Arquivo

Archive for the ‘Stephen King’ Category

O Sonho de Harvey (Stephen King)

Junto da pia, Janet se vira e subitamente vê seu marido, com quem se casou há quase 30 anos, sentado à mesa da cozinha, de camiseta e cueca branca, olhando para ela. Com uma freqüência cada vez maior ela encontra esse prócer de Wall Street nesse mesmo lugar, vestido dessa mesma maneira, nas manhãs de sábado: com os ombros caídos e o olhar vago, pêlos brancos nas bochechas, tetas masculinas estufando a frente da camiseta, cabelo eriçado feito uma versão envelhecida e emburrecida do Alfafa de “Os Batutinhas” (seriado norte-americano criado em 1922 por Hal Roach que fez sucesso entre as décadas de 20 e 40 nos EUA e se tornou filme em 1994. Alfafa, uma criança com cabelo espetado, é um dos personagens).
Na verdade, porém, ela não acredita que essas aparições silenciosas nas manhãs de sábado se devam a sintomas prematuros da doença, pois em todos os dias da semana, Harvey Stevens está pronto para sair e enfrentar o mundo às 6h45. É um homem de 60 anos que parece ter 50 (bem, 54) quando veste um dos seus ternos mais elegantes e que ainda domina como poucos a arte de armar uma transação, vender com lucro ou comprar barato.
Não, ele está só treinando para envelhecer, pensa ela, detestando a idéia. Tem medo de que ele fique assim toda manhã depois que se aposentar, pelo menos até que ela lhe dê um copo de suco de laranja e lhe pergunte (com uma impaciência crescente e impossível de evitar) se ele quer cereais ou apenas torradas. Tem medo de — ao interromper qualquer coisa que estiver fazendo — encontra-lo sempre sentado ali, sob um raio de sol brilhante demais, Harvey pela manhã, Harvey de camiseta e cueca, com as pernas abertas de modo que ela veja seus parcos dotes físicos (caso ela se preocupe com isso) e aqueles calos amarelados nos dedões de seus pés, que sempre a fazem pensar em Wallace Stevens e o Imperador do Sorvete.
Sentado ali, silencioso e amalucadamente contemplativo, em vez de se aprontar para sair, e se preparar psicologicamente para enfrentar o dia. Deus, tomara que esteja errada. Aquilo faz a vida parecer tão esquálida, tão estúpida de certa forma. Ela fica se perguntando se foi para isso que eles lutaram, criaram três filhas, separaram o inevitável caso extraconjugal dele durante a meia-idade, trabalharam e às vezes (encaremos a realidade) até foram um pouco inescrupulosos? Se é para isso que a gente enfrenta a selva da vida, pensa Janet, para acabar nesse… nesse estacionamento… para que se esforçar?
Mas a resposta é fácil. Ela não sabia. Ela descartava maioria das mentiras ao longo do caminho, mas se aferrara aquela que dizia que a vida era importante. Criara um álbum dedicado às mentiras, e ali elas ainda eram jovens, com possibilidades interessantes: Trisha, a mais velha, usando uma cartola e agitando uma vara de condão feita de papel-alumínio sobre Tim, o cocker spaniel. Jenna, congelada no meio de um salto por cima do chafariz do gramado, com seu fraco por drogas, cartões de crédito e homens mais velhos ainda muito além do horizonte. Stephanie, a mais nova, durante aquele concurso municipal de ortografia, em que a palavra “auspicioso” se revelara a sua Waterloo. Na maioria daqueles retratos (geralmente ao fundo), viam-se também Janet e o homem com quem ela se casara, sempre sorrindo como se fosse contra a lei fazer outra coisa.
Então um dia ela cometera o erro de olhar para trás e descobrira que as mentiras haviam crescido e que aquele homem — que só continuara sendo seu marido por que ela batalhara por isso — estava sentado ali de pernas abertas, umas pernas brancas feito carne de peixe, olhando fixamente para um raio de sol. Deus, talvez ele parecesse ter 54 num terno elegante, mas sentado à mesa da cozinha daquele jeito, parecia ter 70. Setenta e cinco, que diabo. Ele parecia aquilo que “Os Sopranos” chamavam de pateta.
Ela se volta para a pia e espirra delicadamente, uma, duas, três vezes.
— Como elas estão hoje? — pergunta ele, falando das cavidades nasais, das suas alergias. A resposta é que elas não estão muito bem, mas, como um surpreendente numero de coisas ruins, as alergias de verão também têm um lado positivo. Janet não precisa mais dormir com Harvey e brigar por sua cota de cobertores no meio da noite; não precisa mais escutar um ou outro peido abafado enquanto o marido se precipita no sono. Durante o verão ele consegue dormir seis ou até sete horas na maioria das noites, e isso é mais do que suficiente. Quando o outono chegar e Harvey voltar do quarto de hóspedes, o número de horas cairá para quatro, e grande parte disso será um sono perturbado.
