou-nos e disse:
– Comi, bebi e até fiquei com sono — por Deus do céu…
– Então, durma filhinho.
– Mas, se eu dormir ele vai embora. Você não vai fugir?
– Não tenha medo, não; eu não deixo — assegurou a mãe empurrando-me com o joelho.
– Não vá — pediu o menino bocejando. Esticou o corpinho e caiu no leito adormecendo, mas de repente soergueu-se e disse à mãe repreendendo-a:
– Bem que você poderia casar-se com ele, como fazem as outras mulheres; em vez você se dá com todo mundo e eles só batem em você… Ele não bate, é bom…
– Durma, filho, durma — murmurou a mulher debruçando-se sobre o pires com chá.
– Ele é rico…
Por uns instantes, a mulher permaneceu quieta, depois confiou-me como a um velho amigo:
– Assim vivemos, nós dois e mais ninguém. O povo me xinga, dizem que sou rameira! E daí? Não preciso ter vergonha de ninguém. De mais a mais, o senhor vê que cara estragada tenho… qualquer um logo vê para que sirvo. Sim, adormeceu, meu anjinho, minha consolação na vida. Não é bom o meu filhinho?
– Muito bom!
– Não me canso de olhar para ele… É esperto, não é?
– É, sim!
– Só tinha que ser — o pai dele foi um senhor, homem culto; um velhinho. Como a gente chama a esses velhos que têm escritório e vivem escrevendo em papel timbrado?
– Tabelião?
– Isso! Isso mesmo! Foi muito bonzinho, tratava-me bem, fui empregada dele.
A mulher aproximou-se de mim dizendo:
– Morreu de repente. Foi de noite. Mal saí do quarto dele, caiu no chão e morreu! O senhor vende cidra?
– Sim.
– Por sua conta?
– Sou empregado.
A mulher cobriu cuidadosamente as perninhas do filho, arrumou o travesseiro e retomou a narrativa:
– O senhor não precisa de ter nojo de mim, já não estou infectada. Pode perguntar a quem quiser todos me conhecem!
– Eu não tenho nojo.
Pondo a pequena mão com a pele gasta nos dedos e unhas quebradas, ela continuou a falar com acentos de amável gratidão:
– Agradeço-o sinceramente por meu filhinho. Para ele hoje é dia de festa. Foi muito bondoso…
– Tenho que ir.
– Aonde? — perguntou admirada.
– Tenho que fazer.
– Fique!
– Não posso…
Olhou o filho, desviou os olhos para a janela por onde se avistava o céu e insistiu em voz baixa:
— Bem que poderia ficar. Eu cobriria a cara com o lenço… É que eu gostaria de mostrar-me grata pelo filho… Cubro-me, que acha?
Falava de maneira tão irresistivelmente humana, tão ansiosa de agradar! Seus olhos — olhos infantis em rosto deformado —- brilhavam com singular sorriso, não de mendiga, mas de pessoa rica que tem o que dar em agradecimento.
– Mamãe! — gritou o menino de repente, soerguendo-se no leito e estremecendo. — Estão rastejando! Venha! Acuda!
– Está sonhando, coitado — disse a mãe, inclinando-se, protetora.
Saí para o pátio e entreparei pensativo. Pela janela aberta do porão ouvi estranha canção com que a mulher ninava o aleijadinho.
Afastei-me com passos rápidos e lutando para não desatar em soluços.

Caim e Artêmio (Maksim Górki)

Caim era um judeu, pequeno, irrequieto, de cabeça pequena e rosto pálido e seco; farripas de cabelo ruivo e áspero cobriam-lhe as faces e o queixo, dando-lhe à cara o aspecto de um velho quadro emoldurado em pelúcia e rematado em cima pela pala de um gorro velho e sujo.
Por debaixo dessa pala brilhavam os seus olhinhos pardos, orlados também de pestanas ruivas e mal semeadas. Raras vezes esses olhos se demoravam a fixar o mesmo objeto; corriam sempre, com vivacidade, de um lado para outro, sorridentes, curiosos e aduladores.
Na boca, tinha também um sorriso permanente, e não era difícil adivinhar que aquele excesso de aparente bondade era causado pelo receio que tinha a tudo e a todos; receio esse que, num rápido instante, podia converter-se em pavor.
Por isso, conhecendo-lhe o fraco, compraziam-se muitos em aumentar, com gracejos maliciosos e pesadas ironias, esse sentimento de temor sempre vibrante no judeu, e do qual participavam, não só os seus nervos, mas até as pregas da blusa de algodão que lhe cobria o corpo esquelético, desde os ombros até os pés, num tremor contínuo.
O judeu chamava-se Khaim Aaron Pourvitz, mas toda a gente o conhecia por Caim. Era mais fácil de pronunciar e mais conhecido este nome, além de ter um certo sabor sarcástico. Ainda que dissesse mal com a sua pequenina figura medrosa, todos julgavam que ele profetizava o físico e o moral do judeu, ao mesmo tempo que representava uma afronta.
Vivia entre miseráveis perseguidos pela adversidade, que acham sempre prazer em ofender os outros, visto não disporem de outros meios de se vingar… E o judeu prestava-se admiravelmente a isso; se o ridicularizavam, limitava-se a sorrir como um culpado, e às vezes até ajudava nos gracejos, como se pagasse assim os seus ofensores o direito de permanecer entre eles.
Como era de esperar, vivia do seu negócio. Ia pelas ruas com o cabaz encostado ao ventre, e gritando com voz esganiçada:
— Graxa! Fósforos! Alfinetes! Agulhas!
E assim por diante, numa enumeração interminável de artigos.
Outro traço característico: tinha as orelhas grandes, muito derrubadas para a frente e movendo-se constantemente, como as de um cavalo impacientado.
Exercia a sua profissão em Chikhan, o bairro onde habitavam os miseráveis e famintos, toda a escória da cidade, enfim.
Chikhan era formado apenas por uma rua estreita, de casas altas, velhas e sujas; ali ficavam estabelecidas tabernas, casas de pernoitar, padarias, casas de pasto, lojas de ferros velhos, e outras, onde achavam abrigo ladrões e receptadores de furtos, vendedores ambulantes e vendedoras de hortaliça.
Havia ali, sempre, pouca luz, devido à altura das casas, muita lama e muitos bêbedos, e, no verão, um cheiro insuportável à podridão e aguardente. O sol apenas ali entrava de madrugada, com precaução e de fugida, como se temesse manchar os seus raios naquele monturo.
Por esta rua, situada na vertente da colina, e perto da ribeira, transitavam a toda hora carregadores do porto, marinheiros e moços de frete. Iam ali se embebedar e divertir-se a seu modo; e era ali também que os ladrões esperavam o momento propício de aproveitar em seu favor a embriaguez dos freqüentadores. Sobre os passeios da rua, os vendedores colocavam cestos com pão, bolos, doces, fígado e vários comestíveis quentes, de que faziam grande consumo os carregadores do porto. Os bêbedos cantavam com voz selvagem, injuriando-se; os vendilhões apregoavam as suas mercadorias, importunando por vezes os transeuntes; e os carros rodavam pesadamente, sendo-lhes difícil abrir caminho através dos grupos que se apinhavam, comprando, vendendo, esperando o que fazer ou espreitando ensejo para alguma coisa… Uma confusa gritaria levantava-se, da rua convertida em lodaçal, como um torvelinho chocando contra as paredes das casas, tão sujas, tão esburacadas, que pareciam cobertas de chagas; de tal modo a umidade havia carcomido e manchado o reboco.
Naquele sorvedouro estranho, de lodo, de ruídos ensurdecedores e de frases obscenas, formigavam dezenas de crianças de várias idades, mas igualmente sujas, andrajosas e corruptas. Por ali andavam de manhã à noite; a sua existência dependia em absoluto da piedade dos vendedores e da ligeireza das suas mãozitas para o roubo… À noite, dormiam em qualquer parte, no limiar das portas, nos caixotes que serviam de balcão aos vendedores ou no vão de alguma loja. Ao amanhecer, essas vítimas, descarnadas, raquíticas e escrofulosas, lá estavam de pé, prontas a roubar algum bocado mais apetecível e a mendigar alguma coisa que já não encontrava comprador. A quem pertenciam aquelas crianças? A todos…
Caim fazia o seu negócio em Chikhan dia a dia, apregoando as suas mercadorias, que vendia principalmente às mulheres.
Era freqüente elas pedirem-lhe vinte copeques pela manhã, com a condição de pagarem vinte e dois à tarde; e pagavam sempre. Os negócios de Caim eram muito variados: comprava camisas, gorros, sapatos, e os acordeons dos trabalhadores, que lhos vendiam para se embebedar; e também comprava os vestidos, os casacos e os pobres adornos às mulheres, fazendo depois trocas e vendas com todos estes objetos. Mas era freqüentemente burlado e maltratado. Às vezes chegavam mesmo a roubá-lo, mas ele não se queixava nunca; limitava-se a sorrir, com o seu sorriso tragicamente bondoso.
Sucedia também que alguns vadios, capazes de chegar ao assassinato, levados pela fome ou pela embriaguez, surpreendendo o judeu nalgum recanto escuro, lhe batiam ou o amedrontavam, deitando-o por terra. Trêmulo, prostrado aos pés dos seus agressores, metendo as mãos nos bolsos, o judeu repetia, em tom suplicante:
— Amigos, meus bons amigos, deixem-me ainda alguma coisa. Se não… como sustentarei o meu negócio?
E sorria gesticulando.
– Basta de lamentações!   Dá-nos somente trinta copeques.
Os bons amigos de Caim sabiam que não convém mungir demais uma vaca, desejando que ela continue a dar leite…
Levantando-se, Caim seguia rua abaixo, falando familiarmente com os meliantes, chasqueando e sorrindo; e assim terminava o incidente, com a maior franqueza e simplicidade deste mundo… Nestas aventuras, Caim apenas se fazia ainda mais lívido…
O judeu parecia não viver em muito boas relações com a colônia israelita. Era raro vê-lo acompanhado com algum confrade, e notava-se mesmo que eles lhe votavam um certo desprezo.
Dizia-se que pesava sobre ele uma excomunhão, e tempo houve em que os comerciantes lhe chamavam o Maldito.
Mas isto não era provável, apesar de Caim praticar verdadeiros atos de heresia, pois não guardava a festa do sábado nem se abstinha das comidas proibidas pelo rito hebreu. Faziam-lhe, com insistência, mil perguntas e acusações pela sua desobediência aos preceitos da religião; mas ele, encolhendo os ombros e sorrindo, esquivava-se, fugindo ou gracejando, sem nunca proferir uma palavra que revelasse uma opinião acerca dos costumes e crenças dos judeus.
Até os garotos do bairro o perseguiam, atirando-lhe às costas ou ao cabaz das mercadorias punhados de lama, cascas de melancia e outras imundícies. Caim procurava contê-los com palavras, mas, sempre que podia, ocultava-se misturando-se à multidão; e os garotos não o seguiam por temerem ficar magoados entre a turba.
Assim era a vida para Caim, por todos conhecido e de todos desprezado; vendia, tremia, sorria. E uma vez houve em que a fortuna lhe sorriu também…
Cada recanto da terra tem o seu déspota. Em Chikhan, coubera este papel a Artêmio, galhardo moço de feições corretas, corpulento, audacioso, de rosto oval e perfeito, e fartos cabelos negros e encaracolados, que lhe caíam para a fronte em caprichosos anéis, sobre as sobrancelhas aveludadas e sobre os grandes olhos úmidos e escuros. Tinha o nariz duma correção clássica, os lábios frescos e vermelhos, o bigode negro e farto. Todo o seu perfil era maravilhosamente perfeito, duma beleza simples mas irrepreensível; e seu olhar velado realçava ainda mais a sua beleza, completando-a. Com a sua arrogância, o seu peito amplo e forte, o seu perpétuo sorriso revelador de feliz indiferença, foi Artêmio o terror dos homens e o orgulho das mulheres de Chikhan. Passava a maior parte do dia deitado em qualquer sítio onde o sol batesse; e ali, pesado e indolente, respirava o ar puro e a luz radiante que lhe faziam dilatar os pulmões robustos numa forte e regular palpitação.
Tinha vinte e cinco anos e havia três que chegara à cidade, num rancho de carregadores; trabalhou durante algum tempo, mas depressa compreendeu que fácil lhe seria viver sem trabalhar, graças à sua força e à sua formosura. De camponês e carregador, transformou-se em amante de tendeiras, taberneiras e outras mulheres de Chikhan. Esta ocupação proporcionava-lhe tabaco, aguardente e comer em abundância; nunca desejou mesmo outra coisa, e, portanto, a vida deslizava-lhe tranqüilamente.
Por causa dele insultavam-se e tinham rixas as raparigas e murmurava-se também das casadas, o que era motivo de graves desavenças. Artêmio, a tudo indiferente, estirava-se ao sol como um galo, até que sentia renascer em si qualquer dos seus poucos desejos, que facilmente satisfazia.
Ordinariamente, ia deitar-se para a colina, em cuja falda se apoiava Chikhan. A seus pés via o rio; mais além, os campos que se perdiam no horizonte; e, destacando-se sobre a imensa campina, aqui e ali, aldeias que pareciam manchas pardacentas. Ao longe, a extensa verdura dos prados, luminosa e tranqüila; e, à esquerda, alargava-se toda a rua, dum extremo ao outro, na sua ruidosa e acabrunhada vida. Examinando bem aquela multidão animada e confusa, ele podia reconhecer muitos moradores de Chikhan, seus amigos e inimigos. Ouvindo o ulular feroz do miserável bairro… sem dúvida pensava em alguma coisa. Em volta de si, estendiam-se altos e espessos matagais; álamos solitários e roídos pelo tempo erguiam-se em meio de sarças e salgueiras, onde vagabundos iam dormir as bebedeiras, jogar as cartas, remendar os andrajos e descansar das fadigas ou das turbulências.
Os andrajosos não gostavam de Artêmio. Este, confiado na sua força, tratava-os com insolência; e além disso era invejado pela maneira fácil como ganhava a vida e porque a ninguém dava contas dos seus atos. O sentimento da camaradagem estava pouco desenvolvido nele, que andava sempre só, desprezando os outros. Quando alguém se aproximava, perguntando alguma coisa, Artêmio respondia e entabulava conversação, mas nunca era o primeiro a falar; se lhe pediam dinheiro para beber, dava-o, mas não convidava nunca os conhecidos. Entre eles, havia o costume de se obsequiarem mutuamente, comendo e bebendo em sociedade.
Era ali, entre matagais, que o iam sempre encontrar os mensageiros de amor enviados ao formoso Artêmio, sob a forma duma rapariguelha desgrenhada e suja, a rua, ou de um garoto andrajoso. Eram criaturas de sete ou oito anos, mas já possuídas da importância da sua missão, falando em voz baixa e misteriosamente.
– Tio Artêmio, a Tia Maria manda-me aqui para te dizer que o marido partiu e que é preciso que alugues uma barca para ir com ela ao campo, hoje…
– Ah! – exclamava indolentemente Artêmio, e os olhos sorriam-lhe.
– Olha que é preciso, não faltes…
– Sim, irei… Mas, dize-me cá. Que figura tem essa Tia Maria?
– Ë uma vendeira, claro está! — respondia o mensageiro, em tom de surpresa.
– Uma vendeira. Ah! sim! É aquela que fica ao pé da loja de ferros velhos?
– Não, a que fica ao pé da loja de ferros velhos, é a Anísia Nicolaievna.
– Sim, sim, já me recordo. Disse isto por dizer; estava gracejando… Conheço muito bem a Tia Maria.
E o mensageiro, não satisfeito, e disposto a desempenhar conscienciosamente a sua missão, explica com insistência:
– Maria é a gorda e vermelha, a que fica junto ao vendedor de peixe…
– Sim, sim; já sei… junto ao vendedor de peixe… Tens uma graça! Então eu não havia de saber? Bem; corre e dize à Tia Maria que já vou. Depressa!
Então o mensageiro, com o seu ar mais persuasivo, suplicava:
– Tio Artêmio, dá-me um copeque.
– Um copeque! E se eu o não tiver? – costumava dizer, Artêmio, metendo as mãos nos bolsos das calças. E sempre achava que dar.
Rindo alegremente, lá ia o mensageiro comunicar a resposta, pedindo à enamorada vendeira de fígado o preço do recado. Aquelas criaturas conhecem a importância do dinheiro, não só porque têm fome, mas porque fumam, bebem aguardente e têm também os seus negócios de amor…
No dia imediato a um caso destes, Artêmio mostrava-se mais que nunca inacessível às impressões da vida, e também mais formoso do que nunca, dessa formosura de animal poderoso e refestelado.
E assim lhe decorria a existência, quase inconsciente e de todo tranqüila, apesar dos zelos e das invejas que provocava; de todo tranqüila, porque a defendiam uns punhos terríveis.
