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Archive for the ‘Escritores Portugueses’ Category

Li hoje quase duas páginas (Fernando Pessoa)

Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.

Os Lusíadas – Canto Primeiro (Luís Vaz de Camões)

camoes

1
As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

2
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis, que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

3
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a Musa antígua canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

4
E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mim vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloquo e corrente,
Porque de vossas águas, Febo ordene
Que não tenham inveja às de Hipoerene.

5
Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.

6
E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antígua liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade;
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Para do mundo a Deus dar parte grande;

7
Vós, tenro e novo ramo florescente
De uma árvore de Cristo mais amada
Que nenhuma nascida no Ocidente,
Cesárea ou Cristianíssima chamada;
(Vede-o no vosso escudo, que presente
Vos amostra a vitória já passada,
Na qual vos deu por armas, e deixou
As que Ele para si na Cruz tomou)

8
Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
Vê-o também no meio do Hemisfério,
E quando desce o deixa derradeiro;
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Do torpe Ismaelita cavaleiro,
Do Turco oriental, e do Gentio,
Que inda bebe o licor do santo rio;

9
Inclinai por um pouco a majestade,
Que nesse tenro gesto vos contemplo,
Que já se mostra qual na inteira idade,
Quando subindo ireis ao eterno templo;
Os olhos da real benignidade
Ponde no chão: vereis um novo exemplo
De amor dos pátrios feitos valerosos,
Em versos divulgado numerosos.

10
Vereis amor da pátria, não movido
De prémio vil, mas alto e quase eterno:
Que não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de til gente.

11
Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
Fantásticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas:
As verdadeiras vossas são tamanhas,
Que excedem as sonhadas, fabulosas;
Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro,
E Orlando, inda que fora verdadeiro,

12
Por estes vos darei um Nuno fero,
Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço,
Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero
A cítara para eles só cobiço.
Pois pelos doze Pares dar-vos quero
Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço;
Dou-vos também aquele ilustre Gama,
Que para si de Eneias toma a fama.

13
Pois se a troco de Carlos, Rei de França,
Ou de César, quereis igual memória,
Vede o primeiro Afonso, cuja lança
Escura faz qualquer estranha glória;
E aquele que a seu Reino a segurança
Deixou com a grande e próspera vitória;
Outro Joane, invicto cavaleiro,
O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro.

14
Nem deixarão meus versos esquecidos
Aqueles que nos Reinos lá da Aurora
Fizeram, só por armas tão subidos,
Vossa bandeira sempre vencedora:
Um Pacheco fortíssimo, e os temidos
Almeidas, por quem sempre o Tejo chora;
Albuquerque terríbil, Castro forte,
E outros em quem poder não teve a morte.

15
E enquanto eu estes canto, e a vós não posso,
Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,
Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
Dareis matéria a nunca ouvido canto.
Comecem a sentir o peso grosso
(Que pelo mundo todo faça espanto)
De exércitos e feitos singulares,
De África as terras, e do Oriente os marços,

16
Em vós os olhos tem o Mouro frio,
Em quem vê seu exício afigurado;
Só com vos ver o bárbaro Gentio
Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;
Tethys todo o cerúleo senhorio
Tem para vós por dote aparelhado;
Que afeiçoada ao gesto belo e tenro,
Deseja de comprar-vos para genro.

17
Em vós se vêm da olímpica morada
Dos dois avós as almas cá famosas,
Uma na paz angélica dourada,
Outra pelas batalhas sanguinosas;
Em vós esperam ver-se renovada
Sua memória e obras valerosas;
E lá vos tem lugar, no fim da idade,
No templo da suprema Eternidade.

18
Mas enquanto este tempo passa lento
De regerdes os povos, que o desejam,
Dai vós favor ao novo atrevimento,
Para que estes meus versos vossos sejam;
E vereis ir cortando o salso argento
Os vossos Argonautas, por que vejam
Que são vistos de vós no mar irado,
E costumai-vos já a ser invocado.

19
Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Próteo são cortadas

20
Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
Onde o governo está da humana gente,
Se ajuntam em concílio glorioso
Sobre as cousas futuras do Oriente.
Pisando o cristalino Céu formoso,
Vêm pela Via-Láctea juntamente,
Convocados da parte do Tonante,
Pelo neto gentil do velho Atlante.

21
Deixam dos sete Céus o regimento,
Que do poder mais alto lhe foi dado,
Alto poder, que só co’o pensamento
Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado.
Ali se acharam juntos num momento
Os que habitam o Arcturo congelado,
E os que o Austro tem, e as partes onde
A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde.

22
Estava o Padre ali sublime e dino,
Que vibra os feros raios de Vulcano,
Num assento de estrelas cristalino,
Com gesto alto, severo e soberano.
Do rosto respirava um ar divino,
Que divino tornara um corpo humano;
Com uma coroa e ceptro rutilante,
De outra pedra mais clara que diamante.

23
Em luzentes assentos, marchetados
De ouro e de perlas, mais abaixo estavam
Os outros Deuses todos assentados,
Como a razão e a ordem concertavam:
Precedem os antíguos mais honrados;
Mais abaixo os menores se assentavam;
Quando Júpiter alto, assim dizendo,
C’um tom de voz começa, grave e horrendo:

24
“Eternos moradores do luzente
Estelífero pólo, e claro assento,
Se do grande valor da forte gente
De Luso não perdeis o pensamento,
Deveis de ter sabido claramente,
Como é dos fados grandes certo intento,
Que por ela se esqueçam os humanos
De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.

25
“Já lhe foi (bem o vistes) concedido
C’um poder tão singelo e tão pequeno,
Tomar ao Mouro forte e guarnecido
Toda a terra, que rega o Tejo ameno:
Pois contra o Castelhano tão temido,
Sempre alcançou favor do Céu sereno.
Assim que sempre, enfim, com fama e glória,
Teve os troféus pendentes da vitória.

26
“Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,
Que coa gente de Rómulo alcançaram,
Quando com Viriato, na inimiga
Guerra romana tanto se afamaram;
Também deixo a memória, que os obriga
A grande nome, quando alevantaram
Um por seu capitão, que peregrino
Fingiu na cerva espírito divino.

27
“Agora vedes bem que, cometendo
O duvidoso mar num lenho leve,
Por vias nunca usadas, não temendo
De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve:
Que havendo tanto já que as partes vendo
Onde o dia é comprido e onde breve,
Inclinam seu propósito e porfia
A ver os berços onde nasce o dia.

28
“Prometido lhe está do Fado eterno,
Cuja alta Lei não pode ser quebrada,
Que tenham longos tempos o governo
Do mar, que vê do Sol a roxa entrada.
Nas águas têm passado o duro inverno;
A gente vem perdida e trabalhada;
Já parece bem feito que lhe seja
Mostrada a nova terra, que deseja.

29
“E porque, como vistes, têm passados
Na viagem tão ásperos perigos,
Tantos climas e céus experimentados,
Tanto furor de ventos inimigos,
Que sejam, determino, agasalhados
Nesta costa africana, como amigos.
E tendo guarnecida a lassa frota,
Tornarão a seguir sua longa rota.”

30
Estas palavras Júpiter dizia,
Quando os Deuses por ordem respondendo,
Na sentença um do outro diferia,
Razões diversas dando e recebendo.
O padre Baco ali não consentia
No que Júpiter disse, conhecendo
Que esquecerão seus feitos no Oriente,
Se lá passar a Lusitana gente.

31
Ouvido tinha aos Fados que viria
Uma gente fortíssima de Espanha
Pelo mar alto, a qual sujeitaria
Da índia tudo quanto Dóris banha,
E com novas vitórias venceria
A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha.
Altamente lhe dói perder a glória,
De que Nisa celebra inda a memória.

32
Vê que já teve o Indo sojugado,
E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso,
Por vencedor da Índia ser cantado
De quantos bebem a água de Parnaso.
Teme agora que seja sepultado
Seu tão célebre nome em negro vaso
D’água do esquecimento, se lá chegam
Os fortes Portugueses, que navegam.

33
Sustentava contra ele Vénus bela,
Afeiçoada à gente Lusitana,
Por quantas qualidades via nela
Da antiga tão amada sua Romana;
Nos fortes corações, na grande estrela,
Que mostraram na terra Tingitana,
E na língua, na qual quando imagina,
Com pouca corrupção crê que é a Latina.

34
Estas causas moviam Citereia,
E mais, porque das Parcas claro entende
Que há de ser celebrada a clara Deia,
Onde a gente belígera se estende.
Assim que, um pela infâmia, que arreceia,
E o outro pelas honras, que pretende,
Debatem, e na porfia permanecem;
A qualquer seus amigos favorecem.

35
Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura
De silvestre arvoredo abastecida,
Rompendo os ramos vão da mata escura,
Com ímpeto e braveza desmedida;
Brama toda a montanha, o som murmura,
Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:
Tal andava o tumulto levantado,
Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.

36
Mas Marte, que da Deusa sustentava
Entre todos as partes em porfia,
Ou porque o amor antigo o obrigava,
Ou porque a gente forte o merecia,
De entre os Deuses em pé se levantava:
Merencório no gesto parecia;
O forte escudo ao colo pendurado
Deitando para trás, medonho e irado,

37
A viseira do elmo de diamante
Alevantando um pouco, mui seguro,
Por dar seu parecer, se pôs diante
De Júpiter, armado, forte e duro:
E dando uma pancada penetrante,
Com o conto do bastão no sólio puro,
O Céu tremeu, e Apolo, de torvado,
Um pouco a luz perdeu, como enfiado.

38
E disse assim: “Ó Padre, a cujo império
Tudo aquilo obedece, que criaste,
Se esta gente, que busca outro hemisfério,
Cuja valia, e obras tanto amaste,
Não queres que padeçam vitupério,
Como há já tanto tempo que ordenaste,
Não onças mais, pois és juiz direito,
Razões de quem parece que é suspeito.

39
“Que, se aqui a razão se não mostrasse
Vencida do temor demasiado,
Bem fora que aqui Baco os sustentasse,
Pois que de Luso vem, seu tão privado;
Mas esta tenção sua agora passe,
Porque enfim vem de estâmago danado;
Que nunca tirará alheia inveja
O bem, que outrem merece, e o Céu deseja.

40
“E tu, Padre de grande fortaleza,
Da determinação, que tens tomada,
Não tornes por detrás, pois é fraqueza
Desistir-se da cousa começada.
Mercúrio, pois excede em ligeireza
Ao vento leve, e à seta bem talhada,
Lhe vá mostrar a terra, onde se informe
Da índia, e onde a gente se reforme.”

41
Como isto disse, o Padre poderoso,
A cabeça inclinando, consentiu
No que disse Mavorte valeroso,
E néctar sobre todos esparziu.
Pelo caminho Lácteo glorioso
Logo cada um dos Deuses se partiu,
Fazendo seus reais acatamentos,
Para os determinados aposentos.

42
Enquanto isto se passa na formosa
Casa etérea do Olimpo onipotente,
Cortava o mar a gente belicosa,
Já lá da banda do Austro e do Oriente,
Entre a costa Etiópica e a famosa
Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente
Queimava então os Deuses, que Tifeu
Com o temor grande em peixes converteu.

43
Tão brandamente os ventos os levavam,
Como quem o céu tinha por amigo:
Sereno o ar, e os tempos se mostravam
Sem nuvens, sem receio de perigo.
O promontório Prasso já passavam,
Na costa de Etiópia, nome antigo,
Quando o mar descobrindo lhe mostrava
Novas ilhas, que em torno cerca e lava.

44
Vasco da Gama, o forte capitão,
Que a tamanhas empresas se oferece,
De soberbo e de altivo coração,
A quem Fortuna sempre favorece,
Para se aqui deter não vê razão,
Que inabitada a terra lhe parece:
Por diante passar determinava;
Mas não lhe sucedeu como cuidava.

45
Eis aparecem logo em companhia
Uns pequenos batéis, que vêm daquela
Que mais chegada à terra parecia,
Cortando o longo mar com larga vela.
A gente se alvoroça, e de alegria
Não sabe mais que olhar a causa dela.
Que gente será esta, em si diziam,
Que costumes, que Lei, que Rei teriam?

46
As embarcações eram, na maneira,
Mui veloces, estreitas e compridas:
As velas, com que, vêm, eram de esteira
Dumas folhas de palma, bem tecidas;
A gente da cor era verdadeira,
Que Faeton, nas terras acendidas,
Ao mundo deu, de ousado, o não prudente:
O Pado o sabe, o Lampetusa o sente.

47
De panos de algodão vinham vestidos,
De várias cores, brancos e listrados:
Uns trazem derredor de si cingidos,
Outros em modo airoso sobraçados:
Da cinta para cima vêm despidos;
Por armas têm adargas o terçados;
Com toucas na cabeça; e navegando,
Anafis sonoros vão tocando.

48
Co’os panos e co’os braços acenavam
As gentes Lusitanas, que esperassem;
Mas já as proas ligeiras se inclinavam
Para que junto às ilhas amainassem.
A gente e marinheiros trabalhavam,
Como se aqui os trabalhos se acabassem;
Tomam velas; amaina-se a verga alta;
Da âncora, o mar ferido, em cima salta.

49
Não eram ancorados, quando a gente
Estranha pelas cordas já subia.
No gesto ledos vêm, e humanamente
O Capitão sublime os recebia:
As mesas manda pôr em continente;
Do licor que Lieo prantado havia
Enchem vasos de vidro, e do que deitam,
Os de Faeton queimados nada enjeitam.

50
Comendo alegremente perguntavam,
Pela Arábica língua, donde vinham,
Quem eram, de que terra, que buscavam,
Ou que partes do mar corrido tinham?
Os fortes Lusitanos lhe tornavam
As discretas respostas, que convinham:
“Os Portugueses somos do Ocidente,
Imos buscando as terras do Oriente.

51
“Do mar temos corrido e navegado
Toda a parte do Antártico e Calisto,
Toda a costa Africana rodeado,
Diversos céus e terras temos visto;
Dum Rei potente somos, tão amado,
Tão querido de todos, e benquisto,
Que não no largo mar, com leda fronte,
Mas no lago entraremos de Aqueronte.

52
“E por mandado seu, buscando andamos
A terra Oriental que o Indo rega;
Por ele, o mar remoto navegamos,
Que só dos feios focas se navega.
Mas já razão parece que saibamos,
Se entre vós a verdade não se nega,
Quem sois, que terra é esta que habitais,
Ou se tendes da Índia alguns sinais?”

53
“Somos, um dos das ilhas lhe tornou,
Estrangeiros na terra, Lei e nação;
Que os próprios são aqueles, que criou
A natura sem Lei e sem razão.
Nós temos a Lei certa, que ensinou
O claro descendente de Abraão
Que agora tem do mundo o senhorio,
A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio.
Informações. A Ilha de Moçambique.

54
“Esta ilha pequena, que habitamos,
em toda esta terra certa escala
De todos os que as ondas navegamos
De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;
E, por ser necessária, procuramos,
Como próprios da terra, de habitá-la;
E por que tudo enfim vos notifique,
Chama-se a pequena ilha Moçambique.

55
“E já que de tão longe navegais,
Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,
Piloto aqui tereis, por quem sejais
Guiados pelas ondas sabiamente.
Também será bem feito que tenhais
Da terra algum refresco, e que o Regente
Que esta terra governa, que vos veja,
E do mais necessário vos proveja.”

56
Isto dizendo, o Mouro se tornou
A seus batéis com toda a companhia;
Do Capitão e gente se apartou
Com mostras de devida cortesia.
Nisto Febo nas águas encerrou,
Co’o carro de cristal, o claro dia,
Dando cargo à irmã, que alumiasse
O largo mundo, enquanto repousasse.

57
A noite se passou na lassa frota
Com estranha alegria, e não cuidada,
Por acharem da terra tão remota
Nova de tanto tempo desejada.
Qualquer então consigo cuida e nota
Na gente e na maneira desusada,
E como os que na errada Seita creram,
Tanto por todo o mundo se estenderam,

58
Da Lua os claros raios rutilavam
Pelas argênteas ondas Neptuninas,
As estrelas os Céus acompanhavam,
Qual campo revestido de boninas;
Os furiosos ventos repousavam
Pelas covas escuras peregrinas;
Porém da armada a gente vigiava,
Como por longo tempo costumava.

59
Mas assim como a Aurora marchetada
Os formosos cabelos espalhou
No Céu sereno, abrindo a roxa entrada
Ao claro Hiperiónio, que acordou,
Começa a embandeirar-se toda a armada,
E de toldos alegres se adornou,
Por receber com festas e alegria
O Regedor das ilhas, que partia.

60
Partia alegremente navegando,
A ver as naus ligeiras Lusitanas,
Com refresco da terra, em si cuidando
Que são aquelas gentes inumanas,
Que, os aposentos cáspios habitando,
A conquistar as terras Asianas
Vieram; e por ordem do Destino,
O Império tomaram a Constantino.

61
Recebe o Capitão alegremente
O Mouro, e toda a sua companhia;
Dá-lhe de ricas peças um presente,
Que só para este efeito já trazia;
Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente
Não usado licor, que dá alegria.
Tudo o Mouro contente bem recebe;
E muito mais contente come e bebe.

62
Está a gente marítima de Luso
Subida pela enxárcia, de admirada,
Notando o estrangeiro modo e uso,
E a linguagem tão bárbara e enleada.
Também o Mouro astuto está confuso,
Olhando a cor, o trajo, e a forte armada;
E perguntando tudo, lhe dizia
“Se por ventura vinham de Turquia?”

63
E mais lhe diz também, que ver deseja
Os livros de sua Lei, preceito eu fé,
Para ver se conforme à sua seja,
Ou se são dos de Cristo, como Crê.
E porque tudo note e tudo veja,
Ao Capitão pedia que lhe dê
Mostra das fortes armas de que usavam,
Quando co’os inimigos pelejavam.

64
Responde o valeroso Capitão
Por um, que a língua escura bem sabia:
“Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação
De mim, da Lei, das armas que trazia.
Nem sou da terra, nem da geração
Das gentes enojosas de Turquia:
Mas sou da forte Europa belicosa,
Busco as terras da índia tão famosa.

65
A lei tenho daquele, a cujo império
Obedece o visíbil e ínvisíbil
Aquele que criou todo o Hemisfério,
Tudo o que sente, o todo o insensíbil;
Que padeceu desonra e vitupério,
Sofrendo morte injusta e insofríbil,
E que do Céu à Terra, enfim desceu,
Por subir os mortais da Terra ao Céu.

66
Deste Deus-Homem, alto e infinito,
Os livros, que tu pedes não trazia,
Que bem posso escusar trazer escrito
Em papel o que na alma andar devia.
Se as armas queres ver, como tens dito,
Cumprido esse desejo te seria;
Como amigo as verás; porque eu me obrigo,
Que nunca as queiras ver como inimigo.”

