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Archive for agosto \29\UTC 2008

O bispo (Anton Tchekhov)

I

Na véspera do Domingo de Ramos celebraram-se os últimos ofícios divinos, no Mosteiro de Staro-Petrovsky. Quando distribuíam os ramos, já eram quase dez horas, as luzes baixavam, os pavios queimavam — e tudo parecia envolto em bruma. Na penumbra da igreja, a multidão ondulava como um mar e Monsenhor Piotr, doente há três ou quatro dias, tinha a impressão de que todos os rostos — dos velhos, dos jovens, dos homens, das mulheres — se assemelhavam; de que os olhos de todos quantos se aproximavam para receber o ramo eram iguais, em sua expressão. A semi-escuridão impedia-o de distinguir a porta, a multidão continuava a desfilar, dir-se-ia que interminavelmente. Um coro de mulheres cantava. Uma religiosa lia os cânones.
Sufocava-se. Que calor! E como fora longo o ofício! Monsenhor Piotr estava fatigado, respiração ofegante, curta, seca, ombros doendo de cansaço, as pernas trêmulas. Enervava-se com as exclamações dos homens simples. Subitamente, como em sonho, ou em delírio, pareceu-lhe ver sua mãe, que não via há nove anos, destacar-se da multidão e aproximar-se… sua mãe, ou uma mulher parecida com ela, que, depois de receber o ramo de suas mãos, afastou-se, não sem olhá-lo alegremente, como seu bom e radioso sorriso… até perder-se no meio do povo. E, sem poder conter-se, lágrimas correram pelo seu rosto.
Sua alma estava em paz, tudo corria bem, ele olhava fixamente o coro da esquerda, onde limam os cânones, sem poder reconhecer ninguém, na penumbra, e chorava — as lágrimas brilhando em sua barba e em todo o rosto. Alguém começou a chorar, não muito longe, depois mais alguém; pouco a pouco a igreja encheu-se de soluços contidos… até que, minutos depois o coro do convento entoou um hino, os prantos cessaram e tudo voltou ao normal.
O ofício terminou. Enquanto o bispo tomava assento em seu carro, para voltar à casa, em todo o jardim iluminado pelo luar ressoaram o belo e sonoro carrilhão e os pesados e preciosos sinos. As paredes brancas, as cruzes brancas sobre os túmulos, as bétulas brancas projetando sombras negras, a lua longínqua, no céu, bem sobre o mosteiro, tudo parecia viver, no momento, uma vida singular¸ misteriosa — mais próxima, porém, do homem.
Abril começava, o dia fora tépido e primaveril, começava a gelar, levemente, embora se sentisse, na atmosfera doce e fresca, o sopro da primavera. A estrada que levava à cidade era arenosa, precisava-se andar lentamente os peregrinos ladeando a carruagem, sob a claridade e a maciez do luar. Todos calados, recolhidos; tudo, em torno, acolhedor, jovem, fraterno — árvores, céu, a própria lua. E era bom sonhar que seria sempre assim.
A carruagem chegou, enfim, à cidade e tomou a rua principal. As lojas já estavam fechadas, salvo a de Erakine, o milionário, onde se experimentava a iluminação elétrica, muito tremulante, ainda, em torno da qual as pessoas se agrupavam. Em seguida, atravessou ruas longas e sombrias, ruas desertas; depois, a estrada construída pelo zemstvo — alcançando, enfim, o campo, de onde emanava o odor dos pinheiros. Subitamente, erguida diante de seus olhos, uma muralha branca, ameada, fazendo fundo para um alto campanário inundado de luz, e para cinco cúpulas douradas, resplandecentes: o Mosteiro de São Pancrácio, morada de Monsenhor Piotr. Sobre a qual, também, muito alta e dominando o convento, pairava a lua, tranqüila e sonhadora. A carruagem transpôs o portão, fazendo ranger a areia. Aqui e ali, ao luar, passavam fugitivas silhuetas negras de monges, os passos ressoando nas lajes de pedra.
— Monsenhor, sua mãe chegou, em sua ausência — anunciou um irmão leigo, quando o bispo entrou.
— Mamãe? Quando? Antes dos últimos ofícios. Perguntou logo onde estava o senhor. Depois, foi para o convento das freiras.
— Então, foi ela mesma que vi na igreja. Ah! Senhor!
E o bispo riu de alegria, enquanto o irmão leigo continuava:
— Madame mandou dizer que voltará amanhã. Trouxe com ela uma menina… deve ser sua neta. Desceu no Albergue de Ovsiannikov.
— Que horas são?
— Mais de onze.
— Que pena!
O bispo ficou um instante no salão, meditativo, como se duvidasse de que fosse tão tarde. Sentou-se, as pernas e os braços cansados, a nuca dolorida. Sentia calor, certo mal-estar. Após curto repouso, retirou-se para seu quarto, onde ainda ficou sentado um instante, pensando na mãe. Ouviu distanciarem-se os passos do irmão leigo e a tosse do padre Sissol, atrás do tabique. O relógio soou meia hora.
O bispo mudou de roupa e pôs-se a dizer as velhas preces que conhecia há muito tempo, pensando em sua mãe. Nove filhos e quase quarenta netos. Em outros tempos morava com o marido, diácono de seu distrito, uma pobre aldeia onde vivera durante muito tempo, dos dezessete aos sessenta anos. Lembrava-se dela desde a mais remota infância, desde os três anos. Amava-a muito. Doce, querida, inolvidável infância! Por que esse tempo se fora para sempre? Assim distante, sem retorno, parecia mais radiosa, mais bela e mais rica do que na realidade. Quando, menino ou adolescente, adoecia, como sua mãe sabia ser terna, sensível! E, agora, suas preces misturavam-se às recordações que se reacendiam, como uma chama cada vez mais viva, que não o impedia de pensar em sua mãe.
Terminada a oração, deitou-se: no escuro, reviu seu pai e sua mãe, Lessopolia e sua cidade natal. Ao rangidos das rodas, os balidos dos carneiros, o carrilhão da igreja nas claras manhãs de verão, os ciganos mendigando às janelas… ah! Como era doce recordar! Lembrou-se do padre de Lessopolia, padre Simeon, um homem terno, tranqüilo, benevolente. Era baixo, magro, mas seu filho seminarista era corpulento, voz forte de baixo. Um dia, o filho do pope irritou-se com a cozinheira e injuriou-a: “Jumenta de Zegouldil!” O Padre Simeon nada disse, mas corou de confusão, porque não conseguia recordar-se da passagem da Sagrada Escritura, que falava nessa jumenta. Seu sucessor, em Lessopolia, o Padre Demiani, bebia até ao delírio, quando via “a ser pente verde” — o que lhe valeu o apelido de Demiane da Serpente. O professor de Lessopolia era o antigo seminarista Matvei Nicolaitch, homem excelente, nada tolo, mas bêbado, também. Não batia nos alunos, mas pendurava, diariamente, na parede da sala de aula, um apanhado de varas de bétula, sobre o qual lia-se uma inscrição em latim, realmente assombrosa: Betula kinderbalsamica secuta. Possuía um cão negro e crespo, chamado Sintaxe. E o bispo ria, à recordação disso tudo.
A oito verstas de Lessopolia, situava-se a aldeia de Obnino, onde existia um ícone miraculoso. No verão, levavam-no, em procissão, pelos lugarejos vizinhos — e, à sua passagem, os sinos repicavam. Monsenhor tinha a impressão de que o ar palpitava de alegria e ele seguia o ícone de cabeça e pés nus, com ingênua fé, sorriso devoto, infinitamente feliz. Em Obnino, lembrava-se, havia sempre muita gente o padre do lugar, padre Aleixo, para ter tempo de chegar ao ofertório, fazia ler por seu sobrinho Hilarion, que era surdo, os papeizinhos e os nomes escritos nos pães de consagração… “pela saúde de…”, “pelo repouso de…” Para lê-los, Hilarion recebia de cinco a dez copeques por missa. Já era um homem grisalho e calvo, sua juventude já passara, quando descobriu um papel em que haviam escrito: “Como podes ser tão tolo, Hilarion?” Pelo menos até aos quinze anos, monsenhor, a quem, então, chamavam Popaul, era muito atrasado e trabalhava muito mal, em aula. Tão mal que haviam pensado em retirá-lo do seminário e colocá-lo em uma loja. E havia, ainda, aquele dia em que, indo buscar as cartas no correio, observara longamente os empregados e lhes perguntara: “Permitam-me indagar como são pagos… Por mês, ou por dia?”
Monsenhor benzeu-se e, voltando-se para outro lado, fugindo a recordar, adormeceu. Ainda teve tempo de pensar e de sorrir: “Mãe chegou…”
A lua entrava pela janela, iluminando o assoalho e povoando-o de sombras. Um grilo cantava. Atrás do tabique, no compartimento vizinho, o Padre Sissol roncava e seu roncar de velho tinha qualquer coisa de solitário, de repousado, talvez mesmo de vagabundo. Em outros tempos, Sissol havia sido ecônomo da diocese — e era agora chamado de “ex-padre ecônomo”. Tinha setenta anos, morava em um convento a dezesseis verstas da cidade. Três dias antes, chegara ao Convento de São Pulcrácio, onde monsenhor o retivera para, nas horas possíveis, conversar com ele sobre seu tempo perdido, sobre negócios e hábitos locais…
A uma hora e meia soaram as matinas. Ouviu-se o padre Sissol tossir, resmungar, erguer-se e passear descalço de um quarto a outro. Monsenhor chamou:
— Padre Sissol!
Sissol voltou ao seu quarto e apareceu, pouco depois, já de botas calçadas, com uma vela na mão. Vestira a batina sobre a camisola e trazia, à cabeça, um velho solidéu desbotado. Sentando-se na cama, monsenhor disse:
— Não consigo dormir. Devo estar doente… sei lá o que tenho. Estou com febre.
— Deve Ter sido a friagem, monsenhor. Precisa fazer uma fricção com sebo…
Esperou ainda um instante. Bocejou…
— Senhor, perdoai a este pobre pecador!
Acrescentou:
— Instalaram eletricidade, hoje, em casa de Ekarine. É uma coisa que não me agrada.
O Padre Sissol já era idoso. Muito magro, curvado, sempre descontente, olhar colérico, olhos proeminentes como os dos caranguejos. Repetiu, retirando-se:
— Não me agrada, mesmo. Não me agrada, absolutamente!

II

No dia seguinte, Domingo de Ramos, monsenhor celebrou a missa, na catedral, dirigindo-se, depois, à casa do bispo da diocese e, em seguida à de uma velha generala, muito doente. Voltou à casa e, a uma hora, estava sentado à mesa, em companhia de duas visitantes, muito caras a seu coração: sua velha mãe e sua sobrinha Katia, menina de uns oito anos. Durante a refeição, um, sol primaveril iluminou a janela, resplandeceu sobre a toalha branca e sobre os cabelos ruivos de Katia. Através dos duplos caixilhos, ouvia-se o crocitar dos corvos e o canto dos estorninhos, no jardim. A velha senhora dizia:
— Há exatamente nove anos que não nos vemos. Ontem, no convento, o que senti quando o vi, meu Deus! Não mudou em nada, apenas emagreceu um pouco e sua barba está mais longa. Rainha do Céu, Mãe Nossa! Não pude deixar de chorar… ninguém pôde deixar de chorar, quando oficiou as completas. Não sei por que, bruscamente, pus-me a chorar… por quê? Nem eu mesma o sei… É a vontade divina!
A despeito do tom carinhoso com que falava, sentia-se que não estava à vontade, não sabendo se deveria dizer-lhe tu, ou vós, rir, ou não — muito mais esposa de diácono, do que mãe de bispo. Sem pestanejar, Katia fixava monsenhor seu tio, como se procurasse adivinhar que homem era ele. Cabelos penteados em forma de auréola, presos por uma travessa e por uma fita de veludo, nariz arrebitado, olhos astuciosos — e tão inquieta que, antes de sentar-se à mesa, quebrara um copo. Agora, enquanto falava, sua avó ia afastando dela ora um copo de vinho, ora um pequeno cálice. Monsenhor ouvia sua mãe e lembrava-se de que, outrora, há muitos anos, ela o levava e a seus irmãos à casa dos parentes que considerava ricos. Naquele tempo, preocupava-se por seus filhos… Hoje, por seus netos… E havia trazido Katia…
— Sua irmã Varia tem quatro filhos. Katia é a mais velha. Ivan, meu genro, caiu doente, antes da Assunção, só Deus sabe de quê, e morreu, em três dias. Agora, minha Varia é obrigada a mendigar pelas ruas.
— E Nicanor? — perguntou monsenhor, referindo-se a seu irmão mais velho.
— Não vai mal, graças a Deus. Digo que não vai mal e agradeço a Deus, porque tem do que viver. Somente meu neto Nicolai não quis ser padre; está na faculdade, estudando para médico. Acha que será melhor… mas quem sabe? É a vontade de Deus.
— Nicolai corta cadáveres — disse Katia, derramando água sobre os joelhos.
Calmamente, a avó disse, tirando-lhe o copo das mãos:
— Fica quieta, pequena. Reza, enquanto comes.
Acariciando ternamente o ombro e o braço da mãe, monsenhor disse:
— Há quanto tempo não nos vemos! Senti muitas saudades suas, no estrangeiro, mamãe. Muitas, mesmo.
— Obrigada.
— À noite, sentava-me junto à janela, sozinho, ouvindo a música lá fora. Então, subitamente, a nostalgia tomava-me de assalto… e eu creio que teria dado tudo para poder voltar a vê-la.
Ela sorriu, seu rosto iluminou-se. Mas logo retomou o seu ar sério e disse:
— Obrigada.
Repentinamente, o humor do bispo transformou-se. Olhava sua mãe, sem poder compreender de onde vinha aquela expressão respeitosa, tímida em seu rosto e em sua voz. Não a reconhecia. Sentiu-se triste. Depois, como na véspera, sua cabeça tornou-se pesada, suas pernas começaram a doer… o peixe pareceu-lhe insípido… não conseguia acalmar a sede…
Após o jantar, recebeu a visita de duas senhoras, ricas, proprietárias, que se demoraram mais de uma hora, em silêncio, pesando no ambiente, com seus rostos alongados; do arquimandrita, homem taciturno e surdo, que fora tratar de negócios. As vésperas soaram, o sol escondeu-se atrás da floresta e o dia terminou. Regressando da igreja, monsenhor fez apressadamente suas orações e meteu-se na cama, agasalhando-se muito.
O peixe do almoço lhe deixara uma sensação desagradável. O luar o incomodava. Ouviu vozes: em um outro compartimento, no salão, provavelmente o Padre Sissol conversava sobre política.
— Os japoneses estão em guerra. Estão se batendo. Os japoneses, minha cara senhora, são a mesma coisa que os montenegrinos… são da mesma raça. Estiveram juntos sob o jugo turco…
Ouviu a voz da mãe:
— Então, depois de termos feito nossas orações, depois de bebermos chá, fomos à casa do Padre Iegor, em Novokhatnoia…
E, a cada cinco minutos, repetiu: “depois de tomarmos chá…” Dir-se-ia que, em toda a sua vida, ela só aprendera a tomar chá. Lentamente, vagamente, voltavam à memória do monsenhor o pequeno e o grande seminário. Por mais de três anos, fora professor de grego… já não podia ler sem óculos… Quando recebeu a tonsura, foi nomeado inspetor. Em seguida, defendeu tese. Aos trinta e dois anos, era diretor do seminário. Já sagrado arquimandrita. A vida tornou-se, então, de tal maneira fácil e agradável, tão longa que parecia não Ter fim. Foi quando caiu doente. Emagreceu muito, ficou quase cego e, a conselho médico, abandonou tudo e partiu para o estrangeiro.
Na sala vizinha, Sissol perguntou:
— E depois?
— Depois, bebemos chá — respondeu sua mãe.
— Meu pai, sua barba é verde! — disse, subitamente,Katia.
Lembrando-se de que, realmente, a barba grisalha do Padre Sissol tinha reflexos verdes, monsenhor pôs-se a rir.
Ouviu a voz colérica do Padre Sissol:
— Meu Deus, que maldição de criança! Como é mal-educada! Fica quieta!
Monsenhor reviu a igreja branca, novinha, onde oficiava no estrangeiro… Recordou o ruído do mar tranqüilo. Seu apartamento constituía-se de cinco peças, altas e claras. Em seu gabinete de trabalho, havia uma escrivaninha nova e uma biblioteca; ele escrevia e lia muito. Lembrou-se de sua nostalgia de então; de um mendigo cego que, diariamente, cantava, sob suas janelas, canções de amor, acompanhadas de guitarra, e de que, cada vez que o ouvia, pensava no passado. Mas oito anos haviam decorrido, ele fora chamado à Rússia e, agora, era bispo sufragâneo — todo seu passado desaparecido muito longe, na bruma, como um sonho…
Com uma vela na mão, Padre Sissol entrou no quarto. Espantou-se:
— Já está dormindo, monsenhor?
— Que tem isso?
— É muito cedo, ainda… Comprei uma vela de sebo e gostaria de friccionar suas costas…
— Estou com febre. E muita dor de cabeça. Evidentemente, é preciso fazer alguma coisa — disse monsenhor, sentando-se.
Sissol tirou-lhe a camisa e fez-lhe uma fricção no peito e nas costas, com sebo.
— Assim… assim… Senhor Jesus! … Assim… Hoje estive na cidade, em casa de… como se chama mesmo ele…? Em casa do Arquiprior Sidonski… Tomei chá com ele… Não simpatizo com ele… Senhor Jesus… Assim… Assim… Pois é, não simpatizo com ele…