Contudo, algum pensamento atormentador e sombrio se lhe condensava por vezes no olhar velado. As sobrancelhas aveludadas contraíram-se-lhe algo, e um sulco tenebroso cavava-lhe a fronte queimada do sol. Quando isto sucedia, encaminhava-se para Chikhan, e, quando o tumulto do bairro se aproximava, mais os seus olhos se amorteciam e as suas narinas se dilatavam.
Pendente do ombro esquerdo, trazia Artêmio a sua blusa de camponês; o ombro direito, apenas coberto pela camisa, deixava adivinhar a força do braço musculoso. Não gostava de botas e usava sempre alpercatas; as tiras de pano branco entrelaçadas, que lhe serviam de meias, desenhavam também os músculos da perna.
Avançava lentamente, como uma grande nuvem ameaçadora.
No bairro, conhecem-lhe os costumes, e pela sua atitude sabem já o que têm a esperar da visita.
Faz-se ouvir um murmúrio de advertência: “Aí vem Artêmio…”
Todos se precipitam para o deixar passar, retirando os mostruários de venda e as mercadorias,, os fogareiros e outros objetos; sorriem-lhe e saúdam-no com adulação. Todos o temem. Ele avança entre as manifestações de admiração pela sua pessoa e de temor perante a sua força, indiferente e silencioso, realçando, com essa aspereza, a sua formosura selvagem de tigre real.
Prende-se-lhe um pé numa canastra, e imediatamente rolam, pelo chão lamacento, tripas, fígados e bofes. O vendedor pragueja, desesperado.
– E por quê te não afastas? — diz Artêmio, tranqüilamente; mas a sua voz tem um timbre de mau agouro.
– Não podias passar por outro lado, touro? — grita o vendedor.
– Mas se me agrada passar por aqui?
Debaixo dos malares de Artêmio formam-se como que dois tumores, e os seus olhos brilham como ferros em brasa. O vendedor nota isso e murmura:
– Parece que a rua é estreita para ti!
Artêmio continua o seu caminho a passos lentos; a vítima, entrando numa taberna, pede água quente para lavar as mercadorias, e, cinco minutos depois, torna a sair gritando:
– Fígado! Bofe! Coração quente! Marinheiro, vem estrear-me! Faço-te quatro copeques de língua! Tiazinha, compra-me um coração! Quem compra coração quente?…Fígado! Bofe!
A este ruído ensurdecedor, juntam-se emanações putrefatas: o cheiro de aguardente, do suor, do peixe, do alcatrão e da cebola.
A multidão enche a rua, impede a circulação dos carros e grita, vende, compra, ri. Em cima, serpenteia uma faixa de céu azul empanado pelo pó e pelo fumo do bairro, onde até as sombras das casas parecem úmidas e gordurentas.
– Mercearias! Linhas! Agulhas!… – apregoa Caim em voz alta, por detrás de Artêmio, ainda mais terrível para ele do que para os outros.
– Pêras assadas! Comprem e comam! — grita uma vendeira.
– Cebolas! Cebolas verdes! — guincha uma outra.
—- Água fresca! – regougueja um velhote de cara vermelha, sentado ao pé de um barril.
E um, conhecido na rua pela estranha alcunha de Noivo Esfarrapado, vende a um carregador do porto uma camisa suja mas forte, que acaba de despir, e grita para o convencer:
– Bruto! Onde vais tu comprar uma camisa tão luxuosa por vinte copeques! Com ela vestida, podes pedir em casamento uma burguesa rica! Uma milionária até… Que diabo!
No mesmo instante, entre o ruído de todas aquelas vozes, ressoava uma voz infantil e clara…
– Por amor de Deus, dai um copeque a uma criança abandonada… que não tem pai, nem mãe…
O nome de Deus ressoa na rua, estranho a tudo e a todos.
– Artêmio! Anda cá! – exclama com voz meiga a mulher do soldado, Daria Gromova, vendedora de pastéis de carne. — Por onde tens andado? Por que te esqueces de nós?
– Tens feito bom negócio? – pergunta Artêmio, tranqüilamente. E, com um ligeiro pontapé, emborca o  cesto de venda. Os pastéis rolam pelo chão, e a vendedora grita, cheia de furor:
—- Vadio! Assassino! Ladrão! E não se abre a terra para te engolir, bruto! Camelo de Astracã!
Em volta dela há gargalhadas; todos sabem que Artêmio será perdoado…
Assim continua o seu caminho, tropeçando em tudo, empurrando e pisando os transeuntes. Por toda a parte o precede este grito de alarma: “Aí vem Artêmio!”
“Aí vem Artêmio!” A estas palavras, mesmo quem as ouve pela primeira vez adivinha uma iminente ameaça, e deixa o passo livre ao gigante, olhando-o com pavor e curiosidade.
Quando um vagabundo o cumprimenta, Artêmio aperta-lhe a mão de tal forma, que o faz gritar dolorosamente, praguejando injúrias. Artêmio agarra-o então pelos ombros, com as suas mãos de ferro, ou aplica-lhe outra qualquer tortura, calmo e olhando silenciosamente a sua vítima, que geme sufocada e arquejante:
— Larga-me, carrasco maldito!
Mas o carrasco era inexorável juiz.
Caim também ia parar, às vezes, às mãos rudes de Artêmio, que se divertia com ele como uma criança com um pequeno escaravelho.
A esta costumada e inexplicável diversão do atleta, chamavam em Chikhan: “a incursão de Artêmio”. Causou-lhe isto numerosas inimizades, mas ninguém se atrevia a arremeter contra a sua força hercúlea.
Uma vez, reuniram-se sete mocetões robustos, e, encorajados por toda a rua, decidiram dar a Artêmio uma lição que ficasse de emenda. Dois pagaram cara a experiência; os outros souberam retirar-se a tempo.
De outra vez, alguns tendeiros, maridos ludibriados, dirigiram-se a um carniceiro da cidade, famoso pela sua força e que já havia saído vencedor em lutas com os hércules do circo. O carniceiro, mediante uma respeitável soma, comprometeu-se a dar-lhe uma sova tão tremenda que o deixasse moribundo. Puseram-nos em frente um do outro, e Artêmio, que não recusava um desafio, partiu a clavícula ao carniceiro, e, dando-lhe um murro no peito, fê-lo cair sem sentidos. Estas aventuras realçaram ainda mais o prestígio de Artêmio, e aumentaram o número dos seus inimigos.
Continuou como sempre as suas incursões, atropelando, ao passar, quanto se lhe atravessavam diante, a tudo e a todos. A que impulsos obedecia ele? Acaso o montanhês, arrancado às suas selvas, queria assim protestar contra a maneira de viver e contra os costumes da cidade? Talvez ele sentisse confusamente que a cidade era a causa da sua perdição e que na alma e no corpo lhe tinha já inoculado o seu veneno; pressentia isso, e vingava-se a seu modo, destruindo, lutando brutalmente contra essa existência que o ia escravizando. As suas incursões acabavam por vezes na prisão, onde os agentes de polícia o tratavam melhor do que aos outros habitantes de Chikhan, assombrados perante a sua força prodigiosa, cheios de curiosidade pela sua audácia e convencidos em absoluto de que Artêmio não era um ladrão, nem o podia ser, por falta de agilidade. Mas, quase sempre, depois duma incursão, Artêmio recolhia-se a qualquer baiuca, onde alguma das suas amantes lhe fornecia todo o necessário. Depois destas explosões de cólera, ficava sombrio e apreensivo, condensando-se-lhe nos olhos uma certa expressão dura e selvagem; a imobilidade das suas feições dava-lhe um ar idiota. Então, uma tendeira qualquer, mulher robusta de trinta anos, tratava-o como se fosse dona daquele animal feroz, mas com certo terror.
– Peço mais dois copos de cerveja? Ou preferes licor? E comer, não queres? Que mal encarado hoje estás, Artêmio!
– Deixa-me em paz! — respondia ele com aspereza.
E a mulher afastava-se um momento; depois insistia de novo, procurando embebedá-lo, pois sabia que, sem beber, Artêmio não esperdiçava carícias.
E aprouve ao destino, tantas vezes irônico, aliar o formoso Artêmio ao judeu Caim.
O caso passou-se deste modo:
Depois de uma incursão, seguida de lauta ceia, Artêmio e a amante dirigiam-se, já cambaleantes, para casa desta última, numa rua estreita e deserta do bairro. Mas ali esperavam-no alguns dos seus inimigos. A bebedeira perturbava-o e Artêmio defendia-se mal. Deitaram-no por terra e durante mais de uma hora zurziram-no impiedosamente, vingando assim todas as humilhações recebidas. A companheira de Artêmio fugira, e, como a noite era escura e o lugar solitário, os agressores podiam saldar, à vontade, as suas contas com Artêmio. Não perderam a ocasião.
Quando o cansaço se apoderou deles, estavam por terra dois corpos imóveis: Artêmio e um homem a quem chamavam Bode-vermelho. Depois de pensar o que deviam fazer, resolveram ocultar o corpo de Artêmio debaixo de um velho lanchão abandonado, junto ao rio; Bode-vermelho, levaram-no consigo.
Quando arrastavam o formoso Artêmio, a dor fê-lo recuperar os sentidos, mas, adivinhando que lhe era mais conveniente dar-se por morto, conteve um grito prestes a escapar-se-lhe dos lábios. Pisaram-no, insultaram-no, e cada um continuava suas proezas naquela terrível aventura.
Michka Vaviloff gaba-se de lhe ter dado muitos pontapés do lado esquerdo, para lhe esfacelar o coração; Sukho-puieff, que lhe tinha espezinhado o estômago, porque, dilacerando aquela víscera, as más digestões lhe esgotariam as forças por mais que lhe dessem de comer: Lomakine confessara que lhe tinha calado o ventre, com igual propósito; nenhum deixava de ufanar-se, e eram excelentes as intenções de todos. Artêmio não perdia uma só palavra da conversa; ao afastarem-se, ouviu-os dizer que era homem morto.
Ficou só, na escuridão, sobre a terra úmida, nessa fresca noite de maio. Fez um esforço para se levantar, mas caiu novamente, exausto de força, vencido por uma terrível dor, aguda e penetrante. Morria de sede; recuperava os sentidos, roído pelo sofrimento. E o rio, marulhando ali perto, parecia rir-se de sua desventura e de sua impotência.
Assim passou toda a noite, sem se mover, não se atrevendo sequer a soltar um suspiro. De uma vez, voltando a si, sentiu qualquer alívio benfazejo: alguém que o auxiliava. A muito custo, pôde abrir um dos olhos e, fazendo esforço, moveu os lábios inchados e dilacerados. O sol entrava pelas frinchas da lancha. Artêmio levou uma das mãos ao rosto, notando que lho cobriam com uns trapos úmidos. Tinha o peito e o ventre igualmente cobertos de trapos umedecidos. Estava despido, e fresco era um alívio para ele.
– Beber! — disse compreendendo que alguém cuidava dele. A mão trêmula desse alguém chegou-lhe aos lábios a boca de uma garrafa.
Artêmio quis ver quem era, mas não pôde voltar a cabeça. E murmurou, com voz débil:
– Aguardente… um copo… Esfrega-me com aguardente… Poderei levantar-me?
– Levantar te? Não, não podes levantar-te. Tens todo o corpo azul, como o de um afogado. Quanto à aguardente, é fácil: há aqui uma garrafa cheia.
Falava-lhe docemente, com timidez, à pressa; e Artêmio reconhecia aquela voz, sem poder recordar a que mulher pertencia.
– Dá-me aguardente.
E de novo, a pessoa que o estava tratando, e que sem dúvida evitava ser vista, estendeu-lhe a garrafa por cima da cabeça. Artêmio, engolindo com dificuldade a aguardente, olhava de soslaio o fundo negro e úmido da lancha, todo revestido de musgo.
A aguardente reanimou-o. Artêmio suspirou profundamente aliviado, e, com voz fraca, disse:
– Puseram-me em bom estado… Mas não as perdem… Hei de curar-me… E então… esperem-me pela volta!…
Não lhe replicaram, mas ele ouviu um ligeiro ruído, como se alguém se afastasse dali… Em torno nada se movia; o marulhar do rio, o canto dos carregadores e a sereia dum vapor, ouviam-se, a distância. A sereia despediu um silvo; depois, enrouquecendo, mugia lugubremente, como se o navio se despedisse, para nunca mais voltar…
Artêmio esperava que alguém lhe falasse, mas tudo estava silencioso, sob o velho lanchão, cujo casco, coberto de limos verdes, se balouçava, como se quisesse esmagá-lo num dos seus vaivéns.
Artêmio sentia compaixão de si mesmo. Sentia-se humilhado, na sua absoluta impotência. Ele, forte e formoso, ver-se inútil e desfigurado! Com as mãos apalpava, a custo, os ferimentos e contusões do peito e do rosto. Depois, cheio de angústia e desespero, chorou e blasfemou.
Chorava e blasfemava desesperadamente, contraindo as pálpebras; e as lágrimas, grossas e ardentes, caíam-lhe pelas faces até as orelhas, aliviando-o.
– Agora… que se preparem! – murmurava, soluçando. Pareceu-lhe que a seu lado alguém chorava.
– Quem está aí? – gritou em tom ameaçador. E naquele instante teve medo, sem compreender por quê.
Essa pergunta não obteve resposta.
Então Artêmio, fazendo um esforço supremo, levantou—se sobre um cotovelo, e, lançando um grito brutal de dor, viu, na sombra, contraído e acachapado, feito uma bola, o pequeno corpo de alguém que se ocultava com o rosto entre os joelhos. Os ombros tremiam-lhe.
Artêmio disse:
– Aproxima-te!
Mas o outro, imóvel, continuava tremendo como que agitado por estranha febre.
Os olhos de Artêmio turvavam-se de dor e de surpresa, e, ao ver-se desobedecido, rugiu:
– Aproxima-te!
Mas, em resposta, só obteve palavras cheias de medo.
– Que mal te fiz? Por quê te mostras feroz contra mim? Não tratei de ti, não te lavei, não te dei aguardente? Não chorei quando tu choravas, e não sofri por te ver gemer? Oh! meu Deus, meu Deus! Até o bem que faço se converte em mal para mim! Que dano te causei eu?
O desgraçado entrecortava estas palavras de soluços, e por fim calou-se; estava no chão, e, apertando a cabeça entre as mãos movia-a para um e outro lado.
– Caim! És tu?
– Sim, sou eu…
– És tu? Aproxima-te. Anda cá, pateta!
Artêmio estava surpreso e ao mesmo tempo possuído de alegre comoção. Teve desejos de rir, quando o judeu se aproximou dele, arrastando-se timidamente, enquanto os olhos pequeninos lhe tremiam e se lhe franzia o rosto, aquele rosto ridículo e triste.
– Não tenhas medo, vem cá. Palavra, que não te bato. – Julgou necessário tranqüilizar assim o judeu.
Caim, mais perto dele já, parou: olhava e sorria com expressão tímida e suplicante, como se visse já espezinhado o seu corpo encolhido de terror.
– Pois eras tu? Quem te mandou aqui? Foi Anísia?
– Ninguém. Vim porque quis.
– Por que quiseste? É mentira.
– Não é mentira. Não minto… Vim porque quis… acredita. E vou dizer-te como, escuta… Tomava eu chá, quando ouvi dizer: “Esta noite deram uma sova em Artêmio, e deixaram-no por morto”. Não acreditei: tratando-se de ti, dava-me isso vontade de rir. “São estúpidos — pensei eu! – Esse homem é como Sansão; quem seria capaz de o vencer?” Mas vinham uns e outros e repetiam sempre: “Já lá tem a sua conta!” E falavam de ti, chasqueando e rindo, todos muito satisfeitos. Acreditei, então. Soube onde te haviam deixado; muitos vieram ver-te… “Venceram o homem mais valente da terra!” Tive pena… perdoa-me que o diga. Julguei conveniente lavar-te, e com a água recuperaste os sentidos… Que alegria a minha! Não me acreditas por eu ser judeu? Pois podes acreditar… Vou dizer-te o que pensei e qual a razão da minha alegria… Não te zangarás comigo?
– Vê este sinal da cruz? Que um raio me parta! — jurou Artêmio, com energia.
Caim, aproximando-se mais baixou a voz.
– Tu bem sabes como é horrível a minha vida, bem o sabes. Não me tens tu mesmo batido muitas vezes? Não se ri toda a gente do miserável judeu? E por quê? Vou dizer-te a verdade; não podes zangar-te comigo, porque juraste. Só digo que tu, como todos os outros, persegues o miserável judeu. E por quê razão? O judeu não é filho também do mesmo Deus, desse Deus que nos dotou, a ti e a mim, de alma semelhante?
