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Archive for abril \26\UTC 2009

Bob Dylan – It’s Alright, Ma (I’m Only Bleeding)

Traduzi mais uma do Dylan… e a culpa não é inteiramente minha. Cometi o erro de baixar a discografia completa, e já vou completar três semanas sem ouvir nada diferente (por sorte a discografia é estupidamente grande).

Bizarrices à parte, essa é uma das minhas músicas favoritas, e já faz um tempinho que eu planejava postar a tradução por aqui — não fosse o tamanho, eu provavelmente teria feito antes.

Também vale comentar o clipe amador (mas ainda assim interessante) que eu coloquei junto com a letra. O dono do clipe, é uma história a parte. O cara é um diretor/escritor/mendigo, e essa montagem sobre “It’s All Right, Ma” é uma das muitas partes da sua auto-biografia(!) “Sketches of Nothing by A Complete Nobody”, que em uma tradução tosca, seria algo como “Esboços de nada por um completo ninguém”.

O sujeito atende pela alcunha de BumDog; e ele colocou alguns trechos da sua biografia em um canal do MySpace, e apesar de ele não atualizar desde 2006, de cara posso dizer que a vida de um mendigo pode ser mais interessante e inusitada do que se pode imaginar.

Pra ver a letra original da música no site oficial do Dylan, é só clicar no título abaixo.


Tudo bem, Mãe (só estou sangrando)

Escuridão no cair da tarde
sombras igualam a colher prateada
a lâmina feita a mão, o balão da criança
Criam um eclipse em ambos sol e lua
Pra entender que você sabe cedo demais
Não tem sentido em tentar.

Ameaças dirigidas, blefam com escárnio
Observações suicidas são rasgadas
do bocal dourado de um tolo
o chifre vazio toca palavras gastas
Provam avisar
Que aquele que não está ocupado nascendo
está ocupado morrendo.

A página da tentação voa pela porta
Você continua, e se encontra em guerra
Assiste cascatas de piedade rugir
Você sente um lamento mas diferente de antes
Você descobre
Que você é apenas
Mais uma pessoa chorando

Então não tema, se você ouvir
um som estranho aos seus ouvidos
Está tudo bem, Mãe, estou só suspirando

Enquanto alguns avisam da vitória, outros perdem
Razões particulares, grandes ou pequenas
Podem ser vistas nos olhos daqueles que chamam
tudo que deveria ser morto à rastejar
Enquanto outros dizem “não odeie absolutamente nada
Exceto o ódio”

Palavras de desilusão latem como balas
Enquanto deuses humanos miram seus alvos
Fazendo tudo desde armas de brinquedo que brilham
à Cristos cor de pele que brilham no escuro
É fácil perceber sem olhar muito longe
que pouca coisa
é realmente sagrada

Enquanto pregadores pregam sobre destinos maléficos
Professores ensinam que a espera por conhecimento
Pode levar à pratos de cem dólares
Bondade se esconde atrás dos portões
Mas até o presidente dos Estados Unidos
Às vezes tem que
ficar nu.

E apesar das regras da estrada já estarem alojadas
É apenas do jogo das pessoas que você tem de esquivar
E está tudo bem, Mãe, eu consigo.

Cartazes publicitários que te enganam
a pensar que você é aquele
que pode fazer o que nunca foi feito
Que pode vencer o que nunca foi vencido
Enquanto a vida lá fora continua
Ao seu redor.

Você se perde, você reaparece
Subitamente descobre que não tem nada a temer
sozinho você fica em pé, com ninguém perto
Quando uma voz distante tremendo, vaga
Aguçam seus ouvidos adormecidos à ouvir
Que alguém acha
Que realmente te encontrou.

Uma questão é acendida no seus nervos,
Entretanto você sabe que não há resposta feita pra satisfazer
Garantir que você não desista
Para manter em sua mente e não esquecer
que não é ele ou ela, eles ou aquilo
Que lhe pertencem.

Apesar dos mestres criarem as regras
Para os sábios e para os tolos
Eu não tenho nada, Mãe, para continuar vivendo.

Para eles que precisam obedecer as autoridades
que não respeitam em grau algum
Que desprezam seus empregos, seus destinos
Falam com inveja daqueles que são livres
Cultivam flores para se tornarem
nada mais do que algo em que
investiram.

Enquanto alguns batizados por princípio
à rígidas políticas partidárias amarram
clubes sociais à reboque disfarçam
Intrusos que eles podem criticar livremente
Dizendo nada exceto quem idolatrar
E depois dizer Deus abençoe ele.

Enquanto um canta com a língua em chamas
vomita no coro da raça de ratos
Entortado além do formato do fórceps da sociedade (*)
Não se importando em se erguer nem um pouco
Mas sim lhe trazer para dentro do buraco
onde ele está.

Mas eu não tenho más intenções, nem quero colocar culpas
em ninguém que viva dentro de um cofre
Mas está tudo bem, Mãe, se eu não posso agradá-lo.