III

O bispo da diocese, homem idoso e obeso, vencido pelo reumatismo, ou pela gota, não se levantava da cama há mais de um mês. Monsenhor Piotr visitava-o diariamente e dava audiência, em seu lugar. Agora, que também sofria, pensava, chocado, no vazio e na pequenez de tudo quanto lhe pediam, de tudo por que se lamuriavam os que iam procurá-lo. A timidez e o atraso dessas pessoas o irritavam. Todas as frivolidades, todas as coisas ociosas o esmagavam: tinha a impressão de que, enfim, compreendia o bispo titular que, outrora, em sua juventude, escrevera um Tratado do Livre Arbítrio, e parecia-lhe que, agora, sua personalidade se constituía apenas de detalhes, que tudo esquecera, que não pensava mais em Deus. No estrangeiro, desacostumara-se da vida russa — e agora sentia muito seu peso. Chocava-se com a grosseria do povo, com os pedidos tolos dos que apelavam a seu auxílio, com a incultura dos seminaristas e professores, autênticos selvagens, na maioria das vezes. O correio que enviava, ou recebia, existia na proporção de dez para mil — e que correio! Os deãos de todas as dioceses davam notas à conduta dos padres, jovens e velhos, a suas mulheres, a suas crianças e era preciso comentar tudo isso, escrever cartas sérias a respeito, ler. Não lhe restava, positivamente, um só minuto de liberdade, seu espírito sempre inquieto, só sentindo tranqüilidade na igreja.
Também não conseguia acostumar-se ao medo que inspirava, involuntariamente, apesar de sua doçura e de sua discrição. Todos os habitantes da paróquia ficavam intimidados, contritos em sua presença —humildes e assustados. Mesmo os velhos arquimandritas anulavam-se diante dele — e, bem recentemente, uma solicitante, a velha esposa de um pope de província, sentira tanto medo, ao defrontá-lo, que não pudera articular uma só palavra e partira sem nada lhe solicitar. E ele que, em seus sermões, jamais pudera ser severo, que jamais dirigira, a quem quer que fosse, uma censura, pois sentia piedade, perdia a linha, encolerizava-se e atirava todos os pedidos no chão. Desde que chegara, ninguém lhe havia falado sinceramente, humanamente, com simplicidade. Sua própria mãe não era a mesma. Por que falava sem cessar e ria tanto com Sissol, enquanto com ele, seu filho, era tão grave, tão taciturna, tolhida por um constrangimento que não combinava com ela? A única pessoa que sentia à vontade, em sua presença, dizendo tudo o que queria dizer, era o velho Sissol, que durante toda a sua vida servira a bispos, dos quais já enterrara onze. E também ele, monsenhor, sentia-se à vontade com ele, embora fosse, incontestavelmente, um homem difícil e ardiloso.
Na terça-feira, depois da missa, ao receber os solicitantes, no bispado, monsenhor agitou-se, exaltou-se. Ao entrar em casa, sempre indisposto, desejava deitar-se. Mal chegou, porém, anunciaram-lhe o jovem solicitante Erakine, generoso benfeitor das boas obras, que lhe pedia audiência, para tratar de um assunto muito importante. Não pôde recusar-se. Erakine demorou perto de uma hora; falava alto, quase aos gritos — e monsenhor custara a entender o que dizia.
Ao sair, disse:
— Deus permita que assim seja! É absolutamente necessário! De acordo com as circunstâncias, Reverendíssima Excelência! Desejo ardentemente que assim seja!
Após Erakine, recebeu a madre superiora de um longínquo convento. E quando ela se retirou, soaram as vésperas; teve que voltar à igreja.
À noite, os monges entoaram um canto harmonioso e inspirado. Um jovem monge, de barba negra, oficiava. E monsenhor, ouvindo os versos sobre o esposo que veio à meia-noite e, encontrando a casa enfeitada, não sentia arrependimento de seus pecados, nem aflição, mas sim calma e paz interior, deixou seu pensamento voar para um distante passado — sua infância e sua juventude, quando se cantava também esse esposo que chega à meia-noite a essa casa adornada. Agora, esse passado parecia-lhe vivo, magnífico, radioso, como talvez nunca o tivesse sido. Quem sabe, em outro mundo, em outra vida, também recordemos nosso longínquo passado e nossa vida terrena, sentindo-os, assim, vivos e próximos… quem sabe?
Estava escuro. Sentado perto do altar, monsenhor deixava correr suas lágrimas, sonhando que atingira a tudo que era acessível a um homem de sua posição. Tinha fé. Mas nem tudo estava claro, faltava-lhe qualquer coisa, não queria morrer: essa qualquer coisa que lhe faltava era, talvez, o essencial de sua vida, com o que confusamente sonhara, outrora. No presente, a mesma esperança em um futuro, acompanhando-o, desde o seminário, desde que estivera fora de seu país.
E pensava, ouvindo atentamente os cânticos:
— Como estão cantando bem, hoje! Como cantam bem!

IV

Na quinta-feira, oficiou na catedral e também na cerimônia de lava-pés. Quando o serviço terminou e os fiéis se retiraram, fazia sol, o tempo estava quente, alegre, a água murmurava nos riachos — e nos arredores, vindo do campo, soava o canto ininterrupto das andorinhas, um canto pleno de ternura, convidando ao repouso. As árvores, despertas, pareciam sorrir gentilmente e o céu insondável, ilimitado, perdia-se muito longe, só Deus saberia onde.
Em casa, Monsenhor Piotr tomou chá, mudou de roupa e deitou-se, pedindo ao irmão leigo que fechasse as janelas. A escuridão invadiu o quarto. Mas que cansaço, que dor nas pernas e nas costas, que sensação de peso, de frio, que zoada nos ouvidos! Fazia muito tempo que não dormia longamente. Tinha a impressão de que o que o impedia de adormecer era um quase nada que se erguia em seu cérebro, logo que fechava os olhos. Como na véspera, chegavam-lhe, de compartimentos vizinhos, através dos tabiques, vozes, ruídos de copos, de colheres… Sua mãe contava, alegremente, uma estória pitoresca, semeada de provérbios. Padre Sissol respondia, com voz sombria e descontente:
— Ah! Que gente! Que coisa! Ainda esta!
E monsenhor sentia-se novamente contrariado, mortificado, porque sua velha mãe se mostrava natural e simples, com os estranhos, enquanto diante dele, seu filho, intimidava-se, pronunciando raras palavras, que não correspondiam a seus pensamentos. Até mesmo… pelo menos lhe parecera… até mesmo procurava pretextos para se levantar, quando ele estava presente, constrangida, evitando ficar sentada em sua presença. E seu pai? Sem dúvida, se fosse vivo, também não poderia falar, diante dele…
No quarto vizinho, um objeto caiu ao chão e quebrou-se. Teria sido obra de Katia, deixando cair uma xícara, ou um pires, pois logo se ouviu a voz do Padre Sissol, irritado:
— Maldita menina! Senhor, perdoa-me estas palavras de pecador! Que flagelo!
Depois, fez-se silêncio. Ouviam-se, apenas, os ruídos vindos de fora. Quando monsenhor reabriu os olhos, viu Katia, observando-o, imóvel. Com seus cabelos ruivos, levantados por uma travessa em forma de auréola — como sempre. Perguntou-lhe:
— És tu, Katia? Quem está a todo instante abrindo e fechando lá em baixo?
— Não ouço nada — respondeu Katia.
— Alguém acaba de passar.
— É em sua barriga, tio.
Ele riu e acariciou-lhe a cabeça.
— Então, teu primo Nicolai corta cadáveres? — perguntou, depois de um curto silêncio.
— Sim… Está estudando.
— Ele é gentil?
— Muito. Só que tem que beber, É terrível.
— E teu pai? De que morreu?
— Papai era muito fraco… magro… magro… De repente, ficou atacado da garganta. Eu e meu irmão também adoecemos… meu irmão Fiodor, sabe? Todos ficaram doentes da garganta. Pai morreu, tio, mas nós todos ficamos bons.
Seu queixo começou a tremer, lágrimas brotaram de seus olhos, rolaram pelo rosto. Disse, com voz fraca, chorando agora amargamente:
— Monsenhor,, mamãe e eu somos tão desgraçadas… Dê-nos um pouco de dinheiro… Faça-nos esta caridade, querido tio!
Monsenhor sentiu, também, lágrimas brotando em seus olhos. A emoção o impediu, por um momento, de falar. Depois, acariciou, mais uma vez, a cabeça da menina, bateu-lhe carinhosamente nas costas e respondeu:
— Bem… bem, minha querida. Está chegando o dia da Páscoa… Voltaremos a falar neste assunto. Vou ajudá-las, sim… vou ajudá-las…
Viu a mãe entrar, timidamente, para uma oração diante do ícone. Notando que ele não dormia, perguntou-lhe:
— Quer tomar uma sopinha?
— Não, obrigado. Estou sem fome.
—Está muito abatido… mas também como não ficar doente? Os dias inteiros sem repousar… meu Deus, só de olhá-lo sinto pena! Felizmente, a Semana Santa está próxima e, se Deus quiser, ;poderá descansar e poderemos conversar. Agora, não quero incomodá-lo com as minhas tagarelices. Vem, Katia… Deixa monsenhor dormir um pouco.
Lembrou-se de que, quando era pequeno, há muitos anos, sua mãe falava ao deão no mesmo tom, ao mesmo tempo brincalhão e respeitoso… Somente seus olhos, extraordinariamente bondosos, o olhar tímido, preocupado, que ela lhe lançara, ao sair, deixavam transparecer que era sua mãe. Fechou os olhos. Mas não adormeceu. Ouviu, por suas vezes, o relógio soar — e a tosse do Padre Sissol, atrás do tabique. Uma carroça, ou uma caleça, a se julgar pelo ruído, aproximou-se da escadaria. Uma pancada súbita, uma porta batendo… O irmão leigo entrou:
— Monsenhor!
— Sim?
— Os cavalos estão prontos: já é hora do ofício da Paixão.
— Que horas são?
— Sete e quinze.
— Vestiu-se e dirigiu-se à catedral. Durante a leitura dos evangelhos, era obrigado a fica de pé, imóvel, no meio da igreja. O primeiro evangelho, o mais belo e o mais longo, ele próprio o dizia. Sentiu-se novamente forte e bem disposto.
Esse primeiro evangelho — “Glória a Ti, ó Filho do Homem” — ele sabia de cor. Às vezes, enquanto o recitava, olhava em torno e via um mar de olhos. E ouvia o crepitar dos círios. Mas não lhe pareciam os mesmos fiéis dos anos precedentes, nem mesmo os reconhecia… Eram as mesmas gentes dos tempos de sua infância e de sua juventude, que seriam sempre as mesmas a cada ano que passasse… Até quando? Só Deus o sabia.
Seu pai era diácono, seu avô padre, seu bisavô diácono… toda a sua ascendência, talvez, depois da evangelização da Rússia, pertencera ao clero — e o amor de seu ministério, do sacerdócio, do carrilhão, era, nele, inato, profundo, desenraizável. Era na igreja, sobretudo quando oficiava, que se sentia mais ativo, disposto, feliz. E era o que lhe acontecia, naquele instante.
Somente depois da leitura do oitavo evangelho, sentiu que sua voz enfraquecera, nem mesmo sua tosse se ouvia, a cabeça doendo-lhe terrivelmente: teve medo de cair. Com efeito, suas pernas estavam completamente entorpecidas, a ponto de, pouco a pouco, não mais as sentir. Não compreendia como e sobre que se sustentava, por que não caía…
Terminado o ofício, faltavam quinze para meia-noite. Voltando à casa, trocou de roupa e deitou-se imediatamente, sem mesmo dizer suas orações. Não podia falar, sentia-se incapaz de manter-se em pé. E foi exatamente enquanto se cobria que um súbito desejo de partir o dominou… partir para o estrangeiro, uma irresistível vontade… Parecia-lhe que teria dado sua vida para não mais ver aqueles horríveis postigos, aqueles tetos baixos — e não mais sentir o pesado cheiro do convento. Se ao menos existisse um homem a quem pudesse falar, abrir sua alma!
Ouviu por muito tempo passos no quarto vizinho, sem conseguir lembrar-se de quem eram. Por fim, a porta abriu-se e o Padre Sissol entrou com uma vela e trazendo-lhe uma xícara de chá.
— Já está deitado, monsenhor? Vim fazer-lhe uma fricção, com vodca e vinagre. Uma boa fricção sempre faz bem. Senhor Jesus! Estou acabando de chegar de nosso convento… Ele não me agrada, não me agrada! Vou-me embora amanhã, Excelência… Não desejo ficar nem mais um dia. Senhor Jesus… Pronto!