Caim falava depressa, fazendo pergunta sobre pergunta, sem nunca esperar resposta. Brotavam-lhe dos lábios as palavras, com que ele tinha gravado no coração os ultrajes e as ofensas recebidas. Tudo ressuscitava nele, transbordando como uma torrente. Artêmio sentia-se acanhado na sua presença, e acabou por lhe dizer:
– Escuta, Caim. Esquece tudo isso. Eu seja maldito, se daqui em diante te voltar a pôr a mão… Juro-o! Nem consentirei que alguém o faça. Se alguém se atrever, despedaço-o! Ouviste?
– Ah! Ah! – exclamou Caim, triunfante. – Agora! Tu fizeste-me muito mal, e apesar disso julgo-te menos culpado do que os outros. Todos me desprezam e maltratam; tu como eles todos, mas também maltratas e desprezas os outros. Tens ofendido outros mais cruelmente do que a mim. Por isso pensava eu: “Este homem valente e robusto, ofende-me e bate-me, não por seu eu judeu, mas porque sou tão desprezível como os outros a quem ele despreza”. Assim… tive sempre por ti respeito e admiração. Temia-te e admirava-te, sabendo que podias arrancar as entranhas a um leão e vencer os filisteus. Tu, humilhava-os… e era um prazer para mim ver como tu os humilhava… Eu desejo também ser temível e forte… mas… sou uma pulga miserável.
Artêmio ria.
– É verdade! És como uma pulga.
Não compreendia bem as palavras de Caim, mas agradava-lhe tê-lo ao pé de si. E, com a lamúria indignada do judeu, muitos pensamentos lhe cruzavam o cérebro, lentamente.
– Que horas serão? Perto de meio-dia, provavelmente. Nenhuma das minhas amantes veio saber de mim. Veio apenas o judeu, ajuda-me e diz que me estima… O judeu a quem eu maltratei e ofendi muitas vezes. E admira a minha força! Recobrarei eu essa força? Se ela volta, meu Deus!
Artêmio suspirava pesadamente, e imaginava ver já os seus inimigos castigados e esmagados como ele mesmo o estava, e atirados a qualquer canto. Mas a esses iriam vê-los os seus amigos… O judeu não.
Artêmio contemplava Caim e pareceu-lhe que as suas palavras lhe amargavam a boca. Cuspiu e suspirou de novo.
E Caim falava sem cessar, com a cara contraída e todo o corpo num estremecimento:
—- … E quando tu choravas, eu chorei também. Receava pela tua força…
– Eu pensava então que alguém se estava rindo de mim — disse Artêmio, sorrindo melancolicamente.
– Admirei sempre a tua força… E pedia a Deus: “Padre Nosso, que estás no Céu e na terra, faze com que eu seja útil a este homem. Faze com que eu possa servir e que o seu vigor me defenda; que a sua energia me livre dos constantes vexames que padeço. Faze com que os meus verdugos morram às suas mãos. Assim orava, pedindo ao meu Deus que te transformasse em meu defensor, e em protetor da minha fraqueza o meu maior inimigo; assim como quis dar a Mais do que eu um protetor na pessoa do Czar, que venceu todos os povos… E tu começaste a chorar… Eu chorava também; mas imediatamente um grito teu perturbou as minhas orações.
– Mas como podia eu adivinhar, pateta? – exclamava Artêmio, sorrindo tristemente.
Mas Caim não ouvia. Balançava-se, gesticulava, arengava sempre, atropelando as palavras em uma apaixonada lamúria, em que vibram a alegria, a esperança, a adoração pela força desse homem agora estropiado, o temor e a tristeza.
– Chegou enfim a minha hora. Estou só, ao pé de ti… Todos te abandonaram e eu sirvo-te… Hás de curar-te, não é verdade, Artêmio? Não te fizeram nenhum ferimento grave? Surgirás de novo forte e poderoso?
-Sim; hei de curar-me… Nada temas… Por teres sido bom para mim, velarei por ti como se fosses uma criança.
Pouco a pouco, Artêmio ia-se reanimando; pareciam-lhe as dores menos agudas e raciocinava melhor. “É preciso interessar-me por este pobre Caim — pensava; — é tão bom e tão sincero…” e Artêmio sorria, a esta idéia… Durante algum tempo, sentiu um vago desejo que não sabia definir. E compreendendo por fim:
– Mas tenho fome! Se pudesses arranjar-me alguma coisa para comer!
O judeu levantou-se com tal rapidez, que tropeçou numa estaca. O rosto aparecia-lhe transfigurado; refletia-se nele uma forte expressão de energia, ao mesmo tempo simples e infantil. “Artêmio, o atleta terrível, pedia-lhe de comer, a ele, Caim!”
— Eu te darei tudo o que queiras. Já o tenho aqui preparado, a um canto. Quem está doente, precisa alimentar-se bem; sei isso bem. Pelo caminho comprei um rublo de comida!
– Depois faremos contas e te pagarei dez rubros. Posso pagá-los. Não os tenho, mas em dizendo: dá-me! – dão-me tudo o que quero.
Ria abertamente, e Caim, vendo-o rir, alegrava-se e ria também.
– Bem o sei, bem o sei. Dize-me o que queres, e tudo terás. Por ti, sou capaz de tudo.
– Bravo! Começa por dar fricções de aguardente. As fricções primeiro, e depois o comer. Mas tu saberás fazer isto?
– Por quê não? Hei de fazê-lo como se fosse um médico.
– Então, mãos à obra; e, quando acabares, me levantarei.
– Levantar-te? Isso é impossível!
– É impossível? Tu verás. Pensas que vou ficar aqui deitado? Tem graça. Dá-me depressa as fricções, para ires depois à casa da pasteleira Mokewna, dizer-lhe que quero instalar-me lá na cocheira; que ponha palha. É ali que irei convalescer e restaurar as forças. Hão de pagar-te bem o trabalho. Descansa.
– Acredito — respondeu Caim, deitando aguardente no peito de Artêmio e dando princípio às fricções. — Creio em ti, mais do que em mim próprio. Ah! Eu conheço-te bem…
– Fricciona, fricciona… Mais força… mais força ainda… Julgas que me dói? É até agradável. Com mais força, vá! – rugia Artêmio.
– Farei tudo o que me peças. Se te agrada, atiro-me ao rio — dizia Caim, continuando nos seus protestos de dedicação.
– Bom, bom… Mas! Agora as costas… Com mais força… Ah! Renegados! Em que estado me deixaram!… E, como sempre, a causa de tudo é uma mulher. Se não fosse uma mulher, eu não teria bebido. E estando em perfeito juízo, quem se atreveria comigo? Ninguém!
Caim, desempenhando admiravelmente o seu papel de enfermeiro, insinuou:
– As mulheres!… As mulheres são os pecados do mundo. Nós, os judeus, temos uma oração da manhã, que diz: “Bendito sejas, Deus Eterno, Senhor do mundo; bendito sejas, porque me não fizeste mulher…”
– Eh! Eh! Isso é verdade? – exclamou Artêmio. -Vocês dizem essa oração? É curioso! Na verdade, o que é a mulher? É um animal perverso, não há dúvida, mas, apesar disso, não podemos viver sem ela. Rezar a Deus dessa forma, é que é ofensivo para as mulheres. Pensas que não têm também sentimentos?
Imóvel e enorme, Artêmio, cujas contusões ainda mais volumoso o tornavam, continuava estendido no chão; e a seu lado Caim, pequeno e enfezado, cansado e ofegante, esfregava-lhe as costas, o peito, a barriga; o cheiro da aguardente fazia-o tossir.
A todo o instante passava gente pela margem do rio; ouviam-se conversações e rumor de passos.
Uma estreita faixa de areia separava do rio a velha lancha emborcada. O sítio era pouco freqüentado, mas, naquele dia, sem dúvida, tinha para todos um particular interesse. Caim e Artêmio viam continuamente aproximar-se os curiosos, que se sentavam no fundo do barco, batendo com os pés nas tábuas. Isto irritava Caim. Deixou de falar, e, arrastando-se silenciosamente para junto de Artêmio, sorriu compadecido e assustado:
– Tu ouves?
– Ouço — respondia Artêmio, satisfeito. — Querem saber quando estarei restabelecido. Precisam preparar a costelas… Ah! Ah! As almas do diabo! Evidentemente, foi grande contratempo para eles não me terem rebentado… A proeza de nada lhes serviu.
– Sabes o que te digo? — advertiu Caim receoso, falando ao ouvido de Artêmio. – Sabes o que te digo? Se me vou embora e te deixo só, entram aqui, e…
Artêmio riu a bandeiras despregadas.
– Pois tu, pobre diabo! Pois tu julgas que têm medo de ti? Que não se aproximam por tua causa?
– Posso servir de testemunha.
– Se te dessem um murro… Ah! Ah! Ah! ias servir de testemunha… para o outro mundo.
O riso de Artêmio tirou o medo de Caim. O judeu sentia agora, em seu peito débil e oprimido, uma feliz e absoluta confiança. A sua vida tomava outro rumo; diante dele erguia-se, agora, um braço forte contra todos os golpes e todas as injúrias, que até então o tinham torturado impunemente.
Decorrera cerca de um mês.
Era meio-dia, a hora em que Chikhan tem maior animação e vida; quando os vendedores se vêem rodeados por grupos compactos de trabalhadores que chegam do porto e do cais, com o ventre vazio e a imperiosa necessidade de comer; quando toda a rua cheira a carnes cozidas. A essa hora, disse alguém a meia voz:
Vem aí Artêmio.
Alguns esfarrapados que andavam pela rua, aguardando ocasião favorável para a prática das suas proezas, desapareceram rapidamente, sem ninguém saber por onde.
Os moradores de Chikhan começaram a voltar os olhos para um e outro lado, com inquietação e curiosidade.
Artêmio era esperado com vivo interesse e houve discussões acaloradas sobre o modo por que ele faria a sua apresentação.
Como sempre, Artêmio avançava tranqüilamente, como um homem pacato que se passeia. Nada de particular havia no seu aspecto. Como de costume, vestia camisa e blusa, trazia o gorro inclinado sobre uma orelha, e caíam-lhe para a testa, como dantes, os anéis do seu cabelo preto. Trazia o polegar da mão direita metido no cinto e a mão esquerda no bolso das calças; ao caminhar, arqueava-se-lhe o peito de atleta; unicamente o seu rosto se tinha transformado um pouco, adquirindo uma expressão inteligente, o que sempre sucede depois de uma doença. Avançava, respondendo às saudações e cumprimentos, com uma leve inclinação de cabeça.
Todos o seguiam com os olhos, e erguia-se um ligeiro murmúrio de surpresa e admiração perante aquela força indestrutível, que ninguém conseguira abater. Havia no bairro muita gente preocupada com o seu restabelecimento, falando com animosidade e injuriando os que não tinham sabido destruir os pulmões do gigante e partir-lhe todas as costelas; porque é impossível haver um homem que não possa ser morto. Outros faziam conjecturas sobre o modo por que o atleta se vingaria do Bode-vermelho e da sua quadrilha.
Mas, quanto maior é o poder, mais atrai. A maioria inclinava-se, rendendo culto à força de Artêmio, cujo prestígio aumentara.
E Artêmio entrou na Gabrilovka, o clube de Chikhan.
Quando à porta da taberna apareceu a sua alta e potente figura, ainda ali havia poucos fregueses; e, entre sufocadas exclamações de surpresa, não faltou quem precipitadamente se escondesse no recanto mais afastado e escuro da úmida cave, enegrecida pelo fumo do tabaco, suja e gordurenta.
Sem fixar coisa alguma, os olhos de Artêmio percorreram lentamente toda a cave, e os seus lábios responderam à adulação do taberneiro Savka Kliebnicoff, com uma pergunta:
– Ainda não veio Caim?
– Não deve tardar… Costuma vir a esta hora. Sentou-se perto duma janela gradeada de ferro, pediu chá, e descansando sobre a mesa as mãos enormes, pôs-se a olhar os que estavam, com ar indiferente.
Eram dez homens, todos esfarrapados, e tinham-se apinhado em volta de duas mesas, observando dissimuladamente, dali, o colosso. Quando os seus olhos se cruzavam com os de Artêmio, sorriam-lhe amigáveis e humildes, desejosos de se aproximar e travar conversa, sem que atrevessem a fazê-lo, porque Artêmio se mostrava sombrio e reservado. Kliebnicoff, ocupado ao balcão, cantarolava, observando-o de soslaio.
Pela janela entrava o ruído ensurdecedor da rua: injúrias violentas, juramentos e exclamações dos vendedores. Perto, caíam garrafas, partindo-se no chão. Artêmio começava a aborrecer-se, naquela baiúca mal ventilada. E, levantando a voz, disse tranqüilamente:
– E vocês, suas feras, por quê é que tão depressa se tornaram mansos? Que significam os vossos olhares e o vosso silêncio?
—- Nós estamos prontos a conversar contigo, se tu quiseres — disse o Noivo-esfarrapado, levantando-se e acercando-se de Artêmio.
Era um homem delgado, vestido com uma blusa de algodão e umas calças de soldado; calvo, barba em ponta, e olhos avermelhados, pequenos e maliciosos.
– Segundo dizem, estiveste doente? — perguntou cautelosamente, sentando-se em frente de Artêmio.
– Sim, e depois?
– Nada. Mas o que tiveste?
– Não o sabes?
– Como hei de sabê-lo? Não fui eu que o tratei…
– Não mintas mais, canalha! — disse Artêmio com um sorriso. — Para que mentes, se sabes o que foi?
– Sim, é verdade, sei! — respondeu sorrindo o Noivo-esfarrapado.
– Então para que mentias?
– Porque, em certos casos, é prudente mentir…
– Prudente?… Canalha que tu és…
– Se te tivesse dito logo a verdade, é possível que não gostasses…
– Era preciso, para isso, que eu te desse qualquer importância…
– Obrigado.   Não me oferece um copo de aguardente para celebrar o teu restabelecimento?
– Pede-o.
O Noivo-esfarrapado, animando-se, pediu meia garrafa.
– Que bela vida, a tua! Como tu vives, Artêmio! Nunca te falta dinheiro.
– E depois?
– Nada… As mulheres tiram-te de apuros… As malditas mulheres…
– E a ti, nem sequer te vêem…
– Paciência. Nem todos temos os pés tão preciosos para seguir pelo teu caminho — suspirou o Noivo.
– As mulheres gostam dos homens fortes e sadios. E tu, o que és? Nada. Eu sou um homem… Um homem, ouviste bem?
Era este sempre o tom em que Artêmio falava a vagabundos. A sua voz indiferente e arrastada, imprimia um cunho especial às palavras, que eram sempre rudes e agressivas. Compreendia talvez que aquela gente, em muitas coisas de pior condição, era em muito e por mais inteligente do que ele.
Caim chegou com a sua caixa de venda encostada ao peito, e um fato de percal amarelo no braço esquerdo. Tomado do seu habitual temor, permanecia à entrada da taberna, estendendo o pescoço e examinando, com um sorriso inquieto, o interior da baiúca. Vendo Artêmio, todo o seu rosto brilhou de alegria.
Artêmio olhava-o e sorria.
– Aproxima-te – disse ele a Caim. E dirigindo-se ao Noivo-esfarrapado, continuou: – E tu vai-te, dá lugar a este homem honrado.
A cara arrepiada, grosseira e vermelha, do Noivo, ficou um momento petrificada pela surpresa e pela ira. Levantou-se, olhou os companheiros, tão surpreendidos como ele, e. fitando Caim, que se aproximava lento e silenciosamente, cuspiu para o chão com raiva.
– Pff!
Depois, acercou-se novamente dos companheiros, entre os quais se ergueram murmúrios sarcásticos e furores covardemente reprimidos. Caim sorria satisfeito, e desvanecido, e olhava de vez em quando para os vagabundos.
Artêmio disse-lhe, então:
– Queres tomar chá comigo, comerciante? Pediremos pastéis. Não desejas comer pastéis? Por que motivo estás a olhar para aqueles? Bah! Cospe-lhe na cara, sem medo… Espera! Vais ver o que lhes digo.
Levantou-se, e, deixando cair a blusa que trazia aos ombros, aproximou-se da mesa onde estavam os despeitados. Aprumado e vigoroso, com o peito levantado, os braços arqueados e dispostos para a luta, soberbo em toda a plenitude da sua força, acercou-se do grupo, com um sorriso de escárnio nos lábios; eles, vendo-o perto, emudeceram e dispuseram-se a fugir.
– Vá! – disse Artêmio. – Que querem?
Desejaria  atirar-lhes à cara uma frase  terrivelmente cruel, mas nada lhe ocorreu, e conteve-se.
– Está bem, – respondeu o Noivo, a meia voz. – Se nada mais tens a dizer-nos, é melhor que nos deixes em paz. Vai-te para onde não faças dano!
– Cala-te! – ordenou Artêmio, franzindo o sobrolho. – Estás raivoso e rói-te a inveja, por eu ser amigo de Caim e te desprezar a ti… Pois ficai-o sabendo bem: o judeu vale mais que vocês todos, porque pratica a bondade humana e vocês nem o conhecem. Tem sido um mártir até agora, mas, de futuro, protejo-o eu. Se alguém o ofende, que se acautele. Juro que me não me limito a desancá-lo. Hei de sugar-lhe todo o sangue, gota a gota!
