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Archive for the ‘Escritores Ingleses’ Category

Se (Rudyard Kipling)

Túmulo de Leander Starr Jameson  – Foto de Geoff Train

Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,
de sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e – o que ainda é muito mais – és um Homem, meu filho!

* Tradução de Guilherme de Almeida

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A Cigarra e a Formiga (W. Somerset Maugham)

fevereiro 10, 2012 1 comentário
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A Cigarra e a Formiga de La Fontaine (Gustave Doré)
Quando eu era ainda muito pequeno, obrigaram-me a decorar algumas das fábulas de La Fontaine, e explicaram-me cuidadosamente a moral de cada uma. Entre elas, aprendi a da cigarra e da formiga, que pretende incutir nos jovens a útil lição de que num mundo imperfeito o trabalho é recompensado e a leviandade castigada. Nesta fábula admirável (peço desculpa por ir contar qualquer coisa que, por delicadeza, mas erradamente, se supõe que toda a gente sabe) a formiga passa o verão a trabalhar afanosamente para guarnecer a despensa, enquanto a cigarra se senta na relva a cantar ao sol.

O inverno chega, e a formiga está confortavelmente fornecida, mas a cigarra tem a despensa vazia: dirige-se à formiga e pede-lhe alguma comida. Então, a formiga dá-lhe a resposta clássica:

“O que é que andaste a fazer durante o verão?”
“Com o devido respeito, cantei, cantei dia e noite.”
“Ai cantaste? Então agora, dança.”Não atribuo o fato a perversidade da minha parte, mas antes à inconsequência da infância, a que falta sentido moral, mas realmente nunca aceitei bem esta lição. As minhas simpatias iam para a cigarra, e durante algum tempo nunca via uma formiga que não lhe pusesse um pé em cima. Desta maneira sumária (e, como tenho vindo a descobrir desde então, inteiramente humana) procurava exprimir o meu repúdio da sisudez e do senso-comum.
Não pude deixar de pensar nesta fábula quando outro dia encontrei George Ramsay a almoçar sozinho num restaurante. Nunca vi ninguém com uma expressão tão profundamente sombria. Olhava fixamente o espaço. Dava a impressão de que carregava o mundo inteiro sobre os ombros. Tive pena dele: desconfiei logo de que o infeliz irmão lhe tinha dado problemas outra vez. Dirigi-me a ele e estendi-lhe a mão.
“Como estás?” perguntei.
“Não estou muito bem disposto,” respondeu ele.
“Foi o Tom outra vez?”
Ele suspirou.
“Foi. Foi o Tom outra vez.”
“Por que é que não te vês livre dele? Já fizeste por ele tudo o que podias. Já devias saber que é um caso perdido.”
Parece-me que em todas as famílias há uma ovelha ranhosa. Tom fora uma dura provação para a sua, durante vinte anos. Começara a vida bastante bem: meteu-se no negócio, casou, e teve dois filhos. Os Ramsay eram pessoas perfeitamente respeitáveis, e tudo levava a crer que Tom Ramsay iria ter uma carreira útil e meritória. Mas um dia, sem aviso prévio, anunciou que não gostava do trabalho e que não estava talhado para o casamento. Queria gozar a vida. E não quis ouvir mais nada. Deixou a mulher e o escritório. Tinha algum dinheiro e passou dois anos felizes em várias capitais da Europa. Aos ouvidos dos familiares chegavam de vez em quando rumores do que ele andava a fazer, o que os chocava profundamente. Fartou-se de gozar, com certeza. Eles abanavam a cabeça e interrogavam-se sobre o que aconteceria quando se lhe acabasse o dinheiro. Em breve o ficaram a saber: pedia emprestado. Ele era encantador e não tinha escrúpulos. Nunca conheci ninguém a quem fosse tão difícil recusar um empréstimo. Conseguiu, dos amigos, uma receita certa, e ele fazia amigos muito facilmente. Mas sempre dizia que o dinheiro que se gastava para satisfazer as necessidades era enfadonho; o dinheiro que dava gozo gastar era aquele que se despendia em coisas supérfluas que dão prazer. Em relação a este, dependia do irmão George. Mas não desperdiçava com ele os seus encantos. George era um homem sério e insensível a tal tipo de sedução. Era um homem respeitável. Por uma ou duas vezes deixou-se levar pelas promessas de emenda de Tom e deu-lhe quantias consideráveis para que ele pudesse começar tudo de novo. Com esse dinheiro, Tom comprou um carro e algumas jóias lindíssimas. Mas quando as circunstâncias levaram George a aperceber-se de que o irmão nunca assentaria, e a lavar daí as mãos, Tom começou, sem o mínimo receio, a fazer chantagem com ele. Para um advogado tão respeitável, não era muito agradável encontrar o irmão atrás do balcão do bar do seu restaurante favorito a preparar cocktails, ou vê-lo ao volante de um taxi à saída do seu clube. Tom dizia que trabalhar num bar ou conduzir um taxi era um emprego perfeitamente decente, mas se George o obsequiasse com algumas centenas de libras não se importaria, por uma questão de honra da família, de desistir da idéia. E George pagou.
Uma vez aconteceu que Tom quase foi parar na cadeia. George ficou perturbadíssimo. Tomou todo aquele incômodo assunto em suas mãos. Realmente o Tom tinha ido longe demais. Já fora insensato, irrefletido e egoísta, mas até agora não fizera ainda nada de desonesto, isto é, ilegal, no dizer de George; e se fosse acusado seria, com toda a certeza, condenado. Mas não se pode permitir que o nosso único irmão vá para a prisão. O homem que Tom enganou, de nome Cranshaw, era vingativo. Estava decidido a levar a questão ao tribunal; dizia que Tom era um canalha e que devia ser punido. A resolução da questão custou a George quinhentas libras e um enormíssimo monte de trabalho. E nunca o vi tão furioso como quando soube que, mal levantaram o cheque, Tom e Cranshaw partiram juntos para Monte Carlo. Passaram lá um mês delicioso.
Durante vinte anos Tom apostou em corridas e jogou, flertou com as mais bonitas mulheres, dançou, comeu nos restaurantes mais caros e vestiu elegantemente. Tinha sempre o ar aprumado de quem tinha acabado de se arranjar para uma festa. Embora tivesse já quarenta e seis anos, ninguém lhe daria mais de trinta e cinco. Era um companheiro extremamente divertido e, embora sabendo-o um perfeito inútil, ninguém podia deixar de gostar da sua companhia. Era bem humorado, de uma alegria inabalável, e de um encanto incrível. Nunca regateei as contribuições que ele regularmente me pedia para satisfação das suas necessidades básicas. Nunca lhe emprestei cinquenta libras que fossem sem ficar com a sensação de que eu é que lhe ficava a dever. Tom Ramsay conhecia toda a gente, e toda a gente conhecia o Tom Ramsay. Ninguém podia concordar com o seu comportamento, mas também ninguém podia deixar de gostar dele.
O pobre George, um ano apenas mais velho do que o estouvado do irmão, parecia ter já sessenta anos. Durante um quarto de século, nunca tinha tirado mais do que quinze dias de férias por ano. Chegava ao escritório todas as manhãs às nove e meia e nunca saía antes das seis. Era honesto, trabalhador e digno. Tinha uma boa esposa, a quem nunca fora infiel, nem em pensamento, e quatro filhas para quem era o melhor dos pais. Fazia questão de poupar um terço do seu rendimento, e a sua idéia era aposentar-se aos cinqüenta e cinco anos e retirar-se para uma casinha no campo onde tencionava dedicar-se à jardinagem e ao golfe. A sua vida era irrepreensível. Sentia-se contente por estar envelhecendo, porque afinal com o Tom acontecia o mesmo. Esfregava as mãos e dizia:
“Quando Tom era jovem e bem parecido, ainda enfim, mas ele é apenas um ano mais novo do que eu. Daqui a quatro anos ele faz cinqüenta. Nessa altura não vai achar a vida assim tão fácil. Quando eu fizer cinqüenta já terei trinta mil libras. Há vinte e cinco anos que ando a dizer que o Tom vai acabar na sarjeta. E vamos ver como é que ele vai se dar nessa situação. E vamos ver então o que é que compensa mais, se trabalhar ou preguiçar.”
Coitado do George! Ofereci-lhe a minha solidariedade. Agora, ali sentado a seu lado, perguntava-me que coisa terrível não teria feito o Tom. George estava visivelmente muitíssimo perturbado.
“Sabe o que é que aconteceu agora?” perguntou-me.
Eu estava preparado para o pior. Perguntava-me se o Tom não teria finalmente caído nas mãos da polícia. Com alguma dificuldade George decidiu-se a começar:
“Você não pode negar que eu tenho sido trabalhador, honesto, respeitável e reto durante toda a minha vida. Depois de uma vida trabalhando e poupando, posso pensar numa aposentadoria com um pequeno rendimento de títulos de toda a confiança. Sempre cumpri com o meu dever na vida que a Providência me reservou.”
“É verdade.”
“E também não se pode negar que o Tom tem sido um patife preguiçoso, indigno, dissoluto, sem princípios. Se houvesse justiça, ele estaria num reformatório.”
“É verdade.”
George corou.
“Há poucas semanas ficou noivo de uma mulher com idade para ser mãe dele. E agora ela morreu e deixou-lhe tudo o que tinha. Meio milhão de libras, um iate, uma casa em Londres e uma casa no campo.”
George Ramsay deu um murro na mesa.
“Não é justo, digo, não é justo. Que diabo, não é justo.”
Não pude evitá-lo. Desatei à gargalhada quando vi o olhar irado do George, rebolei na cadeira, quase caí ao chão. O George nunca me perdoou. Mas o Tom convida-me muitas vezes para jantares excelentes na sua encantadora casa em Mayfair, e se ocasionalmente me pede um dinheirinho insignificante é apenas a força do hábito. Nunca mais do que uma libra.
* Texto extraído da “Página de Beatrix

O Tygre (William Blake)

Tyger – William Blake

Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?

Em que céu se foi forjar
o fogo do teu olhar?
Em que asas veio a chamma?
Que mão colheu esta flamma?

Que força fez retorcer
em nervos todo o teu ser?
E o som do teu coração
de aço, que cor, que ação?

Teu cérebro, quem o malha?
Que martelo? Que fornalha
o moldou? Que mão, que garra
seu terror mortal amarra?

Quando as lanças das estrelas
cortaram os céus, ao vê-las,
quem as fez sorriu talvez?
Quem fez a ovelha te fez?

Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?

* Tradução: Augusto de Campos

O Fantasma Inexperiente (H. G. Wells)

Meu pensamento volta-se, constantemente, para a derradeira história que Clayton contou, relembrando-a em todos os seus pormenores. Ele passara a maior parte do tempo no sofá, junto à lareira, estando a seu lado Sanderson, fumando um daqueles cachimbos especiais, que trazem seu nome gravado. Evans e Wish, este o famoso e tão modesto ator, faziam parte do reduzido grupo.

Era um sábado de manhã, e havíamos chegado ao clube todos juntos, exceto Clayton, que ali pernoitara, o que motivou esta história. jogáramos golfe até ao escurecer e, depois de cear, caíramos naquele estado de bem aventurança, quando se fica em condições de ouvir qualquer fantasia que nos contem. E assim que Clayton iniciou sua extraordinária narrativa, quisemos tachá-lo de mentiroso. A princípio, julgamos que se tratasse, apenas, de uma de suas anedotas reais, no que ele era mestre.

– Lá sabem que passei a noite sozinho, aqui? interrogou ele, depois de ter ficado muito tempo fitando as faúlhas que saiam das brasas, reanimadas por Sanderson. Com os criados… – emendou Wish.
Sim, mas que dormem na outra ala – retrucou Clayton, que, antes de prosseguir, soltou mais algumas baforadas do charuto. E, sem perder sua habitual fleuma, declarou, calmamente:
– Apanhei um fantasma.
– Um fantasma! – exclamou Sanderson. – E onde está ele?
Evans, que passara quatro semanas na América e era grande admirador de Clayton, gritou com sua voz anasalada:
– Você agarrou mesmo um fantasma, Clayton? Extraordinário! Vamos, conte, logo, como tal aconteceu!
Clayton pediu que fechássemos a porta e, olhando para mim, à guisa de desculpa, disse:
– Não quero chamar ninguém de bisbilhoteiro, mas não desejo divulgar a história e assustar nossos excelentes servidores. Os cantos escuros e os estranhos adornos da arquitetura do prédio dão margem à imaginação… E o fantasma a que me refiro, quero que saibam, era um fantasma incomum. E talvez nunca mais volte…
– Mas… você não o prendeu? – perguntou Sanderson.
– Faltou-me ânimo para tanto – respondeu Clayton.
Enquanto nós desatamos a rir, Sanderson dava mostras de surpresa e Clayton parecia perturbado.
– Parece mesmo singular, – disse, sorrindo contra- feito – mas a verdade é que lidei realmente com um fantasma, tão certo quanto estar aqui conversando com vocês. Nada de gracejos, sei bem o que falo.’
Sanderson mamava seu cachimbo, com mais vigor, concentrando seus olhos congestionados em Clayton e, após expelir uma espessa coluna de fumaça, resmungou algo a que Clayton não prestou atenção.
– Nunca me ocorrera uma aventura tão singular. Os amigos já conhecem minha descrença a esse respeito, mas, quando menos pensava nisso, apanho um fantasma, num dos cantos do prédio. Mergulhou de novo em reflexões e puxou do bolso outro charuto.
– Conversou com ele? – perguntou Wish, curioso.
– Uma hora, mais ou menos.
– E que lhe contou? – indaguei, chegando mais perto dos incrédulos.
0 coitado pareceu-me encabulado…
– Ele chorou? – perguntou outro.
Clayton suspirou, ao pensar nessa circunstância.
– Sim, coitadinho, chorava que dava dó.
– E onde o apanhou? – quis saber Evans, com seu sotaque americano.
– jamais poderia ter imaginado que um fantasma fosse uma coisa tão lamentável, – prosseguiu Clayton, ignorando a pergunta.
E, após essas palavras, deixou-nos de novo em suspenso, fingindo que declarava em encontrar os fósforos e acendia, depois, o charuto.
– Apenas, consegui aproveitar uma oportunidade disse, afinal, como que respondendo à pergunta anterior.
E, como ninguém o – interrompesse, prosseguiu:
– Posso afirmar que, mesmo sem o seu corpo, o caráter de uma pessoa permanece invariável, embora constantemente nos olvidemos disso. Indivíduos de vontade firme e forte dão espectros de firme e forte vontade. A maioria desses fantasmas obsedados que andam por aí deve ter uma idéia fixa qualquer, como qualquer maníaco, e se demonstram mais obstinados que um burrico. 0 meu pobre fantasma, porém, era diferente.