67
Isto dizendo, manda os diligentes
Ministros amostrar as armaduras:
Vêm arneses, e peitos reluzentes,
Malhas finas, e lâminas seguras,
Escudos de pinturas diferentes,
Pelouros, espingardas de aço puras,
Arcos, e sagitíferas aljavas,
Partazanas agudas, chuças bravas:

68
As bombas vêm de fogo, e juntamente
As panelas sulfúreas, tão danosas;
Porém aos de Vulcano não consente
Que dêem fogo às bombardas temerosas;
Porque o generoso ânimo e valente,
Entre gentes tão poucas e medrosas,
Não mostra quanto pode, e com razão,
Que é fraqueza entre ovelhas ser leão.

69
Porém disto, que o Mouro aqui notou,
E de tudo o que viu com olho atento
Um ódio certo na alma lhe ficou,
Uma vontade má de pensamento.
Nas mostras e no gesto o não mostrou;
Mas com risonho e ledo fingimento
Tratá-los brandamente determina,
Até que mostrar possa o que imagina.

70
Pilotos lhe pedia o Capitão,
Por quem pudesse à Índia ser levado;
Diz-lhe que o largo prémio levarão
Do trabalho que nisso for tomado.
Promete-lhos o Mouro, com tenção
De peito venenoso, e tão danado,
Que a morte, se pudesse, neste dia,
Em lugar de pilotos lhe daria.

71
Tamanho o ódio foi, e a má vontade,
Que aos estrangeiros súbito tomou,
Sabendo ser sequazes da verdade,
Que o Filho de David nos ensinou.
ó segredos daquela Eternidade,
A quem juízo algum nunca alcançou!
Que nunca falte um pérfido inimigo
Aqueles de quem foste tanto amigo!

72
Partiu-se Disto enfim coa companhia,
Das naus o falso Mouro despedido,
Com enganosa e grande cortesia,
Com gesto ledo a todos, e fingido.
Cortaram os batéis a curta via
Das águas de Neptuno, e recebido
Na terra do obsequente ajuntamento
Se foi o Mouro ao cógnito aposento.

73
Do claro assento etóreo o grão Tebano,
Que da paternal coxa foi nascido,
Olhando o ajuntamento Lusitano
Ao Mouro ser molesto e avorrecido,
No pensamento cuida um falso engano,
Com que seja de todo destruído.
E enquanto isto só na alma imaginava,
Consigo estas palavras praticava:

74
“Está do fado já determinado,
Que tamanhas vitórias, tão famosas,
Hajam os Portugueses alcançado
Das Indianas gentes belicosas.
E eu só, filho do Padre sublimado,
Com tantas qualidades generosas,
Hei de sofrer que o fado favoreça
Outrem, por quem meu nome se escureça?

75
“Já quiseram os Deuses que tivesse
O filho de Filipo nesta parte
Tanto poder, que tudo submetesse
Debaixo de seu jugo o fero Marte.
Mas há-se de sofrer que o fado desse
A tão poucos tamanho esforço e arte,
Que eu co’o grão Macedónio, e o Romano,
Demos lugar ao nome Lusitano?

76
“Não será assim, porque antes que chegado
Seja este Capitão, astutamente
Lhe será tanto engano fabricados
Que nunca veja as partes do Oriente.
Eu descerei à Terra, e o indignado
Peito revolverei da Maura gente;
Porque sempre por via irá direita
Quem do oportuno tempo se aproveita.”

77
Isto dizendo, irado e quase insano,
Sobre a terra africana descendeu,
Onde vestindo a forma e gesto humano,
Para o Prasso sabido se moveu.
E por melhor tecer o astuto engano,
No gesto natural se converteu
Dum Mouro, em Moçambique conhecido
Velho, sábio, e co’o Xeque mui valido.

78
E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas
A sua falsidade acomodadas,
Lhe diz como eram gentes roubadoras,
Estas que ora de novo são chegadas;
Que das nações na costa moradoras
Correndo a fama veio que roubadas
Foram por estes homens que passavam,
Que com pactos de paz sempre ancoravam.

79
E sabe mais, lhe diz, como entendido
Tenho destes cristãos sanguinolentos,
Que quase todo o mar têm destruído
Com roubos, com incêndios violentos;
E trazem já de longe engano urdido
Contra nós; e que todos seus intentos
São para nos matarem e roubarem,
E mulheres e filhos cativarem.

80
“E também sei que tem determinado
De vir por água a terra muito cedo
O Capitão dos seus acompanhado,
Que da tensão danada nasce o medo.
Tu deves de ir também co’os teus armado
Esperá-lo em cilada, oculto e quedo;
Porque, saindo a gente descuidada,
Cairão facilmente na cilada.

81
“E se inda não ficarem deste jeito
Destruídos, ou mortos totalmente
Eu tenho imaginado no conceito
Outra manha e ardil, que te contente:
Manda-lhe dar piloto, que de jeito
Seja astuto no engano, e tão prudente,
Que os leve aonde sejam destruídos,
Desbaratados, mortos, ou perdidos.”

82
Tanto que estas palavras acabou,
O Mouro, nos tais casos sábio e velho,
Os braços pelo colo lhe lançou,
Agradecendo muito o tal conselho;
E logo nesse instante concertou
Para a guerra o belígero aparelho,
Para que ao Português se lhe tornasse
Em roxo sangue a água, que buscasse.

83
E busca mais, para o cuidado engano,
Mouro, que por piloto à nau lhe mande,
Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano,
De quem fiar-se possa um feito grande.
Diz-lhe que acompanhando o Lusitano,
Por tais costas e mares com ele ande,
Que, se daqui escapar, que lá diante
Vá cair onde nunca se alevante.

84
Já o raio Apolíneo visitava
Os montes Nabatêos acendido,
Quando o Gama, colos seus determinava
De vir por água a terra apercebido.
A gente nos batéis se concertava,
Como se fosse o engano já sabido:
Mas pode suspeitar-se facilmente,
Que o coração pressago nunca mente.

85
E mais também mandado tinha a terra,
De antes, pelo piloto necessário,
E foi-lhe respondido em som de guerra,
Caso do que cuidava mui contrário;
Por isto, e porque sabe quanto erra
Quem se crê de seu pérfido adversário,
Apercebido vai como podia,
Em três batéis somente que trazia.

86
Mas os Mouros que andavam pela praia,
Por lhe defender a água desejada,
Um de escudo embraçado e de azagaia,
Outro de arco encurvado e seta ervada,
Esperam que a guerreira gente saia,
Outros muitos já postos em cilada.
E, porque o caso leve se lhe faça,
Põem uns poucos diante por negaça,

87
Andam pela ribeira alva, arenosa,
Os belicosos Mouros acenando
Com a adarga e co’a hástia perigosa,
Os fortes Portugueses incitando.
Não sofre muito a gente generosa
Andar-lhe os cães os dentes amostrando.
Qualquer em terra salta tão ligeiro,
Que nenhum dizer pode que é primeiro.

88
Qual no corro sanguino o ledo amante,
Vendo a formosa dama desejada,
O touro busca, e pondo-se diante,
Salta, corre, sibila, acena, e brada,
Mas o animal atroce, nesse instante,
Com a fronte cornígera inclinada,
Bramando duro corre, e os olhos cerra,
Derriba, fere e mata, e põe por terra:

89
Eis nos batéis o fogo se levanta
Na furiosa e dura artilharia,
A plúmbea péla mata, o brado espanta,
Ferido o ar retumba e assovia:
O coração dos Mouros se quebranta,
O temor grande o sangue lhe resfria.
Já foge o escondido de medroso,
E morre o descoberto aventuroso.

90
Não se contenta a gente Portuguesa,
Mas seguindo a vitória estrui e mata;
A povoação, sem muro e sem defesa,
Esbombardeia, acende e desbarata.
Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa,
Que bem cuidou comprá-la mais barata;
Já blasfema da guerra, e maldizia,
O velho inerte, e a mãe que o filho cria.

91
Fugindo, a seta o Mouro vai tirando
Sem força, de covarde e de apressado,
A pedra, o pau, e o canto arremessando;
Dá-lhe armas o furor desatinado.
Já a ilha e todo o mais desemparando,
A terra firme foge amedrontado;
Passa e corta do mar o estreito braço,
Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço

92
Uns vão nas almadias carregadas,
Um corta o mar a nado diligente,
Quem se afoga nas ondas encurvadas,
Quem bebe o mar, e o deita juntamente.
Arrombam as miúdas bombardadas
Os pangaios subtis da bruta gente:
Desta arte o Português enfim castiga
A vil malícia, pérfida, inimiga.

93
Tornam vitoriosos para a armada,
Co’o despojo da guerra e rica presa,
E vão a seu prazer fazer aguada,
Sem achar resistência, nem defesa.
Ficava a Maura gente magoada,
No ódio antigo mais que nunca acesa;
E vendo sem vingança tanto dano,
Somente estriba no segundo engano.

94
Pazes cometer manda arrependido
O Regedor daquela iníqua terra,
Sem ser dos Lusitanos entendido,
Que em figura de paz lhe manda guerra;
Porque o piloto falso prometido,
Que toda a má tenção no peito encerra,
Para os guiar à morte lhe mandava,
Como em sinal das pazes que tratava.

95
O Capitão, que já lhe então convinha
Tornar a seu caminho acostumado,
Que tempo concertado e ventos tinha
Para ir buscar o Indo desejado,
Recebendo o piloto, que lhe vinha,
Foi dele alegremente agasalhado;
E respondendo ao mensageiro a tento,
As velas manda dar ao largo vento.

96
Desta arte despedida a forte armada,
As ondas de Anfitrite dividia,
Das filhas de Nereu acompanhada,
Fiel, alegre e doce companhia.
O Capitão, que não caía em nada
Do enganoso ardil, que o Mouro urdia,
Dele mui largamente se informava
Da Índia toda, e costas que passava.

97
Mas o Mouro, instruído nos enganos
Que o malévolo Baco lhe ensinara,
De morte ou cativeiro novos danos,
Antes que à Índia chegue, lhe prepara:
Dando razões dos portos Indianos,
Também tudo o que pede lhe declara,
Que, havendo por verdade o que dizia,
De nada a forte gente se temia.

98
E diz-lhe mais, com o falso pensamento
Com que Sinon os Frígios enganou:
Que perto está uma ilha, cujo assento
Povo antigo cristão sempre habitou.
O Capitão, que a tudo estava a tento,
Tanto com estas novas se alegrou,
Que com dádivas grandes lhe rogava,
Que o leve à terra onde esta gente estava.

99
O mesmo o falso Mouro determina,
Que o seguro Cristão lhe manda e pede;
Que a ilha é possuída da malina
Gente que segue o torpe Mahamede.
Aqui o engano e morte lhe imagina,
Porque em poder e forças muito excede
A Moçambique esta ilha, que se chama
Quíloa, mui conhecida pela fama.

100
Para lá se inclinava a leda frota;
Mas a Deusa em Citere celebrada,
Vendo como deixava a certa rota
Por ir buscar a morte não cuidada,
Não consente que em terra tão remota
Se perca a gente dela tanto amada.
E com ventos contrários a desvia
Donde o piloto falso a leva e guia.

101
Mas o malvado Mouro, não podendo
Tal determinação levar avante,
Outra maldade iníqua cometendo,
Ainda em seu propósito constante,
Lhe diz que, pois as águas discorrendo
Os levaram por força por diante,
Que outra ilha tem perto, cuja gente
Eram Cristãos com Mouros juntamente.

102
Também nestas palavras lhe mentia,
Como por regimento enfim levava,
Que aqui gente de Cristo não havia,
Mas a que a Mahamede celebrava.
O Capitão, que em tudo o Mouro cria,
Virando as velas, a ilha demandava;
Mas, não querendo a Deusa guardadora,
Não entra pela barra, e surge fora.

103
Estava a ilha à terra tão chegada,
Que um estreito pequeno a dividia;
Uma cidade nela situada,
Que na fronte do mar aparecia,
De nobres edifícios fabricada,
Como por fora ao longe descobria,
Regida por um Rei de antiga idade:
Mombaça é o nome da ilha e da cidade.

104
E sendo a ela o Capitão chegado,
Estranhamente ledo, porque espera
De poder ver o povo batizado,
Como o falso piloto lhe dissera,
Eis vêm batéis da terra com recado
Do Rei, que já sabia a gente que era:
Que Baco muito de antes o avisara,
Na forma doutro Mouro, que tomara.

105
O recado que trazem é de amigos,
Mas debaixo o veneno vem coberto;
Que os pensamentos eram de inimigos,
Segundo foi o engano descoberto.
Ó grandes e gravíssimos perigos!
Ó caminho de vida nunca certo:
Que aonde a gente põe sua esperança,
Tenha a vida tão pouca segurança!

106
No mar tanta tormenta, e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?

Extraído do “The Project Gutenberg

Datilografia (Fernando Pessoa)

Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

Outrora.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra…

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Extraído do ótimo blog: Fernando Pessoa

O Comendador (Camilo Castelo Branco)


É tão fatalmente séria a vida que o sofrê-la, sem misturar
a tragédia com a comédia, seria impossível.

H. Heine, Reisebilder


A D. António da Costa

Em testemunho da regalada leitura que V. Ex. a me deu com o seu MINHO, lhe ofereço uma das novelas de cá. O Minho tem o romanesco da árvore e o romance da família. A paisagem sugeriu-lhe, meu caro poeta, as prosas floridas do ridente livro. O seu estilo tem a macia luz do luar das noites estivas, e o cadencioso murmúrio das ribeiras onde o céu estrelado se espelha.

O Minho lucra muito, visto assim de passagem, na imperial de uma diligência, lá muito no galarim do tejadilho, onde as moscas não se álem a ferretoar-nos a testa e a sevandijar-nos os beiços convulsos de lirismo.

Viu V. Ex. a perfeitamente o Minho por fora: as verduras ondulando nas pradarias, os jorros de água espumando na espalda dos outeiros, os fragoedos às cavaleiras dos milharais, a amendoeira a florejar ao lado do pinheiral bravio, as ruínas do paço senhorial com os seus tapetes de ortigas e guadalmecins de musgo ao pé da chaminé escarlate e verde do negreiro a golfar rolos turbinosos de fumo indicativo de panelas grandes e galinhas gordas, lardeadas de chouriços. Simultaneamente, ouviu V. Ex. a o som da buzina pastoril ressonando a sua longa toada nas gargantas da serra; viu os espantadiços rebanhos alcandorados nos espinhaços dos montes, e os rafeiros à ourela das estradas com os focinhos nas patas dianteiras, orelhas fitas e olhar arrogante. Reparou decerto na pachorra estóica do boi cevado, que parece estar contemplando em si mesmo a metempsicose em futuro cidadão de Londres mediante o processo do bife. Tudo isto, que é a forma objectiva do Minho romântico, viu V. Ex. a, afora o mais que aformoseia o seu livro, os encarecimentos, as lisonjas, as feiti­çarias da arte com que V. Ex. a disputa primores à natureza.

Mas o que D. António da Costa não teve tempo de ver e apalpar foi o miolo, a medula, as entranhas românticas do Minho; quero dizer – os costumes, o viver que por aqui palpita no povoa­do destes arvoredos onde assobia o melro e a filomela trila.

Ah! meu amigo! Romances, tecidos de casos cândidos e inocentes, apenas os fazem por aqui os pássaros em Abril quando urdem e afofam os seus ninhos. O restante dos animais não ovíparos vista-mos V. Ex. a no Catarro ou no estabelecimento da famosa senhora Cecília Fernandes, da Travessa de Santa Justa, que eu lhos farei representar ao vivo no próprio coração do Minho – entre Fafião e S. João do Calendário – as cenas contemporâneas da fina Baixa e piores.

A peste, que infeccionou os costumes destas aldeias, não sei decidir se veio das cidades para aqui, se foi daqui para lá. Sá de Mi­randa considerou isto tudo estragado quando viu

correr pardaus
Por Cabeceiras de Basto.

Imagine V. Ex. a o que terá feito o esmeril do progresso a descodear e a brunir este gentio há três séculos! Não faz ideia, meu amigo! Até a fotografia, abarracada nas cabeças dos conce­lhos, tem feito colaborar o sol e o cloreto de prata na relaxação dos costumes. Os «conversados» permutam retratos, e beijam-se reciprocamente em papel-cartão, aguçando o instinto da natureza bruta. Verdade é que os pastores minhotos, há trezentos anos, já traziam ao pescoço os retratos das pastoras pintados em madeira, como se depreende destes versos de Diogo Bernardes, o rouxinol do Lima:

Pendurei num salgueiro a minha lira,
Ouvi-la ao som do vento é uma mágoa,
Em lugar de tanger geme e suspira.
Marília que pintada numa tábua
Aqui no seio trago, também chora;
Seus olhos dão-me fogo, e os meus dão-lhe água.

Não obstante, o fogo, que acendrava a paixão nos peitos da­queles Bieitos e Melibeus das éclogas, era uma espécie de lume sacro que velava a virgindade… dos retratos pintados em tábua. Porquanto, deve V. Ex. a lembrar-se que os pegureiros do Minho tais fornalhas faulavam do peito que os vizinhos iam lá prover-se de lume para cozinhar a ceia, como se colige das lástimas deste pastor do canoro Bernardes:

A viva chama aquele intenso ardor
Que brando sinto já pelo costume,
De noite de si dá tal resplandor
Que mil pastores vem a buscar lume(1) .

É verdadeiro e bonito. Os mestres da vernaculidade mandam que a gente leia isto, e mais os outros líricos seiscentistas – caldeirada de favas clássicas com as quais o entendimento se opila e encrua; mas a língua cresce.

Como quer que seja, entre os retratos em tábua quais os pintava S. Lucas, e o retrato em fotografia aperfeiçoado por Fox Talbot, mede a distância que etnologicamente separa as Nizes e Filis de Diogo Bernardes destas Joanas e Tomásias que hão-de florejar nas Novelas do Minho.

Ouço dizer que a via férrea, sulcando o seio virginal desta província, afugentou com o estridor das suas asas os pardais, a mala-posta e a Probidade.

É possível. Os caixeiros do Porto, sadios e sanguíneos, com as suas luvas amarelas, e todo o verniz, que lhes coube em sorte, nos pés, entraram Minho dentro, e derramaram a dissolvente chalaça nas aldeias. Por outro lado, a raça turdetana de Braga fechou pelo norte a barreira à inocência espavorida. A cidade santa de nossos pais e dos cónegos, a esposa de Fr. Bartolomeu dos Mártires, Braga despeitorou-se, desnalgou-se, sofraldou as saias e mostrou a liga sobre o joelho desde que um jornal da terra lhe chamou segunda Paris. Eu não reparo na desproporção do confronto, quando ali me vejo no Café Faria , a sentir-me arquejar em uma das arté­rias do grande corpo da civilização chamada Europa, como lindamente diz o sr. Vaz de Freitas na sua Guia do Viajante em Braga, por seis vinténs. Tudo me leva à persuasão de que me acho na segunda Paris, quando a Guia me assevera com exactidão, ainda não contraditada pela inveja, que Braga encerra nos seus muros sete procuradores de causas, e que aí (pág. 28) os barbeiros superabundam. Fazia-se ainda pelos modos uma terceira Paris com a super­fluidade dos barbeiros!