Os seus olhos tinham um brilho feroz, as veias do pescoço pareciam quererem rebentar e as faces estremeciam-lhe.
– Que me tenham espancado, encontrando-me bêbedo… pouco importa! Não perdi a energia e tenho mais duro ainda o coração! Ficai-o sabendo: defenderei Caim: e se alguém se atreve a molestá-lo, com uma palavra que seja, asseguro que não torna a repetir. Que se lembrem disto…
E, respirando satisfeito, como quem se livra dum fardo incômodo, voltou-lhe as costas.
– Boa idéia! — murmurou o Noivo-esfarrapado, ao ver que Artêmio se sentava novamente junto de Caim.
O judeu tinha presenciado aquela cena, fixando em Artêmio os seus olhos assombrados, cheios de um indizível sentimento.
— Ouviste? — perguntou Artêmio. – Já ficas sabendo. Quando algum te ofender, prevines-me. E eu lhe quebrarei os ossos…
Caim murmurava qualquer coisa: uma oração a Deus, ou um agradecimento ao homem. O Noivo e os seus amigos cochichavam; depois, abandonaram a taberna, um a um. O Noivo, ao passar junto de Artêmio, cantarolou:
Um sábio sem ter dinheiro
Não vale nada…
E com ele o bruto goza Vida folgada.
Olhou o colosso, frente a frente, e, acompanhando a cantiga duma careta expressiva, continuou:
Venha dinheiro,
E comprarei os brutos
Do mundo inteiro…
E saiu para a rua, apressadamente.
Artêmio pôs-se a vociferar, olhando em volta. Na cova escura e asfixiante, só tinham ficado três pessoas: Artêmio, Caim e Kliebnicoff ao balcão.
Os olhinhos de raposa do taberneiro, cruzaram-se, em um olhar humilde, com os do atleta.
– Fizeste bem, Artêmio — disse ele, acariciando a barba. – Procedeste segundo os preceitos do Evangelho… Como na parábola do Bom Samaritano… Caim estava coberto de chagas e de pus, e tu te aproximaste dele…
Artêmio não ouvia essas palavras, mas sim o seu eco. Esse eco, repercutindo-se pela abóbada, e reforçado naquele ambiente empestado e denso, penetrava nos ouvidos. Artêmio, silencioso, movia a cabeça vagarosamente, como se aquela voz lhe perturbasse os pensamentos. E as palavras do taberneiro, vibrando sem cessar naquela pesada atmosfera, insistentes e pertinazes, faziam-lhe mal. Artêmio sentia o coração oprimido.
Olhava obstinadamente Caim. Queimando-se e soprando, com a cabeça caída para a mesa, o judeu sorvia o chá, avidamente, levando a xícara aos lábios com mão trêmula. De vez em quando, Artêmio surpreendia um olhar furtivo de Caim, e os olhos do judeu tornavam-no ainda mais triste e preocupado. Uma sufocada sensação de desgosto, cuja causa desconhecia, lhe esmagava o peito. Olhava ferozmente em volta de si, e os seus olhos cada vez se tornavam mais sombrios. Na cabeça, rodavam-lhe, como pedras de moinho, pensamentos ainda mal definidos. Dantes não o inquietavam; mas vieram surpreendê-lo durante a doença… e não sabia como libertar-se da sua opressão.
As janelas, gradeadas como as de um cárcere, deixavam entrar o ruído ensurdecedor da rua; a abóbada suspendia-se pesadamente acima deles, com a sua viscosa e suja umidade; o chão estava coberto de manchas gordurosas; aquela criatura enfezada e medrosa, toda em estremecimentos, olhava a medo e calava-se… E, pelos campos, os trigos maduros doiravam a terra. Nos campos, para além do rio, a erva crescia, tudo palpitava de vida; e quando o vento agitava as searas, arrastava de lá perfumes tentadores…
– Por quê não dizes nada, Caim? – perguntou Artêmio. — Ainda me temes? Ah! És um infeliz!
Caim levantou a cabeça, inclinando-a novamente, de uma forma estranha. O seu rosto tinha uma torturada expressão de dúvida.
— Que podia eu dizer-te? Com que língua posso falar-te? Com esta? – e Caim mostrava a ponta da língua. — Com a mesma que me serve, quando falo a outro qualquer? Devo eu falar contigo como falaria a um outro? Pensas tu que não compreendo quanto te vexa sentares-te a meu lado? Quem sou eu e quem és tu? Pensa nisto, Artêmio, alma bondosa e tão grande como a de Judas Macabeu! Que farias tu, se soubesses a razão por que Deus te criou? Ah! Ninguém conhece os desígnios de Deus; ninguém pode adivinhar para que foi dada a vida. Mal sabes quantos dias e quantas noites eu tenho levado a pensar nisto: para que vivo eu? De que serve a minha alma? De que serve o meu espírito? Que sou eu para os outros homens? Sou como uma escarradeira a que eles arrojam a sua saliva empeçonhada. E os homens, o que são para mim? Canalhas, que de todos os modos me ferem o corpo e a alma… Que faço eu no mundo? O que faço, se só conheço a desgraça, e não me doira a existência nem um raio de luz?
Falava com veemência, baixando a voz; e como sempre, quando a sua alma atormentada e triste se comovia, um estremecimento agitava-lhe as faces.
Artêmio não compreendia bem aquelas reflexões; mas, escutando-o, adivinhava as queixas de Caim. Isto aborrecia-o e impacientava-o mais ainda, produzindo-lhe quase uma dor física.
– Bem! Aí voltas às tuas lamentações – e meneava a cabeça, contrariado. — Já sabes que prometi defender-te.
Caim sorriu com amargura.
– Como poderias tu defender-me contra o meu Deus? Ele também me persegue…
– Seguramente. Nada posso contra Deus – respondeu Artêmio com ingenuidade, aconselhando o judeu em tom compassivo. — Tem paciência… Nada se pode fazer contra Deus.
Caim, olhando o seu protetor, sorria… Sorria, compadecendo-se dele. Tinha chegado a hora de também poder compadecer-se de alguém. Teve a desgraça compaixão da força, e entre uma e outra estabeleceu-se uma corrente que se aproximava.
– És casado? — perguntou Artêmio.
– Sim; tenho uma família numerosa… Demasiadamente numerosa para os meus poucos recursos.
– Que fatalidade! – E ao dizer isto, Artêmio queria poder explicar a si mesmo, como houve uma mulher capaz de unir-se ao judeu; e olhava-o com maior curiosidade, tão raquítico, tão insignificante e débil, tão sujo e tímido.
– Tive cinco filhos; restam-me quatro. Minha filha Khaia tossia muito, tossia sempre… e morreu. Meu Deus! Minha pobre mulher também está enferma. Tosse como a filha, tosse constantemente.
– Tens muita coisa que te preocupe! – disse Artêmio, e ficou pensativo.
Entraram na taberna vários vendedores, e, dirigindo-se ao balcão, falaram em voz baixa a Kliebnicoff. Este contava-lhes alguma coisa, misteriosamente; olhavam todos de soslaio para o formoso Artêmio e para o mísero Caim, sorrindo com ar de mofa. O judeu reparou nesses olhares e estremeceu. Artêmio, embebido nas suas cogitações, via-se já nos campos, empunhado a foice e ouvindo cair com suave murmúrio a erva cortada…
– Vai-te, Artêmio; e se te agrada mais ficar, irei eu. Esta gente ri-se de ti, por causa.
– Quem se atreve a rir? — gritou Artêmio, voltando à realidade das coisas, e lançando em volta olhares furiosos.
Mas todos os fregueses pareciam estar sérios e entretidos uns com os outros. Artêmio não encontrou a quem provocar. E, franzindo o sobrecenho, disse a Caim:
– Mentes. Mentes como de costume e queixas-te sem razão… Cuidado. Isto não é brincadeira… Queixa-te quando te ofenderem. Ou acaso o fizeste para me experimentar?
Caim sorriu-se e calou-se.
Estiveram silenciosos algum tempo. Depois Caim, levantando-se, pegou na caixa das mercadorias e dispôs-se a sair. Artêmio estendeu-lhe a mão.
– Vai-te?… Que faças bom negócio. Eu fico.
Com as duas mãos fracas e pequenas, Caim apertou a mão do colosso e saiu.
Chegando à rua, procurou um canto onde se escondesse, para observar. Quase a seguir, apareceu Artêmio à porta da taberna. O seu rosto franzido como o de quem receia tropeçar com qualquer coisa desagradável. Fixava a vista nos grupos dos que passavam. Depois, o seu rosto retomou a habitual expressão de indolência e de indiferença, e encaminhou-se para o alto da colina. Procurava sem dúvida o seu costumado retiro.
Caim seguiu-o, com um olhar triste, até o perder de vista; depois apoiou a fronte pálida à grade de ferro do escuro armazém onde se tinha refugiado.
As ameaças de Artêmio deram resultado; ninguém mais perseguiu o judeu.
Caim via claramente que as sarças do seu caminho eram menos pungentes. Agora passavam por ele como se não o vissem, como se ele tivesse deixado de existir. E como dantes ele deslizava por entre todos, apregoando as suas mercadorias; mas nem poisavam intencionalmente já, nem lhe batiam, nem lhe escarravam na caixa da venda. Mas, em compensação, sentia agora a hostilidade, a frieza, as reservas que o humilhavam tanto como os motejos e as agressões.
Atento a quanto o podia interessar, observava as novas atitudes tomadas por todos, perguntando a si mesmo o que resultaria de tudo aquilo. Pensou muito, sem compreender o motivo por que o tratavam assim. E recordava-se de que, tempos antes, lhe falavam amigavelmente umas vezes por outras, perguntando-lhe como iam os seus negócios, e até gracejando com ele, sem maldade.
Caim estava pensativo. Não é raro um homem julgar ditoso o seu passado escutando tudo atentamente, e com olhares perscrutadores. Um dia, chegou-lhe aos ouvidos uma canção, composta pelo Noivo-esfarrapado, o trovador e o poeta da rua, que ganhava a vida tocando e cantando. Serviam-lhe de instrumento oito colheres de pau, que ele fazia girar entre os dedos ou batia contra as bochechas e o ventre; obtinha assim o acompanhamento preciso para as canções que ele próprio compunha. A música era pouco agradável, mas exigia em quem a executava uma agilidade de prestidigitador. E a agilidade, em todas as suas manifestações, era muito apreciada pelos moradores de Chikhan.
Uma vez, Caim foi tropeçar justamente contra um grupo, no meio do qual, munido das suas colheres, o Noivo fazia habilidades e gritava com vivacidade:
– Nobres cavalheiros e futuros presidiários! Ouvi uma canção que acabo de tirar do forno, quentinha. Custa um copeque por cabeça, só um copeque. Atenção!
Entra o sol pela janela,
E toda a casa é um encanto…
Se em vez do sol entro eu,
A ninguém agrado tanto.
– Isso já é velho! Olha que novidade! – exclamou um espectador.
– Sem dúvida! Já a tenho cantado várias vezes! Mas não dou o pão sem receber a paga — disse o Noivo, batendo com as colheres, e continuando:
Não é a vida a minha vida, É da sorte uma traição. Meu pai morreu enforcado
E enforcado meu irmão,
Mas chegada a minha vez, A corda quebrou então…
– Que desgraça! – gritavam algumas vozes, entre o público.
Cada um deu um copeque ao Noivo-esfarrapado; conheciam-lhe o feitio e estavam certos de que não era inventada a história da nova canção.
– Vou começar. Lá vinha outra!
As colheres bateram furiosamente:
Aliança concedeu.
Querem agora imitá-los
Um asno mais um judeu. Salta o boi montes e vales, Vai a aranha às cavaleiras… O judeu vende o imbecil
A casadas e solteiras…
Ai, amores!
Quem quiser ter o imbecil, Há de pagar-lhe os favores!
– Alto! Saúdo respeitosamente o senhor Caim. Ilustre comerciante, agrada-te a minha canção? Não a fiz para ouvidos de judeu… Anda! vai aos teus negócios, que não queremos ver-te…
Caim, sorrindo ao artista, afastou-se com o coração alanceado por um pressentimento.
Era feliz desde que Artêmio o protegia; mas ao mesmo tempo receava novas desgraças. Descia a rua com a sua caixa de mercadorias, certo de não ser atropelado e de não lhe roubarem os seus copeques. Via todos os dias o seu amigo Artêmio, mas não se acercava dele, preso sempre à mesma timidez, e esperando que o atleta se lhe dirigisse primeiro, o que raras vezes sucedia.
– Oh lá! Como vai isso? – perguntava-lhe.
– Bem, obrigado. Vivo, graças a ti — respondia Caim, cujos olhos brilhavam de alegria.
– Ninguém te tem ofendido?
-E quem se atreveria a isso, sabendo que me proteges?
– Bem. Se te acontecer qualquer coisa, avisa-me.
— Eu te direi o que houver.
– Está bem! – e os olhos de Artêmio fixavam-se com severidade na figurinha de Caim; depois despedia-o: – Vai tratar dos teus negócios.
Caim separava-se do seu protetor, reparando nos olhares trocistas e maliciosos do público – aqueles olhares que dantes tanto o faziam tremer.
Passou-se um mês.
Uma tarde, quando Caim se dispunha a ir para casa, encontrou-se com Artêmio. O atleta chamou-o. Caim, aproximando-se rapidamente, notou que Artêmio estava sombrio e ameaçador como uma nuvem de outono.
– Já terminaste os teus afazeres? – perguntou.
– Sim; ia agora para casa.
– Tenho que te dizer. Vem comigo.
Pesado e enorme, começou a andar. Caim seguia-o.
Deixaram a rua e continuaram pelo caminho que margina o rio, e onde Artêmio depressa encontrou um sítio a seu gosto, um barranco perto da água.
– Senta-te! – disse para Caim.
O judeu sentou-se, tímido, olhando o seu defensor. Artêmio, tranqüilamente, começou a fazer um cigarro, enquanto Caim olhava o céu, a floresta de mastros que se levantavam na margem oposta e a água que parecia dormir no silêncio da tarde, fazendo ao mesmo tempo mil conjecturas acerca do que Artêmio teria para lhe dizer.
– Bem… Como vai isso?
– Perfeitamente; já nada temo.
– Bem.
– Graças a ti.
– Ouve.
Decorreram alguns instantes. Artêmio fumava e respirava com avidez. O judeu, perseguido por um triste pressentimento, aguardava com receosa angústia o que o seu amigo tinha para dizer-lhe.
– Então, já ninguém te ofende? Já não te perseguem?
– Por medo de ti. São como cães humildes, e tu… como um leão soberbo. Eu sou…
– Espera!
– Que vais dizer-me? – perguntou, com voz trêmula.
– Que vou dizer-te?… Não é fácil explicá-lo.
– De que se trata?
– Vai ver… Falemos francamente… e acabemos com isto.
– Mas o que é?
– Isto não pode continuar assim. Não posso mais… não posso mais.
– O quê? Não podes mais… o quê?
– Desagrada-me isto… Esta vida não é própria de um homem como eu… — disse Artêmio, suspirando.
– Mas em que modo de vida falas?
– Tudo isto… Sim. Tu e tudo… Já não quero saber de nada… não me importa o que te suceda…
O corpo de Caim contraiu-se, como se o esmagassem dum só golpe.
– Se te maltratarem; se te mortificarem… sofre… Não venhas queixar-te… não te posso ajudar… nem te defenderei. Compreendeste? Não posso mais.
Caim guardou um silêncio de morte.
Artêmio, terminadas estas palavras, respirou com mais liberdade, como se tivesse conseguido libertar-se de um peso que o oprimia. E prosseguiu com mais clareza.
– Estou resolvido a pagar o serviço que me prestaste. Quanto queres? Dou-te o que me pedires. Mas não me obrigues a ter piedade… É um sentimento que desconheço… Quis encher-me de compaixão, dominar-me, vencer-me… Só aparentemente o consegui. Pensando: “Faz-me pena, não soube ter pena… Foi um engano, não tenho dó de ti.
– Por quê sou judeu? —- perguntou Caim, humildemente.
Artêmio olhou-o de lado, pronunciando ao mesmo tempo esta frase, que lhe saía do coração:
– Que… Judeu? Todos somos judeus, perante o Eterno.
– Então, por quê?
– Porque não. Não tenho compaixão de ti, nem de ninguém… Compreende-me… A outro não o explicaria… não me daria a esse trabalho. Dava-lhe um pontapé, e ele me compreenderia. Mas a ti…
– Quem me defenderá, agora, contra a canalha? Quem há de livrar-me dos meus inimigos? – perguntava, triste e humildemente, Caim, repetindo as palavras do salmo.