Levantou subitamente os olhos, de maneira estranha, e seu olhar pesquisou todos os cantos do recinto.
– Afirmo-o com a minha melhor boa-fé, pois é a pura verdade. Logo de início, percebi que se tratava de um débil mental. – Soltou umas baforadas e continuou. – Agarrei-o no fim do longo corredor. Ele me dava as costas e, por isso, eu o vi antes que me percebesse. Certifiquei-me imediatamente de que era um espectro, tanto era transparente e esbranquiçado. Através de seu tórax, eu distinguia o reflexo dos vidros da janelinha. Pelo seu físico e atitudes, deduzi-lhe a fraqueza. Ele não sabia, absolutamente, o que iria fazer. Segurava um dos adornos da janela, com uma das mãos, e a outra passava-a constantemente pela boca. Desta maneira…
– Qual seu aspecto?
– Muito magro. Seu pescoço parecia formar duas calhas, nas costas, aqui e aqui. Cabeça pequena, cabelos despenteados, orelhas disformes. Ombros imperfeitos e mais estreitos que os quadris. Usava um colarinho caído, casaco curto, calças remendadas, à altura dos joelhos, e mais alguns rasgões, logo abaixo. Tal seu aspecto. Eu ia subindo sossegadamente as escadas, sem levar luz, já que as velas costumam ficar cá embaixo, e ali existe uma lâmpada. Ao subir, vi-lhe os chinelos. Estaquei de súbito, ao notá-lo. . . e examinei-o. Não me incutiu medo algum.
Creio que, na maior parte de casos assim, o indivíduo não se assusta tanto como se poderia supor. Somente fiquei intrigado e surpreso. “Meu Deus!” exclamei, entre mim. “Finalmente, veio um fantasma! E justamente eu, que nunca acreditei nisso!”
– Hum! – rosnou Wish.

– Ao chegar ao patamar, o fantasma deu pela minha presença. Virou de novo a cabeça e dei com a cara de um jovem, nariz fino, bigode ralo e um esboço de barbicha. Ficamos alguns instantes a olhar um para outro. Olhava- me por cima do ombro. Afinal, pareceu recordar-se de suas altas funções. Esticou-se, virou-se de completo, espichou o rosto, estendeu a mão, no clássico estilo dos espectros, e veio para meu lado. Deixou cair seu pequeno queixo e emitiu um prolongado, mas fraco “Bu! No…” Como veem, nada de apavorante. Eu havia ceado muito bem e esvaziado uma garrafa de champanha, e, depois de ter ficado sozinho, tomara mais alguns copinhos de uísque, por isso me encontrava mais firme que uma rocha e não mais amedrontado do que se tivesse visto uma rã.

– Bu! – retribuí-lhe eu. – Deixe de ser bobo. Você não tem nada que fazer aqui. – Notei que ele estremecia.
– Buuu! – repetiu.
– Bu! Vá para o diabo! Você é sócio cá do clube? – Mexeu-se algo, como que querendo sair do caminho, mas seu aspecto parecia abatido.
– Não… não sou sócio do clube, – respondeu o espectro, ante a insistente interrogação de meus olhos. – Sou um fantasma.
– Muito bem, mas isso não o autoriza a frequentar o Clube Mermaid. Está procurando alguém por aqui? -Dito isto, acendi logo minha vela, para que ele não julgasse que meu tremor era de medo e não por causa do uísque que eu ingerira. Perguntei-lhe:
– Que está fazendo aqui? – 0 espectro deixou pender os braços, parando de rosnar, e ali se ficou, meio sem jeito, acabrunhado, nítida imagem de um fantasma frouxo, inocente, – sem vontade de ação.
– Estou dando uma voltinha… – respondeu, afinal. Seu lugar não é aqui, procure outras paragens.
– Eu sou um fantasma… – murmurou, como desculpa.
– Pode ser, mas aqui não é seu lugar. Este é um clube particular, bastante respeitável. Aqui, vêm, com frequência, pessoas com crianças, pajens, e, se algumas delas o encontrar por aí, pode ficar louca de susto. Não pensou ainda nisso?
– Não me havia ocorrido ainda essa hipótese, senhor.
– Pois devia ter pensado. Creio que não possui nenhum motivo ponderável para vir aqui, pois não? Suponho que não morreu assassinado nem sofreu morte violenta.
– Oh, não, meu senhor… mas, como esta casa é velha, possui seus enfeites de madeira, julguei. . .
– 0 pretexto é demasiado pueril – interrompi-o, fitando-o firme. – Foi um erro, sua vinda aqui – ajuntei, com amistosa superioridade. – Disfarcei, procurando fósforos nos bolsos, e olhei francamente para ele.
– Sabe que faria eu, em seu lugar? Procuraria evaporar-me, sumir daqui, antes do galo cantar. -Tais palavras deixaram-no perturbado.
– Na verdade, meu senhor… – Eu me evaporaria – repeti, com insistência.
– Mas, então… eu não posso…

– Não pode, não?
– Não, porque me esqueci de algo. Tenho andado vagando por aqui, desde a última meia-noite, escondendo-me nos armários dos quartos desocupados… e já meio desorientado, tonto. Fiquei desconcertado, pois nunca rondara, antes.
– Ficou desconcertado?
– Sim, senhor, não me saio nunca bem. Parece que olvidei alguma coisa… e não consigo lembrar-me de quê… – Essa circunstância impressionou-me bastante – afirmou Clayton. – Ele olhava para mim, tão desanimado, que me deixou incapaz de continuar mantendo aquele tom altivo e fanfarrão que adotara.
– Isso é muito singular – disse-lhe. – Nesse instante, julguei ouvir rumor, no andar inferior.
– Vamos para meu quarto e conte-me tudo, porque, até agora, nada compreendi .- convidei-o… Procurei puxá-lo por um braço, mas, está claro, foi como se tentasse segurar uma nuvem de fumaça. Penso que até me esquecera o número do quarto. Assim, entrei em vários aposentos, antes de descobrir o meu, e foi sorte estar ali sozinho, naquela parte do prédio.
– Bem, agora, sente-se e conte-me sua história – disse-lhe, sentando-me também. – Pelo que vejo, meu amigo, meteu-se numa enrascada. O fantasma declarou não desejar sentar-se e que preferia ficar andando pelo quarto. Não me opus e, dali a instantes, estávamos numa prosa animada. Assim que me libertei dos vapores do uísque, comecei a ter noção do caso absurdo, fantástico, em que me enredara. A minha frente, se encontrava, meio transparente, o tradicional fantasma, sem outro ruído a não ser o de sua voz sideral, e seu nervoso vaivém pelo quarto, recoberto de tapetes. Através do seu corpo, eu podia vislumbrar o reluzir dos candelabros de cobre, o resplendor dos abajures e os quadros nas paredes, ao passo que ele me ia narrando sua desditosa e breve odisséia. Sua feição não era lá muito honrada, mas podem crer que falava a verdade, tanto era transparente.
– Como? – interrogou Wish, levantando-se de pronto.
– Que quer saber? – perguntou, por sua vez, Clayton.
– Porque era transparente… não podia deixar de dizer a verdade?… Não estou entendendo nada – explicou Wish.
– Muito menos eu – ajuntou Clayton, com incrível seriedade. – Contudo, era essa minhá impressão. juro, até que não se afastou por nada da pura verdade. Contoume como morrera – descera a um porão londrino, para verificar um escapamento de gás, com uma vela na mão. E, quando isso ocorreu, exercia as funções de professor, numa escola particular de Londres.
– Pobre homem… – lamentei eu.
– Também fiquei com pena dele, e mais ele falava mais me comovia. Não tinha objetivo algum na vida e ficara fora dela. Falou-me, com desprezo, sobre seu pai, sua mãe, a respeito de seu professor, na escola, e de todos quantos conhecera no mundo. Tinha sido exageradamente impressionável e nervoso. Ninguém o havia apreciado verdadeiramente e muito menos o compreenderam, conforme contou. Penso que não chegou a ter nenhum amigo sincero nem jamais obtivera êxito algum. Mantivera-se alheio das diversões e fracassara em vários exames. Alegou que esquecia tudo, quando entrava na sala de exames. Estava noivo, naquela época, prestes a casar-se, com outra pessoa igualmente impressionável, quando o escapamento de gás pós termo aos seus amores.
– E onde foi você parar, depois da morte? – perguntei-lhe. – Não será em… A respeito disto, foi algo confuso. Parecia encontrar-se numa espécie de estado impreciso, intermediário, num lugar reservado às almas demasiado inexistentes para coisas tão positivas como o pecado e a virtude. Não soube explicar direito. Era bastante egoísta e indiferente para fornecer-me uma idéia clara quanto ao lugar ou região em que se encontrava. Muito além das coisas, estivesse onde estivesse, ele caíra, suponho, no meio de uma série de espíritos da mesma natureza; fantasmas de jovens londrinos, fracos, com os mesmos prenomes, entre os quais se devia falar muito em rondar. Sim, sair e rondar. Parece que, para esses fantasmas, o “rondar” fosse uma grande aventura e a maior parte deles não parava de falar nisso. Instigado, curioso, meu fantasma resolvera sair e… rondar.
– Ora, será isso possível? – perguntou, descrente, Wish.
– São as conclusões que tirei – respondeu Clayton, modestamente. – É bem possível que eu também me encontrasse num estado d’alma pouco favorável para discernir, mas essa impressão foi ele que ma deu. Não cessava de andar de um lado para outro, falando com voz fininha do seu mísero ego, porém sem nunca emitir uma declaração nítida e firme, do princípio até ao fim. Era bem mais minucioso, ingênuo e monótono do que se estivesse vivo e real. Se estivesse vivo, aliás, não o teria deixado em meu quarto. Teria saído dali a pontapés!
– Sim, – concordou Evans – há tipos dessa espécie.
– Mas que possuem tantas propriedades de ser fantasmas como os demais.