Janet sabe que chegará um ano em que o marido não voltará. É, apesar de ela não lhe dizer isso — pois o deixaria magoado, e ela continua a não gostar de magoá-lo; o amor entre os dois se transformou nisso, ao menos da parte dela com relação a ele —, ela ficará feliz.
Ela suspira e enfia a mão numa caçarola com água dentro da pia, apalpando e dizendo: — Até que não estão tão mal assim.
E então, enquanto Janet pensa (não pela primeira vez) que a vida já não esconde nenhuma surpresa ou profundeza marital insondável, Harvey diz com uma voz estranhamente displicente: — Foi bom você não ter dormido comigo ontem à noite, Jax. Tive um sonho ruim. Na realidade, acordei de tanto gritar.
Ela se espanta. Há quanto tempo ele não a chamava de Jax, em vez de Janet ou Jan? Este último apelido secretamente ela detesta. Faz com que ela pense naquela atriz melosa de “Lassie”, que ela via quando criança. O garotinho (Timmy, seu nome era Timmy) sempre caía num poço, era mordido por uma cobra ou ficava preso sobe uma rocha. Que pais eram aqueles, que colocavam a vida de um filho nas mãos de uma porra de uma collie?
Ela se vira para ele novamente, esquecendo a caçarola com o último ovo lá dentro, a água já fora da fervura há tempo suficiente para estar morna. Ele teve um sonho ruim? Harvey? Janet tenta se lembrar de quando foi a última vez em que Harvey mencionou ter tido qualquer tipo de sonho, mas não consegue. A única coisa que lhe vem à memória é uma vaga lembrança dos tempos de namoro dos dois: Harvey dizendo algo como “eu sonho com você”, ela própria jovem o suficiente para achar aquilo meigo, em vez de bobo.
— Você o quê?
— Acordei de tanto gritar, diz ele. Você não ouviu?
— Não, ela responde ainda o fitando. Tenta ver se ele está brincando. É como se fosse uma piada matinal bizarra. Mas Harvey não é homem de brincadeiras. Para ele, humor é contar piadas à mesa de jantar sobre seus tempos no Exército. Janet já ouviu todas no mínimo cem vezes.
— Eu estava gritando umas palavras mas na realidade não conseguia dizer nada. Era como se… não sei… eu não conseguisse fechar a boca em torno das palavras. Parecia que eu tinha tido um derrama. E a minha a minha voz estava mais grave. Nem um pouco parecida com a minha voz verdadeira — diz ele, fazendo uma pausa. — Eu conseguia me ouvir e me obriguei a parar. Mas estava tremendo e tive de acender a luz por um tempo. Tentei mijar mas não consegui. Ultimamente parece que eu sempre consigo mijar, pelo menos um pouquinho, mas hoje, às 2h47 da madrugada, não consegui.
Ele faz uma pausa e fica sentado ali, sob o raio do sol. Janet vê os ciscos de poeira dançando na luz; aquilo parece envolve-lo numa auréola luminosa.
— Que sonho foi esse? — pergunta ela. Uma coisa estranha — essa é a primeira vez em cerca de cinco anos, desde que eles ficaram até tarde da noite discutindo se deveriam vender ou reter as ações da Motorola (acabaram vendendo), em que ela se interessa por algo que ele tem a dizer.
— Nem sei se quero contar a você — diz ele, exibindo uma timidez nada característica. Em seguida se vira, pega o moedor de pimenta e começa a joga-lo de uma ponta para a outra.
— Dizem que, se contamos nossos sonhos, eles não se realizam — diz ela, e surge a “coisa estranha número dois”: subitamente, Harvey parece estar presente ali de uma forma que não lhe parecia havia anos. Até sua sombra, na parede acima da torradeira, parece misteriosamente estar mais presente ali. Ela pensa: “Ele parece ter importância, e qual é o porquê disso? Exatamente quando eu acabo de pensar que a vida é esquálida, por que deveria achar que é consistente? É uma manhã de verão ao final de junho. Estamos em Connecticut. Sempre passamos os meses de junho em Connecticut. Logo um de nós irá pegar o jornal, que será dividido em três partes, tal como a Gália”.
— Dizem mesmo? — pergunta ele, contemplando as idéias com as sobrancelhas erguidas (Janet precisa apará-las novamente, pois já estão com aquela aparência selvagem, e Harvey nunca percebe), jogando o moedor de pimenta de uma mão para outra. Ela gostaria de manda-lo parar. Aquilo já a está deixando nervosa (tal como o negrume exclamatório da sombra dele na parede, tal como as batidas do seu próprio coração, que subitamente, sem razão nenhuma, começou a disparar), mas prefere não perturbar seus pensamentos nesta manhã de sábado.