– Já não posso. Seria impossível! — respondeu Artêmio, fazendo com a cabeça sinais negativos. — Não tenho dó de ti. Para recompensar o que por mim fizeste, dou-te dinheiro.
– Ah! Deus Todo Poderoso! Deus Eterno! Deus vingador! Surge e arroja sobre a terra o Juízo Final! – orava Caim convulsivamente.
Era um anoitecer de outono suave e brando. O rio refletia os últimos raios de sol poente, doce e triste. As figuras de Artêmio e de Caim perdiam-se na sombra do barranco.
– Reflete um pouco — insistia, com entoação melancólica e persuasiva, o atleta. — Que hei de fazer? Compreendes que… preciso de me vingar… Lembra-te de que me surpreenderam e espancaram brutalmente…
Estava agitado, batia os dentes; depois, apoiando a cabeça entre as mãos:
– Conheço-os bem… a todos.
– A todos? — perguntou Caim, abatido.
– A todos. Preciso de ajustar contas com eles, e tu és um obstáculo, um estorvo para mim.
– Por quê?
– Não, não és tu precisamente que me estorvas; mas sinto raiva contra todos os homens. Sou pior que todos? Mão o sei. E tu? Não és nada, e eu tropecei em ti. Compreendes?
– Não — disse Caim, com humildade.
—- Não compreendes? Vamos! Estás doido! É preciso que eu sinta piedade por ti? Sim ou não? Pois bem: agora não posso sentir piedade por ninguém. Não vibra em mim nenhum rasgo de compaixão. Quantas vezes hei de repetir-te isto?
E, dando uma palmada no ombro do judeu, continuou.
– Não me compadeço de ninguém. Compreendes?
Houve um prolongado silêncio. Em volta dos dois homens, naquele ambiente perfumado e morno, pairavam no ar os murmúrios das ondas, que apareciam e desapareciam, como suspiros e queixas arrastados pela corrente.
– Que pensas fazer agora? – perguntou Caim; mas Artêmio não respondeu; estava como que adormecido; pensava talvez. – Como hei de viver, sem que tu me protejas? — acrescentou o judeu, levantando a voz.
Artêmio não respondeu. Depois, levantando os olhos para o céu, disse:
– Só tu deves decidir do que tens a fazer.
– Meu Deus! Meu Deus!
Não posso aconselhar a ninguém como há de viver
– acrescentou pausadamente Artêmio.
E como tinha dito o que desejava dizer, ficou-se tranqüilo e sereno.
– Eu tinha já adivinhado que tudo acabaria assim. Quando me aproximei de ti para te socorrer, quando te vi quase morto, quando tu tinhas o corpo cheio de ferimentos… já adivinhava que tu não serias por muito tempo meu protetor – disse Caim, dirigindo um olhar súplice ao formoso Artêmio. Mas este havia já fechado os olhos.
– Tomaste, acaso, essa resolução, por se rirem de ti? – perguntou Caim, receoso em voz baixa.
– Isso que me importa? – e Artêmio sorria, abrindo os olhos. – Se quisesse, levava-te aos ombros por toda a rua, sem temer que ninguém se risse. Que riam! Mas assim nada ficará resolvido. É preciso fazer tudo em harmonia com a verdade… a verdade como a sentimos n’alma. Eu, irmão, digo-o francamente: não gosto de te ver aqui… É a verdade…
– Portanto, queres que me afaste, que me vá embora…
– Sim; vai-te, antes que seja noite. Nada temas por hoje… Nada receias. Ninguém ouviu o que dissemos.
– E tu não o dirás?
– Não, mas não te aproximes de mim.
– Está bem! – murmurou o judeu com tristeza.
– Seria melhor que te fosses com teu negócio para outra parte – acrescentou Artêmio, com soberana indiferença. – A vida é que é dura, todos procuram fazer ao próximo o maior dano possível…
– Mas para onde hei de ir?
– Isso é contigo.
– Adeus, Artêmio.
E, com a mesma indiferença, estendeu-lhe a mão enorme, apertando fortemente os dedos mirrados do judeu.
– Não fiques mal comigo.
– Não fico — suspirou Caim, com voz entrecortada de soluços.
– Perfeitamente: será melhor assim. Pensando bem, acabarás por me dares razão. Tu és diferente de mim; não posso ter-te por companheiro. E é possível que eu viva só para ti? Já vês…
– Adeus.
– Passa bem.
Caim afastou-se, pela margem do rio, de cabeça baixa, todo curvado para o chão.
Artêmio, o formoso, acompanhava-o com os olhos; e momentos depois tornou a estirar-se na areia, apoiando a cabeça nas mãos e fitando o céu, donde a luz ia desaparecendo. Caía a noite.
Sons indecisos vibravam e desvaneciam-se, no ar. O rio, monótono e triste, marulhava sobre a margem.
Depois de ler caminhado um pouco, Caim retrocedeu, acercando-se novamente de Artêmio, ainda estendido no chão, e perguntou humildemente:
– Não será possível que tenhas mudado de idéias?
Houve um silêncio.
– Artêmio! – chamou Caim, depois de esperar por muito tempo uma resposta. — Estiveste zombando de mim? Tudo isso não seria para me assustar?… – continuava o judeu, com a voz trêmula e as lágrimas nos olhos. – Artêmio, recorda-te daquela noite em que me aproximei de ti para socorrer. Ninguém te acudiu, então; todos te abandonaram.
Teve como resposta apenas um fraco gemido. Artêmio dormia. Caim permaneceu por muito tempo junto do atleta, contemplando fixamente o seu rosto sereno e tranqüilo, cujas feições o sono tornava suaves. O peito de Artêmio movia-se num ritmo cadenciado, e, sob o bigode negro, apareciam-lhe os dentes brancos e fortes. Parecia sorrir.
Com um profundo suspiro, o judeu inclinou a cabeça ainda mais, e afastou-se de novo pela margem do rio. Tremia de horror diante da vida.
Caiu a noite. A lua iluminou a ribeira silenciosa e deserta…

Certo dia de Outono (Maksim Górki – 1895)

Certo dia de outono vi-me numa situação muito delicada e incômoda: acabava de chegar a uma cidade onde não conhecia ninguém, não tinha onde me hospedar e meus bolsos estavam vazios.
No decorrer dos primeiros dias vendera todas as peças de roupa que podia dispensar e, finalmente, não restou outro recurso senão dirigir-me ao local chamado “Desembocadura”, bairro onde se achavam os cais da navegação fluvial e onde, por conseguinte, durante a época em que trafegavam os navios, fervia a atividade portuária. Mas cheguei em princípios de outubro, início da estação hibernal quando todo o movimento fluvial pára; assim, todo o bairro estava abandonado e quieto.
Vagueei entre os armazéns fechados e as barracas dos comerciantes trancadas; pisava e repisava a areia úmida na esperança de encontrar algo de comestível, pensando em como seria agradável a sensação de estar alimentado.
Nas circunstâncias da vida civilizada é mais fácil satisfazer a fome espiritual que a física. A pessoa pode perambular pelas ruas, rodeado de casas de aspecto agradável, e supor com razoável certeza que aquelas moradias são confortavelmente organizadas por dentro. Essas observações podem despertar pensamentos aprazíveis sobre arquitetura, condições higiênicas e outras coisas sábias e abstratas. A tal pessoa cruzaria na rua com cidadãos bem trajados, esses cidadãos seriam delicados, dar-Ihe-iam caminho ignorando cortesmente a existência da nossa pessoa hipotética. Asseguro-vos que a alma do homem faminto recebe alimento mais abundante e mais sadio que a do cidadão bem nutrido — eis a situação que permite deduções espirituosas, favoráveis aos homens bem alimentados.
… Anoitecia chovendo, sopravam rajadas frias de vento vindo do norte. O vento assobiava dentro das barracas vazias, sacudia as venezianas dos hotéis fechados, as ondas do rio espumavam sob a força do vento, açoitavam ruidosamente a margem arenosa do rio, e, erguendo, orgulhosas, suas cristas brancas, perseguiam-se mutuamente saltando, pulando e desaparecendo afinal na distância brumosa… Parecia que o rio pressentia a proximidade do inverno e, assustado, procurava fugir das cadeias glaciais que o vento frio poderia forjar a qualquer momento; naquela mesma noite, quiçá, congelando sua superfície até o retorno da primavera. O céu pesado e sombrio derramava sobre a terra, chuva tão miúda que a vista mal conseguia distinguir as gotas; dois salgueiros desnudos e estropiados e um bote, deixado de quilha para cima entre eles, como que agravavam o aspecto tristonho da paisagem.
O bote com seu fundo quebrado, as árvores despidas, velhas e dignas de lástima… tudo em torno, deserto e morto, e o céu a chorar, a chorar… Pareceu-me que tudo morria em volta de mim, que logo eu seria o único ser vivo, mas condenado a morrer devagar, de fome e frio…
Entretanto eu estava no vigor dos meus dezessete anos, época boa de se viver.
Andei, andei pisando a areia, úmida e fria, e meus dentes matraqueavam, incessantemente, executando um hino em honra ao frio e à fome. De repente, tendo contornado uma das barracas na esperança vã de encontrar qualquer coisa para comer, dei com um vulto cujas roupas femininas ensopadas pela chuva se grudaram a seus ombros. Parei e observei curioso o que ela fazia: suas mãos cavavam um buraco, que tendia a passar por baixo da parede de madeira da barraca.
— Para quê faz isso? — indaguei, agachando-me, de cócoras, a seu lado.
A moça soltou um gritinho assustado e pôs-se de pé num salto. Vi então, que se tratava de moça da minha idade, bonitinha, dona de grandes olhos cinzentos que me olhavam assustados. Infelizmente, três pisaduras roxas desfiguravam o jovem rosto. A disposição simétrica das manchas azuladas, pois havia uma embaixo de cada olho e uma no meio da testa, fazia desconfiar que a pessoa que as produzira fosse artista com muita prática do ofício.
A moça continuava a me olhar e, aos poucos, o temor desapareceu de seus olhos. Em dado momento, ela sacudiu as mãos para tirar a areia que havia grudado, ajeitou o lenço na cabeça, encolheu-se de frio e disse:
— Vai ver que também está com fome? Vá cavando então, cansei-me. Lá — disse indicando a barraca, — decerto há pão… esta barraca ainda negocia…
Comecei a cavar. A moça esperou um pouco, observou-me; agachou-se a meu lado e começou a me ajudar…
Trabalhamos calados. Não posso dizer agora se naquela hora me lembrei do Código Criminal, das leis da moral, da inviolabilidade da propriedade privada ou qualquer outra das coisas importantes que, na opinião das pessoas entendidas, devem ser lembradas a qualquer momento de nossa vida. Desejando ater-me à verdade, na medida do possível, devo confessar que fiquei entretido com a tarefa de abrir entrada na barraca, a tal ponto que me esqueci de qualquer outra coisa que não fosse a especulação sobre o que poderíamos encontrar dentro da barraca…
Anoitecia. A escuridão úmida e fria tornava-se mais palpável, de minuto em minuto. O bramir das ondas parecia ter-se tornado mais abafado; em compensação o tamborilar da chuva tornou-se mais intenso e mais rápido. Ao longe, estalou a matraca do guarda-noturno…
– Será que tem soalho? — perguntou minha companheira, de mansinho. Não entendi de que falava e, por isso, nada respondi.
– Estou perguntando se a barraca tem soalho — se tiver, estamos fritos. Faremos o buraco, só para encontrarmos tábuas impedindo o caminho… Como haveríamos de arrancar as tábuas? É melhor arrancar o cadeado… é um cadeado bem vagabundo…
É raro que uma boa idéia nasça na cabeça de mulher, mas como o leitor pode observar no presente caso, isso não deixa de acontecer… Sempre fui apreciador de boas idéias e sempre tratei de as aproveitar na medida do possível.
Achei o cadeado e arranquei-o com ganchos e tudo… No mesmo instante, que abri a portinhola, minha companheira desapareceu entrada a dentro e, instantes depois, ouvi sua exclamação elogiosa:
– Êta, bichão!
Prezo um pequeno elogio feminino mais do que um discurso enaltecedor, pronunciado por qualquer homem, mesmo que ele seja tão eloqüente como todos os oradores da antigüidade reunidos. Naquele momento, no entanto, não me sentia inclinado a galanteios e por isso sem dar atenção ao elogio, perguntei lacônico e ríspido:
– Há qualquer coisa?
Em cantilena monótona, ela começou a enumerar as descobertas, na medida que topava com elas:
– Uma cesta com garrafas… sacos vazios… guarda-chuva … balde…
Nada disso servia para se comer. Senti minhas esperanças perderem o brilho quando, enfim, veio o grito salvador:
– Ah! Ei-lo!
— Quem?
– Pão… um pão inteiro… mas está molhado… pegue!
Da escuridão veio rolando um pão inteiro, seguido de perto por minha companheira do momento. Quando ela apareceu, eu já havia arrancado um pedaço e mastigava-o.
– Dê-me um pedaço também… temos que dar o fora daqui. Aonde podemos ir? A moça olhou em torno, mas não se via nada senão escuridão molhada e barulhenta.
– Lá adiante está o bote virado… Vamos lá?
– Vamos! Marchamos lado a lado e em caminho arrancávamos pedaços de pão, metendo-os na boca… A chuva engrossava, o rio berrava raivoso, de longe ouvia-se um apito prolongado, que me pareceu ter um quê de irônico, como se alguém muito grande e muito forte, que não tivesse medo de ninguém escarnecesse de tudo e de todos, inclusive de nós dois — heróis anônimos daquela aventura. O som do apito fazia-me mal, mas o mal-estar não impedia que eu comesse, avidamente, e a moça não me ficava nada a dever.
Não sei para quê eu precisei saber o seu nome, mas em dado momento perguntei-lhe.
— Natacha — respondeu a moça mastigando, gostosamente.
Olhei-a e meu coração contraiu-se dolorosamente e, quando olhei de novo a escuridão à minha frente pareceu-me que a cara do meu destino me olhava zombando de mim, sorrindo de maneira enigmática e fria.
A chuva incansável tamborilava sobre o fundo do bote e esse ruído monótono sugeria pensamentos tristes. O vento uivava, forçando entrada pela fenda no casco do bote, onde uma lasca frouxa vibrava sob o impacto e estalava de maneira inquieta num queixume contínuo. Também as ondas do rio rugiam de maneira monótona e desesperada como se estivessem contando algo intoleravelmente tedioso que as aborrecia, de que gostariam de fugir, mas que tinham de contar sem poder evitá-lo. O ruído da chuva misturava com o barulho do rio e a própria terra parecia suspirar, cansada com as eternas mudanças entre o verão, quente e brilhante, e o outono úmido, frio e brumoso.
O apartamento embaixo do bote carecia de conforto; era apertado e úmido, pelo fundo rachado entravam miúdas e frias gotas de chuva impelidas por furiosas rajadas de vento… Nós, os inquilinos temporários, permanecemos calados, estremecendo de frio. Lembro-me que senti sono: Natacha reduzida a uma bolota, recostara-se ao costado do bote. Ela abraçara os joelhos e não desviava os olhos do rio, olhos que, realçados pelas manchas azuis das pisaduras no rosto pálido, pareciam enormes, imóveis e mudos. Começou a me infundir receio… quis conversar com ela, mas não sabia por onde começar.
Ela mesma iniciou a conversa:
– Que vida miserável! — disse, distintamente e com convicção.
Contudo, aquilo não fora queixa. Houvera tanta indiferença em sua entonação que não restara margem para lamento. Simplesmente ela raciocinara como pôde, chegou a determinada conclusão e pronunciou-a em voz alta. Não me foi possível contradizê-la sem trair meus princípios, por isso continuei calado. A moça, como se despercebesse minha presença, ficou de novo quieta e imóvel.
– Quem sabe seria melhor se a gente morresse… — disse Natacha, após certo tempo; desta vez, suas palavras foram pronunciadas em voz baixa e pensativa, mas sem expressar mágoa. Aparentemente ela pensou na vida, examinou suas possibilidades e, calmamente, chegou ao resultado que para se proteger contra as agruras do destino, nada lhe restava senão morrer.
Diante desta clareza de raciocínio, senti profundo mal-estar e percebi que se eu continuasse calado acabaria chorando, envergonhar-me-ia se o fizesse diante de um ser feminino, mormente porque ela se abstinha desta demonstração de fraqueza. Resolvi romper o silêncio.
– Quem surrou você? — perguntei, incapaz de me lembrar de tópico mais inteligente.
– Foi Pachka, como sempre — respondeu a moça, calmamente.
– Quem é?
– Meu amante, padeiro…
– Surra você a miúdo?
– Quando bebe, surra.