A categoria modesta, em que o jornalista afidalgou a sua terra, justifica-se principalmente nas estalagens. Aí, é aí onde o viajante se sente saturado de Paris, a ponto de, cuidando que acorda alvoroçado pelas campainhas eléctricas do Grande Hotel no Boulevard des Capucines, achar-se em Braga, no hotel Aveirense, largo dos Penedos. Avantajam-se ainda às hospedarias parisienses, no ponto de vista zoológico, os hotéis da princesa do Minho. Os forasteiros dados a pesquisas de anatomia comparada, podem, mediante uma gratificação razoável, passar as suas noites em vigílias úteis estudando insectos sem queixos e sem asas, de membros articulados, consoante a classificação de Cuvier. Ali se lhes oferecem exemplares em barda da pulga braguês ( Pulex bracharensis ). Convencer-se-á que as seis pernas deste parasita são desiguais, o que assim se faz mister para o salto. Não duvidará que ele tem o bico alongado com duas cerdas, e guarnecido na base de dois palpos escamosos. Se reparar bem nas pulgas maiores, dissipará suspeitas de que têm asas, que realmente não têm as do Hotel Leão d’ouro nem as do Hotel transmontano . Encontram-se nestes dois estabelecimentos larvas das mesmas, cilíndricas e sem pernas. O olho ar­mado pode observá-las a mudarem-se em ninfas, que não são exactamente umas de quem cantava Garrett:

As ninfas invoquei do Tejo ameno
Que em mim criassem novo engenho ardente
Etc.

C AM . C . IV.

Nem as outras de quem dizia o épico:

Caem as ninfas, lançam das secretas
Entranhas ardentíssimos suspiros…

L US . Cant. IX.

Verdade é que o acessório das secretas, inclusas no verso de Camões, deixa supor que ele quisesse falar das ninfas dos hotéis de Braga. Que estude o caso o sr. visconde de Juromenha, e não o desampare a Academia Real das Ciências.

Nos hotéis de Braga, finalmente, dão-se as mãos o espavento das modernas indústrias, as refinações da decoração, a obra-prima de marcenaria e vidraria, – um luxo levantino, como em recâma­ras de Nababos – e sobretudo a higiene expansiva de saúde a dar cambalhotas na brancura virginal dos lençóis; e à mistura com tu­do isto ressalta não sei quê de arqueológico naqueles quartos! A gente, quando vai deitar-se, imagina que naquela mesma cama dormiu na noite passada S. Pedro de Rates ou Gonçalo Mendes da Maia.

Por fora das estalagens ainda há proeminentíssimas feições de Paris em Braga. O Jardim , por exemplo. V. Ex. a já esteve no jardim? Impressionaram-no com certeza uns rumores, «ora sufocados, ora estrepitosos» que ali se escutam nos domingos de tarde? Também a mim. Não pôde soletrar em sons articulados aquele confuso borborinho? Nem eu. Quem explica o fenómeno, trivial nos Champs-Elysées e no parc de Monceau , é o já citado sr. Vaz de Freitas na sua Guia do viajante em Braga, por seis vin­téns, pág. 41. A coisa é isto: O chilrear das crianças, o devanear das poetisas, o quei­xume sonolento dos poetas, a conversação pesada e metálica dos proprietários, todos estes murmúrios vagos ou alegres, sufocados ou estrepitosos (hic) infundem uma vida nova e excepcional ao passeio, que o tornam atraente ou deleitoso. Théophile Gautier, o Benvenuto Cellini da prosa francesa, não rendilharia com tão subtis filigranas de frase a explicação dos ruídos babilónicos do Luxemburg . Donde se colhe que Braga tem poetisas que exibem delirantemente os seus devaneios no jardim, ao mesmo tempo que os poetas se queixam sonolentos. Paris, tal qual. Note V. Ex. a o contraste no sexo destas pessoas que bebem na Castália: elas devaneiam , apostrofando a gritos o arrebol da tarde e a brisa que cicia e se perfuma nas cilindras; eles, cabeceando marasmados pelo ópio do narguilé , queixam-se sonolentos, porque não os deixam dormir as poetisas. São homens gastos, estafados, roués. Saíram do café Faria intoxicados do absinto de Espronceda, de Nerval, de Larra e de Musset. Entraram no jardim com o cérebro anestesiado, querem dormir; e elas, à imitação do femeaço da Trácia, projectam escalavrar aqueles Orfeus dormi­nhocos, Márcias que elas, filhas de Apolo, querem esfolar. Segun­da Paris.

Aí vê V. Ex. a a razão dos «estrépitos» explicada na Guia. Pareciam outra coisa pior.

Eu, afora isto, conheço outras analogias entre Braga e Paris, que estudei, sem subsídio – entendamo-nos. Há três meses senti-me ali adoecer da nevropatia, que é moléstia endémica dos gran­des centros de população, onde os deleites requintam, e o fluido nervoso se desperdiça – o que sucede em Londres, em Braga, em New-York, em Paris, quando a gente desconhece as leis da rela­tividade dos prazeres, como diz o professor escocês Bain. Confiando nos anti-histéricos, fui comprar à botica do sr. Pipa, na rua do Souto, um frasco de cápsulas de éter-sulfúrico, e preparava-me para pagá-las com 300 rs. (um fr e 50 cênt.) – preço corrente no Porto – quando o praticante da farmácia me mandou entender o preço da droga com mais cinco tostões, e mostrou-me que o sinal aritmético de um franco estava emendado em dois. Ainda assim, observei-lhe que dois francos cambiados em moeda portuguesa eram quatrocentos réis. O interlocutor refutou triunfantemente a minha objecção, alegando que em Braga dois francos eram oito tostões.

Esta fisionomia da botica bracarense dá feições à terra, não de 2. a , mas de 1. a Paris. A 2. a é a outra que os geó­grafos ignaros nos inculcam 1. a . Corrija-se.

Dou de barato que as referidas poetisas do jardim consumam cápsulas de súlfur copiosamente nas suas eterizações, e que os poetas sonolentos se despertem com elas, não querendo usar economicamente das cócegas; deve-se talvez às condições especiais das musas bracarenses o preço superlativo dos anti-espasmódicos: assim mesmo, Paris 2. a não pode arbitrariamente dobrar o valor da moeda de Paris 1. a , nos géneros que importa, ao mesmo passo que, no valor legal da moeda francesa, exporta para França os seus chapéus, os seus cavaquinhos e as suas frigideiras.

Aqui tem, pois, D. António da Costa, o foco de progresso que esparge raios de luz para as aldeias setentrionais do Minho, enquanto o Porto alastra no Sul os caixeiros contaminadores, que levam consigo a corrupção dos romances e as tentações do cabelo untuoso com a risca ao meio da cabeça, lasciva como o dorso de um gato de Angora.

É neste meio que eu me abalanço a esgaratujar novelas. Há treze anos que apeguei por esse Minho, em cata do bálsamo dos pi­nheirais e das fragrâncias das almas inocentes. Diziam-me que a rusticidade era o derradeiro baluarte da pureza, e que os lavradores do Minho, nivelados com os saloios da Estremadura, eram os cândidos pastores da Arcádia comparados aos malandrins de Gomorra. Um dos meus estudos, no intuito de me habilitar para o con­fronto do saloio com o minhoto – da raça sarracena com a galega – é esta historinha que lhe dedico, meu nobre amigo.

De Coimbra, aos 15 de Outubro de 1875.

Primeira parte

Seis de Janeiro de 1832. Manhã chuvosa e frigidíssima. O zimbro rufava nas frestas envidraçadas da igreja de Santa Maria de Abade. Ringiam as carvalheiras varejadas pelo norte. Ao arraiar do dia, a devota dos Três Reis Magos, a tia Bernabé, tecedeira, – viúva do operário Bernabé, que lhe deixara o nome e uma caba­na com sua horta – ergueu-se, foi à residência paroquial pedir a chave da igreja; e, sobraçando a bassoura de giesta para barrer o chão, e a almotolia para prover as lâmpadas, entrou no adro. Ao passar em frente da porta principal, ajoelhou, persignou-se e orou. Neste momento, ouviu o vagir convulso e ríspido de criança. Voltou o rosto para o lado donde lhe parecia sair aquele choro. Não viu alguém. Espantou-se.

– Jesus! Santo Nome de Jesus! Isto é coisa ruim! – exclamou ela, pousando no degrau da porta a vasilha e a bassoura.

E o chorar da criança cessou.

A tia Bernabé debruçou-se na parede baixa que murava o adro, e viu entre as grossas raízes de uma oliveira secular um embrulho de baeta azul, donde saiu um vagido. Saltou a parede, agachou-se à raiz da árvore, e pegou da criança, aconchegando-a do calor do peito e bafejando-a no rosto azulado do frio. A baeta estava enso­pada da chuva que escorria da ramaria da oliveira. Tirou-lha apressadamente, envolveu o menino no avental, e agasalhou-o entre o seio e o farto jaqué de picotilho. Depois, desandou para a residência, e mandou dizer ao abade que topara no adro uma criança, que parecia estar a despedir.

– Pois que quer ela então? – perguntou o abade, expondo uma parte do nariz e metade do olho esquerdo à frialdade do ar. – Que tenho eu com isso? Que a leve a Barcelos. Aqui não há roda de enjeitados.

A criada do abade deu o recado.

– Torne lá, sr.ª Joana – replicou a tia Bernabé friccionando os pés álgidos do recém-nascido com a barra da sua saia de sarago­ça – e diga ao sr. padre que este menino, se morrer sem baptismo, é um anjinho do céu que se perde. O sr. abade há-de saber isto melhor que eu…

A criada repetiu a réplica, e ajuntou:

– A tia Bernabé diz bem. – Salte daí p’ra fora, seu calaceiro! – E deu-lhe uma sonora palmada na nádega esquerda. – Um rapaz de vinte e sete anos está aí enteiriçado como um velho! Upa!

– Está quieta, Joana, olha que me fazes vento!

E ela puxou-lhe pelo pé direito, que excedia o volume de três pés; e ele, com o outro, despedido à toa, sacou-lhe do baixo ventre um som timpânico de odre cheio.

– T’arrenego! – bradou ela, recuando com as mãos postas na parte molestada. – Você atira? Tem má manha!

– Cheguei-te? – volveu ele risonho, embiocando-se na felpuda coberta, e encostando-se à almofada de chita que estofava o es­paldar do leito.

– Que brincadeira! – queixou-se a moçoila arrufada – podia-me matar com o couce, se me dá aqui no coração!…

E punha a mão no estômago.

– Isso não é nada, rapariga!… Olha se amuas!

– Nada, não é… não que a barriga é minha…

– Pois tu com este frio de mil diabos, vens-me mexer na roupa, e de mais a mais puxaste-me pelo pé do joanete, que tem a friei­ra aberta!…

– Então dissesse-o… – tornou ela com semblante ajeitado à reconciliação. – Salte daí!… vá baptizar o enjeitado; que, se ele morre sem baptismo, verá que ingranzéu se levanta na freguesia. Bem basta o que já dizem…

– Calça-me as meias de lã; mas tem cuidado que não se despe­gue o emplasto da frieira.

E, enquanto a moça com jeitosa meiguice lhe encanudava nas pernas cerdosas as grossas meias alisando-lhas ao correr da tíbia, resmungava ele:

– Quem seria a grande bêbeda que enjeitou a cria?

– Isso há-de ser de fora da freguesia…

– Também me parece… Cá não me consta… E vem-ma cá pôr no adro!… Ah! bom estadulho!…

– Fica uma coisa pela outra. As de cá também as levam às outras freguesias, quando acontece – disse Joana.

E nomeou várias ovelhas fecundas e tinhosas, enquanto o pastor lavava a cara no alguidar vermelho que a rapariga lhe chega­va, com a toalha no ombro.

Ao pegar da toalha, sacudindo a cara e assoprando ruidosamente com a sensação do frio, o abade apertou a polpa da espádua à moça com ternura felina. Este carinho confirmou as pazes. Joana arregaçou os beiços ridentíssimos até às orelhas, e mostrou-lhe nos dentes de brilhante esmalte que o seu amor infinito resistira à prova do couce.

A tia Bernabé afligida, porque o menino soluçando se esverdeava, chamou outra vez Joana com encarecidos rogos.

– O sr. abade está já vestido – disse a moça saindo à jane­la. – Passe você por casa do tio Isidro da Fonte, e diga-lhe que vá p’ra igreja, e deite água na pia.

*

O padre saiu de casa carrancudo e bocejando. De cada vez que escancarava as mandíbulas, traçava no envasamento da boca três cruzes com o dedo polegar.

A tecedeira, que o esperava no adro, abeirou-se dele mostrando-lhe a cara roxa da criança. O padre olhou-a de esconso, e per­guntou:

– É macho ou fêmea?

– É um menino – respondeu a viúva.

– Acenda um daqueles cotos – disse o abade ao Isidro, apontando para os sórdidos castiçais de chumbo dum altar. – A pia tem água?

– Vem aí o meu rapaz com o cântaro.

– Vocês são os padrinhos? O rapaz há-de chamar-se Isidro, ou então põe-se-lhe o nome do santo de hoje – observou o abade, boquejando e benzendo a boca, no limiar da porta travessa onde a mulher esperava, segundo o ritual.

– Hoje é dia dos Santos Reis – disse ela.

– É verdade – confirmou o padre, e cismou se Reis seria nome ou apelido. Não se lembrava de ter estudado esta espécie.

– Os Santos Reis Magos eram três – prosseguiu a tia Bernabé.

– Bem sei – acudiu o padre.

– Um chamava-se S. Belchior, outro S. Gaspar, outro S. Baltazar – explanou a devota dos magos orientais: – O menino pode chamar-se Belchior, se o sr. abade quiser.

– Eu quero tudo que vocês quiserem. Vamos a isto, que está um frio de rachar. – E, recolhendo-se à sacristia, esfregava as mãos, bufando-as com os gases do estômago ainda perfumados do vinho da ceia.

– Meu rico anjinho, irá ele morrer na água fria? – lamentava a boa criatura bafejando-lhe as duas faces.

O abade enfiou a sobrepeliz, revestiu a estola, mandou chegar o enjeitado ao baptistério, fez um resumo do latim cerimonial, e disse:

– Vão-se à vida.

– Vou-me daqui às Lagoas a ver se a Teresa do Eido me dá o peito a este anjinho, até ver se arranjo que algum lavrador me faça a esmola de um bocado de leite de cabra – disse a tia Bernabé.

– Então você não o leva à roda? – perguntou a abade esbugalhando o espanto nos olhos.

– Agora levo eu à roda o meu enjeitadinho! Já que Deus me não deu filhos…

– E tem muito que lhe dar você?

– Enquanto eu puder fiar uma meada e tecer uma teia, dou-lhe eu o meu caldo e o meu pão; depois, quando eu não puder, dá-mo ele. Casa e dois palmos de horta, graças a Deus, tenho eu, e não na devo a ninguém… O pior é que o pequeno, se lhe não acudo, morre de fome… Ai! meu Deus! há cadelas mais amoráveis que algumas mães.

– Ande lá… meta-se em trabalhos… – concluiu o abade, sa­fando-se com os cabeções do capote apanhados na testa.

*

A criança vingou, espigou e saiu robusta e menos mal encarada. Entre os sete e onze anos aprendia à ler, e nas horas vagas enchia as canelas do fiado ou dobava meadas.

Belchior Bernabé (assinava-se assim com satisfação da mãe adoptiva), deparado a algum romancista imaginoso, daria trela ao esvoaçar alto da fantasia, quanto à sua origem. A mãe poderia ser uma fidalga de Famalicão ou de Santo Tirso. O pai, com toda a verosimilhança, poderia fantasiar-se algum dos generais do exército realista ou liberal que, por aquele tempo, manobraram nessas paragens. Com estes dois elementos, a fidalga e o general, qualquer mediano talento, aproveitando o acessório das batalhas, compunha um romance de maus costumes, pelo que respeitaria ao enjeitado, e um livro histórico, pelo que interessaria à história da restauração da Carta Constitucional e do sistema representativo. Feito isto, o pequeno lucrava muito, sabendo nós que sua mãe era uma devassa recatada que, por noite desabrida de Janeiro, o mandou expor entre as raízes de uma árvore, em que os cevados foçavam luras com o focinho, e o não devoraram naquela madrugada porque estavam ainda cerrados nas suas pocilgas. Contanto que esta mãe desnaturada enjeitasse o filho, em respeito ao brasão e ao crédito, a criança ser-nos-ia mais simpática, as linhas de fina casta extremá-lo-iam entre as caras boçais da plebe, a auréola de nascimento misterioso banhá-lo-ia então da luz de um melancólico romance. Assim é; mas eu não sei quem fossem os pais de Belchior Bernabé. O rapaz, segundo ouvi dizer aos que o viram criança e adulto, era feio, espesso de cara, achamboado de pernas. Ninguém lhe farejava o pai nem a mãe pela semelhança do rosto: parecia-se com todas as mulheres e com todos os homens daquelas freguesias, onde as caras são achatadas sem ressalto de protuberância, ou, angulosas como as peras de sete cotovelos.

É maravilhoso este capricho fisiológico! A terra da Maia é um alfobre de moças bonitas, com os seios altos e alvos como pombas no ninho; os quadris elásticos e boleados têm saliências que vos le­vam cativo, e vos levarão doido se lhes virdes as lisas colunas em que a hera do verso de Camões lembra sempre…

Desejos que como hera se enrolavam.

E lembra sempre este verso e os outros convizinhos(2) por serem os Lusíadas um poema que se lê nas escolas, e se encontra no açafate de costura das educandas que puderam subtrair-se à morigera­ção pestilencial dos lazaristas.

Transpostos os limites da Maia, a primeira mulher que se vos depara na primeira freguesia do concelho de Famalicão é feia e su­ja até ao asco, escanelada, escalavrada no peito, veste-se a frisar com a desgraça da sua má figura. E daí até Braga, se vos apraz, podereis inalar em todo seu perfume a pura flor da castidade. Se há terra onde possam ermar e defecar-se de sensualismo santos tentadiços, é ali. Cada mulher é uma figa benta de que fogem os três inimigos da alma, principalmente o último.

*

Belchior, aí por Maio, mês das flores, da brotoeja e doutras fatalidades específicas, começou a amar. Tinha dezanove anos, carnadura rubra, ombros largos, assobiava como um melro, tangia cavaquinho, e amava a Maria Ruiva, filha do Silvestre Ruivo, o maior lavrador da freguesia. Este amor resguardava-se como um delito, e por isso mesmo se escandecia e refinava até à quinta-essência da paixão que está paredes meias do desastre. O enjeitado, se se afoitasse a alardear preferências nas atenções de Maria Ruiva, seria espancado pelos rivais ou por algum dos três padres tios da cachopa. Eram três clérigos afamados por façanhas de estudantes em Braga. Haviam militado nas guerrilhas da usurpação; terçaram de novo as armas em 1846, na carnificina de Braga; recolheram a casa depois da morte de Mac Donald, e diziam missas a oito vinténs para não se descaçarem no ofício.