Harvey larga o moedor de pimenta, e isso não deveria ser problema, mas de certa forma o é, pois o objeto tem uma sombra própria, que se projeta ao longo da mesa feito a sombra de uma peça de xadrez exageradamente aumentada. Até as migalhas das torradas que jazem ali têm sombra, e Janet não entende por que isso deveria assusta-la, mas fica assustada. Ela pensa no gato dizendo a Alice “todos nós somos loucos aqui” e subitamente não quer ouvir o sonho idiota de Harvey, do qual ele despertou aos gritos, parecendo um sujeito com um derrame. Subitamente, ela quer que a vida seja esquálida. A esqualidez é legal, a esqualidez é boa, quem duvida que olhe para as atrizes do cinema. Nada deve ser anunciado, pensa ela febrilmente. Sim, febrilmente; é como se estivesse tendo um daqueles acessos de calor típicos da menopausa, embora ela pudesse ter jurado que aquela bobajada terminara dois ou três anos antes. Nada deve ser anunciado, é sábado de manhã e nada deve ser anunciado.
Janet abre a boca para falar que entendeu a coisa ao contrário, na verdade dizem que, se contamos nossos sonhos, eles se realizam, mas é tarde demais, ele já está falando, e ela pensa que aquilo é o seu castigo por achar que a vida é esquálida. Na realidade, a vida é uma canção de Jethro Tull, espessa como um tijolo. Como ela pode ter pensado outra coisa?
— Sonhei que amanhecia e eu descia para a cozinha — diz ele. — Era sábado de manhã, tal como agora, só que você ainda não tinha acordado.
— Sempre me levanto antes de você nas manhãs de sábado — diz ela.
— Eu sei, mas era um sonho — diz ele pacientemente. Janet olha os pêlos brancos na parte interna das suas coxas, onde os músculos parecem moles, raquíticos. Antigamente, ele jogava tênis, mas foi a muito tempo. Ela pensa, com uma violência nada característica: “Você vai ter um enfarte, meu chapa, é isso que vai acabar com você, e talvez eles pensem em publicar um obituário seu no “Times”; mas, se alguma atriz de filme B da década de 50 ou uma bailarina semifamosa da década de 40 houverem morrido nesse dia, nem isso você vai ter”.
— Mas foi assim mesmo… Quer dizer, o sol estava brilhando aqui dentro — diz ele, erguendo a mão e agitando um turbilhão de ciscos de poeira em torno da cabeça. Janet sente vontade de gritar para que ele não faça aquilo, não perturbe o universo daquela maneira.
— Dava para ver minha sombra no chão.  Ela nunca me pareceu tão brilhante, ou tão espessa — diz ele, fazendo uma pausa e sorrindo. Ela vê que os lábios dele estão muito rachados. — “Brilhante” é uma palavra engraçada para usar em relação a uma sombra, não é? “Espessa” também.
— Harvey…
— Eu fui até a janela e olhei para fora. Vi que havia um amassado na lateral do Volvo do Frank e… não sei como… pressenti que Frank tinha saído para beber e que o carro tinha sido amassado no caminho para casa.
Subitamente, Janet sente que vai desmaiar. Ela própria vira o amassado na lateral do Volvo de Frank Friedman ao ir até a porta para ver se o jornal já chegara (ainda não) e pensara o mesmo, que Frank fora beber no Gourd e batera em alguma coisa no estacionamento. O que teria acontecido com o outro sujeito? Fora exatamente o que ela pensara.
Ela pensa que Harvey também já viu aquilo, que ele está brincando Poe alguma razão insondável. Isso é possível, certamente; o quarto de hóspedes em que ele dorme durante o verão tem vista para a rua. Só que Harvey não faz esse gênero. “Brincar” não é a “praia” de Harvey Stevens.
Ela sente o suor nas faces, na testa e na nuca, e seu coração nunca bateu tão rápido. Realmente parece que algo está se avizinhando, mas por que aquilo deveria estar acontecendo agora? Agora que o mundo está calmo e as perspectivas parecem tranqüilas? Se eu pedi isso, lamento, pensa ela. Ou talvez ela esteja rezando na realidade: Leve isso de volta, por favor, leve isso de volta.
— Eu fui até a geladeira e dei uma olhada lá dentro. Vi uma travessa de ovos cozidos coberta por plástico. Adorei ver aquilo… Eu já queria almoçar às sete da manhã — diz Harvey, rindo. Janet… ou melhor, Jax… baixa o olhar para a caçarola dentro da pia e examina o último ovo que resta ali. Os outros já foram descascados e fatiados em dois, com as gemas retiradas. Estão numa tigela ao lado do secador. Ao lado da tigela há uma jarra de maionese. Ela planejava servir os ovos cozidos no almoço junto com uma salada verde.
— Não quero ouvir o resto — diz Janet, mas numa voz tão baixa que ela mesma quase não se escuta. Antigamente, ela pertencia ao Clube de Drama; agora já nem consegue projetar a voz pela cozinha. Os músculos do seu peito parecem estar todos frouxos, como as pernas de Harvey estariam se tentasse jogar tênis.
— Pensei em comer um só — diz Harvey. — Mas depois pensei: “não”, se eu fizer isso, ela vai berrar comigo. E então o telefone tocou. Corri até lá, porque não queria que você acordasse. Agora vem a parte assustadora. Quer ouvir?