Num gesto repentino, a moça aproximou-se de mim e começou a falar de si e suas relações com Pachka. Disse que era mulher “de vida fácil”, enquanto ele tinha bigodes ruivos e tocava muito bem sanfona. Pachka freqüentava a casa de tolerância, onde ela vivia, e ela gostou do homem porque estava sempre alegre e limpo. Usava um casaco de quinze rublos e botas feitas a mão, com enfeites. Portanto, ela apaixonou-se pelo rapaz e ele ficou sendo seu amante. Quando suas relações se estabilizaram, ele começou a tirar-lhe o dinheiro que ela ganhava dos outros fregueses; com esse dinheiro comprava bebidas e, quando embriagado, surrava-a. Isso ainda seria suportável, se ele não namorasse as outras moças na presença dela…
– Então, isso não me deve ofender? Não sou pior que as outras. Quer dizer que ele faz isso de propósito para fazer pouco caso de mim, o patife. Anteontem pedi à dona que me desse folga para dar um passeio, fui à casa dele e encontrei lá a Dunia, bêbeda como só ela. Ele também estava tocado. Disse-lhe então: “Patife! Você é um patife! Tapeador!” Surrou-me então todinha — com os punhos, puxando-me o cabelo — de todo o jeito… Isso ainda poderia passar, o pior é que me rasgou a roupa toda… Como há de ser isso? Como hei de me apresentar à dona? Rasgou tudo, blusa, vestido, eram novinhos… Arrancou-me o lenço da cabeça… Meu Deus! Como hei de me arranjar? Ao pronunciar as últimas palavras, a voz dela elevou-se num grito desesperado.
O vento uivava, tornando-se cada vez mais frio e forte… Comecei a bater os dentes, de novo. Natacha também encolhia-se de frio e chegou tão perto de mim que, apesar da escuridão, pude perceber o brilho de seus olhos.
– Que patifes são os homens todos! Se pudesse espezinhá-los-ia a todos! Se visse um morrendo, escarrar-lhe-ia na cara, mas não teria pena dele! Caras sem- vergonha! Fazem bonito, agradam, abanam a cauda, mas quando a boba faz a vontade, pronto — acabou-se! Já começam a maltratar a coitada! Demônios piolhentos!
A moça possuía variado repertório de maldições, mas quando as pronunciava não havia entonação raivosa, não transparecia ódio para com os “demônios pioIhentos”; em contraste às palavras que dizia, sua voz era estranhamente calma.
Entretanto, as palavras dela produziram em mim efeito muito mais emocionante e violento que os mais eloqüentes e pessimísticos livros ou discursos que li e ouvi antes, depois e mesmo hoje em dia. Isso aconteceu porque a agonia do moribundo é sempre mais natural e mais impressionante que uma descrição por mais artisticamente bem feita que seja.
Sentia-me mal, provavelmente mais por causa do frio que devido ao que me dissera a companheira. Gemi em surdina e rangi os dentes.
Quase instantaneamente senti o contato de duas mãozinhas frias; uma afagou-me o pescoço e a outra passou pela minha face. Ao mesmo tempo, uma voz doce e assustada perguntava:
– Que tem?
Custei a acreditar que a pergunta partiu da mesma pessoa, que pouco antes dissera que todos os homens eram patifes e desejou-lhes a morte. Mas não havia dúvida, pois em seguida ela começou a falar apressada:
— Que sente? Está com frio? Está congelando? Mas que bobo que é! Ficou o tempo todo sem dizer nada, feito coruja! Por que não disse antes que está com frio… bem… deite no chão… estique-se direitinho… e eu deito… assim! Abrace-me com força agora… mais forte! Então, agora vai sentir menos frio… depois, vamos deitar costas contra costas… a noite há de passar… Que foi que houve, deu a bebedeira? Foi despedido?… Não há de ser nada!
Consolava-me… Dava-me coragem…
Que eu fosse maldito! Três vezes maldito! Quanta ironia encerrava aquela situação! Imaginem só! Eu, naquela época estava intensamente preocupado com os destinos da humanidade, sonhava em reorganizar a estrutura social, lia livros tão diabolicamente insondáveis que a profundeza de sua sabedoria era provavelmente inacessível aos próprios autores que os escreveram — eu que envidava todos os esforços possíveis para me tornar “expoente máximo da força ativista” — e, naquela noite, uma simples meretriz aquecia-me com o calor de seu corpo; menos que simples meretriz — um ser humano perseguido, maltratado, sem lar, sem futuro, cuja vida nada valia — um ser humano a quem não me lembrei de oferecer minha ajuda antes que ela me ajudasse — e mesmo que me tivesse lembrado, duvido que teria sido capaz de lhe ser útil.
Oh, estava prestes a acreditar estar sonhando, estar vivendo tudo aquilo num pesadelo incongruente.
Mas não, nem que quisesse não poderia convencer-me de estar sonhando; a chuva continuava a borrifar-me o rosto, seios femininos comprimiam-se contra o meu peito e seu hálito morno bafejava-me o rosto; é verdade que o bafo trazia um nadinha de cheiro de vodca, mas nem por isso era muito revigorante… O vento uivava, a chuva descia ruidosa, as ondas martelavam a praia, abraçávamo-nos com toda a força, mas não parávamos de tremer. Tudo era muito real e tenho a certeza de que nunca houve quem tivesse tido pesadelo tão penoso e deprimente.
Natacha falava. Falava tão carinhosamente e de maneira tão compreensiva como só mulheres sabem falar. Sob a ação de sua voz amiga, de suas palavras ingênuas e cálidas, uma luzinha começou a arder no meu peito e algo derreteu no meu coração.
Naquele instante, lágrimas abundantes brotaram dos meus olhos e levaram com sua enxurrada muito ódio, tédio, estupidez e sujeira, que se haviam acumulado no decorrer do tempo… Natacha dizia:
– Chega, meu bem, não chore! Acalme-se! Deus há de permitir que fique bom e ache outro emprego… e tudo o mais…
Beijava-me. Beijava-me seguidamente e com ardor…
Foram os primeiros beijos que a vida me oferecera e foram os mais doces, pois os que ganhei daí em diante me custaram muito caro e de nada valeram.
– Chega de chorar, bobinho! Arranjo serviço para você se não tem para onde ir… Eram as palavras que eu ouvia como em sonho…
… Ficamos abraçados até o amanhecer…
Quando o dia clareou, saímos do nosso apartamento, de gatinhas, e dirigimo-nos à cidade… Despedimo-nos amistosamente e nunca mais nos encontramos, embora eu tivesse procurado durante mais de meio ano aquela Natacha querida com quem passei uma noite de chuva… uma noite de outono..
Se ela morreu, foi uma bênção para ela! Que repouse em paz! Se estiver viva, desejo-lhe que sua alma encontre a paz! Faço votos para que nunca se sinta decaída … pois, isso seria um sofrimento inútil para ela e para a vida…

O avô e o netinho (Maksim Górki – 1894)


Aguardando a balsa, os dois deitaram-se na sombra da ribanceira e olharam muito tempo as águas turvas e rápidas do Rio Kubanh. Leonhka adormeceu, mas o Vô Arhip sentia dor surda e aborrecida no peito e não pôde dormir. No fundo marrom-escuro da terra os dois vultos encolhidos apenas apareciam, um deles pouco maior que o outro; os rostos cansados, queimados pelo sol e pelas intempéries, poeirentos, eram quase da cor de suas roupas esfarrapadas.
O comprido corpo ossudo do avô estendera-se na estreita nesga da areia amarela, que separava o rio, da ribanceira. O menino adormecido encolhera-se ao lado do velho. Leonhka, criança mirrada e franzina, parecia um galho caído do avô, velha árvore ressequida que a correnteza havia atirado à praia.
O velho descansara a cabeça na palma da mão, o cotovelo dobrado repousava na areia. Olhava a outra margem ensolarada onde, entre os chorões baixos, aparecia a popa escura da balsa. Da balsa partia uma estrada que se perdia na estepe; a linha reta da estrada parecia inflexivelmente severa e pouco convidativa.
Os olhos inflamados piscavam irrequietos e o rosto rugoso, com as feições imóveis, guardava, permanentemente, uma expressão de indizível tristeza; freqüentes acessos de tosse seca sacudiam o velho que, olhando o neto adormecido, protegia a boca com a mão espalmada e procurava sufocar a tosse para não acordá-lo. A tosse rouca e sufocante forçava lágrimas dos olhos inflamados.
Além da tosse e do ruído manso das ondas, que esbarravam na areia, não se ouvia nada na estepe castigada pelo sol inclemente. A planície estendia-se imensa como o mar e só no horizonte, tão longe que a vista enfraquecida pela idade mal e mal distinguia, agitava-se o rico dourado de vasto trigal, que se confundia com o brilhante azul do céu. No fundo azul apareciam as esbeltas formas de três álamos; pareciam aumentar e diminuir de tamanho; a linha do horizonte também subia e descia e, de repente, tudo desaparecia encoberto pela faixa prateada da “miragem das estepes”.
A faixa movediça e traiçoeira da miragem por vezes aproximava-se do rio e, então, tomava a forma de outro rio brilhante que jorrava do firmamento, liso, calmo e majestoso como a sua fonte. Quando isso acontecia, o velho, desconhecendo o fenômeno, esfregava os olhos pensando que o calor e a estepe lhe houvessem prejudicado a visão, como já lhe haviam roubado a força das pernas.
Naquele dia, sentia-se pior ainda que ultimamente. Sentia que a morte andava próxima e o fato em si não o preocupava; não passava de mais uma das contingências do ser humano; preferia, contudo, morrer na terra onde nascera e preocupava-se com a sorte do neto. Para onde iria o órfão?
Pensava nisso diversas vezes por dia e, cada vez que o pensamento lhe aflorava à mente, um frio penoso apertava-lhe o peito e sentia-se tão mal que, se pudesse, voltaria incontinente às plagas pátrias.
“Mas para voltar, lá era longe… não chegaria… morreria em caminho. Aqui, na Kubanh, o povo é rico e dá esmola generosamente, embora seja de gênio soturno e dado a fazer pouco caso. Não gostam de mendigos, porque são ricos e não conhecem a miséria…
Retendo a vista umedecida pelas lágrimas no rosto do neto, o velho passou-lhe a mão carinhosa pelos cabelos.
O menino acordou e, erguendo a cabecinha, olhou o avô com grandes olhos azuis, pensativos e expressivos além da idade e grandes demais para seu rostinho magro, marcado pela varicela, onde um narizinho afilado mostrava sua ponta acima dos lábios finos e pálidos.
– Já vem? — perguntou o garoto e formou viseira com a mão espalmada para proteger a vista dos reflexos do sol, que brincavam na superfície do rio.
– Não, ainda não. Está parada. Que viria fazer aqui? Ninguém chamou, por isso não se mexe… — falou Arhip, pausadamente, continuando a afagar os cabelos da criança. — Dormiu?
Leonhka abanou a cabeça de maneira incerta, não se sabia se isso significava sim ou não; deitou-se de novo na areia e, por algum tempo, nenhum dos dois falou.
— Se eu soubesse nadar, tomaria banho no rio. — disse o menino olhando fixamente o rio. — Como corre! Nós não temos rios como este. Por que corre tanto? Até parece que está com medo de se atrasar para algum encontro…
Descontente, o garoto deu as costas ao rio.
– Sabe de uma coisa — propôs o velho, — tiremos os cintos, amarremos os dois juntos e a ponta podemos prender em sua perna e pronto; pode tomar o seu banho…
– Pois, sim… — retrucou Leonhka, que idéia! Então, acha que você agüenta segurar? Acabamos afogando-nos os dois, isso sim!
– É capaz de me puxar junto, é verdade. Veja só que força. Na primavera, quando vem a cheia, deve ser um horror! Quanto feno não dá aqui, Virgem Santíssima!
O menino não queria conversar e por isso não reagiu às palavras do avô; pegou um pedaço seco de barro e começou a esfarinhá-lo, muito compenetrado.
Arhip observava-o, de olhos semicerrados, pensando em alguma coisa.
– Engraçado, isso com a terra – começou o menino com voz baixa e monótona, batendo palmas para tirar a poeira. – Peguei a bolota, esfreguei e virou poeira… pedacinhos tão pequenos que a vista quase não distingue…
– Mas, é claro — comentou o avô e começou a tossir. Quando passou o acesso perguntou: — Que querias dizer com aquilo?
– Não sei bem — respondeu o menino indeciso. — É que, veja só como é grande esta terra! Quanta coisa não construíram sobre ela… Quantas cidades passamos… quanta gente mora nelas — até dá medo!
Não sabendo desenvolver o pensamento, o garoto emudeceu, olhando em torno.
Depois de uma pausa, o velho aproximou-se do neto e falou carinhosamente:
— Você é esperto, meu filho! Disse bem, tudo é pó… as cidades, as pessoas, nós dois — tudo é pó. Oh, querido se você pudesse estudar!… Iria longe. Mas assim, que vai ser de você?
O avô abraçou a cabecinha da criança e beijou-a.
– Espere, avô — exclamou o menino, libertando-se do abraço. — Como foi mesmo que falou? Poeira? As cidades e tudo?
– Foi assim que Deus criou o mundo, meu bem. Tudo vem da terra, e a própria terra é pó. E tudo morre, tudo passa… é assim mesmo. É por isso que o homem deve ser operoso e modesto. Eu também morro logo… Aonde irá você sem mim?
Leonhka já ouvira muitas vezes esta pergunta e estava farto do falar da morte, por isso virou a cabeça para o outro lado. apanhou um talo de capim e, metendo a ponta na boca, começou a mastigá-lo.
Mas o avô insistiu no assunto porque era sua maior preocupação.
– Por que não responde? Que vai fazer quando eu faltar? — perguntou mansamente inclinando-se sobre o netinho e tossindo de novo.
– Mas, eu já disse, — respondeu o menino distraído e descontente, olhando o avô, de esguelha.
Não gostava dessas conversas, já porque muitas vezes elas terminavam em briga. O avô discorria longamente sobre a proximidade da morte. No começo, o menino escutava compenetrado, assustava-se com os quadros da situação que se seguiria, chorava até, mas de pouco em pouco cansava-se, deixava de ouvir o que o velho dizia, perdendo-se em devaneios próprios. O avô percebia, ofendia-se, queixava-se de que o neto não o amava, não prezava os cuidados que o avô lhe dispensava e acabava acusando-o de desejar sua morte.
— Já disse — e daí? Você ainda é bobinho, não conhece a vida. Que idade tem? Apenas onze anos. E é doentio, não serve para trabalhar. Aonde irá, pois? Acha que gente boa vai ajudar? Se você tivesse dinheiro eles o ajudariam a gastá-lo, isso sim! Isso de pedir esmola é bem amargo, mesmo para mim que sou velho… Deve-se fazer reverência a todos, solicitar uma esmola pelo amor de Deus a cada um que se encontra. Muitos xingam a gente, às vezes batem, ou enxotam… Você pensa que eles consideram o mendigo como gente? Nunca! Já faz dez anos que ando mendigando, sei o que digo. Acham que uma fatia de pão vale mil rublos. Dão um pedaço de pão e acham que os portões do céu já se abrem para os receber, em recompensa. Por que você acha que a maioria dá esmola? Para acalmar sua consciência, não por caridade! Dá um pedaço de pão ao mendigo e pronto, já não se acanha de comer o resto. O homem de barriga cheia é uma fera e nunca tem pena do que está faminto. O farto e o saciado são inimigos — sempre um é uma felpa no olho do outro, por isso nem um, nem o outro pode sentir piedade pelo que é seu inimigo.
O velho ficou agitado pela raiva e saudade; seus lábios começaram a tremer, os olhos reviravam-se nas órbitas entumecidas e vermelhas, as rugas ficaram mais profundas.
Leonhka não gostava de vê-lo assim e, intuitivamente, temia algo impreciso.
— Por isso, pergunto o que vai fazer? Você é uma criancinha fraca e o mundo é mau, engole você de um trago. E eu não quero que isso aconteça… Amo você, meu filhinho!… Só tenho você nesse mundo, e você só tem a mim… Como é que posso morrer? Não posso morrer e deixar você sozinho… Quem cuidaria de você? Senhor! Por que castiga o seu servo? Viver já não agüento — e morrer não devo, porque tenho que cuidar da criancinha inocente… Cuidei dela sete anos… com minhas fracas forças… Jesus! Ajude-me! …
O avô chorou, amargamente, escondendo a cabeça trêmula entre os joelhos.
O rio corria sempre, apressado, pressuroso, suas ondas murmuravam, tentando abafar os soluços do homem velho. O céu sem nuvens brilhava sorrindo e derramava o calor ardente, apreciando, complacente, o murmúrio do rio.
– Chega, não chore, vovô… — falou Leonhka, severamente, olhando para longe. Após uma pausa, encarou o velho, acrescentando: — Já discutimos tudo isso. Não vou perecer, não. Vou trabalhar numa taberna qualquer…
– Matam você de pancada — gemeu o avô, soluçando.
– Talvez não me batam. Quer ver que não? — exclamou o menino com certa vivacidade. — E daí? Não me entrego a qualquer um!