O que lhe dava algum interesse era sua convicção de lhe ser impossível desaparecer. A confusão que resultara de sua aventura deprimira-o de maneira incrível. Disseram-lhe que aquilo seria um mero passeio, e viera para cá esperando que assim fosse, mas encontrou apenas mais um fracasso a ajuntar aos de seu longo rol. Confessou-me, e acreditei, que jamais tentara coisa alguma, na vida, que não houvesse resultado num desastre e que isso continuaria acontecendo, pela eternidade afora. Caso tivesse encontrado simpatias, talvez… Não terminou e ficou a olhar para mim. Disse-me, ainda, que, por mais incrível que pareça, ninguém lhe havia dispensado nunca a dose de simpatia que eu lhe demonstrava. Adivinhei logo aonde queria chegar e decidi libertar-me dele, no mesmo instante. Pode ser que isso seja brutalidade de minha parte, mas, ser o único amigo sincero, o confidente de um desses débeis egoístas, seja ele homem ou fantasma, era algo superior à minha resistência física. Levantei-me de supetão.
– Não se iluda – disse-lhe. – 0 melhor que lhe resta a fazer é ir-se embora, sair imediatamente. Reúna suas forças e experimente.
– Não consigo… – murmurou.
– Experimente! – intimei-o. E ele experimentou.
– Experimentou?! – exclamou Sanderson. – E de que modo?
– Com passes – respondeu Clayton.
– Com passes?
– Sim, uma série de complicados movimentos, executados com as mãos. Fora assim que viera, e, assim, devia ir-se embora. Meu Deus! Que trabalho lhe custou!
– Mas, com uma série de passes. .. – comecei.
– Meu amigo, – interrompeu Clayton, voltando-se para mim e dando uma entonação especial às palavras – você quer que tudo seja bem explicado. Sei, apenas que ele executou esses passes. Após muitos esforços, conseguiu realizá-los perfeitamente, sumiu.
– Você prestou atenção nos passes? , indagou Sanderson, lentamente.
– Sim, – respondeu Clayton, que parecia refletir.
Foi uma coisa extraordinariamente inédita. Estávamos ali, ambos, o vago e transparente fantasma e eu, naquele silencioso quarto, naquela casa silente e vazia, numa silenciosa noite de sexta-feira, na pequena cidade. Não se ouvia o menor ruído, exceto nossas próprias vozes e um ligeiro arfar, que produzia o espectro ao executar seus gestos. Estávamos iluminados pela vela do quarto e por outra, que havia no aparador. Nada mais. Uma ou outra vez, as velas produziam, durante alguns segundos, uma chama alta e esquia. E, então, se passaram coisas estranhas.
– Não, não posso… – gemia o fantasma. – Nunca mais.
Sentou-se subitamente numa cadeira e começou a soluçar. Deus meu! Que modo horrível de chorar!
– Reúna suas forças! – disse-lhe. Tentei dar-lhe umas palmadinhas nas costas, porém, minha maldita mão atravessou por ele. Nesse instante, devem compreender, já não me sentia tão… firme como quando chegara à escada. Notava perfeitamente tudo quanto ocorria de incomum. Recordo-me de que retirei a mão dele, com um leve estremecimento, e que fui até à mesa do aparador.
– Reúna suas forças, – repeti – e experimente. E, no intuito de animá-lo e auxiliá-lo, procurei experimentar, também.
– Como! – exclamou Sanderson. – Os passes?
– Exatamente, os passes.
– Mas – disse eu, levado por uma idéia que não sabia traduzir.
– Muito interessante – comentou Sanderson, batendo a cinza do cachimbo. – Quer dizer que esse fantasma lhe revelou…
– Sim, fez tudo quanto pode para revelar o segredo da maldita barreira.
– Mas não o conseguiu, – interveio Wish, – nem poderia fazê-lo, pois, do contrário, você também teria sumido.
– Essa é precisamente a questão – concordou Clayton, olhando, pensativamente, para as chamas.
Houve um breve silêncio.
– E, afinal, conseguiu? – perguntou Sanderson.
– Finalmente, conseguiu-o. Envidei enormes esforços para que não desanimasse, mas, enfim, conseguiu-o. .. e bastante bruscamente. Estava já desesperado, tivemos uma cena, todavia, de súbito se levantou e pediu-me que fizesse todos os movimentos lentamente, para que os pudesse ver. Creio, confiou-me, que, se pudesse ver bem, descobriria o que não estava certo. E tal ocorreu.
– Agora já sei! – exclamou enquanto me observava os movimentos.
– Sabe o quê? – perguntei-lhe.
– Sim, já sei – repetiu, ajuntando, a seguir, mal-humorado. – Se fica assim a olhar para mim, nada posso fazer. Na verdade, não posso. E é por isso que até agora nada fiz. Sou de tal modo nervoso que o senhor me desconcerta. Entabulamos uma discussão. Certamente, eu queria ver como fazia, mas ele era mais teimoso que um burro, e eu me senti, de súbito, exausto, sem forças. Virei-me para o espelho do armário próximo da cama. Iniciou uma série de movimentos, muito rápidos. Procurei acompanhá-lo pelo espelho, para ver qual deles tinha esquecido. Seus braços e mãos rodopiavam, assim e assim, e depois veio, precipitadamente, o gesto final, – o corpo erguido e os braços abertos – e nesta atitude ficou. E, de repente, não mais o vi! já ali não se encontrava! Rodei sobre meus calcanhares e olhei. Nada! Eu estava so, diante da chama das velas, e com o espírito vacilante. Que teria acontecido? Tudo teria sido um sonho?. . . E aí, num tom absurdo de remate final, o relógio do patamar julgou chegado o momento de dar UMA hora. Assim: Ping! E eu me encontrava tão sério e tão atento quanto um juiz, sem vestígios de minha champanha nem de meu uísque. Mas, presa de estranha sensação, compreendem? Horrivelmente estranha! Singular! Santo Deus!
Olhou um momento para a fumaça do charuto e acrescentou:
– E foi tudo quanto aconteceu.
– E, depois, foi deitar-se? – indagou Evans.
– Que mais poderia fazer?
Olhei Wish, bem dentro dos olhos. Queríamos gracejar, mas havia algo na voz e nos gestos de Clayton que se opunha ao nosso desejo.
– E os passes? – perguntou Sanderson.
– Creio que seria capaz de executá-los, neste momento.
– Oh! – exclamou Sanderson, puxando um canivete e raspando a cinza do cachimbo. – Por que não os faz, agora?
– Vou fazê-los já! – disse Clayton.
– Nada conseguirá – profetizou Evans.
– Mas, se conseguir. . . – observei.
– Ouça, eu preferiria que o não fizesse – disse Wish.
– Por quê? – interveio Evans.
– Eu preferiria que o não fizesse, repetiu Wish.
– Mas, se já aprendemos bem … volveu Sanderson, enchendo de fumo o cachimbo.
– De qualquer modo, eu preferiria que não o fizesse! insistiu Wish.
Discutimos com Wish, o qual afirmava que, permitir a Clayton executar tais gestos, era como que brincar com algo de sério, de misterioso.
– Mas você não vai acreditar nisso, vai? – disse eu.
Wish lançou um olhar de esguelha a Clayton que, com os olhos presos ao fogo, refletia sobre qualquer determinação de seu espírito.
– Eu creio… pelo menos, mais da metade, sim, acredito… – respondeu Wish, em tom sério.
– Clayton, – falei – você é um inventor de histórias bom demais, para nós todos. Quase tudo quanto você contou estava certo. Mas… essa coisa de desaparecer… não me convenceu muito. Vamos, fale, trata- e de um conto terrorífico?
Clayton ficou de pé, sem prestar atenção às minhas palavras, pondo-se ao centro do tapete, bem na frente de mim. Por alguns minutos, olhou pensativamente para os próprios pés e passou, depois, a fitar intensamente a parede oposta, com expressão decidida. Ergueu lentamente ambas as mãos à altura dos olhos e, assim, começou…
Agora, muito bem, Sanderson era maçom e pertencia à loja dos Quatro Reis, que, com tanta pericia, se dedica ao estudo e esclarecimento de todos os mistérios da maçonaria passada e presente. E, entre os pesquisadores dessa loja, Sanderson não era de maneira alguma dos mais insignificantes. Acompanhava os movimentos de Clayton, com invulgar interesse, refletido em seus olhos avermelhados.
– Não vai indo mal – observou, quando Clayton terminou. – Na verdade, você consegue fazer isso de maneira assombrosa. Falta, todavia, um pequeno detalhe.
– já sei! – respondeu Clayton. – E penso que lhe poderei dizer qual.
– Sim?
– Veja, este – disse Clayton, fazendo um movimento, que consistia em retorcer as mãos e atirá-las para a frente.
– Exatamente.
– Quero que saibam que este era o que ele não conseguia executar bem, mas, como VOCÊ …
– Eu não entendo quase nada desse negócio e, principalmente, como. pode você inventá-lo – retrucou Sanderson – esse gesto, porém, eu o conheço, está claro. – Refletiu um instante e continuou: – Em resumo, trata-se de uma série de sinais relativos a certo ramo de maçonaria esotérica … Com certeza, você os conhece… pois, do contrário … como?
Tornou a refletir mais ainda, e prosseguiu:
– Não penso que haja mal algum em revelar-me o sinal exato. Além disso, se você já o conhece, melhor para si, mas, se o não conhece, fica tudo na mesma.
– Eu nada sei, além do que me ensinou o pobre, naquela noite – declarou Clayton.
– Então, tanto faz – murmurou Sanderson, pousando o cachimbo, cuidadosamente, no modilhão. Em seguida, passou a executar rápidos movimentos, com as mãos.
– É assim? – perguntou Clayton, imitando-o.
– Isso mesmo! – certificou Sanderson. voltando a pegar o cachimbo.
– AGORA, – disse Clayton – sou capaz de executar a série toda… bem.
Encontrava-se de pé, diante do fogo, que ia morrendo, e sorria para nós. Contudo, pareceu-me haver certa hesitação naquele sorriso.
– Vou começar… – preveniu-nos.
– Em seu lugar, eu não começaria, – observou Wish.
– Nada poderá acontecer – afirmou Evans. – A matéria é indestrutível. Você não irá pensar que uma invenção dessas seja capaz de lançar Clayton para o mundo das sombras. Teria graça! Quanto a mim, Clayton, pode bracejar à vontade, até que seus braços se separem dos punhos.
– Não concordo com isso – atalhou Wish, que se levantou e pôs a mão no ombro de Clayton. – Saiba que quase me fez acreditar em sua história, por isso, não quero que faça tal coisa.
– Valha-me Deus! – exclamei – Parece que Wish está assustado!
– Sim, estou – confessou Wish, com veemência real, ou notavelmente fingida. – Penso que, se fizer tais gestos esotéricos, acabará desaparecendo.
– Nada disso acontecerá! – exclamei. – Os homens somente podem sair deste mundo por um caminho, e Clayton ainda tem mais de trinta anos à sua frente. Você não julga que…
Wish interrompeu-me, todo agitado. Saiu de entre nossas poltronas e, parando junto à mesa, gritou:
– Clayton, você está maluco! Clayton voltou-se sorrindo, com um brilho humorístico no olhar.
– Wish tem razão – disse – e vocês; todos estão equivocados. Desaparecerei. Levarei até ao fim estes passes, e, quando o derradeiro movimento rasgar o ar … pronto! Este tapete ficará vazio, a sala ficará inundada de mudo assombro, e um cavalheiro de noventa e cinco quilos, decentemente trajado, mergulhará em cheio no mundo das sombras! Tenho certeza disso, e vocês também não tardarão em tê-la. Desisto de continuar a discussão por mais tempo. Que se faça a prova!
– NAO! – intimou Wish, dando mais–um passo à frente.
Mas estacou, e Clayton ergueu as mãos, mais uma vez, para repetir os passes do fantasma.
Naquele instante, nos encontrávamos numa deplorável tensão de espírito, principalmente por causa da atitude de Wish. Permanecíamos imóveis, olhares fixos em Clayton, e eu, pelo menos, experimentava uma estranha sensação de tensão e rigidez, como se, desde a nuca aos músculos, meu corpo fosse de aço. Nesse ínterim, com uma gravidade imperturbável e serena, Clayton se inclinava, movimentava-se e agitava as mãos e braços, à nossa frente. Ao aproximar-se o fim, nossa tensão nervosa se tornou insustentável e percebi que rangiam os dentes. 0 derradeiro movimento, como já disse, consistia em abrir completa- mente os braços, com o rosto voltado para cima. Quando, finalmente, iniciou esse gesto, chequei a conter a respiração. Podia ser uma coisa ridícula, evidentemente, mas vocês já irão conhecer a impressão que causam essas histórias de fantasmas. E notem, ainda, que isso acontecia numa casa fora de comum, escura e antiga. Chegaria, depois de tudo, a … ?
Durante um estarrecedor momento, Clayton permaneceu naquela posição, de braços abertos e cara virada para o alto, firme e resplandecente, sob o fulgor da lâmpada. Todos nós nos quedamos em suspenso durante aquele lapso de tempo, que nos pareceu um século, e, depois, brotou de nossas gargantas um som que era, ao mesmo tempo, um suspiro de infinito alivio e um NÃO! tranqüilizador, pois, que, visivelmente… Clayton… não desaparecia. Tildo aquilo não passara de uma mentira. Clayton nos contara uma história banal, infantil, e quase nos fizera acreditar nela. Nada mais que isso! … Mas, exatamente naquele momento a fisionomia de Clayton se transformava.
Mudou-se completamente. Tal como se transforma uma casa iluminada, quando se lhe apagam subitamente as luzes, assim se transformou seu semblante. Seus olhos se vidraram bruscamente, o sorriso se lhe gelou nos lábios, subitamente exangues, e ele continuou de pé, imóvel. E assim se conservou, balançando-se suavemente.
Mas, aquele momento valeu, também, por um século. E, pouco depois, as cadeiras bailavam, objetos caíam ao chão, e todos nós nos sentíamos em movimento. Os joelhos de Clayton deram a impressão de que iam dobrar-se e ele tombou para a frente, ao passo que Evans dava um pulo e o amparava nos braços…
Isso nos deixou atônitos. Durante o espaço de um minuto, creio que nenhum de nós disse nada coerente. Estávamos vendo; no entanto, custávamos a acreditar… Sai de minha estupefata admiração para me encontrar ajoelhado junto ao corpo estendido. Seu casaco e sua camisa estavam rasgados, e Sanderson lhe auscultava o coração.
Esse gesto, tão simples, podia ter sido deixado para mais tarde, para quando estivéssemos menos emocionados, pois não tínhamos pressa alguma em compreender. 0 cadáver permaneceu ali cerca de uma hora, rias ainda se conserva em minha memória, negro e desconcertante como então. Clayton passara, efetivamente, para aquele mundo que se encontra tão perto, e, ao mesmo tempo, tão distante de nós. Clayton fora para lã, realmente, pelo único caminho que pode seguir um mortal. Mas, que para lá seguiu unicamente graças aos conjuros daquele inexperiente fantasma ou repentinamente atacado de apoplexia, no decorrer de uma história banal, – como o médico-legista nos deu a entender – é o que não posso precisar. De qualquer maneira, trata-se de um dos muitos enigmas que hão de permanecer sem explicação até que estejamos em condições de compreender todas as coisas misteriosas que nos cercam. Tudo quanto posso garantir, porém, é que, no próprio momento, no instante exato em que Clayton acabava de executar aqueles passes esotéricos, transfigurou-se, cambaleou e tombou no chão, bem diante de nós… morto!

