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A importância da desimportância

I Love Realism

“Um homem carrega seus livros”. A frase ressoa na minha cabeça como se a ouvisse pela primeira vez. Estranhamente o autor da frase não se lembra dela. Tinha eu onze, talvez doze anos. Lembro que me causou fortíssima impressão. Somente anos depois pude notar que foi ali que começou minha atração quase maníaca pela estética das frases.

E só foi bem depois disso que me convenci que a beleza por si só já era mais do que um meio ou um motivo, mas um fim em si,  só então é que pude me desculpar por mais essa futilidade confessa. E ainda que alguém discorde, se pensarmos que em nossas vidas tudo de importante volta e meia vem empacotado com um bolo de futilidades… eu hoje não perderia tempo tentando me justificar.

Mas volto a frase. Estou na sala da casa dos meus pais, meu pai curvado na estante recolhe seus últimos livros antes de sair de casa. Eu pergunto o que ele está fazendo, a frase ressoa, e meu interesse por livros torna-se instantâneo. Dramaticamente instantâneo, para o bem ou para o mal.

À partir daquele momento surgia uma nova necessidade, se a frase não fosse dita, eu talvez colecionasse selos ou moedas ao invés de livros. Ninguém acredita em destino a não ser quando um pedaço de reboco despenca do alto de um prédio pra nossa cabeça. A tragédia é inerente a condição humana, e perceber as coisas como inevitáveis ajuda a confortar o inesperado. Hoje acho que aquele momento foi determinante e inevitável, influenciou minha personalidade para o resto da vida. E não é fácil admitir o acaso, mesmo que o bom senso nos implore a entender que foi uma mera casualidade.

Digo isso pra me fazer entender, não é de hoje que me chamam de velho. Todas as minhas namoradas repetiram isso em algum momento e meus amigos mais próximos não escondem o espanto e não cansam de lembrar minha vergonhosa velhice precoce. Como alguém prefere Coltrane à sei lá o que esteja na moda? Nem eu mesmo consigo entender. Nenhum amigo meu ouvia Coltrane, Miles ou Charlie Parker, nem sabiam que eles existiam. E o motivo não é fútil, não havia quem os conhecesse por perto. Grande parte das coisas diferentes que conheci veio pelos livros. Eu nunca correria pra uma loja de disco a quilômetros de distância da minha casa se não tivesse lido um romancezinho besta (que infelizmente não lembro o nome) contando as histórias de um saxofonista americano exilado em Paris; sem isso eu nunca me perguntaria que tipo de música era aquela, e sem conhecer, nunca saberia se iria gostar ou não.

Dia desses eu folheava um livro do Hesse, me veio a pergunta: como seria minha vida se eu nunca tivesse lido Demian, ou ainda o Lobo da Estepe. o Lobo é o maior culpado da minha vergonhosa senilidade, depois que li a primeira vez devo ter envelhecido uns dez anos tentando superar os questionamentos que o livro causou. É certo que não devemos nos cobrar tanto ou tentar avançar além das nossas pernas, poucas coisas aliás, são mais inconvenientes que uma criança ou um jovem de bom senso. Hoje admito isso de bom grado, e não escondo o desejo de diminuir sucessivamente o pouco bom senso que acumulei ou fingi ter acumulado até o mínimo possível. Pretendo aos 40 já ter atingido o mesmo nível de um bêbe, quem sabe?!

Não tenho como evitar, mas estou convencido que a glória do dia-a-dia está reservada ao idiota da objetividade, ao Medalhão do Machado, ao Conselheiro Acácio do Eça. E se não fossem essas figuras eu talvez fosse o canalha fundamental que o Nelson Rodrigues tanto condenava. Não fosse Oscar Wilde e seu Dorian Gray, eu talvez desse mais importância ao meu trabalho. Não fosse o Hesse, eu talvez me desesperasse sem saber que existe uma certa unidade que eu posso buscar.

Hoje, quem não me conhece tão bem, até pode pensar que a maior importância da minha vida sejam os meus livros e os meus discos, e por isso eu sou um velho — ou pior um jovem travestido de velho. Mas eu particularmente não penso, nem tento pensar nisso. Não faz muito  tempo que passei a reconhecer que a maior importância na vida de alguém é buscar ou criar alguma coisa bela. Ainda que não tenha sentido ou utilidade. Ainda que não consiga.