Uma noite, quando um dos padres recolhia, enxergou um vulto esbatido no escuro do murtal que formava o tapume da eira de sua casa, e lobrigou por entre a sebe o alvejar de uma saia a fugir. Cresceu sobre o vulto como pau em programa de bordoada, e ouviu o estalido do perro de pistola. Susteve a pancada, e perguntou:

– Quem está aí?

– Sou o Belchior Bernabé.

– Que fazes aí?

– Nada, sr. padre João.

– Porque te escondeste?

– Não faço mal a ninguém, sr. padre João.

– Mas engatilhaste uma arma de fogo! – e acercou-se dele arremetendo. – Que queres tu desta casa, enjeitado? Servem-te as minhas sobrinhas…? – e atirou-lhe um epíteto que definia a natureza da mãe incógnita.

– Sr. padre João, olhe que, se me bate, eu, bem me custa, mas… atiro-lhe. Siga o seu caminho, e deixe estar quem está quedo e manso.

Padre João Ruivo sobraçou o marmeleiro ferrado, e murmurou:

– Tomo-te à minha conta, brejeiro!

E passou avante.

Ao apontar do sol, esporeou a égua para Famalicão, demorou-se com a autoridade administrativa, com os membros da comissão distrital, com o regedor, e saiu alegre. Ao outro dia, na porta da igreja de Santa Maria d’Abade, lia-se Belchior Bernabé, enjeitado, entre os mancebos apurados para o recrutamento.

E, entretanto, Silvestre, o pai de Maria, chamou ao sobrado da tulha três filhas que tinha, e disse:

– Qual foi uma de vocês que esteve esta noite na eira a conversar para o quinchoso com o enjeitado da Bernabé?

Duas responderam logo ao mesmo tempo:

– Eu não! – e acrescentaram:

– Cega eu seja d’ambos os olhos!

– Quebradas tenha eu as pernas!

– Má raios me partam!

A terceira, Maria, abaixou a cabeça, levou o avental de estopa aos olhos, e chorou.

– Foste tu? – exclamou o pai; e, pegando de um engaço, ia cravar-lhe os dentes na cabeça, quando as duas filhas lhe ferraram o pulso. O pai, homem possante de quarenta anos, sacudiu-se a custo das presas das valentes raparigas, largando-lhes o engaço, esmurraçou a outra com tamanho ímpeto de raiva que Maria caiu atordoada.

Em seguida, voltou-se para as duas filhas, e disse:

– Esta mulher fica fechada aqui, entendem vocês? Se quiserem, tragam-lhe o caldo; se não, que morra para aí, que a levem os diabos!

E, saindo, rodou a chave, e guardou-a na algibeira interior da véstia.

*

A tecedeira, quando Belchior, lavado em lágrimas, lhe disse que ia ser soldado, encostou o queixo às mãos postas em súplica, relançou os olhos à imagem do Bom Jesus do Monte, deteve-se instantes, e disse serenamente:

– Não irás para soldado, meu filho. O tio Silvestre Ruivo já me ofereceu dois centos por esta casa, com a condição de me deixar morrer nela. Vende-se a casa, ficas tu sem ela, mas onde quer se vive. Para soldado não vais, Belchior. Dás o dinheiro aos governos, como fazem os filhos dos lavradores ricos, e estás livre.

Belchior não cessava de chorar, e de vez em quando, por entre soluços, articulava palavras que a tecedeira, um tanto surda e de todo alheia dos amores do rapaz, não percebia.

– Não chores, moço! – insistia a velha, repetindo o expediente de vender a casa; e Belchior, por fim, obrigado a explicar-se, rompeu nesta exclamação:

– A Maria Ruiva está perdida e desgraçadinha!

– Credo!… tu que dizes, Belchior?!

O rapaz arrepelava-se; apanhava com as mãos a nuca, e batia com os cotovelos um contra o outro. Atirava-se de trambolhão sobre uma grande caixa de castanho, e jogava a cabeça contra os joelhos com a pasmosa elasticidade da sua aflição. Fazia aquilo porque não sabia as frases que nós, os maus romancistas, costumamos emprestar a esta espécie de sujeitos.

A tia Bernabé, ora lhe pegava na cabeça, ora nos braços, dizendo-lhe as mais carinhosas consolações. Por fim, o enjeitado, erguendo-se de salto, e olhando em redor tão sinistramente quanto cabe na rubrica de um drama e na pupila fulva do sr. Isidoro Sabino Ferreira na tragédia, disse com o esbofar das angústias vertigi­nosas:

– Assim com’ássim… mato-me!

Aqui foi um alto soluçar da tecedeira, um desentoado choro que alvorotou a vizinhança.

Belchior, assim que viu a casa a encher-se de gente, fugiu pela porta da cozinha, saltou valados, emboscou-se numa seara de centeio, e aí, estirado por terra sobre as loiras gabelas, chorou copiosamente.

A tia Bernabé pedia entretanto aos vizinhos que fossem atrás dele, porque o seu Belchior dissera que se matava.

O enjeitado deixou-se trazer como um ébrio nos braços dos vizinhos; e, chegando a casa, pediu que o deixassem deitar. Depois, ganhando ânimo – que é sempre certo, esgotadas as lágrimas – contou à tia Bernabé a sua curta história com Maria Ruiva, concluindo-a com uma revelação que eriçou os cabelos da velha.

*

Nessa mesma hora, a tecedeira saiu cambaleando e encostada às paredes, em demanda do abade.

Era ainda o mesmo que baptizara Belchior. Envelhecera e engordara. Meditava depois de jantar no destino da sua alma, assim que o destino do corpo lhe parecera consumado. Joana, a das sapatadas naquela anca de Hércules Farnésio, havia muito que cauterizava a consciência chagada, cortando o cabelo e cilhando os rins pecadores com a corda nodosa dos cilícios. O abade também sofrera um abalo rijo de contrição, a ponto de não substituir Joa­na, e calçar as meias directa e pessoalmente. Nesta espécie de amputação espontânea, não podendo criar processos de filosofia nova, como Pedro Abélard, comia às suas horas e profanava com silabadas o latim do missal. Prometia acabar bem.

A tia Bernabé referiu-lhe o que Belchior lhe confessara a respeito de Maria Ruiva.

– Eu bem lhe disse a você, mulher, que se metia em trabalhos, lembra-se? – recordou o abade.

– Sim, senhor, lembra… mas então? Ainda me não arrependo, se o sr. abade me fizer a caridade de falar ao Silvestre, e dizer-lhe que o melhor é, já agora, deixar casar a rapariga.

– Você – atalhou o padre – você, Bernabé, deu-lhe volta o miolo! O Silvestre dar a filha ao enjeitado!… Ora, mulher, peça a Deus juízo, e diga a esse tratante que se vá quanto antes sentar praça, antes que lhe dêem cabo da pele. Com que então!… o alma do diabo foi às do cabo, hein?

A tecedeira ouviu-o com o rosto lavado em lágrimas; e ele, solfejando as palavras iracundas ao compasso do rufo que fazia com a caixa prata sobre o braço da cadeira, prosseguiu:

– Forte maroto! Atrever-se a conversá-la, já era muito; mas isso que você me diz, mulher, só na forca! E então. uma rapariga sem nota, que já foi pedida pelo Francisquinho das Lamelas, que colhe oitenta carros e vinte pipas, afora o azeite!… E, vamos lá, era a melhor das irmãs, uma mocetona!… Com que então esse pa­tife disse-lhe mesmo que ela. daqui a pouco… já não pode escon­der o fruto do seu crime?

– Sim, senhor – balbuciou a tia Bernabé.

– Isto só no inferno! – volveu o abade, rebitando a ponta do nariz para dilatar a circunferência das ventas sobranceiras à pitada. – Isto só no inferno!…

– Valha-me Deus, sr. abade! – replicou timidamente a tecedeira. – Então a religião de Nosso Senhor Jesus Cristo não dá remédio a estas desgraças, que tantas vezes acontecem? No melhor pano cai uma nódoa. Logo que eles se casem, está tudo remediado, pois não está?…

– Está o quê?… Então uma rapariga de boa família, que tem três tios padres e que é filha dum capitão de ordenanças, casa-se assim com um enjeitado que você encontrou na bouça da igreja en­tre o mato!?…

– É verdade; mas todos somos filhos de Deus – argumentou a tia Bernabé, e mais longe iria na sua prelecção de caridade ao pastor, quando uma vizinha a chamou à porta da residência para lhe dizer que Belchior estava preso entre seis cabos de polícia que o levavam para soldado, e ele a mandava chamar para se despedir.

Ainda desceu precipitadamente as escaleiras a trémula velhinha; mas, a poucos passos, caiu de joelhos, amparou-se no valo, e debruçou-se desmaiada.

Entretanto, o regedor ordenava aos cabos que levassem o pre­so, visto que a tia Bernabé fora levada sem acordo para a residência. Belchior pediu que o deixassem ir lá despedir-se de sua mãe. O regedor voltou-lhe as costas, e acenou aos cabos que marchassem.

*

Em Famalicão deram-lhe uma guia, e enviaram-no entre seis espingardas para Braga. Ao outro dia era soldado.

A tia Bernabé procurou-o no quartel do Pópulo nesse mesmo dia. Quando o viu de cabeça tosquiada como cão morrinhoso, e coleira de couro preta, estonteou-se-lhe o juízo e esteve a pique de cair. O recruta, chorando com ela nos braços, apiedou o comandante da guarda, que os mandou entrar na casa das tarimbas. Daí a duas horas, tocou a corneta a recruta. Belchior já não tinha nome. Era o 29.

– Salta daí, 29! – bradou-lhe um anspeçada.

– Que é? – perguntou a tecedeira.

– Vou para o exercício, minha mãe.

Ela viu-o marchar com outros para o campo do exercício; e logo, a meio caminho do terreno das manobras, um furriel barbaçudo e de chibata lhe assentou na parte sobrejacente às pernas um pontapé instrutivo. Diga-se a verdade – era o primeiro.

A tecedeira, quando isto presenciou, saiu do campo estrangulada por soluços, entrou na Sé, e orou largo tempo com o rosto no pavimento. Depois levantou-se reanimada, e foi para a sua aldeia executar o que ficara convencionado com Belchior: vender a casa, e substituí-lo.

Pregou anúncios na porta da igreja e nas árvores vizinhas das estradas. O pai de Maria Ruiva muito queria comprá-la para arredondar um campo com a horta e armar na casa térrea um estábulo de bois para embarque; porém, receando que o seu dinheiro servisse a resgatar o soldado, consultou os irmãos clérigos. Padre João foi a Braga mexer os pauzinhos, disse ele; e, voltando sossegou o irmão:

– Compra a casa, que o enjeitado as correias não as bota fora do lombo.

O lavrador tinha oferecido duzentos mil réis, quando a tecedeira não pensava vender a casa onde nascera; mas agora, por terceira pessoa, mandou-lhe oferecer cento e quarenta.

A desventurada velha ia ceder, pensando que vinte moedas de ouro bastariam a resgatar o filho; neste aperto, uma beata de freguesia distante, e confessada do abade, lhe propôs a compra, a fim de passar a estação das penitências ali à beira do seu director espi­ritual. Esta mulher, que era virtuosa, foi desde logo difamada pelos padres Ruivos à conta do confessor que a dirigia; e o lavrador por sua parte enraivava-se sabendo que a Bernabé vendera a casa por duzentos mil réis. Padre João, conversando a tal respeito com o abade, desfechou-lhe esta ironia entre duas pitadas:

– Quando se está assim gordo, sr. abade, é preciso trazê-las para perto…

E o pastor, exulcerado na sua candura, cascalhou uns froixos de tosse de esgana, e gosmou:

– Se eu trouxesse para esta freguesia ovelhas de fora, talvez que o padre João me deixasse em paz as do meu rebanho…

Entendiam-se.

*

A tia Bernabé foi a Braga com o dinheiro e com um seu cunhado, que havia sido embarcadiço, e então era calafate em Vila do Conde. Por felicidade viera ele à terra ver os parentes; e, condoendo-se da paixão da cunhada, se oferecera a dar em Braga os passos necessários à baixa do Belchior. O requerimento foi indeferido. O calafate andou por advogados que lhe escreviam réplicas inúteis. Por fim, compreendeu que o rapaz havia de gemer sob o peso da vingança do lavrador. E como ele passara quarenta anos no mar e ali ganhara ódio às misérias da terra, tanto que soube que o rancor era de padres e o crime do rapaz era de amores, voltou-se para a cunhada e disse:

– O rapaz vai d’hoje a quinze dias para o Brasil. Tu pagas-lhe a passagem, e o resto fica por minha conta. Daqui até Vila do Conde é desertor; assim que sair a barra, é livre… olha… vês aquela andorinha? é livre como ela!

– E não hei-de tornar a vê-lo? – atalhou ela chorando.

– Se o não tornares a ver, que monta? Tens tu que fechar os olhos para sempre ou não? Qual queres tu: vê-lo aqui soldado, ou saber que ele está no Brasil a manobrar a sua vida? Deixa-o ir. A rapariga, quando ele chegar a Pernambuco, já lhe não lembra; e, se enjoar, então, é como quem deita o coração pelas goelas fora. Tu vens para Vila do Conde comigo. Tens que comer e uma enxer­ga onde durmas.

*

Em Março de 1852, fez-se à vela de Vila do Conde a barca Conceição. Entre os passageiros ia o desertor. Chamava-se aí Manuel José da Silva Guimarães, e nunca mais ouviu proferir o seu nome.

Quando a polícia deitava inculcas no concelho de Famalicão procurando a paragem da tia Bernabé, rendia ela a alma ao seu Criador em Vila do Conde. Vira desaparecer as velas da barca Conceição, ajoelhada no terraço do castelo. Depois, quedara-se de bruços a chorar. Levaram-na nos braços a casa do cunhado. As lágrimas secaram-se. Veio a febre e o delírio. Chamou, chamou por seu filho, até que Deus a chamou a ela. Não foi confessada nem ungida; mas morreu santa porque vivera santamente. Achara aquele enjeitadinho, criara-o, amara-o, vendera um cordão para o vestir jeitosamente a fim de o mandar à escola, vendera as arrecadas para lhe comprar fato novo quando foi à primeira confissão, vendera a casa e o tear e o leito onde morrera sua mãe para o remir de soldado. Padeceu grandes angústias quando soube que o filho do seu coração era culpado na desgraça de uma rapariga honesta. Cuidou que o padre, o pregador da caridade e da igualdade dos servos de Jesus Cristo, iria admoestar o lavrador abastado a conceder a filha para esposa do pobre. Esta santa cegueira da cristã é de crer que Deus lha perdoasse. Por fim, de virtude em virtude, e de dor em dor, logo que aos setenta anos de idade viu sumir-se para sempre o seu querido enjeitado, pediu a Deus por ele, por si, e… morreu.

Segunda parte

Vinte anos volvem-se tão depressa, que eu, neste salto que o leitor vai dar, não me despenderei a encher-lhe de frases o passadiço. O melhor é fechar os olhos e saltar.

Vinte anos! Que são vinte anos?

Nós ainda ontem éramos rapazes, ó velhos! Este ontem gastou vinte anos a resvalar para hoje. Que se passou neste lapso fugitivo de nossa vida entre a juventude e a velhice? Nada! Temos a nosso lado filhos homens, e netos que amanhã serão homens; e, todavia, parece que ainda ontem com um raio de sol e com o perfume de uma rosa compúnhamos o sorriso da loira mãe destes homens, que está hoje velha! Ainda ontem éramos poetas pelo amor, afoitos pela aspiração, valentes pela mocidade. Que grandes coisas de­vem ter-se passado nesse instante de vinte anos, enquanto esperávamos outras que nunca vieram! A cismar sempre com o futuro não o víamos passar. Afinal parou; e deixou-se conhecer porque marchava pesado, tardio e triste: era a velhice. Chegou de repente; escureceu-se-nos tudo como se as alegrias nos fulgissem do seio de um relâmpago. Esta treva foi instantânea, e gastou vinte anos a condensar-se. Que são vinte anos?

*

Em 1872, hospedou-se no hotel de Famalicão um brasileiro a quem os seus criados negros e brancos chamavam simplesmente o sr. Comendador. Não viera recomendado a algum dos barões da terra. Enviara adiante a recomendação da parelha das horsas, da caleche, dos lacaios. Representava quarenta anos florentíssimos. Basto bigode, suíça inglesa, espesso cabelo levantado em novelos crespos que lhe encantavam a fronte. Espáduas amplas, à proporção das pernas que se moviam rijas e baseadas em pés infalíveis co­mo os alicerces das pirâmides dos faraós. Trajava a primor, de preto, com um ar de pessoa que passeava de tarde na estrada de Braga, com o intento de ir à noite a Covent-Garden , ao Royal Ita­lian Opera . Fumava sempre uns charutos que vaporavam os aromas das recâmaras das sultanas. Na mesa, era de uma elegância frugal que desmentia a procedência. Olhava para o bife com um fastio tal e tamanha tristeza, que fazia lembrar Tertuliano quando, meditando na metempsicose, olhava para o boi cozido, e dizia: «Estarei eu comendo meu avô?»

Conquanto nem ele nem os criados declarassem os seus nomes e apelidos, os jornais do Porto haviam anunciado a chegada do maior capitalista de Pelotas, o sr. Manuel José da Silva Guimarães.

Nada de bioquices com o leitor: aí está Belchior Bernabé, o enjeitado.

*

Ao terceiro dia de hospedagem em Famalicão, o comendador cavalgou, acompanhou-se do lacaio e seguiu na direcção de Santiago de Antas.

– Vai ver a igreja que fizeram os moiros… – Calculou outro comendador da terra, e assim o comunicou a mais dois comendadores, atribuindo aos moiros a igreja dos cavaleiros de Rodes.

– Há-de ser isso – confirmou o mais correcto. – Este homem é mágico. O Guimarães do hotel já lhe perguntou se era nascido cá no Minho, e ele respondeu…

– Que não tinha a certeza – concluiu o outro. – Tem grande telha!

– Ontem, na feira, estava ele a ver vender duas juntas de bois para embarque. Quem nas vendia era o Silvestre Ruivo…

– Bem sei, o irmão daquele padre João que morreu há três anos de apoplexia.

