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Um Homem Chamado Ziegler (Hermann Hesse)

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Em tempos idos, viveu na Brauergasse um jovem de nome Ziegler. Pertencia àquele gênero de pessoas que encontramos todos os dias em nossa rua mas cujo rosto nunca conseguimos recordar direito, porque todas têm um rosto idêntico — uma cara coletiva. Ziegler era e fazia tudo o que essas pessoas sempre são e fazem. Não era ignorante mas tampouco era uma inteligência rara, gostava de dinheiro e diversões, gostava de se vestir bem e tinha aquela dose de covardia da maioria das pessoas: sua vida e ações eram menos pautadas por ambições e impulsos do que por proibições, pelo medo de ser punido. Além disso, tinha alguns rasgos de honestidade e era uma pessoa agradável, enfim, um homem normal, para quem a própria vida era a coisa mais importante e cara. Tinha-se na conta, como toda a gente, de uma personalidade, quando em apenas um espécime, e julgava-se o centro do universo, como toda a gente. Dúvidas não existiam em sua mente e se os fatos contradiziam sua concepção do mundo, fechava os olhos em desaprovação. Como pessoa moderna, tinha Ziegler um respeito ilimitado pelo dinheiro e, além deste, por uma outra grande força: a ciência. Não saberia definir exatamente o que era a ciência, imaginava-a alguma coisa assim como a estatística, ou um pouco como a bacteriologia, e estava bem a par de quanto dinheiro e honrarias o Estado outorga aos homens de ciência. Tinha particular respeito pelas pesquisas sobre o câncer, pois seu pai morrera dessa doença e Ziegler esperava que, quanto mais desenvolvida estivesse a ciência, menores seriam as probabilidades dele morrer de câncer. Não, os cientistas não permitiriam que tal coisa acontecesse. Exteriormente, Ziegler distinguia-se pela ambição de trajar sempre acima do que seus recursos o permitiam, nunca deixando de mudar o guarda-roupa de acordo com a moda do ano. Não lhe permitindo os recursos acompanhar a moda do mês e da estação, desprezava os que podiam fazê-lo naturalmente, considerando-os uns mascarados, uns palhaços. Dava muito valor à firmeza de caráter e não temia ofender, entre os seus iguais e desde que estivesse em lugar seguro, seus superiores e o governo. Talvez tenha demorado demais com esta descrição. Mas Ziegler era, realmente, um moço encantador e não é culpa nossa se, sem o querermos, perdemos demasiado tempo com ele. Pois a verdade é que, contra todos os seus laboriosos planos e merecidas esperanças, Ziegler encontrou um prematuro e estranho fim. Pouco depois de ter chegado à nossa cidade, resolveu ele, certa vez, passar um domingo alegre e distraído. Não fizera ainda relações pessoais e, por falta de decisão, tampouco ingressara em qualquer dos clubes sociais e recreativos da cidade. Talvez tenha sido essa a causa de sua desgraça. Nunca é bom que um homem f i que só. Assim dependia de sua própria iniciativa escolher alguma das atrações oferecidas pela cidade aos forasteiros. Fez minuciosas indagações e, após cuidadoso estudo, decidiu-se por uma visita ao Museu Histórico e ao Jardim Zoológico. Aos domingos de manhã, a entrada no museu era gratuita e o Jardim Zoológico podia ser visitado de tarde a preços reduzidos. Trajando seu novo terno de passeio com botões forrados, de que ele gostava muito, Ziegler dirigiu-se, no domingo de manhã, ao Museu Histórico. Levava uma fina e elegante bengala de castão quadrado e laqueado de vermelho, que lhe conferia muita pose e elegância; para seu profundo desgosto, porém, o porteiro do museu intimara-o a deixá-la no bengaleiro, antes de entrar nas salas. Nas extensas galerias de tetos altos havia muita coisa digna de ser vista e o curioso visitante exaltava, em seu íntimo, a todapoderosa ciência que também ali exibia fielmente sua grandeza, como Ziegler pôde constatar através da leitura das esclarecedoras inscrições nas vitrinas. Velhas bugigangas imprestáveis e enferrujadas de ferro batido, colheres quebradas e cheias de azinhavre, e muitas coisas semelhantes ganhavam com essas doutas explicações um surpreendente interesse. Era maravilhoso como a ciência se ocupava de tudo, como sabia pôr nomes em tudo… ah, sim! Em breve acabariam também com o câncer e, quem sabe, com a própria morte! Na segunda sala havia um mostruário envidraçado cujos cristais eram tão polidos e reluzentes que, despercebidamente, Ziegler pôde dar um toque de arrumação no terno, pentear os cabelos, ajeitar o colarinho, verificar o vinco das calças e o nó da gravata com o zelo de um sargento passando em revista o pelotão de guardas. Sorriu satisfeito e continuou seu passeio, dedicando a maior atenção a alguns objetos de talha de séculos passados. Rapazes competentes, esses entalhadores, pensou ele, embora muito ingênuos. Observou também, com um sorriso benevolente, um antigo relógio de caixa alta, com figurinhas de marfim que dançavam o minueto quando os carrilhões badalavam as horas. Depois, aquela geringonça toda começou a causar-lhe um certo tédio. Bocejou e, por mais de uma vez, puxou o relógio de bolso que, aliás, tinha o maior prazer em exibir, pois era de ouro maciço — herança do pai. Ainda lhe sobrava muito tempo até à hora do almoço e resolveu passar a uma outra galeria do museu que talvez lhe despertasse mais interesse. Lá se expunham diversos objetos relacionados com as superstições da Idade Média, pergaminhos que explicavam como fazer feitiços, tratados de magia, amuletos, utensílios de bruxaria e, num canto, fora reconstituído um laboratório completo de alquimista, com fogão, retortas, almofarizes, bexigas de porco, foles e uma infinidade de outras coisas. Este recanto estava isolado dos visitantes por um cordão e uma tabuleta advertia ser proibido tocar nos objetos expostos. Porém, essas tabuletas nunca são lidas com muita atenção e, além do mais, Ziegler estava sozinho na sala. Assim, esticou o braço por cima do cordão e tocou, despreocupadamente, em alguns desses extravagantes objetos. Já tinha lido um pouco sobre a Idade Média e suas engraçadas superstições; não lhe entrava na cabeça como as pessoas, nessa época, podiam se ocupar em coisas tão infantis e que, simplesmente, as autoridades não tivessem proibido essa farsa da bruxaria e das artes mágicas. As autoridades, por vezes, têm desses descuidos. A alquimia, porém, era diferente; podia ser perdoada pois dela resultaria a tão útil e prestimosa química. Santo Deus, pensando bem, todos esses potes, e tubos, retortas de alquimista talez tivessem sido indispensáveis, porque sem eles era muito possível que ainda hoje não existissem a aspirina e as bombas de gás asfixiante. Com a displicência do curioso que mata o seu tempo, Ziegler pegou numa bolinha de cor escura, que parecia com uma pílula; era um pedaço de massa leve e seca, virou-o entre os dedos e já se dispunha e repô-lo em seu lugar quando ouviu passos atrás dele. Virou-se e era outro visitante, caminhando na sua direção. Ziegler ficou com vergonha de que o vissem com a bolinha na mão pois, naturalmente, tinha lido o aviso na tabuleta. Por isso, fechou a mão, meteu-a no bolso e saiu. Já estava de novo na rua quando se lembrou da pílula. T i rou-a do bolso e pensou em jogá-la fora mas, antes, levou-a perto do nariz e cheirou. Tinha um -aroma levemente resinoso que lhe agradou e resolveu enfiá-la de novo no bolso. Dirigiu-se então a um restaurante, encomendou o almoço, folheou um jornal, ajeitou o nó da gravata e dirigiu aos outros comensais olhares ora respeitosos, ora petulantes, conforme eles estivessem vestidos. Como a refeição demorasse, o jornal já estivesse lido e os outros comensais inspecionados, Ziegler tirou do bolso a sua, por mero acidente, roubada pílula de alquimista e cheirou-a outra vez. Depois, raspou-a um pouco com a unha do dedo indicador e, finalmente, obedecendo a um impulso pueril, levou-a à ponta da língua para ver que gosto tinha. Assim que a pílula lhe tocou na boca derreteu-se num abrir e fechar de olhos. Não tinha gosto desagradável e Ziegler acabou engolindo-a com um trago de cerveja. Logo depois chegou o almoço. Às duas horas, o jovem saltou do bonde em frente ao Jardim Zoológico e comprou um ingresso a preço reduzido. Sorridente, encaminhou-se para o setor dos macacos e foi postar-se diante da grande jaula do chimpanzé. O símio piscou-lhe o olho, acenou cordialmente e, em voz grave, disse: — Como vai, querido irmão? Enojado e surpreendido, Ziegler afastou-se rapidamente e, na retirada, ainda ouviu o cliimpanzé dizer, irritado: — Não querem ver o orgulhoso? Nem responde a um cumprimento, o ignorante pé-chato! Já assustado, Ziegler dirigiu-se rapidamente ao cercado dos cercopitecos. Pulavam e corriam, em suas costumeiras diabruras, e gritavam: — Dá-me açúcar, companheiro! Como ele não tivesse torrões de açúcar para jogar-lhes, os macacos enfureceram-se, xingaram-no de “pobre-diabo” e mostraram-lhe os dentes arreganhados. Ziegler não suportou mais; consternado e confuso, fugiu do cercado e dirigiu-se para o setor dos cervos e veados, dos quais esperava um comportamento mais natural. Um grande e belo alce estava perto da vedação e olhou para o visitante. Aí é que Ziegler realmente se alarmou. Percebeu que, desde que engohra a velha pílula mágica, entendia a língua dos animais, E o alce falava-lhe com os olhos, dois grandes e expressivos olhos castanhos. E esse olhar tranqüilo, que para os outros significava altivez, resignação e tristeza, para Ziegler traduziu um sentimento de profundo e aviltante desprezo. De acordo com a expressão majestosa do alce, o jovem compreendeu que, apesar do seu terno domingueiro, do chapéu, da bengala de castão iaqueado, do relógio de ouro, o cativo apenas via no visitante um ridículo e repugnante animal. Ziegler viu o alce voltar-lhe as ancas e resmungar “canalha”. Fugiu para a cerca dos bodes, dali para a das camurças, passou pelo Ihama, pelos gnus, os javalis e os ursos. Por nenhum deles foi insultado mas por todos desprezado. Escutava-os falando entre eles e ficou sabendo o que pensavam dos homens. Sobretudo, admiravam-se que a esses feios, fedorentos e cruéis bípedes fosse permitido circularem livremente, metidos em suas espalhafatosas fantasias. Ouviu um puma conversar com seu filhote. Era uma fala cheia de dignidade e objetiva sabedoria, como raras vezes se ouve entre os humanos. Escutou uma pantera manifestar-se, em termos aristocráticos, sobre a gentalha que a visitava aos domingos. Encarou o nobre leão de juba loura e ficou sabendo como era vasto e maravilhoso o mundo selvagem onde não existiam jaulas nem seres humanos. Viu um milhafre, triste mas orgulhoso, pousado num galho seco e que observou Ziegler com uma expressão de confrangedora melancolia. Os gaios e pegas suportavam seu cativeiro com muita decência, indifererntes ao que se passava do lado de fora das gaiolas, ou trocando apenas alguns comentários trocistas e bem-humorados. No auge da perturbação e arrancado às normas do seu raciocínio habitual, Ziegler dirigiu-se, em seu desespero, para um agrupamento de homens, na esperança de encontrar um olhar que compreendesse sua aflição e medo Escutou as conversas para ouvir algo consolador que o sossegasse, observou os gestos dos numerosos visitantes, ansioso por surpreender em algum deles um gesto de dignidade, uma expressão de pobreza e silenciosa superioridade humana. Mas ficou terrivelmente decepcionado. Ouvia as vozes e palavras, via os gestos e olhares mas como observava tudo, agora, através de uma visão animal nada mais encontrou senão uma sociedade degenerada falsa mentirosa, de criaturas ammalescas e feias que pareciam constituir o refugo de todas as outras espécies animais. Ziegler pôs-se a vaguear Pelo jardim, imensamente envergonhado de si mesmo A bengala de castão laqueado já fora há muito jogada para o meio doS arbustos. Seguiram-se-lhe as luvas. Mas quando arrancou o chapéu, descalçou as botas, tirou a gravata, e foi encostar-se soluçando, no tapume do cercado do alce, causou uma enorme admiração entre os visitantes de domingo, e foi internado num manicômio.

O Homem de Muitos Livros (Hermann Hesse)