Soluços Sussurrados

Não, pensa ela, perto da pia. Não quero ouvir a parte assustadora. Ao mesmo tempo, porém, ela quer ouvir a parte assustadora, todo mundo quer ouvir a parte assustadora, todos nós somos loucos aqui, e sua mãe realmente dissera que, se contamos nossos sonhos, eles não se realizam. Isso significava que devíamos contar nossos pesadelos e guardar os sonhos bons para nós mesmos, escondê-los como um dente sob o travesseiro.
Eles têm três filhas. Uma delas mora na mesma rua: Jenna, uma divorciada animada, tem o mesmo nome de uma das gêmeas Bush, coisa que detesta. Passou até a exigir que as pessoas a chamem de Jen. Três meninas, coisa que significou muitos dentes sob os travesseiros, muitas preocupações com estranhos que oferecessem balas e caronas em carros, muitos cuidados. Ah, Janet torce para que sua mãe tenha razão, para que contar um sonho ruim seja como enfiar uma estaca no coração de um vampiro.
— Eu atendi o telefone e era Trisha — diz Harvey. Trisha é a filha mais velha, que idolatrava Houdini e Blackstone antes de descobrir os rapazes. — Ela só disse uma palavra a princípio, só “papai”, mas eu sabia que era Trisha. Sabe como nós sempre sabemos?
Sim. Janet sabe como n´s sempre sabemos. Nós sempre sabemos que são nossos filhos, desde sua primeira palavra. Pelo menos até eles crescerem a passarem a pertencerem a outras pessoas.
— Eu disse “oi, Trisha, por que você está ligando tão cedo, meu bem? Sua mãe ainda está dormindo”. A principio não houve resposta. Achei que a ligação tinha caído, mas depois, ouvi uns soluços sussurrados. Não chegavam a ser palavra, só meias palavras. Como se ela estivesse tentando falar, mas sem conseguir emitir nenhum som, porque estava sem forças ou sem fôlego. E foi então que comecei a ficar assustado.