– É isso. O telhudo, que não fala com ninguém, pôs-se a conversar com o Silvestre a respeito dos bois: depois levou-o à hospedaria, e deu-lhe de jantar. O Silvestre esteve depois comigo e vinha espantado de ver dois criados de casaca, bota de verniz, gravata branca e luvas, a servir à mesa. – E em que falaram vocês? – perguntei-lhe eu. Disse-me que o comendador lhe perguntara coisas e tal et coetera cá da província, e que ficara de ir a casa dele ver a corte dos bois. Mágico ou não? Olhem vocês! Vai ver os bois!

– Se fosse aqui há dez anos atrás – disse o comendador Nunes – valia-lhe a pena de ir ver as bezerras… Você ainda conheceu as Ruivas, a Antónia e a Chica, ó sor Leite?

– Ora, se conheci! Que fatias!…

– Que diriam vocês – volveu o sr. Nunes – se conhecessem a Maria que eu m’alembro de ver antes de ir em o Rio… Que pim­pona! Apanhou-a um enjeitado…

– Já ouvi contar esse caso.

– Você não sabe nada, perdoe. O enjeitado entrava em a escola do Zé Batata quando eu saía já pronto. Depois, lá tive notícias no Rio que a moça dera em droga. Ele foi preso para soldado e desertou; e ela nunca mais ninguém lhe pôs o olho no lombo. Uns dizem que está num recolhimento de convertidas, outros dizem que está fechada, desde que isso foi… há-de haver, João Nunes, há-de haver bons vinte anos…

– Isso é que é pai de febras!… fez muito bem! – aplaudiu o mais devasso.

*

Entretanto, chegava o comendador Guimarães à porta do ex-capitão de ordenanças Silvestre Lopes, de alcunha o Ruivo. Era esperado.

No patamal da escada que conduzia à vasta quadra chamada «a sala dos padres» estava o lavrador, entre três clérigos veneran­dos por sua idade: devia contar qualquer deles bastantes anos sobre setenta.

O comendador deu as rédeas do seu alazão ao lacaio, subiu prazenteiramente, apertando a mão a Silvestre, e cortejando os padres.

– V. Ex. a não se perdeu nos atalhos? – perguntou o lavrador.

– Quem tem boca vai a Roma – respondeu o comendador; e referindo-se aos padres:

– São seus manos, sr. Lopes?

– Dois são; o outro é o sr. abade.

O hóspede encarou-o muito a fito e perguntou:

– É abade há muitos anos nesta freguesia?

– Vim para aqui paroquiar em 1828, na idade de vinte e cinco anos; tenho setenta e seis; conte lá V. Ex. a .

– Está aqui há cinquenta e um anos feitos – acrescentou o padre Bento Lopes.

– Justamente, – confirmou o clérigo que baptizara Belchior, o enjeitado exposto na manhã de 6 de Janeiro de 1833.

O comendador não via naquele ancião um só traço do corpulento abade.

Conversaram sobre a guerra do Paraguai, sobre a emigração dos minhotos, sobre o estado florescente da indústria e da agricultura portuguesa. O lavrador, apoiando o comendador, encarecia a nossa prosperidade com este conciso, pesado e até certo ponto bicór­nio argumento:

– Vejam o dinheirame que dão os bois!

Estava a mesa posta no sobrado imediato, e à cabeceira da mesa a cadeira destinada ao hóspede.

– V. Ex. a vem para aqui – disse o lavrador apontando-lha com urbana homenagem. – Ninguém mais se sentou nessa cadeira desde que morreu o nosso irmão mais velho, padre João. Faz agora três anos que morreu dum estupor…

– De apoplexia – emendou o padre Hipólito.

– Tanto faz – replicou Silvestre. – Estava a dizer missa e caiu redondo no altar.

– É de crer que a sua alma estivesse preparada para esse transe – observou o comendador em tom compungido.

– Era bom padre – disse o abade, talhando à faca os canudos flexuosos da sopa de macarrão – isso era, coitado! Deus o tenha à sua vista!…

– Está aqui toda a sua família, sr. Silvestre? – perguntou o hóspede. – Se bem me recordo, disse-me na feira de Vila Nova que tinha filhos…

– Filhos, não, meu senhor. Tenho duas filhas.

– Três… – emendou o abade.

– Duas! – retorquiu desabridamente o lavrador, coruscando-lhe os olhos irados.

– Ah!, sim.., duas… eu agora estava distraído… – remediou o indiscreto.

E o comendador não perdia a mínima expressão das quatro fisionomias.

– Tenho duas filhas – repetiu o pai de Maria. – Uma está casada fora com um proprietário, já tem um filho em Braga para padre e outro a doutorar-se em Coimbra. A outra está em casa. Não quis casar e já está a caminhar para os trinta e sete anos. É a que governa a casa.

Este incidente passou. O comendador mostrava-se profundamente abstraído. Comeu pouquíssimo, e quase nada disse. Apenas, terminado o suplício da exposição do peru, do lombo de porco de vinho e alhos, da perna de vitela e do leitão, pediu licença para retirar-se, pretextando a precisão de estar cedo em Vila Nova.

O abade acompanhou-o, porque o brasileiro mostrou o desejo de ver umas sepulturas notáveis, de que certo romance dava notícia, no adro da igreja de Santa Maria(3) .

Os outros padres quiseram ir também; mas o comendador dispensou-os com delicada violência, prometendo voltar a vê-los mais de espaço.

O abade, mostradas as duas campas vazias, convidou o ricaço a subir à sua pobre residência.

– Com muita satisfação, sr. abade: simpatizo com V. S. a , quero mesmo granjear a sua amizade.

– Ó excelentíssimo senhor! que valho eu, pobre velho, e pobre abade da mais pobre das abadias!… Aqui gastei a vida, já ago­ra quero que esta terra, onde dormem tantos que baptizei, tantos que casei, me coma também os ossos.

O padre estava lugubremente palavroso. Havia ali uma flor de poesia elegíaca a entreabrir-se um pouco borrifada de mau vinho do Porto. Sentia-se expansivo.

Pensava o brasileiro em ocasionar conversação acerca do incidente, acontecido no jantar, sobre se eram duas ou três as filhas de Silvestre. Não foi preciso rodeios. O padre endireitou logo com o assunto nestes termos:

– O Silvestre é bom sujeito, bom paroquiano, amiguinho dos seus interesses, isso sim: mas desse pecado, se o é, está o inferno cheio. Porém, excelentíssimo senhor, tem este homem um modo de pensar a respeito da honra que não se conforma com a religião da caridade e do perdão. V. Ex. a havia de notar a ira com que ele disse que as suas filhas eram duas, quando eu, por descuido, disse que eram três. Conheci logo que andei mal, e emendei-me contra a minha consciência; mas enfim, eu estava a jantar em casa do homem, estava ali um cavalheiro respeitável, a civilidade mandou-me tapar a boca…

– Sim… eu notei que V. S. a , cedendo ao número das duas, fê-lo constrangidamente.

– Pois por isso mesmo que eu percebi que V. Ex. a notou, é que devo à minha posição de padre esclarecer a verdade diante do sr. comendador. Se quer ouvir a história… mas V. Ex. a disse que tinha pressa…

– Não, senhor. Queira dizer. Tenho muito tempo.

O abade saiu à janela, e disse para fora ao criado que fosse levar a égua pela fresca ao mato. Depois, fechando o trinco da porta da saleta, continuou, fazendo sentar o hóspede em uma cómoda cadeira de estofo, e ocupando ele outra de pregaria com espaldar de moscóvia:

– O Silvestre não tem duas filhas, tem três. A mais velha, que eu baptizei há trinta e nove anos, chama-se Maria. Esta rapariga, aqui há vinte anos, andou de amores com um enjeitado que por aqui se criou em casa de uma santa criatura, que o encontrou no mato da igreja, pelo lado de fora das campas que V. Ex. a viu há pouco. O diabo do rapaz desviou-a do bom caminho, e pô-la na mais mísera situação que em tais casos é possível. Enfim, a rapariga sentia-se mãe, quando um dos padres, que já lá está na presença de Deus, deu com eles em palestra de noite. Daí a dias, o Belchior (chamava-se assim o enjeitado), foi daqui preso para Braga, e deitaram-lhe as correias às costas. Passado pouco tempo, o soldado desertou, e foi para onde estivesse seguro. Agora falemos da moça. O pai moeu-a bem moída de pancadaria, fechou-a no sobrado de uma tulha, e mandava-lhe dar todos os dias duas tigelas de caldo, dois pedaços de pão, e uma caneca d’água. Dois ou três meses depois, apareceu-me aqui um calafate de Vila do Conde, que vinha a ser cunhado da tal Bernabé que criara o Belchior, e disse-me que sua cunhada morrera de saudades do desertor que não podia mais voltar à pátria; e que, antes de expirar, lhe pedira que viesse ter comigo e me rogasse, pelo divino amor de Deus, que fizesse eu todas as diligências por haver à mão o filho do seu Belchior, que ele, calafate, se encarregava de o levar para Vila do Conde. A falar verdade, era empreitada de costa arriba meter-me eu neste delicado negócio com o Silvestre; mas pedi forças a Deus e fui-me ter com ele. Contei-lhe o estado da filha, e ofereci-me para dar à criança, quando nascesse, o único destino possível em har­monia com os interesses da terra e os da divina religião da caridade de Jesus, que mandava chegarem-se a Ele as criancinhas. O homem ouviu, praguejou, berrou que ia matar a filha; e eu então, resolvido a tudo, disse-lhe sem temor que se ele matasse a filha iria eu acusá-lo de matador de duas vidas. O homem teve medo, e concluiu afinal que a criança me seria entregue; mas que a rapariga nunca mais veria sol nem lua… Estou maçando o sr. comenda­dor…

– Pelo amor de Deus! estou interessadíssimo nessa triste história…

– Tristíssima, Excelentíssimo Senhor! Eis que nasce um rapaz, e quem assistiu ao nascimento e mo trouxe foi uma viúva ser­va de Deus, minha confessada, que vivia aqui na casa que compra­ra à tal Bernabé. Fui eu que lhe pedi que merecesse a divina graça por esta obra de misericórdia. Já cá estava então em casa de uns parentes o calafate à espera do filho do Belchior. Entreguei-lho, e lá foi o pequeno para Vila do Conde, depois que o baptizei com o nome de seu pai.

– E esse menino… – atalhou o comendador, arrancando a pergunta das ânsias que a débil vista do abade não divisava.

– Eu lhe conto, meu senhor. Dois anos depois, morreu o calafate, e eis que a criada dele mo remete para aqui, dizendo que o patrão assim lho ordenara, para que eu o entregasse às irmãs e sobrinhas dele que moram aí numa freguesia ao pé. Chamei as tais mulheres, mostrei a criancinha, dei-lhes o recado do calafate falecido, e elas responderam que não queriam saber de histórias; que tomas­se o avô e a mãe conta dele, que eram bem ricos. A serva de Deus que morava, como já disse a Vossa Excelência, na casa que fora da tia Bernabé, tomou conta do enjeitadinho. Havia nisto mistério profundo! O pai fora criado na mesma casa onde era criado o filho, ambos sem pai nem mãe! Desgraçadamente, quando o pequeno ia nos seis anos, morre a benfeitora de morte repentina. Os parentes sacudiram dali o mocinho, e o Silvestre comprou a casa, botou-a abaixo e fez uma corte de bois. Ali daquela janela pode Vossa Excelência ver a corte onde foi a casa das duas santas mulheres. É aquela que branqueja por entre aqueles dois carvalhos.

O comendador foi à janela, reconheceu os arredores da extinta casa da sua infância, enxugou as lágrimas, voltando as costas ao abade, e tornou a sentar-se em frente ao ancião.

– Que havia eu de fazer-lhe? – prosseguiu o abade – trouxe para aqui o pequeno, e mandei-o à escola.

– Muito bem! muito bem! – exclamou arrebatado o brasileiro – muito bem, honrado homem! – e apertou-lhe a mão, le­vando-a aos lábios.

O abade, retirando a mão húmida de lágrimas, disse comovido:

– Fiz o meu dever, senhor! Oxalá que esta boa acção me seja descontada nas muitas que tenho ruins na minha vida…

– E depois, o pequeno… – atalhou pressurosamente o hós­pede.

– O pequeno, eu lhe digo… Agora tornemos a falar da mãe… Três anos e meio esteve fechada no tal cárcere. Via apenas uma irmã que lhe levava o alimento. Depois esteve em perigo de vida e pediu um confessor. Fui eu o chamado à falta de outro. No acto da confissão, disse-lhe que o seu filho estava em minha casa, e que passava por ser meu parente. Outros, sr. comendador, diziam que ele era meu filho e da mulher que o amparara. Perdoei aos caluniadores, para que Deus me perdoe os escândalos que dei: era justo que me difamassem por que eu dei azo a isso com os desatinos da minha mocidade. Maria, quando soube que tinha seu filho vivo, ganhou forças, quis viver, e venceu a doença. Dizia-me ela: «se eu viver, hei-de ter alguma coisa desta casa, e o que eu tiver será do meu filho: e, se eu morrer ficará pobrezinho de pedir». De pedir não – disse eu -, porque vou mandar-lhe ensinar um ofício, logo que ele chegue à idade de poder trabalhar. Perguntou-me então se eu sabia alguma coisa do Belchior. Fora da confissão, respondi-lhe que o calafate muito em segredo me dissera que ele fora para o Brasil. No primeiro ano, o calafate recebia a miúdo cartas do Belchior, que o rapaz escrevia à mãe adoptiva, cuidando que ela estava viva. O calafate escrevia para lá que a Bernabé tinha morrido; e o rapaz a escrever sempre à Bernabé. A opinião do calafate era que o Belchior andasse lá pelos sertões onde nunca lhe chegavam as cartas idas de Portugal. Depois, o calafate morreu. O que se passou daí em diante não sei. Foi isto que eu contei a Maria. Por fim, espalhou-se por aí que o Belchior tinha morrido; e eu aproveitei a notícia, quer fosse verdade, quer não, a fim de ver se o pai da pobre moça lhe dava alguma liberdade. Falei nisto a Silvestre, e em nome de Deus o fiz responsável pela privação em que a tinha da missa e dos sacramentos. Tanto lhe bati à porta da consciência dura, que consentiu deixá-la confessar-se e ouvir missa ao menos uma vez de três em três meses. Pouco e pouco, obtive que ela viesse à igreja de quatro em quatro semanas, e nessas ocasiões já ela sabia que o seu filho era o menino que me ajudava à missa. Uma vez entrou na sacristia, não estando mais ninguém na igreja; abraçou-se no filho e desfez-se em lágrimas. Deixei-a, coitadinha! mas depois pedi-lhe que não tornasse a fazer tal imprudência, porque, se alguém a visse, não tornaria a sair do seu cárcere. O rapaz, quando fez catorze anos, lia e escrevia correntemente. Mandei-lhe ensinar o ofício que escolhesse: quis ser carpinteiro, para o que tinha muita habilidade. Essa cadeira em que V. Ex. a está sentado fez-ma ele. Veja que bonita peça! pois ainda não tinha dado um ano ao ofício quando fabricou essa obra que parece feita no Porto!

– E está aqui nesta freguesia o tal Belchior? – perguntou o brasileiro.

– Não, meu senhor, está trabalhando em Braga; mas vem aqui todos os meses ver a mãe no dia em que ela se confessa.

– Todos os meses?

– Sim, senhor, na primeira segunda-feira de cada mês. D’ho­je a oito dias, se eu viver, hei-de ouvi-la de confissão, e dou de jantar ao meu Belchior.

– D’hoje a oito dias? Que prazer V. S. a me dava, sr. abade, meu honrado e querido amigo, se me consentisse que eu contemplasse na sua igreja essa mártir a rever-se no seu pobre filho! Seria possível?

– Pois não é?! apareça V. Ex. a na segunda-feira aí pelas seis horas de manhã, que é quando eu a confesso e lhe dou a comunhão. Vê-a a ela, e vê o rapaz que é ainda quem me ajuda à missa, e ministra o jarro da água à mãe, depois que ela comunga.

Eriçaram-se os cabelos ao comendador por uma espécie de eterização, mescla de entusiasmo, de arroubamento e de tristeza. Apertou ao seio as cãs do ancião, e beijou-o na fronte. O padre encarava-o com assombro, e ele murmurava:

– A sua história arrebatou-me!… Eu sou um homem que tenho a loucura da admiração pelas acções grandes. Se até hoje não acreditasse em Deus, cairia de joelhos a seus pés, confessando-o!

– Quem é que não acredita em Deus, meu amigo?! – perguntou o velho enxugando as lágrimas.

*

A segunda-feira aprazada raiou com todas as pompas e músicas e perfumes de uma aurora de Julho. O comendador Guimarães chegara de Braga, por volta da meia-noite, e ordenara ao escudeiro que o chamasse às quatro horas da manhã. Supérflua recomendação. Não dormira. Antes do alvorecer da manhã, chamara ele os criados, e mandara aparelhar os cavalos.

Às cinco e meia da manhã estava ele encostado a uma das campas do adro de Santa Maria de Abade. A distância, escarvavam os cavalos insofridos na terra barrenta de um montado calvo. O sol verberava em uma das frestas da igreja. Os pardais pipilavam na oliveira, naquela mesma que, trinta e nove anos antes, dera, nas suas raízes recurvas à flor da terra, um berço empapado de chuva àquele homem que ali se sentia feliz até ao extremo em que as palpitações de júbilo laceram o coração como as famas da agonia. As andorinhas chilreavam em redor da cornija da igreja, e, esvoaçando-se por longos círculos, cortavam de notas embaladas pelas ondas da luz o grande hino, que na terra se completa com as lágrimas dos que podem chorá-las de gratidão à Divina Providência.

Ele, Belchior Bernabé, chorava essas lágrimas benditas, contemplando a terra onde a tecedeira pobre se ajoelhara para o le­vantar regelado até ao peito, e ressuscitá-lo com um milagre da caridade.

Às cinco horas e três quartos ouviu passos que soavam na trempe de ferro que forma o limiar do adro. Correu pressuroso ao cunhal da igreja, e viu uma mulher com um capote aconchegado da face, encaminhando-se para a porta transversal. Simultaneamente chegava, transpondo de salto a parede, um rapaz de boa presença, vestido de azul, com o seu chapéu de felpo branco na mão. O comendador parou, encostado ao cunhal. A mãe e o filho abraçavam-se, quando deram tento daquele homem estranho.

– Quem é? – perguntou Maria.

– É figurão! – disse ele. – Eu vi aquele homem em Braga com o sr. deão e entraram no paço do sr. arcebispo. Ali abaixo na bouça estão dois cavalos, e um criado de libré. Hão-de ser dele…

– Queres tu ver que é um comendador que esteve em casa de teu avô faz hoje oito dias? Tua tia viu-o, e disse-me que ele era assim de bigode e suíças…

– Que estará ele a fazer aqui?

– Ele olha para nós?! – perguntou a mãe olhando-o de través por entre a fresta formada pelo capote em que se encapuzava.

– Não tira os olhos da gente… e parece que está assim a modo de quem quer perder os sentidos.

– Estará doente?… Ainda bem que aí está o sr. abade.