A Mão do Hindu (Arthur Conan Doyle)

TODA a gente Sabe que Sir Dominick Holden, o faraoso cirurgião da Índia, fêz-me seu herdeiro, e, desse modo, transformou um médico pobre num opulento proprietário. Muitos, também, sabem que, pelo menos, cinco pessoas se atravessaram em meu caminho, por julgarem a escolha de Sir Holden arbitrária ou caprichosa. A estas, posso assegurar que estão redondamente enganadas e que, embora eu conhecesse Sir Holden apenas nos últimos tempos de sua vida, ninguém fez mais por lhe merecer a estima. Posso, mesmo, afirmar que, em toda sua vida, ninguém fez mais por ele. Não pretendo que aceitem a minha afirmativa. nem que creiam no que vou contar; parece obra de pura imaginação; mas, como me sinto no dever de contá-la, aqui a ponho, quer me creiam, quer não.
Sir Dominick Holden foi o mais notável cirurgião da Índia, no seu tempo. Começou no Exército mas, depcis, estabeleceu-se, como particular, em Bombaim, donde era clamado para todos os pontos da Índia. Seu nome está muito liqado ao Hospital Oriental, por ele fundado e mantido. Tempo veio, entretanto, em que a sua constituição de ferro começou a dar sinais de cansaço, fazendo com que seus colegas (talvez não desinteressadamente) f- unânimes em aconselhá-lo a voltar para a Inglaterra.
Sir Holden resistiu quanto pôde, até que seu estado se agravou e ele ressurgiu em Londres, alquebrado, em busca de Wiltshíre, sua terra de nascimento. Lá, adquiriu uma grande propriedade, na fímbria da Alisbury Plain, e consagrou seus últimos anos ao estudo da Anatomia Comparada. que era sua vocação e na qual se tornara autoridade Mundial..
Nós, da família, ficamos muito excitados com a volta Já esperada de tio tão rico e sem filhos. Sir Holden, embora nada exuberante na hospitalidade, mostrou que tomava os parentes em linha de conta, a cada um de nós mandando, alternativamente, convite para uma estada lá. Desejava conhecer-nos. Por um primo, tive informação de que essas estadas eram bem melancólicas, e, em vista disso, foi com idéias mal definidas que me dirigi para lá, quando minha vez chegou. Minha mulher fora tão deliberada- mente excluída do convite, que o meu primeiro ímpeto foi recusá-lo; mas, havia interesses em jogo – interesses dos filhos – e, movido pela insistência de todos, pus de lado o ressentimento e, numa tarde de outubro, parti para
Sem, nem por sombras, imaginar o que iria suceder.
A propriedade de meu tio estava situada na planície de terras aráveis, alternadas com morretes de grés, caraterísticas do condado de Wiltshire. Quando desci na estação de Dinton, ao apagar-se daquele dia de outono, senti-me impressionado pelo tom de magia da paisagem. Os escassos cottages de camponeses ficavam tão minúsculos diante dos restos da vida pré-histórica, que o presente se me afigurava um simples sonho e, o passado, uma realidade esmagadora. 0 caminho coleava ao sabor de vales rasgados entre morros, em cujos topos se erguiam fortificações, redondas umas, outras quadradas, desafiadoras da ação dos ventos e das chuvas através dos séculos. Uns as atribuem aos romanos; outros, aos bretões; mas, a sua verdadeira origem está muito entrelaçada de possibilidades para que possa ser tirada a limpo. A espaços, nas encostas escarpadas, emergem restos de túmulos. Neles subsistem as cinzas dos cadáveres cremados, da raça que esburacou daquela maneira a montanha. Uma urna de barro em cada túmulo conta que ali se dissolveu um homem que já viveu sob o sol.
Foi através dessa impressionante paisagem que me aproximei da residência de meu tio, em Rodenhurst, solar que se casava harmoniosamente com o meio. Dois pilares, corroídos pelo tempo e encimados de, emblemas heráldicos, flanqueavam o portão de entrada. Um renque de olmos seguia-se, agitado pelo vento gelado e a desfazer-se das folhas amarelecidas. Ao fim desse túnel vegetal, uma lâmpada. Era já quase noite, mas pude apanhar a vivenda
em osso. Suas roupas penduram pelos ombros,
em visão de conjunto – uma casa baixa, que se estirava em duas alas desiguais, bem no estilo dos Tudors. Certa janela, com persianas, mostrava luz dentro – era o gabinete de meu tio, para onde me levou um criado.
Encontrei-o junto à lareira, tiritando ao áspero frio do outono inglês. Não estava acesa a lâmpada, de modo que vi Sir Holden à luz do braseiro – cabeça grande, nariz de índio, rosto sulcado de rugas, como marcas sinistras de oculto fogo vulcânico. Sir Holden ergueu-se para receberme, num gesto de cortesia grata às tradições do velho solar. Um criado veio acender as lâmpadas e pude ver que um par de olhos, penetrantes como o das águias, escondidos debaixo do espesso das sobrancelhas – scouts atrás das moitas – estavam lendo o meu caráter e os meus pensa- mentos, com a facilidade dum mestre nos segredos da vida.
Eu não Podia despegar dele os meus olhos, porque jamais vira diante de mim uma criatura mais digna de nota. Um verdadeiro gigante, mas despido de carnes e só pareciam vazias, como as que se num cabide de quarda-roupa. As mãos eram só nós; as pernas, magríssimas. Os olhos, porém, aqueles perscrutadores olhos azuis, impressionavam mais que tudo. Não pela cor, apenas, nem pelo fato de estarem emboscados sob as sobrancelhas espessas – mas pela expressão. Do seu todo agigantado e senhoril, era de esperar-se, naqueles olhos, uma expressão de arrogância; ao invés disso, tinha a que emana de um espírito acovardado e agachado, com o furtivo e expectante do olhar do cachorro que vê o senhor levantar o chicote. Mentalmente, murmurei o meu diagnóstico, com base naquela expressão. Vi que meu tio estava em luta com alguma doença mortal, dessas que extinguem uma vida repentinamente – e percebi que isso o aterrorizava. Era o chicote erguido. Tal foi o meu diagnóstico – mas errado, como os acontecimentos o provaram. Menciono-o para que o leitor acompanhe a marcha das minhas impressões.
A recepção de meu tio foi, como já disse, cortês, e. uma hora depois, vi-me sentado entre ele e sua esposa, à mesa de jantar, diante de iguarias requintadas, e servido por criados do Oriente. 0 velho casal voltava, tragicamente, ao viver antigo dos começos do casamento, agora que se viam no fim da vida, sozinhos, – sem amigos íntimos, já com a missão cumprida e à espera apenas do ponto final. Os que chegam a essa estação, com suavidade e amor, os que transformam o seu inverno em outono, saem da vida como vencedores. Lady Holden era uma criatura franzina e viva, com olhares para o marido, que eram certificados do nobre caráter do velho companheiro. Entretanto, embora eu lesse amor mútuo naqueles olhos, também lia um mútuo terror, que interpretei como o medo do fim. A conversa de um ou de outro era, às vezes, alegre, às vezes, triste – mas percebi esforço na nota alegre e muita naturalidade na nota triste – o que me esclareceu sob o estado real dos corações que lhes palpitavam no peito.
Estávamos no primeiro copo de vinho, e os criados já haviam deixado a sala, quando a conversa tomou rumo imprevisto. Não me lembro o que nos pós naquele caminho, a debater o sobrenatural, assunto que me levou a discorrer sobre estudos psíquicos, aos quais me tenho devotado, como muitos outros neurologistas. Expus a experiência feita com membro da Psychical Research Society, quando, com mais três colegas, passara uma noite num prédio assombrado. Era um caso de nenhum modo excitante, ou convincente; mesmo assim, interessou meus tios no mais alto grau. Ouviram-me em completo silêncio, trocando, a espaços, olhares que não pude compreender. Logo depois, Lady Holden ergueu-se da mesa e saiu da sala.
Sir Holden ofereceu-me charutos e pusemo-nos a fumar em silêncio. Notei que sua mão, toda ossos, estremecia ao levar o charuto à boca, e por esse detalhe conheci que seus nervos vibravam como cordas de violino. Pressenti que estava na iminência duma confissão e calei-me, para melhor precipitá-la. Por fim, voltou-se na cadeira e teve um gesto de quem lança de si os últimos escrúpulos.
– Do pouco que sei, vi e ouvi do senhor, Dr. Haracre, disse-me e, verifico que é exatamente o homem que procuro.
– Encanta-me muito ouvir isso, Sir.
– Sua cabeça me parece firme e fria. Não suponha que eu esteja a lisonjeá-lo. As circunstâncias são por demais sérias para que eu perca tempo com insinceridades. 0 senhor tem conhecimentos especiais destes assuntos e os vê de um ponto de vista filosófico, que lhes tira toda a vulgaridade. Diga-me: acha que poderia assistir a uma aparição, sem impressionar-se de maneira desastrosa?
– Perfeitamente, Sir.
– E interessa-se por isso?
– Profundamente.
– Como observador psíquico, pode o senhor ponderar sobre o fato, de um modo impessoal, como o astrônomo pondera sobre um cometa que surge?
– Exatamente, Sir.
0 velho deu um prolongado suspiro.
– Creia-me, Dr. Hardacre, que houve tempo em que eu não podia falar como estou agora falando. Minha calma ficara famosa, na Índia. Ainda durante os dias trágicos da insurreição dos cipaios, essa calma não me abandonara por um só instante. E, no momento, veja ao que me acho reduzido. Sou a mais apavorada criatura de todo o condado de Wiltshire. Não fale muito arrogantemente dessa matéria, que se arrisca a um terrível teste como o que tive – um teste que poderá levá-lo ao hospício ou ao túmulo.
Esperei pacientemente que Sir Holden entrasse no âmago da sua confidência. Aquele prefácio enchera-me de curiosidade.
– De alguns anos a esta parte, – começou ele a minha vida, e a de minha mulher, tornou-se profundamente miserável, por um motivo que parece grotesco. E a familiaridade com esse motivo, ao invés de tudo atenuar, como faz toda familiaridade, mais e mais me destrói os nervos pelo atrito constante. Se o senhor não sente o medo físico, Dr. Hardacre, eu terei muito gosto em ouvir sua opinião sobre o fenômeno que tanto nos perturba.
– Embora pouco valha minha opinião, estará ela in- teiramente ao seu serviço, Sir. Poderei saber a natureza êsse enõmeno?
– Creio que sua opinião terá maior valor se de nada for informado antecipadamente. 0 senhor sabe muito bem a ação das impressões subjetivas sobre o objetivo, e deve guardar-se de tê-las a prejudicar a experiência.
– Que devo fazer, então?
– Vou dizer. Quer ter a bondade de acompanhar-me?
e, assim dizendo, Sir Holden levou-me para fora da sala, rumo a um grande laboratório, cheio de instrumentos ‘científicos. Uma prateleira corria pela parede, com dezenas de vidros contendo preparações anatômicas.
– 0 senhor vê que eu ainda insisto nos meus velhos estudos, – disse o famoso cirurgião. – Estes frascos constituem os remanescentes da preciosíssima coleção que perdi no incêndio de minha casa, em Bombaim, no ano de 1892. Foi um grande desastre na minha vida, sob vários aspectos. Eu possuía exemplares únicos, em matéria de desvios anatômicos. Restam-me estes sobejos.
Corri os olhos pela coleção, e notei que eram realmente objetos de grande valor, pela raridade do ponto de vista patológico – órgãos anormais, ossos mal formados, distúrbios parasitários, uma singular exibição de transtornos orgânicos, coletados na Índia.
– Temos, aqui, um divã – disse o velho sábio. – Nunca foi minha intenção oferecer a um meu hóspede tão incomodo leito; mas, já que as coisas chegaram a este ponto, seria interessante que o senhor consentisse em passar a noite neste laboratório. Isso, caso não lhe repugne faze-lo. Decida com toda a sinceridade.
– Bem pelo contrário, Sir. Será com grande prazer que me submeterei à experiência.
– Meu quarto é o segundo à esquerda e, se necessitar de mim, para o que quer que seja, não tenha escrúpulos em chamar-me.
– Espero não ser forçado a perturbar o seu repouso, Sir.
– Não receie acordar-me. Raro durmo. Estarei sempre alerta, e às suas ordens.
Não foi afetação ou exagero de minha parte dizer que sentiria prazer em passar a noite ali. De nenhum modo pretendo ter mais coragem física do que qualquer outro; mas a familiaridade com um assunto atenua a sua
impressão sobre nós. 0 cérebro humano é capaz duma só emoção forte cada vez, mas, se está tomado de curiosidade, ou entusiasmo científico, não cabe nele o medo. É verdade que eu ouvira de meu tio o contrário disto – atribuí o fato à fraqueza e decadência dos seus nervos. Eu, pelo contrário, estava perfeito de saúde e nervos, e, por isso, ansioso como o caçador pela caça. Fechei a porta do laboratório e deitei-me no divã.
Não era o ambiente ideal para um quarto de dormir. Ar pesado e impregnado de cheiros de drogas, entre os quais predominava o do álcool metílico. As decorações, igualmente, eram nada sedativas. Havia a odiosa prateleira de relíquias de doenças horrorosas a tomar-me os olhos para onde quer que os voltasse. As janelas não tinham cortinas, de modo que a lua, em minguante, punha na parede fronteira um quadrilátero de prata. Quando apaguei a lâmpada, essa claridade assumiu singular importância. Silêncio absoluto pela casa inteira, e tal que o rumor das brisas nas árvores, lá fora, chegava até mim. E, ou fosse o embalo hipnótico desses sussurros externos ou o cansaço dum dia de viagem, cheio de emoções, breve me senti imerso em sono profundo.
Fui despertado por um rumor qualquer, que imediatamente me fez sentar no divã. Algumas horas já” se haviam passado, de modo que o quadrilátero de luar mudara de posição, aproximando-se de mim. 0 resto da sala desaparecia, imerso na escuridão. A princípio, nada vi; depois, à medida que meus olhos se iam afazendo à penumbra, verifiquei, com um arrepio pelo corpo, que qualquer coisa movia ao longo da prateleira. Um som macio, como de sandálias, chegou-me aos ouvidos, e, vagamente discerni um vulto humano, que caminhava cauteloso. Ao cruzar pela faixa de luz, pude distingui-lo com precisão. Era um homem atarracado, vestido duma espécie de burel escuro, que lhe caía, liso, dos ombros aos pés. Tinha a cor do chocolate e, na cabeça, uma massa de cabelos negros enrodilhada atrás, como certas mulheres usam. Caminhava lentamente, com os olhos fixos na direção dos frascos cheios dos horríveis resíduos humanos.