Nessa altura, Leonhka murchou por qualquer motivo e depois de refletir um pouco segredou:
— Ou então entro num convento…
— Que Deus ajudasse! — suspirou Arhip, animando-se, mas nisso sobreveio novo acesso de tosse.
Na ribanceira, acima deles, ouviram-se gritos e o ranger de rodas.
— Baaalsa! ôooo da baalsaaa! — vibrava alguma voz poderosa.
Os mendigos saltaram de pé apanhando as sacolas e os bordões.
Rangendo, furiosamente, uma arba entrou na faixa arenosa. Em cima da arba, de pé, estava um cossaco. Preparando novo berro ele inclinara para trás a cabeça, com o gorro peludo colocado de banda; seu possante peito inflara-se como um fole. Os dentes brancos brilhavam emoldurados por uma barba negra sedosa, que começava logo abaixo dos olhos injetados. Trazia a japona descuidadamente jogada sobre um ombro, a camisa desabotoada, deixava aparecer o peito cabeludo e queimado pelo sol. O vulto alto e forte do homem, o cavalo de porte fora do comum, as enormes rodas com grossos aros de ferro, tudo impressionava sugerindo força, saúde e abastança.
— Hoi — ahoi!!
O avô e o neto tiraram os gorros e inclinaram-se respeitosamente.
Viva! — cumprimentou-os a voz sonora do recém-chegado. Percebendo que a balsa começara a se afastar da outra margem, o cossaco examinou os mendigos atentamente
– Vêm da Rússia?
– Da Rússia, sim, patrão! — respondeu o velho, inclinando-se de novo.
– Passam fome por lá, hein?
O homem saltara do carro e começara a firmar o correame do cavalo.
— Até as baratas morrem de fome…
– Essa é boa, até as baratas! Quer dizer que nem migalhas deixaram? Comeram tudo? Vocês são bons para comer, mas para trabalhar, decerto não. Porque trabalhando com vontade, não pode haver fome.
– O principal motivo, patrão, é a terra. Já não produz. Chupamos a força dela.
– A terra? — o cossaco sacudiu a cabeça, incrédulo — A terra tem que produzir sempre, por isso existe. Em vez de culpar a terra, devem culpar as mãos. As mãos é que não prestam; mãos habilidosas conseguem que até uma pedra produza.
A balsa chegara.
Dois cossacos grandes e fortes, firmando-se com possantes pés na coberta da embarcação, deram-lhe tal impulso que ela subiu na areia rangendo. Os homens cambalearam com a brusca parada, largaram o cabo e, entreolhando-se, sopraram o ar recuperando o fôlego.
– Calorzinho, hein? — riu-se o dono da arba mostrando os dentes, enquanto guiava o cavalo pela brida para entrar na balsa; tocara o gorro cumprimentando os balseiros.
– Que é — é! — concordou um dos balseiros e, enfiando as mãos nos vastos bolsos da bombacha, acercou-se do carro examinando seu conteúdo e farejando. Seu companheiro sentara-se na coberta e tirava a bota bufando.
Os mendigos haviam subido a bordo e encostaram-se ao corrimão, observando os cossacos.
– Vamos embora! — ordenou o dono da arba.
– Você não traz nada para beber? — indagou o que examinara o carro. Seu companheiro havia tirado a bota e espiava atentamente pelo cano.
– Não. Para quê? No rio não há água que chegue para matar a sede?
– Água… não falo em água.
– Aguardente, então? Não bebo aguardente.
– Mas por que será que não?… indagou o balseiro, pensativo, olhando a coberta do barco.
– Ora, ora, — Vamos indo!
O balseiro cuspiu nas palmas das mãos e agarrou o cabo. O viajante pôs-se a ajudá-lo.
– E você, vovô, por que não dá uma mãozinha? — perguntou o homem da bota.
– Quem sou eu para ajudar, meu amigo! — respondeu o velho com voz queixosa e abanando a cabeça tristonho.
— Nem precisam de ajuda. Dão conta sozinhos! Como se quisesse provar a veracidade do que dissera, o balseiro estendeu-se na coberta.
Seu companheiro xingou-o de preguiçoso e, não recebendo resposta, firmou ruidosamente os pés, puxando o cabo.
Sob o impacto da correnteza, a balsa estremecia, balançava e avançava lentamente.
Olhando a correnteza, Leonhka sentiu doce tontura e os olhos cansados pelo movimento rápido da água, fecharam-se. Os surdos murmúrios do avô, o ranger do cabo e o som das ondas formavam poderosa canção de ninar; quis deitar-se na coberta, cedendo à sonolência, quando um balanço mais forte o sacudiu e ele caiu.
De olhos escancarados, olhou em volta admirado. Os cossacos riam-se dele, enquanto amarravam a balsa num toco de árvore.
— Adormeceu? Você é fraquinho. Senta no carro, dou-lhe uma carona. Senta, também, vovô!
Agradecendo com voz propositadamente embargada o velho subiu no carro, gemendo. Leonhka também embarcou e a arba partiu levantando nuvens de poeira preta, que provocava no velho violentos acessos de tosse.
O cossaco começou a cantar. Seu canto era estranho; interrompia os sons ao meio e terminava-os assobiando. Parecia que desenrolava a melodia como se fosse um novelo de fio e, quando encontrava um nó, arrebentava-o.
As rodas gemiam queixando-se, a poeira subia em pequenas densas nuvens, a cabeça do velho tremia sacudida pela tosse incessante; o menino pensava que, chegando à aldeia, teria que ir de janela em janela cantando com voz fanhosa: “Nosso Senhor Jesus Cris-tooo”… Novamente os meninos da aldeia provocá-lo-iam e as mulheres fariam perguntas intermináveis a respeito da Rússia. Não gostava de olhar o avô naquelas ocasiões porque ele exagerava a sua tosse, curvava-se mais que normalmente e falava com voz lamentosa, interrompida por soluços, contando coisas que nunca sucederam… Dizia que na Rússia o povo caía morto de fome nas ruas e que não havia quem tirasse os corpos porque todo o mundo andava enfraquecido e estonteado pela fome… O menino sabia que nunca haviam visto nem coisa semelhante e que o velho contava essas lorotas para que as esmolas fossem maiores. Mas para quê serviam as esmolas dadas em espécie de trigo em grão, ou farinha?… Lá em casa era fácil vender, mas aqui na zona de fartura ninguém comprava.
– Vão pedir esmola? — perguntou o cossaco, olhando por sobre o ombro os dois vultos encolhidos.
– Pois é, meu senhor! — respondeu Arhip, suspirando.
– Fique de pé, velhinho, quero lhe mostrar a minha casa. Vocês podem vir pernoitar.
O velho tentou levantar-se, mas caiu machucando o lado contra o gradil e gemeu.
— É duro ser velho. — comentou o cossaco, lamentando-o. — Não faz mal, não precisa olhar,, quando chegar a hora de se recolherem, pergunte onde é a casa de André, o Preto — sou eu. Agora, apeem-se; adeus.
Os mendigos viram-se diante de um bosque de álamos. Através dos troncos apareciam os telhados e cercas da aldeia e por todos os lados havia outros grupos de árvores. As folhas verdes cobriram-se de poeira cinzenta e os troncos apresentavam rachaduras produzidas pelo calor.
Diante deles, começava uma rua ladeada por duas cercas e os dois se encaminharam para lá com o passo compassado de quem estava habituado a caminhar muito.
– Como é, Leonhka, vamos juntos ou separados? — indagou o velho e, sem aguardar resposta, acrescentou: — É melhor irmos juntos; quando você fica só recebe muito pouca coisa. Não aprendeu a pedir…
– E para quê precisamos de muito? De qualquer modo não conseguimos comer tudo… — respondeu o menino aborrecido, olhando em torno.
– Para quê? Bobinho! E se aparecer alguém que compre? É para isso!… Ganha-se um dinheirinho e o dinheiro é tudo. Se tivermos dinheiro, você não se perde quando eu morrer.
Sorrindo, carinhosamente, Arhip passou a mão na cabeça da criança.
– Sabe quanto eu consegui guardar desde que caminhamos, hein?
– Quanto? — perguntou o garoto indiferente.
– Onze rublos e cinqüenta copeques!… Viu?
A criança não se mostrou impressionada nem com a importância, nem com a voz triunfante do avô.
– Você ainda é muito criança, mesmo! — suspirou o ancião. — Então vamos separados?
– Cada um por si…
– Está bem. Encontramo-nos em frente da igreja.
— Sei…
O avô entrou pôr uma viela à esquerda, o menino continuou a caminhar pela mesma rua. Não deu nem dez passos, quando ouviu uma exclamação rachada: “Benfeitores bondosos!” Parecia que alguém passou a mão nas cordas de uma cítara desafinada, começando pelos baixos e continuando até as mais finas. O menino apressou o passo, estremecendo. Detestava ouvir o avô pedinchar, sentia-se mal, constrangido e quando recusavam a esmola, chegava a sentir medo de que o velho começasse a chorar.
Ainda ouvia o pedinchar penoso que flutuava no ar quente da aldeia. A povoação quieta parecia adormecida. Leonhka aproximou-se da cerca e sentou-se na sombra de uma cerejeira cujos ramos se projetavam até a rua. Ouviu o zumbido atarefado de uma abelha.
O garoto tirou a sacola dos ombros, deitou-a na terra e descansando nela a cabecinha ficou a observar o intrincado desenho formado pelos ramos contra o fundo azul do céu. Abrigado de um lado pela cerca e do outro pelo capim alto, o menino adormeceu.
Acordou ouvindo estranhos sons, que vibravam no ar já refrescado pelo anoitecer. Alguém chorava desconsolado. O choro era infantil, ruidoso e insistente. Os soluços terminavam em sons suaves, dolentes, mas em seguida recomeçavam com renovado ímpeto, aproximando-se sempre. O menino levantou a cabeça e observou a rua através do capim.
Pela rua vinha uma garota de uns sete anos de idade, trajava roupa limpa e bem arrumada. O choro deixou os olhos vermelhos e o rostinho inchado; de quando em quando a menina levantava a saia branca para enxugar os olhos. Andava devagar, arrastando os pés descalços na poeira que formava espessa nuvem em torno dela. Aparentemente não sabia aonde e para que fim caminhava. Seus olhos pretos, grandes, estavam tristes e magoados; duas orelhinhas rosadas apareciam atrevidamente através dos cabelos castanhos que, revoltos, caíam sobre a testa, cobriam as faces e chegavam até os ombros.
Leonhka achou-a muito engraçadinha, mesmo chorando, engraçadinha e alegre… pensou que devia ser muito levada.
— Por que chora? — perguntou Leonhka, levantando-se quando ela chegou perto.
A menina estacou estremecendo e parou de chorar, embora ainda soluçasse de mansinho. Olhou o menino por alguns segundos, de repente seus lábios estremeceram, o peitinho levantou-se sob a blusa, o choro rompeu de novo e ela continuou o caminho.
Leonhka sentiu um aperto no coração e partiu seguindo-a.
– Não chore… você já é grande. Gente grande não chora — dizia o menino mesmo antes de a alcançar. Quando se emparelhou com a menina, olhou-a no rosto e perguntou de novo: — Por que chora tanto?
É e-e — respondeu a menininha. — Se acontecesse a você uma coisa dessas… — de repente, sentou-se no meio da rua e, cobrindo o rosto com as mãos, soltou um uivo desesperado.
– Ora! – Leonhka fez um gesto desdenhoso. — Mulher! Não passa de mulherzinha… que coisa!
Mas a observação filosófica não adiantou a nenhum dos dois. Vendo como entre os dedinhos rosados coavam lágrimas e mais lágrimas, o garoto sentiu muita pena dela e quase chorou também. Curvou-se para a menina e com muito cuidado, brandamente, tocou em seus cabelos, mas, mais que depressa retirou a mão ousada. A menina continuava a chorar e não dizia nada.
– Escute! — disse Leonhka, depois de prolongada pausa, pois sentia necessidade urgente de ajudar a menina, — diga-me o que foi… Alguém bateu em você? Isso passa!… Ou foi outra coisa? Diga-me, por favor..
A menina não tirou as mãos do rosto, mas finalmente meneou a cabecinha desconsolada e, mesmo soluçando, disse dando de ombros:
— O lenço… perdi o lenço! Papai trouxe da cidade… azulzinho… cheio de flores… eu pus — e perdi! — começou a chorar mais alto, mais sentida, soluçando e gritando alguma coisa que parecia o-o-o-o-o-o!
Sentindo-se incapaz de lhe valer, Leonhka afastou-se um pouco, temeroso e ficou a olhar o céu escurecido. Sentia-se deprimido e lamentava a menina.
— Não chore, quem sabe ainda aparece… — murmurou o garoto e afastou-se mais um pouco, pensando que o pai certamente iria surrar a menina. Imaginou o pai, um grande cossaco moreno surrando a criança que, sufocada pelas lágrimas, tremendo de medo e de dor, arrasta-se a seus pés…
O menino afastou-se, mas mal deu uns passos retrocedeu, parou diante dela e encostando-se na cerca quis lembrar-se de alguma coisa para dizer, bem carinhosa… consoladora…
— Não fica bem você ficar sentada aqui, pequerrucha! Chega de chorar… Vá para casa e diga direitinho como foi… diga que perdeu… Está com medo da surra?
Falou brandamente, condoído e vendo que a menina começava a se levantar, exclamou sorrindo contente:
— Assim é melhor! Vá para casa, vá. Quer que a acompanhe e conte tudo? Não deixo baterem, quer?
Leonhka endireitou os ombros, orgulhoso, e olhou em volta desafiando alguém.
– Não precisa, não… – murmurou a menina, limpando a saia e soluçando ainda.
– Se quiser eu vou! – ofereceu-se Leonhka de novo e colocou o gorro de lado, como vira os valentões fazerem.
Estava diante dela em atitude corajosa, de pés afastados, o que estranhamente realçou seus andrajos. Firmava o bordão decididamente e seus olhos grandes, geralmente tão tristes, brilhavam resolutos e orgulhosos…
A garotinha olhou-o, disfarçadamente, e esfregando as lágrimas no rostinho empoeirado, suspirou, dizendo:
— Não, não vá. Mamãe não gosta de mendigos.
A menina foi embora, mas duas vezes ainda virou o rostinho, olhando-o.
Leonhka sentiu novamente tédio. Imperceptivelmente mudou de atitude, curvou-se, ficou submisso como sempre, pendurou a sacola às costas, mas quando viu a menininha desaparecer atrás da esquina gritou-lhe:
— Adeus!
Ela olhou-o mais uma vez, sem parar e desapareceu.
Já anoitecia e reinava o mormaço que prenuncia as tempestades. Os topos dos altos álamos ainda refletiam os últimos raios vermelhos do sol, mas a sombra que já envolvia a ramagem parada fazia-os parecerem mais altos que de dia. O céu tornava-se escuro e aveludado e já não parecia tão distante. De alguma parte, vinham vozes de diversas pessoas conversando, em outra parte cantavam. Os sons graves do canto também pareciam pesados e deprimentes como o mormaço.
Leonhka ficou mais abatido ainda e sentiu até um temor estranho, sem conhecer a causa. Resolveu procurar o avô e avançou rapidamente rua acima. Repugnava-lhe pedir esmola. Andando, percebeu que seu coração batia mais célere que de costume e que tinha preguiça não só de andar, mas até de pensar… Mas não esquecia a menininha e pensava: “Que estará acontecendo com ela? Se for filha de gente rica, decerto apanha, porque os ricos são sovinas; se for pobre, talvez apenas ralhem com ela… Nas casas pobres gostam mais das crianças porque vêem nelas futuros braços que poderão ajudar no trabalho”. Um pensamento seguia o outro, mas a tristeza, que o acompanhava qual uma sombra, tornava-se mais pesada, mais amarga, de minuto a minuto.
As sombras também tornavam-se mais sufocantes. Homens e mulheres, que passavam por ele, não lhe davam atenção alguma; já estavam habituados com os pedintes que, vindos da Rússia, invadiam a Kubanh. Também Leonhka mal olhava para seus rostos e suas figuras robustas; apressava-se a chegar à igreja cuja cruz avistava através das copas das árvores.
Ouviu o ruído dos rebanhos que voltavam do pasto. Eis a igreja, baixa, mas grande, de cinco cúpulas, paredes pintadas de azul, cruzes douradas que se perdiam por trás dos altos álamos que cercavam a igreja.
O avô aproximava-se também, arcado sob o peso da sacola bem recheada; protegia a vista com a mão espalmada, procurando o netinho.
Atrás do avô, vinha um cossaco grande e forte, de gorro enfiado sobre os olhos e bengala na mão.
— Que é isso? A sacola está vazia? — perguntou o ancião avistando o menino, que parara em frente da porta da igreja. — Veja quanto eu consegui! — disse o velho tirando sua sacola e depositando-a no chão a muito custo. — Gente boa aqui, generosa! Por que você está tão triste?
– A cabeça me dói… respondeu o garoto, sentando-se ao lado do avô.