– E lá vai falar com ele, minha mãe…

– Então é o mesmo que eu te dizia.

– Belchior! – chamou o abade – pega lá a chave, e entrem que eu já vou.

O moço foi buscar a chave, beijou a mão ao padre, e abaixou a cabeça ao senhor desconhecido. O comendador, com os olhos cravados nele, movia-se num balanceado arfar de peito: era o esforço que punha em resistir aos ímpetos que o impulsionavam para o filho. O carpinteiro abriu a porta e entrou com a mãe na igreja, dizendo-lhe:

– Aquele sujeito estava a olhar para mim de um modo que parecia querer falar-me…

O brasileiro, depois que respondeu ao cumprimento do abade, perguntou-lhe:

– V. S. a terá dúvida em me ouvir de confissão?…

– Com muito contentamento, sr. comendador. Quando quer, V. Ex. a ?

– Agora. Desejo receber a comunhão juntamente com a sua confessada.

– Pois seja agora.

E dizia entre si o padre: «Este homem foi alumiado pela graça divina, e Deus Nosso Senhor escolheu o mais pecador dos seus ser­vos para instrumento da sua misericórdia com outro pecador!»

Entraram no arco da igreja de passagem para a sacristia. O abade curvou-se ao ouvido de Maria que fazia oração no altar do Santíssimo, e disse-lhe:

– Demora-te um pouquinho que eu vou confessar uma pessoa: – E, chamando Belchior: – Vai a casa, abre o segundo gavetão da cómoda, e traze a toalha grande de rendas que está engomada, para ministrar a comunhão àquele senhor que vou confessar.

*

O comendador saiu da sacristia meia hora depois, e foi ajoelhar no primeiro degrau do altar-mor. Maria, como visse sair o abade e acenar-lhe para o confessionário, ergueu-se, passou rente do desconhecido, com os olhos no chão, e a gola do capote apanhada nas faces.

Belchior tinha vindo com a toalha de folhos encanudados que desdobrava e ajeitava para o sagrado ministério. Depois, entrou na sacristia com o galheteiro, renovou a água e o vinho, dobrou e sacudiu a toalhinha de modo que a porção ainda não maculada servisse ao lavatório. De vez em quando, saía ao limiar da sacristia, e quedava-se a olhar para o comendador, que se conservava de joelhos, bom a cabeça abaixada, amparando a fronte nas mãos erguidas.

O abade saiu do confessionário a manquejar trôpego, amparando-se à teia gradeada de um altar. O filho de Maria Ruiva foi dar-lhe o braço, e o ancião queixava-se de dores reumáticas nos joelhos e nos rins. A confessada subiu até à capela-mor, e ajoelhou atrás do brasileiro, lendo actos de contrição e a ladainha.

O abade começara a revestir-se para ir celebrar, quando o comendador se levantou, e de passagem para a sacristia, relançando os olhos a Maria, pôde ver-lhe o rosto alumiado pela réstea refracta do sol que lampejava palpitante através da fresta, na superfície metálica de uns tocheiros doirados. Não a conheceria, se a encontrasse. Aquele rosto havia sido purpurino, acetinado como as pétalas das rosas húmidas pelo rociar das formosas madrugadas. Tivera as curvas boleadas e lisas da saúde, da força, dos atritos do ar forte e do sol que enrubesce a epiderme e colora o sangue.

Estava magra, angulosa e lívida como as santas esculturas sob a inspiração do martírio; mas esta maceração era a formosura divinal da alma, era a santificação da mulher aos olhos daquele ho­mem.

Entrou na sacristia, e com trémula voz, disse ao padre:

– Sr. abade, peço-lhe que antes de subir ao altar chame aqui a sua confessada.

– Aqui?! – perguntou o abade com espanto. – Ela é muito acanhada…

Presumia que o comendador desejava simplesmente ver de perto a mulher cuja desgraçada história o comovera.

– Não importa – volveu o brasileiro – é urgente que ela aqui venha antes que o sr. abade nos dê a comunhão.

– Sim?! – volveu o padre. – Pois bem…

E, saindo ao umbral da sacristia, chamou a filha de Silvestre.

Ela entrou com timidez e assombro. O filho, que suspendia ainda nas mãos as dobras da alva que o padre estava vestindo, largou-as, deixou pender os braços, e empedrou na expressão imóvel da curiosidade.

Neste lance, o comendador apresentou ao abade meia folha de papel selado, e pediu-lhe que a lesse. O padre pediu a Belchior que lhe chegasse os óculos, pô-los tremulamente, acercou-se de uma fresta, e, lendo primeiro a assinatura, disse:

– É a assinatura de sua eminência o sr. arcebispo de Braga?… Conheço-a…

Ergueu a vista ao alto da folha, e leu:

Concedemos ao abade de Santa Maria desta nossa diocese, no concelho de Vila Nova de Famalicão, que possa, sem prévia leitura de banhos, celebrar o sacramento do matrimónio entre os contraentes de maior idade…

Aqui, o abade estacou, abriu demasiadamente os olhos, acertou os óculos na base do nariz, premiu as pálpebras com o dedo polegar, repôs de novo os óculos, e disse ao filho de Maria:

– Ó rapaz, que nomes são estes que estão neste papel?

O carpinteiro leu: entre os contraentes de maior idade Belchior Bernabé, filho de pais incógnitos, e Maria Lopes, filha legítima de Silvestre Lopes e…

– Que é isto? – exclamou o abade – Santo Deus! que é isto?

– Belchior Bernabé – disse o rapaz com o mais cândido assombro – sou eu!…

– Belchior Bernabé é teu pai, meu filho! – exclamou o comendador, abraçando-o; e, ao mesmo tempo, encurvando o braço pelo colo de Maria, puxou-a para o peito, tocou-lhe com os lábios ardentes como as lágrimas na face, e murmurou-lhe soluçante: – Aqui me tens, minha desgraçada Maria! aqui está o pobre enjeitado!…

Ela expediu um grito estridente como o da alegria dos encarcerados, dos condenados à eterna desonra que viram inopinadamente golfar-lhes na treva a luz do Céu e a reabilitação da honra. Queria reconhecê-lo, tacteando-lhe as faces; mas faltou-lhe a claridade dos olhos e a lucidez da razão. Ela pedia luz, pedia a Deus que a não deixasse morrer, e desfalecia pendente do pescoço de Belchior.

*

A felicidade de Maria era santa : custara vinte anos de afrontas sofridas com paciência, sem revolta contra a implacável barbaridade do pai, nem contra a imobilidade das forças divinas. Esperara em Deus, esperara sempre. Dizia ela que sonhara aquilo mesmo – a vinda de Belchior, e a restauração da sua honra.

Contava-o ela ao abade, e ao esposo, e ao filho, à porta do templo; e ele, o ancião, com as rugas da face luzentes de lágrimas, dizia:

– Fui eu quem vos baptizou, e quem vos casou, meus filhos. Agora, enterrai-me vós que eu não tenho ninguém.

*

Belchior Bernabé exigiu como dote de sua mulher o estábulo dos bois edificado sobre os alicerces da casa onde fora recolhido e aquecido ao seio da tecedeira. Ali, onde foi cabana de candura e oração, está hoje um palacete com as mesmas coisas divinas, acrescentadas pela felicidade do amor. Vê-se de longe o palácio do co­mendador Belchior; e lá ao pé, no interior do palácio, as pompas da arquitectura e das decorações desaparecem deslumbradas pelo que há de imortal nas obras humanas: a virtude. Lá está o abade resignatário de Santa Maria entrevado; mas todas as manhãs é transferido da cama para a cadeira que lhe fez o seu Belchior Júnior, aquele rapaz que não resiste à vocação de carpintejar, e está fabricando uma nova cadeira de rodas e molas para o seu velhinho.

(1) Écloga III do Lima .
(2) Canto 2º, Est. XXXVI.
(3) Aludia à novela intitulada O Senhor do Paço de Ninães.


Extraído da revista Ficções

José Matias (Eça de Queirós)

Linda tarde, meu caro amigo!… Estou esperando o enterro do José Matias — do José Matias de Albuquerque, sobrinho do Visconde de Garmilde… O meu amigo certamente o conheceu — um rapaz airoso, louro como uma espiga, com um bigode crespo de paladino sobre uma boca indecisa de contemplativo, destro cavaleiro, duma elegância sóbria e fina. E espírito curioso, muito afeiçoado às idéias gerais, tão penetrante que compreendeu a minha Defesa da Filosofia Hegeliana! Esta imagem do José Matias data de 1865: porque a derradeira vez que o encontrei, numa tarde agreste de Janeiro, metido num portal da Rua de S. Bento, tiritava dentro duma quinzena cor de mel, roída nos cotovelos, e cheirava abominavelmente a aguardente.

Mas o meu amigo, numa ocasião que o José Matias parou em Coimbra, recolhendo do Porto, ceou com ele, no Paço do Conde! Até o Craveiro, que preparava as Ironias e Dores de Satã, para acirrar mais a briga entre a Escola Purista e a Escola Satânica, recitou aquele seu soneto, de tão fúnebre idealismo: Na jaula do meu peito, o coração… E ainda lembro o José Matias, com uma grande gravata de cetim preto, tufada entre o colete de linho branco, sem despegar os olhos das velas das serpentinas, sorrindo palidamente àquele coração que rugia na sua jaula… Era uma noite de Abril, de Lua-cheia. Passeamos depois em bando, com guitarras, pela Ponte e pelo Choupal. O Januário cantou ardentemente as endechas românticas do nosso tempo:

Ontem de tarde, ao sol-posto,
Contemplavas, silenciosa,
A corrente caudalosa
Que refervia a teus pés…

E o José Matias, encostado ao parapeito da Ponte, com a alma e os olhos perdidos na Lua! — Por que não acompanha o meu amigo este moço interessante ao Cemitério dos Prazeres? Eu tenho uma tipóia, de praça e com número, como convém a um Professor de Filosofia… O quê! Por causa das calças claras! Oh! meu caro amigo! De todas as materializações da simpatia, nenhuma mais grosseiramente material do que a casimira preta. E o homem que nós vamos enterrar era um grande espiritualista!

Vem o caixão saindo da igreja… Apenas três carruagens para o acompanhar. Mas realmente, meu caro amigo, o José Matias morreu há seis anos, no seu puro brilho. Esse, que aí levamos, meio decomposto, dentro de tábuas agaloadas de amarelo, é um resto de bêbedo, sem história e sem nome, que o frio de Fevereiro matou no vão dum portal.

O sujeito de óculos de ouro, dentro do cupê?… Não conheço, meu amigo. Talvez um parente rico, desses que aparecem nos enterros, com o parentesco corretamente coberto de fumo, quando o defunto já não importuna, nem compromete. O homem obeso de carão amarelo, dentro da vitória, é o Alves Capão, que tem um jornal onde desgraçadamente a Filosofia não abunda, e que se chama a Piada. Que relações o prendiam ao Matias?… Não sei. Talvez se embebedassem nas mesmas tascas; talvez o José Matias ultimamente colaborasse na Piada; talvez debaixo daquela gordura e daquela literatura, ambas tão sórdidas, se abrigue uma alma compassiva. Agora é a nossa tipóia… Quer que desça a vidraça? Um cigarro?… Eu trago fósforos. Pois este José Matias foi um homem desconsolador para quem, como eu, na vida ama a evolução lógica e pretende que a espiga nasça coerentemente do grão. Em Coimbra sempre o consideramos como uma alma escandalosamente banal. Para este juízo concorria talvez a sua horrenda correção. Nunca um rasgão brilhante na batina! nunca uma poeira estouvada nos sapatos! nunca um pêlo rebelde do cabelo ou do bigode fugido daquele rígido alinho que nos desolava! Além disso, na nossa ardente geração, ele foi o único intelectual que não rugiu com as misérias da Polônia; que leu sem palidez ou pranto as Contemplações; que permaneceu insensível ante a ferida de Garibáldi! E todavia, nesse José Matias, nenhuma secura ou dureza ou egoísmo ou desafabilidade! Pelo contrário! Um suave camarada, sempre cordial, e mansamente risonho. Toda a sua inabalável quietação parecia provir duma imensa superficialidade sentimental. E, nesse tempo, não foi sem razão e propriedade que nós alcunhamos aquele moço tão macio, tão louro e tão ligeiro, de Matias-Coração-de-Esquilo. Quando se formou, como lhe morrera o pai, depois a mãe, delicada e linda senhora de quem herdara cinqüenta contos, partiu para Lisboa, alegrar a solidão dum tio que o adorava, o general Visconde de Garmilde. O meu amigo sem dúvida se lembra dessa perfeita estampa de general clássico, sempre de bigodes terrificamente encerados, as calças cor de flor de alecrim desesperadamente esticadas pelas presilhas sobre as botas coruscantes, e o chicote debaixo do braço com a ponta a tremer, ‘vida de vergastar o Mundo! Guerreiro grotesco e deliciosamente bom… O Garmilde morava então em Arroios, numa casa antiga de azulejos, com um jardim, onde ele cultivava apaixonadamente canteiros soberbos de dálias. Esse jardim subia muito suavemente até ao mundo coberto de hera que o separava de outro jardim, o largo e belo jardim de rosas do Conselheiro Matos Miranda, cuja casa, com um arejado terraço entre dois torreõezinhos amarelos, se erguia no cimo do outeiro e se chamava a casa da “Parreira”. O meu amigo conhece (pelo menos de tradição, como se conhece Helena de Tróia ou Inês de Castro) a formosa Elisa Miranda, a Elisa da Parreira… Foi a sublime beleza romântica de Lisboa, nos fins da Regeneração. Mas realmente Lisboa apenas a entrevia pelos vidros da sua grande caleche, ou nalguma noite de iluminação do Passeio Público entre a poeira e a turba, ou nos dois bailes da Assembléia do Carmo, de que o Matos Miranda era um diretor venerado. Pôr gosto borralheiro de provinciana, ou por pertencer àquela burguesia séria que nesses tempos, em Lisboa, ainda conservava os antigos hábitos severamente encerrados, ou pôr imposição paternal do marido, já diabético e com sessenta anos — a Deusa raramente emergia de Arroios e se mostrava aos mortais. Mas quem a viu, e com facilidade constante, quase irremediavelmente, logo que se instalou em Lisboa, foi o José Matias — porque, jazendo o palacete do general na falda da colina, aos pés do jardim e da casa da Parreira, não podia a divina Elisa assomar a uma janela, atravessar o terraço, colher uma rosa entre as ruas de buxo, sem ser deliciosamente visível, tanto mais que nos dois jardins assoalhados nenhuma árvore espalhava a cortina da sua rama densa. O meu amigo decerto trauteou, como todos trauteamos, aqueles versos gastos, mas imortais:

Era no Outono, quando a imagem tua
Á luz da Lua…

Pois, como nessa estrofe, o pobre José Matias, ao regressar da praia da Ericeira em Outubro, no Outono, avistou Elisa Miranda, uma noite no terraço, à luz da Lua! O meu amigo nunca contemplou aquele precioso tipo de encanto Lamartiniano. Alta, esbelta, ondulosa, digna da comparação bíblica da palmeira ao vento. Cabelos negros, lustrosos e ricos, em bandós ondeados. Uma carnação de camélia muito fresca. Olhos negros, líquidos, quebrados, tristes, de longas pestanas… Ah! meu amigo, até eu, que já então laboriosamente anotava Hegel, depois de a encontrar numa tarde de chuva esperando a carruagem à porta do Seixas, a adorei durante três exaltados dias e lhe rimei um soneto! Não sei se o José Matias lhe dedicou sonetos. Mas todos nós, seus amigos, percebemos logo o forte, profundo, absoluto amor que concebera, desde a noite de Outono, à luz da Lua, aquele coração, que em Coimbra considerávamos de esquilo!

Bem compreende que homem tão cometido e quieto não se exalou em suspiros públicos. Já, porém, no tempo de Aristóteles, se afirmava que amor e fumo não se escondem; e do nosso cerrado José Matias o amor começou logo a escapar, como o fumo leve através das fendas invisíveis duma casa fechada que arde terrivelmente. Bem me recordo duma tarde que o visitei em Arroios, depois de voltar do Alentejo. Era um Domingo de Julho. Ele ia jantar com uma tia-avó, uma D. Mafalda Noronha, que vivia em Benfica, na Quinta dos Cedros, onde habitualmente jantavam também aos domingos o Matos Miranda e a divina Elisa. Creio mesmo que só nessa casa ela e o José Matias se encontravam, sobretudo com as facilidades que oferecem pensativas alamedas e retiros de sombra. As janelas do quarto do José Matias abriam sobre o seu jardim e sobre o jardim dos Mirandas: e, quando entrei, ele ainda se vestia, lentamente. Nunca admirei, meu amigo, face humana aureolada pôr felicidade mais segura e serena! Sorria iluminadamente quando me abraçou, com um sorriso que vinha das profundidades da alma iluminada; sorria ainda deliciadamente enquanto eu lhe contei todos os meus desgostos no Alentejo: sorriu depois extaticamente, aludindo ao calor e enrolando um cigarro distraído; e sorriu sempre, enlevado, a escolher na gaveta da cômoda, com escrúpulo religioso, uma gravata de seda branca. E a cada momento, irresistivelmente, por um hábito já tão inconsciente como o pestanejar, os seus olhos risonhos, calmamente enternecidos, se voltavam para as vidraças fechadas… De sorte que, acompanhado aquele raio ditoso, logo descobri, no terraço da casa da Parreira, a divina Elisa, vestida de claro, com um chapéu branco, passeando preguiçosamente, calçando pensativamente as luvas, e espreitando também as janelas do meu amigo, que um lampejo oblíquo do Sol ofuscava de manchas de ouro. O José Matias no entanto conversava, antes murmurava, através do sorriso perene, coisas afáveis e dispersas. Toda a sua atenção se concentrara diante do espelho, no alfinete de coral e pérola para prender a gravata, no colete branco que abotoava e ajustava com a devoção com que um padre novo, na exaltação cândida da primeira missa, se reveste da estola e do amicto, para se acercar do altar. Nunca eu vira um homem deitar, com tão profundo êxtase, água-de-colônia no lenço! E depois de enfiar a sobrecasaca, de lhe espetar uma soberba rosa, foi com inefável emoção, sem reter um delicioso suspiro, que abriu largamente, solenemente, as vidraças! Introibo ad altarem Deae ! Eu permaneci discretamente enterrado no sofá. E, meu caro amigo, acreditei! Invejei aquele homem à janela, imóvel, hirto na sua adoração sublime, com os olhos, e a alma, e todo o ser cravados no terraço, na branca mulher calçando as luvas claras, e tão indiferente ao Mundo como se o Mundo fosse apenas o ladrilho que ela pisava e cobria com os pés!