Era uma vez um homem que, por estranhado pavor ao tumulto da vida, preferira retirar-se, desde sua mocidade, para a companhia tranqüila dos livros. Vivia encerrado em casa, cujos quartos e salas estavam repletos de volumes e não tinha outras convivências e relações senão com os amados livros. Em sua opinião, era muito mais acertado viver na intimidade da Beleza e da Verdade, com os mais nobres espíritos da humanidade, do que expor-se ao convívio ocasional de pessoas e aos acasos de uma existência falsa e traiçoeira. Seus livros eram todos de autores clássicos, dos sábios e poetas gregos e latinos, cujos idiomas ele amava e cujo mundo lhe parecia tão claro e harmonioso que, freqüentemente, não compreendia por que a humanidade abandonara aqueles excelsos caminhos para se entregar ás piores loucuras. Em todos os domínios do saber e do escrever, os antigos já tinham feito o melhor que se podia exigir do espírito humano, pelo menos, pouca coisa lhes fora acrescentado em épocas ulteriores, um Goethe, talvez. E se a humanidade realizou alguns progressos desde então foi, unicamente, naqueles domínios que os antigos não tinham abordado, por considerarem supérfluas, prescindíveis e transitórias tais conquistas: a construção de máquinas, as armas de guerra cada vez mais eficientes para a transformação de vivos em mortos, as modificações da natureza em função de números e dinheiro. Levava o nosso homem uma vida serena, sem sobressaltos. Passeava em seu pequeno jardim, lendo e recitando poemas de Teócrito; colecionava máximas antigas, e saboreava como um delicioso manjar os mais belos pensamentos, sobretudo os de Platão. Por vezes, sentia em sua vida uma certa estreiteza de horizontes e como que uma indigência de emoções, mas logo acudia a um sábio de priscas eras que lhe ensinava, em palavras lúcidas e convincentes, que a felicidade do homem não depende da diversidade e do imprevisto. O ser inteligente encontrá-la-á, igualmente, no autodomínio e na fidelidade a si próprio. Ora, certa vez, sua vida serena sofreu uma interrupção quando, durante a viagem a uma cidade vizinha, onde fora visitar uma famosa biblioteca, decidiu ir à noite ao teatro. Representava-se um drama de Shakespeare, que ele já conhecia dos tempos de escola mas daquele modo peculiar como se aprendem as coisas na escola e que, muitas vezes, nos tiram a vontade de recordá-las mais tarde. Ocupou seu lugar na ampla e escura sala, um pouco perturbado, pois não gostava de aglomerações. Ao subir o pano, não tardou que o nosso bibliômano se deixasse empolgar e angustiar pelo enredo do drama. Reconheceu que os artistas não eram mais do que razoáveis, mas, por cima de todos os obstáculos e deficiências, sentiu que era dominado por uma força avassaladora, ofuscado por m i l relâmpagos fulminantes, arrebatado por sensações que nunca experimentara antes. Atordoado, confuso, saiu do teatro mal o pano caiu sobre o último ato. Antes da viagem de regresso, aproveitou para comprar as obras completas daquele autor inglês e levou-as para casa. Logo no dia seguinte, passou horas delirantes lendo o Rei Lear, depois o Otelo, e o Hamlet, e o Romeu e Julieta, sentado, silencioso, dias e dias a fio, envolto numa tempestade de paixões, de pensamentos diabólicos, de aventuras fantásticas. Os meses passavam num constante delírio e, deslumbrado, compreendeu que uma outra face da vida lhe fora revelada, que um outro mundo se lhe abria. Vivia agora, dentro de casa ou no jardim, constantemente cercado pelas figuras da apaixonante galeria gerada por esse estranho poeta que parecia ter visto o mundo pelo avesso, que era uma contradição de carne e sangue daquela marmórea harmonia que os gregos lhe haviam ensinado e, entretanto, estava aparentemente com a razão e a verdade. Pela primeira vez, o mundo do bibliômano fora violentamente perturbado e sacudido em seu silêncio clássico… ou talvez já existisse algo em seu íntimo que fora agora acordado e começava a pulsar em suas veias com inquietas asas. Como tudo isso era estranho! Como tudo isso era novo! Esse Shakespeare, que já morrera há muitos anos, parecia ser um poeta despido de ideais ou, pelo menos, eram, bem diferentes dos dos antigos, pois a humanidade não era para ele um templo de recolhidos e sábios pensamentos, antes um oceano de gigantescas tempestades, onde navegavam e naufragavam seres frágeis, angustiados, ébrios de fatalidade mas capazes de viver num êxtase de sentidos enquanto não fossem tragados pelo destino! A humanidade do poeta movimentava-se no universo com as constelações, cada uma delas obedecendo a impulsos predeterminados, cumprindo sua rota em virtude de uma força constante que jamais lhes consente um desvio, até o dia em que se precipitam no abismo e se extinguem em cinzas. Quando, por fim, o bibliômano, como se tivesse despertado de uma bacanal, meditou sobre o que era e o que fora, e decidiu voltar aos seus clássicos gregos e latinos, notou perplexo que eles tinham um sabor muito diferente, um tanto insipido e mofado. Experimentou ler então alguns livros de poetas atuais. Estes, porém, não lhe agradaram. Interessavam-se apenas por coisas mesquinhas e triviais, .seus problemas eram insignificantes e pareciam não estar levando muito a sério o que escreviam. Mas a fome de novas e grandes sensações não mais deixou de estimular o nosso homem. Quem procura encontra. E, assim o autor que, a seguir, lhe chamou a atenção foi um norueguês chamado Hamsun. Um estranho poeta e um estranho livro. Segundo parecia, Hamsun — que ainda era vivo, ao que constava — dedicou sua vida a vaguear sozinho pelo mundo afora, sem destino certo, sem crença, meio ingênuo e meio degenerado, na busca eterna de sensações que, por momento, colocassem o seu coração em harmonia com a humanidade à sua volta. Esse poeta não criara um mundo, como Shakespeare, com que se pudesse dialogar, preferia falar de si próprio. Mas, em muitas passagens, o leitor era acometido de profundas emoções e, não poucas vezes, de dolorida amargura. Em outras passagens, porém, era obrigado a rir, de súbito — e também isso era uma experiência nova para ele, pois nunca a leitura de um clássico lhe dera azo a soltar uma boa gargalhada. Como era infant i l , esse poeta, e que moço teimoso! Mas era fascinante, sem dúvida, e quem o lia não podia deixar de escutar longínquas e arrasadoras quedas de meteoros ou o trovejar de distantes ressacas em rochosas costas de exóticas terras. Tempos depois, o bibliômano encontrou um grosso volume que se intitulava Ana Karenina. Mais adiante, as poesias de Richard Dehmel. E pouco depois deu com as obras de Dostoiévski. Desde que começara a ler Shakespeare, a poesia como que passara a persegui-lo sem descanso. E, tão logo começava a sentir um certo vazio, surgia-lhe como que por encanto alguém realmente capaz de entusiasmá-lo de novo e com quem poderia falar. O nosso homem chorou e ficou longas noites sem dormir, debruçado sobre esses hvros russos. Num momento de raiva, atirou Horácio para longe e desfez-se de uma boa quantidade dos seus outrora tão amados l i vros clássicos. Por mero acaso, caiu-lhe sob os olhos um livro em latim a que, até então, dera pouco valor. Sentiu então curiosidade de o ler e assim fez, de um só fôlego: eram as Confissões de Santo Agostinho. Depois voltou a Dostoiévski. Certo dia, ao entardecer, quando já estava cansado de ler e lhe doíam os olhos — pois já não era nenhum jovem — caiu em profundas cogitações. Em uma das altas estantes havia mandado gravar em letras douradas, que o tempo já desgastara, uma frase grega que dizia: “Conhece-te a ti mesmo!” Leu aquelas palavras e seu espírito se toldou. Sim, ele nada mais sabia de si mesmo, não se conhecia como antes, quando um verso de Horácio, uma ode de Píndaro, não só o extasiavam mas lhe abriam o caminho luminoso para o conhecimento de si próprio. Sim, em suas antigas leituras ele sentia algo pulsando dentro de si a que chamava humanidade. Com os poetas fora poeta, com os sábios fora sábio, promulgara leis e respeitara-as; e, com uma corajosa dignidade, afastara-se do tumulto da natureza sem alma, renunciara a um mundo de trevas e vícios, caminhando sempre pelo caminho da Luz. Agora tudo isso fora destruído. Não só havia lido terríveis histórias de homicídio, latrocínios, paixões pecaminosas, suicídios, ódios, ambições desvairadas, injustiças, mas também se deslumbrara e fascinara por esse estranho mundo, também amara, assassinara, tinha chorado e pecado, rira e debochara, tinha caído nos abismos mais nefandos do crime, da miséria, da perdição; trêmulo de desejos e instintos latejantes, fora atraído para domínios proibidos e sentira, simultaneamente, medo e prazer! Suas meditações não deram frutos. Pelo contrário, não tardou a buscar febrilmente novos e estranhos livros. Embriagou-se no ambiente depravado e excitante de. Oscar Wilde, perdeu-se nos meandros nostálgicos e desencantados de Flaubert, leu alguns recentes poetas franceses que lhe pareciam ferozmente hostis à antiga ordem, a tudo o que era harmonia clássica dos helenos e latinos, e que pregavam a revolta, a anarquia, a grandeza do vicio, glorificando o feio e cortejando o horror. E o nosso homem concluía que também eles tinham razão, que também tudo isso existia na humanidade, e que assim tinha de ser. Escondê-lo seria uma fraude. A maior de todas as mentiras é querermo-nos evadir à realidade do sangrento caos da vida. Seguiu-se um período de abatimento e invencível cansaço. Cada livro que tomasse entre as mãos só lhe evocava novos e perturbadores sentimentos que o distanciavam mais e mais do seu antigo mundo apolíneo. Sentiu-se doente, velho e enganado. Um sonho revelou-lhe seu verdadeiro estado. Sonhou que estava empenhado em erguer uma gigantesca muralha feita apenas de livros. A muralha crescia, crescia, e ele já não podia ver o mundo em seu redor e o próprio sol não penetrava mais no espesso muro de livros. A obrigação dele era empilhar todos os livros do universo e construir um gigantesco monumento. De repente, uma parte da edificação começou balançando, livros escorregavam e caíam no vazio, uma estranha luz penetrou pelas frestas abertas e, do outro lado da muralha em ruínas, ele viu algo pavoroso, viu um caos apocalíptico de formas e figuras, de seres humanos e paisagens, de recém-nascidos e moribundos, crianças e tigres, répteis e soldados, cidades ardendo e navios naufragando, gritos alucinados e exclamações de júbilo, sangue correndo, vinho escorrendo, archotes que corriam de um lado a outro, deslumbrantes e cínicos… e acordou de súbito, sobressaltado, desceu da cama, torturado por um peso esmagador sobre o coração. Foi até à janela do seu quarto em silêncio e deixou-se ficar imóvel, iluminado apenas pelo luar. Reconheceu as árvores defronte da janela e o livro que repousava sobre a mesinha-de-cabeceira. E, num lampejo fulminante, percebeu tudo: Fora enganado, fora novamente enganado por todos! Tinha lido, folheara milhares e milhares de páginas; devorara papel e tinta com os olhos e, entrementes, por detrás da obscena muralha de livros, a vida passara em vertiginosa cavalgada, queimando corações, agitando paixões, gerando amores e crimes, abnegações e egoísmos, renúncias e ambições, esparzindo sangue e vinho, derrotas e triunfos. É nada disso lhe pertencera, em nada disso estivera, nada lhe passara pelas mãos… nada!, apenas aquelas finas e lisas sombras estampadas nas folhas de papel de seus livros! N ã o voltou para a cama. Desalinhado, saiu e correu pela cidade, correu por cem ruas à luz dos mortiços lampiões, olhando para milhares de janelas escuras, ouvindo atrás das portas fechadas o ruído de centenas de vozes alegres, ameaçadoras, esperançosas, desesperadas. Despontou a manhã, as ruas acordaram e, como um ébrio sem rumo, continuou vagando na pálida luz da alvorada, a cabeça estonteada, as pernas doridas, prestes a desfalecer. Uma moÇa pálida e de aspecto doentio apareceu à sua frente; ele cambaleou e a moça levou-o consigo. Na alcova dela, o nosso homem viu-se recostado numa cama simples e desataviada, sobre a qual havia um leque japonês, cheio de poeira e teias de aranha. Viu a moça brincando com as suas moedas de dez talentos entre os dedos e agarrou-lhe a mão fina e exangue: Não me deixes só! Ajude-me! Sou velho, não tenho ninguém, só a t i ! Fica comigo! Talvez eu já nada mais tenha a esperar senão doença e morte. Mas, ao menos, quero sofrer e morrer eu mesmo com o meu próprio sangue e o meu coração. Como és bonita! Importas-te que eu te toque? Não? Como és gentil. Imagina que passei toda minha vida enterrado, enterrado em montanhas de papel! Podes entender o que isso significa? Não? Tanto melhor. Oh, ainda quero viver, ainda viveremos, sim! O sol já nasceu? Pela primeira vez verei o sol com os meus olhos! A moça sorria, alisava-lhe os cabelos com suas finas mãos e escutava Não entendia o homem e, na luz cinza da madrugada, parecia ser uma frágil e mísera criatura. Também ela passara a noite inteira na rua. Sim, sim , vou te ajudar — disse ela. — Fica calmo, eu te ajudarei.

Um Conto da Velha Tübingen (Hermann Hesse)