Mal de Alzheimer

Bom, então ele é bem lento, não é? Pois Janet — que era a Jax na Sarah Lawrence, a Jax no Clube de Drama, a Jax que dava beijos de língua incríveis, a Jax que fumava Gitanes e fingia gostar de tragos de tequila —, Janet já está assustada há bastante tempo, já estava assustada entes de Harvey mencionar o amassado na lateral do Volvo de Frank Friedman.
E pensar nisso faz com que ela se lembre da conversa telefônica que teve com sua amiga Hannah há menos de uma semana, a conversa que acabou desembocando em aterrorizantes histórias sobre o mal de Alzheimer. Hannah estava na cidade. Janet enroscara-se junto à janela da sala e ficara olhando para aquele pedaço de terra que eles têm em Westport.
Olhando para todas aquelas belas coisas verdejantes que fazem com que ela espirre e fique com os olhos marejados. Antes que a conversa se desviasse para os casos de Alzheimer, elas haviam falado de Lucy Friedman e depois de Frank. Qual das duas dissera aquilo? Qual das duas dissera “se ele não tomar cuidado com esse negócio de beber e dirigir, vai acabar matando alguém”?
— Então Trisha disse algo que parecia ser “lixa” ou “Lícia”, mas no sonho eu sabia que ela estava… elidindo… essa é a palavra? Elidindo a primeira sílaba, e que na verdade dizia “polícia”. Eu perguntei o que tinha a polícia, o que ela estava tentando dizer a cerca da polícia, e me sentei. Bem ali — diz ele, apontando para uma cadeira no que eles chamam de cantinho do telefone.
— Houve outro silêncio, e depois outras daquelas meias palavras, aquelas palavras sussurradas. Ela estava me irritando tanto com aquilo, que eu pensei, “rainha do drama, sempre foi assim”, mas então ela disse “número”, claro como água. E eu pressenti — da mesma forma quando ela tentava falar “polícia” — que ela tentava me dizer que algum policial havia ligado para ela por não saber o nosso número.

