Arquivo

Archive for the ‘Anton Tchekhov’ Category

No mar da Criméia (Anton Tchekhov)

I

As trevas tornam-se cada vez mais densas. A noite desce. Gusief, antigo soldado, agora em baixa definitiva, incorpora-se na sua rede e diz baixinho:

— Escuta, Pavel Ivanytch: um soldado me contou que o barco dele chocou-se, no Mar da China, com um peixe que era do tamanho de uma montanha. Será verdade?

Pavel Ivanytch permanece calado, como se não tivesse ouvido nada.

O silêncio volta a reinar. O vento zune por entre as enxárcias. As máquinas, as ondas e as redes produzem monótono ruído. Mas quem tem o ouvido habituado há já muito tempo, quase não percebe dir-se-ia, mesmo, que tudo ao redor está mergulhado em profundo sono.

O tédio gravita sobre os passageiros que se encontram na enfermaria. Dois soldados e um marinheiro voltam doentes da guerra. Passaram o dia inteiro jogando e agora, cansados, deitam-se e dormem.

O mar torna-se um tanto agitado. A rede na qual Gusief está deitado ora sobe, ora desce, lentamente, como um peito arquejante. Algo fez ruído ao cair ao solo; talvez uma caneca.

— O vento partiu as suas correntes e está a correr mar — diz Gusief prestando atenção aos rumores que vêm do convés.

Desta vez, Pavel Ivanytch tosse e exclama com voz irritada:

— Meu Deus! Que idiota que você é! Quando não se põe a dizer que um barco se despedaçou de encontro a um peixe, diz que o vento partiu as correntes, como se fosse uma de carne e osso…

— Não sou eu quem diz isso, são as pessoas de bem.

— São todos uns ignorantes como você. É preciso saber ter a cabeça no lugar e não acreditar em todas as bobagens que se contam pelo mundo. É preciso refletir bem, antes de aceitar uma idéia alheia.

Pavel Ivanytch é sensível ao enjôo. Quando o navio começa a jogar, fica de mau humor e pôr qualquer coisa se irrita. Gusief não compreende pôr que o vizinho de enfermaria se enerva tanto. Não há nada de extraordinário no fato de um barco se despedaçar de encontro a um peixe, havendo, como há, peixes maiores do que montanhas e de pele mais dura que o gelo. É muito natural, também, que o vento rompa as suas cadeias. Há muito tempo contaram a Gusief que lá longe, no fim do mundo, há enormes muralhas de pedra, às quais estão presos os ventos; às vezes eles partem as correntes e lançam-se através dos mares, uivando como cães loucos. Por outra parte, se não fosse verdade que estão acorrentados, onde se escondem quando o mar está calmo?

Gusief fica a pensar longamente nos peixes do tamanho de montanhas, e nas pesadas cadeias recobertas de ferrugem. Depois aborrece-se disso e passa a pensar na sua aldeia, para onde, agora, regressa, depois de cinco anos de serviço no Extremo Oriente. Sua imaginação evoca um vasto dique, recoberto de gelo e de neve. Numa das suas margens ergue-se uma fábrica de louças, construída com tijolos vermelhos, de cuja alta chaminé saem negros rolos de fumaça. Na margem oposta estão espalhadas as casas da aldeia.

Gusief imagina que está vendo sua casa. Seu irmão Alexey, que na sua ausência se tornou o chefe da família, sai do pátio num trenó, acompanhado de seus dois filhos, Vânia e Akulka, ambos com grossas botas; Alexey está um tanto bêbedo. Vânia ri, Akulka traz um xale que quase lhe oculta o rosto.

— Pobres crianças, que frio devem sentir! — pensa Gusief. — Virgem Santa, protegei os coitadinhos!

O marinheiro estendido ao lado de Gusief tem o sono muito agitado e começa a sonhar em voz alta.

— É preciso mandar pôr meia-sola nas botas — exclama. — Se não é melhor jogá-las fora.

A aldeia natal desaparece da mente de Gusief, seus pensamentos tornam-se desconexos. Vê a seguir uma enorme cabeça de boi, sem olhos; trenós, cavalos envoltos num espesso halo… Recorda, porém, embora vagamente, ter visto os seus, e isso lhe provoca uma alegria tão intensa que ele estremece da cabeça aos pés.

— Vi a minha gente! Vi a minha gente! — murmura sonhando, com os olhos bem fechados.

No mesmo instante incorpora-se bruscamente, abre os olhos e pede um copo de água. Depois de beber, torna-se a deitar e os sonhos retornam.

E assim até raiar o sol.

II

A escuridão vai diminuindo e a cabina ilumina-se. A princípio vê-se um círculo azul; é o postigo. Logo Gusief começa a distinguir o vizinho de maca, Pavel Ivanytch, o qual dorme sentado porque estendido sufocaria. Tem o semblante acinzentado, o nariz pontiagudo e os olhos muito aumentados pela horrenda magreza, vincadas as frontes, melenas longas… Pelo aspecto não se lhe adivinharia a categoria: intelectual, negociante ou clérigo? Pelas linhas do semblante e pela guedelha, parece um noviço de qualquer convento; porém, quando fala, verifica-se que não é frade. Aniquilado pela tosse, pelo calor e pela doença, respira a muito custo e para falar precisa fazer grande esforço. Notando que Gusief o observa, volve a cabeça e diz:

— Começo a compreender… Agora, sim, compreendo tudo, perfeitamente bem!

— Como, Pavel Ivanytch?

— Olhe… Parecia-me estranho que vocês, tão doentes, estivessem aqui, num barco em terríveis condições higiênicas, respirando numa atmosfera impura, exposto ao enjôo, ameaçados a todo momento pela morte. Agora já não estranho isso. É uma peça de mau gosto que os médicos vos pregaram. Meteram vocês neste barco para se livrarem de vocês. Estavam fartos de vocês. Além disso, não lhes interessa tratar de doentes dessa laia, pois vocês não pagam. E não queriam que morressem no hospital, pois isso sempre causa má impressão. Para se desembaraçarem de vocês, bastava, em primeiro lugar, não possuir consciência nem sentir amor à humanidade; depois, é só enganar o comandante do navio. Quanto ao primeiro ponto, nem é preciso falar; somos, a esse respeito, artistas; e, com alguma prática, o segundo dá sempre bom resultado. Ninguém nota a falta de quatro ou cinco doentes entre quatrocentos soldados e marinheiros em perfeita saúde. Embarcados, vocês são postos no meio dos saudáveis; contados de afogadilho e na confusão da partida, nada se vê de anormal. Inicia-se a viagem, percebem, como é natural, que todos vocês são paralíticos e tuberculosos de último grau, a se arrastarem….

Gusief não compreende Pavel Ivanytch . Supondo que Pavel está desgostoso com ele, diz para desculpar-se:

— Não tenho culpa. Deixei que me embarcassem alegrando-me muito pelo fato de poder voltar para casa.

— Oh! É revoltante — continuou Pavel Ivanytch. — Principalmente porque eles bem sabem que vocês não podem suportar esta longa travessia. Admitamos que vocês cheguem até o Oceano Índico. E depois? … É terrível pensar nisso!… Eis a recompensa de cinco anos de fiel e irrepreensível serviço!

Pavel Ivanytch, com expressão de ira e voz sufocada, diz:

— Os jornais deveriam contar essas sujeiras! Seria uma boa lição para esses canalhas!

Os dois soldados e o marinheiro doente acordaram e puseram-se a jogar baralho.

O marinheiro está meio sentado na maca; os soldados, perto dela, sobre a ponta, em posição incômoda. Um tem o braço enfaixado e o pulso envolto num verdadeiro monte de pensos, de tal maneira que se vale da flexão de cotovelo para segurar as cartas.

O barco baloiça violentamente, o que impede que a gente se levante para tomar chá.

— Você era ordenança? — pergunta Pavel Ivanytch a Gusief.

— Justamente.

— Meu Deus! Meu Deus! — levanta-se Pavel Ivanytch. — Arrancar um homem do seu ninho, obrigá-lo a fazer quinze mil verstas e apanhar a tuberculose, para… para que pergunto-lhes eu?… Para dele fazer a ordenança do capitão Kopeikine ou de um porta-bandeira Durka… Haverá lógica nisso?

— O trabalho não é difícil, Pavel Ivanytch. É só levantar cedo, engraxar as botas, arrumar os quartos, e nada mais. O meu oficial ficava a traçar projetos o dia todo, eu podia dispor do meu tempo, podia ler, passear, conversar com os amigos. Francamente, não posso queixar-me.

— Sim, de fato; o tenente esboçava plantas e você ficava a se aborrecer a quinze mil verstas da sua terra, desperdiçando os melhores anos da sua vida. Traçar plantas!… Não se trata de plantas mas da vida humana, meu caro. E o homem só tem uma vida; devemos poupá-la.

— Realmente, é verdade, Pavel Ivanytch — continua Gusief que mal entende o raciocínio do vizinho. — Um pobre diabo não é bem tratado em parte alguma, nem em casa, nem no serviço. Mas se a gente cumpre sua obrigação, como eu, não tem nada e temer, que necessidade haverá de maltratá-los? Os chefes são pessoas instruídas e compreendem as coisas… Eu, em cinco anos, nunca estive preso e, quanto a ser espancado… não o fui — se Deus não me tolhe a memória — senão uma vez…

— E por quê?

— Por uma rixa. Tenho a mão pesada, Pavel Ivanytch. Quatro chineses, se bem me lembro, entraram no pátio da casa. Acho que procuravam trabalho. Pois bem, para passar o tempo comecei a dar neles. O nariz de um dos réprobos sangrou… O tenente, que tudo vira da janela, me deu uma boa lição.

— Meu Deus! Que imbecil que você é! — murmura Pavel Ivanytch. — Você não compreende nada!

Completamente aniquilado pelo balanço do barco, ele fecha os olhos. A cabeça ora se lhe inclina para trás, ora sobre o peito. Tosse cada vez mais. Depois de curta pausa, diz:

— Por que é que você espancou aqueles coitados?

— À toa. Estava muito aborrecido.

Reina de novo o silêncio. Os dois soldados e o marinheiro passam horas e horas a jogar, por entre blasfêmias e insultos. Mas as oscilações acabam por fatigá-los. Acabam a partida e deitam-se. Mal fecha os olhos, Gusief revê o grande lago, a fábrica, a aldeia… sua aldeia, com seu irmão e seus sobrinhos. Vânia recomeça a rir e a tola da Akulka, pondo as pernas fora do trenó, exclama: “Olhe, ó gente, as minhas botas são novinhas e não como as de Vânia!”

— Ela vai para os seis anos — delira Gusief — e ainda não tem juízo. Em vez de mostrar as botas, devia trazer água para o titio soldado! Depois, dar-lhe-ei bombons.

Depois avista seu amigo Andron, pederneira a tiracolo. Carrega uma lebre que matou. Issaitchik, judeu, segue-o a propor-lhe a troca da lebre por um pedaço de sabão. Ali, à porta da cabana, há uma novilha negra. Eis que surge Domna, sua esposa, que costura uma camisa e chora. Por que chora ela?… E eis, de novo, a cabeça de boi sem olhos e a fumaça preta.

Adormece, mas um ruído no tombadilho o desperta. Alguém, lá em cima, está a gritar; acorrem diversos marinheiros. Parece que alguma coisa enorme e pesada foi levada à ponte ou, então, aconteceu qualquer coisa inesperada. Acorrem mais homens… Terá sucedido alguma desgraça?! Gusief ergue a cabeça, espreita e vê que os dois soldados e o marinheiro recomeçaram o jogo. Pavel Ivanytch, sentado, move os lábios como se quisesse falar; mas não diz nada. Todos ofegam, sufocam, têm sede; o calor continua. Gusief tem a garganta a arder, mas a água morna causa-lhe repugnância. E o barco continua a dançar.

De repente, algo de anormal acontece a um dos soldados que jogam. Ele confunde o naipe de copas com o de ouros, erra na conta e deixa cair as cartas. Depois, olha em torno de si com um sorriso hediondamente alvar.

— Voltarei logo, camaradas… Esperem… eu… eu… — e estende-se no pavimento.

Os companheiros interrogam-no, estupefatos; ele não responde.

— Stepan! Sente-se mal? — pergunta-lhe o soldado do braço ferido. — Hein? Quer que chame o padre, sim?

— Stepan, beba água, beba, camarada, beba! — diz-lhe o marinheiro.

— Mas por que você lhe empurra a caneca à boca? — exclama Gusief, irritado. — Não vês, então, seu idiota?…

— Como?…

— “Como?..” — repete Gusief arremedando; — ele já não respira… está morto. E ainda perguntas: “Como?” Que idiota, meu Deus!

III

Cessa o baloiço. Pavel Ivanytch está de novo alegre, não se irrita mais por qualquer coisa. Tornou-se até fanfarrão, escarnecedor. Tem o ar de quem deseja contar uma história tão engraçada que provoque dor de barriga.

Pelo postigo aberto, uma brisa suave passa sobre Pavel Ivanytch. Ouvem-se vozes; os remos ferem a água compassadamente… Sob o postigo, alguém regouga; talvez um chinês que se tenha aproximado num bote.

— Sim — diz Pavel Ivanytch, sorrindo zombeteiro — eis-nos no ancoradouro. Um mês mais, e estaremos na Rússia. Sim, cavalheiros, estamos chegando. Os soldados são muito acatados, sim senhor. Chegando em Odessa, seguirei para Carcov, onde tenho um amigo escritor a quem direi: “Vamos, amigo, deixa pôr um minuto os teus escabrosos temas relacionados com mulheres e com amor; deixa de cantar as belezas da natureza e procura divulgar as sujeiras dos seres de duas patas. Trago-te esplêndidos temas…”

Depois de ter pensado um minuto em qualquer coisa, torna:

— Gusief, você sabe como os enganei?

— A quem?

— Aos que mandam no navio…Compreende? Na embarcação não há senão duas classes: a primeira e a terceira. De terceira só viajam os mujiks, também chamados broncos. Se você tiver um jaquetão e um certo ar de cavalheiro ou de burguês, é obrigado a viajar de primeira. Dir-lhe-ão: “ Arranje-se como puder, mas deve pagar quinhentos rublos”. “Qual a razão desse regulamento? Quererá o senhor elevar com isso o prestígio dos intelectuais russos?” “Absolutamente, não. Não lhe permitimos viajar de terceira pelo simples motivo de que não convém às pessoas distintas; passa-se bem mal e é repugnante”. “Muito agradecido, prezado senhor, pela sua solicitude para com as pessoas distintas! Mas, como quer que seja, não disponho de quinhentos rublos. Não fiz negócios escuros, não roubei o Estado, não exerci contrabando, não fiz morrer ninguém sob o açoite. Como posso ser rico? Ora, pense bem. Tenho eu o direito de estabelecer na primeira classe e, sobretudo, insinuar-me entre os intelectuais russos?” — Dado, porém que não é possível vencê-los pelo raciocínio, recorre-se a um ardil. Visto o capote e calço as botas altas; tomando um ar de bêbedo dirijo-me ao bilheteiro:

— Excelência, desejo uma passagem de terceira e que Deus o abençoe.

— Qual é a sua profissão? — pergunta-me o funcionário.

— Sou do clero. Meu pai foi um “pope” honesto. Muito sofreu pôr dizer sempre a verdade aos poderosos deste mundo. Eu também sempre digo a verdade…

Pavel Ivanytch cansa-se de falar; respira com dificuldade. Mas prossegue:

— Sim, sempre digo a verdade sem rebuço… Não temo coisa alguma nem ninguém. Nesse ponto, há entre mim e vocês considerável diferença. Vocês não enxergam nada. Ignorantes, cegos, esmaga-os o peso da própria inferioridade. Acreditam que o vento está amarrado com correntes e outras bobagens. Vocês beijam a mão que vos fere. Um espertalhão qualquer, vestido de peliça, rouba tudo que vocês têm e depois vos atira quinze kopeks de gorjeta, e vocês dizem: — “Dê-me, Excelência, a honra de lhe beijar a mão”. Párias, asquerosos… Quanto a mim, sou bem diferente. Levo uma vida consciente. Vejo tudo, como a águia ou o abutre que se eleva muito acima da terra. Compreendo tudo. Sou a encarnação do protesto. Protesto contra o arbitrário, contra o beato hipócrita, contra os suínos triunfantes. E sou indomável. Nem mesmo a Inquisição espanhola me obrigaria a calar. Sim… Se me arrancassem a língua, minha mímica protestaria. Lancem-me num cubículo, tranquem a porta: bradarei tão fortemente, que serei ouvido a uma versta de distância; ou então, me deixarei morrer de fome para que a lôbrega consciência dos carrascos sinta um peso a mais. Todos os conhecidos me dizem: — “Pavel Ivanytch, na verdade você é insuportável!” Mas eu me orgulho dessa reputação. Enfim, que me matem! Minha sombra voltará aterradoramente. Prestei três anos de serviço no Extremo Oriente, e lá deixei uma reputação para cem, porque me incompatibilizei com todo mundo. Os amigos escrevem-me: “Não apareça!”, pois conhecem meu caráter belicoso. E eu embarco! e volto a despeito dos seus avisos!… Sim, essa é a vida que eu compreendo. Isso sim é que se pode chamar a vida.

Gusief deixa de escutar e olha através do postigo. Uma canoa oscila sobre a água transparente, cor de turquesa pálida, banhada em cheio pelo sol deslumbrante e abrasador. Nela, de pé e nus, alguns chineses oferecem gaiolas de canários e gritam:

— Canta bem! Canta muito bem!

Outra canoa bate contra a primeira: passa uma embarcaçãozinha a vapor. E eis ainda outra canoa, em que se vê um gordo chinês, que come arroz com pauzinhos. A água gorgulha preguiçosamente; há gaivotas brancas voando com indolência.

— Oh! aquele gorducho… — pensa Gusief. — Seria gozado dar uns sopapos nesse animal de cara amarela.

Dormindo em pé, aparece-lhe que toda a natureza cabeceia com sono. O tempo corre veloz. O dia se escoa sem que se dê pôr isso e do mesmo modo a noite vem chegando…

O barco desamarrou e prossegue para destino ignorado.

IV

Passaram-se os dias. Pavel Ivanytch já não está sentado, mas curvado. Tem os olhos fechados e o nariz afinou-se ainda mais.

— Pavel Ivanytch! — grita-lhe Gusief. — Ouviu, Pavel Ivanytch?

— Como é? Isso vai ou não vai?

— Assim, assim… — responde Pavel Ivanytch, arquejante. — Ao contrário, vai até melhor… Olhe, passo até deitado… A coisa vai melhorando.

— Então, que Deus seja louvado!

— Sim, estou melhor. Quando me comparo a vocês, sinto compaixão…Tenho os pulmões fortes; a tosse me vem do estômago… Sou capaz de suportar o inferno. Por que falar no mar Vermelho? Além do mais, considera a minha doença e os remédios do ponto de vista crítico… e vocês são uns pobres diabos… É terrível para vocês… muito, muito terrível. Tenho verdadeira pena de vocês.

As ondas já não fazem o barco jogar, mas a atmosfera é cálida e pesada como um barco a vapor. Gusief apóia a cabeça nos joelhos e põe-se a pensar na sua aldeia. Com o calor que faz, é um prazer pensar na aldeia, completamente coberta de neve nesta época do ano. Sonha que está passeando de “ troika “ através dos campos gelados. Os cavalos espantados sem motivo, correm como loucos e atravessam o dique num único salto. Os camponeses procuram detê-los, mas Gusief pouco se importa. Sente-se possuído pôr intensa alegria. É com prazer que recebe no rosto e nas mãos a glacial carícia do vento, e a neve a lhe cair pelo cabelo, pelo pescoço e pelo peito o imunda de felicidade.

Não se sente menos contente quando, em dado momento, o carro vira, atirando-o na neve. Levanta-se satisfeito, coberto de neve da cabeça aos pés, e fica a se sacudir entre gostosas gargalhadas. Ao redor, os camponeses também soltam risadas e os cachorros, nervosos, ladram. Realmente formidável.

Pavel Ivanytch entreabre um olho, fita Gusief e pergunta:

— Teu oficial roubava?

— Não sei Pavel Ivanytch. Essas coisas não são de nossa conta.

Volta a reinar profundo silêncio. Gusief mergulhou de novo nos seus sonhos. De quando em quando toma um pouco de água. O calor é tão forte que ele não tem vontade nenhuma de falar nem de ouvir, e teme que a qualquer momento alguém lhe dirija a palavra.

Uma, duas horas transcorrem. À tarde sucede a noite; mas Gusief parece não ter notado nada; continua na mesma posição, a fronte nos joelhos, a pensar na sua aldeia, no frio, na neve.

Ouvem-se passos, vozes. Ao cabo de cinco minutos tudo volta a cair no silêncio.

— Que a terra lhe seja leve! — murmura o soldado do braço ferido. — Era um homem que deixava a gente nervoso.

— Quem? — pergunta Gusief esfregando os olhos. — De quem é que estás falando?

— Ora, de quem? De Pavel Ivanytch! Morreu. Levaram-no para cima.

— Como? — murmura Gusief como se não compreendesse. Fica longo tempo a meditar e por fim, com um suspiro, diz: — Então tudo se acabou! Que Deus o perdoe!

— O que é que você acha? — pergunta o soldado. — Você acha que ele será admitido no Paraíso?

— Ele quem?

— Pavel Ivanytch, homem!

— Ah!… Creio que sim. Sofreu muito. Além disso, era do clero. Seu pai era “pope” e rogará a Deus pelo filho.

O soldado senta-se na cama de Gusief e olhando-o fixamente, diz em voz baixa:

— Também você, Gusief, não há de viver muito. Não voltará a ver a sua terra.