O Padre Sissol não gostava de permanecer por muito tempo em um lugar e já estava com a impressão de que passara o ano inteiro em São Pancrácio. Além disso, ouvindo-o, era difícil saber onde ficava sua casa, se ele amava alguém, ou qualquer coisa, se acreditava em Deus… Ele próprio não compreendia por que era monge… Aliás, ele não pensava mais nisso, há muito tempo se apagara, em sua memória, qualquer recordação da época em que recebera a tonsura… parecia-lhe que já nascera monge.
— Parto amanhã. Estou me despedindo de tudo isso.
— Gostaria de conversar com o senhor… Mas nunca houve ocasião — disse monsenhor, em voz baixa, penosamente. — Não conheço ninguém aqui… não estou a par de nada…
— Pois ficarei até Domingo, se quiser. Mas não além de Domingo… Ah! Não!
Monsenhor prosseguiu, em voz baixa:
— Que espécie de bispo sou eu? Deveria Ter sido pope, de aldeia, diácono… ou simples monge… Tudo isso me acabrunha… me acabrunha…
— Como? Senhor Jesus, que idéia! Vamos, durma, monsenhor… Que estranha idéia! Boa noite!

* Tradução de Maria Jacintha

Angústia (Anton Tchekhov)

“Com quem a dor partilharei?…”

Anoitece. A neve graúda e úmida gira preguiçosamente ao redor dos lampiões recém acesos e deita-se em placas macias e finas nos telhados, nos lombos dos cavalos, nos ombros, nos gorros. O cocheiro Iona Ptápov está todo branco, como um fantasma. Está sentado na boléia, curvado, tão curvado quanto é possível curvar-se um corpo vivo, e não se mexe. Se toda uma avalanche se despencasse sobre ele, nem assim, ao que parece, ele acharia necessário sacudir a neve… A sua eguazinha também está branca e imóvel. Pela sua imobilidade, suas formas angulosas e as pernas retas como paus, até de perto ela parece um cavalinho de pão-de-mel de um copeque. Ao que tudo indica, ela está mergulhada em meditações. Quem foi arrancado do arado, das costumeiras paisagens cinzentas, e atirado aqui, neste atoleiro, cheio de luzes monstruosas, zoeira incessante e gente apressada, este não pode deixar de meditar…
Iona e a sua eguazinha não se movem do lugar já faz muito tempo. Saíram do pátio ainda antes do almoço, porém não fizeram nem uma corrida. Mas eis que a sombra da noite desce sobre a cidade. A luz pálida dos lampiões cede lugar à cor viva e o bulício das ruas torna-se mais ruidoso.
— Cocheiro, para a Viborgskaia! — ouve Iona. — Cocheiro!
Iona estremece e, através dos cílios grudados pela neve, vê um militar de capote e capuz.
— Para Viborgskaia! — repete o militar. — Mas tu estás dormindo, heim? Para Viborgskaia!
Em sinal de assentimento, Iona puxa as rédeas, em conseqüência do que, placas de neve caem dos seus ombros e do lombo do cavalo. O militar toma assento no trenó. O cocheiro estala os lábios, estica o pescoço à maneira de um cisne, soergue-se e, mais por hábito que por necessidade, brande o chicote. A eguazinha também estica o pescoço, arqueia as pernas magras e, insegura, põe-se em movimento.
— Por onde te metes, lobisomem! — ouve Iona, assim que sai, gritar de dentro da massa escura que balança para diante e para trás. — Aonde te carrega o diabo? Para a dirr-reita!
— Não sabes dirigir! Agüenta a direita! — ralha o militar.
Um cocheiro de carruagem particular pragueja ao cruzar e um transeunte, que atravessara a rua correndo e batera com o ombro no focinho da égua, olha furioso e sacode a neve da manga. Iona se contorce na boléia como se estivesse sentado em alfinetes, joga os cotovelos para os lados, e seus olhos correm como possessos, como se ele não compreendesse quem é e por que está aqui.
— Como todos são canalhas! — zomba o militar. — Só procuram abalroar-te ou se jogar debaixo do teu cavalo! É que estão todos de conluio contra ti!
Iona olha para trás, para o passageiro, e move os lábios… Vê-se que quer dizer alguma coisa, mas da sua garganta não sai nada, a não ser um som gutural.
— O que é? — pergunta o militar.
Iona torce a boca num sorriso, força a garganta e rouqueja:
— É que… patrão… coisa… o … meu filho… se finou esta semana.
— Hum!… E de que foi que ele morreu?
Iona volta-se de corpo inteiro para o passageiro e fala:
— E quem sabe lá! Vai ver, foi a febre… Ficou três dias no hospital e se finou… É a vontade de Deus.
— Vira, demônio! — soa na escuridão. — Estás tonto, ou o quê, cachorro velho? Toca para a frente!
O cocheiro torna a esticar o pescoço, a soerguer-se, brandindo o chicote com graça pesada. Depois, por várias vezes, ele se volta para o passageiro, mas este fechou os olhos e, pelo visto, não está disposto a escutar. Deixando-o na Viborgskaia, Iona pára diante de um botequim, dobra-se na boléia e torna a ficar imóvel… De novo a neve úmida tinge de branco a ele e a sua égua. Passa uma hora, outra…
Pelo passeio, pisando ruidosamente com as galochas e altercando, passam três rapazes; dois deles são altos e magros, o terceiro é baixo e corcunda.
— Cocheiro, para a ponte Policial! — grita o corcunda com voz de tremolo. — Nós três — por vinte copeques!
Iona puxa as rédeas e estala os lábios. Vinte copeques não é preço justo, mas ele não está para pensar em preço… um rublo ou cinco copeques, para ele dá na mesma agora — haja passageiros… Os moços, aos empurrões e palavrões, vêm para o trenó e sobem no assento todos ao mesmo tempo! Começa a discussão do problema: quais os dois que irão sentados, e qual o terceiro que irá de pé? Após longos debates, bate-boca e acusações, eles chegam à decisão de que deve viajar de pé o corcunda, por ser o menor.
— Anda, toca! — range o corcunda, firmando-se e bafejando na nuca de Iona. — Descansa o cavalo! Mas que gorro o teu, heim, mano! Pior não se acha em toda Petersburgo!…
— Hehe… hehe… — gargalha Iona. — É o que é…
— Anda, tu aí, “é o que é”, toca pra frente! É assim que vais andar o caminho inteiro? E que tal um pescoção?
— A cabeça me estala… — diz um dos compridos. — Ontem na casa dos Dukmássov nós dois, o Vaska e eu, limpamos quatro garrafas de conhaque.
— Não entendo por que mentir! — enfeza o outro comprido.
— Mentes que nem um animal!
— Que Deus me castigue se não é verdade…
— É tão verdade quanto um piolho tossir.
— He… he… — ri Iona. — Os senhores alegres…
— Arre, que os diabos te carreguem!… — indigna-se o corcunda. — Vais andar, carcaça velha, ou não? Isto é maneira de dirigir? Chicote nela! Upa, diabo! Upa! Dá-lhe rijo!
Iona sente atrás das costas o corpo irrequieto e a vibração da voz do corcunda. Ouve os insultos que lhe são dirigidos, vê a gente, e o aperto da solidão pouco a pouco começa a afrouxar no seu peito. O corcunda continua a imprecar até que engasga num palavrão de seis andares e desanda a tossir. Os dois compridos põem-se a conversar sobre uma certa Nadejda Petrovna. Iona olha para eles por cima do ombro. Escolhendo um momento propício, volta-se novamente e balbucia:
— E eu nesta semana…coisa… finou-se meu filho!
— Todos vamos nos finar… — suspira o corcunda, enxugando os lábios depois do acesso de tosse. — Anda, toca, toca! Deus meu, palavra que não agüento mais viajar assim! Quando é que nós vamos chegar?
— Você poderia animá-lo um pouquinho — na nuca!
— Estás ouvindo, traste velho? Vou te encher de pescoções! Se a gente começa a fazer cerimônia com a tua laia, acaba andando a pé! Estás ouvindo, Dragão Gorinitch? Ou não te importa o que dizemos?
E Iona ouve, mais do que sente, o ruído do pescoção.
— Heehe… — ri ele. — Que senhores alegres… benza-os Deus!
— Cocheiro, és casado? — pergunta um dos compridos.
— Eu, é? Hehe… alegres senhores! Eu agora só tenho uma mulher — a terra úmida… Hehe… hoho… A sepultura, é o que é!… O filho, este morreu… e eu estou vivo… Coisa esquisita, a morte errou de porta… Em vez de vir me buscar, foi ao filho…
E Iona volta-se para contar como morreu seu filho, mas aí o corcunda suspira aliviado e declara que, graças a Deus, eles já chegaram, finalmente. Tendo recebido os vinte copeques, Iona finca longamente o olhar no encalço dos farristas, que desaparecem num portão escuro. Outra vez ele está só, e outra vez o silêncio cai sobre ele… A angústia, que amainara um pouco, surge de novo e oprime o peito com força maior ainda. Os olhos de Iona correm aflitos e martirizados pelas turbas que se agitam de ambos os lados da rua: não haverá no meio dessas milhares de pessoas ao menos uma que quisesse ouvi-lo? Mas as turbas correm sem notá-lo, nem a ele, nem à sua angústia… Angústia enorme, que não conhece limites. Se estourasse o peito de Iona e a angústia se derramasse, ela inundaria, parece, o mundo inteiro — e no entanto, ela é invisível. Ela conseguiu aninhar-se numa casca tão ínfima, que não se pode enxergá-la nem com lanterna à luz do sol…
Iona vê um zelador de prédio com um saco na mão e decide falar com ele.
— Mano, que horas serão? — pergunta ele.
— Passa das nove… E por que ficas parado aqui? Vai andando!
Iona afasta-se alguns passos, dobra o corpo e entrega-se à angústia… Dirigir-se aos homens ele já considera inútil. Mas não passam nem cinco minutos e ele se endireita, sacode a cabeça como se sentisse uma dor aguda e puxa as rédeas… Ele não agüenta mais.
“Para casa — pensa ele. — Para casa!”
E a eguazinha, como que adivinhando-lhe o pensamento, põe-se a correr a trote miúdo. Cerca de hora e meia depois, Iona já está sentado junto a uma estufa grande e suja. Em cima da estufa, nos bancos, no chão, homens estão roncando. O ar está denso e abafado… Iona olha para os dorminhocos, coça-se, e lamenta que voltou para casa tão cedo.
“Não ganhei nem para a aveia”, pensa ele. “É por isso que estou aflito. Um homem que entende do seu trabalho… que está de barriga cheia e o cavalo também, este está sempre sossegado…
Num dos cantos, acorda um cocheiro moço, pigarreia e estende a mão para o balde de água.
— Deu vontade de beber? — pergunta Iona.
— De beber, pelo visto!
— Pois é… Bom proveito… Pois eu, mano… morreu meu filho… Soube? Esta semana, no hospital… Que história!
Iona olha para ver o efeito que produziram suas palavras, mas não vê nada. O moço puxou a coberta por cima da cabeça e já dorme. O velho suspira e se coça. Assim como o moço tinha vontade de beber, ele tem vontade de falar. Logo vai fazer uma semana que o filho morreu, e ele ainda não conversou direito com ninguém… É preciso conversar com vagar, com calma… É preciso contar como o filho ficou doente, como sofreu, o que disse antes de morrer, como morreu. É preciso descrever o enterro e a viagem ao hospital para buscar a roupa do defunto. Na aldeia ficou uma filha, Aníssia… Também dela é preciso falar… Há tanta coisa de que poderia falar agora… O ouvinte deve gemer, suspirar, compadecer-se… Melhor ainda seria falar com mulheres. Elas podem ser burras, mas põem-se a chorar à segunda palavra.
“Vou ver o cavalo — pensa Iona. — “Sempre terei tempo para dormir… Dormirei até que chegue…”
Iona se veste e vai para a cavalariça, onde está a sua égua. Ele pensa na aveia, na palha, no tempo… No filho, quando está sozinho, ele não consegue pensar. Falar com alguém a respeito do filho, isso ele poderia, mas pensar sozinho e imaginá-lo é-lhe insuportável e assustador…
— Mastigas? — pergunta Iona ao seu cavalo, vendo-lhe os olhos brilhantes. Mastiga, anda, mastiga… Se não ganhamos para a aveia, comeremos palha… Pois é… Já estou velho para este trabalho… O filho é que devia trabalhar, e não eu… Aquele sim é que era cocheiro de verdade… Se ao menos vivesse…
Iona cala-se um pouco, depois continua:
— Assim é, mana egüinha… Não temos mais Kusma Ionitch… Foi-se desta para melhor… Pegou e morreu, à toa… Agora, imagina tu, por exemplo — tu tens um potrinho, e tu és a mãe desse potrinho… E de repente, imagina, esse mesmo potrinho se despacha desta para melhor… Dá pena ou não dá?
A eguazinha mastiga, escuta e esquenta com seu bafo as mãos do dono…
Iona se deixa arrebatar e conta-lhe tudo…
* Tradução de Tatiana Belinky