Velhas juízas vêem pessoas em pares
Limitadas no sexo, elas se atrevem
a empurrar falsas morais, insultar e encarar
enquanto o dinheiro não fala, ele xinga
Propaganda, é tudo falso.

Enquanto aqueles que defendem o que não podem ver
com um orgulho assassino, segurança
lhes enche a cabeça da forma mais amarga
Para quem acha que a honestidade da morte
não lhes cairá naturalmente
A vida às vezes
deve se tornar solitária.

Meus olhos colidem direto com cemitérios recheados
Deuses falsos, eu me arrasto
à insignificância que joga tão duro
anda de cabeça pra baixo de algemas
Bica minhas pernas para quebrá-las
Tudo bem, eu já aguentei demais
O que mais você pode me mostrar?

E se meus pensamentos/sonhos pudessem ser vistos
Eles provavelmente colocariam minha cabeça em uma guilhotina
Mas está tudo bem, Mãe, é a vida, e apenas a vida.

(*) No original: “Bent out of shape from society’s pliers“. Sobre a palavra “fórceps”, usada aqui para traduzir “pliers“, segundo definição do Aurélio quer dizer: “Instrumento que se usa para, a partir de indicação adequada, extrair uma criança do útero”.
Em inglês a frase tem um duplo sentido mais óbvio (e bem mais forte), pois ao mesmo tempo que faz referência ao ato de entortar um instrumento metálico usado para realizar abortos, sugere também – pelo o que se pode interpretar no resto da estrofe – a idéia de alguém que se coloca propositalmente em uma posição grotesca em relação à sociedade para lhe devolver o mesmo mal que ela lhe traz, rejeitando a possibilidade de se tornar algo melhor; como mencionado no final da estrofe: “Cares not to come up any higher”/But rather get you down in the hole/That he’s in“.
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Bob Dylan – Love Minus Zero/No Limit


Amor menos Zero / Sem Limites

Meu amor fala como o silêncio
Sem ideais ou violência,
Ela não tem de se dizer fiel,
Ainda assim é verdadeira, como o gelo, como o fogo.
Pessoas levam rosas,
Fazendo promessas por hora,
Meu amor ri como as flores.
Presentes não podem comprá-la.

Em lojinhas e estações de ônibus
Pessoas falam das situações,
Lêem livros, repetem citações
Desenham conclusões em uma parede.
Alguns falam do futuro,
Meu amor fala suavemente
Ela sabe que não existe sucesso como fracasso
E que o fracasso não é nenhum sucesso.

A capa e adaga balançam,
Madames acendem velas.
No formalismo de cavaleiros
Até os peões guardam ressentimento.
Estátuas feitas de palitos de fósforos,
Desmoronam uma sobre a outra,
Meu amor pisca, ela não se incomoda
Ela sabe demais para discutir ou julgar.

A noiva estremece à meia-note.
O médico do interior se confunde,
Sobrinhas de banqueiros buscam perfeição,
Esperando presentes que sábios lhe trazem.
O vento uiva como um martelo,
A noite sopra fria e chuvosa,
Meu amor é como um corvo
Na minha janela com uma asa quebrada

Love Minus Zero/No Limit

My love she speaks like silence,
Without ideals or violence,
She doesn’t have to say she’s faithful,
Yet she’s true, like ice, like fire.
People carry roses,
Make promises by the hours,
My love she laughs like the flowers,
Valentines can’t buy her.

In the dime stores and bus stations,
People talk of situations,
Read books, repeat quotations,
Draw conclusions on the wall.
Some speak of the future,
My love she speaks softly,
She knows there’s no success like failure
And that failure’s no success at all.

The cloak and dagger dangles,
Madams light the candles.
In ceremonies of the horsemen,
Even the pawn must hold a grudge.
Statues made of match sticks,
Crumble into one another,
My love winks, she does not bother,
She knows too much to argue or to judge.

The bridge at midnight trembles,
The country doctor rambles,
Bankers’ nieces seek perfection,
Expecting all the gifts that wise men bring.
The wind howls like a hammer,
The night blows cold and rainy,
My love she’s like some raven
At my window with a broken wing.