— Quem disse isso!? O médico? O enfermeiro?

— Ninguém, mas a gente vê logo. Percebe-se muito bem quando uma pessoa está para morrer. Você não come, emagrece dia a dia… causa medo. Enfim, é a tuberculose. Não digo isso para o assustar, mas apenas no seu próprio interesse. Deveria receber os Sacramentos… Além disso, se você tem dinheiro deve deixá-lo com o comissário do navio…

— Nem escrevi para minha gente — suspira Gusief. — Morrerei e eles não saberão de nada.

— Como não saberão? Quando você morrer eles escreverão para as autoridades militares de Odessa, que, por sua vez, avisarão sua família.

Gusief está profundamente perturbado. Vagos desejos o afligem. Toma um pouco de água, volta a perscrutar o mar através do postigo, porém nada consegue acalmá-lo. Nem mesmo a lembrança da aldeia consegue, agora, tranqüilizá-lo. Tem a impressão de que se permanecer mais um minuto na enfermaria cairá sufocado.

— Estou muito mal, meus irmãos — diz baixinho. — Não posso continuar aqui… Quero ir lá para cima. Quem quer ajudar-me?

— Bom — diz o soldado. — Vou acompanhá-lo, já que não pode ir só. Apoie-se no meu ombro.

Gusief obedece. O soldado segura-o com a sua mão sã e ambos sobem vagarosamente a escada que conduz ao convés.

Em cima, o tombadilho está cheio de marinheiros e de soldados deitados no chão. São tantos que é difícil abrir caminho.

— Sente-se — diz o soldado. — Eu o seguro.

Não se vê muito bem. Não há luz no tombadilho, nem nos mastros, nem no mar. Uma sentinela, de pé na extremidade do navio, está tão imóvel que parece adormecida. Dir-se-ia que o barco se encontra abandonado ao seu próprio destino e que ninguém se importa em lhe dar um rumo.

— Vão atirar Pavel Ivanytch ao mar — murmura o soldado. — Vão costurá-lo num saco e atirá-lo às ondas.

— Sim — responde Gusief suavemente. — É do regulamento.

— É melhor morrer em terra. De vez em quando a mãe da gente vem chorar junto ao túmulo, ao passo que aqui…

— Sim, eu também preferiria morrer na minha casa, na aldeia…

Penosamente, os dois se erguem e começam a andar. Em certo trecho sente-se pronunciado cheiro de forragem e de esterco: vem de um curral improvisado no tombadilho, onde se encontram oito vacas. Um pouco mais adiante, há um potro amarrado. Gusief estende a mão para acariciá-lo, mas o cavalo sacode furiosamente a cabeça e mostra os dentes, com eloqüente intenção de mordê-lo.

— Bicho do inferno! — protesta Gusief.

Ele e o soldado apoiam-se na balaustrada e ficam a olhar em silêncio ora o mar, ora o céu. Sob a abóbada celeste, calma e muda, reinam a inquietação e as trevas. As ondas se entrechocam ruidosamente. Cada uma procura erguer-se mais do que a outra e se atropelam, e se Empurram, furiosas e disformes, coroadas de branca espuma.

O mar é impiedoso. Se o navio não fosse tão grande e tão sólido, as ondas o destroçariam sem piedade, tragando cruelmente todos quantos viajam nele, sem distinguir os bons dos maus. O próprio barco não é menos cruel. Semelhando um estranho monstro, corta com a quilha milhões de ondas. Não teme nem a noite, nem o vento, nem o espaço infinito, nem a solidão. Se a superfície do mar estivesse cheia de seres humanos, cortá-los-ia da mesma maneira, sem tampouco, fazer distinção entre os bons e justos e os pecadores.

— Onde estamos agora? — pergunta Gusief.

— Não sei. Acho que no oceano.

— Não se vê terra…

— Que dúvida! Antes de oito dias não veremos nem sombra de terra!

Ambos continuam perscrutando a espuma branca e fosforescente, mergulhados no mais completo silêncio. Cada um parece perdido em remotos pensamentos. Gusief é o primeiro a falar:

— Eu não tenho medo do mar. É lógico que, de noite, a gente não vê bem. Mas mesmo assim, se agora me mandassem, num bote, a pescar a cem quilômetros daqui, iria com muito gosto. Ou, se por exemplo, tivesse que salvar alguém que tivesse caído na água, eu me atiraria sem vacilar. Isto é, caso se tratasse de um cristão. É claro que eu não arriscaria a vida por um turco ou por um chinês.

— Não tem medo da morte?

— Tenho sim, principalmente quando penso na minha casa. Sem a minha presença tudo irá por água abaixo. Meu irmão é uma verdadeira calamidade, um beberrão que bete na mulher todo o santo dia e não respeita os pais. Sim, sem mim tudo irá mal. Minha gente ver-se-á obrigada, talvez, a pedir esmolas para não morrer de fome.

Cala-se por alguns instantes e por fim conclui:

— Vamos para baixo. Não posso mais suster-me em pé. Além disso, a atmosfera está muito pesada… Já é hora de dormir.

V

Gusief desce para a enfermaria e deita-se. Vagos desejos, cuja natureza não pode precisar, continuam a atormentá-lo. Sente um peso no peito; dói-lhe a cabeça. Sua boca está seca que sente dificuldade em mover a língua. Cai em profunda sonolência e logo depois, esgotado pelo calor e pela atmosfera carregada, adormece. Os mais fantásticos sonhos voltam a repetir-se!!!

Dorme, assim, dois dias seguidos. Ao cair da tarde do terceiro, os marinheiros vêm buscá-lo e levam-no para o convés.

Costuram-no num saco, no qual introduzem, também, para torná-lo mais pesado, dois enormes pedaços de ferro. Metido no saco Gusief parece uma cenoura: volumoso na cabeça e afinado nas pernas.

Ao pôr do sol colocam o cadáver sobre uma prancha que tem uma das extremidades apoiada na balaustrada e a outra num caixão de madeira. Ao redor enfileiram-se os soldados e os marinheiros todos de gorro na mão.

— Bendito seja Deus todo-poderoso pelos séculos dos séculos — diz com tom solene o sacerdote.

— Amém! — respondem os marinheiros.

Todos fazem o sinal-da-cruz e ficam a olhar as ondas. É algo estranho ver um homem metido num saco e a ponto de ser lançado ao mar. No entanto, é uma coisa que pode suceder a qualquer um de nós!

O sacerdotes deixa cair um pouco de terra sobre Gusief a faz profunda reverência. A seguir, canta-se o Ofício.

O oficial de plantão soergue um dos extremos da prancha. Gusief desliza de cabeça para baixo, dá uma volta no ar e cai na água. Por alguns instantes fica a boiar, coberto de espuma, como se estivesse envolto em rendas; por fim, desaparece.

Submerge rapidamente. Chegará ao fundo? Segundo os marinheiros, a profundidade do mar nestas paragens alcança quatro quilômetros.

Após fazer vinte metros, começa a descer mais lentamente. O cadáver vacila, como se hesitasse em continuar a viagem. Finalmente, arrastado pela corrente, prossegue a marcha diagonalmente.

Não demora em tropeçar com um cardume de peixinhos — dos chamados “pilotos”, os quais, ao divisarem o enorme vulto, estacam assombrados e, como se obedecessem a uma ordem, voltam-se, todos ao mesmo tempo, e, como minúsculas flechas, atiram-se a Gusief.

Minutos depois aproxima-se uma enorme massa escura: um tubarão. Lentamente, com fleuma, como se não notasse a presença de Gusief, coloca-se sob o saco de maneira a dar a impressão de que o cadáver está de pé sobre o seu ombro. Visivelmente satisfeito, o tubarão dá, depois várias voltas na água e, sem se apressar, escancara a enorme boca, armada de duas fileiras de dentes. Os “pilotos” estão encantados. Mantêm-se um pouco afastados e admiram o espetáculo atentamente.

Depois de brincar um pouco com o corpo de Gusief, o tubarão crava os dentes de mansinho, no tecido da mortalha, a qual no mesmo instante abre-se de cima a baixo. Um pedaço de ferro tomba no lombo do tubarão, assusta os “ pilotos” e desce rapidamente.

Enquanto isso, lá no alto, no céu, onde o sol pouco a pouco se oculta, as nuvens vão-se acumulando. Uma delas parece um arco-de-triunfo, outra um leão; outra ainda uma tesoura. Através de uma das nuvens projeta-se até o centro da abóbada do céu um amplo raio verde. Ao lado dele surge, pouco a pouco, um colorido de lilás bem pálido. Sob este esplêndido céu, o oceano torna-se a princípio obscuro; logo, porém, passa, por sua vez, a tingir-se de cores tão suaves, alegres e belas que a língua humana é incapaz de descrevê-las.

Anúncios

Varka (Anton Tchekhov)

Anoitece. Varka balança com o pé um berço onde chora uma criança, cantarolando monotonamente:

— Bain bainscki bain…

Uma lâmpada verde brilha diante de uma imagem de santo. Um par de grandes calças negras pende de uma corda. A lâmpada projeta uma mancha verde sobre as coisas e as calças fazem dançar sombras na parede e no berço. A chama vacila como tocada pelo vendo. O ar é sufocante, impregnado de um odor de sapatos, de couro, de tinta.

O menino chora. Não cessa de chorar e de gemer; está extenuado, sua vozinha tornou-se rouca; mas ele chora ainda, sem parar.

Varka tem sono. Seus olhos fecham-se, sua cabeça inclina-se para o peito. Mal pode abrir os olhos tanto lhe pesam as pálpebras.

— Bain bainscki bain… — murmura com voz extinta, — bain bain…

Um grilo estridula numa frincha do chão. No aposento vizinho, ouve-se a máquina do sapateiro.

O berço range lamentosamente. Varka cantarola, e tudo se confunde num doce murmúrio que convida ao sono. Mas não se deve dormir! Varka resiste ao torpor que a invade, porque, se por desgraça adormecer, o patrão bater-lhe-ia. A chama da lâmpada vacila. A mancha verde e a sombra negra dançam diante dos olhos fixos que Varka se esforça por conservar abertos. Sonhos indistintos vagam no seu cérebro amodorrado. Ela vê nuvens negras que se perseguem, gritando com voz infantil. As nuvens se desfazem e Varka divisa uma estrada, longa, negra e lamacenta. Filas de carros avançam lentamente; homens caminham vagarosamente, sombras se agitam aqui e acolá! Através de uma névoa cinzenta e fria ela entrevê os albergues, dos dois lados da estrada. As sombras se alongam, os viajantes perdem-se na estrada lamacenta.

— Por quê? — pergunta Varka.

— Para dormir, para dormir…

E dormem um sono de chumbo, profundamente, enquanto sobre os fios telegráficos corvos gritam, com voz infantil, para acordar aqueles homens…

— Bain bainscki bain… — canta Varka, e, súbito, acha-se numa mísera isba negra, acanhada e sufocante. Não é aquele seu pai, Efim Stepanov, que ali jaz por terra e se estorce em sofrimentos atrozes? Ela vê, mas não ouve os gemidos. É a sua hérnia que o atormenta. A dor é tão forte que ele não pode falar; respira penosamente, com um gargarejo contínuo:

— Groo… groo… groo…

Eis a mulher, Pelágia, que se precipita para fora da isba, para dizer ao patrão que Efim é moribundo. Quando voltará? Saiu já há muito tempo e Varka espera-a. Varka está acordada perto do fogão, mas não dorme e escuta o ofegar do moribundo:

— Groo… groo… groo…

Finalmente, um rumor de rodas que se dirige para a isba. Um médico vem visitar o doente. Entra no quarto. A escuridão é tanta que Varka não o vê, mas ouve a sua voz.

— Dê-me uma luz! — exclama ela.

A mãe acende uma vela. Efim sufoca.

— Que tem? pergunta o médico curvando-se sobre ele.

— Que tenho? Morro. Está acabado.

— Ainda não. Salvar-te-emos. Havemos de curar-te.

— Se vossa senhoria acha, agradeço-lhe muito. Mas se a morte está aqui, paciência.

O médico examinava o doente. Os minutos corriam.

— Não posso fazer nada — disse —, é preciso mandá-lo para o hospital para ser operado; mas isto depressa, sem perder um minuto. É tarde, e no hospital devem todos estar recolhidos, mas eu darei um bilhete de recomendação para o diretor. Compreendeu?

— Mas ele não pode andar, senhor! Nós não temos cavalo! — gemeu a mãe.

— Mandarei buscá-lo — disse o médico, e foi-se, e a vela apagou-se e Varka ouve novamente:

— Groo… groo… groo…

Alguns instantes depois pára um carro à porta. Recebe Efim e parte…

É dia. O tempo está alegre. A mãe vai ao hospital saber notícias. E volta. Entrando na isba, faz o sinal-da-cruz e chora.

— Operaram-no, e a princípio estava melhor, mas depois, pela madrugada, morreu. Que Deus o tenha em sua paz. Disseram que era muito tarde, que deveríamos tê-lo mandado mais cedo para o hospital.

Eis Varka no meio do bosque. Caminha ao lado da mãe, e chora, chora amargamente.

De repente ela recebe uma pancada na cabeça, tão violenta que cai e bate com a cabeça numa árvore. Abre os olhos e vê o patrão, o sapateiro:

— Que fazes, preguiçosa?! — grita ele. — O menino chora e tu dormes?

E puxa-lhe as orelhas; ela recomeça a balançar o berço, cantarolando:

— Bain bainscki bain…

A mancha verde e a grande sombra negra dançam na parede, e o cérebro dela se entorpece. Ei-la novamente na grande estrada lamacenta. Os viajantes dormem profundamente. Varka tem sono também, tem tanto sono e seria tão feliz se pudesse dormir… Mas sua mãe caminha sempre e arrasta-a pela mão. Dirigem-se à cidade em busca de trabalho.

— Uma esmola, pelo amor de Deus! — mendiga a mãe durante todo o caminho. — Tende piedade…

— Depressa, dá-me o menino! — responde uma voz tonitruante — dá-me o menino! Tu dormes, canalha! — grita a voz irritada e rude.

Varka levanta-se, estremunhada. Sim, compreende: não mais a longa estrada, os viajantes, a imagem da mãe. É a patroa que aparece no meio do quarto, que vem aleitar o menino. Aquele era o passado de Varka, visto em sonho; este é o presente.

Enquanto a gorda patroa aleita o menino, procurando adormecê-lo, Varka, de pé, lança os olhos pela janela. O céu empalidece, a sombra e a mancha verde estão quase desvanecidas: dentro em pouco será dia.

— Toma, segura o menino! — ordena a patroa, abotoando a camisa no peito. — Ele chora sempre. Tu com certeza o maltrataste!

Varka torna a deitar o menino e recomeça a embalá-lo. Que sono terrível! Os olhos se fecham, a cabeça pesa-lhe como chumbo.

— Varka, é tempo de acender o fogão — brada a voz do patrão.

É preciso levantar-se e trabalhar. Varka larga o berço e vai buscar a lenha. Está contente de poder mover-se, andar, espantar aquele sono tremendo. Está pronto o fogo. Suas idéias aclaram-se, seu rosto distende-se.

— Varka! o samovar! depressa! — grita a patroa.

Varka apronta o samovar e recebe nova ordem.

— Varka, vai limpar as botas do patrão!

E ela acocora-se para limpar as botas. Ah! como seria bom meter a cabeça dentro de uma daquelas botas e dormir! Varka escancara os olhos e sacode-se vigorosamente.

— Varka, vai lavar a sala! Está que é uma vergonha! E os fregueses não tardam!

Varka lava rapidamente o chão, varre tudo, limpa tudo, acende o outro fogão! O tempo urge: não há um momento a perder.

O dia passa. Varka vê com alegria a noite que chega. O ar fresco da noite promete-lhe um longo e profundo sono. Mas, quando a noite chega, chegam visitas.

— Varka! — grita a patroa — depressa, o samovar!

O samovar é pouco, e Varka deve ferver mais água, enquanto os patrões e os visitantes abancam-se em torno da mesa.

— Varka corre a buscar três garrafas de cerveja! Varka, os copos! Varka!

Vão-se finalmente os visitantes. Apaga-se a luz; os patrões vão deitar-se.

— Varka! vai embalar o menino! — dizem eles.

O grilo canta, a mancha verde e a sombra negra agitam-se novamente ante os olhos sonolentos e entorpecem-lhe o cérebro.

— Bain bainscki bain…

O menino grita… Varka revê a estrada lamacenta, os viajantes, a sua mãe Pelágia, seu pai Efim… Reconhece-os perfeitamente, mas não pode ver o monstro que a tortura, que a tem amarrada de pés e mãos, que a sufoca, que a impede de viver.

Volve a cabeça de todos os lados e procura aquele inimigo infernal, para libertar-se. Em um esforço supremo, abre os olhos, vê a mancha verde, a sombra negra que se agita, quando, de súbito, um grito do menino fere-lhe os ouvidos.

Finalmente! Varka encontrou o inimigo que a impede de viver. É aquele menino o seu inimigo impiedoso! E ela ri, espantada de o não haver descoberto antes. Que estúpida! A mancha, a sombra, o grilo, tudo ri com ela, tão estúpidos como ela. Uma idéia luminosa passa-lhe no cérebro pesado. Levanta-se vagarosamente do escabelo em que está sentada, com um claro sorriso no rosto embrutecido, e dá alguns passos. A idéia de libertar-se do menino aparece-lhe mais viva. Libertar-se daquele que a impede de viver! Precisa matá-lo, e depois dormir, dormir, dormir…

Sorrindo, rindo e piscando os olhos para a mancha verde, Varka avizinha-se do berço, curva-se sobre o menino: e sufoca-o. Depois estende-se rapidamente no chão, sorrindo de alegria ao pensamento de que finalmente poderá dormir. E adormece logo.

Varka dorme um sono profundo e pesado como a morte.

Fonte: TCHECOV. Contos. Coleção Clássicos Jackson, Volume XXXVII. São Paulo: WM Jackson Inc. Editores, 1965 (Tradução de Costa Neves).

O bispo (Anton Tchekhov)