Um caso médico (Anton Tchekhov)

Um telegrama enviado da fábrica dos Lialikov pedia ao professor que viesse o mais depressa possível.
A filha da Senhora Lialikov, que devia ser a proprietária da fábrica, estava doente; era tudo o que se podia perceber num longo telegrama mal redigido. Por isso o professor não esteve para se incomodar; contentou-se em enviar, para o substituir, o seu ajudante Koroliov. Tinha que se descer na terceira estação para lá de Moscovo e andar em seguida, de carro, quatro «verstas». Na estação, esperava o ajudante um carro de três cavalos. O cocheiro tinha um chapéu de penas de pavão e, com voz vibrante, como um soldado, respondia sempre a todas as perguntas: «De modo algum!» ou «Exactamente!».
Era num sábado de tarde. Punha-se o Sol. Da fábrica para a estação vinham grupos de operários que cumprimentavam para o carro onde seguia o médico. Aquele fim de dia, os palacetes senhoriais e as casas de verão, dos dois lados da estrada, os amieiros, a calma impressão que de tudo se exalava, na hora em que, já quase a repousarem, os campos, os bosques e o Sol pareciam preparar-se para descansar e talvez até para rezar ao mesmo tempo que os operários — tudo isto encantava Koroliov.
Nascido e educado em Moscovo, o médico não conhecia o campo e nunca se tinha interessado pelas fábricas; nunca tinha visitado nenhuma; mas, depois do que tinha lido sobre este assunto, tinha-lhe acontecido estar em casa de proprietários e falar com eles. E, quando via de longe ou de perto uma fábrica, pensava que por fora tudo parecia calmo e pacífico, mas que lá dentro deviam reinar a impenetrável ignorância e o egoísmo obtuso dos proprietários, o trabalho aborrecido e insalubre dos operários, e as intrigas, e o «vodka» e a bicharia…
E agora, à medida que se afastavam do carro com respeito e medo, lia no rosto do operário, nos bonés, no andar, a porcaria, o alcoolismo, o enervamento, o atordoamento em que viviam.
Entrou pelo portão grande da fábrica. Apareceram de ambos os lados as pequenas casas dos operários, figuras de mulher, e, às cancelas da entrada, roupa branca e mantas. O cocheiro, sem segurar os cavalos, gritava: «Cuidado!».
Num pátio grande, sem o mínimo sinal de erva, levantavam-se cinco grandes corpos de edifícios com altas chaminés, afastados uns dos outros, com armazéns e alpendres, tudo mergulhado numa espécie de neblina cinzenta, como uma flor de poeira. Aqui e além, como os oásis no deserto, havia uns jardinzitos enfezados e os telhados verdes e vermelhos das casas da Administração. O cocheiro, sofreando de repente os cavalos, parou diante duma casa que fora há pouco pintada de cinzento. Os lilases do jardim estavam cobertos de poeira, e o pórtico, pintado de amarelo, cheirava fortemente a tinta.
— Faça favor de entrar, Senhor Doutor — disseram vozes de mulher à porta da entrada e no limiar da antecâmara.
Ouviram-se depois suspiros e murmúrios.
— Faça favor de entrar… Estamos à sua espera já há tanto tempo… Foi mesmo uma desgraça. Por aqui, faça favor…
A Senhora Lialikov, já de idade e corpulenta, vestida de seda negra e com mangas à moda, mas, pelo que parecia, simples e pouco instruída, olhava para o doutor com receio, sem se atrever a estender-lhe a mão; não ousava fazê-lo.
Perto dela, encontrava-se uma criatura de cabelos curtos, magra e já nada nova, que trazia uma blusa colorida e usava luneta. Os criados chamavam-lhe Cristina Dmitrievna e Koroliov adivinhou ser a governante. Como era a única pessoa instruída da casa, tinham-na sem dúvida encarregado de receber o médico, porque logo se apressou a expor, com pormenores de todo inúteis, as causas da doença, mas sem dizer quem estava doente nem de que se tratava. Koroliov e a governante falavam sentados, enquanto a dona da casa esperava, Imóvel, junto da porta. No decurso da conversação, veio Koroliov a saber que a doente era uma rapariga de vinte anos, Lisa, filha única da Senhora Lialikov. Estava enferma há muito tempo e já a tinham tratado vários médicos. Na noite anterior, sentira, desde a tarde, tais palpitações que ninguém em casa tinha dormido; chegara-se a recear que morresse.
— Ela, na verdade, tem sido doentinha desde criança — contava Cristina Dmitrievna com uma voz cantada e limpando ininterruptamente os lábios com a mão. — Os médicos dizem que são nervos, mas ainda em pequena meteram-lhe para dentro os humores frios, e daí é que vem todo o mal, acho eu.
Passaram ao quarto da doente. Já mulher, alta, bem feita, mas feia, parecida com a mãe, com os mesmos olhitos e a parte inferior do rosto larga e exageradamente desenvolvida, despenteada, os cobertores puxados até ao queixo, a rapariga deu de princípio a Koroliov a impressão de uma pobre criatura, enferma, recolhida por piedade. Ninguém acreditaria que fosse a herdeira dos cinco enormes edifícios da fábrica.
— Venho tratar de si — disse Koroliov. — Bom dia, Menina. Disse o nome e apertou-lhe a mão, mão grande, feia e fria. Ela soergueu-se e, já muito acostumada aos médicos, indiferente à nudez das espáduas e dos braços, deixou-se auscultar.
— Sinto umas palpitações — disse ela. — Toda a noite… foi uma coisa terrível… julguei que morria de medo. Dê-me qualquer coisa, a ver se isto acaba.
— Não tenha receio, vou já receitar.
Koroliov examinou-a e encolheu os ombros.
— O coração está bom — disse ele; — tudo vai bem, está tudo em ordem. Os nervos talvez um pouco abalados… mas é também coisa vulgar. A crise já passou, parece. Deite-se e veja se dorme…
Neste momento trouxeram um candeeiro. A doente piscou os olhos e, de repente, pousando a cabeça nas mãos, pôs-se a chorar.
E a impressão dum ser infeliz e feio desapareceu. Koroliov já não dava pelos olhos pequeninos nem pela parte do rosto anormalmente desenvolvida. Via uma suave expressão de sofrimento, muito comovedora e espiritual, e a rapariga, no conjunto, apareceu-lhe elegante, feminina e simples. E já a queria acalmar, não por medicamentos ou conselhos, mas por uma simples palavra graciosa. A mãe puxou a si a filha e beijou-lhe a testa. E na expressão da face, quanta tristeza, quanto desgosto!
Tinha criado e educado a filha sem se poupar a nada; tinha posto todo o cuidado em lhe mandar ensinar francês, música e dança. Tinha-lhe dado uma dúzia de mestres, tinha chamado os melhores médicos, tomado uma governante — e não compreendia donde vinham aquelas lágrimas e tantos sofrimentos! Não compreendia, atrapalhava-se e tinha uma expressão de culpabilidade; e andava desolada, inquieta, como se tivesse esquecido alguma coisa de muito urgente, como se tivesse tido alguma negligência, como se não tivesse chamado alguém. Quem? Não sabia…
— Lisaunka — disse ela, apertando a filha ao peito -, minha querida, minha pomba, minha filhinha, que tens tu? Diz à mãezinha… Tem pena de mim… Diz…
Ambas choravam amargamente. Koroliov, sentando-se na borda da cama, pegou na mão de Lisa.
— Vamos, não chore mais — disse-lhe ele com um tom de carícia -. Há lá razão para isso… Não há nada no mundo que seja digno dessas lágrimas. Vá, não chore mais. Assim não pode ser…
E pensou:
— Já era tempo de a casar…
— O médico da fábrica dava-lhe brometos — disse a governante — mas notei que só lhe faziam mal. Eu acho que para o coração o bom são umas gotas… ai, esquece-me o nome… Junquilho, hem?
E recomeçou com os seus pormenores. Interrompia Koroliov, impedia-o de falar e lia-se-lhe no rosto o tormento que lhe causava pensar que, sendo a mulher mais instruída da casa, devia falar sem interrupção com o médico — e falar de medicina, claro.
Koroliov estava embaraçado.
— Não acho nada de especial — disse ele à mãe ao sair do quarto. — Como o médico da fábrica tratou sua filha, pode continuar. O tratamento que lhe deu até aqui foi bom; não vejo que seja preciso mudar. Para quê? É uma doença vulgar; não tem nada de grave…
Falava sem pressa e ia calçando as luvas; a Senhora Lialikov olhava-o de lágrimas nos olhos, imóvel.
— Ainda tenho meia hora até o comboio das dez; terei tempo de apanhá-lo, não…?
— O Senhor Doutor não desejaria ficar? — perguntou a mãe, e de novo as lágrimas lhe correram pela cara.
Custa-me tanto incomodá-lo; mas, pelo amor de Deus — continuou, a meia voz e voltando-se para a porta -, faça-me esse favor. Só tenho esta filha… Assustou-nos tanto a noite passada… Nem estou ainda em mim… Pelo amor de Deus, não se vá embora!
Koroliov ainda quis dizer que tinha muito que fazer em Moscovo, que a família estava à espera, que lhe era muito difícil passar uma tarde e uma noite fora da clínica; olhou para ela: suspirou e pôs-se a descalçar as luvas, silencioso.
Acenderam todas as velas e todos os candeeiros da sala e da saleta; sentado junto do piano de cauda, Koroliov folheou a música, depois foi contemplar os quadros e os retratos. Os quadros, com suas molduras douradas, eram vistas da Crimeia, um mar encapelado com um barquito, um monge católico com um cálice de licor — tudo pobre, lambido, sem talento… Nos retratos, nenhuma figura bela, interessante: faces largas, olhos espantados. Lialikov, o pai de Lisa, tinha a testa baixa e um ar satisfeito; o uniforme ficava-lhe como uma espécie de saco sobre o corpo grande e vulgar; no peito uma medalha e a insígnia da Cruz Vermelha. Cultura estreita, luxo de ocasião, um luxo que não tinha motivos nem vinha a propósito — como aquele uniforme. O brilho dos soalhos irrita, o lustre também; e pensa-se, nem se sabe porquê, na história do comerciante que ia tomar banho de medalha de honra ao pescoço… Na antecâmara havia murmúrios e alguém ressonava suavemente. De súbito, no pátio, ressoaram uns sons agudos, sacudidos, metálicos, que Koroliov nunca tinha ouvido e não soube explicar. Ecoaram na sua alma dum modo bem desagradável e estranho.
— Acho que não ficava aqui por nada deste mundo — pensou ele.
E tornou a folhear a música.
A governante entrou e chamou a meia voz:
— Senhor Doutor, pode vir jantar…?
Koroliov seguiu-a.
A mesa, grande, estava coberta de aperitivos e de vinhos; mas só havia duas pessoas: ele e Cristina Dmitrievna. Ela bebia madeira, comia depressa e falava contemplando-o pela luneta.
— Os operários estão muito satisfeitos connosco. Todos os invernos dão nesta fábrica espectáculos em que eles próprios representam. Há também, naturalmente, conferências com projecções, uma sala de chá magnífica; e tudo o mais… Têm muita dedicação por nós; quando souberam que a Lisaunka estava pior, mandaram fazer umas rezas. São pouco instruídos mas têm muito bons sentimentos.
— Parece que não há nenhum homem em casa, não?
— Nenhum. Piotre Nikanorytch morreu há ano e meio e ficámos sozinhas. Vivemos as três, no Verão aqui, no Inverno em Moscovo. Já estou nesta casa há onze anos. É como se estivesse em minha casa.
Serviram esturjão, croquetes de frango e uma compota. Os vinhos eram caros, vinhos de França.
— Faça favor, Senhor Doutor… Não faça cerimónias… Coma — dizia Cristina Dmitrievna comendo e limpando a boca à mão (via-se que estava realmente à vontade). Faça favor de comer.
Depois do jantar, levou o médico a um quarto onde lhe tinham preparado uma cama. Mas não tinha sono; o quarto era quentíssimo e cheirava a tintas; vestiu o sobretudo e saiu.
Fora, havia fresco. Já havia um prenúncio de alvorada e, no ar húmido, desenhavam-se os cinco edifícios, com as chaminés, os barracões e os armazéns. Como era domingo, não se trabalhava; as janelas estavam escuras e só duas, num dos edifícios onde ainda estava aceso um forno, pareciam incendiadas; de quando em quando, saía lume pela chaminé, de mistura com o fumo. Ao longe, para lá do pátio, coaxavam rãs e um rouxinol cantava.
Ao olhar os casarões da fábrica e as barracas dos operários, Koroliov voltou aos seus pensamentos do costume. Tinham-se instituído espectáculos para os operários, projecções, médicos privativos, toda a espécie de melhoramentos: mas os operários que ele vira de tarde, na estrada, em nada diferiam dos que tinha visto na sua infância, quando não havia para eles nem espectáculos, nem melhoramentos.
Era médico e tinha sido obrigado a fazer uma ideia exacta das doenças crónicas, cuja causa inicial é incompreensível e incurável; considerava do mesmo modo as fábricas como um equívoco cujas causas são também obscuras e inelutáveis. Todos os melhoramentos da sorte dos operários não lhe apareciam, claro, como supérfluos, mas comparava-os ao tratamento das doenças incuráveis.
— Há certamente um engano nesta coisa toda… — pensou olhando as janelas purpúreas. Mil e quinhentos ou dois mil operários trabalham sem descanso, num ambiente insalubre, para fabricarem péssima chita. Vivem na fome e só de tempos a tempos a taberna os liberta do pesadelo. Uma centena de pessoas vigia-lhes o trabalho e a vida destes contramestres passa-se a aplicar multas, a proferir injúrias e a cometer injustiças. E só duas ou três pessoas, chamadas patrões, aproveitam com os lucros, apesar de não trabalharem e de terem desprezo pela chita ordinária. Mas que lucros! E de que maneira os aproveitam! A Lialikov e a filha são umas infelizes e mete pena vê-las. Só a solteirona, a estúpida Cristina Dmitrievna vive à vontade! E trabalha-se numa fábrica destas, com cinco oficinas, e vende-se má chita nos mercados do Oriente, para que uma Cristina Dmitrievna possa comer esturjão e beber madeira.
De repente, repetiram-se os sons estranhos que Koroliov tinha notado antes do jantar. Perto de um dos edifícios, alguém batia numa placa metálica e logo amortecia a ressonância, de modo que os sons eram breves, ásperos, mal definidos, qualquer coisa como «dê… dê.. dê…». Depois, meio minuto de silêncio. E, perto do outro edifício, outros sons sacudidos, mas mais baixos, graves: «dran… dran… dran…».
Repetiram-nos onze vezes. Eram, evidentemente, os guardas a darem as onze horas. Junto do terceiro edifício, ouviu-se: «jak… jak… jak…». A mesma coisa diante de cada um dos edifícios, depois por detrás das barracas e às portas.
Parecia que, na calma da noite, os sons eram produzidos por um monstro de olhos de púrpura: o próprio Diabo, que era aqui o senhor de patrões e de operários e que a uns e outros enganava.
Koroliov saiu para os campos.
— Quem está aí? — gritaram-lhe, com voz grosseira.
— Exactamente como numa prisão — pensou ele.
E não respondeu nada.
Fora, ouviam-se melhor os rouxinóis e as rãs. Sentia-se o cheiro da noite de Maio. Da estação vinham ruídos de comboios; para outro lado, cantavam galos sonolentos; contudo, a noite estava calma: a natureza dormia pacificamente.
No campo, não longe da fábrica, erguia-se o esqueleto duma casa de toros; ao lado, encontravam-se materiais de construção. Koroliov sentou-se numas tábuas e continuou a pensar.
— Só a governante vive aqui a seu gosto e a fábrica trabalha para a satisfazer. Mas é apenas uma aparência; é uma personagem imaginária: o patrão para quem tudo se faz aqui é o Diabo.
E pensava no Diabo em que não acreditava. E voltava-se para as duas janelas que o lume iluminava.
Parecia-lhe que, por estes olhos de púrpura, o próprio Diabo o olhava: numa palavra, a força desconhecida que estabeleceu as relações entre os fracos e os fortes, o erro grosseiro que nada agora pode emendar. É necessário que o forte impeça o fraco de viver: tal é a lei da natureza. Mas isto não é compreensível e não entra facilmente no espírito senão à luz dum artigo de jornal ou dum manual. No tumultuar da vida quotidiana e no entrelaçar de todos os nadas de que se entretecem as relações humanas, não parece uma lei; é um absurdo lógico, no qual o forte e o fraco são vítimas das suas relações mútuas e se submetem involuntariamente a uma força condutora desconhecida, que reside fora da vida e é estranha ao homem.
Assim pensava Koroliov, sentado sobre as tábuas, invadido pouco a pouco pela impressão de que essa força desconhecida e misteriosa estava realmente perto dele e o contemplava.
Entretanto, o céu a leste empalidecia; os minutos precipitavam-se. Os cinco edifícios da fábrica e as chaminés tinham, sobre o fundo cinzento da madrugada, nessa hora em que não se via alma viva, em que tudo parecia morto, — os edifícios e as chaminés tinham um aspecto especial, diferente do de dia. Esquecia-se por completo que houvesse lá dentro motores a vapor, electricidade e telefones; mais depressa se pensava nas habitações lacustres e na cidade de pedra; sentia-se a presença de uma força grosseira, inconsciente…
E de novo se ouviu:
— Dê… dê… dê… dê…
Doze vezes.
Depois o silêncio — meio minuto de silêncio -, e, na outra extremidade do pátio:
— Dran… dran… dran…
— É bem desagradável, esta coisa… — pensou Koroliov.
E logo ouviu, num terceiro lugar:
— Jak… jak… jak…
O ruído era sacudido, áspero, exactamente como se estivesse aborrecido.
— Jak… jak…
Para dar a meia-noite foram precisos quatro minutos.
Depois, silêncio completo. E, de novo, a impressão de que tudo estava morto à volta.
Koroliov, depois de estar ainda algum tempo sentado, voltou para casa. Mas ficou ainda muito tempo sem se deitar.
Nos quartos vizinhos conversava-se. Ouvia-se o perpassar de pantufas e de pés descalços.
— Será uma crise? — pensou o médico.
Saiu para ir ver a doente. No quarto havia lá muita claridade; na parede da sala tremia um fraco raio de sol, através do nevoeiro da manhã. A porta estava aberta e Lisa sentara-se numa poltrona perto do leito, de roupão, envolta num xale e com os cabelos caídos. Os estores das janelas estavam corridos.
— Como se sente? — perguntou-lhe Koroliov.
— Obrigada…
Tomou-lhe o pulso, depois arranjou-lhe os cabelos que tinha sobre a testa.
— Não dorme? Está um tempo limpo, é a Primavera… Lá fora cantam os rouxinóis, e a Menina fica aí sentada, às escuras, a pensar não se sabe em quê…
Ela escutava-o e olhava-o. Tinha uns olhos tristes, inteligentes e via-se que queria dizer qualquer coisa.
— Isto dá-lhe muitas vezes? — perguntou ele.
Ela mexeu os lábios e respondeu:
— Muitas vezes… Quase todas as noites me sinto mal. Neste momento, os guardas, no pátio, começaram a dar as duas horas.
Ouviu-se: «Dê… dê…» Lisa teve um sobressalto.
— Estes sons incomodam-na? — perguntou o médico.
— Não sei… — respondeu ela, reflectindo — . . aqui tudo me incomoda, tudo me aborrece. Sinto compaixão na sua voz; pareceu-me desde o primeiro minuto, não sei porquê, que consigo podia falar de tudo…
— Fale, faça favor.
— Vou dar-lhe a minha opinião. Parece-me que não estou doente, mas atormento-me e tenho medo porque isto tem que ser assim e não pode ser de outra maneira. O ser mais saudável não pode deixar de inquietar-se quando um bandido lhe ronda a porta. Têm todos os cuidados comigo — continuou baixando os olhos e sorrindo timidamente. Estou muito reconhecida e não contesto a utilidade da medicina; mas desejaria falar, não com um médico, mas com alguém que estivesse perto do meu espírito: um amigo que me compreendesse e me demonstrasse que tenho ou não tenho razão.
— Não tem amigos?
— Sinto-me só… Tenho minha mãe e gosto dela. Mas sinto-me só. Calhou assim a minha vida… Quem está só lê muito, mas fala pouco e ouve pouco também; a vida é-lhe misteriosa. É-se místico e vê-se o Diabo onde ele não está; a Tamara de Lermontov era só e via o Demónio.
— Lê muito?
— Muito. Tenho todo o tempo livre, de manhã à noite. De dia leio, à noite tenho a cabeça vazia; em lugar de ideias, passam-me vagas sombras…
— Vê qualquer coisa de noite? — perguntou Koroliov.
— Não… mas sinto.
Sorriu de novo e levantou os olhos para o médico. O seu olhar era cheio de melancolia e cheio de inteligência. Pareceu a Koroliov que Lisa tinha confiança nele, lhe queria falar sinceramente e tinha pensamentos semelhantes aos seus. Mas ela calara-se e esperava talvez que ele falasse.
E sabia bem o que tinha a dizer-lhe. Era evidente que se tornava necessário que ela abandonasse o mais depressa possível os cinco edifícios da fábrica e o seu milhão, se acaso o tinha, e deixasse aquele Diabo que de noite a olhava. Era igualmente claro para Koroliov que ela também o pensava e que esperava que lho dissesse alguém em quem ela tivesse confiança.
Mas o médico não sabia por onde começar… Como havia de ser?… É difícil perguntar aos condenados por que razão os condenaram; e é também aborrecido perguntar aos ricos por que motivo têm necessidade de tanto dinheiro; por que fazem tão mau uso da sua riqueza, por que não a deixam, mesmo quando vêem que aí reside a sua infelicidade… E se se começa a falar disto a conversação é geralmente embaraçada e longa.
— Como hei-de dizê-lo? — pensava Koroliov. — E será preciso?
E disse o que queria, não directamente, mas com uns desvios:
— A Menina está descontente da sua situação de proprietária de fábrica e de herdeira rica; não acredita nos seus direitos e não dorme. É seguramente melhor do que se estivesse satisfeita e dormisse profundamente pensando que tudo vai bem. A sua insónia é respeitável e, seja o que for, é bom sinal. Com seus pais seria impossível uma conversa semelhante àquela que hoje temos aqui. De noite, não conversavam, dormiam profundamente; mas nós, os desta geração, dormimos mal. Preguiçamos, falamos muito, e consideramos continuamente se temos ou não temos razão. Para os nossos filhos e para os nossos netos já essa questão estará resolvida. Verão mais claro do que nós. Dentro de cinquenta anos, a vida será bela; é pena que não possamos viver até lá. Devia ser bem interessante…
— Que farão então os nossos filhos e os nossos netos? — perguntou Lisa.
— Não sei… Talvez deixem tudo e partam…
— Para onde?
— Para onde? Mas para onde quiserem — disse Koroliov a rir-se. — Há poucos lugares para onde possa ir um homem bom e inteligente?
Olhou para o relógio.
— Já nasceu o Sol. É tempo que durma. Dispa-se e repouse à vontade. Tenho muito prazer em a ter conhecido — disse-lhe ele, apertando-lhe a mão. — É interessante e simpática. Boa noite!
Voltou para o quarto e deitou-se.
No dia seguinte de manhã, quando trouxeram o carro, toda a gente veio acompanhar o médico à porta. Lisa, de vestido branco como num dia de festa, tinha uma flor nos cabelos. Pálida, lânguida, contemplava Koroliov, como de noite, com ar triste e inteligente. Sorria e falava sempre com a mesma expressão de lhe querer dizer alguma coisa de particular, de grave, alguma coisa que fosse só para ele. Ouviram-se as cotovias cantar, os sinos tocavam. As janelas da fábrica brilhavam alegremente. Ao atravessar o pátio e enquanto o conduziam à estação, Koroliov já não pensava nos operários nem nas habitações lacustres, nem no Diabo. Pensava no tempo, já talvez próximo, em que a vida seria tão luminosa e alegre como essa manhã calma de Maio. E pensava em como era agradável, em semelhante manhã de Primavera, viajar num bom carro, com os seus três cavalos, e aquecer-se ao sol.