Número Fora do Catálogo

Janet, amortecida, balança a cabeça. Eles haviam decidido retirar o número do catálogo porque os repórteres viviam ligando para Har4vey a respeito da confusão da Enron (uma das maiores empresas de energia dos EUA, que entrou em concordata em 2001 devido a fraudes financeiras).
Não Poe ele próprio ter algo a ver com a Enron, mas porque era uma espécie de perito em grandes companhias de energia. Chegara até a participar de um comitê presidencial alguns anos antes, na época em que Clinton era o manda-chuva e o mundo (ao menos na humilde opinião dela) era um lugar um pouco melhor, um pouco mais seguro.
E embora haja muitas coisas a respeito de Harvey das quais ela já não gosta, Janet sabe perfeitamente bem que ele tem mais integridade que todos aqueles canalhas da Enron juntos. Ela até pode se entediar com a integridade, às vezes, mas sabe muito bem o que é isso. Mas a polícia não tem um jeito de conseguir os números fora do catálogo? Bom, talvez não, quando há pressa em descobrir algo ou avisar alguém. Além disso, os sonhos não têm de ser lógicos, têm? Os sonhos são os poemas do subconsciente.
E agora, como ela já não agüenta mais ficar parada, Janet vai até a porta da cozinha e lança o olhar para aquele dia ensolarado de junho. Vê Sewing Lane, que é a pequena versão deles daquilo que ela supõe ser o sonho americano. Como esta manhã está calma, com um trilhão de gotas de orvalho ainda cintilando sobre a grama! Mas seu coração ainda martela dentro do peito, o suor rola pelo rosto e ela quer dizer a Harvey que ele precisa parar, que não pode contar esse sonho, esse sonho terrível. Precisa lembrar a ele que Jen mora bem ali na rua… Jen, isto é, Jen que trabalha na videolocadora da cidade e que nos finais de semana passa noites demais bebendo no Gourd com gente como Frank Friedman, que tem idade para ser seu pai. Coisa que indubitavelmente, é parte da atração.
— Todas aquelas meias palavrinhas sussurradas, e ela não falava — diz Harvey. — Então ouvi “morta” e pressenti que uma das meninas tinha morrido. Simplesmente pressenti. Não a Trisha, porque ela estava ao telefone, mas Jenna ou Stephanie. E fiquei tão assustado. Na realidade, fiquei sentado ali me perguntado qual delas eu queria que fosse, como a porra da escolha de Sofia. Comecei a gritar com Trisha. “Diga qual foi! Diga qual foi! Pelo amor de Deus, Trish, diga qual foi!” Só depois é que o mundo real começou a fluir novamente… presumindo que existia tal coisa.
Harvey dá uma risadinha e, na luz forte da manhã, Janet vê que há uma mancha avermelhada no meio do amassado no Volvo de Frank Friedman e que no meio da mancha há um trecho escuro que pode ser sujeira ou então cabelo. Ela pode imaginar Frank largando o carro todo torto junto do meio-fio às duas da madrugada, bêbado demais para tentar entrar na alameda, muito menos na garagem… reto é o portão e tudo mais. Ela pode vê-lo cambaleando até a casa com a cabeça baixa, respirando fundo pelo nariz. Viva o touro!
— Nesse ponto eu já sabia que estava na cama, mas ainda escutava aquela voz grava, que não se parecia nem um pouco com a minha; era como a voz de um estranho, que não conseguia terminar as palavras que pronunciava. “Diii-quaaa-fooo, diii-quaaa-fooo.” Era assim que ela soava. “Diii-quaaa-fooo,ish!” Diga qual foi. Diga qual foi, Trish.
Harvey silencia, pensando. Refletindo. Os ciscos de poeira dançam em torno do seu rosto. O sol faz a sua camiseta brilhar tanto que é até difícil fitá-la; é a camiseta de um comercial de sabão em pó.
— Fiquei deitado, esperando que você corresse até lá para ver qual era o problema — diz ele por fim. — Fiquei deitado ali todo arrepiado, tremendo, dizendo a mim mesmo que aquilo era só um sonho, como a gente sempre afaz, é claro, mas também pensando em como a coisa parecia real. E até maravilhosa, de uma forma terrível.

O Sonho de Um Poeta

Ele pára novamente, pensando em como dizer o que vem a seguir, sem perceber que a mulher já parou de lhe dar atenção. A ex-Jax está empregando toda sua mente, todos os seus consideráveis poderes mentais, para se forçar a acreditar que aquilo que ela está vendo não é sangue, e sim a camada de revestimento do Volvo, sob a tinta que foi arrancada. “Revestimento” é uma palavra que o subconsciente dela está ávido por oferecer.
— É incrível, não é, a profundidade da nossa imaginação? — diz ele por fim. — Um sonho como esse é como um poeta… um dos poetas verdadeiramente grandes… deve ver o seu poema. Com cada detalhe nítido e vívido
Ela silencia; a cozinha pertence de novo ao sol e aos ciscos dançantes. Lá fora, o mundo está à espera. Janet olha para o Volvo no outro lado da rua; o carro parece pulsar diante dos seus olhos, espesso feito um tijolo. Quando o telefone toca, ela gritaria se conseguisse ter fôlego, cobriria os ouvidos se conseguisse erguer as mãos. Ela ouve Harvey se levantar e ir até o cantinho. O aparelho toca novamente, e depois uma terceira vez.
É engano, pensa ela. Só pode ser, pois quando contamos nossos sonhos, eles não se realizam.
Harvey diz: — Alô?

Anúncios