0 vulto ergueu as mãos. Não foi bem isso. Ergueu os braços, em gesto de desespero, e percebi que tinha nó uma das mãos. 0 braço direito terminava em um coto. Em tudo mais, era um homem qualquer, podendo passar por um dos criados de Sir Holden que ali houvesse entrado em busca de qualquer coisa. Unicamente a sua súbita aparição e que me sugeriu algo de sinistro. Levantei-me, acendi a lâmpada e examinei cuidadosamente a sala. Não havia sinal do meu visitante e tive de concluir que sua aparição representava algo fora das leis naturais que conhecemos. Fiquei acordado pelo resto da noite, porém, nada mais aconteceu.
Sou madrugador, mas o meu tio o era ainda mais. Quando deixei o laboratório, já o encontrei medindo passos, à frente da casa. Ao ver-me, precipitou-se ao meu encontro.
– Então?! – exclamou. – Viu-o?
– Um indiano sem uma das mãos?
– Sim.
– Vi-o, sim.
Contei-lhe tudo quanto ocorrera. Ao concluir, Sir Holden encaminhou-se para o seu gabinete.
– Temos algum tempo antes do breakfast, – disse ele. – Bastará para que eu lhe dê uma explicação deste mistério – se é que posso explicar o inexplicável. Em primeiro lugar, se eu lhe disser que, de quatro anos para cá, tanto em Bombaim como a bordo ou aqui, ainda não se passou uma só noite sem que o meu sono fosse perturbado por essa aparição, o senhor compreenderá o motivo deste meu miserável estado. 0 programa é sempre o mesmo. Surge à beira do meu leito, sacode-me rudemente pelos ombros, seque para o laboratório, caminha lento na direção da prateleira e desaparece. Por mais de mil vezes, já fez isso.
Que é que ele quer?
Quer a sua mão.
Sua mão …
Sim, só quer isso. Vou contar. Fui, uma vez, chamado, o Peshawer, para uma consulta, dez anos atrás, e, nessa ocasião, tive ensejo de examinar um hindu, que passava numa caravana afegã. Esse: hindu das montanhas, lá do outro lado de Kaffrístã, falava um dialeto pushtoo. Foi tudo quanto pude saber. Sofria duma inchação sar-
comatosa, na junta de um dos metacarpos, e verifiquei que somente lhe amputando a mão poderia salvar-lhe a vida. Após muita luta, o homem consentiu em ser operado – e, depois da operação, pediu-me a conta. 0 pobre homem não passava dum quase mendigo, de modo que a idéia de conta soava absurda – e respondi, brincando, que aceitava, como pagamento, o membro amputado, para o ter na minha coleção.
“Com surpresa minha, o hindu resistiu à proposta, explicando que, de acordo com as suas crenças, era matéria muito importante que o corpo se apresentasse inteiro, depois da morte. Esta crença é muito espalhada, e encontrei-a também no Egito. Lembrei-me que a mão já estava cortada e que ele não tinha meios de conservá-la para reuni-la ao corpo, depois que morresse.
., Respondeu-me que a conservaria em sal, trazendo-a sempre consigo, o que me fez alegar que estaria mais segura comigo, pois possuía melhor meio de conservá-la do que o sal. 0 homem compreendeu minha alegação e cedeu, dizendo: “Sim, Sahib, mas lembre-se de que quero que ma devolva, depois que eu morrer”. Ri-me dessa exigência e o caso ficou por aí. Voltei à minha vida habitual, enquanto o operado, já de vida salva, pode pensar na sua viagem para o Afeganistão.
“Mas, como lhe contei ontem, fui vítima daquele incêndio, em Bombaim. Metade de minha casa foi destruída e, com ela, quase toda a minha coleção. 0 que salvei foi quase nada. A mão do hindu perdeu-se no incêndio.
“Dois anos depois, fui, certa noite, despertado por um vigoroso puxão na manga. Sentei-me na cama, certo e que meu cachorro entrara no quarto. Em vez do cachorro, vi diante de mim o hindu operado, vestido no burel que lá usam, a olhar-me com expressão de censura, enquanto estendia o braço sem mão. Em seguida, caminhou ao longo da prateleira de frascos, que nessa época eu conservava em meu quarto. Examinou-os todos e, com um gesto de cólera, desapareceu. Compreendi que acabara de falecer e que, tal como prometera, tinha vindo buscar a mão que me dera para guardar.
“Eis aí o caso, Dr. Hardacre. Todas as noites, desde essa época, e à mesma hora, o fato se repete. Isso há já quatro anos. 0 efeito causado em mim pode equiparar-se ao do suplício do pingo d’água. Trouxe-me a insônia, porque não há dormir possível com o pensamento no que a horas tantas vai fatalmente suceder. Isso envenena-me os últimos anos de vida, e também os de minha mulher, que é companheira em tudo.
Nesse momento, soou a campainha, anunciando o breakjast.
– Vamos para a sala de jantar. Minha mulher deve estar ansiosíssima por saber como o senhor passou a noite. Estou muito grato pela coragem com que nos assistiu. porque o fato de uma terceira pessoa haver testemunhado a aparição tira-nos um peso da alma – a hipótese de ser loucura nossa – minha e de minha mulher.
Foi essa a história que Sir Holden me narrou – uma história que para muitos parecerá da mais grotesca impossibilidade mas que, depois da minha experiência daquela noite, e também por causa das minhas experiências anteriores sobre a matéria, fui forçado a admitir como verdade pura. Após o breakjast, surpreendi meus hospedeiros com à notícia de que ia regressar a Londres pelo primeiro trem.
– Meu caro doutor, – disse Sir Holden tomado de surpresa, – o senhor faz-me crer que errei em perturtar a sua estada aqui, pondo-o no conhecimento da minha estranha história.
– É justamente esse assunto que me leva a Londres, respondi, mas de nenhum modo suponha que a minha experiência desta noite me fosse desagradável. Ao contrário, tanto que peço permissão para voltar à tarde, a fim de passar mais uma noite naquele divã.
Meu tio sossegou, e eu parti. Fui reler, em meu consultório, a passagem dum livro recente sobre ocultismo, que não me estava clara na memória. Essa passagem dizia assim:
“Quando uma idéia muito forte obseda uma criatura no momento de morrer, basta isso para mantê-la presa a este mundo material. Tornam-se quais verdadeiros anfíbios desta vida e da outra, e capazes de passar de uma para outra como a tartaruga passa da água para a terra. As causas que tão fortemente podem amarrar uma alma à vida que 0 corpo abandonou as emoções violentas. Avareza, vingança, ansiedade, amor e piedade, têm efeitos bastante conhecidos, neste pormenor. Em regra, tudo Provém dum desejo violento, e só quando esse desejo se satisfaz o espírito se acalma. Há muitos casos que mostram a estranha insistência desses visitantes, ou o seu desaparecimento, depois que o desejo que os move é satisfeito ou quando um pacto se realiza”.
– Quando um pacto se realiza – esta era a frase sobre a qual eu estava incerto e queria firmar-me. No caso de Sir Holden, só um pacto poderia atender à situação. Quem sabe se não estava ali o remédio que ele tanto procurava? Tomei o primeiro trem para o Shadwell Seamen’s Hospital, onde o meu velho amigo Hewett era cirurgião. Sem entrar em explicações, fi-lo compreender exatamente o que eu queria.
– Uma mão morena! – exclamou Hewett, atônito.
Que raio quer fazer com ela?
– Não se preocupe com as minhas razões. Depois contarei tudo. Neste momento, preciso duma mão hindu e sei que há, aqui, muitas.
– Isso lá é, mas. . . – e o meu amigo, depois de refletir uns segundos, tocou a campainha.
– Travers, – disse ao auxiliar que apareceu, – que fim levaram as mãos daquele lascar operado ontem? Aquele camarada da East India Dock, que foi colhido numa engrenagem?
– Estão no necrotério Sir.
– Embrulhe-me uma delas e traga-ma.
Foi assim que regressei a Rodenhurst, com aquele. estranho embrulho, a tempo de alcançar o jantar. Nada contei a Sir Holden e, à noite, antes de deitar-me no divã, coloquei a mão morena num dos frascos de conserva, a certa distância de mim.
Tão interessado fiquei pelos resultados da minha experiência, que nem pensei em dormir. Sentei-me, com a lâmpada bem sombreada pelo shade, e pus-me a esperar, com toda a paciência. Dessa vez, vi tudo claramente, desde o começo. 0 hindu apareceu na direção da porta, como na véspera, mas apareceu nebuloso; depois, fixou-se nas formas humanas. Trazia sandálias vermelhas, sem salto, o que explicava o macio do andar. Corporificou-se, e fez tudo como fazia sempre, caminhou na direção da prateleira de frascos e deteve-se diante do que continha a mão amputada. Agarrou o frasco, examinou-o, mas, com todos os sinais da fúria no rosto, arremessou-o por terra. 0 barulho inundou a casa – e o hindu desapareceu imediatamente. Um momento depois, a porta abriu-se e Sir Holden entrava.
– Não está ferido? Que houve?
– Ferido, não. Apenas desapontado.
Sir Holden olhou com espanto para os destroços do frasco e para a mão morena, que jazia sobre o assoalho.
– Meu Deus! Que é isto?
Contei-lhe, então, tudo. Sir Holden ouviu-me atento e meneou a cabeça.
– Foi bem pensado, – disse ele, – mas receio que não seja fácil põr termo aos meus sofrimentos. Numa coisa, porém, insisto. É que nunca mais durma aqui, nem se preocupe por mais tempo com este caso. Meu pavor de que alguma coisa lhe houvesse acontecido, quando ouvi o barulho, foi maior que todas as agonias lentas que ando sofrendo. Não quero expor-me a ver a repetição disso.
Sir Holden, entretanto, permitiu-me passar o resto da noite ali, onde fiquei a lamentar o desastre da minha experiência. A luz da manhã veio iluminar a mão do lascar ainda no chão. Pus-me a mirá-la, e de súbito uma idéia me fuzilou no cérebro, que me fez saltar do divã, tremulo de emoção. De fato, a mão do lascar era a esquerda!
Pelo primeiro trem, corri ao Seamen’s Hospital, terrivelmente apavorado com a hipótese de que a mão direita do hindu já houvesse ido para o forno crematório. Meu susto não durou muito tempo. Ainda lá estava o precioso objeto, que iria salvar a vida de um homem de ciência. E voltei para Rodenhurst, com a mão direita do lascar.
Sir Holden, entretanto, não quis, nem por nada, que eu dormisse de novo no laboratório. Foram inúteis todas as minhas tentativas. Achava que isso ia de encontro a todas as regras da hospitalidade. Tive de colocar a mão direita do lascar no laboratório e ir acomodar-me num quarto próximo.
Mas, a despeito disso meu sono foi do mesmo modo interrompido. Altas horas da noite, meu tio apareceu-me no quarto, de lâmpada em punho. Seu vulto agigantado vinha envolto num enorme pijama, e sua aparição seria mais terrível para um espírito desprevenido do que a do próprio hindu sem mão. Todavia, não foi a sua entrada o que me espantou e sim a expressão do seu rosto. Parecia remoçado vinte anos. Os olhos brilhavam, todo seu rosto irradiava e sua mão erguia-se no ar, em gesto de triunfo.
Sentei-me na cama e arregalei os olhos.
– Deu certo! Deu certo! – gritava ele. – Meu caro Hardacre, como poderei pagá-lo do benefício que me fez?
– Explique-me isso. Que é que deu certo. Sir Holden?
– Creio que o meu amigo não ficará aborrecido de ser arrancado ao sono, para ouvir a grande nova.
– Mas, que é?
– Não tenho mais dúvida nenhuma – e tudo o devo ao meu querido sobrinho. Nunca esperei isto de homem nenhum. Que poderei fazer que pague tão enorme beneficio? Foi a Providência que o mandou aqui para me salvar. Salvou-me a vida e a razão, porque eu não suportava mais este inferno em vida. 0 manicômio ou o túmulo já estavam à minha espera. E minha pobre mulher, a coitada! Nunca, nunca imaginei que essa carga pudesse ser arredada dos nossos ombros – e, dizendo isto, abraçava-me com alegria infantil.
– Foi apenas uma experiência, uma tentativa, e estou encantado que desse resultado. Mas, como sabe que está tudo bem? Viu alguma coisa?
Sir Holden sentou-se à beira da minha cama.
– Vi tudo, – disse ele. – 0 senhor sabe que, a horas certas, a criatura aparecia infalivelmente em meu quarto. Hoje veio, como de costume, e despertou-me, ou antes, puxou-me pela manga ainda mais violentamente que das outras. Parece que a decepção da véspera o irritara ao extremo. Olhou-me cheio de cólera e afastou-se, rumo ao laboratório. Poucos instantes após, vi-o de volta – e, desde o inicio da sua perseguição, era a primeira vez que voltava ao meu quarto. Vinha sorrindo. Vi-lhe os dentes alvíssimos de fora. Parou na minha frente e por três vezes curvou-se, no clássico salaam, que é o modo solene de despedir-se dos orientais. Na terceira curvatura, seus braços ergueram-se à altura da cabeça e eu vi – vi duas mãos desenharem-se no ar. Depois, esvaiu-se – e creio que para sempre.
Eis narrada a curiosa experiência que me conquistou a afeição e gratidão desse meu famoso tio. Suas suposições realizaram-se, porque, desde essa noite, nunca mais foi perturbado pelas visitas do hindu maneta. Sir Dominic- Holden e Lady Holden tiveram uma velhice muito feliz, sem nuvens, vindo a morrer por ocasião da grande epidemia de gripe, com diferença de semanas um do outro. Pelo resto de sua vida, nunca mais o bom velho deixou de consultar-me sobre tudo quanto dizia respeito à vida inglesa, da qual se afastara por muitos anos. Também o auxiliei na compra de outras propriedades, que lhe aumentaram os domínios. Não foi, portanto, nenhuma surpresa para mim quando o seu testamento me colocou na frente de cinco furiosos sobrinhos e me transformou de modesto médico de província em chefe de uma importante família de Wiltshire. Graças ao hindu de mão cortada, meu destino mudou-se completamente.