Certo dia de Outono (Maksim Górki – 1895)

Certo dia de outono vi-me numa situação muito delicada e incômoda: acabava de chegar a uma cidade onde não conhecia ninguém, não tinha onde me hospedar e meus bolsos estavam vazios.
No decorrer dos primeiros dias vendera todas as peças de roupa que podia dispensar e, finalmente, não restou outro recurso senão dirigir-me ao local chamado “Desembocadura”, bairro onde se achavam os cais da navegação fluvial e onde, por conseguinte, durante a época em que trafegavam os navios, fervia a atividade portuária. Mas cheguei em princípios de outubro, início da estação hibernal quando todo o movimento fluvial pára; assim, todo o bairro estava abandonado e quieto.
Vagueei entre os armazéns fechados e as barracas dos comerciantes trancadas; pisava e repisava a areia úmida na esperança de encontrar algo de comestível, pensando em como seria agradável a sensação de estar alimentado.
Nas circunstâncias da vida civilizada é mais fácil satisfazer a fome espiritual que a física. A pessoa pode perambular pelas ruas, rodeado de casas de aspecto agradável, e supor com razoável certeza que aquelas moradias são confortavelmente organizadas por dentro. Essas observações podem despertar pensamentos aprazíveis sobre arquitetura, condições higiênicas e outras coisas sábias e abstratas. A tal pessoa cruzaria na rua com cidadãos bem trajados, esses cidadãos seriam delicados, dar-Ihe-iam caminho ignorando cortesmente a existência da nossa pessoa hipotética. Asseguro-vos que a alma do homem faminto recebe alimento mais abundante e mais sadio que a do cidadão bem nutrido — eis a situação que permite deduções espirituosas, favoráveis aos homens bem alimentados.
… Anoitecia chovendo, sopravam rajadas frias de vento vindo do norte. O vento assobiava dentro das barracas vazias, sacudia as venezianas dos hotéis fechados, as ondas do rio espumavam sob a força do vento, açoitavam ruidosamente a margem arenosa do rio, e, erguendo, orgulhosas, suas cristas brancas, perseguiam-se mutuamente saltando, pulando e desaparecendo afinal na distância brumosa… Parecia que o rio pressentia a proximidade do inverno e, assustado, procurava fugir das cadeias glaciais que o vento frio poderia forjar a qualquer momento; naquela mesma noite, quiçá, congelando sua superfície até o retorno da primavera. O céu pesado e sombrio derramava sobre a terra, chuva tão miúda que a vista mal conseguia distinguir as gotas; dois salgueiros desnudos e estropiados e um bote, deixado de quilha para cima entre eles, como que agravavam o aspecto tristonho da paisagem.
O bote com seu fundo quebrado, as árvores despidas, velhas e dignas de lástima… tudo em torno, deserto e morto, e o céu a chorar, a chorar… Pareceu-me que tudo morria em volta de mim, que logo eu seria o único ser vivo, mas condenado a morrer devagar, de fome e frio…
Entretanto eu estava no vigor dos meus dezessete anos, época boa de se viver.
Andei, andei pisando a areia, úmida e fria, e meus dentes matraqueavam, incessantemente, executando um hino em honra ao frio e à fome. De repente, tendo contornado uma das barracas na esperança vã de encontrar qualquer coisa para comer, dei com um vulto cujas roupas femininas ensopadas pela chuva se grudaram a seus ombros. Parei e observei curioso o que ela fazia: suas mãos cavavam um buraco, que tendia a passar por baixo da parede de madeira da barraca.
— Para quê faz isso? — indaguei, agachando-me, de cócoras, a seu lado.
A moça soltou um gritinho assustado e pôs-se de pé num salto. Vi então, que se tratava de moça da minha idade, bonitinha, dona de grandes olhos cinzentos que me olhavam assustados. Infelizmente, três pisaduras roxas desfiguravam o jovem rosto. A disposição simétrica das manchas azuladas, pois havia uma embaixo de cada olho e uma no meio da testa, fazia desconfiar que a pessoa que as produzira fosse artista com muita prática do ofício.
A moça continuava a me olhar e, aos poucos, o temor desapareceu de seus olhos. Em dado momento, ela sacudiu as mãos para tirar a areia que havia grudado, ajeitou o lenço na cabeça, encolheu-se de frio e disse:
— Vai ver que também está com fome? Vá cavando então, cansei-me. Lá — disse indicando a barraca, — decerto há pão… esta barraca ainda negocia…
Comecei a cavar. A moça esperou um pouco, observou-me; agachou-se a meu lado e começou a me ajudar…
Trabalhamos calados. Não posso dizer agora se naquela hora me lembrei do Código Criminal, das leis da moral, da inviolabilidade da propriedade privada ou qualquer outra das coisas importantes que, na opinião das pessoas entendidas, devem ser lembradas a qualquer momento de nossa vida. Desejando ater-me à verdade, na medida do possível, devo confessar que fiquei entretido com a tarefa de abrir entrada na barraca, a tal ponto que me esqueci de qualquer outra coisa que não fosse a especulação sobre o que poderíamos encontrar dentro da barraca…
Anoitecia. A escuridão úmida e fria tornava-se mais palpável, de minuto em minuto. O bramir das ondas parecia ter-se tornado mais abafado; em compensação o tamborilar da chuva tornou-se mais intenso e mais rápido. Ao longe, estalou a matraca do guarda-noturno…
– Será que tem soalho? — perguntou minha companheira, de mansinho. Não entendi de que falava e, por isso, nada respondi.
– Estou perguntando se a barraca tem soalho — se tiver, estamos fritos. Faremos o buraco, só para encontrarmos tábuas impedindo o caminho… Como haveríamos de arrancar as tábuas? É melhor arrancar o cadeado… é um cadeado bem vagabundo…
É raro que uma boa idéia nasça na cabeça de mulher, mas como o leitor pode observar no presente caso, isso não deixa de acontecer… Sempre fui apreciador de boas idéias e sempre tratei de as aproveitar na medida do possível.
Achei o cadeado e arranquei-o com ganchos e tudo… No mesmo instante, que abri a portinhola, minha companheira desapareceu entrada a dentro e, instantes depois, ouvi sua exclamação elogiosa:
– Êta, bichão!
Prezo um pequeno elogio feminino mais do que um discurso enaltecedor, pronunciado por qualquer homem, mesmo que ele seja tão eloqüente como todos os oradores da antigüidade reunidos. Naquele momento, no entanto, não me sentia inclinado a galanteios e por isso sem dar atenção ao elogio, perguntei lacônico e ríspido:
– Há qualquer coisa?
Em cantilena monótona, ela começou a enumerar as descobertas, na medida que topava com elas:
– Uma cesta com garrafas… sacos vazios… guarda-chuva … balde…
Nada disso servia para se comer. Senti minhas esperanças perderem o brilho quando, enfim, veio o grito salvador:
– Ah! Ei-lo!
— Quem?
– Pão… um pão inteiro… mas está molhado… pegue!
Da escuridão veio rolando um pão inteiro, seguido de perto por minha companheira do momento. Quando ela apareceu, eu já havia arrancado um pedaço e mastigava-o.
– Dê-me um pedaço também… temos que dar o fora daqui. Aonde podemos ir? A moça olhou em torno, mas não se via nada senão escuridão molhada e barulhenta.
– Lá adiante está o bote virado… Vamos lá?
– Vamos! Marchamos lado a lado e em caminho arrancávamos pedaços de pão, metendo-os na boca… A chuva engrossava, o rio berrava raivoso, de longe ouvia-se um apito prolongado, que me pareceu ter um quê de irônico, como se alguém muito grande e muito forte, que não tivesse medo de ninguém escarnecesse de tudo e de todos, inclusive de nós dois — heróis anônimos daquela aventura. O som do apito fazia-me mal, mas o mal-estar não impedia que eu comesse, avidamente, e a moça não me ficava nada a dever.
Não sei para quê eu precisei saber o seu nome, mas em dado momento perguntei-lhe.
— Natacha — respondeu a moça mastigando, gostosamente.
Olhei-a e meu coração contraiu-se dolorosamente e, quando olhei de novo a escuridão à minha frente pareceu-me que a cara do meu destino me olhava zombando de mim, sorrindo de maneira enigmática e fria.
A chuva incansável tamborilava sobre o fundo do bote e esse ruído monótono sugeria pensamentos tristes. O vento uivava, forçando entrada pela fenda no casco do bote, onde uma lasca frouxa vibrava sob o impacto e estalava de maneira inquieta num queixume contínuo. Também as ondas do rio rugiam de maneira monótona e desesperada como se estivessem contando algo intoleravelmente tedioso que as aborrecia, de que gostariam de fugir, mas que tinham de contar sem poder evitá-lo. O ruído da chuva misturava com o barulho do rio e a própria terra parecia suspirar, cansada com as eternas mudanças entre o verão, quente e brilhante, e o outono úmido, frio e brumoso.
O apartamento embaixo do bote carecia de conforto; era apertado e úmido, pelo fundo rachado entravam miúdas e frias gotas de chuva impelidas por furiosas rajadas de vento… Nós, os inquilinos temporários, permanecemos calados, estremecendo de frio. Lembro-me que senti sono: Natacha reduzida a uma bolota, recostara-se ao costado do bote. Ela abraçara os joelhos e não desviava os olhos do rio, olhos que, realçados pelas manchas azuis das pisaduras no rosto pálido, pareciam enormes, imóveis e mudos. Começou a me infundir receio… quis conversar com ela, mas não sabia por onde começar.
Ela mesma iniciou a conversa:
– Que vida miserável! — disse, distintamente e com convicção.
Contudo, aquilo não fora queixa. Houvera tanta indiferença em sua entonação que não restara margem para lamento. Simplesmente ela raciocinara como pôde, chegou a determinada conclusão e pronunciou-a em voz alta. Não me foi possível contradizê-la sem trair meus princípios, por isso continuei calado. A moça, como se despercebesse minha presença, ficou de novo quieta e imóvel.
– Quem sabe seria melhor se a gente morresse… — disse Natacha, após certo tempo; desta vez, suas palavras foram pronunciadas em voz baixa e pensativa, mas sem expressar mágoa. Aparentemente ela pensou na vida, examinou suas possibilidades e, calmamente, chegou ao resultado que para se proteger contra as agruras do destino, nada lhe restava senão morrer.
Diante desta clareza de raciocínio, senti profundo mal-estar e percebi que se eu continuasse calado acabaria chorando, envergonhar-me-ia se o fizesse diante de um ser feminino, mormente porque ela se abstinha desta demonstração de fraqueza. Resolvi romper o silêncio.
– Quem surrou você? — perguntei, incapaz de me lembrar de tópico mais inteligente.
– Foi Pachka, como sempre — respondeu a moça, calmamente.
– Quem é?
– Meu amante, padeiro…
– Surra você a miúdo?
– Quando bebe, surra.
Num gesto repentino, a moça aproximou-se de mim e começou a falar de si e suas relações com Pachka. Disse que era mulher “de vida fácil”, enquanto ele tinha bigodes ruivos e tocava muito bem sanfona. Pachka freqüentava a casa de tolerância, onde ela vivia, e ela gostou do homem porque estava sempre alegre e limpo. Usava um casaco de quinze rublos e botas feitas a mão, com enfeites. Portanto, ela apaixonou-se pelo rapaz e ele ficou sendo seu amante. Quando suas relações se estabilizaram, ele começou a tirar-lhe o dinheiro que ela ganhava dos outros fregueses; com esse dinheiro comprava bebidas e, quando embriagado, surrava-a. Isso ainda seria suportável, se ele não namorasse as outras moças na presença dela…
– Então, isso não me deve ofender? Não sou pior que as outras. Quer dizer que ele faz isso de propósito para fazer pouco caso de mim, o patife. Anteontem pedi à dona que me desse folga para dar um passeio, fui à casa dele e encontrei lá a Dunia, bêbeda como só ela. Ele também estava tocado. Disse-lhe então: “Patife! Você é um patife! Tapeador!” Surrou-me então todinha — com os punhos, puxando-me o cabelo — de todo o jeito… Isso ainda poderia passar, o pior é que me rasgou a roupa toda… Como há de ser isso? Como hei de me apresentar à dona? Rasgou tudo, blusa, vestido, eram novinhos… Arrancou-me o lenço da cabeça… Meu Deus! Como hei de me arranjar? Ao pronunciar as últimas palavras, a voz dela elevou-se num grito desesperado.
O vento uivava, tornando-se cada vez mais frio e forte… Comecei a bater os dentes, de novo. Natacha também encolhia-se de frio e chegou tão perto de mim que, apesar da escuridão, pude perceber o brilho de seus olhos.
– Que patifes são os homens todos! Se pudesse espezinhá-los-ia a todos! Se visse um morrendo, escarrar-lhe-ia na cara, mas não teria pena dele! Caras sem- vergonha! Fazem bonito, agradam, abanam a cauda, mas quando a boba faz a vontade, pronto — acabou-se! Já começam a maltratar a coitada! Demônios piolhentos!
A moça possuía variado repertório de maldições, mas quando as pronunciava não havia entonação raivosa, não transparecia ódio para com os “demônios pioIhentos”; em contraste às palavras que dizia, sua voz era estranhamente calma.
Entretanto, as palavras dela produziram em mim efeito muito mais emocionante e violento que os mais eloqüentes e pessimísticos livros ou discursos que li e ouvi antes, depois e mesmo hoje em dia. Isso aconteceu porque a agonia do moribundo é sempre mais natural e mais impressionante que uma descrição por mais artisticamente bem feita que seja.
Sentia-me mal, provavelmente mais por causa do frio que devido ao que me dissera a companheira. Gemi em surdina e rangi os dentes.
Quase instantaneamente senti o contato de duas mãozinhas frias; uma afagou-me o pescoço e a outra passou pela minha face. Ao mesmo tempo, uma voz doce e assustada perguntava:
– Que tem?
Custei a acreditar que a pergunta partiu da mesma pessoa, que pouco antes dissera que todos os homens eram patifes e desejou-lhes a morte. Mas não havia dúvida, pois em seguida ela começou a falar apressada:
— Que sente? Está com frio? Está congelando? Mas que bobo que é! Ficou o tempo todo sem dizer nada, feito coruja! Por que não disse antes que está com frio… bem… deite no chão… estique-se direitinho… e eu deito… assim! Abrace-me com força agora… mais forte! Então, agora vai sentir menos frio… depois, vamos deitar costas contra costas… a noite há de passar… Que foi que houve, deu a bebedeira? Foi despedido?… Não há de ser nada!
Consolava-me… Dava-me coragem…
Que eu fosse maldito! Três vezes maldito! Quanta ironia encerrava aquela situação! Imaginem só! Eu, naquela época estava intensamente preocupado com os destinos da humanidade, sonhava em reorganizar a estrutura social, lia livros tão diabolicamente insondáveis que a profundeza de sua sabedoria era provavelmente inacessível aos próprios autores que os escreveram — eu que envidava todos os esforços possíveis para me tornar “expoente máximo da força ativista” — e, naquela noite, uma simples meretriz aquecia-me com o calor de seu corpo; menos que simples meretriz — um ser humano perseguido, maltratado, sem lar, sem futuro, cuja vida nada valia — um ser humano a quem não me lembrei de oferecer minha ajuda antes que ela me ajudasse — e mesmo que me tivesse lembrado, duvido que teria sido capaz de lhe ser útil.
Oh, estava prestes a acreditar estar sonhando, estar vivendo tudo aquilo num pesadelo incongruente.
Mas não, nem que quisesse não poderia convencer-me de estar sonhando; a chuva continuava a borrifar-me o rosto, seios femininos comprimiam-se contra o meu peito e seu hálito morno bafejava-me o rosto; é verdade que o bafo trazia um nadinha de cheiro de vodca, mas nem por isso era muito revigorante… O vento uivava, a chuva descia ruidosa, as ondas martelavam a praia, abraçávamo-nos com toda a força, mas não parávamos de tremer. Tudo era muito real e tenho a certeza de que nunca houve quem tivesse tido pesadelo tão penoso e deprimente.
Natacha falava. Falava tão carinhosamente e de maneira tão compreensiva como só mulheres sabem falar. Sob a ação de sua voz amiga, de suas palavras ingênuas e cálidas, uma luzinha começou a arder no meu peito e algo derreteu no meu coração.
Naquele instante, lágrimas abundantes brotaram dos meus olhos e levaram com sua enxurrada muito ódio, tédio, estupidez e sujeira, que se haviam acumulado no decorrer do tempo… Natacha dizia:
– Chega, meu bem, não chore! Acalme-se! Deus há de permitir que fique bom e ache outro emprego… e tudo o mais…
Beijava-me. Beijava-me seguidamente e com ardor…
Foram os primeiros beijos que a vida me oferecera e foram os mais doces, pois os que ganhei daí em diante me custaram muito caro e de nada valeram.
– Chega de chorar, bobinho! Arranjo serviço para você se não tem para onde ir… Eram as palavras que eu ouvia como em sonho…
… Ficamos abraçados até o amanhecer…
Quando o dia clareou, saímos do nosso apartamento, de gatinhas, e dirigimo-nos à cidade… Despedimo-nos amistosamente e nunca mais nos encontramos, embora eu tivesse procurado durante mais de meio ano aquela Natacha querida com quem passei uma noite de chuva… uma noite de outono..
Se ela morreu, foi uma bênção para ela! Que repouse em paz! Se estiver viva, desejo-lhe que sua alma encontre a paz! Faço votos para que nunca se sinta decaída … pois, isso seria um sofrimento inútil para ela e para a vida…