I

Na véspera do Domingo de Ramos celebraram-se os últimos ofícios divinos, no Mosteiro de Staro-Petrovsky. Quando distribuíam os ramos, já eram quase dez horas, as luzes baixavam, os pavios queimavam — e tudo parecia envolto em bruma. Na penumbra da igreja, a multidão ondulava como um mar e Monsenhor Piotr, doente há três ou quatro dias, tinha a impressão de que todos os rostos — dos velhos, dos jovens, dos homens, das mulheres — se assemelhavam; de que os olhos de todos quantos se aproximavam para receber o ramo eram iguais, em sua expressão. A semi-escuridão impedia-o de distinguir a porta, a multidão continuava a desfilar, dir-se-ia que interminavelmente. Um coro de mulheres cantava. Uma religiosa lia os cânones.
Sufocava-se. Que calor! E como fora longo o ofício! Monsenhor Piotr estava fatigado, respiração ofegante, curta, seca, ombros doendo de cansaço, as pernas trêmulas. Enervava-se com as exclamações dos homens simples. Subitamente, como em sonho, ou em delírio, pareceu-lhe ver sua mãe, que não via há nove anos, destacar-se da multidão e aproximar-se… sua mãe, ou uma mulher parecida com ela, que, depois de receber o ramo de suas mãos, afastou-se, não sem olhá-lo alegremente, como seu bom e radioso sorriso… até perder-se no meio do povo. E, sem poder conter-se, lágrimas correram pelo seu rosto.
Sua alma estava em paz, tudo corria bem, ele olhava fixamente o coro da esquerda, onde limam os cânones, sem poder reconhecer ninguém, na penumbra, e chorava — as lágrimas brilhando em sua barba e em todo o rosto. Alguém começou a chorar, não muito longe, depois mais alguém; pouco a pouco a igreja encheu-se de soluços contidos… até que, minutos depois o coro do convento entoou um hino, os prantos cessaram e tudo voltou ao normal.
O ofício terminou. Enquanto o bispo tomava assento em seu carro, para voltar à casa, em todo o jardim iluminado pelo luar ressoaram o belo e sonoro carrilhão e os pesados e preciosos sinos. As paredes brancas, as cruzes brancas sobre os túmulos, as bétulas brancas projetando sombras negras, a lua longínqua, no céu, bem sobre o mosteiro, tudo parecia viver, no momento, uma vida singular¸ misteriosa — mais próxima, porém, do homem.
Abril começava, o dia fora tépido e primaveril, começava a gelar, levemente, embora se sentisse, na atmosfera doce e fresca, o sopro da primavera. A estrada que levava à cidade era arenosa, precisava-se andar lentamente os peregrinos ladeando a carruagem, sob a claridade e a maciez do luar. Todos calados, recolhidos; tudo, em torno, acolhedor, jovem, fraterno — árvores, céu, a própria lua. E era bom sonhar que seria sempre assim.
A carruagem chegou, enfim, à cidade e tomou a rua principal. As lojas já estavam fechadas, salvo a de Erakine, o milionário, onde se experimentava a iluminação elétrica, muito tremulante, ainda, em torno da qual as pessoas se agrupavam. Em seguida, atravessou ruas longas e sombrias, ruas desertas; depois, a estrada construída pelo zemstvo — alcançando, enfim, o campo, de onde emanava o odor dos pinheiros. Subitamente, erguida diante de seus olhos, uma muralha branca, ameada, fazendo fundo para um alto campanário inundado de luz, e para cinco cúpulas douradas, resplandecentes: o Mosteiro de São Pancrácio, morada de Monsenhor Piotr. Sobre a qual, também, muito alta e dominando o convento, pairava a lua, tranqüila e sonhadora. A carruagem transpôs o portão, fazendo ranger a areia. Aqui e ali, ao luar, passavam fugitivas silhuetas negras de monges, os passos ressoando nas lajes de pedra.
— Monsenhor, sua mãe chegou, em sua ausência — anunciou um irmão leigo, quando o bispo entrou.
— Mamãe? Quando? Antes dos últimos ofícios. Perguntou logo onde estava o senhor. Depois, foi para o convento das freiras.
— Então, foi ela mesma que vi na igreja. Ah! Senhor!
E o bispo riu de alegria, enquanto o irmão leigo continuava:
— Madame mandou dizer que voltará amanhã. Trouxe com ela uma menina… deve ser sua neta. Desceu no Albergue de Ovsiannikov.
— Que horas são?
— Mais de onze.
— Que pena!
O bispo ficou um instante no salão, meditativo, como se duvidasse de que fosse tão tarde. Sentou-se, as pernas e os braços cansados, a nuca dolorida. Sentia calor, certo mal-estar. Após curto repouso, retirou-se para seu quarto, onde ainda ficou sentado um instante, pensando na mãe. Ouviu distanciarem-se os passos do irmão leigo e a tosse do padre Sissol, atrás do tabique. O relógio soou meia hora.
O bispo mudou de roupa e pôs-se a dizer as velhas preces que conhecia há muito tempo, pensando em sua mãe. Nove filhos e quase quarenta netos. Em outros tempos morava com o marido, diácono de seu distrito, uma pobre aldeia onde vivera durante muito tempo, dos dezessete aos sessenta anos. Lembrava-se dela desde a mais remota infância, desde os três anos. Amava-a muito. Doce, querida, inolvidável infância! Por que esse tempo se fora para sempre? Assim distante, sem retorno, parecia mais radiosa, mais bela e mais rica do que na realidade. Quando, menino ou adolescente, adoecia, como sua mãe sabia ser terna, sensível! E, agora, suas preces misturavam-se às recordações que se reacendiam, como uma chama cada vez mais viva, que não o impedia de pensar em sua mãe.
Terminada a oração, deitou-se: no escuro, reviu seu pai e sua mãe, Lessopolia e sua cidade natal. Ao rangidos das rodas, os balidos dos carneiros, o carrilhão da igreja nas claras manhãs de verão, os ciganos mendigando às janelas… ah! Como era doce recordar! Lembrou-se do padre de Lessopolia, padre Simeon, um homem terno, tranqüilo, benevolente. Era baixo, magro, mas seu filho seminarista era corpulento, voz forte de baixo. Um dia, o filho do pope irritou-se com a cozinheira e injuriou-a: “Jumenta de Zegouldil!” O Padre Simeon nada disse, mas corou de confusão, porque não conseguia recordar-se da passagem da Sagrada Escritura, que falava nessa jumenta. Seu sucessor, em Lessopolia, o Padre Demiani, bebia até ao delírio, quando via “a ser pente verde” — o que lhe valeu o apelido de Demiane da Serpente. O professor de Lessopolia era o antigo seminarista Matvei Nicolaitch, homem excelente, nada tolo, mas bêbado, também. Não batia nos alunos, mas pendurava, diariamente, na parede da sala de aula, um apanhado de varas de bétula, sobre o qual lia-se uma inscrição em latim, realmente assombrosa: Betula kinderbalsamica secuta. Possuía um cão negro e crespo, chamado Sintaxe. E o bispo ria, à recordação disso tudo.
A oito verstas de Lessopolia, situava-se a aldeia de Obnino, onde existia um ícone miraculoso. No verão, levavam-no, em procissão, pelos lugarejos vizinhos — e, à sua passagem, os sinos repicavam. Monsenhor tinha a impressão de que o ar palpitava de alegria e ele seguia o ícone de cabeça e pés nus, com ingênua fé, sorriso devoto, infinitamente feliz. Em Obnino, lembrava-se, havia sempre muita gente o padre do lugar, padre Aleixo, para ter tempo de chegar ao ofertório, fazia ler por seu sobrinho Hilarion, que era surdo, os papeizinhos e os nomes escritos nos pães de consagração… “pela saúde de…”, “pelo repouso de…” Para lê-los, Hilarion recebia de cinco a dez copeques por missa. Já era um homem grisalho e calvo, sua juventude já passara, quando descobriu um papel em que haviam escrito: “Como podes ser tão tolo, Hilarion?” Pelo menos até aos quinze anos, monsenhor, a quem, então, chamavam Popaul, era muito atrasado e trabalhava muito mal, em aula. Tão mal que haviam pensado em retirá-lo do seminário e colocá-lo em uma loja. E havia, ainda, aquele dia em que, indo buscar as cartas no correio, observara longamente os empregados e lhes perguntara: “Permitam-me indagar como são pagos… Por mês, ou por dia?”
Monsenhor benzeu-se e, voltando-se para outro lado, fugindo a recordar, adormeceu. Ainda teve tempo de pensar e de sorrir: “Mãe chegou…”
A lua entrava pela janela, iluminando o assoalho e povoando-o de sombras. Um grilo cantava. Atrás do tabique, no compartimento vizinho, o Padre Sissol roncava e seu roncar de velho tinha qualquer coisa de solitário, de repousado, talvez mesmo de vagabundo. Em outros tempos, Sissol havia sido ecônomo da diocese — e era agora chamado de “ex-padre ecônomo”. Tinha setenta anos, morava em um convento a dezesseis verstas da cidade. Três dias antes, chegara ao Convento de São Pulcrácio, onde monsenhor o retivera para, nas horas possíveis, conversar com ele sobre seu tempo perdido, sobre negócios e hábitos locais…
A uma hora e meia soaram as matinas. Ouviu-se o padre Sissol tossir, resmungar, erguer-se e passear descalço de um quarto a outro. Monsenhor chamou:
— Padre Sissol!
Sissol voltou ao seu quarto e apareceu, pouco depois, já de botas calçadas, com uma vela na mão. Vestira a batina sobre a camisola e trazia, à cabeça, um velho solidéu desbotado. Sentando-se na cama, monsenhor disse:
— Não consigo dormir. Devo estar doente… sei lá o que tenho. Estou com febre.
— Deve Ter sido a friagem, monsenhor. Precisa fazer uma fricção com sebo…
Esperou ainda um instante. Bocejou…
— Senhor, perdoai a este pobre pecador!
Acrescentou:
— Instalaram eletricidade, hoje, em casa de Ekarine. É uma coisa que não me agrada.
O Padre Sissol já era idoso. Muito magro, curvado, sempre descontente, olhar colérico, olhos proeminentes como os dos caranguejos. Repetiu, retirando-se:
— Não me agrada, mesmo. Não me agrada, absolutamente!

II

No dia seguinte, Domingo de Ramos, monsenhor celebrou a missa, na catedral, dirigindo-se, depois, à casa do bispo da diocese e, em seguida à de uma velha generala, muito doente. Voltou à casa e, a uma hora, estava sentado à mesa, em companhia de duas visitantes, muito caras a seu coração: sua velha mãe e sua sobrinha Katia, menina de uns oito anos. Durante a refeição, um, sol primaveril iluminou a janela, resplandeceu sobre a toalha branca e sobre os cabelos ruivos de Katia. Através dos duplos caixilhos, ouvia-se o crocitar dos corvos e o canto dos estorninhos, no jardim. A velha senhora dizia:
— Há exatamente nove anos que não nos vemos. Ontem, no convento, o que senti quando o vi, meu Deus! Não mudou em nada, apenas emagreceu um pouco e sua barba está mais longa. Rainha do Céu, Mãe Nossa! Não pude deixar de chorar… ninguém pôde deixar de chorar, quando oficiou as completas. Não sei por que, bruscamente, pus-me a chorar… por quê? Nem eu mesma o sei… É a vontade divina!
A despeito do tom carinhoso com que falava, sentia-se que não estava à vontade, não sabendo se deveria dizer-lhe tu, ou vós, rir, ou não — muito mais esposa de diácono, do que mãe de bispo. Sem pestanejar, Katia fixava monsenhor seu tio, como se procurasse adivinhar que homem era ele. Cabelos penteados em forma de auréola, presos por uma travessa e por uma fita de veludo, nariz arrebitado, olhos astuciosos — e tão inquieta que, antes de sentar-se à mesa, quebrara um copo. Agora, enquanto falava, sua avó ia afastando dela ora um copo de vinho, ora um pequeno cálice. Monsenhor ouvia sua mãe e lembrava-se de que, outrora, há muitos anos, ela o levava e a seus irmãos à casa dos parentes que considerava ricos. Naquele tempo, preocupava-se por seus filhos… Hoje, por seus netos… E havia trazido Katia…
— Sua irmã Varia tem quatro filhos. Katia é a mais velha. Ivan, meu genro, caiu doente, antes da Assunção, só Deus sabe de quê, e morreu, em três dias. Agora, minha Varia é obrigada a mendigar pelas ruas.
— E Nicanor? — perguntou monsenhor, referindo-se a seu irmão mais velho.
— Não vai mal, graças a Deus. Digo que não vai mal e agradeço a Deus, porque tem do que viver. Somente meu neto Nicolai não quis ser padre; está na faculdade, estudando para médico. Acha que será melhor… mas quem sabe? É a vontade de Deus.
— Nicolai corta cadáveres — disse Katia, derramando água sobre os joelhos.
Calmamente, a avó disse, tirando-lhe o copo das mãos:
— Fica quieta, pequena. Reza, enquanto comes.
Acariciando ternamente o ombro e o braço da mãe, monsenhor disse:
— Há quanto tempo não nos vemos! Senti muitas saudades suas, no estrangeiro, mamãe. Muitas, mesmo.
— Obrigada.
— À noite, sentava-me junto à janela, sozinho, ouvindo a música lá fora. Então, subitamente, a nostalgia tomava-me de assalto… e eu creio que teria dado tudo para poder voltar a vê-la.
Ela sorriu, seu rosto iluminou-se. Mas logo retomou o seu ar sério e disse:
— Obrigada.
Repentinamente, o humor do bispo transformou-se. Olhava sua mãe, sem poder compreender de onde vinha aquela expressão respeitosa, tímida em seu rosto e em sua voz. Não a reconhecia. Sentiu-se triste. Depois, como na véspera, sua cabeça tornou-se pesada, suas pernas começaram a doer… o peixe pareceu-lhe insípido… não conseguia acalmar a sede…
Após o jantar, recebeu a visita de duas senhoras, ricas, proprietárias, que se demoraram mais de uma hora, em silêncio, pesando no ambiente, com seus rostos alongados; do arquimandrita, homem taciturno e surdo, que fora tratar de negócios. As vésperas soaram, o sol escondeu-se atrás da floresta e o dia terminou. Regressando da igreja, monsenhor fez apressadamente suas orações e meteu-se na cama, agasalhando-se muito.
O peixe do almoço lhe deixara uma sensação desagradável. O luar o incomodava. Ouviu vozes: em um outro compartimento, no salão, provavelmente o Padre Sissol conversava sobre política.
— Os japoneses estão em guerra. Estão se batendo. Os japoneses, minha cara senhora, são a mesma coisa que os montenegrinos… são da mesma raça. Estiveram juntos sob o jugo turco…
Ouviu a voz da mãe:
— Então, depois de termos feito nossas orações, depois de bebermos chá, fomos à casa do Padre Iegor, em Novokhatnoia…
E, a cada cinco minutos, repetiu: “depois de tomarmos chá…” Dir-se-ia que, em toda a sua vida, ela só aprendera a tomar chá. Lentamente, vagamente, voltavam à memória do monsenhor o pequeno e o grande seminário. Por mais de três anos, fora professor de grego… já não podia ler sem óculos… Quando recebeu a tonsura, foi nomeado inspetor. Em seguida, defendeu tese. Aos trinta e dois anos, era diretor do seminário. Já sagrado arquimandrita. A vida tornou-se, então, de tal maneira fácil e agradável, tão longa que parecia não Ter fim. Foi quando caiu doente. Emagreceu muito, ficou quase cego e, a conselho médico, abandonou tudo e partiu para o estrangeiro.
Na sala vizinha, Sissol perguntou:
— E depois?
— Depois, bebemos chá — respondeu sua mãe.
— Meu pai, sua barba é verde! — disse, subitamente,Katia.
Lembrando-se de que, realmente, a barba grisalha do Padre Sissol tinha reflexos verdes, monsenhor pôs-se a rir.
Ouviu a voz colérica do Padre Sissol:
— Meu Deus, que maldição de criança! Como é mal-educada! Fica quieta!
Monsenhor reviu a igreja branca, novinha, onde oficiava no estrangeiro… Recordou o ruído do mar tranqüilo. Seu apartamento constituía-se de cinco peças, altas e claras. Em seu gabinete de trabalho, havia uma escrivaninha nova e uma biblioteca; ele escrevia e lia muito. Lembrou-se de sua nostalgia de então; de um mendigo cego que, diariamente, cantava, sob suas janelas, canções de amor, acompanhadas de guitarra, e de que, cada vez que o ouvia, pensava no passado. Mas oito anos haviam decorrido, ele fora chamado à Rússia e, agora, era bispo sufragâneo — todo seu passado desaparecido muito longe, na bruma, como um sonho…
Com uma vela na mão, Padre Sissol entrou no quarto. Espantou-se:
— Já está dormindo, monsenhor?
— Que tem isso?
— É muito cedo, ainda… Comprei uma vela de sebo e gostaria de friccionar suas costas…
— Estou com febre. E muita dor de cabeça. Evidentemente, é preciso fazer alguma coisa — disse monsenhor, sentando-se.
Sissol tirou-lhe a camisa e fez-lhe uma fricção no peito e nas costas, com sebo.
— Assim… assim… Senhor Jesus! … Assim… Hoje estive na cidade, em casa de… como se chama mesmo ele…? Em casa do Arquiprior Sidonski… Tomei chá com ele… Não simpatizo com ele… Senhor Jesus… Assim… Assim… Pois é, não simpatizo com ele…

III

O bispo da diocese, homem idoso e obeso, vencido pelo reumatismo, ou pela gota, não se levantava da cama há mais de um mês. Monsenhor Piotr visitava-o diariamente e dava audiência, em seu lugar. Agora, que também sofria, pensava, chocado, no vazio e na pequenez de tudo quanto lhe pediam, de tudo por que se lamuriavam os que iam procurá-lo. A timidez e o atraso dessas pessoas o irritavam. Todas as frivolidades, todas as coisas ociosas o esmagavam: tinha a impressão de que, enfim, compreendia o bispo titular que, outrora, em sua juventude, escrevera um Tratado do Livre Arbítrio, e parecia-lhe que, agora, sua personalidade se constituía apenas de detalhes, que tudo esquecera, que não pensava mais em Deus. No estrangeiro, desacostumara-se da vida russa — e agora sentia muito seu peso. Chocava-se com a grosseria do povo, com os pedidos tolos dos que apelavam a seu auxílio, com a incultura dos seminaristas e professores, autênticos selvagens, na maioria das vezes. O correio que enviava, ou recebia, existia na proporção de dez para mil — e que correio! Os deãos de todas as dioceses davam notas à conduta dos padres, jovens e velhos, a suas mulheres, a suas crianças e era preciso comentar tudo isso, escrever cartas sérias a respeito, ler. Não lhe restava, positivamente, um só minuto de liberdade, seu espírito sempre inquieto, só sentindo tranqüilidade na igreja.
Também não conseguia acostumar-se ao medo que inspirava, involuntariamente, apesar de sua doçura e de sua discrição. Todos os habitantes da paróquia ficavam intimidados, contritos em sua presença —humildes e assustados. Mesmo os velhos arquimandritas anulavam-se diante dele — e, bem recentemente, uma solicitante, a velha esposa de um pope de província, sentira tanto medo, ao defrontá-lo, que não pudera articular uma só palavra e partira sem nada lhe solicitar. E ele que, em seus sermões, jamais pudera ser severo, que jamais dirigira, a quem quer que fosse, uma censura, pois sentia piedade, perdia a linha, encolerizava-se e atirava todos os pedidos no chão. Desde que chegara, ninguém lhe havia falado sinceramente, humanamente, com simplicidade. Sua própria mãe não era a mesma. Por que falava sem cessar e ria tanto com Sissol, enquanto com ele, seu filho, era tão grave, tão taciturna, tolhida por um constrangimento que não combinava com ela? A única pessoa que sentia à vontade, em sua presença, dizendo tudo o que queria dizer, era o velho Sissol, que durante toda a sua vida servira a bispos, dos quais já enterrara onze. E também ele, monsenhor, sentia-se à vontade com ele, embora fosse, incontestavelmente, um homem difícil e ardiloso.
Na terça-feira, depois da missa, ao receber os solicitantes, no bispado, monsenhor agitou-se, exaltou-se. Ao entrar em casa, sempre indisposto, desejava deitar-se. Mal chegou, porém, anunciaram-lhe o jovem solicitante Erakine, generoso benfeitor das boas obras, que lhe pedia audiência, para tratar de um assunto muito importante. Não pôde recusar-se. Erakine demorou perto de uma hora; falava alto, quase aos gritos — e monsenhor custara a entender o que dizia.
Ao sair, disse:
— Deus permita que assim seja! É absolutamente necessário! De acordo com as circunstâncias, Reverendíssima Excelência! Desejo ardentemente que assim seja!
Após Erakine, recebeu a madre superiora de um longínquo convento. E quando ela se retirou, soaram as vésperas; teve que voltar à igreja.
À noite, os monges entoaram um canto harmonioso e inspirado. Um jovem monge, de barba negra, oficiava. E monsenhor, ouvindo os versos sobre o esposo que veio à meia-noite e, encontrando a casa enfeitada, não sentia arrependimento de seus pecados, nem aflição, mas sim calma e paz interior, deixou seu pensamento voar para um distante passado — sua infância e sua juventude, quando se cantava também esse esposo que chega à meia-noite a essa casa adornada. Agora, esse passado parecia-lhe vivo, magnífico, radioso, como talvez nunca o tivesse sido. Quem sabe, em outro mundo, em outra vida, também recordemos nosso longínquo passado e nossa vida terrena, sentindo-os, assim, vivos e próximos… quem sabe?
Estava escuro. Sentado perto do altar, monsenhor deixava correr suas lágrimas, sonhando que atingira a tudo que era acessível a um homem de sua posição. Tinha fé. Mas nem tudo estava claro, faltava-lhe qualquer coisa, não queria morrer: essa qualquer coisa que lhe faltava era, talvez, o essencial de sua vida, com o que confusamente sonhara, outrora. No presente, a mesma esperança em um futuro, acompanhando-o, desde o seminário, desde que estivera fora de seu país.
E pensava, ouvindo atentamente os cânticos:
— Como estão cantando bem, hoje! Como cantam bem!