E este enlevo, meu amigo, durou dez anos, assim esplêndido, puro, distante e imaterial! Não ria… Decerto se encontravam na quinta de D. Mafalda: decerto se escreviam, e transbordantemente, atirando as cartas por cima do muro que separava os dois quintais: mas nunca, pôr cima das heras desse muro, procuraram a rara delícia duma conversa roubada ou a delícia ainda mais perfeita dum silêncio escondido na sombra. E nunca trocaram um beijo… Não duvide! Algum aperto de mão fugido e sôfrego, sob os arvoredos de D. Mafalda, foi o limite exaltadamente extremo, que a vontade lhes marcou ao desejo. O meu amigo não compreende como se mantiveram assim dois frágeis corpos, durante dez anos tão terrível e mórbido renunciamento… Sim, decerto lhes faltou, para se perderem, uma hora de segurança ou uma portinha no muro. Depois a divina Elisa vivia realmente num mosteiro, em que ferrolhos e grades eram formados pelos hábitos rigidamente reclusos do Matos Miranda, diabético e tristonho. Mas, na castidade deste amor, entrou muita nobreza moral e finura superior de sentimento. O amor espiritualiza o homem — e materializa a mulher. Essa espiritualização era fácil ao José Matias, que (sem nós desconfiarmos) nascera desvairadamente espiritualista; mas a humana Elisa encontrou também um gozo delicado nessa ideal adoração de monge, que nem ousa roçar, com os dedos trêmulos e embrulhados no rosário, a túnica da Virgem sublimada. Ele, sim! Ele gozou nesse amor transcendentemente desmaterializado um encanto sobre-humano. E durante dez anos, como o Rui Blas do velho Hugo, caminhou, vivo e deslumbrado, dentro do seu sonho radiante, sonho em que Elisa habitou realmente dentro da sua alma, numa fusão absoluta que se tornou consubstancial com o seu ser! Acreditará o meu amigo que ele abandonou o charuto, mesmo passeando solitariamente a cavalo pelos arredores de Lisboa, logo que descobrira na quinta de D. Mafalda, uma tarde, que o fumo perturbava Elisa?

E esta presença real da divina criatura no seu ser criou no José Matias modos novos, estranhos, derivando da alucinação. Como o Visconde de Garmilde jantava cedo, à hora vernácula do Portugal antigo, José Matias ceava, depois de S. Carlos, naquele delicioso e saudoso Café Central, onde o linguado parecia frito no céu, e o Colares no céu engarrafado. Pois nunca ceava sem serpentinas profusamente acesas e a mesa juncada de fores. Porquê? Porque Elisa também ali ceava, invisível. Daí esses silêncios banhados num sorriso religiosamente atento… Porquê? Porque a estava sempre escutando! Ainda me lembro dele arrancar do quarto três gravuras clássicas de Faunos ousados e Ninfas rendidas… Elisa pairava idealmente naquele ambiente; e ele purificava as paredes, que mandou forrar de sedas claras. O amor arrasta ao luxo, sobretudo amor de tão elegante idealismo: e o José Matias prodigalizou com esplendor o luxo que ela partilhava. Decentemente não podia andar com a imagem de Elisa numa tipóia de praça, nem consentir que a augusta imagem roçasse pelas cadeiras de palhinha da platéia de S. Carlos. Montou, portanto, carruagens dum gosto sóbrio e puro: e assinou um camarote na Ópera, onde instalou, para ela, uma poltrona pontifical, de cetim branco, bordado a estrelas de ouro.

Além disso, como descobrira a generosidade de Elisa, logo se tornou congênere e sumptuosamente generoso: e ninguém existiu então em Lisboa que espalhasse, com facilidade mais risonha, notas de cem mil-réis. Assim desbaratou, rapidamente, sessenta contos com o amor daquela mulher a quem nunca dera uma flor!

E, durante esse tempo, o Matos Miranda? Meu amigo, o bom Matos Miranda não desmanchava nem a perfeição, nem a quietação desta felicidade! Tão absoluto seria o espiritualismo do José Matias, que apenas se interessasse pela alma de Elisa, indiferente às submissões do seu corpo, invólucro inferior e mortal?… Não sei. Verdade seja! aquele digno diabético, tão grave, sempre de cachenez de lã escura, com as suas suíças grisalhas, os seus ponderosos óculos de ouro, não sugeria ideias inquietadoras de marido ardente, cujo ardor, fatalmente e involuntariamente, se partilha e abrasa. Todavia nunca compreendi, eu, Filósofo, aquela consideração, quase carinhosa, do José Matias pelo homem que, mesmo desinteressadamente, podia por direito, por costume, contemplar Elisa desapertando as fitas da saia branca!… Haveria ali reconhecimento por o Miranda ter descoberto numa remota rua de Setúbal (onde José Matias nunca a descortinaria) aquela divina mulher, e por a manter em conforto, solidamente nutrida, finamente vestida, transportada em caleches de macias molas? Ou recebera o José Matias aquela costumada confidência —”não sou tua, nem dele”— que tanto consola do sacrifício, porque tanto lisonjeia o egoísmo?… Não sei. Mas, com certeza, este seu magnânimo desdém pela presença corporal do Miranda no templo, onde habitava a sua Deusa, dava à felicidade de José Matias uma unidade perfeita, a unidade dum cristal que por todos os lados rebrilha, igualmente puro, sem arranhadura ou mancha. E esta felicidade, meu amigo, durou dez anos… Que escandaloso luxo para um mortal!

Mas um dia, a terra, para o José Matias, tremeu toda, num terramoto de incomparável espanto. Em Janeiro ou Fevereiro de 1871, o Miranda, já debilitado pela diabetes, morreu com uma pneumonia. Por estas mesmas ruas, numa pachorrenta tipóia de praça, acompanhei o seu enterro numeroso, rico, com Ministros, porque o Miranda pertencia às Instituições. E depois, aproveitando a tipóia, visitei o José Matias em Arroios, não pôr curiosidade perversa, nem para lhe levar felicitações indecentes, mas para que, naquele lance deslumbrador, ele sentisse ao lado a força moderadora da Filosofia… Encontrei porém com ele um amigo mais antigo e confidencial, aquele brilhante Nicolau da Barca, que já conduzi também a este cemitério, onde agora jazem, debaixo de lápides, todos aqueles camaradas com quem levantei castelos nas nuvens… O Nicolau chegava da Velosa, da sua quinta de Santarém, de madrugada, reclamando por um telegrama do Matias. Quando entrei, um criado atarefado arranjava duas malas enormes. O José Matias abalava nessa noite para o Porto. Já envergara mesmo um fato de viagem, todo negro, com sapatos de couro amarelo: e depois de me sacudir a mão, enquanto o Nicolau remexia um grogue, continuou vagando pelo quarto, calado, como embaçado, com um modo que não era emoção, nem alegria pudicamente disfarçada, nem surpresa do seu destino bruscamente sublimado. Não! se o bom Darwin não nos ilude no seu livro da Expressão das Emoções, o José Matias, nessa tarde, só sentia e só exprimia embaraço! Em frente, na casa da Parreira, todas as janelas permaneciam fechadas sob a tristeza da tarde cinzenta. E , todavia, surpreendi o José Matias atirando para o terraço, rapidamente, um olhar em que transparecia inquietação, ansiedade, quase terror! Como direi? Aquele é o olhar que se resvala para a jaula mal segura onde se agita uma leoa! Num momento em que ele entrara na alcova, murmurei ao Nicolau, por cima do grogue: — “O Matias faz perfeitamente em ir para o Porto…” Nicolau encolheu os ombros: — “Sim, pensou que era mais delicado… Eu aprovei. Mas só Durante os meses de luto pesado…” Às sete horas acompanhamos o nosso amigo à estação de Santa Apolónia. Na volta, dentro do cupê que uma grande chuva batia, filosofamos. Eu sorria contente: — “Um ano de luto, e depois muita felicidade e muitos filhos… É um poema acabado!” — O Nicolau acudiu, sério: — “E acabado numa deliciosa e suculenta prosa. A divina Elisa fica com toda a sua divindade e a fortuna do Miranda, uns dez ou doze contos de renda … Pela primeira vez na nossa vida contemplamos, tu e eu, a virtude recompensada!”

Meu caro amigo! Os meses cerimoniais de luto passaram, depois outros, e José Matias não se arredou do Porto. Nesse Agosto o encontrei eu instalado fundamentalmente no Hotel Francfort, onde entretinha a melancolia dos dias abrasados, fumando (porque voltara ao tabaco), lendo romances de Júlio Verne, e bebendo cerveja gelada até que a tarde refrescava e ele se vestia, se perfumava, se floria para jantar na Foz.

E apesar de se acercar o bendito remate do luto e da desesperada espera, não notei no José Matias nem alvoroço elegantemente reprimido, nem revolta contra a lentidão do tempo, velho por vezes tão moroso e trôpego… Pelo contrário! Ao sorriso de radiosa certeza, que nesses anos o iluminara com um nimbo de beatitude, sucedera a seriedade carregada, toda em sombra e rugas, de quem se debate numa irresolúvel, sempre presente, roedora e dolorosa. Quer que lhe diga? Nesse Verão, no Hotel Francfort, sempre me pareceu que o José Matias, a cada instante da sua vida acordada, mesmo emborcado a fresca cerveja, mesmo calçando as luvas ao entrar parar a caleche que o levava à Foz, angustiadamente perguntava à sua consciência: — “Que hei-de fazer? Que hei-de fazer?” — E depois, uma manhã, ao almoço, realmente me assombrou, exclamando ao abrir o jornal, com um assomo de sangue na face: “O quê! Já são 29 de Agosto? Santo Deus… Já o fim de Agosto!…”

Voltei a Lisboa, meu amigo. O Inverno passou, muito seco e muito azul. Eu trabalhei nas minhas Origens do Utilitarismo. Um domingo, no Rossio, quando já se vendiam cravos nas tabacarias, avistei dentro dum cupê a divina Elisa, com plumas roxas no chapéu. E nessa semana encontrei no seu Diário Ilustrado a notícia curta, quase tímida, do casamento da sra. D. Elisa Miranda… Com quem, meu amigo? — Com o conhecido proprietário, o sr. Francisco Torres Nogueira!…

O meu amigo cerrou aí o punho, e bateu na coxa, esperando. Eu também cerrei os punhos ambos, mas para os levantar ao Céu onde se julgam os feitos da Terra, e clamar furiosamente, aos urros, contra a falsidade, a inconstância ondeante e pérfida, toda a enganadora torpeza das mulheres, e daquela especial Elisa cheia de infâmia entre as mulheres! Atraiçoar à pressa, atabalhoadamente, apenas findara o luto negro, aquele nobre, puro, intelectual Matias! e o seu amor de dez anos, submisso e sublime!…

E depois de apontar os punhos para o Céu ainda os apertava na cabeça, gritando: — “Mas porquê? Porquê?” — Por amor? Durante anos ela amara enlevadamente este moço, e dum amor que se não desiludira nem se fartara, porque permanecia suspenso, imaterial, insatisfeito. Por ambição? Torres Nogueira era um ocioso amável como José Matias, e possuía em vinhas hipotecadas os mesmos cinquenta ou sessenta contos que o José Matias herdara agora do tio Garmilde em terras excelentes e livres. Então porquê? Certamente porque os grossos bigodes negros do Torres Nogueira apeteciam mais à sua carne, do que o buço louro e pensativo do José Matias! Ah! bem ensinara S. João Crisóstomo que a mulher é um monturo de impureza, erguido à porta do Inferno!

Pois, meu amigo, quando eu assim rugia, encontro uma tarde na rua do Alecrim o nosso Nicolau da Barca, que salta da tipóia, me empurra para um portal, agarra excitadamente no meu pobre braço, e exclama engasgado: — “Já sabes? Foi o José Matias que recusou! Ela escreveu, esteve no Porto, chorou… Ele nem consentiu em a ver! Não quis casar, não quer casar!” Fiquei trespassado. — “E então ela…” — “Despeitada, fortemente cercada pelo Torres, cansada da viuvice, com aqueles belos trinta anos em botão, que diabo! Coitada, casou!” Eu ergui os braços até à abóbada do pátio: — “Mas então esse sublime amor do José Matias?” O Nicolau, seu íntimo e confidente, jurou com irrecusável segurança: — “É o mesmo sempre ! Infinito, absoluto… Mas não quer casar:” — Ambos nos olhamos, e depois ambos nos separamos, encolhendo os ombros, com aquele assombro resignado que convém a espíritos prudentes perante o Incognoscível. Mas eu, Filósofo, e portanto espírito imprudente, toda essa noite esfuraquei o ato do José Matias com a ponta duma Psicologia que expressamente aguçara: — e já de madrugada, estafado, concluí, como se conclui sempre em Filosofia, que me encontrava diante duma Causa Primária, portanto impenetrável, onde se quebraria, sem vantagem para ele, para mim, ou para o Mundo, a ponta do meu Instrumento!

Depois a divina Elisa casou e continuou habitando a Parreira com o seu Torres Nogueira, no conforto e sossego que já gozara com o seu Matos Miranda. No meado do Verão José Matias recolheu do Porto a Arroios, ao casarão do tio Garmilde, onde recuperou os seus antigos quartos, com as varandas para o jardim, já florido de dálias que ninguém tratava. Veio Agosto, como sempre em Lisboa silencioso e quente. Aos domingos José Matias jantava com D. Mafalda de Noronha, em Benfica, solitariamente — porque o Torres Nogueira não conhecia aquela venerada senhora da Quinta dos Cedros. A divina Elisa, com vestidos claros, passeava à tarde no jardim entre as roseiras. De sorte que a única mudança, naquele doce canto de Arroios, parecia ser o Matos Miranda no seu belo jazigo dos Prazeres, todo de mármore — e o Torres Nogueira no leito excelente de Elisa.

Havia, porém, uma tremenda e dolorosa mudança — a do José Matias! Adivinha o meu amigo como esse desgraçado consumia os seus estéreis dias? Com os olhos, e a memória, e a alma, e todo o ser cravados no terraço, nas janelas, nos jardins da Parreira! Mas agora não era de vidraças largamente abertas, em aberto êxtase, com o sorriso de segura beatitude: era pôr trás das cortinas fechadas, através duma escassa fenda, escondido, surripiando furtivamente os brancos sulcos do vestido branco, com a face toda devastada pela angústia e pela derrota. E compreende porque sofria assim, este pobre coração? Certamente porque Elisa, desdenhada pelos seus braços fechados, correra logo, sem luta, sem escrúpulos, para outros braços, mais acessíveis e prontos… Não, meu amigo! E note agora a complicada subtileza desta paixão. O José Matias permanecia devotadamente crente de que Elisa, na profundidade da sua alma, nesse sagrado fundo espiritual onde não entram as imposições das conveniências, nem as decisões da razão pura, nem os ímpetos do orgulho, nem as emoções da carne — o amava, a ele, unicamente a ele, e com um amor que não deperecera, não se alterara, floria em todo o seu viço, mesmo sem ser regado ou tratado, como a antiga Rosa Mística! O que o torturava, meu amigo, o que lhe cavara longas rugas em curtos meses, era que um homem, um macho, um bruto, se tivesse apoderado daquela mulher que era sua! E que do modo mais santo e mais socialmente puro, sob o patrocínio enternecido da Igreja e do Estado, lambuzasse com os rijos bigodes negros, à farta, os divinos lábios que ele nunca ousara roçar, na supersticiosa reverência e quase no terror da sua divindade! Como lhe direi ?… O sentimento deste extraordinário Matias era o de um monge, prostrado ante uma Imagem da Virgem, em transcendente enlevo — quando de repente um bestial sacrílego trepa ao altar, e ergue obscenamente a túnica da Imagem! O meu amigo sorri… E então o Matos Miranda? Ah! meu amigo! esse era diabético, e grave, e obeso, e já instalado na Parreira, com a sua obesidade e a sua diabetes, quando ele conhecera Elisa e lhe dera para sempre vida e coração. E o Torres Nogueira, esse, rompera brutalmente através do seu puríssimo amor, com os negros bigodes, e os carnudos braços, e o rijo arranque dum antigo pegador de touros, e empolgara aquela mulher — a quem revelara talvez o que é um homem!

Mas, com os demônios! Essa mulher ele a recusara, quando ela se lhe oferecia, na frescura e na grandeza dum sentimento que nenhum desdém ainda ressequira ou abatera. Que quer?… É a espantosa tortuosidade espiritual deste Matias! Ao cabo de uns meses ele esquecera, positivamente esquecera essa recusa afrontosa, como se fora um leve desencontro de interesses materiais ou sociais, passado há meses, no Norte, e a que a distância e o tempo dissipavam a realidade e a amargura leve! E agora, aqui em Lisboa, com as janelas de Elisa diante das suas janelas e as rosas dos dois jardins unidos recendendo na sombra, a dor presente, a dor real, era que ele amara sublimemente uma mulher, e que a colocara entre as estrelas para mais pura adoração, e que um bruto moreno, de bigodes negros, arrancara essa mulher de entre as estrelas e a arremessara para a cama !

Enredado caso, hem, meu amigo? Ah! muito filosofei sobre ele, pôr dever de filósofo! E conclui que o Matias era um doente, atacado de hiperespiritualismo, duma inflamação violenta e pútrida do espiritualismo, que receara apavoradamente as materialidades do casamento, as chinelas, a pele pouco fresca ao acordar, um ventre enorme durante seis meses, os meninos berrando no berço molhado… E agora rugia de furor e tormento, porque certo materialão, ao lado, se prontificara a aceitar Elisa em camisola de lã. UM imbecil?… Não, meu amigo! um ultra-romântico, loucamente alheio às realidades fortes da vida, que nunca suspeitou que chinelas e cueiros sujos de meninos, são coisas de superior beleza em casa em que entre o sol e haja amor.

E sabe o meu amigo o que exacerbou, mais furiosamente, este tormento? É que a pobre Elisa mostrava por ele o antigo amor! Que lhe parece? Infernal, hem?… Pelo menos se não sentia o antigo amor intacto na sua essência, forte como outrora e único, conservava pelo pobre Matias uma irresistível curiosidade e repetia os gestos desse amor… Talvez fosse apenas a fatalidade dos jardins vizinhos! Não sei. Mas logo desde Setembro, quando o Torres Nogueira partiu para as suas vinhas de Carcavelos, a assistir à vindima, ela recomeçou, da borda do terraço, pôr sobre as rosas e as dálias abertas, aquela doce remessa de doces olhares com que durante dez anos extasiara o coração do José Matias.

Não creio que se escrevessem pôr cima do muro do jardim, como sob o regime paternal do Matos Miranda… O novo senhor, o homem robusto da bigodeira negra, impunha à divina Elisa, mesmo de longe, de entre as vinhas de Carcavelos, retraimento e prudência. E acalmada por aquele marido, moço e forte, menos sentiria agora a necessidade de algum encontro discreto na sombra tépida da noite, mesmo quando a sua elegância moral e o rígido idealismo do José Matias, consentissem em aproveitar uma escada contra o muro… De resto, Elisa era fundamentalmente honesta; e conservava o respeito sagrado do seu corpo, por o sentir tão belo e cuidadosamente feito por Deus — mais do que da sua alma. E quem sabe?… Talvez a adorável mulher pertencesse à bela raça daquela marquesa italiana, a Marquesa Júlia de Malfieri, que conservava dois amorosos ao seu doce serviço, um poeta para as delicadezas românticas e um cocheiro para as necessidades grosseiras.