– Não diga… Cansou-se… é o calor… Já vamos à procura da pousada. Como era mesmo o nome daquele homem?
– André, o Preto.
– Vamos indagar assim mesmo — onde mora André, o Preto, boa gente? Aí vem vindo um homem… Sim… gente boa… gente rica — todos comem pão de trigo. Boa noite, amigo!
O cossaco aproximou-se dos mendigos, parou e respondeu pausadamente:
— Boa noite!
Em seguida, olhando os dois, com grandes olhos inexpressivos, coçou-se.
Leonhka olhava-o apenas curioso, mas Arhip pestanejava traindo nervosismo; o homem fitava-os calado; a certa altura começou a pescar o comprido bigode com a língua. Tendo conseguido o seu intento, mastigou um pouco o bigode, empurrou-o de novo com a língua e só então decidiu-se a romper o silêncio que já se tornava penoso.
– Vamos à Sala do Conselho!
– Para quê? — perguntou o ancião agitado.
Leonhka sentiu um estremecimento de mau agouro.
– Precisa… A ordem é essa. Vamos!
Deu-lhes as costas e começou a andar, mas notando que os dois não se mexiam, parou e gritou meio zangado.
– Que estão esperando?
Isso bastou para que avô e neto o seguissem apressados.
O menino observava o velho atentamente e viu que seus lábios estremeciam e a velha cabeça tremia, enquanto ele procurava alguma coisa com a mão metida no peito da camisa. Desconfiou que o avô teria feito alguma coisa que não devia, como o fizera outro dia num povoado por onde passaram. Lá, o velho havia “desapertado” umas roupas estendidas para secar e fora apanhado. Caçoaram dele então, xingaram, chegaram mesmo a bater-lhe e expulsaram-nos do povoado, em plena noite. Pernoitaram na praia de uma enseada e o mar não parou de rosnar ameaçadoramente a noite toda. O avô gemeu até amanhecer o dia, rezou, murmurando, acusando-se de ladrão e pedindo perdão a Deus.
– Leonhka…
Leonhka assustou-se com a cotovelada do velho e olhou-o. O rosto do avô ficara chupado, cor de cera e tremia.
O cossaco andava a cinco passos à frente dos mendigos fumando no cachimbo, decepando as ervas daninhas à beira do caminho com sua bengala. Não lhes dava atenção.
— Tome… jogue no mato e marque o lugar… para apanhar mais tarde — sussurrou o avô num fio de voz, apenas audível e enfiou na mão do netinho um pedaço de pano amassado em bola.
Leonhka estremeceu de medo e aproximou-se da cerca onde havia uma touceira de bardanas. Observando atentamente as costas da escolta, estendeu o braço e largou o pano no meio da touceira…
Ao cair, a bolota abriu-se e Leonhka viu um lenço azul com florzinhas, mas essa visão real foi obliterada pela figurinha soluçante da meninazinha que surgiu diante dele tão real, tão viva que o menino já não viu nem o avô a seu lado, nem o cossaco a sua frente — só via a menina, escutava seus soluços e via as lágrimas pingando na poeira.
Ainda continuava nesse estado de semiconsciência quando entrou na Sala do Conselho, ouviu o surdo rumor de vozes sem as entender, relutando mesmo em compreender o que se dizia. Através de uma estranha névoa, viu quando pegaram a sacola do avô, esvaziaram-na sobre a mesa e ouviu o ruído abafado dos objetos, que caíam no tampo da grande mesa. Em seguida, uma porção de gorros de peles rodearam o monte de objetos e, visto através da névoa, o movimento dos gorros parecia sinistro e ameaçador… De repente, dois grandalhões agarraram o ancião que se debatia, murmurando alguma coisa com voz rouca…
– Sofro inocentemente, meus senhores! Deus sabe que sou inocente! — guinchou o ancião, de súbito.
Corando, o garoto sentou-se no chão.
Chegou a sua vez. Levantaram-no do chão, puseram-no sentado num banco e revistaram sua roupa andrajosa que mal cobria o corpinho, mirrado.
— A Danilovna está mentindo, aquela bruxa! — gritou alguma voz poderosa, sob cujo impacto os ouvidos do menino doeram.
– Quem sabe se não esconderam em alguma parte? — gritou outra voz, ainda mais zangada.
As vozes sonoras pareciam pancadas, quando atingiam a consciência da criança, que só de pavor perdeu os sentidos e mergulhou nas trevas assustadoras, que se abriram diante dele.
Quando o menino voltou a si, sua cabecinha repousava no regaço do avô e, do rosto ainda mais rugoso e mais lastimável que de costume, pingavam lágrimas sobre a testa do garoto e faziam cócegas ao rolarem pelas suas faces e pescoço.
— Desmaiou, meu coração?! Vamo-nos daqui, querido. Vamos, soltaram-nos os malditos!
Leonhka levantou-se, mas sua cabeça parecia estar cheia de algum líquido pesado que a faria cair de seus ombros a qualquer momento… Agarrou a cabeça com as duas mãos e oscilou gemendo.
— Dói a cabecinha? Coitadinho do meu netinho! Torturaram-nos… essas feras! Sumiu um punhal e uma menina perdeu o lencinho e pronto — vieram para cima de nós!… ó meu Deus!… por que nos castiga?
A voz fanhosa do avô magoava o menino e alguma chama ardente no seu íntimo o obrigou a se afastar do ancião e a olhar em volta. Estavam sentados na saída do povoado, na sombra escura de uma árvore. Era noite fechada, a lua pairava no céu e sua luz prateada deixou a estepe menor, mas mais vazia, mais desolada e triste. Do horizonte subiam espessas nuvens que se moviam majestosas, lançavam sombras ameaçadoras sobre a estepe e logo sconderam a lua. Do povoado, ouviam-se vozes e começaram a brilhar luzes.
– Vamos, querido, temos que ir…
— Fiquemos mais um pouco — pediu Leonhka.
Gostava da estepe. Andando de dia, causava-lhe prazer olhar ao longe onde a cúpula do firmamento repousava sobre o possante peito arcado da planície… Imaginava que além daquela linha havia cidades maravilhosas habitadas por gente bondosa que não esperava que lhes pedissem pão — ofereciam-no de bom grado… Quando, porém, da vasta campina surgia diante dele um povoado tão parecido aos muitos que já haviam visto, o menino ficava triste e sentia-se logrado.
Naquela noite ficou a olhar pensativamente o horizonte de onde surgiam as pesadas nuvens. Imaginava que fossem a fumaça produzida pelas milhares de chaminés da cidade de seus sonhos… A tosse seca do avô interrompeu os devaneios.
Leonhka olhou atentamente o rosto molhado pelas lágrimas e a boca que, ansiosamente, apanhava golfadas de ar.
O rosto iluminado pelo luar e estranhamente sulcado por traços de sombra lançados pelos pêlos do gorro e pelos fios da barba e das sobrancelhas, a boca a se mover espasmodicamente e os olhos escancarados irradiando incompreensível brilho triunfante — infundiam ao mesmo tempo temor e piedade, reforçando o estranho e novo sentimento que nascera no íntimo do netinho e o obrigava a se afastar do avô…
– Está bem, fiquemos mais um pouco, está bem. — murmurava o ancião e com sorriso tolo, nos lábios contorcidos, procurava alguma coisa metendo a mão por trás do peito da camisa.
Leonhka não quis olhá-lo e desviou a vista, apreciando, de novo a paisagem.
– Leonhka!… Veja só! – exclamou o avô soluçando triunfante e, contorcendo-se num violento acesso de tosse, estendeu-lhe um objeto brilhante e comprido. Prata cinzelada… prata, compreende! Vale no mínimo cinqüenta rublos.
O velho tremia de dor e cobiça.
Leonhka estremeceu e afastou bruscamente a mão do avô.
– Esconda depressa, vovô! Esconda pelo amor de Deus! — murmurou o menino, súplice, olhando em redor, temeroso.
– Ora, que há, bobinho? Está com medo? Olhei pela janela aberta e vi-o… Peguei, escondi na roupa… depois joguei na moita. Quando vínhamos, saindo do povoado, fingi derrubar o gorro… inclinei-me e apanhei-o… Eles são bobos!… O lenço também apanhei — ei-lo! O velho sacudiu, orgulhosamente o lenço diante do netinho.
A névoa que flutuava diante da visão espiritual do garoto partiu-se e ele viu nitidamente o seguinte quadro: ele e o avô andando apressados pela rua da aldeia, caminhando rapidamente e assustados e ele, o menino da visão, sente que todos têm o direito de bater neles, de cuspir-lhes no rosto, de os xingar… Toda a paisagem, as cercas, casas e árvores balançam como que varridos por forte vento e ouve-se o rugido de vozes irritadas. A penosa caminhada parece não ter fim, não se vê o fim da rua que a massa compacta das casas vacilantes oblitera. Ora, as casas avançam contra eles querendo esganá-los — ora, fogem escarnecendo dos fugitivos… De repente, de uma das janelas, soa o brado estridente “Gatunos! Gatunos! Ladrão, ladrãozinho!…” Lançando um olhar temeroso, Leonhka viu a meninazinha que encontrara chorando e tentara proteger… Captando seu olhar, a menina mostrou-lhe a língua, enquanto seus olhinhos brilhavam raivosos, ferindo o garoto.
Essa rápida visão desapareceu tão depressa como viera, mas deixou no rosto do menino um sorriso mau que ele não teve dúvida de mostrar ao avô.
Arhip continuava a dizer alguma coisa, sufocava de tosse, gesticulava e enxugava o suor que lhe brotava da testa.
Enorme nuvem negra e esfarrapada havia engolido a lua e o menino quase não podia distinguir as feições do avô… Evocou mentalmente a imagem da garota e, colocando-a ao lado do velho, como que pesou-os comparando-os. O velho doente, fraco, esfarrapado e ganancioso — comparado com a menininha bonita, sadia e forte apesar de suas lágrimas sentidas — pareceu-lhe inútil e tão mau como um bruxo dos contos de fadas. Como pôde acontecer tal coisa? Por que a magoara? Não era parente dela…
O velho resmungava sempre com voz rouca, sufocada:
– Se eu pudesse juntar pelo menos uns cem rublos!… Poderia então morrer sossegado…
– Basta! — explodiu o garoto de repente. — Chega! “Morreria! Morreria!…” Mas não morre… Em vez rouba! — o menino gritou fora de si e pôs-se de pé num salto — Velho ladrão! U-u-uh! — ganiu Leonhka tomado de um paroxismo de raiva impotente e, fechando o punho, sacudiu-o, no rosto de Arhip que se calou de repente; em seguida, o menino deixou-se cair sentado e continuou a falar cerrando os dentes: — Roubou de uma criança… bonito! É velho, mas não larga mão de roubar… Quando morrer, vai pagar por esse pecado.
De súbito, a planície toda estremeceu iluminada por luz azulada… A escuridão que a revestira, oscilou desaparecendo por alguns instantes… Ensurdecedor trovão sacudiu terra e céu e rolou estepe afora, enquanto massa disforme de nuvens negras corria célere pelo céu, apagando a luz do firmamento.
Escureceu por completo. Distante, um relâmpago riscou a escuridão e, um segundo depois, novo trovão, desta vez abafado e surdo, rompeu o silêncio… Em seguida, silêncio absoluto que parecia não ter fim nunca.
Leonhka fazia o sinal da cruz. O velho ficou imóvel e silente, parecia grudado ao tronco da árvore onde se encostara.
— Vovô! — sussurrou o garoto presa de terror diante do novo trovão que esperava a todo o momento — Vovô, vamos voltar ao povoado.
O firmamento estremeceu de novo e iluminou a terra com a tétrica luz azulada, seguida de barulho ensurdecedor de milhões de chapas de aço caindo sobre a terra indefesa…
— Vovô! — gritou Leonhka novamente.
Sua voz abafada pelo trovejar pareceu o som de pequeno sino rachado.
— Que há? Está com medo? — perguntou o velho, continuando imóvel.
Grossas gotas de chuva começaram a cair e o seu ruído parecia ser misterioso aviso de perigo iminente. Na distância, o rumor da chuva era uniforme e assemelhava-se ao de enorme escova esfregando a estepe, mas perto deles percebia-se o impacto individual de cada gota. O trovejar avançava sobre eles e as pausas entre os relâmpagos ficavam menores.
— Não irei ao povoado! Prefiro morrer afogado aqui mesmo… já que sou um velho cão velhaco… e que o trovão acabe de me matar! — dizia Arhip, sufocando. — Não vou! Vá sozinho… O povoado é ali… Vá! Não quero você aqui! Vá!! Suma-se!!
O murmurar do velho transformara-se em gritos surdos, roucos e ameaçadores.
– Vovô! Perdoe-me! — pediu o garoto aproximando-se do velho.
– Não vou! Não perdôo… Cuidei de você sete anos! Fiz tudo por você! Vivi para você!… só para você… então eu preciso de alguma coisa para mim? Estou morrendo… e você me chama de ladrão… para quem roubei? Para você… tudo isso é seu… tome… tome… pegue! Fiz economia para você… roubei para você também… Deus vê tudo… sabe que roubava… Vai castigar esse cão velho… por ser ladrão… Já me castigou… Senhor! Castigaste-me, hein? Castigaste — não foi? Mataste-me com a mão da criança. Está certo… é justo! És justo, Senhor! Manda buscar minha alma… ôoooh!
A voz do velho transformou-se em uivo agudo, que apavorou o menino.
Os trovões explodiam seguidos, como que perseguindo-se, querendo transmitir à terra alguma mensagem muito importante. O firmamento, dilacerado pelos relâmpagos, contorcia-se e a planície, ora vasta sob a luz sepulcral, ora contraída quando, mergulhada na escuridão, apavorava…
As luzes convidativas do povoado desapareceram atrás da massa compacta da chuva inclemente que apagou todas as distâncias.
Leonhka desfalecia de pavor, de frio e de uma imprecisa sensação de culpa nascida do grito assustador do avô. Seus olhos imóveis olhavam à frente, o medo não lhe permitia pestanejar mesmo quando a água da chuva, acumulada nos cabelos, invadia seus olhos. Escutava atento a voz do avô, afogada pelo tumulto da tormenta.
O garoto percebia que o velho continuava imóvel, mas parecia-lhe que o ancião desapareceria a qualquer momento, deixando-o só e abandonado. Sem querer, foi se achegando ao avô e quando seu cotovelo esbarrou no velho o menino estremeceu na expectativa de algo apavorante.
Um relâmpago rasgou a escuridão e iluminou os dois vultos encolhidos, pequeninos, miseráveis, inundados pela água da chuva, a escorrer abundantemente da árvore que os abrigara enquanto pôde.
O ancião fazia gestos e murmurava alguma coisa, mas sua voz sufocada tornava-se cada vez mais fraca.
Olhando o rosto do velho, Leonhka soltou um grito de pavor: à luz azulada do relâmpago, julgou ver um cadáver em que apenas um par de olhos desvairados acusavam vida.
– Vovô! Vamos! – gritou o menino, escondendo a cabecinha nos joelhos do velhote.
Arhip debruçou-se sobre a criança e enlaçou-a fortemente com os braços e, apertando-a contra o peito; soltou um uivo penetrante como o de um lobo na armadilha.
Enlouquecido pelo uivo animal do velho o menino libertou-se do abraço, pôs-se de pé num salto, e fugiu qual flecha disparada, sem saber para onde. A chuva cegava-o, o garoto caía, levantava-se e disparava de novo, fundando na escuridão tão densa que parecia palpável.
O ruído da chuva era frio, indiferente, monótono. Parecia que na estepe nunca houvera e jamais haveria coisa alguma além da chuva, do trovão e dos relâmpagos.
Na manhã seguinte; os meninos da aldeia correram à estepe para ver os efeitos da tempestade da véspera, mas voltaram em seguida dando o alarma. Declararam ter encontrado o cadáver do mendigo da véspera que certamente fôra assassinado porque a seu lado estava um punhal.
Quando os cossacos vieram verificar o que houvera, viram que o ancião ainda vivia. Quando os homens se aproximaram, ele tentou erguer-se mas não pôde. Já não falava e seus olhos apenas indagavam e procuravam algo sem encontrar e perguntavam sem obter resposta.
Arhip morreu ao anoitecer e foi enterrado debaixo da árvore onde fôra encontrado porque a maioria julgou inconveniente enterrá-lo em terra benta: porque fôra forasteiro, ladrão e morrera sem confissão. Ao lado dele, na lama, haviam encontrado o punhal e o lenço.
Dois ou três dias depois encontraram Leonhka.
Um bando de corvos começou a girar acima de uma baixada na estepe e, quando foram ver o que havia, acharam o menino: jazia na lama, de bruços, os braços abertos em cruz.
Primeiro, quiseram enterrá-lo no cemitério, mas acabaram sepultando-o ao lado do avô. Levantaram um monte de terra sobre a sepultura e colocaram nele tosca cruz de pedra.