Eutanásia (Lord Byron)

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Quando o tempo me houver trazido esse momento,
Do dormir, sem sonhar que, extremo, nos invade,
Em meu leito de morte ondule, Esquecimento,
De teu sutil adejo a langue suavidade!

Não quero ver ninguém ao pé de mim carpindo,
Herdeiros, espreitando o meu supremo anseio;
Mulher, que, por decoro, a coma desparzindo,
Sinta ou finja que a dor lhe estará rasgando o seio.

Desejo ir em silêncio ao fúnebre jazigo,
Sem luto oficial, sem préstito faustoso.
Receio a placidez quebrar de um peito amigo,
Ou furtar-lhe, sequer, um breve espaço ao gozo.

Só amor logrará (se nobre à dor se esquive,
E consiga, no lance, inúteis ais calar),
No que se vai finar, na que lhe sobrevive,
Pela vez derradeira, o seu poder mostrar.

Feliz se essas feições, gentis, sempre serenas,
Contemplasse, até vir a triste despedida!
Esquecendo, talvez, as infligidas penas,
Pudera a própria Dor sorrir-te, alma querida.

Ah! Se o alento vital se nos afrouxa, inerte,
A mulher para nós contrai o coração!
Iludem-nos na vida as lágrimas, que verte,
E agravam ao que expira a mágoa e enervação.

Praz-me que a sós me fira o golpe inevitável,
Sem que me siga adeus, ou ai desolador.
Muita vida há ceifado a morte inexorável
Com fugaz sofrimento, ou sem nenhuma dor.

Morrer! Alhures ir… Aonde? Ao paradeiro
Para o qual tudo foi e onde tudo irá ter!
Ser, outra vez, o nada; o que já fui, primeiro
Que abrolhasse à existência e ao vivo padecer!…

Contadas do viver as horas de ventura
E as que, isentas da dor, do mundo hajam corrido,
Em qualquer condição, a humana criatura
Dirá: “Melhor me fora o nunca haver nascido!”


Extraído do site: Garganta da Serpente
T
radução de João Cardoso de Menezes e Souza

O guinéu da órfã (Charles Dickens)

I

O céu estava sombrio – céu de dezembro – e o calçamento das ruas desaparecia sob a neve, neve de Londres, meio derretida e lamacenta. Nunca se me varrera da memória a recordação dessa neve, apesar de terem passado quinze anos desde a última vez que vira a sua triste cor. Ali a tinha, diante de mim, com os mesmos sulcos e ocultando os mesmos perigos para os transeuntes. Havia apenas uma hora que eu tinha chegado da América do Sul a bordo do vapor-correio de Southampton, e ora estava encostado à janela do meu quarto no Hotel Morley, Charing Cross, contemplando com ar sombrio os jogos de água da Praça de Trafalgar, ora passeava agitadamente de um extremo ao outro do aposento, fazendo esforços para me distrair e pensando que não era um vagabundo desterrado, mas um homem que regressava ao seu país.

Aproximei a cadeira da chaminé e, enquanto atiçava o lume, evoquei através da chama o quadro da minha vida passada. Recordei-me da infância que tornou extremamente desgraçada a dependência de um tio velho e rico que me olhava como a um obstáculo porque não acreditava que eu viesse um dia a honrar o seu nome e os seus benefícios. Esta excelente pessoa tinha quase tanto de avaro como de vaidoso. Eu sentia a necessidade do estímulo e se me tivessem obrigado com algumas palavras ternas a abrir o meu coração juvenil, teriam descoberto o reconhecimento mais sincero, a ânsia de carinho, o instinto e o amor por tudo quanto é bom e belo. Mas, ah! todos estes honrados sentimentos estavam reconcentrados na minha alma pela ironia de quantos me rodeavam. Que contente ficou meu tio quando lhe disse que estava disposto a ir procurar a fortuna do outro lado dos mares! Com que frieza se despediu de mim o meu único primo! Como compreendi que havia chegado por fim a hora de me separar de um país onde, na opinião da minha própria família, era incapaz de usar honradamente o meu nome e de conquistar uma posição social! Parti com a triste convicção de que estava só no mundo e com a impaciência de demonstrar aos meus desdenhosos parentes que não merecia tão depreciativo conceito.

Quando regressei, depois de quinze anos, ignorava tudo o que se passara na minha família, que talvez me tivesse esquecido ao perder-me de vista.

Chamei e entrou no quarto um criado velho de cuja fisionomia me recordava. Conhecia meu primo Jorge que, antigamente, sempre que vinha a Londres se hospedava no Hotel Morley, como nosso tio. Mas, agora, Jorge chegara a posição demasiado alta para se permitir freqüentar um hotel de segunda ordem, quando, pela primavera, ia passar na capital um ou dois meses. Nesta época do ano Jorge Rutland não abandonava o seu castelo solarengo e eu tinha certeza de o encontrar em Rutland-Hall, condado de Kent.

Apressei-me a escrever-lhe a seguinte carta:

Querido Jorge:

Estou convencido de que te causará tanto espanto reconhecer a minha letra como se o meu espectro te surgisse. Tranqüiliza-te quanto à aparição do espectro. Como sabes, eu estou há muito convencido de que não sirvo para nada, e deves saber também que o céu não me concedeu a felicidade de morrer. Sinto certa vergonha ao confessar-te que não cheguei do outro mundo com a minha fortuna feita. Asseguro-te, contudo, que trabalhei para fazê-la; mas no mundo não basta querer; necessita-se, também, sorte para poder.
Felizmente ainda tenho tempo para reparar a perda dos quinze melhores anos da minha vida, e estou disposto a lançar mão de tudo, sempre que a ocupação seja digna de um cavalheiro. Entretanto, ardo em desejos de ver-te e aos teus. Uma longa ausência da pátria e da família é o que mais nos faz compreender quanto vale o aperto de uma mão amiga. Não espero, pois, que me respondas. Depois de amanhã seguirei para Kent e julgo que estarei aí à hora do jantar. Já vês que confio no teu bom acolhimento e hospitalidade durante algumas semanas, até que me resolva a tomar uma determinação.
Agora e sempre, meu querido Jorge, é teu velho amigo e primo

Guy Rutland

Dobrei a carta e coloquei-a no envelope.

– Breve saberei o que são realmente os meus queridos parentes, pensei alegremente enquanto escrevia o endereço:

Jorge Rutland, esquire
Rutland-Hall
(Kent).

Seriam aproximadamente sete da tarde quando cheguei ao imponente vestíbulo de Rutland-Hall. O primo Jorge não veio receber-me. Sem dúvida, esqueci-me dos costumes do país. Provavelmente o primo Jorge espera-me no alto da escada.

Avancemos.

Junto da escada recebeu-me um criado tão grave e tão automático como se o meu regresso para junto dos parentes fosse um fato que ele presenciasse todos os dias. Introduziu-me numa sala, mas tampouco ali pisavam o tapete os pés impacientes do cerimonioso dono da casa.

– Ah! pensei, talvez haja alguma outra regra de etiqueta que eu tenha esquecido. Sem dúvida, meu primo espera-me no salão a fim de me dar o tempo necessário para que me lave e escove e esteja apresentável à hora do jantar.

– Acompanhe-me ao quarto que me destinam, disse a outro criado que tomou conta da minha manta de viagem.

Segui este novo guia resignadamente, observando que me hospedavam um pouco alto; mas quando me encontrei só pensei que talvez tivesse sido precedido por alguns outros hóspedes que ocupassem quartos mais ricamente mobiliados que o meu.

Quando terminei apressadamente a minha toilette, toquei a campainha, apareceu novamente o criado e pedi-lhe que me acompanhasse ao salão. Pelo caminho, fui construindo algumas frases discretas para entabular conversação com os diferentes membros da minha parentela. Eu não sou fluente, mas quando quero ser agradável consigo-o algumas vezes e naquele dia estou bem certo de que não teria representado mal o meu papel.

O criado abriu a porta e retirou-se ato contínuo, fechando-a. Em vez de fazer surpresa, fiquei eu próprio surpreendido ao encontrar-me só numa enorme sala, mal-iluminada, se é que não estava completamente às escuras.

Mas não, não me encontrava só, porque numa poltrona, junto do fogão, estava preguiçosamente reclinada uma menina em cujo rosto se refletiam as labaredas vermelhas da chaminé. Era uma rapariga de quinze ou dezesseis anos, modestissimamente vestida com uma bata de lã escura, que estava estropiando a vista lendo à luz do fogão. Tinha a cabeça encostada ao espaldar da poltrona, coberta com as madeixas de abundante cabeleira loira, e sustentava o livro aberto à altura dos olhos.

A jovem estava tão absorvida com a leitura, a porta tinha sido aberta tão de mansinho e a sala era tão grande, que me vi obrigado a tossir uma ou duas vezes para chamar a sua atenção. A princípio assustou-se; depois, deixando cair o livro, endireitou-se na cadeira, estendeu a mão e pegou num objeto que eu não tinha visto ainda e estava junto da poltrona: uma muleta. Apoiando-se nesta muleta, levantou-se, e ficou de pé diante de mim…

A pobre menina era coxa.

Apresentei-me eu próprio e o meu nome tranqüilizou-a. Convidou-me a sentar-me dando-se ares de pessoa da casa. Levantou o livro, pô-lo sobre os joelhos, e depois, metendo a mão num dos ângulos da poltrona, tirou uma rede em cujas malhas aprisionou os seus abundantes cabelos.

Terminada esta operação ficou com as mãos apoiadas nas muletas (porque tinha duas) como se se preparasse para me deixar só logo que eu lhe dissesse que ela era ali de mais.

– Tompson, disse-me como quem se desculpa, julgou sem dúvida que não estava aqui ninguém. Eu estou sempre nos aposentos dos meninos, salvo quando os senhores saem. Então desço ao salão para me entreter um pouco lendo.

– O sr. Rutland não está em casa? perguntei.

– Não; foram jantar fora.

– Deveras? Então seu pai não recebeu a minha carta!…

Ouvindo estas palavras, ruborizou-se.

– Eu não sou filha de Rutland. Chamo-me Teresa Ray, e sou órfã. Meu pai, que era parente afastado e amigo do sr. Rutland, recomendou-me a este à hora da morte… e o sr. Rutland trouxe-me para sua casa… por caridade.

Pronunciou esta última frase com amargura; mas, depois de morder os lábios, continuou:

– Nada sei relativamente à carta de que me fala; mas parece-me ter ouvido dizer que esperavam alguém… Sem dúvida não julgavam que o senhor chegasse esta noite, visto que toda a família foi jantar na casa de uns vizinhos.

– Bonita conclusão! disse eu com os meus botões. E pus-me a refletir na afetuosa recepção que me fizera meu primo Jorge. Se era eu que ele esperava, não havia dúvida de que a carta tinha chegado ao seu destino, e portanto sabia, não só o dia, mas também a hora da minha chegada.

– Oh Jorge, meu bom primo, tu não mudaste!