Corria o ano vinte do século passado e se os destinos do mundo pareciam, nessa época, diferentes dos de hoje, o fulgor do sol era idêntico e o vento não soprava então de maneira diversa da de agora sobre o verde e tranqüilo vale do Neckar. Um bonito e alegre dia do começo de verão amanhecera sobre os terraços em socalco das colinas circunjacentes e viera abraçar festivamente a cidade do Tübingen, envolvendo em sua luz o castelo e os vinhedos, o Neckar e o Ammer, a universidade e a igreja do seminário, m i rando-se nas águas frescas e cristalinas do rio e pousando, de quando em vez, uma sombra suave de nuvem na calçada reluzente da Praça do Mercado, batida pelo sol. No instituto teológico, os jovens e turbulentos seminaristas t i nham acabado de levantar-se da mesa do almoço. Saindo de roldão do refeitório, conversavam, riam e discutiam pelos velhos e ressoantes corredores de pedra ou no espaçoso claustro, onde se projetavam as longas e recortadas sombras do edifício. Alguns seminaristas deixaram-se ficar junto das portas abertas dos quartos, formando animados grupos; outros preferiram ir desfrutar sozinhos essas horas quietas da matina que antecedem o início dos deveres estudantis. Uns, alegres e efusivos, outros, mais graves ou sonhadores, todos eles refletiam no rosto adolescente o belo dia de verão; e muitos dos sonhos que ardiam na mente de alguns desses jovens, cujos nomes ainda hoje são respeitados por outros jovens agradecidos e apaixonados, resplandeciam — sem que eles o suspeitassem — na fronte pueril e generosa de cada um deles. Numa das janelas que dava para o Neckar encontrava-se o estudante Eduard Morike, contemplando deleitado a verdejante paisagem matinal que se divisava do alto da coluna do seminário; um casal de andorinhas esvoaçava alegremente, em velozes e caprichosas curvas, e o jovem tinha um sorriso distraído com seus lábios finos. Eduard completara há pouco vinte anos e, pelo seu inesgotável e efervescente bom humor, era muito estimado pelos colegas. Não raras vezes lhe acontecia, porém, em meio aos mais agradáveis momentos, ficar subitamente tenso, o olhar surpreso e comovido, como se tivesse sido empurrado de repente para diante de uma obra-prima, um quadro de inacreditável beleza, despertando nele ignoradas emoções; e como, nesses instantes, pressentia que toda a beleza do mundo nada mais era do que pálida sugestão de algo que somente seus olhos percebiam, despertava em sua alma uma secreta e fina dor. Tal como a solução de sal ou a fria água invernal precisam tão-só de mais um leve toque para se transformarem em puros cristais, assim no espírito poético do jovem Eduard a visão do Neckar, correndo entre renques de árvores, com suas copas verdejantes e alinhadas ao longo das margens silenciosas, do buliçoso casal de andorinhas e da paisagem levemente enevoada das montanhas transfigurou-se num quadro imóvel, cristalizado por seus delicados sentidos numa realidade poética infinitamente superior à que a natureza lhe oferecia. Mais quente era a luz que brincava na densa folhagem do arvoredo, mais etérea a cordilheira que deslizava para o horizonte distante e quase translúcido, mais ridentes os gramados que atapetavam o vale, mais forte era a voz do rio, confidenciando-lhe estranhos sonhos de primitivos deuses — como se o verde das árvores, o cavalgar das nuvens, o vozear do rio, a claridade do sol implorassem a salvação e vida eterna na alma do Poeta. O comovido jovem não compreendia ainda o significado dessas vozes suplicantes, pois em seu intimo ainda não despertara completamente a vocação para refletir, transfigurada, como num espelho mágico, a beleza do mundo. Em sua mente pensativa refletiam-se apenas as intimas suspeitas, as sugestões semiconscientes, porquanto em sua alma ainda não penetrara o conhecimento de sua solitária e sofrida distinção entre o que os olhos vêem e o espírito sublima. É certo que, por causa de seu alegre temperamento, Eduard procurava esquivar-se muitas vezes ao fascínio desses momentos que o torturavam e sentia a repentina necessidade de procurar consolo, como uma criança assustada, junto de seus amigos, aturdindo-se de música, joviais conversas, risos, que sufocassem os doloridos transes da sua solidão, dissipassem entre m i l vozes os seus acessos e de melancolia e sede insatisfeita. Seus olhos, sua boca riam, ébrios de vida; aqueles indícios secretos de uma outra existência — aquela que um estimado Poeta definiu como a comunhão transcedente do mundo e da alma — ainda não transparecia no rosto puro de Eduard ou, quando muito, reduzia-se a uma tímida e passageira sombra. Assim estava ele parado à janela, sorvendo com os olhos a deslumbrante paisagem estivai, por instantes alheios ao mundo e ao tempo, quando um estudante veio ruidosamente descendo as escadas. Notando a presença do absorto Eduard, acercou-se dele, com grande estrépito, e colocou-lhe vigorosamente as mãos sobre os ombros estreitos. Sobressaltado, como se despertasse bruscamente de um profundo sono, Mõrike voltou-se, com uma sombra de irritação nos grandes e suaves olhos violentamente arrancados à contemplação. Mas logo se recompôs, sorriu e agarrou as mãos que o seguravam de um a outro lado do pescoço. — Waiblinger! Devia ter pensado que eras tu! Para onde vais correndo outra vez? Wilhelm Waiblinger olhava o amigo com seus fascinantes olhos azuis-claros. Sua boca era cheia, carnuda e sensual, e ao falar tinha um jeito peculiar de franzir os cantos da boca que lhe davam uma expressão de petulância feminina. — Para onde? — gritou ele, com modos agitados. — Onde poderei encontrar refúgio, bem longe de vossas predestinadas barrigas de abade, senão em alguma taberna e afogar minha alma imortal em cerveja e vinho, até que somente os picos mais altos sobrenadem o mar de lodo? Tu, ouriço do mar, bem que poderias ser ainda o meu melhor amigo e companheiro mas ando muito desconfiado de que afinal também és um pérfido e corrupto filisteu! Não, já não posso contar com ninguém neste lúgubre inferno, não tenho um amigo que goste de me acompanhar! Não sou eu o truão da corte, o bêbedo inveterado? O traidor que vende a alma dos seus amigos por um ducado cada ao editor Franckh de Stuttgart? Mòrike sorria e observava o rosto agitado que lhe era tão familiar, na estranha mistura de brutal sinceridade e representação patética. Os compridos cabelos em louros cachos flutuantes, com que Waiblinger chegara a Tübingen e lhe deram tanta fama e comentários trocistas, já tinham caido havia algum tempo. Num momento de fraqueza, deixara que a mulher de um conhecido cidadão os cortasse como lembrança. — Sim, Waiblinger — disse Eduard pausadamente. — Isso, em parte, é verdade. Mas também pouco fazes para cooperar. Lembras-te de quando sacrificaste os teus cabelos? Havias decidido também que não beberias mais cerveja antes do almoço. Mas assim como os cabelos voltaram a crescer, a tua promessa não resistiu ao crescente desejo de beberes e foi esquecida. És muito volúvel. Com um exagerado gesto do desafio, Waiblinger jogou para trás a cabeça e encarou o amigo com expressão desdenhosa. — A h ! Agora também tu começas com sermões! — disse ele. — Era só o que me faltava! Mas que tristeza. Isto está ficando cada vez mais insuportável! Porém uma coisa te digo, ó ungido de Deus! Um dia ficarás apodrecendo numa fedorenta paróquia, e servirte-ás da filha solteirona e beata do teu sacristão, e criarás barriga, e venderás os dias mais inspirados de teu espírito por um prato de lentilhas, e renegarás teus amigos de infância por um aumento de prebendas! E certamente será um pecado mortal, uma vergonha inominável, ter por amigo um Waiblinger, cujo nome deveria ser extirpado da memória dos justos e devotos! Reverendo Mbrike, cônego Mòrike, bispo Morike, sua eminência sabe o que é? Um ouriço do mar! Fechado e enigmático. E a minha maldição é que tenho de ser teu amigo e picar-me nos teus espinhos, porque estou convencido de que também me consideras um corrupto. Quando te procuro de coração aflito, em busca de refrigério para minhas angústias, o que escuto? Uma descompostura por ter bebido cerveja! Não, só tenho um único e sincero amigo, e é esse que eu vou agora mesmo procurar. É meu semelhante, usa a camisa pendurada fora das calças e está há vinte anos tão louco quanto eu estarei em breve. Interrompeu-se remexendo nervosamente as pontas do lenço que enfiara na manga da batina. E, de chofre, num tom de voz mais moderado, quase implorante: — Ouviste? Eu quero ir visitar Holderlin. Tu vens comigo, não é? Mürike, um gesto largo das mãos pela janela aberta, exclamou: — Olha lá fora! Vê como tudo é belo, repousante, respirando paz e uma tão luminosa alegria. Assim terá Hòlderhn visto também o que estamos agora contemplando, quando compôs a sua ode sobre o vale do Neckar. Sim, é claro que vou contigo. Mõrike afastou-se da janela e Waiblinger ainda ficou imóvel por alguns instantes, olhando para fora, como se realmente o amigo lhe tivesse feito ver, pela primeira vez, a beleza de um quadro que, afinal de contas, era tão familiar a um quanto a outro. Depois, deu uma corrida para alcançar Morike, enfiou seu braço no dele e, enquanto caminhavam, Waiblinger abanou repetidamente a cabeça, pensativo. Sua expressão irrequieta e zom-beteira deu lugar a um semblante grave e concentrado. — Estás zangado comigo? — perguntou bruscamente. Mõrike riu, sem abrandar o passo, e encolheu os ombros. — Sim, lá fora é tudo muito belo — prosseguiu Waibhnger. — Talvez Holderlin tenha composto seus melhores poemas quando descobriu aqui, em sua terra natal, as paisagens da Grécia de sua alma. Tu deves entender essas coisas melhor do que eu, pois também sabes captar um pedaço de beleza, guardá-lo e refleti-lo de novo. Eu não sou capaz disso e tampouco sei ficar muito tempo quieto e com essa tua maldita paciência. É possível que eu o consiga mais tarde, quando me tornar mais velho e frio. Atravessaram o claustro pela sombra e saíram do seminário. Waiblinger tirou o chapéu e respirou fundo o ar quente. Seguiram pelas antigas e estreitas ruas de casas silenciosas, com suas gelosias verdes fechadas para o lado sul por causa do calor, rumo à casa do mestre-carpinteiro Zimmer, situada no final da calçada. Diante da porta havia uma pilha de tábuas de pinho bem arrumadas, ainda cheirando a seiva e brilhando sob a luz do sol. A porta da casa estava aberta e tudo era silêncio. O mestre-carpinteiro ainda fazia a sesta. Os dois jovens entraram discretamente e dirigiram-se para a escada que levava ao quarto de sacada do poeta alienado quando, no escuro corredor, abriu-se uma porta e de uma sala assoalhada saiu uma bonita moça, a filha do carpinteiro, emoldurada pelo feixe de luz tênue que vinha de dentro. — Bons olhos a vejam, Srta. Lotte! — disse Mòrike, gentilmente. Ela fixou por instantes o olhar, tentando perceber os vultos na penumbra do corredor, e aproximou-se. — Bom dia, meus senhores! A h , sois vós? Bom dia, Sr. Waiblinger! Sim, ele está lá em cima. — Queremos levá-lo a passear, se nos permite — disse Waiblinger, com o tom lisonjeador que usava com todas as moças bonitas. — Claro, com este tempo tão bonito. Vão até ao Pavilhão de Pressel? — É essa a nossa idéia, Srta. Lotte. Será que alguém poderia ir buscá-lo mais tarde? É apenas uma pergunta. Se for muito incômodo, nós próprios o traremos de volta. É sempre um prazer vir à sua casa, senhorita. — Não, não. Eu irei depois apanhá-lo. Que não fique muito tempo ao sol. Isso faz-lhe mal. — Não esquecerei a recomendação. Até logo, então! Lotte desapareceu de novo e, com ela, a réstia de luz que vinha da sala. Os dois estudantes subiram a escada e encontraram a porta do quarto de Hòlderlin semi-aberta. Com o acanhamento que, apesar de suas freqüentes visitas, sentia cada vez que se enco/itrava diante daquela soleira, Waiblinger adiantou-se um pouco e bateu. Como não recebesse resposta, empurrou de mansinho a porta, que gemeu nos gonzos, e os dois entraram. A figura esguia do infeliz debruçava-se na sacada do seu modesto mas bonito e arrumado quarto, a contemplar o Neckar, que corria sob a janela. Hblderlin estava em mangas de camisa, a gola aberta, o pescoço fino, a cabeça imóvel e levemente inclinada para o rio de seus antigos e inspirados sonhos. Perto do balcão estava a escrivaninha, um molho de penas de ganso enfiadas no tinteiro e uma outra atravessada sobre algumas folhas de papel já escritas. Uma leve aragem rumorejava nas árvores e penetrava no quarto. O poeta virou-se para dentro ao ouvir ruido, encarou os dois rapazes com os olhos puros, que caíram primeiro em Mòrike, a quem não deu mostras de reconhecer. Eduard fez uma breve reverência e disse, algo embaraçado: — Bom dia, senhor bibliotecário! Como está o senhor? O poeta pousara os olhos no chão e descreveu uma reverência exageradamente profunda, ao mesmo tempo que murmurava algumas palavras incompreensíveis. Depois, outra e outra reverência, com uma horrível e mecânica humildade, a cabeça levemente grisalha descendo até quase ao nível da cintura e as mãos cruzadas sobre o peito, como se pretendesse fazer uma imitação burlesca da saudação tradicional dos orientais. Waiblinger adiantou-se, colocou uma mão sobre o braço do poeta e disse: — Por quem é, estimado senhor bibliotecário! Hòlderlin inclinou-se outra vez e murmurou: — Sim, Majestade. Como Vossa Majestade ordenar. Quando encontrou os olhos de Waiblinger, reconheceu o seu jovem amigo e assíduo visitante. Parou de fazer reverências, deixou que ele lhe apertasse a mão e pareceu mais calmo. — Viemos buscá-lo para dar um pas.seio — disse Waiblinger, que, no seu trato com o doente, perdia o ar petulante e estouvado que os colegas lhe conheciam. Eduard notou, surpreendido, como o seu amigo parecia outro ao falar com aquela tão querida sombra humana, dedicando-lhe palavras bondosas que não usava com mais ninguém. Tampouco sabia de uma ligação tão constante como a que mantinha com o poeta alienado, trinta anos mais velho do que ele, e a quem tratava ora carinhosamente, como se convence uma criança ingênua, ora respeitosamente, como se trata um nobre e respeitado amigo. O seminarista Mòrike observava, com certa emoção, a habilidade e paciência do tão rebelde e temperamental colega. Waiblinger parecia conhecer bem o quarto de Hõlderlin. De um cabide atrás da porta retirou o jaquetão do poeta, de uma gaveta o seu cachecol de lã, e ajudou-o a vestir-se, como uma mãe ajuda seu filho. Com o próprio lenço sacudiu a poeira dos joelhos das calças de Hòlderlin, procurou-lhe o chapéu de grandes abas descaídas e escovou-o meticulosamente, enquanto falava e o animava constantemente: — Muito bem, senhor bibliotecário. Agora já estamos prontos para sair. Hoje faz um tempo esplêndido. É uma boa ocasião de irmos todos respirar um pouco de ar fresco, entre as árvores e as flores. Assim… excelente, senhor bibliotecário… Agora só falta o chapéu, s’il vous plaít… Ao que o velho poeta, que durante todo esse tempo não proferira palavra, respondeu em tom gentil mas distante: — Vossa Excelência manda. Je vous remercie mi/ig fois Sr. von Waiblinger. Deixou-se cuidar docilmente e seu rosto, de nobres e finos traços que a idade e a doença tinham parcialmente deteriorado, parecia observar o afã de Waiblinger ora com distraída indiferença, ora com íntima superioridade. Mòrike, entrementes, acercara-se da escrivaninha e, em pé, leu a folha manuscrita sobre a qual estava pousada a pena de pato. Era um poema. Seus versos estavam impecavelmente medidos e neles se refletiam os sombrios pensamentos que turbilhonavam na destroçada mente do Poeta: imagens fulminantes que eram bruscamente interrompidas por lamentações sem nexo; quadros da mais pura e irretocável plasticidade, numa linguagem sensível e musical, cuidadosamente tratada, logo truncados por frases de um maçante e pomposo estilo de púlpito. — Bom, vamos — disse Waiblinger. Hòlderlin seguiu-os, obediente, sem deixar de repetir duas ou três vezes, quando chegou à porta: — O senhor barão manda. Às ordens de Vossa Senhoria A l t o e magro, Friedrich Hòlderlin desceu a escada, atravessou o pátio interno e começou caminhando lentamente pela rua afora o grande chapéu puxado para os olhos, murmurando coisas indistintas, aparentemente alheio ao mundo que o cercava. Na ponte sobre o Neckar, onde estavam acocorados dois guris descalços, brincando com uma lagartixa morta, o Poeta parou e, com um gesto solene, tirou o chapéu — respeitosamente — diante das duas crianças. Mõrike caminhava a seu lado e numa ou noutra janela, num ou noutro portal, as pessoas seguiam algum tempo com os olhos o bizarro grupo, sem que manifestassem, entretanto, grande curiosidade ou excitação, pois todo mundo já conhecia o Poeta louco e seu destino. Subiram a ladeira do ensolarado Oesterberg, ladeando floridos jardins e muros sobre os quais espreitavam latadas de parreiras. Na frente ia agora Waiblinger, com sua figura desempenada e robusta. Ele já sabia, por experiência, que Hòlderlin jamais tomava a dianteira e precisava ser sempre guiado, por mais que percorresse o mesmo caminho anos e anos à fio. O Poeta caminhava devagar e de semblante grave, cabisbaixo, e a seu lado ia Morike, solicito trajando o mesmo uniforme negro do seu colega. Ao longo do caminho, pelas frestas dos muros pendiam, sobre a ladeira, gerânios arroxeados e milefólios brancos, e Hòlderlin cortava, ocasionalmente, uma haste florida e guardava-a consigo. O calor não parecia incomodá-lo e, quando chegaram ao alto da colina, olhou satisfeito à sua volta. A l i estava situado o “pavilhão chinês” do Assistente Pressel, que no verão ficava sempre à disposição dos estudantes e do qual Waiblinger fizera sua residência, sempre que o tempo o permitia. Tirando do bolso uma pesada chave de ferro, ele subiu os três degraus que levavam à entrada, abriu a porta e, com gesto efusivo, convidou o Poeta: — Entre, senhor bibliotecário, e seja bem-vindo! HòlderHn tirou o chapéu e entrou no gracioso pavilhão, que já conhecia e muito amava. Assim que, por sua vez, Waiblinger entrou, o Poeta dirigiu-se-lhe imediatamente, fez uma reverência profunda e disse, com mais vivacidade do que antes: — Às ordens de Vossa Senhoria. Os meus respeitos ao Senhor Barão. A vossa magnanimidade me proteja. Votre três humble serviteur. Encaminharam-se todos para o pequeno gabinete de estudos e Hòlderhn aproximou-se da escrivaninha, sobre a qual estava pendurado um quadro, na parede, que continha apenas, em grandes caracteres gregos, esta misteriosa frase: ” D o Todo o Uno e do Uno o T o d o . ” O Poeta ficou alguns instantes em concentrada meditação, defronte do quadro. Com a tênue esperança de encontrá-lo mais acessível a uma conversa, Mòrike chegou-se a ele e perguntou, afavelmente: — Creio que está reconhecendo essa frase, não é verdade, senhor bibliotecário? Hòlderlin afastou-se incontinenti, entrincheirado em seu impenetrável cerimonial de corte, dizendo: — Majestade, a isso não posso nem devo responder. Segurava ainda na mão o ramo de flores colhidas pelo caminho e começou a desfolhá-lo, metendo as pétalas desfeitas no bolso. Aproximou-se depois da ampla janela que, para além da colina coberta de vinhedos, oferecia um vasto panorama de jardins descendo até o vale do Neckar e, em frente, as encostas iluminadas do A l b . Embebido na tranqüila paisagem, ali ficou o Poeta sorvendo a grandes haustos o ar impregnado de luz e aromas; e sua expressão descontraída e feliz denunciava que sua alma em trevas ainda era capaz de abrir-se e reagir ao fascínio do maravilhoso quadro ante seus olhos. Waiblinger tirou-lhe discretamente o chapéu da mão e animou-o a sentar-se no largo parapeito da janela, o que Holderlin fez sem demora. Depois, o anfitrião ofereceu primeiro ao Poeta, depois a Mòrike, bem preparados cachimbos. A expressão do estimado velho abriu-se num sorriso e, fumando contente, silencioso, olhava tranqüilamente o festival de luz e cores ao longo do majestoso vale. O incansável murmúrio que escorria de seus lábios cessara e talvez a sua mente cansada tivesse encontrado o caminho para as altas constelações de sua memória, onde outrora tinham brotado as maravilhosas flores de seu gênio poético. Pobre Holderlin, de quem já nem o nome era lembrado há duas dezenas de anos… Silenciosamente tinham os dois estudantes ficado, por algum tempo, a observar o desditoso homem à janela enquanto puxavam seu cachimbo. Então Waiblinger ergueu-se, pegou num caderno que estava sobre a escrivaninha e dirigiu-se ao visitante. — Estimado amigo — disse, em tom solene — como é de seu conhecimento, nós três formamos um collegium de poetas, embora nem eu nem o meu jovem colega possamos nos comparar ao imortal poeta de Hyperion. Que melhor oportunidade do que esta para cada um de nós apresentar alguns de seus pensamentos e divagações poéticas? Aqui, neste caderno, reuni alguns de seus recentes escritos, senhor bibliotecário, e rogo-lhe encarecidamente que os leia para nós. Entregou o caderno a Holderlin, que imediatamente pareceu reconhecê-lo. Levantou-se da janela e caminhou a largos passos pela sala. De súbito, estacou e, tocado por uma estranha e veemente paixão, em voz alta, leu o seguinte:

“Quando um homem se contempla em um espelho, vê sua própria imagem como que pintada: parece-se com um homem. O homem do quadro tem olhos, mas a Lua tem luz. O Rei Édipo tinha, talvez, um olho a mais. Os seus sofrimentos foram indiziveis, inexprimíveis e indescritíveis. Se o espetáculo apresenta uma tal coisa, isso provém dai. Que sinto eu, pensando em ti agora? Um rio caudaloso que irá terminar algures, um algures que se estende para o infinito, imenso como a Ásia. Naturalmente, essa mesma doença tinha Édipo. A ânsia de sair daqui para um outro mundo de estar em outro mundo e querer vir para este. Sim, naturalmente” foi por isso. E Hércules? Hércules também sofreu? Claro que sim. Se lutou com Deus, também sofreu. Mas também é sofrimento ter o corpo coberto de feridas. Os sofrimentos de Édipo equiparam-se aos de um pobre homem caído à beira do caminho, em terras estranhas, exausto e cheio de chagas Ah filho de Laio, pobre estrangeiro na Grécia! A vida é morte è a morte é vida…”