O avô e o netinho (Maksim Górki – 1894)


Aguardando a balsa, os dois deitaram-se na sombra da ribanceira e olharam muito tempo as águas turvas e rápidas do Rio Kubanh. Leonhka adormeceu, mas o Vô Arhip sentia dor surda e aborrecida no peito e não pôde dormir. No fundo marrom-escuro da terra os dois vultos encolhidos apenas apareciam, um deles pouco maior que o outro; os rostos cansados, queimados pelo sol e pelas intempéries, poeirentos, eram quase da cor de suas roupas esfarrapadas.
O comprido corpo ossudo do avô estendera-se na estreita nesga da areia amarela, que separava o rio, da ribanceira. O menino adormecido encolhera-se ao lado do velho. Leonhka, criança mirrada e franzina, parecia um galho caído do avô, velha árvore ressequida que a correnteza havia atirado à praia.
O velho descansara a cabeça na palma da mão, o cotovelo dobrado repousava na areia. Olhava a outra margem ensolarada onde, entre os chorões baixos, aparecia a popa escura da balsa. Da balsa partia uma estrada que se perdia na estepe; a linha reta da estrada parecia inflexivelmente severa e pouco convidativa.
Os olhos inflamados piscavam irrequietos e o rosto rugoso, com as feições imóveis, guardava, permanentemente, uma expressão de indizível tristeza; freqüentes acessos de tosse seca sacudiam o velho que, olhando o neto adormecido, protegia a boca com a mão espalmada e procurava sufocar a tosse para não acordá-lo. A tosse rouca e sufocante forçava lágrimas dos olhos inflamados.
Além da tosse e do ruído manso das ondas, que esbarravam na areia, não se ouvia nada na estepe castigada pelo sol inclemente. A planície estendia-se imensa como o mar e só no horizonte, tão longe que a vista enfraquecida pela idade mal e mal distinguia, agitava-se o rico dourado de vasto trigal, que se confundia com o brilhante azul do céu. No fundo azul apareciam as esbeltas formas de três álamos; pareciam aumentar e diminuir de tamanho; a linha do horizonte também subia e descia e, de repente, tudo desaparecia encoberto pela faixa prateada da “miragem das estepes”.
A faixa movediça e traiçoeira da miragem por vezes aproximava-se do rio e, então, tomava a forma de outro rio brilhante que jorrava do firmamento, liso, calmo e majestoso como a sua fonte. Quando isso acontecia, o velho, desconhecendo o fenômeno, esfregava os olhos pensando que o calor e a estepe lhe houvessem prejudicado a visão, como já lhe haviam roubado a força das pernas.
Naquele dia, sentia-se pior ainda que ultimamente. Sentia que a morte andava próxima e o fato em si não o preocupava; não passava de mais uma das contingências do ser humano; preferia, contudo, morrer na terra onde nascera e preocupava-se com a sorte do neto. Para onde iria o órfão?
Pensava nisso diversas vezes por dia e, cada vez que o pensamento lhe aflorava à mente, um frio penoso apertava-lhe o peito e sentia-se tão mal que, se pudesse, voltaria incontinente às plagas pátrias.
“Mas para voltar, lá era longe… não chegaria… morreria em caminho. Aqui, na Kubanh, o povo é rico e dá esmola generosamente, embora seja de gênio soturno e dado a fazer pouco caso. Não gostam de mendigos, porque são ricos e não conhecem a miséria…
Retendo a vista umedecida pelas lágrimas no rosto do neto, o velho passou-lhe a mão carinhosa pelos cabelos.
O menino acordou e, erguendo a cabecinha, olhou o avô com grandes olhos azuis, pensativos e expressivos além da idade e grandes demais para seu rostinho magro, marcado pela varicela, onde um narizinho afilado mostrava sua ponta acima dos lábios finos e pálidos.
– Já vem? — perguntou o garoto e formou viseira com a mão espalmada para proteger a vista dos reflexos do sol, que brincavam na superfície do rio.
– Não, ainda não. Está parada. Que viria fazer aqui? Ninguém chamou, por isso não se mexe… — falou Arhip, pausadamente, continuando a afagar os cabelos da criança. — Dormiu?
Leonhka abanou a cabeça de maneira incerta, não se sabia se isso significava sim ou não; deitou-se de novo na areia e, por algum tempo, nenhum dos dois falou.
— Se eu soubesse nadar, tomaria banho no rio. — disse o menino olhando fixamente o rio. — Como corre! Nós não temos rios como este. Por que corre tanto? Até parece que está com medo de se atrasar para algum encontro…
Descontente, o garoto deu as costas ao rio.
– Sabe de uma coisa — propôs o velho, — tiremos os cintos, amarremos os dois juntos e a ponta podemos prender em sua perna e pronto; pode tomar o seu banho…
– Pois, sim… — retrucou Leonhka, que idéia! Então, acha que você agüenta segurar? Acabamos afogando-nos os dois, isso sim!
– É capaz de me puxar junto, é verdade. Veja só que força. Na primavera, quando vem a cheia, deve ser um horror! Quanto feno não dá aqui, Virgem Santíssima!
O menino não queria conversar e por isso não reagiu às palavras do avô; pegou um pedaço seco de barro e começou a esfarinhá-lo, muito compenetrado.
Arhip observava-o, de olhos semicerrados, pensando em alguma coisa.
– Engraçado, isso com a terra – começou o menino com voz baixa e monótona, batendo palmas para tirar a poeira. – Peguei a bolota, esfreguei e virou poeira… pedacinhos tão pequenos que a vista quase não distingue…
– Mas, é claro — comentou o avô e começou a tossir. Quando passou o acesso perguntou: — Que querias dizer com aquilo?
– Não sei bem — respondeu o menino indeciso. — É que, veja só como é grande esta terra! Quanta coisa não construíram sobre ela… Quantas cidades passamos… quanta gente mora nelas — até dá medo!
Não sabendo desenvolver o pensamento, o garoto emudeceu, olhando em torno.
Depois de uma pausa, o velho aproximou-se do neto e falou carinhosamente:
— Você é esperto, meu filho! Disse bem, tudo é pó… as cidades, as pessoas, nós dois — tudo é pó. Oh, querido se você pudesse estudar!… Iria longe. Mas assim, que vai ser de você?
O avô abraçou a cabecinha da criança e beijou-a.
– Espere, avô — exclamou o menino, libertando-se do abraço. — Como foi mesmo que falou? Poeira? As cidades e tudo?
– Foi assim que Deus criou o mundo, meu bem. Tudo vem da terra, e a própria terra é pó. E tudo morre, tudo passa… é assim mesmo. É por isso que o homem deve ser operoso e modesto. Eu também morro logo… Aonde irá você sem mim?
Leonhka já ouvira muitas vezes esta pergunta e estava farto do falar da morte, por isso virou a cabeça para o outro lado. apanhou um talo de capim e, metendo a ponta na boca, começou a mastigá-lo.
Mas o avô insistiu no assunto porque era sua maior preocupação.
– Por que não responde? Que vai fazer quando eu faltar? — perguntou mansamente inclinando-se sobre o netinho e tossindo de novo.
– Mas, eu já disse, — respondeu o menino distraído e descontente, olhando o avô, de esguelha.
Não gostava dessas conversas, já porque muitas vezes elas terminavam em briga. O avô discorria longamente sobre a proximidade da morte. No começo, o menino escutava compenetrado, assustava-se com os quadros da situação que se seguiria, chorava até, mas de pouco em pouco cansava-se, deixava de ouvir o que o velho dizia, perdendo-se em devaneios próprios. O avô percebia, ofendia-se, queixava-se de que o neto não o amava, não prezava os cuidados que o avô lhe dispensava e acabava acusando-o de desejar sua morte.
— Já disse — e daí? Você ainda é bobinho, não conhece a vida. Que idade tem? Apenas onze anos. E é doentio, não serve para trabalhar. Aonde irá, pois? Acha que gente boa vai ajudar? Se você tivesse dinheiro eles o ajudariam a gastá-lo, isso sim! Isso de pedir esmola é bem amargo, mesmo para mim que sou velho… Deve-se fazer reverência a todos, solicitar uma esmola pelo amor de Deus a cada um que se encontra. Muitos xingam a gente, às vezes batem, ou enxotam… Você pensa que eles consideram o mendigo como gente? Nunca! Já faz dez anos que ando mendigando, sei o que digo. Acham que uma fatia de pão vale mil rublos. Dão um pedaço de pão e acham que os portões do céu já se abrem para os receber, em recompensa. Por que você acha que a maioria dá esmola? Para acalmar sua consciência, não por caridade! Dá um pedaço de pão ao mendigo e pronto, já não se acanha de comer o resto. O homem de barriga cheia é uma fera e nunca tem pena do que está faminto. O farto e o saciado são inimigos — sempre um é uma felpa no olho do outro, por isso nem um, nem o outro pode sentir piedade pelo que é seu inimigo.
O velho ficou agitado pela raiva e saudade; seus lábios começaram a tremer, os olhos reviravam-se nas órbitas entumecidas e vermelhas, as rugas ficaram mais profundas.
Leonhka não gostava de vê-lo assim e, intuitivamente, temia algo impreciso.
— Por isso, pergunto o que vai fazer? Você é uma criancinha fraca e o mundo é mau, engole você de um trago. E eu não quero que isso aconteça… Amo você, meu filhinho!… Só tenho você nesse mundo, e você só tem a mim… Como é que posso morrer? Não posso morrer e deixar você sozinho… Quem cuidaria de você? Senhor! Por que castiga o seu servo? Viver já não agüento — e morrer não devo, porque tenho que cuidar da criancinha inocente… Cuidei dela sete anos… com minhas fracas forças… Jesus! Ajude-me! …
O avô chorou, amargamente, escondendo a cabeça trêmula entre os joelhos.
O rio corria sempre, apressado, pressuroso, suas ondas murmuravam, tentando abafar os soluços do homem velho. O céu sem nuvens brilhava sorrindo e derramava o calor ardente, apreciando, complacente, o murmúrio do rio.
– Chega, não chore, vovô… — falou Leonhka, severamente, olhando para longe. Após uma pausa, encarou o velho, acrescentando: — Já discutimos tudo isso. Não vou perecer, não. Vou trabalhar numa taberna qualquer…
– Matam você de pancada — gemeu o avô, soluçando.
– Talvez não me batam. Quer ver que não? — exclamou o menino com certa vivacidade. — E daí? Não me entrego a qualquer um!
Nessa altura, Leonhka murchou por qualquer motivo e depois de refletir um pouco segredou:
— Ou então entro num convento…
— Que Deus ajudasse! — suspirou Arhip, animando-se, mas nisso sobreveio novo acesso de tosse.
Na ribanceira, acima deles, ouviram-se gritos e o ranger de rodas.
— Baaalsa! ôooo da baalsaaa! — vibrava alguma voz poderosa.
Os mendigos saltaram de pé apanhando as sacolas e os bordões.
Rangendo, furiosamente, uma arba entrou na faixa arenosa. Em cima da arba, de pé, estava um cossaco. Preparando novo berro ele inclinara para trás a cabeça, com o gorro peludo colocado de banda; seu possante peito inflara-se como um fole. Os dentes brancos brilhavam emoldurados por uma barba negra sedosa, que começava logo abaixo dos olhos injetados. Trazia a japona descuidadamente jogada sobre um ombro, a camisa desabotoada, deixava aparecer o peito cabeludo e queimado pelo sol. O vulto alto e forte do homem, o cavalo de porte fora do comum, as enormes rodas com grossos aros de ferro, tudo impressionava sugerindo força, saúde e abastança.
— Hoi — ahoi!!
O avô e o neto tiraram os gorros e inclinaram-se respeitosamente.
Viva! — cumprimentou-os a voz sonora do recém-chegado. Percebendo que a balsa começara a se afastar da outra margem, o cossaco examinou os mendigos atentamente
– Vêm da Rússia?
– Da Rússia, sim, patrão! — respondeu o velho, inclinando-se de novo.
– Passam fome por lá, hein?
O homem saltara do carro e começara a firmar o correame do cavalo.
— Até as baratas morrem de fome…
– Essa é boa, até as baratas! Quer dizer que nem migalhas deixaram? Comeram tudo? Vocês são bons para comer, mas para trabalhar, decerto não. Porque trabalhando com vontade, não pode haver fome.
– O principal motivo, patrão, é a terra. Já não produz. Chupamos a força dela.
– A terra? — o cossaco sacudiu a cabeça, incrédulo — A terra tem que produzir sempre, por isso existe. Em vez de culpar a terra, devem culpar as mãos. As mãos é que não prestam; mãos habilidosas conseguem que até uma pedra produza.
A balsa chegara.
Dois cossacos grandes e fortes, firmando-se com possantes pés na coberta da embarcação, deram-lhe tal impulso que ela subiu na areia rangendo. Os homens cambalearam com a brusca parada, largaram o cabo e, entreolhando-se, sopraram o ar recuperando o fôlego.
– Calorzinho, hein? — riu-se o dono da arba mostrando os dentes, enquanto guiava o cavalo pela brida para entrar na balsa; tocara o gorro cumprimentando os balseiros.
– Que é — é! — concordou um dos balseiros e, enfiando as mãos nos vastos bolsos da bombacha, acercou-se do carro examinando seu conteúdo e farejando. Seu companheiro sentara-se na coberta e tirava a bota bufando.
Os mendigos haviam subido a bordo e encostaram-se ao corrimão, observando os cossacos.
– Vamos embora! — ordenou o dono da arba.
– Você não traz nada para beber? — indagou o que examinara o carro. Seu companheiro havia tirado a bota e espiava atentamente pelo cano.
– Não. Para quê? No rio não há água que chegue para matar a sede?
– Água… não falo em água.
– Aguardente, então? Não bebo aguardente.
– Mas por que será que não?… indagou o balseiro, pensativo, olhando a coberta do barco.
– Ora, ora, — Vamos indo!
O balseiro cuspiu nas palmas das mãos e agarrou o cabo. O viajante pôs-se a ajudá-lo.
– E você, vovô, por que não dá uma mãozinha? — perguntou o homem da bota.
– Quem sou eu para ajudar, meu amigo! — respondeu o velho com voz queixosa e abanando a cabeça tristonho.
— Nem precisam de ajuda. Dão conta sozinhos! Como se quisesse provar a veracidade do que dissera, o balseiro estendeu-se na coberta.
Seu companheiro xingou-o de preguiçoso e, não recebendo resposta, firmou ruidosamente os pés, puxando o cabo.
Sob o impacto da correnteza, a balsa estremecia, balançava e avançava lentamente.
Olhando a correnteza, Leonhka sentiu doce tontura e os olhos cansados pelo movimento rápido da água, fecharam-se. Os surdos murmúrios do avô, o ranger do cabo e o som das ondas formavam poderosa canção de ninar; quis deitar-se na coberta, cedendo à sonolência, quando um balanço mais forte o sacudiu e ele caiu.
De olhos escancarados, olhou em volta admirado. Os cossacos riam-se dele, enquanto amarravam a balsa num toco de árvore.
— Adormeceu? Você é fraquinho. Senta no carro, dou-lhe uma carona. Senta, também, vovô!
Agradecendo com voz propositadamente embargada o velho subiu no carro, gemendo. Leonhka também embarcou e a arba partiu levantando nuvens de poeira preta, que provocava no velho violentos acessos de tosse.
O cossaco começou a cantar. Seu canto era estranho; interrompia os sons ao meio e terminava-os assobiando. Parecia que desenrolava a melodia como se fosse um novelo de fio e, quando encontrava um nó, arrebentava-o.
As rodas gemiam queixando-se, a poeira subia em pequenas densas nuvens, a cabeça do velho tremia sacudida pela tosse incessante; o menino pensava que, chegando à aldeia, teria que ir de janela em janela cantando com voz fanhosa: “Nosso Senhor Jesus Cris-tooo”… Novamente os meninos da aldeia provocá-lo-iam e as mulheres fariam perguntas intermináveis a respeito da Rússia. Não gostava de olhar o avô naquelas ocasiões porque ele exagerava a sua tosse, curvava-se mais que normalmente e falava com voz lamentosa, interrompida por soluços, contando coisas que nunca sucederam… Dizia que na Rússia o povo caía morto de fome nas ruas e que não havia quem tirasse os corpos porque todo o mundo andava enfraquecido e estonteado pela fome… O menino sabia que nunca haviam visto nem coisa semelhante e que o velho contava essas lorotas para que as esmolas fossem maiores. Mas para quê serviam as esmolas dadas em espécie de trigo em grão, ou farinha?… Lá em casa era fácil vender, mas aqui na zona de fartura ninguém comprava.
– Vão pedir esmola? — perguntou o cossaco, olhando por sobre o ombro os dois vultos encolhidos.
– Pois é, meu senhor! — respondeu Arhip, suspirando.
– Fique de pé, velhinho, quero lhe mostrar a minha casa. Vocês podem vir pernoitar.
O velho tentou levantar-se, mas caiu machucando o lado contra o gradil e gemeu.
— É duro ser velho. — comentou o cossaco, lamentando-o. — Não faz mal, não precisa olhar,, quando chegar a hora de se recolherem, pergunte onde é a casa de André, o Preto — sou eu. Agora, apeem-se; adeus.
Os mendigos viram-se diante de um bosque de álamos. Através dos troncos apareciam os telhados e cercas da aldeia e por todos os lados havia outros grupos de árvores. As folhas verdes cobriram-se de poeira cinzenta e os troncos apresentavam rachaduras produzidas pelo calor.
Diante deles, começava uma rua ladeada por duas cercas e os dois se encaminharam para lá com o passo compassado de quem estava habituado a caminhar muito.
– Como é, Leonhka, vamos juntos ou separados? — indagou o velho e, sem aguardar resposta, acrescentou: — É melhor irmos juntos; quando você fica só recebe muito pouca coisa. Não aprendeu a pedir…
– E para quê precisamos de muito? De qualquer modo não conseguimos comer tudo… — respondeu o menino aborrecido, olhando em torno.
– Para quê? Bobinho! E se aparecer alguém que compre? É para isso!… Ganha-se um dinheirinho e o dinheiro é tudo. Se tivermos dinheiro, você não se perde quando eu morrer.
Sorrindo, carinhosamente, Arhip passou a mão na cabeça da criança.
– Sabe quanto eu consegui guardar desde que caminhamos, hein?
– Quanto? — perguntou o garoto indiferente.
– Onze rublos e cinqüenta copeques!… Viu?
A criança não se mostrou impressionada nem com a importância, nem com a voz triunfante do avô.
– Você ainda é muito criança, mesmo! — suspirou o ancião. — Então vamos separados?
– Cada um por si…
– Está bem. Encontramo-nos em frente da igreja.
— Sei…
O avô entrou pôr uma viela à esquerda, o menino continuou a caminhar pela mesma rua. Não deu nem dez passos, quando ouviu uma exclamação rachada: “Benfeitores bondosos!” Parecia que alguém passou a mão nas cordas de uma cítara desafinada, começando pelos baixos e continuando até as mais finas. O menino apressou o passo, estremecendo. Detestava ouvir o avô pedinchar, sentia-se mal, constrangido e quando recusavam a esmola, chegava a sentir medo de que o velho começasse a chorar.
Ainda ouvia o pedinchar penoso que flutuava no ar quente da aldeia. A povoação quieta parecia adormecida. Leonhka aproximou-se da cerca e sentou-se na sombra de uma cerejeira cujos ramos se projetavam até a rua. Ouviu o zumbido atarefado de uma abelha.
O garoto tirou a sacola dos ombros, deitou-a na terra e descansando nela a cabecinha ficou a observar o intrincado desenho formado pelos ramos contra o fundo azul do céu. Abrigado de um lado pela cerca e do outro pelo capim alto, o menino adormeceu.
Acordou ouvindo estranhos sons, que vibravam no ar já refrescado pelo anoitecer. Alguém chorava desconsolado. O choro era infantil, ruidoso e insistente. Os soluços terminavam em sons suaves, dolentes, mas em seguida recomeçavam com renovado ímpeto, aproximando-se sempre. O menino levantou a cabeça e observou a rua através do capim.
Pela rua vinha uma garota de uns sete anos de idade, trajava roupa limpa e bem arrumada. O choro deixou os olhos vermelhos e o rostinho inchado; de quando em quando a menina levantava a saia branca para enxugar os olhos. Andava devagar, arrastando os pés descalços na poeira que formava espessa nuvem em torno dela. Aparentemente não sabia aonde e para que fim caminhava. Seus olhos pretos, grandes, estavam tristes e magoados; duas orelhinhas rosadas apareciam atrevidamente através dos cabelos castanhos que, revoltos, caíam sobre a testa, cobriam as faces e chegavam até os ombros.
Leonhka achou-a muito engraçadinha, mesmo chorando, engraçadinha e alegre… pensou que devia ser muito levada.
— Por que chora? — perguntou Leonhka, levantando-se quando ela chegou perto.
A menina estacou estremecendo e parou de chorar, embora ainda soluçasse de mansinho. Olhou o menino por alguns segundos, de repente seus lábios estremeceram, o peitinho levantou-se sob a blusa, o choro rompeu de novo e ela continuou o caminho.
Leonhka sentiu um aperto no coração e partiu seguindo-a.
– Não chore… você já é grande. Gente grande não chora — dizia o menino mesmo antes de a alcançar. Quando se emparelhou com a menina, olhou-a no rosto e perguntou de novo: — Por que chora tanto?
É e-e — respondeu a menininha. — Se acontecesse a você uma coisa dessas… — de repente, sentou-se no meio da rua e, cobrindo o rosto com as mãos, soltou um uivo desesperado.
– Ora! – Leonhka fez um gesto desdenhoso. — Mulher! Não passa de mulherzinha… que coisa!
Mas a observação filosófica não adiantou a nenhum dos dois. Vendo como entre os dedinhos rosados coavam lágrimas e mais lágrimas, o garoto sentiu muita pena dela e quase chorou também. Curvou-se para a menina e com muito cuidado, brandamente, tocou em seus cabelos, mas, mais que depressa retirou a mão ousada. A menina continuava a chorar e não dizia nada.