Enquanto assim pensava, notei que a jovem tinha fixos em mim os seus grandes olhos observadores, cuja curiosa expressão podia facilmente traduzir. A ter coragem para tanto, ter-me-ia dito:

– Também eu leio claramente no seu pensamento, senhor viajante, e tenho pena do senhor. Veio aqui com uma esperança que verá frustrada. Melhor teria feito demorando a sua visita até que o convidassem. Que vem o senhor fazer aqui? Se eu pudesse sair desta casa nunca mais tornaria a pôr os pés aqui. Se nesse mundo donde o senhor vem eu visse qualquer caminho aberto, tenha a certeza de que iria por ele com decisão, apoiando-me nas minhas muletas. Juro que não tornaria a ter o gosto de ver-me aqui, nem sequer para roubar uma hora ao aborrecimento nesta magnífica poltrona estofada.

Como pode dizer tanto um olhar? Eis um enigma; mas o fato é que o olhar de Teresa Ray me dizia tudo isso, palavra por palavra. Um laço de simpatia unia-nos rapidamente.

– Miss Ray, disse-lhe, que pensará de um homem que depois de passar quinze anos da sua vida no estrangeiro, tem o descaramento de voltar à pátria sem um xelim no bolso? Não lhe parece que merece ser apedrejado?

– Eu supunha isso mesmo, respondeu ela movendo a cabeça e dirigindo-me outro dos seus penetrantes olhares. Eu supus isso mesmo quando vi que lhe destinavam um dos piores quartos, reservando os melhores para as visitas que são esperadas na semana próxima. No dia de Natal a casa estará cheia… Eu não posso admitir o que o senhor me disse.

– Que é que não pode admitir? perguntei.

– Que não tenha um xelim no bolso. Rir-se-iam todos à sua custa e os criados sabê-lo-iam logo. Eu tenho um guinéu que a boa lady Thornton me deu no dia do meu aniversário e se me permite que lhe empreste, dar-me-á com isso muito prazer. Não me faz falta e o senhor restituir-me-á quando for rico.

Fez-me este oferecimento com tanta gravidade, que tive de fazer um esforço para não desatar a rir. A pequena tomava-me evidentemente sob a sua proteção e, adivinhando para mim afrontas que se considerava no dever de evitar, amparava-me com a sua experiência e com a sua superior perspicácia.

Pareceu-me muito divertido o deixar-me proteger por ela e entregar-me àquele amável interesse que lhe despertava a minha situação financeira.

Pelo que, deixando-me arrebatar por uma intimidade espontânea, lhe respondi com a maior gravidade:

– Agradeço o seu oferecimento e aceito-o. Tem aí o guinéu?

– Não, mas vou buscá-lo. E apoiando-se nas muletas saiu para voltar poucos minutos depois com uma bolsinha que me entregou. Abri-a e encontrei um guinéu cuidadosamente envolvido em papel prateado.

– Sinto não ter mais, disse-me ao ver que eu metia a bolsinha na algibeira, mas recebo tão poucos presentes deste gênero!

Nesse momento, o orgulhoso criado que me tinha acompanhado até à porta do salão, veio anunciar-me que tinha o jantar na mesa.

Quando acabei de jantar tive o desgosto de saber que a minha pequena benfeitora estava junto dos meninos. Não a tornei a ver naquela noite e dormi até o dia seguinte pela manhã.

II

No dia seguinte, ao almoço, apresentaram-me a toda a parentela. Encontrei primos e primas tal como os havia imaginado. O primo Jorge convertera-se num grave chefe de família.

– Alegra-me muito tornar a ver-te, disse apertando-me a mão; mas compreendi que não se alegrava em demasia. A mamã Rutland fez-me também o mais cortês acolhimento… de palavras. Os jovens priminhos trataram-me com certo desdém do melhor tom. Era preciso ser mais cândido do que me havia julgado na véspera a minha protetora para não perceber o lugar que me reservavam… debaixo da mesa.

Eu estava condenado a esse papel que só se aceita no caso de uma extrema necessidade: o papel de uma personagem sem importância.

Jorge entreteve-se alguns dias mostrando-me as suas extensas propriedades; mas quando chegaram hóspedes de mais consideração fiquei abandonado aos meus próprios recursos para passar o tempo. As filhas de Rutland tinham-me dispensado a honra de aceitar a minha escolta quando passeavam a cavalo; mas desde que tiveram outros cavaleiros mais distintos à sua disposição já não houve cavalo para mim. Quanto à castelã, minha nobre prima, dissimulava mal o aborrecimento que lhe causava a minha importuna visita, se bem que nem Jorge nem sua mulher ocupassem a alta situação que a herança de meu tio lhes conferia no condado. Não eram, precisamente, nobres de fresca data, mas eram de uma grande mesquinhez. Por isso sentiam-se humilhados tendo na sua nobre companhia um parente pobre que se roçava por eles e lhes chamava primos. Confesso que experimentava um prazer maligno em fingir que não percebia o papel que desempenhava em Rutland-Hall. Tudo me parecia bem, inclusive as chufas que me dirigiam, e em vez de me incomodar, esforçava-me por parecer cada vez mais amável, agradecendo todas as atenções de que não era objeto. Bem sabia eu que não era este o melhor meio para me tornar simpático aos olhos de meus primos. Mais lhes teria agradado um pouco de suscetibilidade da minha parte; mas eu era tão feliz desfrutando a hospitalidade daquele suntuoso castelo! Ele era como que o porto de salvação após uma viagem tormentosa… E vendo-me tão bem acolhido por tão carinhosos parentes, como não havia de sentir-me de bom-humor!

Além disso, eu desfrutava tanta liberdade como os outros hóspedes de Rutland-Hall, que de moto próprio escolhiam as suas distrações e dispunham do seu tempo. Quando me aborrecia com a palestra do salão, ia para os aposentos dos meninos, onde cresciam cinco rebentos da família. Havia uma hora do dia em que nem o papá, nem a mamã, nem os irmãos mais velhos entravam naquele pequeno reino: às cinco da tarde, quando os meninos tomavam chá. Eu tinha conquistado pouco a pouco a boa vontade de Jenny, a criada particular dos priminhos, muito sensível aos presentinhos que eu lhe fazia intencionalmente, e muito discreta quando sabia que a sua discrição seria recompensada. Até os próprios pequenos me tinham um certo afeto, conquanto não fossem precisamente uns anjos; mas eu tinha encontrado o caminho dos seus corações presenteando-os com livros de estampas, polichinelos, bonecas e guloseimas que adquiria com o guinéu de Teresa Ray. Esta admirava-se das coisas que eu comprava com uma única moeda de ouro e elogiava a minha habilidade para obter tudo tão barato.

Por má que fosse a minha situação em Rutland-Hall a de Teresa Ray era simplesmente intolerável.

Uma alma menos resoluta teria sucumbido, e uma natureza menos delicada teria perdido toda a doçura com que o céu a tivesse dotado. Os criados não tinham com ela a menor atenção, os pequenos achincalhavam-na, sacrificando-a a todos os seus caprichos. Só Jenny tinha certa simpatia pela pobre rapariga, mas apenas a defendia da perseguição dos seus tiranos quando podia fazê-lo sem se expor também à sua tirania.

Infelizmente não estava autorizada a fazê-los entrar na ordem pelo único meio que teria impressionado aqueles meninos mal-educados. Pelo que respeitava às filhas mais velhas de Rutland, a presença momentânea da órfã ou a simples menção do seu nome bastavam para perturbar a paz de suas almas.

– Que havemos de fazer desta rapariga, ouvi dizer um dia à senhora Rutland, falando com uma de suas filhas. Se não fosse coxa poderíamos obrigá-la a ganhar o pão de uma maneira ou de outra; mas necessitando de muletas para andar…

A senhora de Rutland não acabou a frase, mas o seu pensamento ficou clarissimamente expresso com um desdenhoso movimento de ombros e certo trejeito com que os seus lábios supriam perfeitamente as reticências da linguagem.

Como suportava Teresa Ray tudo isto? Sem se queixar nem protestar, sem lágrimas e sem entreabrir os lábios. Sob o seu simples traje negro havia uma verdadeira armadura de resignação angélica. A experiência parecia demasiado amarga, mas ela submetia-se sem humildade degradante, com uma expressão tranqüila no olhar, que parecia dizer:

– Por muitos que sejam os sofrimentos que me imponham saberei calar-me, porque nada me devem e talvez sofresse mais em outra parte. A gratidão impede-me de me queixar.

Casualmente encontrei pela segunda vez a minha pequena benfeitora um dia ou dois depois da nossa primeira entrevista no salão. Nos terrenos anexos ao solar reatamos a conversação do dia anterior, e havia para mim tal doçura na sua simpatia, que acrescentei mais alguns capítulos à novela da minha falta de recursos e de todas as dificuldades que me esperavam no país natal, onde quinze anos de ausência me faziam quase estrangeiro. Com que encantadora credulidade me escutava! Que belos conselhos me deu! Com que amável interesse me ofereceu, ao separarmo-nos, dar-me outros conselhos em melhor ocasião!

Ainda mesmo que meu querido primo e minhas simpáticas primas não me tivessem abandonado tanto, privando-me do prazer de os acompanhar nas suas excursões, eu teria preferido sempre o prazer de procurar Teresa Ray nos seus passeios solitários ou nos aposentos dos pequenos, onde praticava o meu sistema de corrupção com o mesmo cuidado que empregaria se se tratasse de uma intriga eleitoral. A conversação em passeio agradava-me muito mais que na barulhenta sala dos pimpolhos, onde mantinha a minha popularidade e a minha influência com tão pouco dinheiro. Mais de uma vez me esqueci dos rigores da estação escutando Teresa Ray que, coxeando nos atalhados da horta, queria resolver algum novo problema que eu propunha para aprender com ela a arte de conseguir com pouco dinheiro uma existência agradável. Um dia parou subitamente e cravando as muletas na neve endurecida, disse-me:

– O senhor devia deixar Rutland-Hall e procurar trabalho… Oh! se eu pudesse trabalhar…

III

Chegou a Rutland-Hall um tal sir Harry. Como não estou muito certo da ortografia do seu outro apelido, creio que não há necessidade de escrevê-lo. Era um solteirão rico, pertencente a uma família nobre, e a castelã observava com interesse todos os seus atos e movimentos. O tal sir Harry teve o capricho de ir todos os dias até a horta fumar um charuto, e encontrou mais de uma vez a minha pequena benfeitora, a qual notou que ele a olhava com modo muito singular, o que acabou por provocar uma pudica exaltação na cor do seu rosto, tão lindo como fresco. Torceu caminho, como a lebre que espera despistar o caçador; mas sir Harry soube encontrá-la de novo e assediou-a com os seus galanteios, cheios de lugares-comuns. Chegou o caso aos ouvidos da senhora de Rutland, que inventou uma porção de trapalhadas a propósito da pobre órfã. Ignoro as tristes acusações que lhe dirigiu, dando-lhe por fim uma reprimenda que durou uma hora; mas nessa noite, quando entrei nos aposentos dos pequenos com uma bola de borracha para Jack, o mais novo e o menos tirano da família, percebi pelos olhos inchados de Teresa Ray que a pobrezinha chorara uma torrente de lágrimas. Contive-me para não dizer em voz alta o que pensava da senhora Rutland, e quando Jenny interveio para apaziguar o tumulto promovido porque o primo Guy não tinha trazido um presente para cada menino, eu disse a Teresa Ray:

– Então! Para quando guarda a sua filosofia?

Doravante não admitirei nenhuma reconvenção se continuar a dar-me tão mau exemplo.

Teresa não me respondeu uma única palavra nem desviou o olhar do guarda-fogo. O golpe tinha sido rude e a ferida profunda. Ah! sr. Harry e senhora de Rutland, com que prazer eu teria feito rolar as vossas cabeças naquele momento.

– Teresa, disse-lhe, a menina ainda tem um amigo, embora de fraco valimento.

Então dirigiu-me uma dessas respostas mudas que eu estou bem certo de ter traduzido literalmente e que dizia:

– Tem razão; deposito no senhor toda a confiança, mas neste momento não posso falar.

Recobrou, contudo, gradualmente a tranqüilidade e aproximou-se da mesa para tomar a sua xícara de chá com biscoitos, enquanto eu consertava o desmantelado arco de Tommy.

Tommy era o mais turbulento e malicioso daqueles selvagenzinhos, um pequeno chefe bárbaro, a quem, dois dias depois, eu teria dado uma boa surra. Lembrou-se de dizer a Teresa uma das suas graçolas mais pesadas. Tirou-lhe as muletas, e servindo-se delas, imitando a pobre coxa, saiu da sala e só voltou depois de as ter feito em pedaços.

Foram inúteis todas as súplicas de Teresa ao maldoso fedelho. A pobrezinha ficou prisioneira durante as festas do Natal, sem poder fazer outra coisa que contemplar os campos através dos vidros da janela.

Tommy ria-se da sua resignação… mas talvez eu faça mal acusando Tommy.

Suspeitava então e continuo suspeitando que outra cabeça, que não era a daquele diabinho, era a inventora da conspiração contra o pobre pássaro, a fim de que não saísse da sua gaiola.

O pássaro definhava no seu ninho, mas quem se compadecia dele? Talvez Jenny, que por compaixão ou porque participava das generosidades do meu inesgotável guinéu, se atreveu a lamentar em voz alta a situação da prisioneira e a condenar o procedimento de Tommy.