Enquanto lia, sua voz ganhara uma intensidade patética cada vez maior e os dois estudantes acompanhavam, não sem angústia, as estranhas, às vezes profundas e sempre terrivelmente significativas palavras de Hdlderlin. — Estamo-lhe muito gratos, senhor bibliotecário — disse Mõrike. — Quando foi que o senhor escreveu isso? O doente, porém, não gostava de ser interrogado e não respondeu. Segurou o caderno diante dos olhos do rapaz e disse— Veja, Alteza, aqui tem uma cesura. O desejo de Vossa A l teza é uma ordem para mim. Mais non, Altesse, todos os poemas necessitam de cesuras. Vossa Mercê ordene que me retire Dizendo isto foi novamente sentar-se na janela e começou a puxar o cachimbo apagado. Dirigiu o olhar para o longínquo Rossberg, sobre cujo pico se via uma longa e delgada nuvem, imóvel e de contornos dourados. — Também tens algo para ler? – perguntou Waiblinger ao seu colega. Mòrike sacudiu a cabeça e passou os dedos pelos finos cabelos louros. Na pequena estante do seu quarto, no seminário, guardava escondidos dois novos poemas que tinham por título A Peregrina e de cuja existência nenhum de seus amigos suspeitava. Alguns estavam a par de sua extravagante e romântica paixão, de que esses poemas eram o único testemunho. Mas nunca os mencionara diante de Waiblinger. — És um ca.smurro! — disse Waiblinger decepcionado — Por que te conservas sempre tão discreto comigo? Nunca mais ouvi teus poemas e há quantas semanas sua excelência não se digna visitar-me aqui em cima? Com o Louis Bauer está se passando a mesma coisa. Vocês são uns covardes, vocês, modelos de virtudes! Mòrike abanava a cabeça, inquieto. — Eu preferia que não brigássemos diante dele — disse M ò rike em voz baixa, com um leve gesto na direção da janela. — E quanto ao modelo de virtudes, serias muito capaz de ter uma decepção. Meu caro, a semana passada estive outra vez oito horas no calabouço. Isso talvez me reabilite a teus olhos. E brevemente poderei ler-te alguma coisa, prometo. Waiblinger desapertara o colarinho e tirara a batina. Seu atlético peito parecia querer estourar da camisa, por cuja abertura se lhe viam os pêlos escuros e densos. — Es um diplomata! — resmungou ele, hostil, e tudo o que sofrerá durante semanas e com o que não se conformava veio à superfície com súbita violência. — Nunca se sabe onde encontrar-te! Mas agora quero saber de uma vez por todas! Por que é que vocês me evitam? Por que nenhum me visita aqui em cima? Por que o Efrorer se retira quando me dirijo a ele? A h , eu sei! Vocês têm medo vocês, desgraçados seminaristas medricas! São como os ratos que abandonam o navio quando naufraga! Vocês sabem melhor .do que eu que qualquer dia serei expulso do seminário. Estou marcado como uma árvore que vai ser derrubada, e vocês encolhem-se e assistem, curiosos, de mãos nos bolsos, perguntando uns aos outros: quando será? E quando eles me serrarem, vocês serão os meninos espertos e podem dizer: não o tínhamos previsto há tanto tempo” Se o governador precisar de diversão, tem de se arranjar alguém para a forca. E desta vez serei eu. E tu! Tu também estás do outro lado e acho que, no teu caso, é um absurdo. Por Deus, tens mais valor e talento que o bando todo junto. Não precisas adulá-lo. Mas tens o teu Bauer e o teu Hartlaub, que se julgam uma espécie de gênios só porque correm atrás de ti e se aquecem no teu fogo. Eu posso andar sozinho e sufocar em minha própria angústia, até acabar Ainda bem que tenho Hòlderlin. Creio que, no tempo dele, também lhe vergaram a espinha no mui douto seminário de Tübingen. — Já desabafaste? — perguntou Mòrike, serenamente. — Pois digo-te que quase me fizeste rir. Queixas-te de que ninguém te visita no pavilhão. Mas onde é que nos encontramos agora? Eu também já subi várias vezes o Oesterberg e nunca lá encontrei um moço chamado Waiblinger. A h , sim, ele estava muito ocupado na Beckei, na Lammwirt e outras afamadas tavernas locais. Talvez estivesse algumas vezes aqui mas não quisesse abrir quando eu batia, como tenho a certeza que aconteceu daquela vez que vim com o Ludwig Uhland. — Estendeu a mão ao companheiro. — Vamos, Wilhelm, sabes que não posso estar sempre de acordo contigo… tu próprio nem sempre estás! Mas se julgas que não gosto mais de t i , que tenho mais apreço pelo meu lugarzinho no seminário e receio que me tomem por teu amigo, então, W i l , serei francamente obrigado a rir. Prefiro que me metam mais oito dias no calabouço a servir de Judas de um amigo. Está claro, agora? Waiblinger apertou com tanta força a mão que se lhe oferecia que Mòrike contorceu a boca de dor. Abraçaram-se efusivamente. Waiblinger sentiu a garganta seca e, de súbito, percebeu que tinha os olhos marejados de lágrimas. A voz saiu-lhe esganiçada: — Eu sei — disse ele — que não sou digno de t i . As bebedeiras me arruinam. Não podes imaginar como me sinto miserável. Ignoras a profundidade do sofrimento que me mata, Eduard. Não conheces a mulher, essa maravilhosa e misteriosa mulher que aos poucos me liquida. — Eu já a conheço — respondeu M ò r i k e . Sentiu-se possuído de uma certa amargura, não pelo sofrimento do amigo mas porque este lhe avivara suas próprias dores a respeito de Peregrina. — Não a conheces, não, embora saibas o seu nome e já a tenhas visto. Não é terrivelmente bela, Eduard? Terá ela alguma culpa de ser judia, e poderia ser tão terrivelmente bela se não pertencesse a essa raça? A h , eu me consumo, não mais consigo ler, nem compor, nem dormir! Desde o momento em que beijei o seu colo e repousei meu rosto em seu regaço, fiquei sabendo o que significa o destino. — Destino significa sempre amor — murmurou Mòrike, pensando mais em Peregrina do que no amigo cujo desabafo tormentoso o embaraçava. — Tu és puro — disse Waiblinger, recostado em sua cadeira. — A tudo assistes como um espectador e só tomas parte no que for belo e refinado, não no que é feio e pernicioso. És a estrela serena e boa mas eu sou o archote violento que arde durante a noite e logo se extingue com um sopro. E assim quero que seja, quero flamejar e queimar e não é por isso que me compadeço de mim próprio. Mas, se ao menos, antes de se consumir pudesse criar algo de belo e grandioso, deixar atrás de mim o fulgor de uma só obra nobre e madura! Tudo o que fiz até hoje é medíocre, petulante! Aquele sim, aquele ali na janela soube, antes de morrer em vida, fazer do Hyperion uma constelação eterna e um monumento a sua grande alma! E tu também sabes, tu criarás grandes e belas obras imperecíveis! Tu, a quem não consigo perscrutar os segredos do coração! A h , como conheço bem todos eles, o Pfizer, de Stuttgart, e o Bauer, e todos, todos eles, a quem esvaziei os corações como se quebra e consome o recheio de uma noz! Só tu lograste conservar teus segredos. Ainda não te conheço, Mòrike, não te consigo quebrar e esvaziar. Já estou no declínio e tu mal começas a tua ascensão. Vai-me acontecer o mesmo que a Hòlderlin e as crianças rirão de mim nas ruas. Mas não compus Hyperion algum. — Compuseste o Phaethon — disse Morike, gravemente. — A h , o Phaethon] Quis imitar os gregos e vê a coisa monstruosa e falsa que saiu. Não me fales do Phaethon. Recuso-me a acreditar em teus elogios, poií bem sei quanto estás acima dessa criação ridícula e pueril. Não, o Phaethon nada vale e eu sou um ignorante, um miserável ignorante. Sempre me acontece o mesmo: começo um poema ardendo de entusiasmo, tudo refulge e vibra dentro de mim, e não paro mais, dia e noite, enquanto não fizer um traço sob o derradeiro verso. Então acho maravilhoso o que criei, julgo-me guindado ao nível dos eleitos. Passado algum tempo, releio tudo e acho-o insípido, falso, empolado. Eu sei que contigo é completamente diferente. Realizas pouco e laboriosamente, sem pressas, mas o que resulta é definitivo e pode-se ler hoje, amanhã, sempre. Eu não. A minha inspiração tem de converter-se logo em livro, num só e contínuo impulso, e devo confessar que não conheço nada mais maravilhoso do que arrojar-me ao sabor do delírio e do fogo da criação. Mas depois! Eis que Satanás insinua-se em mim, sorri, mostra a pata de cavalo, e todo o entusiasmo era mentira, todo o nobre delírio não era sentimento mas fantasia. Maldição! — Não devias falar desse modo — interrompeu Mõrike, reconfortante. — Ainda somos quase crianças e podemos dar-nos ao luxo de jogar fora tudo o que fizemos ontem e julgávamos perfeito. Ainda nos falta experiência, maturidade e, sobretudo, ainda não aprendemos a esperar. Gocthe também escreveu em sua juventude muita coisa de que depois nem queria ouvir falar. — Ora, Goethe! — exclamou Waiblinger. — Esse também era um dos tais, um sujeito de paciência, de esperar, de juntar! Não gosto dele! Calaram-se de súbito. Os dois jovens ergueram os olhos, surpreendidos: Hòlderlin abandonara seu lugar na janela, intrigado pela conversa em voz alta, e viera postar-se, de pé, diante de M ò rike; seu rosto agitava-se, inquieto, e sua figura magra e esguia parecia mais desamparada e doente que nunca. No silêncio embaraçado, HÒlderlin inclinou-se sobre a cadeira de Mòrike, tocou-lhe levemente o ombro e disse, com voz neutra e vazia: — Não, Alteza, não. Quanto ao Sr. von Goethe de Weimar, o Sr. von Goethe… não posso e não devo opinar sobre isso. A interrupção do Poeta louco e o fato de, aparentemente, ter acompanhado o diálogo, o que nele era extremamente raro, deixou os dois amigos muito impressionados, quase assustados. Hòlderlin pôs-se a caminhar na pequena sala, uma expressão triste e aflita, como um grande pássaro colhido numa traiçoeira armadilha, e murmurando palavras ininteligíveis. — Tinhamo-lo esquecido por completo! — disse Waiblinger, cheio de remorsos. Levantou-se e foi para junto do Poeta, cuidando dele como um enfermeiro dedicado. Encaminhou-o de novo até a janela, exaltando a paisagem e o ar tonificante da colina, voltou a arranjar o cachimbo que Hòlderlin deixara cair no chão, dirigiu-lhe palavras de consolo e acalmou-o como faria uma mãe a um filho assustado com o bicho-papão de seus pesadelos noturnos. E M ò rike sentia nesses momentos redobrada simpatia pelo seu indômito e rebelde amigo, ao vê-lo tão carinhosamente preocupado com o bem-estar do Poeta louco, e fazia-se íntimas recriminações por tê-lo abandonado por tanto tempo. Conhecia o temperamento arrebatado e os incríveis altos e baixos do humor de Waiblinger e, pelo que ouvira dizer, o caso entre a tão perniciosa judia e seu amigo era realmente uma coisa que dava muito que pensar. O delicado e sensível Mòrike sempre vira em Waiblinger o ideal da indestrutível alegria de viver da mocidade, com sua exuberante energia, suas gostosas travessuras e irreverências. Agora, porém, a bebida e a autodestruição espiritual, que tanto haviam desfigurado o homem, causavam-lhe uma impressão angustiante, como se o amigo rolasse desesperadamente pela vertente de um abismo, ao encontro de um destino fatal. Também aquela estranha amizade de Waiblinger pelo Poeta louco lhe parecia revestir-se de um significado tenebroso. Entrementes, o amigo sentara-se tranqüilamente ao lado de Hiiklerlin no parapeito da janela, o jovem exuberante e o encanecido e desmantelado Poeta, em cujos olhos se apagava a chama da vida. O sol, em sua curva descendente, banhava as montanhas de um colorido mais forte. Uma jangada feita de toros de pinho descia rio abaixo. Ia ocupada por um grupo de estudantes, que cantavam e bebiam; de vez em quando, um raio de sol, batendo no cristal dos copos, desferia lampejos reluzentes e o alegre bando entoava tão alto suas canções acadêmicas que o eco das vibrantes vozes chegava nítido, ao pavilhão. Mòrike aproximou-se dos dois e também ficou olhando para fora. Como era suave a paisagem de sua tão amada região, como era belo e sereno o Neckar, aqui de um verde profundo do arvoredo refletido nas águas cristalinas, além salpicado de uma poalha dourada do sol da tarde, o ar saturado de cálidos aromas que a brisa trazia misturados às vozes juvenis dos estudantes, como um hálito morno de vida estuante. Por que estavam ali sentados, tão míseros e fracassados, aqueles dois poetas da alienação, o velho alienado, tranqüilo e inofensivo, o jovem alienado, rebelde e exaltado? E por que estava ali ele próprio, o coração oscilando entre amizades transitórias e uma desesperada paixão? Sentia-se tão deprimido e insatisfeito ao lado deles! Seria tudo isso apenas um reflexo de sua extrema sensibilidade, que tantas vezes o fazia fraquejar diante de emoções dramáticas? Ou seria realmente o destino de todos os poetas — que o sol jamais brilhasse para eles e vivessem condenados a devassar as sombras da própria alma? Compassivo, meditava sobre a vida de Hòlderlin, que fora não só um dos maiores poetas de seu tempo como um erudito filólogo, um crítico clarividente, um educador, correspondendo-se com os mais altos espíritos, amigo de Schiller, respeitado por Hegel, preccpior da família von Kalb. Hòlderlin, tal como Mòrike, também fora aluno do instituto teológico e deveria tornar-se padre, mas rebelara-se contra isso, justamente o que Mòrike também pensava fazer. O Poeta impusera a sua vontade mas a vitória gastara-lhe as forças e aniquilara-lhe o espírito. O mundo não perdoara ao seminarista desleal, ao sensível e tímido Poeta! Pagara-lhe em humilhações, pobreza, fome, obrigando-o a abandonar sua pátria, até que, exausto, contraiu a terrível doença, que parecia menos loucura do que um profundo cansaço, uma desesperada resignação, a apatia resultante de um espirito e de um coração gastos e desmantelados. A l i estava ele sentado agora, a privilegiada cabeça que abrigara tão grande inteligência, e os olhos ainda tocantemente puros, qual um fantasma de si mesmo, afundado numa surda infância sem esperanças de crescimento. E enchia folhas e mais folhas de papel, nas quais um ou outro poema realmente belo ainda resplandecia como uma jóia engastada em pedras toscas e informes. No todo, os manuscritos do infeliz poeta lembravam um jogo de crianças com coloridas pedras, sendo preciso encaixá-las para que do amontoado brotasse algo com harmonia e nexo. Enquanto Mòrike se mantinha imóvel atrás dos dois, emocionado e pensativo, Hòlderlin virou-se e encarou-o por instantes, como se procurasse no rosto meigo do jovem, de traços finos e delicados, alguma reminiscência que teimosamente lhe fugia. Talvez o Poeta visse em Mòrike uma imagem de sua própria mocidade, talvez em seus belos olhos, tocados de funda espiritualidade, visse refletidos os generosos sonhos juvenis que outrora lhe haviam abrasado a mente. Não, era muito duvidoso que essa seqüência de pensamentos se desenrolasse no cérebro de Hòlderlin; o mais certo era que seus olhos impenetravelmente sérios tivessem pousado no rosto do estudante por um mero prazer sensorial. Estavam os três em silêncio, sentindo cada um vibrar ainda em seu íntimo os ecos da anterior e veemente conversa, quando viram a Srta. Lotte Zimmer subindo a colina pelo atalho dos vinhedos. Waiblinger foi quem primeiro a viu ao longe e ficou observando a moça aproximar-se, admirando-lhe a figura robusta mas esbelta com evidente prazer. Quando Lotte já estava perto, acenou para a janela, sorridente, e Waiblinger saudou-a em voz alta, saltou sobre o parapeito para o lado de fora e saiu ao seu encontro, acompanhando-a no último trecho da ladeira. — É uma grande honra para mim — declamou ele, teatralmente — poder receber e saudar nesta casa uma tão formosa donzela! Entre, querida Srta. Lotte, entre… e três poetas se ajoelharão a seus pés! A moça riu. Tinha o rosto afogueado da rápida escalada da colina. Parou nos degraus da porta e ouviu, divertida, o palavreado do estudante. Depois abanou a cabeça loura e disse: — Fique de pé, Sr. Waiblinger, não estou habituada a que se ajoelhem diante de mim. E entregue-me o meu poeta. A mim esse basta. — Mas entrará por alguns momentos, não? Isto aqui é um templo, Srta. Lotte, não um covil de ladrões. Não sente curiosidade? — Sei dominá-la quando é preciso, Sr. Waiblinger. E sempre imaginei que os templos fossem diferentes. — A h , sim? Como? — Bom, isso não sei ao certo. Mas supunha que fossem mais solenes e com menos cheiro de tabaco. Não, por favor não insista. Não vou entrar. Tenho de voltar já, já, pois ainda tenho muitas coisas a fazer hoje. Agradeço que me traga o Sr. Holderlin. V i m aqui apenas com o propósito de acompanhá-lo à casa. Foi o combinado, não foi? Depois de mais algumas trocas de palavras, em tom de gracejo, Waiblinger entrou e fez sinal a Holderlin que era hora de partir. Apanhou-lhe o chapéu e acompanhou-o até a porta. O Poeta parecia levemente contrariado por ter de ir embora; notava-se-lhe no olhar e nos movimentos hesitantes. Mas não disse palavra. Com a perfeita submissão em que se entrincheirava e escondia de todo mundo, fez uma reverência diante de Mòrike, depois de Waiblinger, e caminhou obediente até a porta, voltando-se para uma última saudação: — Despeço-me humildemente de Vossas Altezas. As ordens de Vossas Altezas. Um vosso criado… Amavelmente, Lotte tomou-lhe a mão e guiou-o de volta. Os dois estudantes ficaram parados nos degraus, olhando o par que se afastava pela colina abaixo, entre vinhedos, o homem alto e solene, caminhando com uma postura rígida e hierática, pela mão da Srta. Zimmer, cujo vestido azul e chapéu de palha branco, de largas abas, ainda foram vistos por muito tempo. Mòrike notou o olhar contristado com que o seu amigo acompanhou o infeliz até desaparecer. Sentiu vontade de animar o sensível e temperamental Waiblinger mas preferiu levar a conversa para coisas supérfluas e alegres, pois tinha medo de que, num momento de fraqueza, ali sozinhos no pavilhão, cedesse ao desejo de revelar ao seu companheiro o que lhe ia no intimo. Waiblinger já deixara há meses de ser o seu fiel confidente. Mòrike, que nos dias em que um sentimento de solidão o invadia, era capaz de entregar-se a uma estranha melancolia, evitava sempre revelar aos outros esse lado de seu complexo ser, e muito menos a Waiblinger, que estava sempre disposto a gozar as revelações íntimas dos amigos. Assim, decidido a quebrar o embaraçoso silêncio e a evitar novas discussões em torno do valor da amizade, bateu ruidosamente num joelho, fez uma careta humorística e disse, num tom de mal disfarçada indiferença: — Sabes de uma coisa? Encontrei um dia desses um velho conhecido. Waiblinger encarou-o e julgou perceber na expressão do amigo um breve lampejo da antiga e jovial camaradagem. — Quem foi? — perguntou ele, animado, numa alegre expectativa. — Vem, Eduard, entremos. De novo na pequena sala, depois que Mòrike fechou pela metade as gelosias, os dois se sentaram numa aconchegante penumbra. — Pois imagina quem foi. Vogeldunst, o diretor do Museu Joachim Andreas Vogeldunst, que acabava de chegar de Samarcanda e afirmava encontrar-se aqui numa viagem de negócios extremamente urgente e lucrativa. Passara por Stuttgart, onde arranjara credenciais de Schwab e Matthisson… não era possível ignorá-lo, com tais recomendações!