IV

Na quinta-feira, oficiou na catedral e também na cerimônia de lava-pés. Quando o serviço terminou e os fiéis se retiraram, fazia sol, o tempo estava quente, alegre, a água murmurava nos riachos — e nos arredores, vindo do campo, soava o canto ininterrupto das andorinhas, um canto pleno de ternura, convidando ao repouso. As árvores, despertas, pareciam sorrir gentilmente e o céu insondável, ilimitado, perdia-se muito longe, só Deus saberia onde.
Em casa, Monsenhor Piotr tomou chá, mudou de roupa e deitou-se, pedindo ao irmão leigo que fechasse as janelas. A escuridão invadiu o quarto. Mas que cansaço, que dor nas pernas e nas costas, que sensação de peso, de frio, que zoada nos ouvidos! Fazia muito tempo que não dormia longamente. Tinha a impressão de que o que o impedia de adormecer era um quase nada que se erguia em seu cérebro, logo que fechava os olhos. Como na véspera, chegavam-lhe, de compartimentos vizinhos, através dos tabiques, vozes, ruídos de copos, de colheres… Sua mãe contava, alegremente, uma estória pitoresca, semeada de provérbios. Padre Sissol respondia, com voz sombria e descontente:
— Ah! Que gente! Que coisa! Ainda esta!
E monsenhor sentia-se novamente contrariado, mortificado, porque sua velha mãe se mostrava natural e simples, com os estranhos, enquanto diante dele, seu filho, intimidava-se, pronunciando raras palavras, que não correspondiam a seus pensamentos. Até mesmo… pelo menos lhe parecera… até mesmo procurava pretextos para se levantar, quando ele estava presente, constrangida, evitando ficar sentada em sua presença. E seu pai? Sem dúvida, se fosse vivo, também não poderia falar, diante dele…
No quarto vizinho, um objeto caiu ao chão e quebrou-se. Teria sido obra de Katia, deixando cair uma xícara, ou um pires, pois logo se ouviu a voz do Padre Sissol, irritado:
— Maldita menina! Senhor, perdoa-me estas palavras de pecador! Que flagelo!
Depois, fez-se silêncio. Ouviam-se, apenas, os ruídos vindos de fora. Quando monsenhor reabriu os olhos, viu Katia, observando-o, imóvel. Com seus cabelos ruivos, levantados por uma travessa em forma de auréola — como sempre. Perguntou-lhe:
— És tu, Katia? Quem está a todo instante abrindo e fechando lá em baixo?
— Não ouço nada — respondeu Katia.
— Alguém acaba de passar.
— É em sua barriga, tio.
Ele riu e acariciou-lhe a cabeça.
— Então, teu primo Nicolai corta cadáveres? — perguntou, depois de um curto silêncio.
— Sim… Está estudando.
— Ele é gentil?
— Muito. Só que tem que beber, É terrível.
— E teu pai? De que morreu?
— Papai era muito fraco… magro… magro… De repente, ficou atacado da garganta. Eu e meu irmão também adoecemos… meu irmão Fiodor, sabe? Todos ficaram doentes da garganta. Pai morreu, tio, mas nós todos ficamos bons.
Seu queixo começou a tremer, lágrimas brotaram de seus olhos, rolaram pelo rosto. Disse, com voz fraca, chorando agora amargamente:
— Monsenhor,, mamãe e eu somos tão desgraçadas… Dê-nos um pouco de dinheiro… Faça-nos esta caridade, querido tio!
Monsenhor sentiu, também, lágrimas brotando em seus olhos. A emoção o impediu, por um momento, de falar. Depois, acariciou, mais uma vez, a cabeça da menina, bateu-lhe carinhosamente nas costas e respondeu:
— Bem… bem, minha querida. Está chegando o dia da Páscoa… Voltaremos a falar neste assunto. Vou ajudá-las, sim… vou ajudá-las…
Viu a mãe entrar, timidamente, para uma oração diante do ícone. Notando que ele não dormia, perguntou-lhe:
— Quer tomar uma sopinha?
— Não, obrigado. Estou sem fome.
—Está muito abatido… mas também como não ficar doente? Os dias inteiros sem repousar… meu Deus, só de olhá-lo sinto pena! Felizmente, a Semana Santa está próxima e, se Deus quiser, ;poderá descansar e poderemos conversar. Agora, não quero incomodá-lo com as minhas tagarelices. Vem, Katia… Deixa monsenhor dormir um pouco.
Lembrou-se de que, quando era pequeno, há muitos anos, sua mãe falava ao deão no mesmo tom, ao mesmo tempo brincalhão e respeitoso… Somente seus olhos, extraordinariamente bondosos, o olhar tímido, preocupado, que ela lhe lançara, ao sair, deixavam transparecer que era sua mãe. Fechou os olhos. Mas não adormeceu. Ouviu, por suas vezes, o relógio soar — e a tosse do Padre Sissol, atrás do tabique. Uma carroça, ou uma caleça, a se julgar pelo ruído, aproximou-se da escadaria. Uma pancada súbita, uma porta batendo… O irmão leigo entrou:
— Monsenhor!
— Sim?
— Os cavalos estão prontos: já é hora do ofício da Paixão.
— Que horas são?
— Sete e quinze.
— Vestiu-se e dirigiu-se à catedral. Durante a leitura dos evangelhos, era obrigado a fica de pé, imóvel, no meio da igreja. O primeiro evangelho, o mais belo e o mais longo, ele próprio o dizia. Sentiu-se novamente forte e bem disposto.
Esse primeiro evangelho — “Glória a Ti, ó Filho do Homem” — ele sabia de cor. Às vezes, enquanto o recitava, olhava em torno e via um mar de olhos. E ouvia o crepitar dos círios. Mas não lhe pareciam os mesmos fiéis dos anos precedentes, nem mesmo os reconhecia… Eram as mesmas gentes dos tempos de sua infância e de sua juventude, que seriam sempre as mesmas a cada ano que passasse… Até quando? Só Deus o sabia.
Seu pai era diácono, seu avô padre, seu bisavô diácono… toda a sua ascendência, talvez, depois da evangelização da Rússia, pertencera ao clero — e o amor de seu ministério, do sacerdócio, do carrilhão, era, nele, inato, profundo, desenraizável. Era na igreja, sobretudo quando oficiava, que se sentia mais ativo, disposto, feliz. E era o que lhe acontecia, naquele instante.
Somente depois da leitura do oitavo evangelho, sentiu que sua voz enfraquecera, nem mesmo sua tosse se ouvia, a cabeça doendo-lhe terrivelmente: teve medo de cair. Com efeito, suas pernas estavam completamente entorpecidas, a ponto de, pouco a pouco, não mais as sentir. Não compreendia como e sobre que se sustentava, por que não caía…
Terminado o ofício, faltavam quinze para meia-noite. Voltando à casa, trocou de roupa e deitou-se imediatamente, sem mesmo dizer suas orações. Não podia falar, sentia-se incapaz de manter-se em pé. E foi exatamente enquanto se cobria que um súbito desejo de partir o dominou… partir para o estrangeiro, uma irresistível vontade… Parecia-lhe que teria dado sua vida para não mais ver aqueles horríveis postigos, aqueles tetos baixos — e não mais sentir o pesado cheiro do convento. Se ao menos existisse um homem a quem pudesse falar, abrir sua alma!
Ouviu por muito tempo passos no quarto vizinho, sem conseguir lembrar-se de quem eram. Por fim, a porta abriu-se e o Padre Sissol entrou com uma vela e trazendo-lhe uma xícara de chá.
— Já está deitado, monsenhor? Vim fazer-lhe uma fricção, com vodca e vinagre. Uma boa fricção sempre faz bem. Senhor Jesus! Estou acabando de chegar de nosso convento… Ele não me agrada, não me agrada! Vou-me embora amanhã, Excelência… Não desejo ficar nem mais um dia. Senhor Jesus… Pronto!
O Padre Sissol não gostava de permanecer por muito tempo em um lugar e já estava com a impressão de que passara o ano inteiro em São Pancrácio. Além disso, ouvindo-o, era difícil saber onde ficava sua casa, se ele amava alguém, ou qualquer coisa, se acreditava em Deus… Ele próprio não compreendia por que era monge… Aliás, ele não pensava mais nisso, há muito tempo se apagara, em sua memória, qualquer recordação da época em que recebera a tonsura… parecia-lhe que já nascera monge.
— Parto amanhã. Estou me despedindo de tudo isso.
— Gostaria de conversar com o senhor… Mas nunca houve ocasião — disse monsenhor, em voz baixa, penosamente. — Não conheço ninguém aqui… não estou a par de nada…
— Pois ficarei até Domingo, se quiser. Mas não além de Domingo… Ah! Não!
Monsenhor prosseguiu, em voz baixa:
— Que espécie de bispo sou eu? Deveria Ter sido pope, de aldeia, diácono… ou simples monge… Tudo isso me acabrunha… me acabrunha…
— Como? Senhor Jesus, que idéia! Vamos, durma, monsenhor… Que estranha idéia! Boa noite!

* Tradução de Maria Jacintha

Angústia (Anton Tchekhov)

“Com quem a dor partilharei?…”

Anoitece. A neve graúda e úmida gira preguiçosamente ao redor dos lampiões recém acesos e deita-se em placas macias e finas nos telhados, nos lombos dos cavalos, nos ombros, nos gorros. O cocheiro Iona Ptápov está todo branco, como um fantasma. Está sentado na boléia, curvado, tão curvado quanto é possível curvar-se um corpo vivo, e não se mexe. Se toda uma avalanche se despencasse sobre ele, nem assim, ao que parece, ele acharia necessário sacudir a neve… A sua eguazinha também está branca e imóvel. Pela sua imobilidade, suas formas angulosas e as pernas retas como paus, até de perto ela parece um cavalinho de pão-de-mel de um copeque. Ao que tudo indica, ela está mergulhada em meditações. Quem foi arrancado do arado, das costumeiras paisagens cinzentas, e atirado aqui, neste atoleiro, cheio de luzes monstruosas, zoeira incessante e gente apressada, este não pode deixar de meditar…
Iona e a sua eguazinha não se movem do lugar já faz muito tempo. Saíram do pátio ainda antes do almoço, porém não fizeram nem uma corrida. Mas eis que a sombra da noite desce sobre a cidade. A luz pálida dos lampiões cede lugar à cor viva e o bulício das ruas torna-se mais ruidoso.
— Cocheiro, para a Viborgskaia! — ouve Iona. — Cocheiro!
Iona estremece e, através dos cílios grudados pela neve, vê um militar de capote e capuz.
— Para Viborgskaia! — repete o militar. — Mas tu estás dormindo, heim? Para Viborgskaia!
Em sinal de assentimento, Iona puxa as rédeas, em conseqüência do que, placas de neve caem dos seus ombros e do lombo do cavalo. O militar toma assento no trenó. O cocheiro estala os lábios, estica o pescoço à maneira de um cisne, soergue-se e, mais por hábito que por necessidade, brande o chicote. A eguazinha também estica o pescoço, arqueia as pernas magras e, insegura, põe-se em movimento.
— Por onde te metes, lobisomem! — ouve Iona, assim que sai, gritar de dentro da massa escura que balança para diante e para trás. — Aonde te carrega o diabo? Para a dirr-reita!
— Não sabes dirigir! Agüenta a direita! — ralha o militar.
Um cocheiro de carruagem particular pragueja ao cruzar e um transeunte, que atravessara a rua correndo e batera com o ombro no focinho da égua, olha furioso e sacode a neve da manga. Iona se contorce na boléia como se estivesse sentado em alfinetes, joga os cotovelos para os lados, e seus olhos correm como possessos, como se ele não compreendesse quem é e por que está aqui.
— Como todos são canalhas! — zomba o militar. — Só procuram abalroar-te ou se jogar debaixo do teu cavalo! É que estão todos de conluio contra ti!
Iona olha para trás, para o passageiro, e move os lábios… Vê-se que quer dizer alguma coisa, mas da sua garganta não sai nada, a não ser um som gutural.
— O que é? — pergunta o militar.
Iona torce a boca num sorriso, força a garganta e rouqueja:
— É que… patrão… coisa… o … meu filho… se finou esta semana.
— Hum!… E de que foi que ele morreu?
Iona volta-se de corpo inteiro para o passageiro e fala:
— E quem sabe lá! Vai ver, foi a febre… Ficou três dias no hospital e se finou… É a vontade de Deus.
— Vira, demônio! — soa na escuridão. — Estás tonto, ou o quê, cachorro velho? Toca para a frente!
O cocheiro torna a esticar o pescoço, a soerguer-se, brandindo o chicote com graça pesada. Depois, por várias vezes, ele se volta para o passageiro, mas este fechou os olhos e, pelo visto, não está disposto a escutar. Deixando-o na Viborgskaia, Iona pára diante de um botequim, dobra-se na boléia e torna a ficar imóvel… De novo a neve úmida tinge de branco a ele e a sua égua. Passa uma hora, outra…
Pelo passeio, pisando ruidosamente com as galochas e altercando, passam três rapazes; dois deles são altos e magros, o terceiro é baixo e corcunda.
— Cocheiro, para a ponte Policial! — grita o corcunda com voz de tremolo. — Nós três — por vinte copeques!
Iona puxa as rédeas e estala os lábios. Vinte copeques não é preço justo, mas ele não está para pensar em preço… um rublo ou cinco copeques, para ele dá na mesma agora — haja passageiros… Os moços, aos empurrões e palavrões, vêm para o trenó e sobem no assento todos ao mesmo tempo! Começa a discussão do problema: quais os dois que irão sentados, e qual o terceiro que irá de pé? Após longos debates, bate-boca e acusações, eles chegam à decisão de que deve viajar de pé o corcunda, por ser o menor.
— Anda, toca! — range o corcunda, firmando-se e bafejando na nuca de Iona. — Descansa o cavalo! Mas que gorro o teu, heim, mano! Pior não se acha em toda Petersburgo!…
— Hehe… hehe… — gargalha Iona. — É o que é…
— Anda, tu aí, “é o que é”, toca pra frente! É assim que vais andar o caminho inteiro? E que tal um pescoção?
— A cabeça me estala… — diz um dos compridos. — Ontem na casa dos Dukmássov nós dois, o Vaska e eu, limpamos quatro garrafas de conhaque.
— Não entendo por que mentir! — enfeza o outro comprido.
— Mentes que nem um animal!
— Que Deus me castigue se não é verdade…
— É tão verdade quanto um piolho tossir.
— He… he… — ri Iona. — Os senhores alegres…
— Arre, que os diabos te carreguem!… — indigna-se o corcunda. — Vais andar, carcaça velha, ou não? Isto é maneira de dirigir? Chicote nela! Upa, diabo! Upa! Dá-lhe rijo!
Iona sente atrás das costas o corpo irrequieto e a vibração da voz do corcunda. Ouve os insultos que lhe são dirigidos, vê a gente, e o aperto da solidão pouco a pouco começa a afrouxar no seu peito. O corcunda continua a imprecar até que engasga num palavrão de seis andares e desanda a tossir. Os dois compridos põem-se a conversar sobre uma certa Nadejda Petrovna. Iona olha para eles por cima do ombro. Escolhendo um momento propício, volta-se novamente e balbucia:
— E eu nesta semana…coisa… finou-se meu filho!
— Todos vamos nos finar… — suspira o corcunda, enxugando os lábios depois do acesso de tosse. — Anda, toca, toca! Deus meu, palavra que não agüento mais viajar assim! Quando é que nós vamos chegar?
— Você poderia animá-lo um pouquinho — na nuca!
— Estás ouvindo, traste velho? Vou te encher de pescoções! Se a gente começa a fazer cerimônia com a tua laia, acaba andando a pé! Estás ouvindo, Dragão Gorinitch? Ou não te importa o que dizemos?
E Iona ouve, mais do que sente, o ruído do pescoção.
— Heehe… — ri ele. — Que senhores alegres… benza-os Deus!
— Cocheiro, és casado? — pergunta um dos compridos.
— Eu, é? Hehe… alegres senhores! Eu agora só tenho uma mulher — a terra úmida… Hehe… hoho… A sepultura, é o que é!… O filho, este morreu… e eu estou vivo… Coisa esquisita, a morte errou de porta… Em vez de vir me buscar, foi ao filho…
E Iona volta-se para contar como morreu seu filho, mas aí o corcunda suspira aliviado e declara que, graças a Deus, eles já chegaram, finalmente. Tendo recebido os vinte copeques, Iona finca longamente o olhar no encalço dos farristas, que desaparecem num portão escuro. Outra vez ele está só, e outra vez o silêncio cai sobre ele… A angústia, que amainara um pouco, surge de novo e oprime o peito com força maior ainda. Os olhos de Iona correm aflitos e martirizados pelas turbas que se agitam de ambos os lados da rua: não haverá no meio dessas milhares de pessoas ao menos uma que quisesse ouvi-lo? Mas as turbas correm sem notá-lo, nem a ele, nem à sua angústia… Angústia enorme, que não conhece limites. Se estourasse o peito de Iona e a angústia se derramasse, ela inundaria, parece, o mundo inteiro — e no entanto, ela é invisível. Ela conseguiu aninhar-se numa casca tão ínfima, que não se pode enxergá-la nem com lanterna à luz do sol…
Iona vê um zelador de prédio com um saco na mão e decide falar com ele.
— Mano, que horas serão? — pergunta ele.
— Passa das nove… E por que ficas parado aqui? Vai andando!
Iona afasta-se alguns passos, dobra o corpo e entrega-se à angústia… Dirigir-se aos homens ele já considera inútil. Mas não passam nem cinco minutos e ele se endireita, sacode a cabeça como se sentisse uma dor aguda e puxa as rédeas… Ele não agüenta mais.
“Para casa — pensa ele. — Para casa!”
E a eguazinha, como que adivinhando-lhe o pensamento, põe-se a correr a trote miúdo. Cerca de hora e meia depois, Iona já está sentado junto a uma estufa grande e suja. Em cima da estufa, nos bancos, no chão, homens estão roncando. O ar está denso e abafado… Iona olha para os dorminhocos, coça-se, e lamenta que voltou para casa tão cedo.
“Não ganhei nem para a aveia”, pensa ele. “É por isso que estou aflito. Um homem que entende do seu trabalho… que está de barriga cheia e o cavalo também, este está sempre sossegado…
Num dos cantos, acorda um cocheiro moço, pigarreia e estende a mão para o balde de água.
— Deu vontade de beber? — pergunta Iona.
— De beber, pelo visto!
— Pois é… Bom proveito… Pois eu, mano… morreu meu filho… Soube? Esta semana, no hospital… Que história!
Iona olha para ver o efeito que produziram suas palavras, mas não vê nada. O moço puxou a coberta por cima da cabeça e já dorme. O velho suspira e se coça. Assim como o moço tinha vontade de beber, ele tem vontade de falar. Logo vai fazer uma semana que o filho morreu, e ele ainda não conversou direito com ninguém… É preciso conversar com vagar, com calma… É preciso contar como o filho ficou doente, como sofreu, o que disse antes de morrer, como morreu. É preciso descrever o enterro e a viagem ao hospital para buscar a roupa do defunto. Na aldeia ficou uma filha, Aníssia… Também dela é preciso falar… Há tanta coisa de que poderia falar agora… O ouvinte deve gemer, suspirar, compadecer-se… Melhor ainda seria falar com mulheres. Elas podem ser burras, mas põem-se a chorar à segunda palavra.
“Vou ver o cavalo — pensa Iona. — “Sempre terei tempo para dormir… Dormirei até que chegue…”
Iona se veste e vai para a cavalariça, onde está a sua égua. Ele pensa na aveia, na palha, no tempo… No filho, quando está sozinho, ele não consegue pensar. Falar com alguém a respeito do filho, isso ele poderia, mas pensar sozinho e imaginá-lo é-lhe insuportável e assustador…
— Mastigas? — pergunta Iona ao seu cavalo, vendo-lhe os olhos brilhantes. Mastiga, anda, mastiga… Se não ganhamos para a aveia, comeremos palha… Pois é… Já estou velho para este trabalho… O filho é que devia trabalhar, e não eu… Aquele sim é que era cocheiro de verdade… Se ao menos vivesse…
Iona cala-se um pouco, depois continua:
— Assim é, mana egüinha… Não temos mais Kusma Ionitch… Foi-se desta para melhor… Pegou e morreu, à toa… Agora, imagina tu, por exemplo — tu tens um potrinho, e tu és a mãe desse potrinho… E de repente, imagina, esse mesmo potrinho se despacha desta para melhor… Dá pena ou não dá?
A eguazinha mastiga, escuta e esquenta com seu bafo as mãos do dono…
Iona se deixa arrebatar e conta-lhe tudo…
* Tradução de Tatiana Belinky

Um caso médico (Anton Tchekhov)