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Meu coração fica com o coração dela…

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De que vale o conhecimento sem compaixão? Todas as atrocidades que caracterizam os nossos tempos foram feitas com a cumplicidade do conhecimento científico “Meu coração fica com o coração dela…” De que vale o conhecimento sem compaixão? Todas as atrocidades que caracterizam os nossos tempos foram feitas com a cumplicidade do conhecimento científico – “A boca fala do que está cheio o coração”: esse é um ditado da sabedoria judaica que se encontra nas escrituras sagradas. Bem que poderia ser a explicação sumária daquilo que a psicanálise tenta fazer: ouvir o que a boca fala para chegar ao que o coração sente. Acontece comigo. Cada texto é uma revelação do coração de quem escreve. Pois o meu coração ficou cheio com uma coisa que me disse minha neta Camila, de 11 anos. O que ela falou fez meu coração doer. Como resultado, fico pensando e falando sempre a mesma coisa. A Camila estava na sala de televisão sozinha, chorando. Fui conversar com ela para saber o que estava acontecendo. E foi isso que ela me disse: “Vovô, quando eu vejo uma pessoa sofrendo, eu sofro também. O meu coração fica com o coração dela”. Percebi que o coração da Camila conhecia aquilo que se chama “compaixão”. Compaixão, no seu sentido etimológico, quer dizer “sofrer com”. Não estou sofrendo, mas vejo uma pessoa sofrer. Aí, eu sofro com ela. Ponho o outro dentro de mim. Esse é o sentido do amor: ter o outro dentro da gente. O apóstolo Paulo escreveu que posso dar tudo o que tenho aos pobres, mas, se me faltar o amor, nada serei, porque posso dar com as mãos sem que o coração sinta. A compaixão é uma maneira de sentir. É dela que brota a ética. Alguém foi se aconselhar com santo Agostinho sobre o que fazer numa determinada situação. Ele respondeu curto e definitivo: “Ama e faze o que quiseres”. Pois não é óbvio? Se tenho compaixão, nada de mau poderei fazer a quem quer que seja. Fernando Pessoa escreveu um curto poema em que descreve a sua compaixão. Por favor, leia devagar: “Aquele arbusto fenece, e vai com ele parte da minha vida. Em tudo quanto olhei fiquei em parte. Com tudo quanto vi, se passa, passo. Nem distingue a memória do que vi do que fui”. Compaixão por um arbusto… Ele explica esse mistério da alma humana dizendo que “em tudo quando olhei fiquei em parte. Com tudo quanto vi, se passa, passo…”. Os olhos, movidos pela compaixão, o faziam participante da sorte do pequeno arbusto. Eu já sabia disso, mas nunca havia enchido o meu coração a ponto de doer. Doeu porque liguei a fala da Camila a essa tristeza que está acontecendo no Brasil. Os corruptos são homens que passaram pelas escolas, são portadores de muitos saberes. Tendo tantos saberes, o que lhes falta? Falta-lhes compaixão. A falta de compaixão é uma perturbação do olhar. Olhamos, vemos, mas a coisa que vemos fica fora de nós. Vejo os velhos e posso até mesmo escrever uma tese sobre eles, se eu for um professor universitário, mas a tristeza do velho é só dele, não entra em mim. Durmo bem. Nossas florestas vão aos poucos se transformando em desertos, mas isso não me faz sofrer. Não as sinto como uma ferida na minha carne. Vejo as crianças mendigando nos semáforos, mas não me sinto uma criança mendigando em um semáforo. Vejo os meus alunos nas salas de aulas, mas meu dever de professor é dar o programa e não sentir o que os meus alunos estão sentindo. De que vale o conhecimento sem compaixão? Todas as atrocidades que caracterizam os nossos tempos foram feitas com a cumplicidade do conhecimento científico. Parece que a inteligência dos maus é mais poderosa que a inteligência dos bons. Sabemos como ensinar saberes. Há muita ciência escrita sobre isso. Não me lembro, no entanto, de nenhum texto pedagógico que se proponha a ensinar a compaixão. Talvez o livrinho “Como Amar uma Criança”, do Janusz Korczak _mas Korczak é uma exceção. Ele sabia que, para ensinar algo a uma criança, é preciso amá-la primeiro. Korczak era um romântico. Por isso o amo. Aí, fiz a mim mesmo uma pergunta pedagógica: “Como ensinar a compaixão?”. Conversando sobre isso com minha filha Raquel, arquiteta, ela se lembrou de um incidente dos seus primeiros anos de escola, quando ainda era uma menina de sete anos. Seria o aniversário da faxineira, uma mulher que todos amavam. A classe se reuniu para escolher o seu presente. Ganhou por unanimidade que, no dia do seu aniversário, as crianças fariam o seu trabalho de faxina. Disse-me a Raquel que a faxineira chorou. Sei que as crianças aprendem com um olhar especial, o olhar de suas professoras. Elas sabem quando as professoras as olham com os mesmos olhos com os quais Fernando Pessoa olhava o arbusto quando escreveu o poema. Sei também que as histórias provocam compaixão quando o leitor se identifica com um personagem. Sei de um menininho que se pôs a chorar ao final da história “O Patinho que Não Aprendeu a Voar”. Ele teve compaixão do patinho. Identificou-se com ele. Vai carregar o patinho dentro de si, embora o patinho não exista. Lemos histórias para as crianças e para nós mesmos não só para ensinar a nossa língua mas também para ensinar a compaixão. Mas continuo perdido. Preciso que vocês me ajudem. Como se pode ensinar a compaixão?