Não quero fazer acreditar ao leitor que o inesgotável guinéu era uma dessas milagrosas moedas de ouro que, nos contos de fada, recheiam a bolsa de Fortunato. Sem explicar ainda todo o mistério, direi contudo que havia, como eu, outra pessoa que se interessava pela órfã, e essa pessoa era a mesma lady Thornton que lhe havia dado o guinéu, a qual era, não só bastante rica, mas também bastante caridosa para, se eu lhe tivesse pedido, me ter emprestado mais alguns guinéus.

Lady Thornton vinha de vez em quando a Rutland-Hall e eu tinha feito todo o possível para conquistar sua simpatia.

Durante a prisão de Teresa Ray teve lugar uma dessas visitas e quis o acaso que eu me encontrasse só no salão quando ela entrou. Vinha convidar toda a família e todos os seus hóspedes, grandes e pequenos, a festejarem a noite de Natal no seu castelo, situado a três ou quatro milhas de Rutland-Hall.

Aproveitei a ocasião para lhe contar a história das muletas de Teresa.

– Que pequeno travesso! Que pequeno travesso! exclamou. É preciso que Teresa tenha outras muletas para a festa do Natal.

A boa lady fixou em mim um olhar perscrutador através das lentes dos seus óculos.

– Que espécie de interesse lhe merece Teresa? perguntou.

– Eu e Teresa somos dois bons amigos.

– O senhor e Teresa! Permita-me que lhe peça explicações, porque ignoro se o senhor sabe que Teresa Ray tem dezoito anos.

– Dezoito anos? Deveras? Pois eu julgava-a ainda uma criança!

– Teresa não é uma criança, sr. Guy Rutland. Teresa é já uma senhora.

Teresa Ray uma senhora! Não pude deixar de rir. Como assim? A minha pequena benfeitora, a minha mamãzinha… O meu riso devia ter escandalizado lady Thornton, mas Christina Rutland, que entrou nesse momento no salão, pôs termo à difícil situação.

No entanto, mais de uma vez durante o dia caí na gargalhada, lembrando-me do caso. Teresa Ray uma senhora! Que idéia!…

IV

Ainda faltavam cinco ou seis dias para a festa a que lady Thornton nos havia convidado, quando ocorreu um incidente curioso, que determinou um conselho dos donos da casa, na biblioteca, antes do almoço.

Chegara de Londres uma grande caixa endereçada a miss Teresa Ray, e quando a abriram encontraram um par de muletas.

E que par de muletas! Uma obra de arte no seu gênero, madeira esculpida, com incrustações de madrepérola, aplicações de prata e almofadinhas de veludo bordado.

Os srs. de Rutland estavam assombrados! Quem teria feito aquele magnífico presente? Quem? E quem, fora de Rutland-Hall, tinha ouvido falar de Teresa Ray? Recaíram suspeitas em sir Harry, e eu esfreguei as mãos de contente, rindo perdidamente, ao ter conhecimento do caso.

Mas o grande conselho ponderou ainda o seguinte:

Entregariam a Teresa Ray aquele rico presente? De modo nenhum; o melhor seria fingir ignorância do caso. Aquelas muletas não estavam em harmonia com a situação da órfã e podiam inspirar-lhe idéias absurdas! Apesar das suas novas muletas, Teresa Ray continuaria prisioneira. Ocultaram a caixa e ninguém disse palavra sobre a existência dela.

Esperei alguns dias para ver se os srs. de Rutland reconsideravam, mas tudo foi inútil. O pássaro continuava definhando na gaiola, sem que nenhuma mão amiga se mostrasse disposta a abri-la, restituindo-lhe a liberdade.

Enquanto toda a gente se movia em volta de Teresa Ray, preparando-se para gozar o convite de lady Thornton, Teresa continuava sentada, costurando aventais para as criadas ou remendando as meias dos pequenos, que a viam impávidos, arrastando-se pela sala ou dirigindo os seus tristes olhares para a janela. Mostravam-lhe as roupas que estreariam na noite da festa e os laços com que adornariam os chapéus. Naquele dia, como nos restantes do ano, Teresa ficaria só em casa com o seu vestidito preto.

Suspirando, Teresa tinha-se despedido daquela festa, para a qual tinha sido inutilmente convidada, assim como os que lhe diziam: i…˜Despacha-te, Teresa, que se vai aproximando o dia; ainda falta pôr estas fivelas nos sapatos ou fazer um laço para o vestido. No entanto, estas palavras eram de todo desnecessárias, porque a pobre mamãzinha trabalhava com a atividade de uma abelha.

A ninguém ocorria dizer a Teresa:

– E tu, que vestido vais usar?

Como imaginar que Teresa podia ir à festa com a sua perna coxa e sem muletas?

Contudo, alguém pensava nisto; alguém que tinha dito: um vestido novo de seda irá divinamente em Teresa, e um laço cor-de-rosa ou azul destacará muito bem entre os seus cabelos louros.

No próprio dia da festa eu tive que tratar de um assunto urgente na cidade mais próxima, e à tarde, antes de regressar a Rutland-Hall, entrei em casa da melhor modista para trazer certa caixa de papelão.

– Quer ver o vestido da senhora?

Abriram a caixa e desdobraram um vestido de seda com aplicações de rendas, que eu não posso descrever em termos técnicos, mas em que pude admirar a elegância do corte e a harmonia das cores.

– Desculpe-me, mas parece-me que a saia está um pouco larga.

– Como o senhor disse que era para uma menina de dezoito anos e elas agora vestem tal qual as mães…

Era já tarde quando voltei a Rutland-Hall e vi partir as carruagens repletas de alegres convidados. Subi rapidamente aos aposentos dos pequenos com a minha caixa debaixo do braço e encontrei Teresa só com Jenny, a fronte apoiada na mão, contemplando melancolicamente a alcatifa cheia de pedacinhos de gaze e seda.

Vendo-me, o seu rosto iluminou-se.

– Ah! disse-me, pensei que tinha ido com os outros.

– Ainda não, mas não tardarei a reunir-me a eles e venho buscá-la.

– Eu! eu! exclamou tristemente; bem sabe que não posso ir, porque ainda mesmo que tivesse muletas não tinha o que vestir.

– Um amigo mandou-lhe um vestido e eu sei, também, que há muletas. Jenny tome conta desta caixa e ajude a vestir a menina Teresa, porque a carruagem espera-nos.

Teresa ruborizou-se e os olhos marejaram-se-lhe de lágrimas; depois empalideceu sufocada pela comoção, enquanto Jenny, a quem eu tinha feito um bom presente de Natal, se extasiava diante do conteúdo da caixa.

– Teresa, disse-lhe pela segunda vez, não há tempo a perder; estarei de volta dentro de dez minutos.

E deixei-a trêmula e docemente emocionada entregue a Jenny, que procedeu imediatamente à toilette.

Teresa estava já vestida quando eu entrei com as muletas incrustadas de prata e madrepérola.

Quando digo que Teresa estava vestida não quero significar que encontrei uma menina com o traje próprio das que vão a uma festa de crianças, mas que o vestido tinha transformado a minha mamãzinha, a minha pequena benfeitora numa jovem elegante, que, vendo a sua imagem no espelho, se assombrava da metamorfose.

Da Teresa de há pouco apenas conservava a linda cabecinha de cândida expressão… Quanto ao resto… sim, lady Thornton falara verdade quando me dissera que a órfã era já uma senhora.

Jenny, que até então tinha tratado Teresa como uma criança, não era a menos assombrada dos três, e eu ignoro o indefinível sentimento que sucedeu à minha surpresa, porque tanto tinha de medo como de satisfação.

Quando apresentei as muletas a Teresa, Jenny mirou-me como se eu fosse algum desses príncipes possuidores de talismã das Mil e uma noites.

Teresa experimentou as muletas e imediatamente atravessou a sala com passo seguro e desceu as escadas até ao vestíbulo. As muletas desapareciam entre as pregas da saia e as aplicações de tule que envolviam os seus alvos ombros.

Com que satisfação me lembrei naquele momento de certa bolsinha e de certo guinéu que ainda estavam ocultos na velha mala que eu tinha escolhido para ir passar uns dias em Rutland-Hall.

A carruagem esperava-nos. Era já tarde para eu me arrepender daquele ato preparado tão discretamente, apesar de me sentir muito mais tímido do que tinha previsto, ao ver-me frente a frente com a atriz, a quem até então havia atribuído um papel tão passivo.

Não descreverei o que se passou naquela memorável noite, nem a sensação que produziu a nossa entrada em casa de lady Thornton. Esta, deixando os hóspedes entregues à sua mortificação, aproximou-se de mim e disse-me ao ouvido maliciosamente:

– Estou ansiosa por ver o desenlace de tudo isto.

Teresa, sem refletir no caso, entregara-se desde o primeiro momento ao prazer de proporcionar uma surpresa aos seus amigos; mas não tardou em recear ter ofendido os srs. de Rutland. Mais de uma vez tremeu nos momentos mais alegres da festa, pensando na tempestade que, mais cedo ou mais tarde, se desencadearia sobre a sua cabeça. Meu primo Jorge e sua mulher não dissimulavam o seu desgosto, e quando chegou a hora do regresso a Rutland-Hall, tivemos a sorte de encontrar ainda a carruagem que nos trouxera, porque não nos ofereceram lugar nas da família.

Quando chegamos fomos avisados de que os srs. de Rutland nos esperavam na biblioteca, onde os encontramos com cara de poucos amigos. A senhora de Rutland encarregou-se de Teresa, deixando-me entregue ao seu caro esposo.

Não quero entrar nos detalhes desta explicação.

– Cavalheiro, disse-me ao concluir o meu amável primo, sofremos demasiado tempo a tua insolente intervenção, e peço-te que saias daqui amanhã.

– Primo Jorge, respondi, não tenho inconveniente em partir já amanhã, mas com a condição de Teresa Ray ir comigo se assim o desejar.

Olhou-me estupefato.

– Sabes, disse-me, que é uma órfã sem um pêni, que eu recolhi por caridade?

– Quero fazer dela minha mulher, se tiver a felicidade de Teresa aceitar a minha mão, repliquei solenemente.

– E uma vez casados, disse-me com ironia, com que pensam viver? Do ar ou à custa da família?

– Tem a certeza de que não será à tua custa, respondi-lhe, lançando-lhe um olhar que nada tinha de humilde. Conheço-te bem, Jorge Rutland.

– Palavras, palavras! Pois bem, não te esqueças de que eu lavo as minhas mãos relativamente ao que possa suceder-te e a Teresa Ray.

– Amém, respondi, e dando uma volta sobre os calcanhares, retirei-me para o meu quarto.

No outro dia muito cedo, bati à porta que dava ingresso aos aposentos das crianças e pedi a Jenny

que acordasse miss Ray e lhe dissesse que eu a esperava no jardim.

– Era dia de Natal, dia de paz e de amor, e conquanto não possa dizer que a paz reinava no meu coração quando abracei com o olhar a paisagem branca de neve, devo confessar que não sentia ódio por ninguém.

Teresa não tardou, mas a mesma Teresa de antes, com o seu vestidinho preto e um tanto envergonhada das suas novas muletas. Senti uma grande alegria ao vê-la assim, porque a linda rapariga que eu criara na noite anterior me fazia medo. Contudo, quanto mais a olhava mais obrigado me via a reconhecer que não era já a simples Teresa a quem tinha tratado como criança antes da metamorfose. Mudara muito, ou talvez fosse em mim que a mudança se operara… ou nos

dois… Apesar de tudo, tal mudança nada tinha de desagradável.

Saímos juntos do jardim e tomamos por um dos nossos atalhos favoritos, onde abrimos mutuamente os corações. Quando voltamos à casa, disse a Teresa:

– Em conclusão, Teresa, não tem receio de viver comigo na miséria? Consente em correr esse perigo?

Teresa respondeu meneando a linda cabecinha.

– Prepare-se, pois, para sairmos daqui depois do almoço. Não traga nada, Teresa. Ainda me resta algum dinheiro do troco do guinéu e com ele compraremos tudo o que for necessário.

Teresa foi buscar o chapéu e voltou. Partimos e ao cabo de uma hora estávamos casados. Rezamos juntos na igreja, um ao lado do outro, e depois voltamos a Rutland-Hall para fazermos as nossas despedidas.

Eu creio que nos tomaram a mim por um doido e a ela por uma estouvada, pelo menos até meu primo Jorge receber a carta-ordem, que eu lhe enviei no dia seguinte contra um banqueiro de Londres, para que cobrasse a importância da despesa feita por minha mulher na sua casa.

Então, e pelo que me dizia respeito, começaram a mudar de opinião.

Percorri o continente com minha mulher. A enfermidade dela não era incurável: o tempo e cuidados inteligentes tornaram inúteis as muletas.

Ninguém, pois, estranhará, que ao regressarmos à Inglaterra os nossos parentes tivessem dificuldade em reconhecer Teresa na senhora Guy Rutland, casada com um milionário. Lady Thornton acolheu-nos com a sua graciosa amabilidade… Mostrei-lhe o milagroso guinéu que ainda conservo muito bem guardado e a que chamo o dote de Teresa. Será necessário dizer que as preciosas muletas incrustadas de prata e madrepérola não tinham sido um presente de sir Harry?

Também as conservo como uma relíquia de família.

Extraído do site A Garganta da Serpente.