Pra mim, os livros são só uma maneira de continuar buscando essas coisas enquanto eu estou sozinho em casa. Nunca os permito serem substitutos da realidade, são desimportantes, e por isso mesmo essenciais.

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  1. Joana Ferry
    abril 7, 2010 às 11:37 pm

    Olá novamente, Conselheiro

    Acabo de ler esse seu texto, não pude deixar de enviar um comentário. Ainda que eu não tenha o que escrever, porque você se encarregou de dizer tudo! rs. É tão bom e raro deparar-se na internet com inteligência e sensibilidade.

    Arranjarei tempo para ler mais seu blog. Estou relendo os livros que me carregam…

    Abraço,
    Joana

  2. abril 8, 2010 às 12:55 am

    Olá Joana, obrigado pela gentileza. Espero vê-la ainda outras vezes por aqui.

    Abraços!

  3. Sara
    junho 12, 2010 às 12:22 pm

    Saudações, Conselheiro Acácio

    Devo dizer que estava navegando em busca de uma frase que creditei a Miguel de Cervantes: “O homem não tem importância”. Então achei seu site e havia até esquecido da frase (ou da busca, corrigindo-me).
    A frase no início ampliou um leque de sensações, pensamentos… “Um homem carrega seus livros”.
    Não posso dizer que lhe compreendo – está aí algo de que duvido, que as pessoas sejam capazes desse feito. Mas confesso que foram frases como as que ouviu do seu pai que também me envelheceram precocemente, ou me despertaram. E nem acredito em “velhice precoce”. Como eu poderia ter essa certeza, não é mesmo?
    Enfim, sem mais delongas, acho por vezes interessante leituras de blogs. Dão-me a impressão de ouvir um desconhecido numa rodoviária…

    Abraço,
    Sara

  4. Sara
    junho 12, 2010 às 1:16 pm

    Saudações, Conselheiro,

    Notei os escritores aqui ao lado. Que sorte de bons autores, viu?
    Queria apenas acrescentar um escritor italiano: Dino Buzzati. Já ouviu falar de “O deserto dos tártaros”? Não é uma leitura agradável para muita gente, confesso, mas eu acredito que seja uma leitura enriquecedora.

    Abraço,
    Sara

    • junho 13, 2010 às 2:41 am

      Olá Sara, obrigado pelos comentários! Sobre O deserto dos Tártaros, ouvi falar sobre ele em um outro livro muito interessante do Nassim Nicholas Taleb, o Cisne Negro. Ele comenta sobre esse livro em algumas passagens e realmente me pareceu bastante interessante — mas infelizmente ainda não achei o livro por perto para comprar.

      Vou procurar alguns textos do Dino Buzzati para postar por aqui — se tiver alguns é só mandar que eu publico.

      Abraços

    • junho 29, 2010 às 2:00 am

      Olá Sara, demorou um pouco mais achei um conto do Dino pra postar por aqui:

      https://conselheiroacacio.wordpress.com/2010/06/29/o-aumento-dino-buzzati/

      Se achar outros vou postando.

      Abraços!

  5. FFF
    junho 24, 2010 às 2:15 pm

    Bom texto e belo blog. Caí aqui por conta dos textos do Antônio Prata e acabei achando também textos do Rubem Braga, Fernando Sabino e seus.

  6. Doriedison Santos
    outubro 8, 2010 às 2:14 pm

    Conselheiro Acácio, “Um homem carrega seus livros”.
    Muito bom o seu texto,bom mesmo. A importância da desimportância faz-nos refletir das toneladas de coisas fúteis a que nos atemos e do pouco sentido que damos às coisas pequenas mas que são realmente importantes. A verdade é irrefutável. Parabéns.

  7. abril 29, 2012 às 11:04 pm

    Conselheiro,
    Você coloca tweet para indicar que escreveu novo post no blog?
    Obrigada,
    Heloisa

    • abril 30, 2012 às 9:47 am

      Olá Heloisa,

      Na verdade não, mas você pode acompanhar os novos posts através do feed RSS:

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      Ou mesmo assinando a lista de distribuição, assim cada novo post será enviado diretamente para o seu email cadastrado.

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      Em caso de dúvidas só avisar!

      Abraços!

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