Um telegrama enviado da fábrica dos Lialikov pedia ao professor que viesse o mais depressa possível.
A filha da Senhora Lialikov, que devia ser a proprietária da fábrica, estava doente; era tudo o que se podia perceber num longo telegrama mal redigido. Por isso o professor não esteve para se incomodar; contentou-se em enviar, para o substituir, o seu ajudante Koroliov. Tinha que se descer na terceira estação para lá de Moscovo e andar em seguida, de carro, quatro «verstas». Na estação, esperava o ajudante um carro de três cavalos. O cocheiro tinha um chapéu de penas de pavão e, com voz vibrante, como um soldado, respondia sempre a todas as perguntas: «De modo algum!» ou «Exactamente!».
Era num sábado de tarde. Punha-se o Sol. Da fábrica para a estação vinham grupos de operários que cumprimentavam para o carro onde seguia o médico. Aquele fim de dia, os palacetes senhoriais e as casas de verão, dos dois lados da estrada, os amieiros, a calma impressão que de tudo se exalava, na hora em que, já quase a repousarem, os campos, os bosques e o Sol pareciam preparar-se para descansar e talvez até para rezar ao mesmo tempo que os operários — tudo isto encantava Koroliov.
Nascido e educado em Moscovo, o médico não conhecia o campo e nunca se tinha interessado pelas fábricas; nunca tinha visitado nenhuma; mas, depois do que tinha lido sobre este assunto, tinha-lhe acontecido estar em casa de proprietários e falar com eles. E, quando via de longe ou de perto uma fábrica, pensava que por fora tudo parecia calmo e pacífico, mas que lá dentro deviam reinar a impenetrável ignorância e o egoísmo obtuso dos proprietários, o trabalho aborrecido e insalubre dos operários, e as intrigas, e o «vodka» e a bicharia…
E agora, à medida que se afastavam do carro com respeito e medo, lia no rosto do operário, nos bonés, no andar, a porcaria, o alcoolismo, o enervamento, o atordoamento em que viviam.
Entrou pelo portão grande da fábrica. Apareceram de ambos os lados as pequenas casas dos operários, figuras de mulher, e, às cancelas da entrada, roupa branca e mantas. O cocheiro, sem segurar os cavalos, gritava: «Cuidado!».
Num pátio grande, sem o mínimo sinal de erva, levantavam-se cinco grandes corpos de edifícios com altas chaminés, afastados uns dos outros, com armazéns e alpendres, tudo mergulhado numa espécie de neblina cinzenta, como uma flor de poeira. Aqui e além, como os oásis no deserto, havia uns jardinzitos enfezados e os telhados verdes e vermelhos das casas da Administração. O cocheiro, sofreando de repente os cavalos, parou diante duma casa que fora há pouco pintada de cinzento. Os lilases do jardim estavam cobertos de poeira, e o pórtico, pintado de amarelo, cheirava fortemente a tinta.
— Faça favor de entrar, Senhor Doutor — disseram vozes de mulher à porta da entrada e no limiar da antecâmara.
Ouviram-se depois suspiros e murmúrios.
— Faça favor de entrar… Estamos à sua espera já há tanto tempo… Foi mesmo uma desgraça. Por aqui, faça favor…
A Senhora Lialikov, já de idade e corpulenta, vestida de seda negra e com mangas à moda, mas, pelo que parecia, simples e pouco instruída, olhava para o doutor com receio, sem se atrever a estender-lhe a mão; não ousava fazê-lo.
Perto dela, encontrava-se uma criatura de cabelos curtos, magra e já nada nova, que trazia uma blusa colorida e usava luneta. Os criados chamavam-lhe Cristina Dmitrievna e Koroliov adivinhou ser a governante. Como era a única pessoa instruída da casa, tinham-na sem dúvida encarregado de receber o médico, porque logo se apressou a expor, com pormenores de todo inúteis, as causas da doença, mas sem dizer quem estava doente nem de que se tratava. Koroliov e a governante falavam sentados, enquanto a dona da casa esperava, Imóvel, junto da porta. No decurso da conversação, veio Koroliov a saber que a doente era uma rapariga de vinte anos, Lisa, filha única da Senhora Lialikov. Estava enferma há muito tempo e já a tinham tratado vários médicos. Na noite anterior, sentira, desde a tarde, tais palpitações que ninguém em casa tinha dormido; chegara-se a recear que morresse.
— Ela, na verdade, tem sido doentinha desde criança — contava Cristina Dmitrievna com uma voz cantada e limpando ininterruptamente os lábios com a mão. — Os médicos dizem que são nervos, mas ainda em pequena meteram-lhe para dentro os humores frios, e daí é que vem todo o mal, acho eu.
Passaram ao quarto da doente. Já mulher, alta, bem feita, mas feia, parecida com a mãe, com os mesmos olhitos e a parte inferior do rosto larga e exageradamente desenvolvida, despenteada, os cobertores puxados até ao queixo, a rapariga deu de princípio a Koroliov a impressão de uma pobre criatura, enferma, recolhida por piedade. Ninguém acreditaria que fosse a herdeira dos cinco enormes edifícios da fábrica.
— Venho tratar de si — disse Koroliov. — Bom dia, Menina. Disse o nome e apertou-lhe a mão, mão grande, feia e fria. Ela soergueu-se e, já muito acostumada aos médicos, indiferente à nudez das espáduas e dos braços, deixou-se auscultar.
— Sinto umas palpitações — disse ela. — Toda a noite… foi uma coisa terrível… julguei que morria de medo. Dê-me qualquer coisa, a ver se isto acaba.
— Não tenha receio, vou já receitar.
Koroliov examinou-a e encolheu os ombros.
— O coração está bom — disse ele; — tudo vai bem, está tudo em ordem. Os nervos talvez um pouco abalados… mas é também coisa vulgar. A crise já passou, parece. Deite-se e veja se dorme…
Neste momento trouxeram um candeeiro. A doente piscou os olhos e, de repente, pousando a cabeça nas mãos, pôs-se a chorar.
E a impressão dum ser infeliz e feio desapareceu. Koroliov já não dava pelos olhos pequeninos nem pela parte do rosto anormalmente desenvolvida. Via uma suave expressão de sofrimento, muito comovedora e espiritual, e a rapariga, no conjunto, apareceu-lhe elegante, feminina e simples. E já a queria acalmar, não por medicamentos ou conselhos, mas por uma simples palavra graciosa. A mãe puxou a si a filha e beijou-lhe a testa. E na expressão da face, quanta tristeza, quanto desgosto!
Tinha criado e educado a filha sem se poupar a nada; tinha posto todo o cuidado em lhe mandar ensinar francês, música e dança. Tinha-lhe dado uma dúzia de mestres, tinha chamado os melhores médicos, tomado uma governante — e não compreendia donde vinham aquelas lágrimas e tantos sofrimentos! Não compreendia, atrapalhava-se e tinha uma expressão de culpabilidade; e andava desolada, inquieta, como se tivesse esquecido alguma coisa de muito urgente, como se tivesse tido alguma negligência, como se não tivesse chamado alguém. Quem? Não sabia…
— Lisaunka — disse ela, apertando a filha ao peito -, minha querida, minha pomba, minha filhinha, que tens tu? Diz à mãezinha… Tem pena de mim… Diz…
Ambas choravam amargamente. Koroliov, sentando-se na borda da cama, pegou na mão de Lisa.
— Vamos, não chore mais — disse-lhe ele com um tom de carícia -. Há lá razão para isso… Não há nada no mundo que seja digno dessas lágrimas. Vá, não chore mais. Assim não pode ser…
E pensou:
— Já era tempo de a casar…
— O médico da fábrica dava-lhe brometos — disse a governante — mas notei que só lhe faziam mal. Eu acho que para o coração o bom são umas gotas… ai, esquece-me o nome… Junquilho, hem?
E recomeçou com os seus pormenores. Interrompia Koroliov, impedia-o de falar e lia-se-lhe no rosto o tormento que lhe causava pensar que, sendo a mulher mais instruída da casa, devia falar sem interrupção com o médico — e falar de medicina, claro.
Koroliov estava embaraçado.
— Não acho nada de especial — disse ele à mãe ao sair do quarto. — Como o médico da fábrica tratou sua filha, pode continuar. O tratamento que lhe deu até aqui foi bom; não vejo que seja preciso mudar. Para quê? É uma doença vulgar; não tem nada de grave…
Falava sem pressa e ia calçando as luvas; a Senhora Lialikov olhava-o de lágrimas nos olhos, imóvel.
— Ainda tenho meia hora até o comboio das dez; terei tempo de apanhá-lo, não…?
— O Senhor Doutor não desejaria ficar? — perguntou a mãe, e de novo as lágrimas lhe correram pela cara.
Custa-me tanto incomodá-lo; mas, pelo amor de Deus — continuou, a meia voz e voltando-se para a porta -, faça-me esse favor. Só tenho esta filha… Assustou-nos tanto a noite passada… Nem estou ainda em mim… Pelo amor de Deus, não se vá embora!
Koroliov ainda quis dizer que tinha muito que fazer em Moscovo, que a família estava à espera, que lhe era muito difícil passar uma tarde e uma noite fora da clínica; olhou para ela: suspirou e pôs-se a descalçar as luvas, silencioso.
Acenderam todas as velas e todos os candeeiros da sala e da saleta; sentado junto do piano de cauda, Koroliov folheou a música, depois foi contemplar os quadros e os retratos. Os quadros, com suas molduras douradas, eram vistas da Crimeia, um mar encapelado com um barquito, um monge católico com um cálice de licor — tudo pobre, lambido, sem talento… Nos retratos, nenhuma figura bela, interessante: faces largas, olhos espantados. Lialikov, o pai de Lisa, tinha a testa baixa e um ar satisfeito; o uniforme ficava-lhe como uma espécie de saco sobre o corpo grande e vulgar; no peito uma medalha e a insígnia da Cruz Vermelha. Cultura estreita, luxo de ocasião, um luxo que não tinha motivos nem vinha a propósito — como aquele uniforme. O brilho dos soalhos irrita, o lustre também; e pensa-se, nem se sabe porquê, na história do comerciante que ia tomar banho de medalha de honra ao pescoço… Na antecâmara havia murmúrios e alguém ressonava suavemente. De súbito, no pátio, ressoaram uns sons agudos, sacudidos, metálicos, que Koroliov nunca tinha ouvido e não soube explicar. Ecoaram na sua alma dum modo bem desagradável e estranho.
— Acho que não ficava aqui por nada deste mundo — pensou ele.
E tornou a folhear a música.
A governante entrou e chamou a meia voz:
— Senhor Doutor, pode vir jantar…?
Koroliov seguiu-a.
A mesa, grande, estava coberta de aperitivos e de vinhos; mas só havia duas pessoas: ele e Cristina Dmitrievna. Ela bebia madeira, comia depressa e falava contemplando-o pela luneta.
— Os operários estão muito satisfeitos connosco. Todos os invernos dão nesta fábrica espectáculos em que eles próprios representam. Há também, naturalmente, conferências com projecções, uma sala de chá magnífica; e tudo o mais… Têm muita dedicação por nós; quando souberam que a Lisaunka estava pior, mandaram fazer umas rezas. São pouco instruídos mas têm muito bons sentimentos.
— Parece que não há nenhum homem em casa, não?
— Nenhum. Piotre Nikanorytch morreu há ano e meio e ficámos sozinhas. Vivemos as três, no Verão aqui, no Inverno em Moscovo. Já estou nesta casa há onze anos. É como se estivesse em minha casa.
Serviram esturjão, croquetes de frango e uma compota. Os vinhos eram caros, vinhos de França.
— Faça favor, Senhor Doutor… Não faça cerimónias… Coma — dizia Cristina Dmitrievna comendo e limpando a boca à mão (via-se que estava realmente à vontade). Faça favor de comer.
Depois do jantar, levou o médico a um quarto onde lhe tinham preparado uma cama. Mas não tinha sono; o quarto era quentíssimo e cheirava a tintas; vestiu o sobretudo e saiu.
Fora, havia fresco. Já havia um prenúncio de alvorada e, no ar húmido, desenhavam-se os cinco edifícios, com as chaminés, os barracões e os armazéns. Como era domingo, não se trabalhava; as janelas estavam escuras e só duas, num dos edifícios onde ainda estava aceso um forno, pareciam incendiadas; de quando em quando, saía lume pela chaminé, de mistura com o fumo. Ao longe, para lá do pátio, coaxavam rãs e um rouxinol cantava.
Ao olhar os casarões da fábrica e as barracas dos operários, Koroliov voltou aos seus pensamentos do costume. Tinham-se instituído espectáculos para os operários, projecções, médicos privativos, toda a espécie de melhoramentos: mas os operários que ele vira de tarde, na estrada, em nada diferiam dos que tinha visto na sua infância, quando não havia para eles nem espectáculos, nem melhoramentos.
Era médico e tinha sido obrigado a fazer uma ideia exacta das doenças crónicas, cuja causa inicial é incompreensível e incurável; considerava do mesmo modo as fábricas como um equívoco cujas causas são também obscuras e inelutáveis. Todos os melhoramentos da sorte dos operários não lhe apareciam, claro, como supérfluos, mas comparava-os ao tratamento das doenças incuráveis.
— Há certamente um engano nesta coisa toda… — pensou olhando as janelas purpúreas. Mil e quinhentos ou dois mil operários trabalham sem descanso, num ambiente insalubre, para fabricarem péssima chita. Vivem na fome e só de tempos a tempos a taberna os liberta do pesadelo. Uma centena de pessoas vigia-lhes o trabalho e a vida destes contramestres passa-se a aplicar multas, a proferir injúrias e a cometer injustiças. E só duas ou três pessoas, chamadas patrões, aproveitam com os lucros, apesar de não trabalharem e de terem desprezo pela chita ordinária. Mas que lucros! E de que maneira os aproveitam! A Lialikov e a filha são umas infelizes e mete pena vê-las. Só a solteirona, a estúpida Cristina Dmitrievna vive à vontade! E trabalha-se numa fábrica destas, com cinco oficinas, e vende-se má chita nos mercados do Oriente, para que uma Cristina Dmitrievna possa comer esturjão e beber madeira.
De repente, repetiram-se os sons estranhos que Koroliov tinha notado antes do jantar. Perto de um dos edifícios, alguém batia numa placa metálica e logo amortecia a ressonância, de modo que os sons eram breves, ásperos, mal definidos, qualquer coisa como «dê… dê.. dê…». Depois, meio minuto de silêncio. E, perto do outro edifício, outros sons sacudidos, mas mais baixos, graves: «dran… dran… dran…».
Repetiram-nos onze vezes. Eram, evidentemente, os guardas a darem as onze horas. Junto do terceiro edifício, ouviu-se: «jak… jak… jak…». A mesma coisa diante de cada um dos edifícios, depois por detrás das barracas e às portas.
Parecia que, na calma da noite, os sons eram produzidos por um monstro de olhos de púrpura: o próprio Diabo, que era aqui o senhor de patrões e de operários e que a uns e outros enganava.
Koroliov saiu para os campos.
— Quem está aí? — gritaram-lhe, com voz grosseira.
— Exactamente como numa prisão — pensou ele.
E não respondeu nada.
Fora, ouviam-se melhor os rouxinóis e as rãs. Sentia-se o cheiro da noite de Maio. Da estação vinham ruídos de comboios; para outro lado, cantavam galos sonolentos; contudo, a noite estava calma: a natureza dormia pacificamente.
No campo, não longe da fábrica, erguia-se o esqueleto duma casa de toros; ao lado, encontravam-se materiais de construção. Koroliov sentou-se numas tábuas e continuou a pensar.
— Só a governante vive aqui a seu gosto e a fábrica trabalha para a satisfazer. Mas é apenas uma aparência; é uma personagem imaginária: o patrão para quem tudo se faz aqui é o Diabo.
E pensava no Diabo em que não acreditava. E voltava-se para as duas janelas que o lume iluminava.
Parecia-lhe que, por estes olhos de púrpura, o próprio Diabo o olhava: numa palavra, a força desconhecida que estabeleceu as relações entre os fracos e os fortes, o erro grosseiro que nada agora pode emendar. É necessário que o forte impeça o fraco de viver: tal é a lei da natureza. Mas isto não é compreensível e não entra facilmente no espírito senão à luz dum artigo de jornal ou dum manual. No tumultuar da vida quotidiana e no entrelaçar de todos os nadas de que se entretecem as relações humanas, não parece uma lei; é um absurdo lógico, no qual o forte e o fraco são vítimas das suas relações mútuas e se submetem involuntariamente a uma força condutora desconhecida, que reside fora da vida e é estranha ao homem.
Assim pensava Koroliov, sentado sobre as tábuas, invadido pouco a pouco pela impressão de que essa força desconhecida e misteriosa estava realmente perto dele e o contemplava.
Entretanto, o céu a leste empalidecia; os minutos precipitavam-se. Os cinco edifícios da fábrica e as chaminés tinham, sobre o fundo cinzento da madrugada, nessa hora em que não se via alma viva, em que tudo parecia morto, — os edifícios e as chaminés tinham um aspecto especial, diferente do de dia. Esquecia-se por completo que houvesse lá dentro motores a vapor, electricidade e telefones; mais depressa se pensava nas habitações lacustres e na cidade de pedra; sentia-se a presença de uma força grosseira, inconsciente…
E de novo se ouviu:
— Dê… dê… dê… dê…
Doze vezes.
Depois o silêncio — meio minuto de silêncio -, e, na outra extremidade do pátio:
— Dran… dran… dran…
— É bem desagradável, esta coisa… — pensou Koroliov.
E logo ouviu, num terceiro lugar:
— Jak… jak… jak…
O ruído era sacudido, áspero, exactamente como se estivesse aborrecido.
— Jak… jak…
Para dar a meia-noite foram precisos quatro minutos.
Depois, silêncio completo. E, de novo, a impressão de que tudo estava morto à volta.
Koroliov, depois de estar ainda algum tempo sentado, voltou para casa. Mas ficou ainda muito tempo sem se deitar.
Nos quartos vizinhos conversava-se. Ouvia-se o perpassar de pantufas e de pés descalços.
— Será uma crise? — pensou o médico.
Saiu para ir ver a doente. No quarto havia lá muita claridade; na parede da sala tremia um fraco raio de sol, através do nevoeiro da manhã. A porta estava aberta e Lisa sentara-se numa poltrona perto do leito, de roupão, envolta num xale e com os cabelos caídos. Os estores das janelas estavam corridos.
— Como se sente? — perguntou-lhe Koroliov.
— Obrigada…
Tomou-lhe o pulso, depois arranjou-lhe os cabelos que tinha sobre a testa.
— Não dorme? Está um tempo limpo, é a Primavera… Lá fora cantam os rouxinóis, e a Menina fica aí sentada, às escuras, a pensar não se sabe em quê…
Ela escutava-o e olhava-o. Tinha uns olhos tristes, inteligentes e via-se que queria dizer qualquer coisa.
— Isto dá-lhe muitas vezes? — perguntou ele.
Ela mexeu os lábios e respondeu:
— Muitas vezes… Quase todas as noites me sinto mal. Neste momento, os guardas, no pátio, começaram a dar as duas horas.
Ouviu-se: «Dê… dê…» Lisa teve um sobressalto.
— Estes sons incomodam-na? — perguntou o médico.
— Não sei… — respondeu ela, reflectindo — . . aqui tudo me incomoda, tudo me aborrece. Sinto compaixão na sua voz; pareceu-me desde o primeiro minuto, não sei porquê, que consigo podia falar de tudo…
— Fale, faça favor.
— Vou dar-lhe a minha opinião. Parece-me que não estou doente, mas atormento-me e tenho medo porque isto tem que ser assim e não pode ser de outra maneira. O ser mais saudável não pode deixar de inquietar-se quando um bandido lhe ronda a porta. Têm todos os cuidados comigo — continuou baixando os olhos e sorrindo timidamente. Estou muito reconhecida e não contesto a utilidade da medicina; mas desejaria falar, não com um médico, mas com alguém que estivesse perto do meu espírito: um amigo que me compreendesse e me demonstrasse que tenho ou não tenho razão.
— Não tem amigos?
— Sinto-me só… Tenho minha mãe e gosto dela. Mas sinto-me só. Calhou assim a minha vida… Quem está só lê muito, mas fala pouco e ouve pouco também; a vida é-lhe misteriosa. É-se místico e vê-se o Diabo onde ele não está; a Tamara de Lermontov era só e via o Demónio.
— Lê muito?
— Muito. Tenho todo o tempo livre, de manhã à noite. De dia leio, à noite tenho a cabeça vazia; em lugar de ideias, passam-me vagas sombras…
— Vê qualquer coisa de noite? — perguntou Koroliov.
— Não… mas sinto.
Sorriu de novo e levantou os olhos para o médico. O seu olhar era cheio de melancolia e cheio de inteligência. Pareceu a Koroliov que Lisa tinha confiança nele, lhe queria falar sinceramente e tinha pensamentos semelhantes aos seus. Mas ela calara-se e esperava talvez que ele falasse.
E sabia bem o que tinha a dizer-lhe. Era evidente que se tornava necessário que ela abandonasse o mais depressa possível os cinco edifícios da fábrica e o seu milhão, se acaso o tinha, e deixasse aquele Diabo que de noite a olhava. Era igualmente claro para Koroliov que ela também o pensava e que esperava que lho dissesse alguém em quem ela tivesse confiança.
Mas o médico não sabia por onde começar… Como havia de ser?… É difícil perguntar aos condenados por que razão os condenaram; e é também aborrecido perguntar aos ricos por que motivo têm necessidade de tanto dinheiro; por que fazem tão mau uso da sua riqueza, por que não a deixam, mesmo quando vêem que aí reside a sua infelicidade… E se se começa a falar disto a conversação é geralmente embaraçada e longa.
— Como hei-de dizê-lo? — pensava Koroliov. — E será preciso?
E disse o que queria, não directamente, mas com uns desvios:
— A Menina está descontente da sua situação de proprietária de fábrica e de herdeira rica; não acredita nos seus direitos e não dorme. É seguramente melhor do que se estivesse satisfeita e dormisse profundamente pensando que tudo vai bem. A sua insónia é respeitável e, seja o que for, é bom sinal. Com seus pais seria impossível uma conversa semelhante àquela que hoje temos aqui. De noite, não conversavam, dormiam profundamente; mas nós, os desta geração, dormimos mal. Preguiçamos, falamos muito, e consideramos continuamente se temos ou não temos razão. Para os nossos filhos e para os nossos netos já essa questão estará resolvida. Verão mais claro do que nós. Dentro de cinquenta anos, a vida será bela; é pena que não possamos viver até lá. Devia ser bem interessante…
— Que farão então os nossos filhos e os nossos netos? — perguntou Lisa.
— Não sei… Talvez deixem tudo e partam…
— Para onde?
— Para onde? Mas para onde quiserem — disse Koroliov a rir-se. — Há poucos lugares para onde possa ir um homem bom e inteligente?
Olhou para o relógio.
— Já nasceu o Sol. É tempo que durma. Dispa-se e repouse à vontade. Tenho muito prazer em a ter conhecido — disse-lhe ele, apertando-lhe a mão. — É interessante e simpática. Boa noite!
Voltou para o quarto e deitou-se.
No dia seguinte de manhã, quando trouxeram o carro, toda a gente veio acompanhar o médico à porta. Lisa, de vestido branco como num dia de festa, tinha uma flor nos cabelos. Pálida, lânguida, contemplava Koroliov, como de noite, com ar triste e inteligente. Sorria e falava sempre com a mesma expressão de lhe querer dizer alguma coisa de particular, de grave, alguma coisa que fosse só para ele. Ouviram-se as cotovias cantar, os sinos tocavam. As janelas da fábrica brilhavam alegremente. Ao atravessar o pátio e enquanto o conduziam à estação, Koroliov já não pensava nos operários nem nas habitações lacustres, nem no Diabo. Pensava no tempo, já talvez próximo, em que a vida seria tão luminosa e alegre como essa manhã calma de Maio. E pensava em como era agradável, em semelhante manhã de Primavera, viajar num bom carro, com os seus três cavalos, e aquecer-se ao sol.