… e queria, na mesma noite, seguir viagem pela mala-posta de Zurique, onde era esperado, dizia ele, com a maior impaciência, por importantes patrocinadores. Somente viera a esta maravilhosa Tübingen atraído pela fama do instituto teológico e por ser lugar favorito de excelsas musas. Eis um motivo suficiente para interromper sua urgente viagem por algumas horas e não se arrependia, não; realmente jamais se arrependeria, apesar dos seus amigos em Zurique, Milão, Paris e não sei onde mais nunca lhe perdoarem uma hora de atraso. Na verdade, Tübingen, berço de tão excelsos espíritos, tinha seu encanto especial, seu charme, como ele disse, sobretudo ao anoitecer, quando reinava nas alamedas do Neckar um chiaroscuro delicioso, muito romântico. O emir de Beluquistão encomendara-lhe uma coleção de gravuras de todas as cidades mais bonitas da Europa. Sua Alteza ficaria encantado. Onde poderia encontrar um bom gravador, un bon graveur sur cuivre, mas, entenda-se, um verdadeiro mestre, um artista de espírito e imaginação. A h , existem aqui fontes de águas quentes? Não? Pois ele estava certo de ter ouvido falar nisso… Talvez fosse em Baden-Baden, que não deve ser longe. O Poeta Schubart ainda estava vivo? Vogeldunst referia-se àquele infeliz que foi vendido por Frederico, o Bom, aos hotentotes, para compor o hino nacional da África, lembras-te? A h , já falecera? Coitado. Eu já estava f i cando meio esquisito com a eloqüência barata do sujeito, que enquanto falava não parou de remexer entre os dedos os botões de prata da sobrecasaca. Eu tinha a impressão de já conhecer de algum lado o diretor Vogeldunst, com suas termas e seus longos dedos de aranha. Depois, o homem sacou da sobrecasaca, que lhe chegava quase aos pés, uma caixinha de madeira lavrada, abriu-a com os dedos de fantasma e retirou uma pitada, que dividiu entre as duas narinas, e começou espirrando tão alto e com gritinhos tão esganiçados que por pouco não estourei de rir. Depois, sorriu beatamente e ficou tamborilando na tampa da caixa uma marcha parisiense. Tudo aquilo me parecia absurdo e já me sentia torturado como um estudante durante as provas, quando a coisa aperta, o suor começa escorrendo pela testa e os óculos ficam embaciados. O Sr. Vogeldunst de Samarcanda não me dava um momento de folga para raciocinar. Falou-me de Stuttgart e dos graciosos poemas do Matthisson, que recitara pessoalmente para ele. Calcula, os versinhos do Matthisson, que qualquer pessoa medianamente entendida sabe distinguir como bastante fracos. Logo me perguntou se a malaposta de Zurique passava por.Blaubeuren, pois ouvira falar de uma pedra de chumbo que existia por aquelas paragens e que muito valorizaria sua coleção de admiráveis raridades. Pensara também visitar o Lago Boden e, de passagem, faria um oração no túmulo do Dr. Mesmer. AUás, o Sr. Vogeldunst era um antigo e fiel adepto das teorias do magnetismo animal, como também devia ao eminente Prof. Schelling os seus conhecimentos do espírito universal e, aliás, podia afirmar com muita honra que era um sincero amigo da Cultura. Pelo menos, já traduzira os contos fantásticos de Hoffmann para o persa, mandava fazer todo o seu guarda-roupa em Paris e já recebera do saudoso paxá de Assuan uma honrosa condecoração, que era uma estrela cujas pontas eram de dentes de crocodilo. Antigamente usava-a sempre sobre o peito mas, certa vez, quando dançava com uma nobre dama de Berlim, ferira-a no pescoço e, desde então, desistira de ostentar essa valiosa mas agressiva honraria. Enquanto dizia estas coisas, o diretor do museu passava a mão pelos cabelos num gesto tão melífluo que por um triz não caí na gargalhada. Pois agora o reconhecia! Sabes quem era? — Wispel! — exclamou Waiblinger, divertido. — Acertaste. Era Wispel. Mas devo reconhecer que estava muito mudado. Bom, então comecei insinuando cautelosamente a minha descoberta. Primeiro, disse ter a impressão de que já o vira alguma vez. Ele sorriu. A f i r m o u encontrar-se pela primeira vez nesta maravilhosa região e em tão fascinante cidade, cuja gravura em cobre não poderia esquecer de levar consigo para supremo deleite do emir. Sentia profundamente não se lembrar mas era possível que nos tivéssemos visto alguma vez. Em Berlim? Talvez em São Petersburgo? Não? Possivelmente em Veneza? Seria em Corfu? Também não? Bom, sentia muito, mas certamente devia ser um equívoco do Sr. Magister. ” A h ” , disse eu, “agora me recordo. Foi em O r p l i d . ” O homem hesitou um momento. Orplid? Orplid? A h , sim, também já estivera uma vez, no séquito do velho Rei Ulmon, já falecido. Então, continuei eu, talvez o senhor diretor conhecesse o nosso amigo Wispel? Enquanto lhe fazia a pergunta não tirei os olhos dos dele. Eu juraria que ele era Wispel mas crês que sequer pestanejou? Nada disso. W i . . . Wips… Wipf… dizia ele cogitativamente, fingindo não ser capaz de pronunciar direito esse nome que lhe era totalmente desconhecido. — Formidável! — disse Waiblinger, radiante. — Tenho a certeza de que era ele. Mas o que queria de ti esse danado Vogeldunst? — A h , nada de especial — riu Morike. — Logo te conto. Agora vou sair por um instante. A b r i u novamente as gelosias. O poente estendera seu manto dourado sobre a paisagem perfumada, as montanhas recortavam-se no horizonte como gigantescos dedos azuis apontados para o róseo firmamento. M o r i k e saltou pela janela baixa e entrou em seguida pela porta, o semblante mudado, com uma expressão alterada, os olhos mortiços e os cabelos caídos na testa. Movia os braços como um pássaro batendo as asas para alçar vôo, os pés com as pontas viradas para fora, e aproximou-se de Waiblinger aos saltinhos. Era a imagem fiel e burlesca de Wispel. Começou falando numa voz esganiçada: — Muito boa noite, Sr. Magister] — disse Morike, fazendo uma rasgada reverência de homem de sociedade, o chapéu seguro na ponta dos dedos da mão esquerda. — Tenho a honra e o prazer de me apresentar a Vossa Senhoria como o Diretor do Museu Vogeldunst, de Samarcanda. Permite-me que faça uma pequena inspeção do local? Lugar muito agradável, aqui em cima, muito aprazível en effeí- Felicito Vossa Senhoria por este delicioso tusculanum. — O que o trouxe por aqui, Wispel? — perguntou Waiblinger, com ar trocista. — Vogeldunst, por favor. Diretor Vogeldunst. E devo respeitosamente solicitar que não me trate por Excelência, não apenas por ser distinção incompatível com minha modesta pessoa mas também por respeito aos vários e eminentíssimos senhores a quem tenho a honra de servir. — Então seja, Sr. Diretor. Em quem posso servi-lo? — Estou falando com o Sr. Magister Waiblinger? — Exatamente. — A h , muito honrado! Vossa Senhoria é um gênio da poesia. Por favor, nada de exageradas modéstias. Estou perfeitamente a par de vossos excelsos méritos. Conheço vossas obras imortais, senhor—Três dias me deliciei na leitura de Phaethon, esses maravilhosos cantos gregos que nos transportam às subterrâneas paragens onde caiu fulminado o condutor da Luz. Como? Não, não vos incomodeis! Estou inteiramente informado! — Bom, então ao diabo, Sr. Diretor das terras do Oriente, ,e desembuche! — O Sr. Magister pertence ao seminário de Tübingen? Quero respeitosamente saber se vos encontrais satisfeito em tão douta instituição. — Satisfeito? No seminário? Homem, para estar satisfeito seria preciso que eu fosse um perfeito animal, Mas todas as questões têm duas faces: o seminário também não está satisfeito comigo. — Muito bem, três bien, estimado senhor! Exatamente o que eu procurava. Encontro-me na grata posição de poder oferecer a Vossa Senhoria uma assaz agradável melhoria na vossa atual situação. — Oh, muito agradecido. Poderei indagar do que se trata? Mõrike-Wispel deu um passo atrás, colocou seu chapéu sobre uma estante, executou com os braços mais um de seus etéreos movimentos adejantes e, em voz baixa, disse: — Por certo Vossa Senhoria vê em mim um homem modesto e de poucos méritos. Mas podeis estar certo de que sei dar conta dos meus recados e, sem querer gabar-me de meus préstimos, já prestei muitos serviços aos mais importantes senhores, para inteira satisfação deles. Serei muito conciso, como convém a um homem cujo tempo é extremamente valioso. Trago no meu bolso as mais linsonjeiras recomendações dos Srs. Matthisson e Schwab. Trata-se de um assunto de suma importância. Rogo-vos que escuteis atentamente as minhas palavras. Procuro um substituto para Friedrich Schiller! — Para Schiller! Mas, meu caro senhor… — Vossa Senhoria me compreenderá e aprovará, se se dignar ouvir-me com atenção. Entre os vários senhores a quem presto os meus humildes serviços conta-se o excelentíssimo Lorde Fox, de Londres, um dos mais ricos e distintos cavalheiros da Inglaterra, país da Grã-Bretanha, amigo e confidente de sua majestade, cunhado do lorde do selo privado, padrinho do Príncipe James de Cumberland, senhor dos condados de… — Sim, sim, está bem. E o que há com o seu lorde? — O lorde sabe avaliar os meus talentos, sim, posso vangloriar-me de ser seu amigo, Sr. Magister. Durante uma caçada real no País de Gales, ouvi Lorde Fox apresentar-me ao Barão de Castlewood com estas palavras realmente desvanecedoras: “Este homem é um verdadeiro tesouro, meu caro barão!” E uma outra vez, quando a Princesa Vitória acabara de vir ao mundo, estava eu regressando da Espanha, onde… — Sim, sim, mas continue! O Lorde Fox… — A h , o lorde é um homem extraordinário, Sr. Magisterl Eu tinha a honra de acompanhá-lo às caçadas na siia própria carruagem. Era uma caçada às raposas. Na Inglaterra, a raposa é caçada a cavalo e constitui a diversão preferida da nobreza, vous savez. Lorde Chesterfield foi um outro famoso caçador de raposas. E Lorde Bolingbroke também. Morreu de gangrena. — Mas volte ao assunto, meu caro senhor! — Eu nunca saio do assunto, Sr. Magisterl Ora, como dizia, uma caçada às raposas é uma diversão fascinante, embora considere a caça aos búfalos, à maneira russa, ainda mais interessante. Assisti a uma dessas caçadas nos Urais, na companhia do grão-duque. Mas, para ser breve, os grandes senhores ingleses têm singulares e, je vous assure, dispendiosas paixões. Conheci um alto comissário da Companhia das índias Orientais que, por causa de uma simples dor no joelho esquerdo, reuniu em Bombaim duas dúzias de médicos chamados da Europa inteira. Eu lhe recomendara, nessa oportunidade, o médico particular do príncipe eleitor de Braunschweigh… agora esqueci o seu nome… — De quem? Do príncipe eleitor? — Não, do seu médico particular. Estou inconsolável. Nunca supus que isso fosse possível. De fato, é muito raro que a memória me atraiçoe. De qualquer modo, era um homem muito hábil e entendido em seu ofício. É verdade que ainda não conseguiu curar esse senhor inglês, afirmando que as suas dores são incuráveis, pois não resultam de males físicos mas de pura imaginação. Pode Vossa Senhoria acreditar em semelhante coisa, que a imaginação dê dores nos joelhos? Claro que fiquei muito embaraçado, pois o senhor inglês mostrou-se muito descontente com tudo isso. Mas Vossa Senhoria me interrompeu… Estava eu dizendo que procuro um substituto para Fíiedrich Schiller. Lorde Fox deseja possuir em sua coleção um poeta alemão. Eu próprio o animei nesse sentido, e por que não? Já tem um lama tibetano, um samurai japonês que executa uma excitante dança com seu longo sabre, um feiticeiro da Montanha da Lua e duas bruxas legítimas de Salamanca. Vossa Senhoria sabe, eu próprio sou uma espécie de homme de lettres e como faço freqüentes viagens, que me proporcionam numerosos conhecimentos, posso fazer a não de todo desinteressante observação: os poetas alemães, em sua grande maioria, são verdadeiros rouxinóis. E muitos deles pertencem ao instituto teológico de Tübingen, mas não me parecem inteiramente satisfeitos com sua sorte. Eh bien! Então pensei que poderia arranjar para Lorde Fox um autêntico poeta-rouxinol de Tübingen. Pagou-me a viagem e recebo dois mil talentos anuais até conseguir um para a sua coleção. As minhas informações levaram-me a concluir que Friedrich Schiller é, no momento, o mais famoso dos poetas alemães e viajei imediatamente para lena. Infelizmente, a minha informação era incompleta e foi-me dito em lena que o pobre Sr. Schiller já falecera. Ora, Lorde Fox quer um poeta vivo, vous comprennez… No meio da frase Mòrike estacou de repente. Da cidade, chegava-lhes o som do relógio da igreja do seminário. O sol já desaparecia no horizonte. Eram sete horas. — Oh, isto vai dar castigo outra vez! — disse Mòrike, um tanto preocupado. — Não vamos chegar a tempo no seminário e aposto como passarei a noite no calabouço. — Não me digas que queres deixar a meio a história de Wispel! — disse Waiblinger, contrariado. — Maldito relógio! Vamos, Eduard, recomecemos! Mòrike abanou a cabeça. O seu entusiasmo-arrefecera. Passou a mão pelos cabelos e fechou os olhos por um momento, com expressão preocupada. — Vens comigo? — perguntou ele. — Se conversarmos bem o porteiro, talvez o homem dê um jeito para entrarmos. Waiblinger ficou indeciso. A bela judia e seu destino ruim esperavam-no com o cair da noite. Esquecera-se dela havia mais de uma hora. Sentia-se tão bem ali. Entretanto, começou fechando as gelosias. Mòrike ajudou-o. Os dois saíram do pavilhão agora mergulhado nas trevas e Waiblinger fechou a porta. — Não — disse ele. — Eu vou ficar fora esta noite. Foi uma bela tarde. Há muito que não me sentia tão calmo e animado. Sabes que tenho andado com o espírito perturbado. Peço-te que não me guardes rancor se, por vezes, grito contigo. Pois quando assim procedo não é tanto a ti que me dirijo mas a mim próprio. Se pensas mal de mim, juro-te que não pensaras pior, certamente, do que eu a meu próprio respeito. Os dois caminhavam à luz do luar na direção da cidade que, com suas chaminés fumegantes, seus telhados oblíquos, parecia agachar-se humildemente em redor da imensa construção do seminário e da igreja. — Acho que seria melhor vires comigo — aconselhou Mòrike, depois de uma longa pausa. — Não é pelo porteiro. Mas poderíamos ler juntos esta noite o Hyperion, ou alguma coisa de Shakespeare. Seria bom. — Sim, seria bom — suspirou Waiblinger. — Mas já tenho um compromisso. Não vai ser possível. Mas voltaremos a encontrar-nos aqui no pavilhão, não é? E tu trarás também as tuas poesias. Bons tempos aqueles, quando ainda vinham o Louis Bauer e o Gfrorer, e fazíamos aqui as nossas farras! Quem sabe quanto tempo ainda continuaremos juntos, Eduard! M u i t o não poderá ser. Para mim já começa a faltar o chão e ar em Tübingen. — Não devias pensar dessa maneira. É certo que estás levando há algum tempo uma vida dissoluta e granjeaste alguns inimigos. Mas tudo poderá ser diferente se tentares outra vez. A voz de Mòrike era suave e reconfortante mas Waiblinger sacudia a cabeça, com uma expressão de amargura no rosto levemente rechonchudo. — Diz-me uma coisa — falou Waiblinger. — Se eles me conservassem no seminário, o que é que fariam de mim? Um padre, um preceptor de alguma família beata. O vigário Waiblinger! O pároco Waiblinger! Ignoro o que possa vir a ser algum dia, mas isso não! Positivamente, não! Aqui não há muito que aprender, tu sabes disso. Os nossos professores são uns meros papagaios, talvez com a única exceção do Haug. Prefiro correr o risco. Tenho de .abrir caminho com os meus próprios pés, como o infeliz Hòlderhn tentou no seu tempo, e eu sou mais forte do que ele. Não serei tão nobre e tão puro quanto ele mas tenho mais força e o sangue mais quente. Por isso acho preferível ir logo saindo, voluntariamente, antes que passe pelo vexame de ser expulso. Nunca é cedo demais para começar conquistando a própria vida. Tu sabes o que me segurou até agora em Tübingen… nesse amor quero triunfar ou perecer! Calou-se de súbito, como se estivesse arrependido de ter falado demais. Na primeira esquina estendeu a mão ao amigo. — Bom, Eduard, boa noite e um abraço para Wispel! — Será entregue — disse Mõrike. Apertaram-se as mãos e Mòrike ainda se voltou uma vez para olhar Waiblinger, que estugara o passo. E, num repentino impulso, elevou a voz e disse, gravemente: — Não deves renunciar aos dons que possuis, Waiblinger! Acredita no que te digo: para nos engrandecermos e criarmos algo realmente digno e duradouro, é preciso renunciar sempre a muita coisa! Dito isto, afastou-se rapidamente na direção da Bursagasse e do seminário. Wablinger estacara, surpreendido, ao ouvir a solene advertência do amigo e voltara-se apenas a tempo de ver seu vulto esguio desaparecer nas sombras da rua. Não era costume de Waiblinger tolerar conselhos e admoestações mas ficou imensamente grato por aquelas palavras, pois nelas pressentira um significado bem mais profundo e consolador: Morike ainda acreditava nele. Para quem tanto duvidava de si próprio, essa revelação foi um delicioso refrigério. Continuou caminhando para a casa de sua bela judia, a sedutora irmã do Prof. Michaelis. A essa mesma hora, Friedrich Hõlderlin caminhava inquieto no seu quarto de sacada. Acabara de comer a sopa do jantar e, como de costume, colocara o prato no chão diante da sua porta. Nada tolerava em seu quarto que não fosse de sua propriedade e na estreiteza de sua reclusa existência não havia prato nem copo, nem livro ou gravura que lhe pertencessem. A tarde ainda ecoava fortemente em seu íntimo: o querido pavilhão, o caminho entre os vinhedos, o vasto panorama saturado de verão, o brilho do Neckar e os cantos estudantis na jangada, o diálogo animado entre os dois jovens, sobretudo aquele, de bonito e delicado rosto, cujo nome ele ignorava. Sentia-se inquieto, apesar de fatigado. Caminhou a grandes passadas no quarto e, por vezes, foi parar na janela, perscrutando a noite com olhar vazio. Mas ele já entendera outrora as vozes da vida, que ainda ecoavam estranhamente no seu mundo de sombras. Juventude e beleza, conversas espirituais e sugestões de um pensamento longínquo t i nham penetrado essa tarde em sua mente destroçada, ele, que já fora hóspede de Schiller e conviva no banquete dos deuses. Mas agora estava cansado, não era capaz de unir de novo os fios dourados da existência nem acompanhar a polifonia da vida. Escutava apenas a débil e hesitante melodia do seu próprio passado, uma abafada e nostálgica ária sem continuidade. Estava velho, velho e muito cansado. Aproximou-se da escrivaninha e, à luz tênue de uma vela, sob os versos confusos com que enchera uma folha de papel grosso, escreveu, em sua bonita e elegante caligrafia, este breve e triste lamento:

As delícias deste mundo aproveitei, Da mocidade os prazeres há quanto! quanto tempo! expiraram. Abril , maio e junho longe estão, Nada mais sou, de viver não gosto mais.

Pouco tempo depois, Wilhelm Waiblinger abandonava o instituto teológico e Tübingen. Estava fadado a beber a felicidade e a miséria em rápidos e sedentos goles de liberdade, até se corromper irremediavelmente. Emigrara para a Itália e não mais tornaria a ver sua terra natal, nem os amigos. Pobre e abandonado, desapareceria em Roma como um aventureiro sem glória. Eduard Morike continuou no seminário mas, no final dos estudos, não conseguiu decidir-se a aceitar as regras do sacerdócio. Depois de uma fracassada tentativa de triunfo no mundo secular deu, finalmente, a mão à palmatória. Mas, como nunca foi um padre completo, tampouco gozou de uma felicidade completa. Seu espírito era freqüentemente assaltado de angustiosas dúvidas mas, de seus sofrimentos e transes, a par de horas serenas e consoladoras, soube extrair inspirados e imorredouros poemas. Friedrich Holderlin continuou em seu quarto de sacada em Tübingen, e ainda vegetaria cerca de vinte anos na penumbra de sua tardia morte.

O Silvícola (Hermann Hesse)

Nos alvores do primeiro século, antes da jovem humanidade ter-se espalhado pelo mundo, os nossos remotos ancestrais eram silvicolas. Viviam em grupos na penumbra das densas florestas tropicais, em constante briga com seus parentes mais próximos, os macacos, e acima deles só reconheciam uma divindade e uma lei: a selva. As florestas eram seu lugar, refúgio, berço e túmulo, não podendo imaginar a existência fora delas. Tímidos por natureza, os silvicolas evitavam aproximar-se da orla da floresta e algum que tivesse sido atraido para lá, por circunstâncias especiais, durante a caçada ou em fuga, vinha contar aos companheiros, tremendo e cheio de pavor, como era o vazio ofuscante para além da selva, onde se via brilhar o nada terrível sob o calor mortal do grande disco amarelo. Aí vivia um velho silvícola que há muitos anos fora perseguido por feras e procurara refúgio além da orla da floresta, ficando cego em pouco tempo. Era agora uma espécie de homem santo e pregador, e chamava-se Mata Dalam (o que tem olhos internos); compusera um cântico da selva que era entoado durante as grandes tempestades e os silvícolas obedeciam-lhe fielmente. Sua fama e segredo consistia em ter visto o Sol com seus próprios olhos e não ter morrido em conseqüência disso. Os silvícolas eram homens baixos e morenos, muito peludos, andavam com o tronco inclinado para a frente, tinham olhos mortiços e inquietos. Sabiam caminhar indistintamente como homens ou como macacos. Acocoravam-se nos galhos das árvores com a mesma segurança com que se sentavam no chão. Ainda ignoravam o que eram choupanas ou casas, mas já sabiam adornar suas armas e ferramentas. Faziam arcos e flechas, lanças e maças de madeira resistente, penduravam ao pescoço colares feitos de ráfia, bagos e nozes secas e também usavam na cabeça, nos lábios, nas orelhas e nos braços, dentes de javali, garras de tigre, cocares de penas de papagaios, conchas dos rios. Através da imensa floresta passava um grande rio de que os silvícolas só se atreviam a pisar as margens sob a escuridão da noite e muitos ainda não o tinham visto sequer. Os mais audazes atreviam-se, por vezes, a sair da floresta à noite, e riam do fraco brilho da Lua, espiavam os elefantes tomando banho e, através das copas das árvores mais baixas, espantados, viam as estrelas refulgentes penduradas nos mangues que se entrelaçavam no desaguadouro do r i o . Mas nunca se arriscavam a olhar o Sol, que era tido como coisa sumamente perigosa e que, no verão, desferia raios mortais, cegava ou enlouquecia quem enfrentasse seus reflexos de fogo. Ora, a essa tribo de silvícolas, que era guiada pelo cego Mata Dalam, pertencia também o jovem Kubu, reconhecido como líder e porta-voz dos homens insatisfeitos da sua idade e geração. Pois, na verdade, existiam descontentes entre os mais jovens, depois que Mata Dalam envelhecera e se tornara autoritário e despótico. Cego como era, gozara até então do privilégio de ser alimentado pelos demais elementos da tribo, em troca dos conselhos que dava e dos cânticos que compunha. Com o tempo, porém. Mata Dalam começou introduzindo novos e incômodos hábitos que, segundo dizia, tinham-lhe sido revelado pela divindade tutelar da floresta, durante o sono. Alguns dos jovens afirmavam, entretanto, que o velho não passava de um embusteiro e procurava apenas imaginar leis que lhe dessem mais vantagens. Uma das novidades que Mata Dalam introduziu foi uma festa da Lua Nova. Sentava-se no meio de uma roda, tocando num tanta feito de um tronco oco de árvore, e os outros silvícolas tinham de dançar na roda e cantar o golo elah até cairem extenuados. Então, cada um perfuraria a orelha esquerda com um espinho e as moças dirigir-se-iam ao velho para que ele também lhes perfurasse uma orelha com o espinho. Kubu e alguns de seus companheiros tinham-se recusado a obedecer a esse novo costume e procuravam convencer as moças a resistirem também. N u m dado momento, tiveram a esperança de quebrar o domínio do velho. Mata Dalam iniciara as festividades de mais uma Lua Nova e estava perfurando a orelha esquerda das moças. Uma delas, porém, das mais robustas, gritou terrivelmente e debateu-se com desespero, resistindo à ordem do velho cego que, de súbito, estendeu o braço e perfurou com o espinho um olho da moça, e o olho escorreu. A infeliz soltava gritos lancinantes e clamava por socorro e todos os jovens acudiram-na. Quando viram o que acontecera, emudeceram confusos e enfurecidos, pensando que chegara o momento de acabar com o poderio do cruel ancião. Cercaram-no, com um ar de desafio triunfante que o cego não podia enxergar mas pressentiu quando Kubu o agarrou por um ombro. Mata Dalam ergueu-se então, largando o seu tanta, e com uma voz aguda proferiu uma maldição de tal modo horrível que todos fugiram apavorados e gelou o coração do próprio K u b u . O velho gritava palavras que ninguém entendeu direito mas que pela veemência e tom pareciam ser coisas tão violentas quanto as maldições lançadas, muitos séculos depois, pelos homens de Deus sobre os infiéis e pecadores. Que dizia o colérico Mata Dalam? Ele profetizava que os olhos de Kubu serviriam de comida aos corvos e que suas entranhas torrariam ao sol no descampado vazio. Depois, o velho — que nesse momento se investia de mais poder que nunca — chamou novamente a moça a que furara um olho e, quando a teve junto dele, gemendo e chorando, espetou-lhe o espinho no outro olho e todo mundo assistiu à cena medonha num silêncio aterrado, sem se atrever sequer a respirar. — Tu irás morrer fora da floresta! — gritou o velho para Kubu. Depois dessas palavras, os outros membros da tribo evitavam falar com o jovem, a quem passaram a considerar um banido, um maldito sem esperança. ” F o r a ” significava, em resumo, fora das sombras protetoras da floresta, fora do convívio da tribo, queimaduras do Sol e o vazio ardente e mortal. Kubu também estava aterrorizado. Andava longe dos outros e, quando alguém se acercava, fugia a esconder-se num tronco oco. Dias e noites a fio, sem dormir, Kubu vacilava entre um medo mortal e uma grande teimosia. Surgiriam os homens da sua tribo para matá-lo? O Sol irromperia na floresta e cercá-lo-ia com seus raios fulminantes? Ou poderia contar com alguns amigos e aliados para a grande vingança? Porém, não apareciam flechas nem lanças, nem Sol e seus dardos de fogo, nada. Apenas um cansaço profundo e a gritante voz da fome. Então, Kubu rastejou para fora da árvore, atento aos ruidos e quase com uma sensação de desapontamento pelo silêncio que o envolvia. “Nada tem mais força do que a maldição do pastor”, pensava ele. Procurou alimentos e quando sentiu de novo a vida pulsar em seu corpo, uma onda violenta de ódio e orgulho se apossou dele. Kubu não voltaria mais para j u n t o dos seus. Viveria doravante isolado como um eremita, um renegado a quem o velho cego d i r i gira terríveis maldições. Ficaria só, recusaria todo o contato com seus irmãos, afugentá-los-ia até, se se aproximassem mais, ou melhor, iria vingar-se. Meditou longamente sobre tudo o que acontecera. Recordou todas as dúvidas, tudo o que lhe parecera fraude e, sobretudo, o tanta de Mata Dalam e suas festividades. E quanto mais pensava mais claro via: sim, tudo era fraude, tudo não passava de mentiras e ardis. Dai foi um passo também duvidar até de coisas que antes considerava verdadeiras e tabus. Que dizer do tal deus da floresta de que o cego falava? E do cântico da selva que ele inventara? Oh, também nisso nada existia de verdadeiro, tudo era fingimento e mentira! E, vencendo um secreto medo, entoou o cântico da selva com voz trocista, trocando todas as palavras, e gritou três vezes o nome da divindade da floresta, que ninguém podia pronunciar sem sofrer a pena do ostracismo, exceto o velho cego. E tudo ficou quieto como antes, nenhuma tempestade se desencadeou, nenhum raio o fulminou! O jovem solitário assim vagou durante dias e semanas, rugas profundas cavadas em sua testa, o olhar febril e penetrante em que pairavam estranhas interrogações. De noite, ia também onde ninguém se atrevera: caminhava pela margem do rio durante a Lua Cheia, Contemplava primeiro o reflexo do disco pálido nas águas, depois erguia os olhos para o céu e corajosamente, olhava a Lua e as estrelas cara a cara e nada, nada lhe aconteceu. Passou a ficar noites inteiras sentado à beira do rio, deliciado com seu próprio atrevimento impune, extasiando-se na contemplação da claridade proibida. E pensava. Muitos planos audazes e terríveis lhe vinham à mente. A Lua é minha amiga, pensava ele. E as estrelas são minhas amigas. Mas o velho cego é meu inimigo. Então, talvez ” F o r a ” seja melhor do que o nosso ” D e n t r o ” e, quem sabe, toda essa santidade da nossa floresta não passe de um embuste. E assim foi que Kubu, de uma geração perdida nos mais remotos tempos do mundo, teve pela primeira vez a ousada e genial idéia de amarrar alguns troncos de árvore com ráfia, sentar-se sobre eles e deslizar rio abaixo. Seus olhos brilhavam de excitação e o coração batia-lhe com violência. Mas logo teve de desistir. O rio estava coalhado de jacarés. Não lhe restava outro caminho para o futuro senão abandonar a floresta, ao longo da margem, se realmente existisse um fim da floresta, e aventurar-se pelo vazio ardente, pelo ” F o r a ” maligno. Aquele monstro, o Sol, tinha de ser enfrentado e vencido. Pois — quem podia saber? — não seria a doutrina do Sol ruim mais uma mentira? Este pensamento, o último de uma cadeia febril e audaciosa, fez Kubu estremecer. Sim, nenhum homem se atrevera ainda a abandonar voluntariamente a floresta e a defrontar o Sol. Ficou mais alguns dias meditando e, finalmetne, encheu-se de coragem. Dirigiu-se, em passo furtivo, para o rio que brilhava sob a luz de pleno dia. Agachou-se à beira da água e procurou, ansioso, o reflexo do Sol no espelho liquido. O fulgor magoou-lhe os olhos e teve de fechá-los rapidamente,ofuscado. Instantes depois,abriu-os e tentou de novo. E tentou mais uma vez, e outra vez, até que conseguiu. Era possível, sim, um homem podia suportar o Sol e até o fazia mais alegre e corajoso. Kubu passou a ter confiança no Sol. E amou-o, ainda que pudesse matá-lo, e sentiu ódio pela escura, úmida e podre floresta, onde seus irmãos se agachavam amedrontados e donde ele, o jovem e corajoso Kubu, fora banido. Agora, sua determinação tinha amadurecido e saboreava-a como um fruto doce e suculento. Fez um martelo de pau-ferro, colocando-lhe um cabo fino e leve, e foi procurar de madrugada o velho Mata Dalam. Encontrou-lhe o rastro, seguiu-o e, assim que o viu na sua frente, desferiú-lhe um golpe na cabeça. O velho caiu fulminado e de sua boca contorcida escorria uma baba ensangüentada. Kubu colocou sua arma sobre o peito do morto e, para que todos soubessem que o matara, gravou penosamente na superfície lisa do martelo, com uma concha, um círculo com diversos raios em torno: a imagem do Sol. E partiu, decidido, rumo ao ” F o r a ” distante, caminhando de manhã à noite pela selva em linha reta, durante dias e dias, cruzando riachos e pântanos escuros e, finalmente, terras altas com pedras manchadas de musgo, como ele jamais vira, e encostas ainda mais íngremes, barrancos e desfiladeiros. Mas a floresta parecia ser eterna. Por mais que andasse nunca via seu f i m . No alto das colinas olhava à sua volta e tudo era selva densa e escura. Kubu parou, cansado e triste, e pensou que talvez estivesse proibido aos seres da floresta, por uma divindade poderosa, abandonarem seu mundo verde e silencioso. Com a teimosia dos jovens, Kubu decidiu, porém continuar em frente. E então, uma noite, depois de ter subido cada vez mais alto, sentindo que o peito se enchia de um ar cada vez mais leve e mais seco, encontrou subitamente o F i m . A floresta terminava e, com ela, o chão também. A selva mergulhava ali no vazio, como se, naquele lugar, o mundo se houvesse partido em dois. Nada enxergava além de uma longínqua e tênue vermelhidão e, por cima, algumas estrelas. Kubu sentou-se na beira do mundo e amarrou-se com cipós para não cair lá embaixo. Passou a noite acocorado, numa grande excitação, sem fechar os olhos, e quando viu os primeiros clarões de luz pôs-se em pé de um salto, esperando a chegada do dia, debruçado sobre o vazio. Listras douradas começaram a alastrar no céu azul-pálido e todo o vazio parecia tremer de expectativa, como ele próprio tremia, pois jamais vira a alvorada num espaço tão amplo e puro como aquele. Depois, feixes de luz incandescente começaram se acendendo do outro lado do abismo e, de súbito, viu o disco imenso e rubro subir lentamente para o céu, lentamente, até ficar suspenso e desprender-se da planície cinzenta e morta que logo ganhou tons azuis-escuros, depois azuis mais claros, e reflexos prateados, e já não era mais um vazio sem fundo. Kubu contemplava o mar. Diante do trêmulo silvícola desvendava-se agora todo o “Fora ” . A seus pés, a montanha descia até profundidades enevoadas. À sua frente, rochedos de formas caprichosas onde o Sol punha reflexos policromos de pedras preciosas. De um lado, espreguiçavase o mar gigantesco, beijando a costa branca e orlada de espuma. Do outro, a montanha com seu arvoredo balouçando suavemente na brisa reconfortante. E dominando tudo, mar, arvoredo, montanhas, as mil coisas e as m i l formas novas e estranhas, o Sol — despejando cascatas de luz sobre um mundo que se oferecia em mil cores sorridentes. Kubu não conseguiu olhar para a face do Sol. Mas via sua luz correr na maré colorida, envolver as montanhas, as ilhas distantes e azuis, dourar as copas das árvores, beijar as corolas das flores. E o jovem silvícola caiu de joelhos, inclinando o rosto para o chão, reverenciando os deuses desse mundo radiante. A h , quem era ele, Kubu? Um pequeno e sujo animal que levara até então uma vida completamente surda, num buraco pantanoso, na penumbra da selva, timido e esquivo, servindo a divindades infames. Mas ali estava o mundo diante de seus olhos e seu supremo deus era o Sol. O longo e ignóbil sono de sua vida na floresta ficava agora muito para trás, começava a apagar-se em seus olhos e em seu espírito com a imagem pálida do sacerdote cego e morto. Com a ajuda de pés e mãos, Kubu começou descendo o íngreme abismo, em direção à luz e ao mar. Ébrio de felicidade, todo seu ser fremia ao acercar-se de uma terra onde, Kubu estava certo, viviam homens lúcidos, fortes e livres — seres que só aceitavam o Sol por seu único Senhor.