– Escute! — disse Leonhka, depois de prolongada pausa, pois sentia necessidade urgente de ajudar a menina, — diga-me o que foi… Alguém bateu em você? Isso passa!… Ou foi outra coisa? Diga-me, por favor..
A menina não tirou as mãos do rosto, mas finalmente meneou a cabecinha desconsolada e, mesmo soluçando, disse dando de ombros:
— O lenço… perdi o lenço! Papai trouxe da cidade… azulzinho… cheio de flores… eu pus — e perdi! — começou a chorar mais alto, mais sentida, soluçando e gritando alguma coisa que parecia o-o-o-o-o-o!
Sentindo-se incapaz de lhe valer, Leonhka afastou-se um pouco, temeroso e ficou a olhar o céu escurecido. Sentia-se deprimido e lamentava a menina.
— Não chore, quem sabe ainda aparece… — murmurou o garoto e afastou-se mais um pouco, pensando que o pai certamente iria surrar a menina. Imaginou o pai, um grande cossaco moreno surrando a criança que, sufocada pelas lágrimas, tremendo de medo e de dor, arrasta-se a seus pés…
O menino afastou-se, mas mal deu uns passos retrocedeu, parou diante dela e encostando-se na cerca quis lembrar-se de alguma coisa para dizer, bem carinhosa… consoladora…
— Não fica bem você ficar sentada aqui, pequerrucha! Chega de chorar… Vá para casa e diga direitinho como foi… diga que perdeu… Está com medo da surra?
Falou brandamente, condoído e vendo que a menina começava a se levantar, exclamou sorrindo contente:
— Assim é melhor! Vá para casa, vá. Quer que a acompanhe e conte tudo? Não deixo baterem, quer?
Leonhka endireitou os ombros, orgulhoso, e olhou em volta desafiando alguém.
– Não precisa, não… – murmurou a menina, limpando a saia e soluçando ainda.
– Se quiser eu vou! – ofereceu-se Leonhka de novo e colocou o gorro de lado, como vira os valentões fazerem.
Estava diante dela em atitude corajosa, de pés afastados, o que estranhamente realçou seus andrajos. Firmava o bordão decididamente e seus olhos grandes, geralmente tão tristes, brilhavam resolutos e orgulhosos…
A garotinha olhou-o, disfarçadamente, e esfregando as lágrimas no rostinho empoeirado, suspirou, dizendo:
— Não, não vá. Mamãe não gosta de mendigos.
A menina foi embora, mas duas vezes ainda virou o rostinho, olhando-o.
Leonhka sentiu novamente tédio. Imperceptivelmente mudou de atitude, curvou-se, ficou submisso como sempre, pendurou a sacola às costas, mas quando viu a menininha desaparecer atrás da esquina gritou-lhe:
— Adeus!
Ela olhou-o mais uma vez, sem parar e desapareceu.
Já anoitecia e reinava o mormaço que prenuncia as tempestades. Os topos dos altos álamos ainda refletiam os últimos raios vermelhos do sol, mas a sombra que já envolvia a ramagem parada fazia-os parecerem mais altos que de dia. O céu tornava-se escuro e aveludado e já não parecia tão distante. De alguma parte, vinham vozes de diversas pessoas conversando, em outra parte cantavam. Os sons graves do canto também pareciam pesados e deprimentes como o mormaço.
Leonhka ficou mais abatido ainda e sentiu até um temor estranho, sem conhecer a causa. Resolveu procurar o avô e avançou rapidamente rua acima. Repugnava-lhe pedir esmola. Andando, percebeu que seu coração batia mais célere que de costume e que tinha preguiça não só de andar, mas até de pensar… Mas não esquecia a menininha e pensava: “Que estará acontecendo com ela? Se for filha de gente rica, decerto apanha, porque os ricos são sovinas; se for pobre, talvez apenas ralhem com ela… Nas casas pobres gostam mais das crianças porque vêem nelas futuros braços que poderão ajudar no trabalho”. Um pensamento seguia o outro, mas a tristeza, que o acompanhava qual uma sombra, tornava-se mais pesada, mais amarga, de minuto a minuto.
As sombras também tornavam-se mais sufocantes. Homens e mulheres, que passavam por ele, não lhe davam atenção alguma; já estavam habituados com os pedintes que, vindos da Rússia, invadiam a Kubanh. Também Leonhka mal olhava para seus rostos e suas figuras robustas; apressava-se a chegar à igreja cuja cruz avistava através das copas das árvores.
Ouviu o ruído dos rebanhos que voltavam do pasto. Eis a igreja, baixa, mas grande, de cinco cúpulas, paredes pintadas de azul, cruzes douradas que se perdiam por trás dos altos álamos que cercavam a igreja.
O avô aproximava-se também, arcado sob o peso da sacola bem recheada; protegia a vista com a mão espalmada, procurando o netinho.
Atrás do avô, vinha um cossaco grande e forte, de gorro enfiado sobre os olhos e bengala na mão.
— Que é isso? A sacola está vazia? — perguntou o ancião avistando o menino, que parara em frente da porta da igreja. — Veja quanto eu consegui! — disse o velho tirando sua sacola e depositando-a no chão a muito custo. — Gente boa aqui, generosa! Por que você está tão triste?
– A cabeça me dói… respondeu o garoto, sentando-se ao lado do avô.
– Não diga… Cansou-se… é o calor… Já vamos à procura da pousada. Como era mesmo o nome daquele homem?
– André, o Preto.
– Vamos indagar assim mesmo — onde mora André, o Preto, boa gente? Aí vem vindo um homem… Sim… gente boa… gente rica — todos comem pão de trigo. Boa noite, amigo!
O cossaco aproximou-se dos mendigos, parou e respondeu pausadamente:
— Boa noite!
Em seguida, olhando os dois, com grandes olhos inexpressivos, coçou-se.
Leonhka olhava-o apenas curioso, mas Arhip pestanejava traindo nervosismo; o homem fitava-os calado; a certa altura começou a pescar o comprido bigode com a língua. Tendo conseguido o seu intento, mastigou um pouco o bigode, empurrou-o de novo com a língua e só então decidiu-se a romper o silêncio que já se tornava penoso.
– Vamos à Sala do Conselho!
– Para quê? — perguntou o ancião agitado.
Leonhka sentiu um estremecimento de mau agouro.
– Precisa… A ordem é essa. Vamos!
Deu-lhes as costas e começou a andar, mas notando que os dois não se mexiam, parou e gritou meio zangado.
– Que estão esperando?
Isso bastou para que avô e neto o seguissem apressados.
O menino observava o velho atentamente e viu que seus lábios estremeciam e a velha cabeça tremia, enquanto ele procurava alguma coisa com a mão metida no peito da camisa. Desconfiou que o avô teria feito alguma coisa que não devia, como o fizera outro dia num povoado por onde passaram. Lá, o velho havia “desapertado” umas roupas estendidas para secar e fora apanhado. Caçoaram dele então, xingaram, chegaram mesmo a bater-lhe e expulsaram-nos do povoado, em plena noite. Pernoitaram na praia de uma enseada e o mar não parou de rosnar ameaçadoramente a noite toda. O avô gemeu até amanhecer o dia, rezou, murmurando, acusando-se de ladrão e pedindo perdão a Deus.
– Leonhka…
Leonhka assustou-se com a cotovelada do velho e olhou-o. O rosto do avô ficara chupado, cor de cera e tremia.
O cossaco andava a cinco passos à frente dos mendigos fumando no cachimbo, decepando as ervas daninhas à beira do caminho com sua bengala. Não lhes dava atenção.
— Tome… jogue no mato e marque o lugar… para apanhar mais tarde — sussurrou o avô num fio de voz, apenas audível e enfiou na mão do netinho um pedaço de pano amassado em bola.
Leonhka estremeceu de medo e aproximou-se da cerca onde havia uma touceira de bardanas. Observando atentamente as costas da escolta, estendeu o braço e largou o pano no meio da touceira…
Ao cair, a bolota abriu-se e Leonhka viu um lenço azul com florzinhas, mas essa visão real foi obliterada pela figurinha soluçante da meninazinha que surgiu diante dele tão real, tão viva que o menino já não viu nem o avô a seu lado, nem o cossaco a sua frente — só via a menina, escutava seus soluços e via as lágrimas pingando na poeira.
Ainda continuava nesse estado de semiconsciência quando entrou na Sala do Conselho, ouviu o surdo rumor de vozes sem as entender, relutando mesmo em compreender o que se dizia. Através de uma estranha névoa, viu quando pegaram a sacola do avô, esvaziaram-na sobre a mesa e ouviu o ruído abafado dos objetos, que caíam no tampo da grande mesa. Em seguida, uma porção de gorros de peles rodearam o monte de objetos e, visto através da névoa, o movimento dos gorros parecia sinistro e ameaçador… De repente, dois grandalhões agarraram o ancião que se debatia, murmurando alguma coisa com voz rouca…
– Sofro inocentemente, meus senhores! Deus sabe que sou inocente! — guinchou o ancião, de súbito.
Corando, o garoto sentou-se no chão.
Chegou a sua vez. Levantaram-no do chão, puseram-no sentado num banco e revistaram sua roupa andrajosa que mal cobria o corpinho, mirrado.
— A Danilovna está mentindo, aquela bruxa! — gritou alguma voz poderosa, sob cujo impacto os ouvidos do menino doeram.
– Quem sabe se não esconderam em alguma parte? — gritou outra voz, ainda mais zangada.
As vozes sonoras pareciam pancadas, quando atingiam a consciência da criança, que só de pavor perdeu os sentidos e mergulhou nas trevas assustadoras, que se abriram diante dele.
Quando o menino voltou a si, sua cabecinha repousava no regaço do avô e, do rosto ainda mais rugoso e mais lastimável que de costume, pingavam lágrimas sobre a testa do garoto e faziam cócegas ao rolarem pelas suas faces e pescoço.
— Desmaiou, meu coração?! Vamo-nos daqui, querido. Vamos, soltaram-nos os malditos!
Leonhka levantou-se, mas sua cabeça parecia estar cheia de algum líquido pesado que a faria cair de seus ombros a qualquer momento… Agarrou a cabeça com as duas mãos e oscilou gemendo.
— Dói a cabecinha? Coitadinho do meu netinho! Torturaram-nos… essas feras! Sumiu um punhal e uma menina perdeu o lencinho e pronto — vieram para cima de nós!… ó meu Deus!… por que nos castiga?
A voz fanhosa do avô magoava o menino e alguma chama ardente no seu íntimo o obrigou a se afastar do ancião e a olhar em volta. Estavam sentados na saída do povoado, na sombra escura de uma árvore. Era noite fechada, a lua pairava no céu e sua luz prateada deixou a estepe menor, mas mais vazia, mais desolada e triste. Do horizonte subiam espessas nuvens que se moviam majestosas, lançavam sombras ameaçadoras sobre a estepe e logo sconderam a lua. Do povoado, ouviam-se vozes e começaram a brilhar luzes.
– Vamos, querido, temos que ir…
— Fiquemos mais um pouco — pediu Leonhka.
Gostava da estepe. Andando de dia, causava-lhe prazer olhar ao longe onde a cúpula do firmamento repousava sobre o possante peito arcado da planície… Imaginava que além daquela linha havia cidades maravilhosas habitadas por gente bondosa que não esperava que lhes pedissem pão — ofereciam-no de bom grado… Quando, porém, da vasta campina surgia diante dele um povoado tão parecido aos muitos que já haviam visto, o menino ficava triste e sentia-se logrado.
Naquela noite ficou a olhar pensativamente o horizonte de onde surgiam as pesadas nuvens. Imaginava que fossem a fumaça produzida pelas milhares de chaminés da cidade de seus sonhos… A tosse seca do avô interrompeu os devaneios.
Leonhka olhou atentamente o rosto molhado pelas lágrimas e a boca que, ansiosamente, apanhava golfadas de ar.
O rosto iluminado pelo luar e estranhamente sulcado por traços de sombra lançados pelos pêlos do gorro e pelos fios da barba e das sobrancelhas, a boca a se mover espasmodicamente e os olhos escancarados irradiando incompreensível brilho triunfante — infundiam ao mesmo tempo temor e piedade, reforçando o estranho e novo sentimento que nascera no íntimo do netinho e o obrigava a se afastar do avô…
– Está bem, fiquemos mais um pouco, está bem. — murmurava o ancião e com sorriso tolo, nos lábios contorcidos, procurava alguma coisa metendo a mão por trás do peito da camisa.
Leonhka não quis olhá-lo e desviou a vista, apreciando, de novo a paisagem.
– Leonhka!… Veja só! – exclamou o avô soluçando triunfante e, contorcendo-se num violento acesso de tosse, estendeu-lhe um objeto brilhante e comprido. Prata cinzelada… prata, compreende! Vale no mínimo cinqüenta rublos.
O velho tremia de dor e cobiça.
Leonhka estremeceu e afastou bruscamente a mão do avô.
– Esconda depressa, vovô! Esconda pelo amor de Deus! — murmurou o menino, súplice, olhando em redor, temeroso.
– Ora, que há, bobinho? Está com medo? Olhei pela janela aberta e vi-o… Peguei, escondi na roupa… depois joguei na moita. Quando vínhamos, saindo do povoado, fingi derrubar o gorro… inclinei-me e apanhei-o… Eles são bobos!… O lenço também apanhei — ei-lo! O velho sacudiu, orgulhosamente o lenço diante do netinho.
A névoa que flutuava diante da visão espiritual do garoto partiu-se e ele viu nitidamente o seguinte quadro: ele e o avô andando apressados pela rua da aldeia, caminhando rapidamente e assustados e ele, o menino da visão, sente que todos têm o direito de bater neles, de cuspir-lhes no rosto, de os xingar… Toda a paisagem, as cercas, casas e árvores balançam como que varridos por forte vento e ouve-se o rugido de vozes irritadas. A penosa caminhada parece não ter fim, não se vê o fim da rua que a massa compacta das casas vacilantes oblitera. Ora, as casas avançam contra eles querendo esganá-los — ora, fogem escarnecendo dos fugitivos… De repente, de uma das janelas, soa o brado estridente “Gatunos! Gatunos! Ladrão, ladrãozinho!…” Lançando um olhar temeroso, Leonhka viu a meninazinha que encontrara chorando e tentara proteger… Captando seu olhar, a menina mostrou-lhe a língua, enquanto seus olhinhos brilhavam raivosos, ferindo o garoto.
Essa rápida visão desapareceu tão depressa como viera, mas deixou no rosto do menino um sorriso mau que ele não teve dúvida de mostrar ao avô.
Arhip continuava a dizer alguma coisa, sufocava de tosse, gesticulava e enxugava o suor que lhe brotava da testa.
Enorme nuvem negra e esfarrapada havia engolido a lua e o menino quase não podia distinguir as feições do avô… Evocou mentalmente a imagem da garota e, colocando-a ao lado do velho, como que pesou-os comparando-os. O velho doente, fraco, esfarrapado e ganancioso — comparado com a menininha bonita, sadia e forte apesar de suas lágrimas sentidas — pareceu-lhe inútil e tão mau como um bruxo dos contos de fadas. Como pôde acontecer tal coisa? Por que a magoara? Não era parente dela…
O velho resmungava sempre com voz rouca, sufocada:
– Se eu pudesse juntar pelo menos uns cem rublos!… Poderia então morrer sossegado…
– Basta! — explodiu o garoto de repente. — Chega! “Morreria! Morreria!…” Mas não morre… Em vez rouba! — o menino gritou fora de si e pôs-se de pé num salto — Velho ladrão! U-u-uh! — ganiu Leonhka tomado de um paroxismo de raiva impotente e, fechando o punho, sacudiu-o, no rosto de Arhip que se calou de repente; em seguida, o menino deixou-se cair sentado e continuou a falar cerrando os dentes: — Roubou de uma criança… bonito! É velho, mas não larga mão de roubar… Quando morrer, vai pagar por esse pecado.
De súbito, a planície toda estremeceu iluminada por luz azulada… A escuridão que a revestira, oscilou desaparecendo por alguns instantes… Ensurdecedor trovão sacudiu terra e céu e rolou estepe afora, enquanto massa disforme de nuvens negras corria célere pelo céu, apagando a luz do firmamento.
Escureceu por completo. Distante, um relâmpago riscou a escuridão e, um segundo depois, novo trovão, desta vez abafado e surdo, rompeu o silêncio… Em seguida, silêncio absoluto que parecia não ter fim nunca.
Leonhka fazia o sinal da cruz. O velho ficou imóvel e silente, parecia grudado ao tronco da árvore onde se encostara.
— Vovô! — sussurrou o garoto presa de terror diante do novo trovão que esperava a todo o momento — Vovô, vamos voltar ao povoado.
O firmamento estremeceu de novo e iluminou a terra com a tétrica luz azulada, seguida de barulho ensurdecedor de milhões de chapas de aço caindo sobre a terra indefesa…
— Vovô! — gritou Leonhka novamente.
Sua voz abafada pelo trovejar pareceu o som de pequeno sino rachado.
— Que há? Está com medo? — perguntou o velho, continuando imóvel.
Grossas gotas de chuva começaram a cair e o seu ruído parecia ser misterioso aviso de perigo iminente. Na distância, o rumor da chuva era uniforme e assemelhava-se ao de enorme escova esfregando a estepe, mas perto deles percebia-se o impacto individual de cada gota. O trovejar avançava sobre eles e as pausas entre os relâmpagos ficavam menores.
— Não irei ao povoado! Prefiro morrer afogado aqui mesmo… já que sou um velho cão velhaco… e que o trovão acabe de me matar! — dizia Arhip, sufocando. — Não vou! Vá sozinho… O povoado é ali… Vá! Não quero você aqui! Vá!! Suma-se!!
O murmurar do velho transformara-se em gritos surdos, roucos e ameaçadores.
– Vovô! Perdoe-me! — pediu o garoto aproximando-se do velho.
– Não vou! Não perdôo… Cuidei de você sete anos! Fiz tudo por você! Vivi para você!… só para você… então eu preciso de alguma coisa para mim? Estou morrendo… e você me chama de ladrão… para quem roubei? Para você… tudo isso é seu… tome… tome… pegue! Fiz economia para você… roubei para você também… Deus vê tudo… sabe que roubava… Vai castigar esse cão velho… por ser ladrão… Já me castigou… Senhor! Castigaste-me, hein? Castigaste — não foi? Mataste-me com a mão da criança. Está certo… é justo! És justo, Senhor! Manda buscar minha alma… ôoooh!
A voz do velho transformou-se em uivo agudo, que apavorou o menino.
Os trovões explodiam seguidos, como que perseguindo-se, querendo transmitir à terra alguma mensagem muito importante. O firmamento, dilacerado pelos relâmpagos, contorcia-se e a planície, ora vasta sob a luz sepulcral, ora contraída quando, mergulhada na escuridão, apavorava…
As luzes convidativas do povoado desapareceram atrás da massa compacta da chuva inclemente que apagou todas as distâncias.
Leonhka desfalecia de pavor, de frio e de uma imprecisa sensação de culpa nascida do grito assustador do avô. Seus olhos imóveis olhavam à frente, o medo não lhe permitia pestanejar mesmo quando a água da chuva, acumulada nos cabelos, invadia seus olhos. Escutava atento a voz do avô, afogada pelo tumulto da tormenta.
O garoto percebia que o velho continuava imóvel, mas parecia-lhe que o ancião desapareceria a qualquer momento, deixando-o só e abandonado. Sem querer, foi se achegando ao avô e quando seu cotovelo esbarrou no velho o menino estremeceu na expectativa de algo apavorante.
Um relâmpago rasgou a escuridão e iluminou os dois vultos encolhidos, pequeninos, miseráveis, inundados pela água da chuva, a escorrer abundantemente da árvore que os abrigara enquanto pôde.
O ancião fazia gestos e murmurava alguma coisa, mas sua voz sufocada tornava-se cada vez mais fraca.
Olhando o rosto do velho, Leonhka soltou um grito de pavor: à luz azulada do relâmpago, julgou ver um cadáver em que apenas um par de olhos desvairados acusavam vida.
– Vovô! Vamos! – gritou o menino, escondendo a cabecinha nos joelhos do velhote.
Arhip debruçou-se sobre a criança e enlaçou-a fortemente com os braços e, apertando-a contra o peito; soltou um uivo penetrante como o de um lobo na armadilha.
Enlouquecido pelo uivo animal do velho o menino libertou-se do abraço, pôs-se de pé num salto, e fugiu qual flecha disparada, sem saber para onde. A chuva cegava-o, o garoto caía, levantava-se e disparava de novo, fundando na escuridão tão densa que parecia palpável.
O ruído da chuva era frio, indiferente, monótono. Parecia que na estepe nunca houvera e jamais haveria coisa alguma além da chuva, do trovão e dos relâmpagos.
Na manhã seguinte; os meninos da aldeia correram à estepe para ver os efeitos da tempestade da véspera, mas voltaram em seguida dando o alarma. Declararam ter encontrado o cadáver do mendigo da véspera que certamente fôra assassinado porque a seu lado estava um punhal.
Quando os cossacos vieram verificar o que houvera, viram que o ancião ainda vivia. Quando os homens se aproximaram, ele tentou erguer-se mas não pôde. Já não falava e seus olhos apenas indagavam e procuravam algo sem encontrar e perguntavam sem obter resposta.
Arhip morreu ao anoitecer e foi enterrado debaixo da árvore onde fôra encontrado porque a maioria julgou inconveniente enterrá-lo em terra benta: porque fôra forasteiro, ladrão e morrera sem confissão. Ao lado dele, na lama, haviam encontrado o punhal e o lenço.
Dois ou três dias depois encontraram Leonhka.
Um bando de corvos começou a girar acima de uma baixada na estepe e, quando foram ver o que havia, acharam o menino: jazia na lama, de bruços, os braços abertos em cruz.
Primeiro, quiseram enterrá-lo no cemitério, mas acabaram sepultando-o ao lado do avô. Levantaram um monte de terra sobre a sepultura e colocaram nele tosca cruz de pedra.