O vingador (Anton Tchekhov)

Logo depois de haver surpreendido sua mulher em flagrante, encontrava-se Fedor Fedorovich Sigaev na loja de armas de Schmuks e Cia, a escolher o revólver que melhor lhe pudesse servir. Seu rosto expressava ira, dor e decisão irrevogável.
“Bem sei o que devo fazer!”, pensava. “Quando os fundamentos de uma família são profanados, e a honra é arrastada pela lama e triunfa o vício… eu, como cidadão e como homem honrado, devo ser o vingador. Matarei primeiro a ela, depois ao amante e finalmente suicidar-me-ei”.
Não havia ainda escolhido o revólver e nem sequer assassinara alguém, mas na imaginação já se lhe apresentavam três cadáveres ensangüentados, de crânios triturados, os miolos a flutuarem… Barulho, ruído de curiosos e autópsia.
Possuído pela insensata alegria do homem ofendido, calculava o horror dos parentes e do público, a agonia da traidora e até lhe parecia poder ler em pensamento os artigos da primeira página, a comentarem a decomposição dos fundamentos da família.
O empregado da loja, tipo inquieto, afrancesado, de ventre pequeno e colete branco, apresentava-lhe os revólveres e juntando os calcanhares dizia, sorrindo respeitosamente:
— Eu aconselharia a Mousieur que levasse este magnífico modelo do sistema Smith & Wesson. É a última palavra na ciência das armas. Possui três propulsores e pode-se dispará-lo a uma distância de seiscentos passos. Chamo também a atenção de Mousieur para a limpeza do acabamento. Seu sistema é que está mais em moda. Vendemos diariamente dezenas deles, que são utilizados contra os bandidos, os lobos e os amantes. Seu tiro é preciso e forte, alcança distâncias enormes e mata, atravessando-os, a mulher e o amante. Quanto aos suicidas, Mousieur, não conheço, para eles, melhor sistema.
E o empregado, apertando e soltando o gatinho, soprando o cano e fingindo mirar, parecia próximo a afogar-se de puro entusiasmo. A julgar-se pela expressão extasiada de seu rosto, poder-se-ia pensar que ele mesmo, de boa vontade, pregaria um tiro na testa, se possuísse uma arma tão maravilhosa quanto aquela.
— E qual o preço? — perguntou Sigaev.
— Quarenta e cinco rublos, Mousieur.
— Hum! É muito caro, para mim.
— Neste caso, Mousieur, posso oferecer-lhe algo mais em conta. Aqui está. Tenha a bondade de examinar. Temos estoque variado e de todos os preços… Este, por exemplo, do sistema Lefrauché, que custa somente 18 rublos. Porém… — o empregado fez um muxoxo de pouco caso — é um sistema, Mousieur, demasiadamente antiquado. Quem o compra são os pobres de espírito e os psicopatas. Suicidar-se ou matar a própria mulher com um Lefauché é considerado atualmente de mau gosto. O bom-tom admite somente uma Smith & Wesson.
— Não necessito matar-me ou a alguém — mentiu, com acento sombrio, Sigaev. — Compro-o simplesmente para a minha casa de campo… Para assustar os ladrões.
— Não nos interessa o seu motivo —sorriu o empregado, baixando modestamente os olhos — Se, em cada caso, buscássemos as razões, já deveríamos ter fechado a loja. Para espantar os corvos, Mousieur, o Lefauché não serve, pois produz ruído um tanto surdo. Eu lhe proponho uma pistola Mortimer, das chamadas para duelos.
“E se eu o provocasse para um duelo?”, passou pela cabeça de Sigaev. “Porém… não… Seria honra demasiada. A essas bestas, devemos matá-las, como cachorros…”
O empregado, revoluteando graciosamente e em pequenos passos, sem deixar de sorrir e de conversar, apresentou-lhe todo o monte de revólveres. O Smith & Wesson era o de aspecto mais sólido e justiceiro. Sigaev tomou um destes nas mãos, fixou-o e quedou ensimesmado. A imaginação desenhava-o destroçando um crânio, o sangue a escorrer como um rio sobre o tapete e o assoalho, a traidora, moribunda, agitando um pé convulso… Para a alma indignada, aquilo era pouco. O quadro de sangue, os soluços e o estupor não o satisfaziam. Deveria pensar em algo mais terrível.
“Isto é o que farei”, pensou. “Matarei a ele e a mim em seguida, porém ela… deixaria viver. Que morra do arrependimento e do desprezo dos que a cercam! Para natureza tão nervosa quanto a sua, será martírio maior que a morte!”
Começou a imaginar o próprio funeral: ele, o ofendido, estendido no ataúde, com um sorriso bondoso nos lábios… Ela, pálida, torturada pelos remorsos, caminhando atrás do féretro, como uma Níobe, sem poder escapa aos olhares depreciativos e aniquiladores, lançados pela multidão indignada…
— Vejo, Mousieur, que lhe agrada o Smith & Wesson — comentou o empregado, interrompendo o devaneio — Se o acha muito caro, posso fazer uma redução de cinco rublos, embora tenhamos outros mais baratos.
A figurinha afrancesada girou graciosamente sobre os próprios tacões e alcançou na prateleira outra dúzia de estojos com revólveres.
— Aqui está outro, Mousieur. O preço, trinta rublos. Não é caro, se lembrarmos que o câmbio está baixo e que os direitos alfandegários sobem cada dia mais… Juro-lhe, Mousieur, que sou conservador, porém já começo a protestar! Imagine que o câmbio e a tarifa da alfândega são o motivo de que somente os ricos possam adquirir armas! Para os pobres nada mais resta que as armas de Tula, e os fósforos. E as armas de Tula são uma desgraça! Se alguém pretender disparar uma arma de Tula sobre a própria mulher, apenas consegue atingir a própria omoplata…
Repentinamente Sigaev entristeceu-se com a idéia de morrer e não contemplar os sofrimentos da traidora. A vingança unicamente é doce quando existe a possibilidade de ver e tocar seus frutos. Pois, que sentido encontraria em estar deitado no ataúde, se nada poderia perceber?!
“E se eu fizesse isto?… matá-lo, ir a seu enterro, ver tudo e depois me suicidar?… Sim. Porém… antes do enterro eu seria preso e me tirariam a arma… Bem… O que farei será matá-lo e deixar que ela viva. Eu… enquanto não decorra um certo tempo, não me matarei. Serei preso. Para suicidar-me, sempre terei ocasião. Estar preso será melhor, pois que ao prestar declarações, terei possibilidade de demonstrar, ante o poder e a sociedade, toda a baixeza do seu comportamento. Se eu morresse, ela, com seu caráter desavergonhado e embusteiro, jogaria a culpa sobre mim, e a sociedade acabaria por absolvê-la…. de outro lado, talvez caçoe de mim, se continuo a viver… Então….”
Um minuto depois, pensava:
“Se… Talvez me acusem de sentimentos mesquinhos se eu me matar… E, depois, para que suicidar-me? Isso em primeiro lugar. Em segundo… o suicídio é covardia. Então, o que farei será matá-lo, deixá-la viver e eu irei para o cárcere. Serei julgado e ela figurará como testemunha… Veremos seu sobressalto e vergonha, quando precisar enfrentar meu advogado! Por certo que as simpatias do tribunal, do público e da imprensa estarão ao meu lado!…”
Enquanto assim devaneava, o empregado continuava a expor a mercadoria e considerava de seu dever, entreter o comprador.
— Veja aqui, outros, ingleses, de sistema novo, que recebemos há pouco. Porém, previno-o, Mousieur, de que todos os sistemas empalidecem diante do Smith & Wesson. Por certo, terá lido, há poucos dias, acerca de um militar que comprara um Smith & Wesson em nossa casa, e que o usou contra o amante… E que imagina tenha acontecido? A bala atravessou primeiro o amante, alcançou, depois o abajur de bronze, em seguida o piano de cauda e deste, como uma carambola, matou um cachorro pequinês e roçou a esposa… As conseqüências foram brilhantes e honraram nossa firma. O militar está preso agora… Por certo o condenarão a trabalhos forçados!… Em primeiro lugar, porque temos leis muito antiquadas , em segundo, porque já se sabe que o tribunal sempre toma o partido do amante. Por quê? Muito simples, Mousieur. Porque também o jurado, os juízes, o procurador e o advogado de defesa se entendem com esposas alheias e mais tranqüilos estão quando sabem de que um marido há na Rússia. A sociedade se encantaria, caso o Governo desterrasse todos os maridos para a ilha de Sajalin. Ah! Mousieur! Não pode o senhor imaginar a indignação que me desperta este desmoronar dos costumes morais contemporâneos!… Nestes tempos, cortejar mulheres alheias causa tanto prazer quanto filar cigarros os outros ou pedir livros emprestados! Cada ano que passa, o nosso comércio declina, porém não significa que haja menos amantes… Significa que os maridos reconciliam-se com a situação e temem os trabalhos forçados — e o empregado, olhando em torno de si, sussurrou: – E quem é o responsável, Mousieur? O Governo!
“Acabar em Sajalin, por causa de um porco… não, não é razoável”, refletiu Sigaev. “Se me condenam aos trabalhos forçados, somente conseguirei dar à minha mulher a possibilidade de casar-se outra vez e de enganar também ao segundo marido. O lucro será todo dela! O que farei então será isto: deixá-la viver, não me matar e nem matar a ele… Devo imaginar algo mais prudente e sentimental. Castigá-los-ei com meu desprezo e encetarei escandaloso processo de divórcio…”
— Aqui está, Mousieur, um sistema novo — comentou o empregado, recolhendo de outra prateleira mais uma dúzia de revólveres. — Chamou-lhe a atenção para o mecanismo original do cão…
Porém, uma vez tomada aquela decisão, Sigaev não mais necessitava de revólver. Em compensação, o empregado, cada vez mais inspirado, não cessava de mostrar-lhe os artigos que tanto elogiava. O marido ofendido envergonhou-se de que, por sua causa, o sujeito estava trabalhando em vão, a entusiasmar-se e a perder tempo.
—Bem — balbuciou. — Será melhor que eu volte mais tarde ou mande alguém…
Conquanto não visse a expressão do rosto do empregado, compreendeu que, para suavizar a violência da situação, não havia outra saída que comprar algo. Porém, o que? Seus olhos percorreram as paredes da loja, em busca de uma coisa barata, e se detiveram numa rede de cor verde, pendurada junto à porta.
— E isso? Que é isso? — perguntou.
— É uma rede para caçar codornas.
— Qual o preço?
— Oito rublos.
— Pois pode mandar embrulhar.
O marido ofendido pagou os oito rublos, passou a mão na rede para levá-la e, cada vez mais ofendido, saiu da loja.

TCHECOV. Contos. Coleção Clássicos Jackson, Volume XXXVII. São Paulo: WM Jackson Inc. Editores, 1965.

Borboleta (Anton Tchekhov – 1892)

James Tissot, Le Bal – 1880

Todos os amigos e bons conhecidos de Olga Ivanovna foram ao seu casamento.

– Olhem para ele: não é verdade que tem qualquer coisa? – dizia ela aos amigos apontando o marido com a cabeça, como para explicar porque desposara aquele homem simples, muito vulgar, que não se distinguia em nada.

O marido, o conselheiro titular Ossip Stepanitch Dimov, era médico. Trabalhava em dois hospitais ao mesmo tempo: num como interno, fora do quadro; noutro, como responsável pelas autópsias. Diariamente, a partir das dez da manhã até ao meio-dia, dava consultas e tratava os doentes da sua enfermaria; depois, ia de carruagem para o hospital onde fazia autópsias. A sua clientela particular era escassa, e não lhe dava mais do que uns quinhentos rublos por ano. E é tudo.

Parece que não há mais nada a dizer dele. Entretanto, de Olga Ivanovna e dos seus amigos e bons conhecidos já não se podia dizer que fossem pessoas vulgares. Cada um deles era notável à sua maneira e gozava uma certa reputação. Uns tinham renome e consideravam-se celebridades; outros, ainda não haviam ganho fama, mas prometiam muito. Eram estes: um ator de teatro, artista de grande e reconhecido talento, homem distinto, inteligente e modesto, mestre de declamação, que ensinava Olga Ivanovna a recitar; um cantor de ópera, bonacheirão roliço que, entre suspiros, afiançava a Olga Ivanovna que ela estava a desperdiçar-se: se não fosse preguiçosa e fizesse um esforço, daria numa esplêndida cantora; alguns pintores, à frente dos quais estava Riabovski, um jovem dos seus vinte e cinco anos, louro, muito bem parecido, cujas obras, dedicadas ao gênero, paisagens, animais, eram êxito nas exposições e cujo último quadro foi vendido por quinhentos rublos – ele corrigia os esboços de Olga Ivanovna e afirmava que ela poderia um dia vir a criar qualquer coisa de jeito; um violoncelista que sabia fazer chorar o violoncelo e que reconhecia francamente ser Olga Ivanovna a única mulher que o sabia acompanhar ao piano; um literato, bastante jovem, todavia, já muito conhecido, autor de novelas, peças e contos. E quem mais? Ah, sim, ainda Vassili Vassilitch, um proprietário rural, ilustrador e vinhetista diletante que sabia traduzir brilhantemente o estilo das canções épicas russas e produzia verdadeiros milagres no papel, em porcelana e em pratos cobertos de fuligem! No meio destes boêmios, livres e mimados pela sorte, se bem que delicados e modestos, que se dignavam a lembrar-se da existência dos “medicastros” só em caso de doença, e para quem “Dimov” soava como uma palavra vazia – no meio desta gente, Dimov parecia um estranho, um intruso, dir-se-ia até pequeno, embora fosse alto e largo de ombros. Dava impressão de usar um casaco que não era dele e uma barbicha de caixeiro. Aliás, se fosse escritor ou pintor, diriam que, com a sua barbicha, fazia lembrar Zola.

O ator dizia a Olga Ivanovna que o seu cabelo cor de linho e o vestido de noiva faziam-na parecer uma esbelta cerejeira quando, na Primavera, se cobre de delicadas flores brancas.

– Ouça cá! – interrompia-o Olga Ivanovna, agarrando-lhe a mão. – Sabe como as coisas se passaram? Já lhe conto… Dimov trabalhava no mesmo hospital que o meu pai e, quando o pobre do meu pai adoeceu, Dimov velou-o dias e noites à sua cabeceira. Que sacrifício! Ouve, Riabovski, e o senhor escritor também. Isto é muito interessante. Cheguem-se mais para aqui. Olhem como ele é abnegado e compadecido! Eu também passei noites em branco ao pé da cama do meu pai e – imaginem! – acabei por cativar, inesperadamente para mim própria, o coração deste nosso homem! Dimov ficou embeiçado por mim até a raiz dos cabelos. É certo que o destino é por vezes tão caprichoso. Bem, depois da morte do meu pai, ele vinha por vezes visitar-me, encontrávamo-nos na cidade, e uma bela tarde… pediu-me em casamento. Assim sem mais nem menos… Chorei toda aquela noite e, enfim, também me apaixonei loucamente por ele. E cá me têm como esposa. Não é verdade que há nele algo de forte, de possante, como um urso? Agora só três quartos do rosto dele estão fracamente iluminados e voltados para nós, mas quando ele olhar para o nosso lado, verão a sua fronte. Riabovski, o que dirá desta fronte? Dimov, estamos a falar de ti – gritou ela ao marido. – Anda cá. Estende a tua honrada mão à Riabovski… Assim. Sejam amigos.

Com um sorriso bondoso e ingênuo, Dimov estendeu a Riabovski a sua mão e disse:

– Muito prazer. Conheço um Riabovski que andou na faculdade comigo. Não será seu parente, por acaso?

II

Olga Ivanovna tinha vinte e dois anos e Dimov trinta e um. Depois do casamento, a vida deles correu perfeitamente. Olga Ivanovna cobriu todas as paredes da sala de estar com estudos da sua autoria e outros, emoldurados ou não, e criou uma bonita confusão de bagatelas num canto junto ao piano, atulhando-o com guarda-sóis chineses, cavaletes, panos de cores variegadas, punhais, bustos, fotografias… Adornou à moda russa a sala de jantar, expondo pinturas rústicas, pendurando alparcatas e foices nas paredes e, num canto, uma gadanha e um ancinho. Forrou o teto do quarto de dormir com um tecido escuro, para o assemelhar a uma gruta, pôs uma lanterna veneziana em cima das camas e colocou à porta um manequim com alabarda. Toda a gente achou que o jovem casal arranjara um ninho encantador.

Olga Ivanovna levantava-se todos os dias por volta das onze horas, tocava piano ou, se estava sol, pintava a óleo. Após o meio-dia, ia a casa da sua modista.

Olga Ivanovna e Dimov dispunham de pouco dinheiro – justamente o necessário – , por isso, para poder estrear vestidos e fascinar as pessoas com os seus trajes, ela e a sua modista tinham que meter-se em astúcias. Muitas vezes, pegavam num vestido velho, davam-lhe outra cor e, com pedacinhos de tule, renda, veludo e seda, que não custavam nada, produziam um verdadeiro milagre, algo de fascinante e fantástico. Depois da casa da modista, Olga Ivanovna costumava visitar uma atriz conhecida, para se inteirar das novidades teatrais e também para conseguir um bilhete para uma estréia ou uma festa de beneficência. Depois, tinha que passar pelo atelier de um pintor ou por uma exposição, deixar um convite a uma celebridade ou retribuir uma visita ou ainda, simplesmente, cavaquear. Aonde quer que Olga Ivanovna chegasse, era acolhida sempre com alegria e afeto, e garantiam-lhe que era encantadora, simpática, uma mulher como poucas. Aqueles a quem chamava grandes e célebres recebiam-na como a alguém da casa, tratavam-na de igual para igual e afirmavam que, com o talento, o gosto e a inteligência que ela possuía, havia de alcançar grandes êxitos, se não dispersasse os esforços. De fato, ela cantava, tocava piano, pintava a óleo, esculpia, participava em espetáculos de amadores, e tudo fazia acima do vulgar, com verdadeiro talento. Qualquer obra a que se metesse – fazer lanternas para luminárias, disfarçar-se ou fazer um nó de gravata – lhe saia admiravelmente bela, graciosa e encantadora. Mas em nada revelava tanto talento como na capacidade de se tornar rapidamente íntima de pessoas célebres. Bastava que alguém ganhasse um bocadinho de fama e fizesse que o mundo falasse de si, logo ela travava conhecimento com essa pessoa, no mesmo dia tornava-se sua amiga e convidava-a a sua casa. Cada novo conhecimento era, para Olga Ivanovna, uma verdadeira festa. Ansiava por estas relações e não conseguia saciar a sede delas. Perdia e esquecia velhos conhecidos, arranjava novos, mas logo se habituava a eles ou se desiludia deles, e começava a procurar avidamente novos e grandes homens, encontrava uns e punha-se a procurar outros. Para que?

Depois das quatro da tarde, Olga Ivanovna almoçava em casa com o marido. A simplicidade, a sensatez e a bonomia deste enterneciam e enlevavam-na. Ela levantava-se volta e meia, abraçava arrebatadamente a cabeça do marido e cobria-a de beijos.

– És um homem inteligente e nobre – dizia – , mas tens um defeito muito grave. Não te interessas absolutamente nada pela arte. Negas a música e a pintura.

– Não as entendo – respondia Dimov com suavidade. – Consagrei toda a vida às Ciências Naturais e à Medicina, não tive tempo para interessar-me pelas artes.

– Mas isto é horrível, Dimov!

– Porquê? Os teus amigos não conhecem Ciências Naturais nem Medicina, e tu não os repreendes por isso. A cada um o que lhe pertence. Não entendo nada de paisagens e óperas, mas julgo que se há pessoas inteligentes que lhes dedicam toda a vida e que outras pessoas, também inteligentes, pagam por elas somas exorbitantes, então são mesmo necessárias. Não as entendo, é certo, mas não quer dizer que as negue.

– Deixa-me apertar a tua honrada mão, Dimov!

Após o almoço, Olga Ivanovna visitava conhecidos, em seguida, ia ao teatro ou a um concerto e regressava à casa já alta noite. E isto todos os dias.

Às quartas-feiras, Olga Ivanovna organizava saraus em sua casa. Nessas reuniões, ela e os convidados não jogavam cartas nem dançavam, mas divertiam-se com a prática de várias artes. O ator recitava, o cantor cantava, os pintores desenhavam em álbuns que Olga Ivanovna tinha em profusão, o violoncelista tocava e a própria dona da casa também desenhava, esculpia, cantava e acompanhava ao piano. Nos intervalos entre a declamação, a música e o canto, os presentes conversavam, discutiam literatura, teatro e pintura. Não havia damas, visto que Olga Ivanovna achava aborrecidas e vulgares todas as mulheres excetuando as atrizes e a sua modista. Não passava um sarau sem que Olga Ivanovna não estremecesse a cada toque da campainha e não dissesse com ar triunfal: “É ele”, referindo-se a uma nova celebridade que convidara. Dimov nunca estava na sala e ninguém se lembrava da sua existência. Porém, às onze e meia em ponto, a porta da sala de jantar abria-se e Dimov, com o seu sorriso benévolo e meigo, dizia, esfregando as mãos:

– Por favor, meus senhores, venham provar qualquer coisa.

Todos passavam para a sala de jantar, onde encontravam uma mesa sempre com os mesmos petiscos: ostras, fiambre ou vitela, sardinhas, queijo, caviar, cogumelos, vodka e duas garrafas de vinho.

– Meu querido maítre d’hotel! – exclamava Olga Ivanovna, abrindo os braços num gesto de admiração. – És adorável! Olhem para a sua fronte, senhores! Dimov, põe-te de perfil. Vejam: um rosto de tigre, mas a expressão bondosa e tenra de um veado. Meu querido!

Os convidados comiam e, quando observavam Dimov, diziam para consigo: “Com efeito, é um bom rapaz”, mas logo se esqueciam dele e voltavam a falar de teatro, música e pintura.

O jovem casal estava feliz e a vida corria-lhes maravilhosamente. Aliás, a terceira semana da sua lua-de-mel não foi bem feliz, mas até triste. Dimov contraiu erisipela no hospital, ficou seis dias de cama e teve que rapar a sua bonita cabeleira negra. Sentada à sua cabeceira, Olga Ivanovna chorava amargamente; porém, quando ele melhorou, ela pôs-lhe um lenço branco na cabeça e, tomando-o como modelo, começou a pintar um beduíno. Ambos se divertiram muito com aquilo. Três dias depois de estar completamente restabelecido, Dimov voltou ao trabalho e sofreu novo acidente.

– Estou com azar, mamã! – disse certa vez, ao almoço. – Fiz hoje quatro autópsias e cortei por descuido dois dedos. Só aqui em casa reparei nisso. Olga Ivanovna assustou-se. Dimov sorriu-lhe e explicou-lhe que não era nada, que durante as autópsias se feria com freqüência . – O trabalho absorve-me tanto, que me torno distraído.