A Captura (Hermann Hesse)

No dia 30 de julho de 1672, morreu o Sr. De Sainte-Croix em seu refúgio perto da Place Maubert. Os historiadores, para os quais nada é inviolável e, apesar de toda sua ciência, nunca mostram grande compreensão pelo valor de certos gestos, provaram recentemente que, depois de longa enfermidade, o Sr. De Sainte-Croix morrera em seu leito como qualquer outra pessoa idosa. Se realmente foi essa a verdade, convenhamos em que perde de longe, por sua mediocridade, para a lenda. Pois era voz corrente na época que a morte pavorosa do envenenador De Sainte-Croix ocorrera em circunstâncias bem diversas. Durante a fabricação de seus finíssimos e letais pós, protegia-se ele, constantemente, com uma máscara de vidro para evitar a aspiração das venenosas emanações. Porém, um dia a máscara caiu-lhe do rosto durante essas delicadas manipulações e De Sainte-Croix morreu fulminado em seu laboratório. A veracidade desta versão é corroborada pela estranha circunstância do sinistro homem ter deixado todos seus perigosos papéis e venenos espalhados pela casa na mais completa desordem, como se a morte o houvesse colhido de surpresa. Enfim, inclino-me mais a aceitar a lenda do que as doutas conclusões dos historiadores, as quais ainda são mais desacreditadas pelo que adiante relataremos e que delas faz, realmente, um conto de fadas mais inverossímil do que a pretensa lenda. Ora, como dissemos, o envenenador De Sainte-Croix, amante e cúmplice dos monstruosos crimes cometidos pela bela Sr? De Brinvilliers, morreu no dia 30 de j u l h o . Pela apuração j u dicial do espólio, essa senhora ficaria gravemente comprometida, pois seriam fatalmente descobertas suas cartas para De SainteCroix. Assim que tomou conhecimento de que o cofre de seu amante, onde as cartas eram guardadas, cairá nas mãos da justiça, não poupou esforços para recuperá-lo, antes que ele fosse aberto. Baldadas foram essas tentativas desesperadas e a comprometedora caixa foi aberta em juizo no dia 22 de agosto, tendo a Sr. De Brinviliers sido imediatamente convocada a depor. Fez-se representar, porém, pelo seu procurador e soube logo depois que um cúmplice de seu amante fora encarcerado. Sem perda de tempo, a Sr. De Brinvilliers evadiu-se para a Inglaterra. Entrementes, seu processo correu todo o outono e inverno, e só em março foi anunciado o veredicto condenando o cúmplice de De Sainte-Croix à morte infamante na roda, enquanto a Sr? De Brinvilliers era sentenciada in contumaciam à decapitação pelo machado. O tribunal declarara-a culpada da morte por envenenamento de seu pai e dois irmãos. Como, simultaneamente, foram-lhe confiscados os bens, e o seu marido — o incrivelmente tolerante Sr. De Brinvilliers — agora preocupava-se tanto com ela quando o fizera durante suas aventuras amorosas com De Sainte-Croix, a requintada senhora, até então habituada a uma vida de luxo e lazeres, encontrou-se numa situação melindrosa e, segundo parece, implorou até a ajuda de sua irmã, aquela mesma irmã contra cuja vida atentara durante anos. Assim vivia a condenada em Londres, procurando manter-se sempre ao corrente da evolução do seu caso. O Rei Luís X I V interessou-se pessoalmente pelo processo, que suscitara grande escândalo nos meios palacianos, e determinou que a justiça usasse de todos os recursos para cumprir a sentença, fazendo voltar ao reino a foragida. Assim, a expatriação da Sr? De Brinvilliers foi tratada em Londres com os altos magistrados de sua majestade britânica, mas, devido às formalidades e diligências que sempre ocorrem em semelhantes casos, a solução do assunto foi sendo protelada e madame continuava circulando impunemente, apesar do rei de Inglaterra já ter prometido sua devolução à França. Quando, por fim, todas as dificuldades foram vencidas e preenchidos todos os requisitos para a entrega da sentenciada, a Sr? De Brinvilliers já tinha desaparecido de Londres. Consta que ficou algum tempo na Picardia e houve notícias dela em diversos lugares de Flandres. Teria sido vista em Valenciennes e Cambrai e, finalmente, refugiara-se em Luettich. Aí foi recebida hospitaleiramente em um convento e, nesse lugar inviolável, a Sr? De Brinvilliers acreditava ter escapado ao perigo. Realmente, deixou de ser molestada por espiões e beleguins da justiça e as notícias começaram a ser cada vez menos alarmantes, fazendo-a supor que seu caso entrava no esquecimento. Sentiu-se de tal modo aliviada que, daí a pouco tempo, já estava de romance com um tal Monsieur Theria. Entretanto, havia um estranho pormenor que a todos intrigava muito: essa inescrupulosa e egoísta mulher levava constantemente consigo uma escritura, a que chamava de sua confissão, e onde anotava toda sua vida, desde sua prematura perda da virgindade, até uma extensa lista de crimes e abusos de toda a espécie. Só é possível explicar essa mórbida mania, por causa do medo ou superstição, assim como, mais tarde, não pareceria sentir tantos remorsos ao ver-se diante do carrasco do que por ter negado o mistério da Última Ceia. Por isso era de crer que conservasse essa lista para, no temor das punições eternas, poder fazer uma confissão completa in extremis de seus crimes e vícios, sem esquecer um só detalhe; e assim, guardava a escritura num cofrezinho em seu quarto. Convém salientar que, de um modo geral, a aventureira não se deixara abater pela sua própria desgraça. Chegou mesmo a propor ao marido, que permanecera na França, vir juntar-se a ela em Luettich, o que ele recusou. Entrementes, vivia ela como hóspede naquele convento, sem ser molestada e, na falta de maiores empreendimentos, dedicava-se à sua aventura amorosa com Theria, o que não a detinha, porém, de ser acessível a outros e levianos contatos galantes. Aconteceu que, num dia de março, apareceu no convento um abade francês que perguntou pela formosa Sr? De Brinvilliers e por ela foi logo recebido. O abade era um homem muito bonito, ainda jovem, de requintadas maneiras e cujo sotaque francês logo agradou à madame. Indagado sobre a razão de sua visita, deu uma resposta amável. — Estou realizando uma longa viagem — disse ele, sorridente — que me obriga a visitar alguns conventos. Fui então informado, casualmente, de que a senhora encontrara guarida neste lugar, o que muito me alegrou. E assim quis eu aproveitar a oportunidade de conhecer uma tão formosa e nobre dama, hoje tão perseguida pela desgraça, e dirigir-lhe algumas palavras de consolo. Paris inteira deplora vosso amargo destino e admira-se — que digo eu? — indigna-se até com o fato de os adversários da honrada casa De Brinvilliers terem conseguido pôr as Cortes Gerais contra Vossa Senhoria, a ponto de obterem tão injusta quão ignominiõsa condenação. Tanto mais me alegro por saber que madame se encontra aqui em segurança, onde poderá tranqüilamente aguardar o momento em que se faça justiça, cuja ausência tanto sentimos no cruel veredicto de Paris. Não poderá madame imaginar que falta sua formosa presença está fazendo nos salões de Paris. Tais palavras Mme. De Brinvilliers não escutava há muito tempo e lhe soaram aos ouvidos como um glorioso coro angelical. L u t o u , por instantes, contra as lágrimas que teimavam em saltar-lhe dos olhos e, num relance, viu pelas hsonjeiras palavras do abade tudo o que havia perdido. A h , sim! Ela ainda era bela, requestada e da mais nobre aristocracia. Se fora obrigada a renunciar, de momento, ao gozo de sua grande riqueza, isso não continuaria assim por muito tempo e os que haviam manchado seu nome sofreriam rigoroso castigo. Depois de uma animada e consoladora conversa de uma hora, o elegante abade beijou a mão da madamç e fez as suas despedidas, sem que deixasse de perguntar, eventualmente, se lhe seria permitido aparecer de novo, pois sua estada em Luettich demoraria ainda um ou dois dias mais. A dama concedeu-lhe jubilosamente essa permissão e acrescentou que a oportunidade de um novo encontro seria para ela não só valiosa, pelo conforto espiritual que lhe proporcionava, como a desejava ardentemente. Na verdade, confessou, teria um grande desgosto se o senhor abade não voltasse a visitá-la. O requintado sacerdote prometeu voltar e deixou madame numa agradabilissima excitação. Devido a essa inesperada visita sentia-se agora, de novo, uma mulher do mundo, uma aristocrata celebrada cujo regresso a Paris seria acompanhado pelos olhares ardentes de muitos cortesãos cobiçosos, e, sobretudo, acreditava ter impressionado bastante o belo e mundano abade, o suficiente para fazê-lo prolongar sua estada em Luettich por causa dela, se outros motivos não tivesse. Essa suposição da experiente mulher revelou-se, no outro dia, não ser sem fundamentos. Na manhã seguinte, o abade apareceu cedo, porém não antes da hora apropriada para ser recebido por uma nobre dama em sua vilegiatura campestre. O sacerdote, vestindo uma elegante sotaina de seda preta, apresentou-se com um ramo de lirios, flor rara nessa época do ano, e reencetou sem demora a conversa no ponto em que a deixara na véspera. A conduta de ambos era agora mais desenvolta e amigável, o processo e a precária situação de madame não foram sequer mencionados e a conversa tran,scorreu animada, em torno de assuntos frívolos e galantes, tendo a Sr? De Brinvilliers exibido todo o seu charme, ao que o abade respondia com ditos espirituosos que muito envaideciam a sua interlocutora. O íntimo colóquio desenrolava-se entre gracejos e galanteios que cada vez mais acendiam na dama o desejo de recuperar sua antiga posição nos salões parisienses. Finalmente, o audacioso abade atreveu-se a dar um beijo no ombro de madame, gesto que não foi repelido nem censurado. De ousadia em ousadia, ele acabou caindo de joelhos aos pés da aventureira e, em palavras ardentes de paixão, confessou que sua intenção de abandonar Luettich era agora impossível, que se sentia irremediavelmente preso aos encantos de madame e toda sua ambição era poder ficar até ao fim da vida junto de tão formosa e fascinante mulher. Segurava-lhe a mão, que cobria de beijos cálidos, encostou a cabeça no seu colo e, perturbada, ela alisava-lhe sorridente os cabelos pretos e sedosos com a mão livre. — Senhor abade — murmurou ela, complacente. — Vossa Reverendíssima esquece que nos encontramos num convento. Assim como gosto de sua fogosa juventude e me desvanece sua inclinação por m i m , também lhe devo recordar que sou hóspede desta santa casa e devo merecer especial consideração por ser uma indefesa e perseguida mulher. Rogo que compreenda a minha situação e não me exponha ao perigo de perder tão cara hospitalidade. — Mas, por certo, minha preciosidade! — sussurrava ardentemente o apaixonado. — Como poderia eu atrever-me a algo que mereça a tua censura e reprovação! Diz-me ao menos que poderei esperar-te num lugar seguro e discreto, e convidar-te a passeio em minha carruagem! A h , como te amo, mon bijou! Ela ainda fez algumas objeções formais mas acabou cedendo e o encontro foi aprazado para a manhã seguinte, depois de discutidas algumas precauções, num lugar discreto fora da cidade. Pela primeira vez, o abade puxou-a contra si e beijou-a, sem protestos, quantas vezes quis. Depois, ela empurrou-o suavemente para a porta e passou o resto do dia pensando, alvoroçada, em sua nova e excitante aventura. Leu um pouco o seu manuscrito e, ao passar os olhos pela extensa confissão, estava longe de lembrar-se dos castigos do inferno para sua alma pecaminosa e, pelo contrário, encarava sua vida audaciosa e egolatra como um belo e violento incêndio que estivesse atingindo agora o auge e cuja extinção pertencia ainda a um futuro muito distante. No dia seguinte, ataviou-se requintadamente, colocou alguns dos lírios perfumados em seu generoso decote e, envolta numa capa escura, dirigiu-se a pé ao encontro marcado. Fora da cidade, numa vereda limitada pelos muros de dois jardins, ficou aguardando a chegada do galã enquanto respirava, perturbada, os aromas capitosos de ar primaveril. Instantes depois, ouviu o ruído de uma carruagem que se aproximava rapidamente. Adiantou-se para a beira do caminho, pisando a grama úmida, e viu a berlinda despontar na curva, diminuir a marcha e estacar ao seu lado. Por uma janela viu o belo e sorridente rosto do abade, que se inclinou para fora, a fim de ajudá-la a pôr o pé no estribo. Nesse momento, ouviu passos atrás de si e sentiu-se fortemente agarrada por braços implacáveis. Apavorada, ainda teve tempo de voltar a cabeça e ver-se cercada por três, quatro, cinco estranhos, e logo desmaiou, com um terrível grito que espantou os cavalos, ao reconhecer o uniforme dos policiais parisienses. Quando, passados alguns minutos, voltou a si, estava sentada na berlinda, puxada por dois cavalos, que corria velozmente pelas estradas, escoltada por cinco cavaleiros. Ao seu lado ia já sentado o abade, que usava agora o uniforme de oficial do real corpo de polícia de Sua Majestade o rei de França. Era o Cabo Desgrais, que as cortes francesas haviam destacado para a captura da criminosa e que realizara sua missão com a ajuda dessa falsa comédia amorosa, pois quisera evitar a detenção no próprio convento, com receio de uma eventual revolta do povo. Assim chegou ao termo a história da Sri” De Brinvilliers. E, embora se debatesse para que o seu manuscrito não fosse confiscado por Desgrais, a verdade é que não precisou preocupar-se mais com ele, pois no curto espaço que mediou entre a captura e a execução capital em Paris não teve ela tempo nem oportunidade para acrescentar mais nenhuma anotação em sua tenebrosa lista.

A Involuntária Viagem de Anton Schievelbeyn Pelas índias Orientais (Hermann Hesse)