O vingador (Anton Tchekhov)

Logo depois de haver surpreendido sua mulher em flagrante, encontrava-se Fedor Fedorovich Sigaev na loja de armas de Schmuks e Cia, a escolher o revólver que melhor lhe pudesse servir. Seu rosto expressava ira, dor e decisão irrevogável.
“Bem sei o que devo fazer!”, pensava. “Quando os fundamentos de uma família são profanados, e a honra é arrastada pela lama e triunfa o vício… eu, como cidadão e como homem honrado, devo ser o vingador. Matarei primeiro a ela, depois ao amante e finalmente suicidar-me-ei”.
Não havia ainda escolhido o revólver e nem sequer assassinara alguém, mas na imaginação já se lhe apresentavam três cadáveres ensangüentados, de crânios triturados, os miolos a flutuarem… Barulho, ruído de curiosos e autópsia.
Possuído pela insensata alegria do homem ofendido, calculava o horror dos parentes e do público, a agonia da traidora e até lhe parecia poder ler em pensamento os artigos da primeira página, a comentarem a decomposição dos fundamentos da família.
O empregado da loja, tipo inquieto, afrancesado, de ventre pequeno e colete branco, apresentava-lhe os revólveres e juntando os calcanhares dizia, sorrindo respeitosamente:
— Eu aconselharia a Mousieur que levasse este magnífico modelo do sistema Smith & Wesson. É a última palavra na ciência das armas. Possui três propulsores e pode-se dispará-lo a uma distância de seiscentos passos. Chamo também a atenção de Mousieur para a limpeza do acabamento. Seu sistema é que está mais em moda. Vendemos diariamente dezenas deles, que são utilizados contra os bandidos, os lobos e os amantes. Seu tiro é preciso e forte, alcança distâncias enormes e mata, atravessando-os, a mulher e o amante. Quanto aos suicidas, Mousieur, não conheço, para eles, melhor sistema.
E o empregado, apertando e soltando o gatinho, soprando o cano e fingindo mirar, parecia próximo a afogar-se de puro entusiasmo. A julgar-se pela expressão extasiada de seu rosto, poder-se-ia pensar que ele mesmo, de boa vontade, pregaria um tiro na testa, se possuísse uma arma tão maravilhosa quanto aquela.
— E qual o preço? — perguntou Sigaev.
— Quarenta e cinco rublos, Mousieur.
— Hum! É muito caro, para mim.
— Neste caso, Mousieur, posso oferecer-lhe algo mais em conta. Aqui está. Tenha a bondade de examinar. Temos estoque variado e de todos os preços… Este, por exemplo, do sistema Lefrauché, que custa somente 18 rublos. Porém… — o empregado fez um muxoxo de pouco caso — é um sistema, Mousieur, demasiadamente antiquado. Quem o compra são os pobres de espírito e os psicopatas. Suicidar-se ou matar a própria mulher com um Lefauché é considerado atualmente de mau gosto. O bom-tom admite somente uma Smith & Wesson.
— Não necessito matar-me ou a alguém — mentiu, com acento sombrio, Sigaev. — Compro-o simplesmente para a minha casa de campo… Para assustar os ladrões.
— Não nos interessa o seu motivo —sorriu o empregado, baixando modestamente os olhos — Se, em cada caso, buscássemos as razões, já deveríamos ter fechado a loja. Para espantar os corvos, Mousieur, o Lefauché não serve, pois produz ruído um tanto surdo. Eu lhe proponho uma pistola Mortimer, das chamadas para duelos.
“E se eu o provocasse para um duelo?”, passou pela cabeça de Sigaev. “Porém… não… Seria honra demasiada. A essas bestas, devemos matá-las, como cachorros…”
O empregado, revoluteando graciosamente e em pequenos passos, sem deixar de sorrir e de conversar, apresentou-lhe todo o monte de revólveres. O Smith & Wesson era o de aspecto mais sólido e justiceiro. Sigaev tomou um destes nas mãos, fixou-o e quedou ensimesmado. A imaginação desenhava-o destroçando um crânio, o sangue a escorrer como um rio sobre o tapete e o assoalho, a traidora, moribunda, agitando um pé convulso… Para a alma indignada, aquilo era pouco. O quadro de sangue, os soluços e o estupor não o satisfaziam. Deveria pensar em algo mais terrível.
“Isto é o que farei”, pensou. “Matarei a ele e a mim em seguida, porém ela… deixaria viver. Que morra do arrependimento e do desprezo dos que a cercam! Para natureza tão nervosa quanto a sua, será martírio maior que a morte!”
Começou a imaginar o próprio funeral: ele, o ofendido, estendido no ataúde, com um sorriso bondoso nos lábios… Ela, pálida, torturada pelos remorsos, caminhando atrás do féretro, como uma Níobe, sem poder escapa aos olhares depreciativos e aniquiladores, lançados pela multidão indignada…
— Vejo, Mousieur, que lhe agrada o Smith & Wesson — comentou o empregado, interrompendo o devaneio — Se o acha muito caro, posso fazer uma redução de cinco rublos, embora tenhamos outros mais baratos.
A figurinha afrancesada girou graciosamente sobre os próprios tacões e alcançou na prateleira outra dúzia de estojos com revólveres.
— Aqui está outro, Mousieur. O preço, trinta rublos. Não é caro, se lembrarmos que o câmbio está baixo e que os direitos alfandegários sobem cada dia mais… Juro-lhe, Mousieur, que sou conservador, porém já começo a protestar! Imagine que o câmbio e a tarifa da alfândega são o motivo de que somente os ricos possam adquirir armas! Para os pobres nada mais resta que as armas de Tula, e os fósforos. E as armas de Tula são uma desgraça! Se alguém pretender disparar uma arma de Tula sobre a própria mulher, apenas consegue atingir a própria omoplata…
Repentinamente Sigaev entristeceu-se com a idéia de morrer e não contemplar os sofrimentos da traidora. A vingança unicamente é doce quando existe a possibilidade de ver e tocar seus frutos. Pois, que sentido encontraria em estar deitado no ataúde, se nada poderia perceber?!
“E se eu fizesse isto?… matá-lo, ir a seu enterro, ver tudo e depois me suicidar?… Sim. Porém… antes do enterro eu seria preso e me tirariam a arma… Bem… O que farei será matá-lo e deixar que ela viva. Eu… enquanto não decorra um certo tempo, não me matarei. Serei preso. Para suicidar-me, sempre terei ocasião. Estar preso será melhor, pois que ao prestar declarações, terei possibilidade de demonstrar, ante o poder e a sociedade, toda a baixeza do seu comportamento. Se eu morresse, ela, com seu caráter desavergonhado e embusteiro, jogaria a culpa sobre mim, e a sociedade acabaria por absolvê-la…. de outro lado, talvez caçoe de mim, se continuo a viver… Então….”
Um minuto depois, pensava:
“Se… Talvez me acusem de sentimentos mesquinhos se eu me matar… E, depois, para que suicidar-me? Isso em primeiro lugar. Em segundo… o suicídio é covardia. Então, o que farei será matá-lo, deixá-la viver e eu irei para o cárcere. Serei julgado e ela figurará como testemunha… Veremos seu sobressalto e vergonha, quando precisar enfrentar meu advogado! Por certo que as simpatias do tribunal, do público e da imprensa estarão ao meu lado!…”
Enquanto assim devaneava, o empregado continuava a expor a mercadoria e considerava de seu dever, entreter o comprador.
— Veja aqui, outros, ingleses, de sistema novo, que recebemos há pouco. Porém, previno-o, Mousieur, de que todos os sistemas empalidecem diante do Smith & Wesson. Por certo, terá lido, há poucos dias, acerca de um militar que comprara um Smith & Wesson em nossa casa, e que o usou contra o amante… E que imagina tenha acontecido? A bala atravessou primeiro o amante, alcançou, depois o abajur de bronze, em seguida o piano de cauda e deste, como uma carambola, matou um cachorro pequinês e roçou a esposa… As conseqüências foram brilhantes e honraram nossa firma. O militar está preso agora… Por certo o condenarão a trabalhos forçados!… Em primeiro lugar, porque temos leis muito antiquadas , em segundo, porque já se sabe que o tribunal sempre toma o partido do amante. Por quê? Muito simples, Mousieur. Porque também o jurado, os juízes, o procurador e o advogado de defesa se entendem com esposas alheias e mais tranqüilos estão quando sabem de que um marido há na Rússia. A sociedade se encantaria, caso o Governo desterrasse todos os maridos para a ilha de Sajalin. Ah! Mousieur! Não pode o senhor imaginar a indignação que me desperta este desmoronar dos costumes morais contemporâneos!… Nestes tempos, cortejar mulheres alheias causa tanto prazer quanto filar cigarros os outros ou pedir livros emprestados! Cada ano que passa, o nosso comércio declina, porém não significa que haja menos amantes… Significa que os maridos reconciliam-se com a situação e temem os trabalhos forçados — e o empregado, olhando em torno de si, sussurrou: – E quem é o responsável, Mousieur? O Governo!
“Acabar em Sajalin, por causa de um porco… não, não é razoável”, refletiu Sigaev. “Se me condenam aos trabalhos forçados, somente conseguirei dar à minha mulher a possibilidade de casar-se outra vez e de enganar também ao segundo marido. O lucro será todo dela! O que farei então será isto: deixá-la viver, não me matar e nem matar a ele… Devo imaginar algo mais prudente e sentimental. Castigá-los-ei com meu desprezo e encetarei escandaloso processo de divórcio…”
— Aqui está, Mousieur, um sistema novo — comentou o empregado, recolhendo de outra prateleira mais uma dúzia de revólveres. — Chamou-lhe a atenção para o mecanismo original do cão…
Porém, uma vez tomada aquela decisão, Sigaev não mais necessitava de revólver. Em compensação, o empregado, cada vez mais inspirado, não cessava de mostrar-lhe os artigos que tanto elogiava. O marido ofendido envergonhou-se de que, por sua causa, o sujeito estava trabalhando em vão, a entusiasmar-se e a perder tempo.
—Bem — balbuciou. — Será melhor que eu volte mais tarde ou mande alguém…
Conquanto não visse a expressão do rosto do empregado, compreendeu que, para suavizar a violência da situação, não havia outra saída que comprar algo. Porém, o que? Seus olhos percorreram as paredes da loja, em busca de uma coisa barata, e se detiveram numa rede de cor verde, pendurada junto à porta.
— E isso? Que é isso? — perguntou.
— É uma rede para caçar codornas.
— Qual o preço?
— Oito rublos.
— Pois pode mandar embrulhar.
O marido ofendido pagou os oito rublos, passou a mão na rede para levá-la e, cada vez mais ofendido, saiu da loja.

TCHECOV. Contos. Coleção Clássicos Jackson, Volume XXXVII. São Paulo: WM Jackson Inc. Editores, 1965.

A Loteria em Babilônia (Jorge Luis Borges)

Como todos os homens de Babilônia, fui procônsul; como todos, escravo; também conhecia a onipotência, o opróbrio, os cárceres. Olhem: à minha mão direita falta-lhe o indicador. Olhem: por este rasgão da capa vê-se em meu estômago uma tatuagem vermelha: é o segundo símbolo, Beth. Esta letra, nas noites de lua cheia, confere-me poder sobre os homens cuja marca é Ghimel, mas me subordina aos de Aleph, que nas noites sem lua devem obediência aos Ghimel. No crepúsculo do amanhecer, num porão, degolei diante de uma pedra negra touros sagrados. Durante um ano da lua, fui declarado invisível: gritava e não me respondiam, roubava o pão e não me decapitavam. Conheci o que ignoram os gregos: a incerteza. Num aposento de bronze, diante do lenço silencioso do estrangulador, a esperança me foi fiel; no rio dos deleites, o pânico. Heraclides Pôntico narra com admiração que Pitágoras lembrava-se de ter sido Pirro e antes Euforbo e antes ainda algum outro mortal; para recordar vicissitudes análogas não preciso recorrer à morte, nem mesmo à impostura.

Devo essa variedade quase atroz a uma instituição que outras repúblicas ignoram ou que nelas trabalha de modo imperfeito e secreto: a loteria. Não indaguei sua história; sei que os magos não conseguem chegar a um acordo; sei de seus poderosos propósitos o que pode saber da lua o homem não versado em astrologia. Sou de um país vertiginoso onde a loteria é parte principal da realidade: até o dia de hoje, pensei tão pouco nela como na conduta dos deuses indecifráveis ou de meu coração. Agora, longe de Babilônia e de seus queridos costumes, penso com certo assombro na loteria e nas conjeturas blasfemas que no crepúsculo murmuram os homens velados.

Meu pai contava que antigamente – questão de séculos, de anos? – a loteria em Babilônia era um jogo de caráter plebeu. Contava (ignoro se com verdade) que os barbeiros vendiam, por moedas de cobre, retângulos de osso ou de pergaminho adornados de símbolos. Em pleno dia verificava-se um sorteio: os contemplados recebiam, sem outra corroboração da sorte, moedas cunhadas de prata. O procedimento era elementar, como vêem os senhores.

Naturalmente, essas “loterias” fracassaram. Sua virtude moral era nula. Não se dirigiam a todas as faculdades do homem: unicamente à sua esperança. Diante da indiferença pública, os mercadores que fundaram essas loterias venais começaram a perder dinheiro. Alguém ensaiou uma reforma: a interpolação de uns poucos números adversos no censo de números favoráveis. Mediante essa reforma, os compradores de retângulos numerados corriam o duplo risco de ganhar uma soma e de pagar uma multa, às vezes vultosa. Esse leve perigo (em cada trinta números favoráveis havia um número aziago) despertou, como é natural, o interesse do público. Os babilônios entregaram-se ao jogo. O que não tentava a sorte era considerado um pusilânime, um apoucado. Com o tempo, esse desdém justificado duplicou-se. Era desprezado o que não jogava, mas também eram desprezados os perdedores que abonavam a multa. A Companhia (assim começou então a ser chamada) teve que velar pelos ganhadores, que não podiam cobrar os prêmios se faltasse nas caixas a importância quase total das multas. Deu início a uma demanda contra os perdedores: o juiz condenou-os a pagar a multa original e as custas ou a uns dias de prisão. Todos optaram pelo cárcere, para defraudar a Companhia. Dessa bravata de uns poucos nasce todo o poder da Companhia: seu valor eclesiástico, metafísico.

Pouco depois, os relatórios dos sorteios omitiram as enumerações de multas e limitaram-se a publicar os dias de prisão que designava cada número adverso. Esse laconismo, quase desapercebido em seu tempo, foi de importância capital. Foi o primeiro aparecimento na loteria de elementos não pecuniários. O êxito foi grande. Instada pelos jogadores, a Companhia viu-se obrigada a aumentar os números adversos.

Ninguém ignora que o povo de Babilônia é muito devotado à lógica, e ainda à simetria. Era incoerente que os números de sorte se computassem em redondas moedas e os infausto sem dias e noites de cárcere. Alguns moralistas raciocinaram que a posse de moedas nem sempre determina a felicidade e que outras formas de ventura são talvez mais
diretas.

Outra inquietação propagava-se nos bairros mais humildes. Os membros do colégio sacerdotal multiplicavam as apostas e gozavam de todas as vicissitudes do terror e da esperança; os pobres (com inveja razoável ou inevitável) sabiam-se excluídos desse vaivém, notoriamente delicioso. O justo desejo de que todos, pobres e ricos, participassem por igual da loteria inspirou uma indignada agitação, cuja memória não apagaram os anos. Alguns obstinados não compreenderam (ou simularam não compreender) que se tratava de uma ordem nova, de uma etapa histórica necessária… Um escravo roubou um bilhete carmesim, que no sorteio o fez credor a que lhe queimassem a língua. O código fixava essa mesma pena para quem roubasse um bilhete. Alguns babilônios argumentavam que merecia o ferro candente, em sua qualidade de ladrão; outros, magnânimos, que se devia condená-lo ao carrasco porque assim o havia determinado o acaso… Houve distúrbios, houve efusões lamentáveis de sangue; mas a gente babilônica impôs finalmente sua vontade, contra a oposição dos ricos. O povo conseguiu plenamente seus fins generosos. Em primeiro lugar, obteve que a Companhia aceitasse a soma do poder público. (Essa unificação era necessária, dada a vastidão e complexidade das novas operações.) Em segundo lugar, conseguiu que a loteria fosse secreta, gratuita e geral. Ficou abolida a venda mercenária de sortes. Iniciado nos mistérios de Bel, todo homem livre automaticamente participava dos sorteios sagrados, que se efetuavam nos labirintos do deus a cada sessenta noites e que determinavam seu destino até o próximo exercício. As conseqüências eram incalculáveis. Uma jogada feliz podia motivar-lhe a elevação ao concílio de magos ou a detenção de um inimigo (notório ou íntimo) ou o encontrar, na pacífica treva do quarto, a mulher que começa a inquietar-nos ou que não esperávamos rever; uma jogada adversa: a mutilação, a variada infâmia, a morte. Às vezes, um único fato – o grosseiro assassinato de C, a apoteose misteriosa de B – era a solução genial de trinta ou quarenta sorteios. Combinar as jogadas era difícil; mas convém lembrar que os indivíduos da Companhia eram (e são) todo-poderosos e astutos. Em muitos casos, o conhecimento de que certas felicidades eram simples obra do acaso teria diminuído sua virtude; para evitar esse inconveniente, os agentes da Companhia usavam das sugestões e da magia. Seus passos, seus manejos, eram secretos. Para indagar as íntimas esperanças e os íntimos terrores de cada um, dispunham de astrólogos e de espiões. Havia certos leões de pedra, havia uma latrina sagrada chamada Qaphqa, havia algumas fendas no poeirento aqueduto que, segundo opinião geral, levavam à Companhia; as pessoas malignas ou benévolas depositavam delações nesses lugares. Um arquivo alfabético recolhia essas informações de variável veracidade.

Inacreditavelmente, não faltaram murmúrios. A Companhia, com sua discrição habitual, não respondeu diretamente. Preferiu rabiscar nos escombros de uma fábrica de máscaras um argumento breve, que agora figura nas escrituras sagradas. Essa obra doutrinal observava que a loteria é uma interpolação do acaso na ordem do mundo e que aceitar erros não é contradizer o acaso: é corroborá-lo. Observava, da mesma maneira, que esses leões e esse recipiente sagrado, ainda que não desautorizados pela Companhia (que não renunciava ao direito de consultá-los), funcionavam sem garantia oficial.

Essa declaração apaziguou as inquietações públicas. Também produziu outros efeitos, talvez não previstos pelo autor. Modificou profundamente o espírito e as operações
da Companhia. Pouco tempo me resta; avisam-nas de que a nave está por zarpar; mas tratarei de explicá-lo.

Por inverossímil que pareça, ninguém ensaiara até então uma teoria geral dos jogos. O babilônio não é especulativo. Acata os ditames do acaso, entrega-lhes sua vida, sua esperança, seu terror pânico, mas não lhe ocorre investigar suas leis labirínticas, nem as esferas giratórias que o revelam. Não obstante, a declaração oficiosa que mencionei inspirou muitas discussões de caráter jurídico-matemático. De alguma delas nasceu a conjetura seguinte: Se a loteria é uma intensificação do acaso, uma periódica infusão do caos no cosmos, não conviria que o acaso interviesse em todas as etapas do sorteio e não apenas em uma? Não é irrisório que o acaso dite a morte de alguém e que as circunstâncias dessa morte – a reserva, a publicidade, o prazo de uma hora ou de um século – não estejam subordinadas ao acaso? Esses escrúpulos tão justos provocaram, por fim, uma considerável reforma, cujas complexidades (agravadas por um exercício de séculos) só as entendem alguns especialistas, mas que tentarei resumir, embora de modo simbólico.

Imaginemos um primeiro sorteio, que decreta a morte de um homem. Para seu cumprimento procede-se a outro sorteio, que propõe (digamos) nove executores possíveis. Desses executores, quatro podem iniciar um terceiro sorteio que dirá o nome do verdugo, dois podem substituir a ordem adversa por uma ordem feliz (o encontro de um tesouro, digamos), outro exacerbará a morte (isto é, torná-la-á infame ou a enriquecerá de torturas), outros podem negar-se a cumpri-la… Tal é o esquema simbólico. Na realidade, o número de sorteios é infinito. Nenhuma decisão é final, todas se ramificam em outras. Os ignorantes supõem que infinitos sorteios requerem um tempo infinito; na realidade, basta que o tempo seja infinitamente subdivisível, como o ensina a famosa parábola do Certame com a tartaruga. Essa infinitude condiz de maneira admirável com os sinuosos números do Acaso e com o Arquétipo Celestial da Loteria, que adoram os platônicos… Algum eco disforme de nossos ritos parece ter retumbado no Timbre: Ello Lamprídio, na Vida de Antonino Heliogábalo, conta que esse imperador escrevia em conchas as sortes que destinava aos convidados, de maneira que um recebia dez libras de ouro e outro, dez moscas, dez marmotas, dez ossos. É lícito lembrar que Heliogábalo educou-se na Ásia Menor, entre os sacerdotes do deus epônimo.

Também há sorteios impessoais, de propósito indefinido; um decreta que se lance às águas do Eufrates uma safira de Taprobana; outro, que do alto de uma torre se solte um pássaro; outro, que a cada século se retire (ou se acrescente) um grão de areia dos inumeráveis que há na praia. As conseqüências são, às vezes, terríveis.

Sob o influxo benfeitor da Companhia, nossos costumes estão saturados de acaso. O comprador de uma dúzia de ânforas de vinho damasceno não se assombrará se uma delas contiver um talismã ou uma víbora; o escrivão que redige um contrato não deixa quase nunca de introduzir algum dado errôneo; eu próprio, nesta apressada exposição, falseei certo esplendor, certa atrocidade. Talvez, também, alguma misteriosa monotonia… Nossos historiadores, que são os mais perspicazes do orbe, inventaram um método para corrigir o acaso; diz-se que as operações desse método são (em geral) fidedignas; embora, naturalmente, não se divulguem sem certa dose de engano. Além disso, nada tão contaminado de ficção como a história da Companhia… Um documento paleográfico, exumado num templo, pode ser obra de um sorteio de ontem ou de um sorteio secular. Não se publica um livro sem alguma divergência em cada um dos exemplares. Os escribas prestam juramento secreto de omitir, de interpolar, de alterar. Também se exerce a mentira indireta.

A Companhia, com modéstia divina, elude toda publicidade. Seus agentes, como é óbvio, são secretos; as ordens que dá continuamente (quiçá incessantemente) não diferem  das que prodigalizam os impostores. Ademais, quem poderá gabar-se de ser um simples impostor? O bêbado que improvisa um mandato absurdo, o sonhador que desperta de repente – estrangula a mulher que dorme a seu lado, não executam, porventura, uma secreta decisão da Companhia? Esse funcionamento silencioso, comparável ao de Deus, provoca toda espécie de conjeturas. Uma insinua abominavelmente que faz já séculos que não existe a Companhia e que a sacra desordem de nossas vidas é puramente hereditária, tradicional; outra a julga eterna e ensina que perdurará até a última noite, quando – último deus aniquile o mundo. Outra declara que a Companhia é onipotente, mas que influi somente em coisas minúsculas: no grito de um pássaro, nos matizes da ferrugem – do pó, nos entressonhos da alvorada. Outra, por boca de heresiarcas mascarados, que nunca existiu nem existirá. Outra, não menos vil, argumenta que é indiferente afirmar ou negar a realidade da tenebrosa corporação, porque Babilônia não é outra coisa senão um infinito jogo de acasos.