Receando que ele se tivesse infectado com ptomaina, Olga Ivanovna rezava de noite, mas o caso não teve nenhuma conseqüência. E novamente a vida deles correu tranqüila e feliz, sem apoquentações nem angústias. O presente era maravilhoso, e a Primavera, que já se aproximava, sorria de longe e prometia um mundo de prazeres. A felicidade parecia não ter fim. Passariam Abril, Maio e Junho na casa de campo, fora da cidade, a passear, a pintar ao ar livre, a pescar escutando rouxinóis; depois a partir de Julho e até o Outono, os pintores viajariam pelo Volga, e Olga Ivanovna, como membro imprescindível da societé, não faltaria a essa excursão. Já fizera dois vestidos de viagem, de linho, comprara tintas, pincéis, telas e uma nova paleta. Quase todos os dias visitava-a Riabovski, que queria verificar os progressos dela na pintura. Quando Olga Ivanovna lhe mostrava os seus trabalhos, ele metia as mãos nos bolsos, comprimia os lábios, bufava e, por fim, dizia:

– Ora bem… Esta nuvem destoa: não a ilumina a luz do entardecer. O primeiro plano está encarquilhado e há qualquer coisa que não se enquadra bem… A casota parece ter-se engasgado e gemer… Este canto ficaria melhor mais escuro. Mas, em geral, está bom… Os meus parabéns. E quanto mais incompreensíveis eram as palavras dele, melhor Olga Ivanovna o compreendia.

III

No dia seguinte à Trindade, à tarde, Dimov comprou petiscos e rebuçados; dirigiu-se para a casa de campo, onde estava a mulher. Há duas semanas que não a via e tinha muitas saudades dela. Durante todo o tempo em que seguiu de carruagem e procurou a casa no meio do bosque, cheio de fome e cansaço, imaginava como iria jantar com a mulher ao ar livre e, depois dormir um bom sono. Lançava olhares satisfeitos ao embrulho de caviar, queijo e esturjão.

Quando encontrou a casa e a reconheceu, o sol já ia baixo. A velha criada de quarto informou-o que a senhora não estava, mas, que devia chegar daí a pouco. A casa, de mísero aspecto, de tetos baixos, paredes forradas com papel de escrever e assoalho áspero e gretado, tinha apenas três divisões. Na primeira havia uma cama; noutra, abandonados nas cadeiras e peitoris, viam-se telas, pincéis, papel sebento, sobretudos e chapéus de homem; na terceira, Dimov encontrou três desconhecidos – dois jovens morenos, com barbichas, e um senhor gordo, bem escanhoado, que devia ser o ator. Um samovar fervia em cima da mesa.

– O que deseja o senhor? – indagou o ator, em voz de baixo, observando Dimov com cara de poucos amigos. – Quer ver Olga Ivanovna? Espere, ela chega daqui a nada.

Dimov sentou-se e pôs-se à espera. Um dos jovens morenos, lançando-lhe olhares sonolentos e apáticos, deitou chá no copo e perguntou:

– O senhor quer chá?

Dimov tinha sede e fome, mas para não perder o apetite, recusou o convite. Em breve ouviram-se passos e um riso familiar. Bateu a porta, e Olga Ivanovna, com um chapéu de abas largas e a caixa de tintas na mão, entrou correndo na sala, seguida por Riabovski, bem disposto, de faces rosadas, com um guarda-sol grande e uma cadeira desdobrável.

– Dimov! – exclamou Olga Ivanovna, dando largas à sua alegria. – Dimov! – repetiu, encostando-lhe a cabeça e as mãos ao peito. – És tu! Porquê não vieste há mais tempo? Porquê? Porquê?

– Mas como havia de vir, mama? Estou sempre ocupado, e se calha ter um momento livre, o horário dos comboios não dá.

– Estou tão contente por ver-te! Sonhei contigo toda a noite e receei que tivesses adoecido. Ah, se soubesses quanto te quero, pois vens mesmo a propósito! És o meu salvador. Só tu me podes salvar. Amanhã vai celebrar-se aqui um casamento muito original – prosseguiu ela entre risadas, pondo uma gravata ao marido. – Vai casar-se o jovem telegrafista da estação, um tal Tchikeldeev. Um jovem simpático, nada tolo e no seu aspecto, sabes? Há algo de forte, como um urso… Pode ser modelo para o retrato de um varegue. Todos os veraneantes vão ao casamento, já lhe demos a nossa palavra… É um homem pobre, solitário, tímido, não seria bom recusar, compreendes? Sabes, depois do casamento, na igreja, vão todos a pé para a casa da noiva… Imagina: o bosque, o canto dos pássaros, os reflexos de sol na erva, e todos nós como manchas variegadas sobre o fundo verde – muitíssimo original, à maneira dos expressionistas franceses. Mas olha, Dimov, como hei de ir à igreja? – disse Olga Ivanovna com expressão chorosa. – Não tenho aqui nada para vestir, absolutamente nada! Nem um vestido, nem flores, nem luvas… Tens que salvar-me. Se estás aqui, é porque o próprio destino te mandou salvar-me. Pega nas chaves e vai à casa buscar o meu vestido cor-de-rosa, que está no guarda-roupa. Lembras-te? Está mesmo à frente dos outros. E outra coisa – na dispensa, do lado direito, há no chão duas caixas. Abre a de cima – está cheia de tule e outra traparia – e, no fundo, encontrarás as flores. Tira-as todas, mas com cuidado, vê se não as amarrotas, meu querido, depois eu escolho… E compra um par de luvas.

– Está bem – disse Dimov. – Amanhã procuro tudo isso e depois mando-te.

– Amanhã? – Olga Ivanovna olhou-o com espanto. – Mas como pode ser amanhã? O primeiro comboio parte daqui às nove e o casamento é às onze. Não, meu querido, tem que ser hoje, só hoje. Se te for impossível vir amanhã manda tudo pelo moço de recados. Bem, põe-te a caminho. Deve estar a passar um comboio. Não o percas, meu amor.

– Está bem.

– É com tanta pena que te deixo partir – disse Olga Ivanovna, e os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. – Porque fiz a promessa de dar a palavra ao telegrafista?

Dimov esvaziou rapidamente um copo de chá, comeu uma bolacha e, com um sorriso suave, partiu para a estação. Os dois jovens morenos e o ator gordo comeram o caviar, o queijo e o esturjão.

IV

Estava uma calma e luarenta noite de Julho. Olga Ivanovna estava na coberta dum vapor que navegava pelo Volga, contemplando ora a água ora as margens belas. Riabovski, ao lado dela, dizia-lhe que as sombras negras na água não eram sombras, mas sonhos, que a vista daquelas águas enfeitiçadas, de brilho fantástico, daquele céu insondável e tristes, melancólicas margens que faziam pensar na inanidade da nossa vida e na existência da algo superior, eterno, místico, seria bom dormir, morrer, converter-se numa recordação. O passado é vulgar e enfadonho, o futuro é desprezível, e esta noite maravilhosa, única na vida, vai acabar muito em breve, dissolvendo-se na eternidade – então, para que viver?

Olga Ivanovna ora escutava o que Riabovski lhe dizia, ora auscultava o silêncio da noite, pensando que ela, Olga Ivanovna, era imortal e jamais morreria. A água de uma cor de turquesa como nunca vira antes, o céu, as margens, as sombras e uma alegria inexplicável que lhe enchia a alma, tudo lhe predizia que seria uma grande pintora e que algures, para além daquela luarenta noite, num espaço infinito, a esperavam o sucesso, a fama, o amor do público… Fixava longamente, sem pestanejar, o espaço, imaginando multidões, luzes, música solene, gritos de admiração e, no meio disso tudo, ela de vestido branco, e flores caindo a seus pés de todos os lados. Pensava também que junto dela, apoiado à amurada do navio, estava um grande homem, um gênio, um afortunado… Tudo que ele já criou é belo, invulgar e maravilhoso, e o que há de criar, quando o seu raro talento amadurecer com os anos, será prodigioso e infinitamente sublime. Isso manifestava-se já nas suas feições, na sua maneira de falar, na sua atitude perante a natureza. É numa linguagem própria, muito peculiar, que ele fala das sombras, do colorido da noite, do brilho do luar, fazendo sentir o encanto do seu poder sobre a natureza. É muito belo, original, e a sua vida, independente, livre, isenta de tudo que é mesquinho, é como a da águia.

– Está a pôr-se frio – disse Olga Ivanovna, com uma tremura.

Riabovski envolveu-a na sua capa e pronunciou com tristeza:

– Sinto-me dominado por si. Sou seu escravo. Porque está tão sedutora hoje?

Ele olhava-a fixamente e o seu olhar era terrível. Ela não se arriscava a levantar os olhos.

– Amo-a loucamente… – sussurrava ele tão perto que Olga Ivanovna sentia o seu hálito. – Basta que me diga uma palavra e mato-me, abandono a arte… Ame-me, ame… – balbuciava, muito emocionado.

– Não diga isso – Olga Ivanovna fechou os olhos. – É terrível. E Dimov?

– Dimov, o quê? Que tem Dimov a ver com isto? Que me importa Dimov? Existem apenas o Volga, a Lua, esta beleza, o meu amor, o meu deleite, mas nenhum Dimov… Não quero saber nada… Não quero o passado, só quero um instante, só um minuto.

O coração de Olga Ivanovna começou a pulsar mais forte. Quis pensar no marido, mas todo o passado, o casamento, Dimov, os saraus que organizava em casa, tudo lhe pareceu tacanho, insignificante, mortiço, inútil e remoto, muito remoto.

Realmente: Dimov, o quê? que tinha Dimov a ver com aquilo? Que lhe importava Dimov? Acaso existiria ele realmente, ou não passava de sonho? “É um homem simples, vulgar, e sendo assim, que se contente com a felicidade que tem desfrutado” pensava ela, tapando o rosto com as mãos. “Que os outros me condenem, que me amaldiçoem à vontade. Seja como for, vou perder-me na mesma. Na vida, uma pessoa tem de passar por tudo. Meu Deus, como é terrível e como é bom!”

– Então? Então? – balbuciava Riabovski, abraçando-a e beijando-lhe avidamente as mãos com que ela procurava, debilmente, afastá-lo de si. – Amas-me? Sim? Sim? Ò, que noite! Que maravilha de noite!

– Sim, que noite linda! – murmurou ela, fitando-o nos olhos brilhantes de lágrimas; depois, olhou de relance para trás, abraçou-o e beijou-o fortemente nos lábios.

– Estamos chegando à Kinechma! – disse alguém do outro lado da coberta.

Ouviram-se passos pesados aproximando-se: era um empregado do bar.

– Olha, traz-nos vinho – disse-lhe Olga Ivanovna, rindo e chorando de felicidade.

O pintor, branco de emoção, sentou-se num banco, dirigiu a Olga Ivanovna um olhar agradecido e adorado e depois fechou os olhos e disse com um sorriso lânguido:

– Estou cansado.

E encostou a cabeça à murada.

V

O segundo dia de Setembro foi quente e calmo, mas nebuloso. De manhã cedo, uma tênue neblina pairava sobre o Volga e, depois das nove, começou a chuviscar. Não havia esperança de que o céu clareasse. À hora do chá, Riabovski dizia a Olga Ivanovna que a pintura era a arte mais ingrata e aborrecida, que ele não era pintor e que só os parvos o consideravam dotado de talento. Pegando de súbito numa faca, destruiu o seu melhor esboço. Depois do chá, ficou sentado à janela a olhar, mal humorado, para o Volga. O rio perdera o brilho, estava embaciado e frio. Tudo, tudo lembrava a aproximação do melancólico e sombrio Outono. Dir-se-ia que a natureza tirara ao Volga o que este tinha de magnífico e pomposo – os luxuosos tapetes verdes das margens, os reflexos diamantinos do sol, o límpido céu azul – e metera tudo isso em baús até a Primavera seguinte. As gralhas que sobrevoavam o rio pareciam zombar dele: “Desnudo! Desnudo!”

Riabovski ouvia o grasnar das gralhas e pensava que ele, como pintor, estava esgotado e perdera o talento, que tudo no mundo era convencional, relativo e estúpido, e que não devia deixar-se prender por aquela mulher… Em suma, estava de mau humor.

Sentada na cama do outro lado do tabique, Olga Ivanovna passava os dedos pelos seus lindos cabelos cor de linho, imaginando-se em casa, ora na sala-de-estar, ora no quarto, ora no gabinete do marido. Depois, via-se mentalmente no teatro, em casa da modista e dos seus amigos célebres. O que farão eles agora? Ainda se lembrariam dela? A temporada teatral já começou, é preciso pensar em saraus. E Dimov, o adorável Dimov? Com que brandura e plangência infantil ele lhe escreve a pedir que volte o mais depressa possível. Mensalmente mandava ele à mulher setenta e cinco rublos, e quando ela o informou de que devia cem rublos aos pintores, mandou-lhe também essa importância. Que homem generoso e bom!

A viagem fatigou Olga Ivanovna, que estava aborrecida e desejava partir, quanto antes, para longe daqueles campônios, do cheiro úmido do rio, libertar-se da sensação de sujeira que experimentou todo o tempo em que viveu em casa de camponeses e perambulou por aldeias. Se Riabovski não tivesse prometido aos pintores que estaria com eles até vinte de Setembro, poderiam partir imediatamente. Que bom seria!

– Oh, meu Deus – gemeu Riabovski – , quando é que haverá sol, afinal? Como posso concluir sem sol uma paisagem com sol?

– Mas tens um esboço de uma paisagem com céu nublado – disse Olga Ivanovna, saindo de trás do tabique. – Aquele com um bosque à direita e vacas e gansos à esquerda. Poderias terminá-lo agora.

– Ora! – Riabovski fez uma careta. – Acabá-lo agora! A senhora julga que sou estúpido ao ponto de não saber o que devo fazer?

– Como mudaste a tua atitude para comigo!

– Pois mudei.

Com o queixo a tremer, Olga Ivanovna afastou-se para o fogão e pôs-se a chorar.

– Só me faltavam lágrimas. Acabe com isso! Tenho milhares de razões para chorar, e não choro, como vê.

– Milhares de razões! – Olga Ivanovna suspirou. – A principal razão é que me tornei um peso para si. Para dizer a verdade, tem vergonha do nosso amor. Faz os possíveis para que os pintores não dêem conta, embora seja uma coisa que não se pode esconder, e eles já sabem tudo.

– Olga, peço-lhe só uma coisa – disse Riabovski em tom de súplica, levando a mão ao peito – , não me torture! Nada mais pretendo de si!

– Mas jure que ainda me ama!

– Isto é insuportável! – resmungou ele entre dentes, levantando-se de um salto.

– Ainda me deito a afogar ou dou em louco! Deixe-me em paz!

– Então mate-me, mate-me! – gritou Olga Ivanovna. – Mate-me!

Pôs-se novamente a soluçar e voltou para trás do tabique. Ouviu-se a chuva a cair no telhado de palha. Riabovski agarrou a cabeça com as mãos, deu algumas passadas na sala e, depois, com o ar decidido de quem quer provar qualquer coisa, pôs o boné na cabeça, uma espingarda ao ombro e saiu de casa.

Depois da saída dele, Olga Ivanovna chorou muito tempo deitada na cama. A princípio, pensava que seria bom envenenar-se para que Riabovski, ao voltar, a encontrasse morta. Em seguida, viu-se em casa, no gabinete do marido, e imaginou-se sentada ao pé dele, imóvel, gozando a sensação de sossego e asseio e, à noite, escutando Mazini no teatro. A saudade da civilização, do bulício da cidade e dos homens ilustres apertou-lhe o coração. A camponesa que os hospedava entrou nesse momento em casa e começou a acender o fogão para fazer o almoço. Um cheiro chamuscado encheu a sala, e o ar tornou-se azulado de fumo. Os pintores que regressaram com as botas enlameadas e os rostos molhados da chuva, apreciavam os estudos que fizeram e diziam, como consolação, que mesmo em dias de mau tempo o Volga tinha os seus atrativos. Um relógio barato tiquetaqueava na parede. As moscas zumbiam, afugentadas pelo frio para um canto junto dos ícones e as baratas faziam barulho nos grossos álbuns de esboços que estavam debaixo dos bancos…

Riabovski voltou à casa quando o Sol já se metia. Pálido, extenuado, com as botas cobertas de lama, atirou o boné para cima da mesa, deixou-se cair num banco e fechou os olhos.

– Estou cansado… – disse, e pôs-se a mover as sobrancelhas, esforçando-se por levantar as pálpebras.

Para acarinhá-lo e mostrar-lhe que não estava aborrecida. Olga Ivanovna aproximou-se dele, beijou-o em silêncio e passou-lhe o pente pelos cabelos louros. Queria penteá-lo.

– Que é isto? – perguntou ele, sobressaltado, como se lhe tivessem tocado com qualquer coisa fria, e abriu os olhos. – Que é isto? Deixe-me em paz, peço-lhe.

Afastou-a, e a Olga Ivanovna pareceu que ele recuou com ar de asco e enfado.

Entretanto, a camponesa pôs à Riabovski um prato de sopa de repolho. Olga Ivanovna reparou que a mulher metera os dedos na sopa. Aquela camponesa enxovalhada e barriguda, a sopa que Riabovski começou a comer com avidez, a casa tosca, toda aquela vida, de que Olga Ivanovna tanto gostara a princípio pela sua simplicidade e artística desordem, pareciam-lhe agora horrendas. Sentiu-se humilhada, e disse com frieza:

– Temos que nos separar por algum tempo, caso contrário, entediados como estamos, ainda nos zangamos a sério. Estou farta disto. Vou partir hoje.

– Partir como, a nado?

– Hoje é quinta, ás nove e meia há um vapor.

– Ah, sim? Então vá… – disse Riabovski com brandura, limpando a boca à toalha em substituição do guardanapo. – Anda enfastiada, não tem nada que fazer e seria puro egoísmo retê-la aqui. Vá, que depois do dia vinte voltamos a ver-nos.

Olga Ivanovna arrumava as suas coisas com alegria, e as suas faces até se lhe ruborizaram. “Será que mesmo daqui a pouco vou pintar na sala de estar, dormir no meu quarto e tomar as refeições a uma mesa com uma toalha?”, interrogava-se.

Já se sentia aliviada, e não guardava rancor a Riabovski.

– Deixo-te as tintas e os pincéis – dizia ela. Depois levas o que restar… Vê lá, não percas tempo sem mim, não te entregues à melancolia, trabalhas. Eu confio em ti, Riabucha. [Apelido familiar de Riabovski.]

Às dez, Riabovski deu-lhe o beijo de despedida – para não ter de beijá-la no navio, em frente dos pintores, pensou ela – e acompanhou-a ao cais. Pouco depois, chegou o vapor e levou-a.

Chegou a casa dois dias e meio depois. Sem tirar o chapéu nem o impermeável, ofegando de emoção, passou à sala de estar e, dali, à sala de jantar. Sentado à mesa, em colete desabotoado, sem casaca, Dimov afiava uma faca à um garfo. Tinha diante de si um perdiz no prato. Olga Ivanovna entrara em casa convencida de que teria que esconder tudo ao marido e encontraria habilidade e forças para isso, mas agora, ao ver o seu sorriso aberto, dócil, feliz, os olhos brilhantes de alegria, sentiu que ludibriar aquele homem seria infame, repugnante, tão impossível como caluniar, roubar ao matar alguém. E decidiu-se a contar-lhe tudo o que sucedera. Deixou-se beijar e abraçar, depois ajoelhou diante dele e levou as mãos ao rosto.

– Então, que tens, mamã? – perguntou-lhe Dimov com voz meiga. – Tinha já saudades?

Ela ergueu o rosto, vermelho de vergonha, e olhou-o com ar de culpa e súplica, mas o medo e o vexame impediram-na de confessar a verdade.

– Não é nada, não é nada… – respondeu ela.

– Sentemo-nos. – Ele ajudou-a a levantar-se e sentar-se à mesa. – Assim estás melhor… Come, deves ter fome, minha pobre.

Ela respirava com sofreguidão o doce ar do lar e comia perdiz e ele olhava-a, enternecido, e ria de alegria.

VI

A partir dos meados do inverno, Dimov pareceu começar a dar-se conta de que o enganavam. Como se não tivesse consciência tranqüila, já não olhava a mulher de frente, não sorria com alegria ao vê-la e, para não estar com ela a sós, convidava muitas vezes para almoçar o seu companheiro Korosteliov, um homem baixo cabelo cortado rente a cara com rugas. Este acanhava-se sempre que Olga Ivanovna lhe dirigia palavra, punha-se a desabotoar o casaco para o abotoar em seguida, e a cofiar, com a mão direita, a ponta esquerda do bigode. Durante a refeição, os dois médicos discutiam coisas da Medicina, dizendo, por exemplo, que o coração, por vezes, começa a falhar se o diafragma sobe muito, que, nos últimos tempos, as nevrites múltiplas se haviam tornado muito freqüentes ou que, no dia anterior, Dimov, ao fazer a autópsia à vitima de uma anemia maligna, segundo o diagnóstico, descobrira um cancro no pâncreas. Era como se ambos mantivessem aquela conversa de especialistas só para que Olga Ivanovna ficasse calada, isto é, para que ela não precisasse de mentir. Depois do almoço, Korosteliov sentava-se ao piano e Dimov dizia-lhe com um suspiro:

– Pois… Então, meu amigo, toca-nos qualquer coisa triste.

Erguendo os ombros e abrindo muito os dedos, Korosteliov tirava alguns acordes e começava a cantar, com voz de tenor, um romance sentida. Dimov suspirava de novo, apoiava a cabeça na mão e quedava-se meditativo.