Enfim, meu amigo, não psicologuemos mais sobre esta viva, atrás do morto que morreu por ela! O fato foi que Elisa e o seu amigo insensivelmente recaíram na velha união ideal, através dos jardins em flor. E em Outubro, como o Torres Nogueira continuava a vindimar em Carcavelos, o José Matias, para contemplar o terraço da Parreira, já abria de novo as vidraças, larga e extaticamente!

Parece que um tão estreme espiritualista, reconquistando a idealidade do antigo amor, devia reentrar também na antiga felicidade perfeita. Ele reinava na alma imortal de Elisa: — que importava que outro se ocupasse do seu corpo mortal? Mas não! o pobre moço sofria, angustiadamente. E, para sacudir a pungência destes tormentos, findou, ele tão sereno, duma tão doce harmonia de modos, por se tornar um agitado. Ah! meu amigo, que redemoinho e estrépito de vida! Desesperadamente, durante um ano, remexeu, aturdiu, escandalizou Lisboa! São desse tempo algumas das suas extravagâncias lendárias… Conhece a da ceia? Uma ceia oferecida a trinta ou quarenta mulheres das mais torpes e das mais sujas, apanhadas pelas negras vielas do Bairro Alto e da Mouraria, que depois mandou montar em burros, e gravemente, melancolicamente, posto na frente, sobre um grande cavalo branco, com um imenso chicote, conduziu aos altos da Graça, para saudar a aparição do Sol!

Mas todo este alarido não lhe dissipou a dor — e foi então que, nesse Inverno, começou a jogar e a beber! Todo o dia se encerrava em casa (certamente pôr trás das vidraças, agora que Torres Nogueira regressara das vinhas), com olhos e alma cravados no terraço fatal; depois, à noite, quando as janelas de Elisa se apagavam, saía numa tipóia, sempre a mesma, a tipóia do Gago, corria à roleta do Bravo, depois ao clube do “Cavalheiro”, onde jogava freneticamente até à tardia hora de cear, num gabinete de restaurante, com molhos de velas acesas, e o colares, e o champanhe, e o conhaque, correndo em jorros desesperados.

E esta vida, espicaçada pelas Fúrias, durou anos, sete anos! Todas as terras que lhe deixara o tio Garmilde se foram, largamente jogadas e bebidas: e só lhe restava o casarão de Arroios e o dinheiro apressado, porque o hipotecara. Mas, subitamente desapareceu de todos os antros de vinho e de jogo. E soubemos que o Torres Nogueira estava morrendo com uma anasarca!

Por esse tempo, e pôr causa dum negócio do Nicolau da Barca, que me telegrafara ansiosamente da sua Quinta de Santarém (negócio embrulhado, duma letra) procurei o José Matias em Arroios, às dez horas, numa noite quente de Abril. O criado, enquanto me conduzia pelo corredor mal alumiado, já desadornado das ricas arcas e talhas da Índia do velho Garmilde, confessou que S. Exa. não acabara de jantar… E ainda me lembro, com um arrepio, da impressão desolada que me deu o desgraçado! Era no quarto que abria sobre os dois jardins. Diante duma janela, que as cortinas de damasco cerravam, a uma mesa resplandecia, com duas serpentes, um cesto de rosas brancas, e algumas das nobres pratas do Garmilde: e ao lado, todo estendido numa poltrona, com o colete branco desabotoado, a face lívida descaída sobre o peito, um copo vazio na mão inerte, o José Matias parecia adormecido ou morto.

Quando lhe toquei no ombro, ergueu num sobressalto a cabeça, toda despenteada: — “Que horas são?” — Apenas lhe gritei, num gesto alegre, para o despertar, que era tarde, que eram dez, encheu precipitadamente o copo, da garrafa mais chegada, de vinho branco, e bebeu lentamente, com a mão a tremer, a tremer… Depois, arredando os cabelos da testa úmida: — “Então que há de novo?” — Esgazeado, sem compreender, escutou, como num sonho, o recado que lhe mandava o Nicolau. Pôr fim, com um suspiro, remexeu uma garrafa de champanhe dentro do balde em que ela gelava, encheu outro copo, murmurando: — “Um calor… Uma sede!…” Mas não bebeu: arrancou o corpo pesado à poltrona de verga, e forçou os passos mal firmes para a janela, a que abriu violentamente as cortinas, depois a vidraça… E ficou hirto, como colhido pelo silêncio e escuro sossego da noite estrelada. Eu espreitei, meu amigo! Na casa da Parreira duas janelas brilhavam, fortemente alumiadas, abertas à macia aragem. E essa claridade viva envolvia uma figura branca, nas longas pregas de um roupão branco, parada à beira do terraço, como esquecida numa contemplação. Era Elisa, meu amigo! Por trás, no fundo do quarto claro, o marido certamente arquejava, na opressão da anasarca. Ela, imóvel, repousava, mandando um doce olhar, talvez um sorriso, ao seu doce amigo. O miserável, fascinado, sem respirar, sorvia o encanto daquela visão benfazeja. E entre eles recendiam, na moleza da noite, todas as flores dos dois jardins… Subitamente Elisa recolheu, à pressa, chamada por algum gemido ou impaciência do pobre Torres. E as janelas logo se fecharam, toda a luz e vida se sumiram na casa da Parreira.

Então José Matias, com um soluço despedaçado, de transbordante tormento, cambaleou, tão ansiadamente se agarrou à cortina que a rasgou, e tombou desamparado nos braços que lhe estendi, e em que o arrastei para a cadeira, pesadamente, como a um morto ou a um bêbedo. Mas, volvido um momento, com espanto meu, o extraordinário homem descerra os olhos, sorri num lento e inerte sorriso, murmura quase serenamente: — “É o calor… Está um calor! Você não quer tomar chá?”

Recusei e abalei — enquanto ele, indiferente à minha fuga, estendido na poltrona, acendia tremulamente um imenso charuto.

Santo Deus! Já estamos em Santa Isabel! Como estes lagóias vão arrastando depressa o pobre José Matias para o pó e para o verme final! Pois, meu amigo, depois dessa curiosa noite, o Torres Nogueira morreu. A divina Elisa, durante o novo luto, recolheu à Quinta duma cunhada também viúva, à “Corte Moreira”, ao pé de Beja. E o José Matias inteiramente se sumiu, se evaporou, sem que me revoassem novas dele, mesmo incertas —tanto mais que o íntimo por quem as conheceria, o nosso brilhante Nicolau da Barca, partira para a ilha da Madeira, com o seu derradeiro pedaço de pulmão, sem esperança, pôr dever clássico, quase dever social, de tísico.

Todo esse ano, também, andei enfronhado no meu Ensaio dos fenômenos afetivos. Depois, um dia, no começo do Verão, descendo pela rua de S. Bento, com os olhos levantados, a procurar o n.214, onde se catalogava a livraria do Morgado de Azemel, quem avisto eu à varanda duma casa nova e de esquina? A divina Elisa, metendo folhas de alface na gaiola de um canário! E bela, meu amigo! mais cheia e mais harmoniosa, toda madura, e suculenta, e desejável, apesar de ter festejado em Beja os seus quarenta e dois anos! Mas aquela mulher era da grande raça de Helena que, quarenta anos também depois do cerco de Tróia, ainda deslumbrava os homens mortais e os Deuses imortais. E, curioso acaso! logo nessa tarde, pelo Seco, o João Seco da Biblioteca, que catalogava a livraria do Morgado, conheci a nova história de Helena admirável.

A divina Elisa tinha agora um amante… E unicamente por não poder, com a sua costumada honestidade, possuir um legítimo e terceiro marido. O ditoso moço que ela adorava era com efeito casado… Casado em Beja com uma espanhola que, ao cabo dum ano desse casamento e de outros requebros, partira para Sevilha, passar devotamente a Semana Santa, e lá adormecera nos braços dum riquíssimo criador de gado. O marido, pacato apontador de Obras Públicas, continuara em Beja, onde também vagamente ensinava um vago desenho… Ora uma das suas discípulas era a filha da senhora da “Corte Moreira”: e aí na Quinta, enquanto ele guiava o esfuminho da menina, Elisa o conheceu e o amou, com paixão tão urgente que o arrancou precipitadamente às Obras Públicas, e o arrastou a Lisboa, cidade mais propícia do que Beja a uma felicidade escandalosa, e que se esconde. O João Seco é de Beja, onde passara o Natal; conhecia perfeitamente o apontador, as senhoras da “Corte Moreira” ; e compreendeu o romance, quando das janelas desse n. 214, onde catalogava a Livraria do Azemel, reconheceu Elisa na varanda da esquina, e o apontador enfiando regaladamente o portão, bem vestido, bem calçado, de luvas claras, com aparência de ser infinitamente mais ditoso naquelas obras particulares do que nas Públicas.

E dessa mesma janela do 214 o conheci eu também, o apontador! Belo moço, sólido, branco, de barba escura, em excelentes condições de quantidade (e talvez mesmo de qualidade) para encher um coração viúvo, e portanto “vazio” como diz a Bíblia. Eu freqüentava esse n. 214, interessado no catálogo da Livraria, porque o Morgado de Azemel possuía, pelo irônico acaso das heranças, uma coleção incomparável dos Filósofos do século XVIII. E passadas semanas, saindo desses livros uma noite (o João Seco trabalhava de noite) e parando adiante, à beira dum portal aberto, para acender o charuto, enxergo à luz tremente do fósforo, metido na sombra, o José Matias! Mas que José Matias, meu caro amigo! Para o considerar mais detidamente, raspei outro fósforo. Pobre José Matias! Deixara crescer a barba, uma barba rara, indecisa, suja, mole como cotão amarelado: deixara crescer o cabelo, que lhe surdia em farripas secas de sob um velho chapéu-coco: mas todo ele, no resto, parecia diminuído, minguado, dentro duma quinzena de mescla enxovalhada, e dumas calças pretas, de grandes bolsos, onde escondia as mãos com o gesto tradicional, tão infinitamente triste, da miséria ociosa. Na espantada lástima que me tomou, apenas balbuciei: — “Ora esta! Você! Então que é feito?” — E ele, com a sua mansidão polida, mas secamente, para se desembaraçar, e numa voz que a aguardente enrouquecera: “Por aqui, à espera de um sujeito.” — Não insisti, segui. Depois, adiante, parando, verifiquei o que num relance adivinhara — que p portal negro ficava em frente ao prédio novo e às varandas de Elisa!

Pois, meu amigo, três anos viveu o José Matias encafuado naquele portal!

Era um desses pátios da Lisboa antiga, sem porteiro, sempre escancarados, sempre sujos, cavernas laterais da rua, de onde ninguém escorraça os escondidos da miséria ou da dor. Ao lado havia uma taverna. Infalivelmente, ao anoitecer, o José Matias descia a rua de S. Bento, colado aos muros, e, como uma sombra, mergulhava na sombra do portal. A essa hora já as janelas de Elisa luziam, de Inverno embaciadas pela névoa fina, de Verão ainda abertas e arejando no repouso e na calma. E para elas, imóvel, com as mãos nas algibeiras, o José Matias se quedava em contemplação. Cada meia hora, subtilmente, enfiava para a taverna. Copo de vinho, copo de aguardente; — e, de mansinho, recolhia à negrura do portal, ao seu êxtase. Quando as janelas de Elisa se apagavam, ainda através da longa noite, mesmo das negras noites de Inverno — encolhido, transido, a bater as solas rotas no lajedo, ou sentado ao fundo, nos degraus da escada — ficava esmagando os olhos turvos na fachada negra daquela casa, onde a sabia dormindo com outro!

Ao princípio, para fumar um cigarro apressado, trepava até ao patamar deserto, a esconder o lume que o denunciaria no seu esconderijo. Mas depois, meu amigo, fumava incessantemente, colado à ombreira, puxando o cigarro com ânsia, para que a ponta rebrilhasse, o alumiasse! E percebe porquê, meu amigo?… Porque Elisa já descobrira que, dentro daquele portal, a adorar submissamente as suas janelas, com a alma de outrora, estava o seu pobre José Matias!…

E acreditará o meu amigo que então, todas as noites, ou por trás da vidraça ou encostada à varanda (com o apontador dentro, estirado no sofá, já de chinelas, lendo o Jornal da Noite) ela se demorava a fitar o portal, muito quieta, sem outro gesto, naquele antigo e mudo olhar do terraço por sobre as rosas e as dálias? O José Matias percebera, deslumbrado. E agora avivava desesperadamente o lume, como um farol, para guiar na escuridão os amados olhos dela, e lhe mostrar que ali estava, transido, todo seu, e fiel!

De dia nunca ele passava na rua de S. Bento. Como ousaria, com o jaquetão roto nos cotovelos e as botas cambadas? Por que aquele moço de elegância sóbria e fina tombara na miséria do andrajo. Onde arranjava mesmo, cada dia, os três patacos para o vinho e para a posta de bacalhau nas tavernas? Não sei… Mas louvemos a divina Elisa, meu amigo! Muito delicadamente, pôr caminhos arredados e astutos, ela, rica, procurara estabelecer uma pensão ao José Matias, mendigo. Situação picante, hem? A grata senhora dando duas mesadas aos seus dois homens — o amante do corpo e o amante da alma! Ele, porém, adivinhou de onde procedia a pavorosa esmola — e recusou, sem revolta, nem alarido de orgulho, até com enternecimento, até com uma lágrima nas pálpebras que a aguardente inflamara!

Mas só com noite muito cerrada ousava descer à rua de S. Bento, e enfiar para o seu portal. E adivinha o meu amigo como ele gastava o dia? A espreitar, a seguir, a farejar o apontador de Obras Públicas! Sim, meu amigo! uma curiosidade insaciada, frenética, atroz, por aquele homem, que Elisa escolhera!… Os dois anteriores, o Miranda e o Nogueira, tinham entrado na alcova de Elisa, publicamente, pela porta da Igreja, e para outros fins humanos além do amor — para possuir um lar, talvez filhos, estabilidade e quietação na vida. Mas este era meramente o amante, que ela nomeara e mantinha só para ser amada: e nessa união não aparecia outro motivo racional senão que os dois corpos se unissem. Não se fartava, portanto, de o estudar, na figura, na roupa, nos modos, ansioso por saber bem como era esse homem, que, para se completar, a sua Elisa preferira entre a turba dos homens. Por decência, o apontador morava na outra extremidade da rua de S. Bento, diante do Mercado. E essa parte da rua, onde o não surpreenderiam, na sua pelintrice, os olhos de Elisa, era o paradeiro do José Matias, logo de manhã, para mirar, farejar o homem, quando ele recolhia da casa de Elisa, ainda quente do calor da sua alcova. Depois não o largava, cautelosamente, como um larápio, rastejando de longe no seu rasto. E eu suspeito que o seguia assim, menos por curiosidade perversa, do que para verificar se, através das tentações de Lisboa, terríveis para um apontador de Beja, o homem conservava o corpo fiel a Elisa. Em serviço da felicidade dela — fiscalizava o amante da mulher que amava!

Requinte furioso de espiritualismo e devoção, meu amigo! A alma de Elisa era sua e recebia perenemente a adoração perene: e agora queria que o corpo de Elisa não fosse menos adorado, nem menos lealmente, pôr aquele a quem ela entregara o corpo! Mas o apontador era facilmente fiel a uma mulher tão formosa, tão formosa, tão rica, de meias de seda, de brilhantes nas orelhas, que o deslumbrava. E quem sabe, meu amigo? talvez esta fidelidade, preito carnal à divindade de Elisa, fosse para o José Matias a derradeira felicidade que lhe concedeu a vida. Assim me persuado, porque, no Inverno passado, encontrei o apontador, numa manhã de chuva, comprando camélias a um florista da Rua do Ouro; e defronte, a uma esquina, O José Matias, escaveirado, esfrangalhado, cocava o homem, com carinho, quase com gratidão! E talvez nessa noite, no portal, tiritando, batendo as solas encharcadas, com os olhos enternecidos nas escuras vidraças, pensasse: — “Coitadinha, pobre Elisa! Ficou bem contente pôr ele lhe trazer as flores!”

Isto durou três anos.

Enfim, meu amigo, anteontem, o João Seco apareceu em minha casa, de tarde, esbaforido: — “Lá levaram o José Matias, numa maca, para o hospital, com uma congestão nos pulmões!”

Parece que o encontraram, de madrugada, estirado no ladrilho, todo encolhido no jaquetão delgado, arquejando, com a face coberta de morte, voltada para as varandas de Elisa. Corri ao hospital. Morrera… Subi, com o médico de serviço à enfermaria. Levantei o lençol que o cobria. Na abertura da camisa suja e rota, preso ao pescoço por um cordão, conservava um saquinho de seda, puído e sujo também. Decerto continha flor, ou cabelos, ou pedaço de renda de Elisa, do tempo do primeiro encanto e das tardes de Benfica… Perguntei ao médico, que o conhecia e o lastimava, se ele sofrera. — “Não! Teve um momento comatoso, depois arregalou os olhos, exclamou Oh! com grande espanto, e ficou.”

Era o grito da alma, no assombro e horror de morrer também? Ou era a alma triunfando por se reconhecer enfim imortal e livre? O meu amigo não sabe; nem o soube o divino Platão; nem o saberá o derradeiro filósofo na derradeira tarde do mundo.

Chegamos ao cemitério. Creio que devemos pegar às borlas do caixão… Na verdade, é bem singular este Alves Capão, seguindo tão sentidamente o nosso pobre espiritualista… Mas, Santo Deus, olhe! Além, à espera, à porta da Igreja, aquele sujeito compenetrado, de casaca, com paletó alvadio… É o apontador de Obras Públicas! E Traz um grosso ramo de violetas… Elisa mandou o seu amante carnal acompanhar à cova e cobrir de flores o seu amante espiritual! Mas, oh meu amigo, pensemos que, certamente, nunca ela pediria ao José Matias para espalhar violetas sobre o cadáver do apontador! É que sempre a Matéria, mesmo sem o compreender, sem dele tirar a sua felicidade, adorará o Espírito, e sempre a si própria, através dos gozos que de si recebe, se tratará com brutalidade e desdém! Grande consolo, meu amigo, este apontador com o seu ramo, para um Metafísico que, como eu, comentou Espinosa e Malebranche, reabilitou Fichte, e provou suficientemente a ilusão da sensação! Só pôr isto valeu a pena trazer à sua cova este inexplicado José Matias, que era talvez muito mais que um homem — ou talvez ainda menos que um homem… — Com efeito, está frio… Mas que linda tarde!

Extraído do ótimo site Alguns Textos.