Nos últimos tempos, Olga Ivanovna comportava-se de forma deveras imprudente. Acordava sempre muito mal humorada, convencida de que já não amava Riabovski e que, graças a Deus, tudo acabara. Todavia, depois de tomar café, recordava que, por causa de Riabovski, perdera o marido e ficara agora sem marido e sem Riabovski. Depois, lembrava-se que os seus conhecidos lhe tinham dito que Riabovski preparava para a exposição algo de surpreendente, uma mistura de vários gêneros, à maneira de Polenov [Pintor e compositor (1844-1827), conhecido por seus temas bíblicos.] , coisa que extasiava todos os que haviam estado no atelier dele. “Essa obra – pensava Olga Ivanovna – é um resultado da influência que eu exercia sobre Riabovski, e graças a essa influência ele mudara muito e para melhor.” Olga Ivanovna considerava esta sua influência tão benéfica e importante, que estava certa de que Riabovski se perderia, caso ela o abandonasse. Recordava, ainda, que, na última vez, ele chegara vestido com uma curta casaca cinzenta e gravata nova e perguntara em tom lânguido: “Sou belo, não sou?” E realmente, com a sua figura elegante, caracóis compridos e olhos azuis estava muito bonito ( ou talvez fosse apenas impressão de Olga Ivanovna) e muito carinhoso para ela.

Enfim, tendo recordado muita coisa e tirando umas conclusões, Olga Ivanovna vestia-se e, muito perturbada, dirigia-se ao atelier de Riabovski. Encontrava-o alegre e encantado com o seu quadro, realmente excelente. Ele andava aos pulos, divertia-se e respondia com gozação à perguntas sérias. Olga Ivanovna odiava o quadro por despertar nela ciúme, mas, por delicadeza, deixava-se ficar, em silêncio, uns cinco minutos diante da tela e, com um suspiro dos que se soltam perante uma coisa sagrada, dizia baixinho:

– Nunca antes fizeste nada semelhante. Até mete medo.

Depois, começava a rogar-lhe que a amasse, que não a abandonasse, que tivesse pena dela, tão infeliz, chorava, beijava-lhe as mãos, exigia-lhe juras de amor, procurava demonstrar-lhe que, sem a sua influência benéfica, ele iria extraviar-se e perder-se. Pondo-o de mau humor e sentindo-se humilhada, ia à casa da modista ou duma atriz conhecida para conseguir um bilhete para o teatro.

Quando não encontrava Riabovski no atelier, deixava-lhe um recado jurando que se envenenaria caso ele não a visitasse nesse mesmo dia. Ele assustava-se, ia vê-la e ficava para almoçar. Mesmo na presença de Dimov, ele dizia, sem se envergonhar, impertinências à Olga Ivanovna e ela retribuía do mesmo modo. Ambos sentiam que se embaraçavam um ao outro, que eram déspotas e inimigos, que se irritavam e, agastados como estavam, não se davam conta de que se comportavam indecentemente e que até Korosteliov compreendia tudo. Findo o almoço, Riabovski despedia-se apressadamente e retirava-se.

– Aonde vai? – perguntava-lhe Olga Ivanovna à saída, fixando-o com ódio.

Com uma careta de desgosto e olhos semicerrados, ele declinava o nome duma senhora que ambos conheciam, e era evidente que o fazia para ridicularizar os ciúmes de Olga Ivanovna e para arreliá-la. Ela ia para o seu quarto e deitava-se. Tomada pelo ciúme, ressentimento, humilhação e vergonha, mordiscava o travesseiro e, em seguida, desatava a soluçar ruidosamente. Dimov deixava Korosteliov na sala de estar, ia ao quarto da mulher e, confuso e embaraçado, dizia-lhe baixinho:

– Não chores tão alto, mamã… Para que? São coisas que se devem calar. Faz de conta que não existe nada. De qualquer maneira, o que sucedeu, sucedeu.

Incapaz de dominar o ciúme, tão forte que lhe fazia doer a cabeça, e pensando que ainda se poderia remediar a situação. Olga Ivanovna lavava-se, punha pó de arroz no rosto molhado de lágrimas e partia a toda a pressa para a casa da mencionada senhora. Se não encontrava aí Riabovski, procurava-o noutro lugar, e noutro ainda. Ao princípio, sentia vergonha daquela caça, mas, depois, acostumou-se; por vezes, chegava a visitar numa noite todas as mulheres conhecidas a fim de encontrar Riabovski, referindo-se ao marido:

– Este homem vexa-me com a sua generosidade!

Gostou tanto da frase que, sempre que se encontrava com os pintores que sabiam do seu namoro com Riabovski, dizia do marido com um enérgico gesto de mão:

– Este homem vexa-me com a sua generosidade!

O seu modo de vida continuava a ser o mesmo que o do ano passado. Às quartas, havia saraus… O ator recitava, os pintores desenhavam, o violoncelista tocava, o cantor cantava e, às onze e meia da noite, abria-se a porta da sala de jantar e Dimov dizia a sorrir:

– Por favor, meus senhores, venham provar qualquer coisa.

Olga Ivanovna continuava à procura de homens notáveis, encontrava uns e, insaciável, punha-se a procurar outros diariamente, como antes, regressava à casa noite alta, só que não encontrava Dimov dormindo, como no ano anterior, mas trabalhando em qualquer coisa no seu gabinete. Ele deitava-se às três da madrugada e levantava-se às oito.

Certa noite, quando ela se arranjava diante do espelho para ir ao teatro, Dimov entrou no quarto de casaca e gravata branca. Sorria docilmente e, como dantes, fitava a mulher de frente com olhos alegres. Estava radiante.

– Acabo de defender a minha tese de doutorado – disse, sentando-se e passando as mãos pelos joelhos.

– Saiu-se bem? – quis saber Olga Ivanovna.

– Claro! – Ele riu-se e esticou o pescoço para ver no espelho o rosto da mulher, que continuava de costas para ele, a retocar o penteado. – Claro! – repetiu ele. – Sabes, é bem provável que me ofereçam a cadeira da patologia geral. É para isso que as coisas caminham.

Pela felicidade que lhe ia no rosto, via-se que bastava Olga Ivanovna partilhar aquela alegria e o seu triunfo para que ele lhe perdoasse e esquecesse tudo, o presente e o futuro. Mas ela não sabia o que significava “cadeira da patologia geral”; além disso, receava chegar atrasada ao teatro. Por isso, não lhe respondeu nada.

Ele deixou-se ficar uns dois minutos e depois saiu sorrindo, com um ar de culpa.

VII

Foi um dia cheio de preocupações.

Dimov tinha fortes dores de cabeça. De manhã não tomou chá nem foi ao emprego, deixando-se ficar estendido no sofá do gabinete. Um pouco depois do meio-dia, como de costume, Olga Ivanovna foi ver Riabovski para mostrar-lhe uma natureza morta e perguntar-lhe porque não tinha aparecido no dia anterior. O esboço parecia-lhe detestável, fizera-o com o único fim de arranjar um pretexto para ver Riabovski.

Ela entrou no atelier sem tocar à campainha e, enquanto à porta tirava as galochas, ouviu passos leves e rápidos e o característico frufru de um vestido.

Apressou-se a espreitar para dentro, mas não viu senão uma ponta de saia castanha que logo desapareceu por trás de um quadro grande, tapado até ao chão com um pano preto. Não havia dúvida de que ali se escondia uma mulher. Quantas vezes ela própria, Olga Ivanovna, não se refugiara atrás daquele quadro!

Riabovski, aparentemente embaraçado e surpreendido com a chegada, estendeu-lhe ambas as mãos e disse com um sorriso forçado:

– Ah, é a senhora. Tenho muito prazer em vê-la. Então, o que há de novo?

Os olhos de Olga Ivanovna encheram-se de lágrimas. Envergonhada e angustiada, por nada do mundo consentiria falar em presença duma estranha, duma rival, duma mentirosa, ali escondida atrás do quadro e provavelmente a sorrir de malícia.

– Trago-lhe um esboço… – disse Olga Ivanovna, numa voz tímida e fria, com lábios a tremer. – Uma natureza morta.

– Ah, uma nature morte…

Riabovski pegou no esboço e, apreciando-o, dirigiu-se como que maquinalmente para outra sala.

Olga Ivanovna seguiu-o, submissa.

– Nature morte… sorte… forte… corte… – murmurava Riabovski a rimar – , porte… norte…

Na sala donde acabavam de sair ouviram-se passos apressados e o roçar de saias. Portanto, a outra ia-se embora. Olga Ivanovna quis soltar um grito, bater na cabeça de Riabovski com qualquer coisa pesada e partir, mas as lágrimas não a deixavam ver nada e a vergonha oprimia-a. Já não se sentia nem Olga Ivanovna, nem pintora, mas um mísero inseto.

– Estou cansado… – pronunciou Riabovski em voz lânguida, olhando para o esboço e sacudindo a cabeça para vencer a sonolência. – Isto tem graça, não há dúvida, mas repare: hoje traz um esboço, no ano passado também fazia apenas esboços e dentro dum mês fará mais um. Não está farta disso? Se fosse a si, deixava a pintura e dedicava-me seriamente à música ou a outra coisa qualquer. É que não é pintora, é música… Não imagina como estou cansado! Quer que mande trazer chá?

Riabovski retirou-se e Olga Ivanovna ouviu ele dizer qualquer coisa ao criado.

Para não ter de despedir-se, explicar-se, e, principalmente, para não romper em soluços, correu para a saída antes que Riabovski voltasse. Calçou as galochas e saiu para a rua. Aí suspirou aliviada e sentiu-se livre, para sempre, de Riabovski, da pintura e da dolorosa vergonha que a oprimia no atelier. Tudo estava acabado! Definitivamente!

Foi ter com a modista, depois dirigiu-se à casa de Barnay que acabara de chegar, daí a uma loja de pautas de música, pensando sempre na carta que escreveria à Riabovski, uma carta fria, cruel, cheia de dignidade, e que na Primavera ou no Verão partiria com Dimov para a Criméia, onde se libertaria definitivamente do passado e começaria uma vida nova.

Voltou alta noite a casa e sentou-se sem mudar de roupa na sala de estar para redigir a carta. Riabovski tinha-lhe dito que não era pintora. Pois bem, dir-lhe-ia na carta que todos os anos ele pintava o mesmo e todos os dias dizia as mesmas coisas, que estagnara e não conseguiria nada superior ao que já fizera. Queria dizer-lhe ainda que ele devia muito à boa influência dela e, se procedia mal, era porque essa influência era anulada por umas figuras suspeitas, como a que se tinha escondido atrás do quadro.

– Mamã! – chamou Dimov do gabinete, sem abrir a porta. – Mamã!

– O que há?

– Mamã, não entres aqui, fica aí à porta. Passa-se o seguinte. Há dois dias apanhei difteria, no hospital, e agora… estou mal. Manda já chamar Korosteliov.

Olga Ivanovna tratava o marido, assim como a todos os homens conhecidos, sempre pelo apelido e não pelo nome. Não gostava do nome dele. Ossip [Nome do lacaio da peça O Revisor, de Gogol.] Que lhe recordava uma personagem de Gogol e também um trocadilho. Mas dessa vez exclamou:

– Ossip, como é possível!

– Manda chamá-lo! Sinto-me mal… repetiu Dimov através da porta, voltando em seguida para o sofá e deitando-se. – Manda chamá-lo – ouviu ainda em voz abafada.

“Que hei-de fazer? – dizia Olga Ivanovna de si para si, gelada de terror. – Isto é muito grave!”

Pegou uma vela, se bem que não houvesse nenhuma necessidade disso, e foi para o seu quarto de dormir. Pensando no que deveria fazer, olhou-se por acaso ao espelho. Pálida, com ar assustado, uma jaqueta de ombros altos e folhas amarelos ao peito e saia estranhamente listada, achou-se pavorosa e repugnante. De repente, teve imensa pena de Dimov, do seu infinito amor, da sua vida jovem, até da sua abandonada cama, na qual não dormia há muito. Lembrou-se, ainda, do seu habitual sorriso, suave e submisso. Chorando amargamente, escreveu a Korosteliov uma carta suplicante. Eram duas da madrugada.

VIII

Passava das sete da manhã quando Olga Ivanovna, com cabeça pesada de insônia, feia, saiu com ar de culpa do quarto. Viu um desconhecido de barbicha negra, provavelmente um médico, dirigindo-se para a saída. Na casa cheirava a medicamentos. À porta do gabinete estava Korosteliov, torcendo a ponta esquerda do bigode com a mão direita.

– Desculpe, mas não a deixo entrar – disse ele a Olga Ivanovna, sorumbático. – Pode contagiar-se. De resto, não há nenhuma necessidade disso. É que ele está a delirar.

– É mesmo difteria o que tem? – perguntou Olga Ivanovna, num sussurro.

– Os que se expõem assim tanto, deveriam ser processados – resmungou Korosteliov, sem responder à pergunta. – Sabe como se contagiou? Na terça-feira chupou com um tubo membranas diftéricas a um rapaz. Para que? Uma tolice… Assim, por nada…

– Isto é muito perigoso? É? – perguntou Olga Ivanovna.

– Sim, dizem que é grave. Em princípio, devíamos mandar chamar Chrek.

Veio um homem pequeno, arruivado, de nariz comprido e sotaque judeu, depois um outro, alto, curvado, de cabelo solto, parecido a um diácono, depois um jovem anafado, de cara rubicunda, de óculos. Eram médicos que vinham velar o seu colega doente. Korosteliov, terminado o seu tempo de vigília, não se ia embora, ficava vagueando por toda a casa como uma sombra. A criada servia-lhes chá e ia muitas vezes à farmácia, de modo que não havia quem arrumasse os quartos. O ambiente era silencioso e triste.

Sentada no quarto de dormir, Olga Ivanovna pensava que Deus a castigava assim por ter enganado o marido. Aquele homem calado, submisso, incompreensível, manso ao ponto de parecer não possuir personalidade nem caráter, fraco por excesso de bondade, estava agora a sofrer, sem gemer nem queixar-se, sozinho no seu quarto. E se se queixasse, os médicos saberiam então que aquilo não era só difteria.

Perguntassem eles à Korosteliov que sabia tudo e olhava a mulher do amigo como se fosse ela a principal, a verdadeira malfeitora, sendo a difteria apenas uma cúmplice. Olga Ivanovna já não se lembrava daquela noite de luar no Volga, nem das declarações de amor, nem da vida poética nas casas dos camponeses; sabia apenas que por mera veleidade, por brincadeira, se sujara dos pés à cabeça com algo imundo e pegajoso, e que jamais conseguiria limpar-se disso…

– Foi uma mentira medonha a minha! – pensava recordando o seu turbulento amor com Riabovski. – Maldito seja tudo isso!…

Às quatro da tarde almoçou com Korosteliov. Este estava sombrio, não comia, limitava-se a beber vinho tinto. Ela também não comia. Ora punha-se a rezar mentalmente e jurava a Deus que, se Dimov melhorasse, o amaria como dantes e seria uma esposa fiel. Ora, esquecida de tudo, olhava para Korosteliov, e pensava: “Não será aborrecida a vida dum homem assim, vulgar, medíocre, ignorado por toda a gente, e ainda por cima com a cara cheia de rugas e maneiras rudes?”

Ora acometia-a idéia de que, nesse mesmo instante, seria fulminada por Deus, dado que ainda nem uma só vez fora ver o marido, no gabinete, receando contaminar-se. De resto, o que nela prevalecia era uma sensação de abatimento e apatia, a certeza de que a sua vida estava irremediavelmente estragada.

Depois do almoço, a casa mergulhou na penumbra. Quando Olga Ivanovna entrou na sala de estar, Korosteliov dormia no canapé, a cabeça enterrada numa almofada de seda bordada a ouro. “Rrr! Rrr!” – ressonava.

Os médicos que se revezavam à cabeceira do doente não davam pela desordem. Nem o fato de um estranho ressonar na sala de estar e a dona da casa andar despenteada e negligentemente vestida, nem a bizarra decoração do interior, nem os quadros nas paredes – nada disso tinha agora o mínimo interesse. Por uma razão qualquer, um dos médicos soltou, involuntariamente, um riso e esse riso, tímido e estranho, soou de uma forma arrepiante.

Quando, passado algum tempo, Olga Ivanovna entrou novamente na sala de estar, Korosteliov estava já sentado a fumar um cigarro.

– Tem difteria na cavidade nasal – disse ele, a meia voz.. – O coração já começa a falhar. Quer dizer, as coisas vão mal.

– Então manda chamar Chrek.

– Já esteve aqui. Foi precisamente ele que notou que a difteria se alastrara à cavidade nasal. Mas quem é esse Chrek? No fundo, não é nada. Ele é Chrek, eu sou Korosteliov, e depois?

O tempo arrastava-se com insuportável lentidão. Deitada vestida na cama, desde a manhã por fazer, Olga Ivanovna dormitava. Sonhava com um enorme pedaço de ferro que ocupava todo o espaço da casa, do assoalho ao teto. Parecia-lhe que bastava retirar esse ferro para que todos se sentissem aliviados e alegres. Quando despertou, compreendeu que aquilo não era um ferro, mas a doença de Dimov.

“Nature morte… porte… norte – rimava mentalmente, voltando a adormecer. – E esse Chrek? Chrek, grek, vrek… crek. Onde estarão agora os meus amigos? Terão conhecimento da nossa desgraça? Deus me ajude… Chrek… grek…”

De novo a imagem do ferro… O tempo arrastava-se vagarosamente, mas o relógio no andar de baixo batia as horas muito amiúde. A campainha ouvia-se a todo o momento, médicos chegavam… Entrou a criada do quarto com um copo vazio na bandeja e inquiriu:

– A senhora quer que lhe faça a cama?

Não recebeu resposta e saiu. Ali, em baixo, ouviram-se horas bater. Olga Ivanovna sonhou com a chuva no Volga, depois pareceu-lhe que um estranho entrava no quarto. Levantou-se de um salto e reconheceu Korosteliov.

– Que horas são? – perguntou.

– Por volta das três.

– Então?

– Bom… Venho dizer-lhe que ele está a expirar.

Korosteliov fungou e, sentando-se na cama ao pé dela, secou as lágrimas com a manga. Ela não entendeu a princípio, mas ficou gelada e começou a benzer-se lentamente.

– Está a expirar… – repetiu Korosteliov com uma voz fina, e soltou outro soluço. – Morre por se ter sacrificado… Que perda para a ciência! – exclamou com amargura. – Comparado a todos nós, era um homem extraordinário! Que dotes possuía, quanto prometia! – prosseguiu, torcendo os braços. – Oh, meu Deus, era um daqueles cientistas que hoje em dia quase já não aparecem. Ossip Dimov, como te aconteceu isto? Ai, meu Deus!

Num gesto de desespero, Korosteliov tapou o rosto com ambas as mãos e abaixou a cabeça.

– E que força moral a dele! – continuou, cada vez mais exasperado, sabe-se lá contra quem. – Uma alma boa, casta, afetuosa, um homem de uma pureza cristalina. Serviu à ciência e sacrificou-se pela ciência. Trabalhava sem descanso, dia e noite, e ninguém se condoía dele. Um jovem cientista, um futuro professor catedrático, que procurava clientes e fazia traduções durante a noite para pagar estes miseráveis trapos!

Korosteliov lançou à Olga Ivanovna um olhar pleno de ódio, agarrou com ambas as mãos um lenço e puxou-o com fúria, como se fosse ele o culpado.

– Não se poupava, e ninguém o poupava a ele. Aliás, que adianta dizer tudo isto?!

– Sim, um homem como poucos! – pronunciou alguém na sala de estar em voz baixa.

Olga Ivanovna recordou toda a sua vida com Dimov, do princípio até o fim, e nos pormenores, percebeu de súbito que, realmente, era um homem como poucos, invulgar, grande em comparação com aqueles que conhecia. E ao recordar como o tratavam, o falecido pai dela e os seus colegas médicos, teve consciência de que todos viam em Dimov uma futura celebridade. Dir-se-ia que as paredes, o teto, a lâmpada e o tapete riam-se na cara de Olga Ivanovna, como que a zombar dela: “Perdeste-o! Perdeste-o!” Chorando, Olga Ivanovna precipitou-se para a sala de estar, passou por um desconhecido e entrou correndo no gabinete do marido. Este jazia imóvel no sofá, coberto até a cintura com uma manta. O seu rosto estava macilento, de faces cavadas, e tinha uma cor cinzento-amarela que não é dos vivos. Só pela fronte, pelas sobrancelhas negras e o sorriso de sempre se podia reconhecer nele Dimov. Olga Ivanovna apalpou-lhe apressadamente o peito, a testa e as mãos. O peito estava ainda quente, mas a testa e as mãos estavam desagradavelmente frias. Os olhos entreabertos fitavam a manta, não Olga Ivanovna.

– Dimov! – chamou ela em voz alta. – Dimov!

Olga Ivanovna queria explicar-lhe que tudo aquilo fora um erro, que ainda não estava tudo perdido, que a vida poderia ainda ser bela e feliz, que ele era um homem como poucos, extraordinário e ilustre, e que ela o iria adorar e venerar sempre como esposa temente…

– Dimov! – chamava, sacudindo-o pelo ombro sem acreditar que ele nunca mais despertaria. – Dimov! Vamos, Dimov!

Entretanto, na sala de estar, Korosteliov dizia à criada:

– Não tem que saber. Vá à sacristia da igreja e pergunta onde mora as beatas.

Elas lavam o corpo, tratam dele e fazem o resto.

(Extraído de Anton Tchekhov, Contos e Novelas, (ou Contos e Narrativas) Edições Ráduga, Moscou, 1987, tradução de Andrei Melnikov, colaboração de José Augusto).