Que seja, em parte, para eterna remembrança de meus cometidos pecados e sua consumada expiação e, mormente, para honra e glória de Deus Nosso Senhor, de tudo o que hei guardado e assentado de minhas viagens e peregrinações por longes mares e exóticas terras, conforme ao Senhor aprouve, vou dar fiel relação. Sobretudo, das muitas e notáveis caridades que o Senhor, em Sua benevolência, praticou em m i m , grande e mísero pecador. Primeiramente, devo narrar com brevidade as minhas circunstâncias e destinos antecedentes, quando, mui jovem ainda, naveguei pelo mar e fui testemunha de estranhas e terríveis aventuras. Quando cheguei ao Cabo da Boa Esperança, onde os flamengos estavam tenazmente melhorando sua recente colônia, ora com liberdade, ora com acolhida hostil, deles fui hóspede e recebi generosas provas de hospitalidade, pois tão doente eu estava que não me atrevia sequer a pôr fé na minha sobrevivência. Mas recuperei-me e toda a minha juvenil animação voltou. Ajudava prazeroso os holandeses, trabaIhava com afinco e, mais tarde, casei com minha cara esposa, que era então uma senhora viúva. Tornei-me um homem abastado, possuía casa, terras de boa semeadura e de pasto, e duzentas ovelhas africanas, brancas e pretas. Ora, tendo conseguido tão considerável prosperidade, e como de mim não tinham sido inteiramente banidos os pendores levianos da mocidade, o demônio tentou-me de novo e assim me tornei um presunçoso, só pensando em comer e beber, em gozar uma boa vida e trabalhar pouco. Tinha bons e numerosos amigos que me acompanhavam alegremente, mas a minha mulher não gostava disso, me advertia com sensatas palavras e me recriminava dizendo: ” C o m o pudestes, caro esposo, tornar-vos tão preguiçoso e perverso? Esperais, acaso, que Satã vos conquiste a alma e a percais nas chamas da perdição eterna?” Eu, porém, não dava ouvidos. Nos momentos em que suas recriminações realmente me agastavam, sentia vontade de bater-lhe, mas, acima de tais impulsos, estava o muito medo que lhe tinha. Ela era extraordinariamente robusta e trabalhadora, muito afeita aos rudes trabalhos da lavoura, cuidava zelosamente das terras e gados e rezava sempre ao Senhor, com muitos e desgostosos suspiros. Mas tudo era em vão pois eu tudo desperdiçava, consumia e desbaratava em meus vícios perdulários, que o Senhor me perdoe em Sua grande misericórdia, amém. Ora, como a minha cara esposa era mulher de muita esperteza e invenção, e como não visse em m i m desejos de arrependimento que a consolassem, maquinou uma ardilosa solução que passo a contar. Certa noite em que eu estivera comendo e bebendo com três bons companheiros e na casa não havia mais do que alegria, cantos e risos, fui deitar-me, altas horas, embriagado. Seria desnecessário dizer que logo dormi profundamente. Por isso me assustei quando, de madrugada, senti que me puxavam e arrancavam do leito. Comecei gritando em altos brados e vi minha mulher entrar no quarto, acercar-se de mim e dizer: “Aquietai-vos, que tudo se faz com meu consentimento. Nada tendes a recear”. Havia quatro homens fortes que me vestiram a roupa, em gestos de grande pressa, tiraram-me para fora de casa, sentaram-me numa carroça e me ataram com sólidas cordas. Creio que qualquer outro homem, em tal vicissitude, ficaria tão terrivelmente apavorado quanto eu. Perguntei o que estavam fazendo comigo. Minha boa esposa chorou muito e disse, com triste semblante: “Tereis de despedir-vos agora”. Despedime e beijei-a, em altos prantos. Os homens subiram na carroça, sentaram-se a meu lado e não disseram palavra. Seguimos, em trote largo, na direção do porto, soltaram-me do banco e levaram-me para bordo de um lugre holandês, entregando-me ao capitão. Colocaram-me uma carta na mão, gritaram adieu e desceram para terra. Tentei logo segui-los mas fui agarrado e tive de permanecer a bordo, em grande aflição. Mais tarde, entregaram-me ainda um pequeno baú. A uma hora da tarde, ouviu-se o tiro de largada e o lugre zarpou para o mar. Vieram então buscar-me, disseram os serviços de bordo que eu tinha de fazer e tornei-me um marinheiro, o que, aliás, já fora quando moço mas estava muito longe de pensar em sê-lo de novo. Esse dia, que me parecia ser o mais triste de minha vida, foi o vigésimo terceiro do mês de maio do ano da graça de m i l seiscentos e cinqüenta e oito. Logo soube pelos meus companheiros que o lugre vinha do seu porto de origem, nos Países Baixos, e estava na rota de Batávia. Carregava diversas mercadorias e também tinha alguns passageiros, entre eles o Dr. Walter Schultz, de Amsterdã, físico e homem de muita ciência, a quem fiquei, mais tarde, devendo a vida. Na primeira hora de folga, abri a carta que era dirigida “ao meu amado e mui estimado esposo A n t o n Schievelbeyn” e que dizia o seguinte: “É mister que partais, o que deveras me entristece, mas não vejo como pudesse ser diferente. A gula e a luxúria em que vivíeis não condiziam com os deveres de um bom cristão e muito receei de que vossa alma estivesse condenada às penas do inferno. Não poderia eu desejar tal destino ao meu caro esposo e, por isso, mandei que vos pusessem nesse navio, para que vossos vícios carnais se percam e aprendais de novo a trabalhar. Com a ajuda de Deus, tenho a certeza de que ficareis bom de novo e, no vosso regresso, sereis acolhido com muita alegria. Orai bastante e vos peço que me mandeis uma carta de Batávia.” Ficou, pois, devidamente esclarecido que tudo não passara de um ardil de minha esposa. Isso desgostou-me muito, amaldiçoei-a pelo torpe embuste e resolvi nunca mais voltar. Viajaria por terras desconhecidas e permaneceria em cada uma delas o tempo que me aprouvesse. Endureci meu coração e logo recuperei o habitual bom humor. Só me desagradavam os pesados trabalhos de bordo. Comecei então fazendo amizade com os tripulantes, o que me deu mais ânimo. Todo bom marinheiro, quando está muito tempo em terra, fica deprimido e nostálgico, mas logo que salta para um bote e rema até o seu navio, ganha alma nova e sua alegria cresce à medida que se afasta de terra firme. Eu começava também a sentir a mesma coisa, porque o ambiente era de boa camaradagem e quase acreditava já não ter sido senão marinheiro toda a minha vida. Se eu fosse contar tudo o que passei e aconteceu comigo durante essa viagem, talvez não conseguisse acabar nunca. Tentarei, pois, ser breve. Quando estávamos a 39 ou 40 graus do Pólo Sul, começaram soprando uns perigosos ventos de oeste. Fazia muito frio e o céu estava coberto de nuvens escuras de maus presságios, as quais se desfaziam muitas vezes em chuva grossa ou nevascas sobre nós. Porém, os tripulantes mais experimentados diziam que era um vento favorável, pois nos empurraria mais depressa para as índias Orientais. Na verdade, o lugre corria assustadoramente veloz sobre o mar encapelado, cobrindo aproximadamente umas quarenta e cinco milhas por dia, durante quatorze dias. Então aconteceu o que meu coração prenunciava. Um terrível tufão se abateu sobre nosso navio, que se chamava Orcan; a bússola girava como doida e era impossível ouvirmo-nos uns aos outros. A aflição era tanta que todos gritaram: afundamos! afundamos! Todos rezávamos com muito e sincero fervor, certos de que nossas preces poderiam ser ouvidas apesar dos uivos medonhos da tempestade: Senhor! Senhor, ajudai-nos! Por aí se vê como estávamos completamente desesperados. Finalmente raiou a madrugada e, como por encanto, a tormenta amainou e a ventania abrandou, como se os raios do sol a tivessem derretido e afogado no mar. Porém muitos tripulantes adoeceram, sentiam muita febre e convulsões, e os dois médicos que viajavam a bordo não eram suficientes. Grande pecador que sou, fui um dos primeiros a cair doente e, apavorado, pensei que chegara a minha hora. Quis então redimir-me e passei horas rezando e suspirando, muito contrito, confessando minhas culpas. Mas Deus abençoara os remédios que o Dr. Schultz me dava e, para grande espanto meu, sarei seis dias depois. Recuperei a minha alegria e esqueci tudo. Entrementes, o filho de um rico mercador foi acometido de raiva, atirou-se na água e, embora o procurássemos com afinco, desapareceu para sempre. Pouco depois, apanhamos ventos contrários do sudeste e o Orcan não avançava, como se tivéssemos pegado uma calmaria. Depois de rondarmos largo tempo, conseguimos, enfim, aproar à baia de Sillebar, em Sumatra. Não posso relatar tudo o que ai nos aconteceu, mas desejo apenas mencionar que os Índios, de uma tribo chamada Orankay, foram traiçoeiros e falsos. Era uma terra fértil onde cresciam nozes indianas, figos, bergamotas e outros frutos, mas nada conseguimos receber, além de um pouco de água doce. Os nossos bons intérpretes, que tinham ido a terra para comprar leite e ovos, foram mortos pelos índios. Zarpamos de novo e, já em mar alto, fomos outra vez colhidos por violentos vendavais que nos obrigaram a lançar âncora, o que num dia aconteceu nada menos de sete vezes, e já estávamos no mês de setembro. Mas, finalmente, no dia 5 de outubro, fundeamos diante da mui famosa cidade de Batávia. O senhor guarda-mor subiu a bordo para ver se tínhamos mercadorias escondidas. E vieram muitos chineses, que viviam em grande número na cidade. Compraram-nos mercadorias e trouxeram nozes, alfarroba, limões, figos, e de tanto comer fiquei outra vez doente, durante três dias. Tivemos então de descarregar o lugre, a fim de seguirmos depois para Banda, a terra da noz-moscada. Porém, decidi ficar na belíssima Batávia. Recebi o meu soldo e saltei em terra. Dias depois, chegou ao porto um navio com destino à Holanda. O capitão precisava de homens e perguntou se eu queria engajar-me. Era uma boa oportunidade para regressar e ajustar contas com minha mulher, mas eu era teimoso e, além disso, a cidade de Batávia parecia-me um delicioso paraíso e resolvi ficar mesmo por lá. Admirei, sobretudo, os diligentes chineses. Usam o cabelo fantasticamente comprido, o que é um antigo costume desse povo pagão. E se alguém lhes corta os cabelos, passa a ser tão odiado pelos chineses que nada de bom da parte deles lhe poderá advir. Também os vemos jogando assiduamente e qualquer um deles é capaz de perder em pouco tempo todos os seus haveres, seus escravos e escravas, até sua mulher e filhas, que os ganhadores logo vendem como escravas, guardando as mais bonitas para serem suas concubinas. Quando isso lhes acontece, arrancam os pêlos das barbas em grande desespero e ficam tão pelados que quem os vir pela primeira vez julgará que são mulheres, e muitos marinheiros voluptuosos já foram enganados por causa disso. Os chineses enterram seus mortos num lugar especial, fora da cidade, em redor de uns templos com telhados e portas arqueados, onde depositam imensos pratos com iguarias e longas liras de papel pintado, com o que pretendem subornar o diabo. Os Índios daqui são completamente diferentes. Muitos são com freqüência torturados na roda, por ordem de seus amos brancos e chineses, e fumam muito ópio (uma erva perigosa) até ficarem completamente fora de si. Então correm pelas ruas e gritam Amok!, o que na lingua deles quer dizer que matarão qualquer um que lhes apareça. E a verdade é que matam muita gente quando ficam possessos e depois são punidos na roda, porquanto a justiça da terra não tolera essas loucuras pagãs. Lembrei-me agora que na carta me foi pedido que enviasse novas de Batávia à minha esposa. Trazia sua carta sempre comigo mas não queria escrever-lhe, pois ainda sentia muito rancor em meu peito e estava decidido a abandoná-la definitivamente. Quanto mais me recordava de meu antigo conforto e fácil manutenção, mais me revoltava o ardil com que minha esposa me expatriara à força. Decidi hospedar-me numa estalagem onde viviam muitos marinheiros de várias nações — holandeses, alemães, franceses e outros. Levavam uma vida ociosa e só embarcavam quando precisavam de dinheiro para beber e jogar. Fui bem recebido e logo passei a fazer parte do alegre grupo, nada me faltando para comer e beber. Também havia jogo o dia todo, muito barulho e bebedeiras, e grande número de bailarinas indianas e chinesas, tocando harpa e fazendo exóticas danças que muito excitavam a malta. Também apresentavam comédias com máscaras medonhas e gritos assustadores. Desgraçadamente, devo confessar que fui induzido por um velho marinheiro a provar o veneno da erva pagã, o ópio, e fiquei muito doente; quando me curei nunca mais quis fumar essa droga maldita. Nessa estalagem, que pertencia a um holandês, havia uma serva indiana, de nome Sillah, muito bonita e esbelta de corpo, tez morena mas não muito escura. Eu gostava muito dela mas Sillah não queria saber de marinheiros. Ela era muçulmana e nascera na cidade de lapare. Muitas vezes passeei nela cidade, ora sozinho, ora na companhia da malta; vi muitas e assombrosas raridades, templos, lugares sagrados, árvores e plantas estranhas, palmeiras de leque e cravoárias. As semanas passaram e o meu dinheiro acabou até o último dobrão, derretido como neve em março. Mas eu não estava disposto a voltar a servir como marinheiro. Voltei à estalagem pensando no que fazer e encontrei Sillah. Dirigi-lhe galanteios sumamente lisonjeiros e perguntei-lhe se não gostaria de me dar um beijo. Respondeu que não: só eu casando com ela. Ri-me muito e deixei-a partir. Em janeiro, a maior parte dos meus companheiros voltava a embarcar, espalhados por diferentes navios. Despedimo-nos com grandes provas de amizade e tive vontade de chorar. Fiquei completamente só, sem dinheiro, sem saber que rumo tomar. Nesses dias tristes, abordei novamente Sillah e perguntei-lhe se estava disposta a casar comigo. Eu não contara a ninguém que não era solteiro, que era casado há muitos anos com aquela que era a causadora de meu angustioso transe. A moça respondeu que sim. Porém, não poderíamos casar em Batávia e teríamos de ir viver em outra ilha. Assim, procurei serviço n u m dos navios que estavam no porto e engajei-me num galeão chamado Henriette Louyse, que zarpava para Amboina. Levávamos arroz e açúcar e no retorno carregaria noz-moscada e especiarias para Batávia. Partimos no dia 7 de fevereiro, esperando eu encontrar bom trabalho na Real e Benemérita Companhia das índias Orientais, uma ambição que logo se realizaria. Do que aconteceu nesta viagem limito-me a contar que sofremos grossas tempestades e corremos sérios perigos, como no arquipélago de Sonda e outros lugares; às vezes, julgávamo-nos prestes a ir a pique e rezávamos (menos a minha Sillah, que era de crença muçulmana); e até os marinheiros mais corajosos, que costumam ser também os maiores pecadores, ora praguejavam, ora rogavam a Deus que nos acudisse. Vi muitos chorarem lamentavelmente. Perdemos doze homens, entre eles um nobre, que era primo do governador de Tarnaten, uma pequena ilha onde existe uma montanha que vomita fogo. O nome dele era Korss e foi tragado pelas águas. Enfim, após todas essas provações, avistamos terra no dia 24 de maio. Amboina está construída à sombra da Fortaleza de Victória. Aí saltei com a minha formosa Sillah. O galeão abasteceu-se de água e mantimentos e logo continuou viagem para outras ilhas. Sillah e eu discutimos o que fazer. Ela já me dissera que, em caso de necessidade, estava disposta a abandonar o paganismo. Mas concluímos ser preferível ocultar das gentes o nosso verdadeiro estado. Não nos casamos mas eu sempre dizia que Sillah era minha mulher e não foi preciso ela abandonar sua crença turca. Por esse motivo. Deus Nosso Senhor me procurou mais tarde e castigou-me com justa severidade. Apresentei-me ao governador Hutsat, na Fortaleza de Victória, e pedi-lhe que me arranjasse um ofício. Depois de ter-lhe contado uma história falsa sobre mim, ofereceu-me uma horta e uma pequena casa de junco, na qual eu e minha indiana fomos morar. No princípio foi bom, pois estávamos longe de perigos. Tudo corria bem, e Sillah sabia cuidar de um homem. Tínhamos o que comer todo dia, e depois do almoço deixava-me ficar na cabana, um pouco entediado. Sillah trabalhava na horta colhendo coco, sagu e cravo. Vivemos juntos dessa maneira por quase um ano. Com o tempo comecei, porém, a ficar arrependido de tão errante vida. Sentia saudades da minha fazenda nas faldas da Montanha da Mesa e uma ânsia cada vez maior de voltar a casa. Apesar de agora nada me faltar, sentia-me estranhamente inquieto e insatisfeito. Raramente comia outra coisa além de sagu e pirão, e também peixe de salmoura. Cansei-me de tão monótona comida e perdi o apetite. Também já me saciara de Sillah e não mais copulava com ela, censurando-me asperamente por ter coabitado com uma paga herética. Após várias tentativas frustradas, consegui subir sozinho, em março de 1660, a bordo de um navio holandês, sem ser visto. Era um veleiro que estava carregando noz-moscada para Batávia. Fiquei muito alegre quando vi que nos afastávamos cada vez mais do porto. Desejei de todo o coração muita sorte e paz a Sillah, e já me via de volta ao Cabo e à minha legítima esposa. Mas, em minha ingenuidade, não pensara nos desígnios de Deus. Em breve se abatiam sobre nós ventos contrários, era impossível fazer uso das velas e tivemos de lançar ferro continuamente. Pouco depois acabou a água potável e começamos a passar terríveis provações. Muitos adoeceram, outros lamentavam-se, choravam e gemiam confrangedoramente. Nesse terrível desespero descobrimos, de súbito, uma ilha. Ancoramos ao largo e arriamos com presteza um bote onde cabiam onze homens, sendo eu um deles. Remamos vigorosamente rumo a terra mas as costas eram tão rochosas e escarpadas que não encontramos lugar para varar o bote e tão violenta era a ressaca que temíamos que o bote virasse e se desfizesse de encontro às rochas, destruindo completamente as nossas esperanças. Porém, alguns de nós sabíamos nadar, inclusive eu, e conseguimos chegar a uma praia. Só um dos meus companheiros morreu afogado nos imensos vagalhões da ressaca. Logo corremos para um pequeno riacho, louvamos a Deus e cada um bebeu tanta água quanto podia. Depois, voltamos correndo à praia, a fim de chamarmos os que ficaram no bote. Mas ele já não mais ali estava onde o havíamos deixado e não sabíamos se fora levado pelo vento ou tragado pelo mar violento. Gritamos, berramos a plenos pulmões, mas foi tudo em vão. Nesse momento, sentimo-nos terrivelmente assustados, lançando-nos ao chão e assim ficando por longo tempo, como mortos insepultos. A situação era deveras desesperadora e não poderíamos sobreviver por muito tempo, quanto mais pensar em rever terras habitadas. Até hoje não pude saber qual foi o destino do nosso bote e acredito piamente que tenha afundado. Assim ficamos cinco homens na praia deserta, gritando ainda por mais duas horas, clamando em altas vozes e olhando o mar tempestuoso que nos separava do mundo. Aconselhamo-nos sobre o que fazer e, não achando solução, permanecemos um dia e uma noite naquele lugar e quase morríamos de fome por nada encontrarmos para comer. Passado algum tempo, um de meus companheiros, de nome Koellen, disse que não queria continuar ali de braços cruzados e que deveríamos partir em busca de alimento pelo interior da ilha. Eu estava de acordo com ele, e também um outro marinheiro de nome Karlsen, mas os dois restantes não queriam sair da praia, esperançosos no regresso do barco. Então despedimo-nos, com muito afeto e comoção, deixando os dois na praia e partimos para o interior da ilha. Por todos os lados encontrávamos apenas rochas estéreis e íngremes, comemos as folhas de uma árvore desconhecida para matar a fome e fortalecer o corpo. Subimos penosamente os rochedos escorregadios, cruzamos terríveis abismos, sob o bramido de poderosas cataratas e no dia seguinte caímos desfalecidos, sem forças para avançar mais em tão inóspita natureza. A fome nos maltratou odiosamente e eu teria ficado muito agradecido aos céus se me enviassem uma tigela de pirão da boa Sillah. Estendemo-nos inanimados sobre os rochedos, durante toda a noite; víamos a morte certa nos rondando e, em nossa aflição, apelamos para a misericórdia de Deus. Nunca uma oração cristã foi dita em vão e desconheço um caso em que as preces ao Senhor .sejam completamente infrutíferas. O nosso bondoso Pai escutou nossos lamentos no ermo e, pela manhã, sentimo-nos armados de novo ânimo e caminhamos em outra direção. Encontramos algumas raízes e ervas, bebemos em rios perigosos, sem cuidar de saber se neles havia jacarés ou não, e acercamo-nos novamente da costa, mas num ponto diferente daquele que havíamos deixado dias antes. Após tantos perigos e tormentos, o coração de cada um de nós pulou de júbilo quando avistamos um barco de pescador encalhado na praia. Logo descobrimos um atalho entre as rochas, por onde seguimos com alvoroço. Na orla do mato encontramos uma choupana de pescadores e, dentro dela, um velho índio que se alimentava apenas da pesca. Quando nos viu aparecer de súbito, o sangue gelou-se-lhe de susto, pois estávamos tão exaustos, famintos e andrajosos que mais parecíamos almas penadas do que criaturas v i vas, além de que o ancião jamais vira brancos por aquelas paragens. O meu companheiro de nome Karlsen dirigiu-se-lhe cortesmente em malaio e contou-lhe nossas desditas. O eremita serviu-nos arroz e peixe seco e nós agradecemos ao Senhor essa inesperada graça. Comemos cautelosamente, pois nossas tripas estavam muito ressequidas do prolongado jejum e um excesso de alimento poderia nos matar. O eremita instruiu-nos sobre as artes da pesca e, já rcconfortados, lançamo-nos ao mar na sua pequena canoa e pescamos com muito êxito. Permanecemos na companhia desse bom índio durante vários meses, pescando e secando o peixe sobre as rochas. Plantamos um pouco de arroz e tremoço e não passamos necessidades. Mas cada dia que passava a nossa tristeza era mais pesada, pois minguadas eram as nossas esperanças de poder abandonar a ilha e regressar a outras terras e à nossa pátria. Tínhamos as roupas em farrapos, os cabelos e as barbas estavam muito compridos, em suma, parecíamos mais três selvagens ou demônios da floresta do que seres cristãos e civilizados. Passávamos dias inteiros sem proferir palavra, acocorados na praia olhando o mar e chorando em silêncio, sem encontrarmos consolo. Em uma noite de chuva e forte ventania, deitamo-nos todos na choupana, acendemos uma pequena fogueira e não conseguimos dormir. Então, um dos meus companheiros levantou-se, jogou um galho nas chamas e propôs que cada um contasse uma história de aventuras, começando ele por contar a sua. Depois tocou a vez do meu outro companheiro e nunca na minha vida eu escutara histórias tão terríveis como nessa noite de tempestade, pois ambos t i nham sofrido muito, tinham conhecido naufrágios, ataques de corsários, doenças, fome, e percorrido nações e povos estranhos em muitas e desvairadas terras de que eu não tinha notícia. Mas quando narrei fielmente as minhas aventuras, os meus companheiros caíram sobre m i m , dando-me pontapés e socos, chamando-me de hcrege, malvado e adúltero. Eu gritei e daí em diante não falei nem quis ouvir mais nada. Dei-me conta de minha depravação e, ajoelhado no escuro, chorei e rezei com veemência. Então, os meus dois companheiros ajoelharam-se também ao meu lado e rogamos em voz alta que Deus nos desse um meio de sair daquela ilha e nos permitisse voltar à nossa terra, pois já tínhamos sofrido resignadamente nossa cota de miséria, aflição e infortúnio. O reconhecimento de meus pecados confrangia-me o coração como se um rochedo me esmagasse o peito e roguei aos meus companheiros que me perdoassem, pois Deus nos estava castigando tão duramente por minha culpa, que era o mais ímpio e malvado dos três. Eles consolaram-me carinhosamente, perdoaram-me e ainda me ajudaram com orações, intercedendo em meu favor j u n t o aos seus santos protetores. Quando o tempo amainou, fomos novamente explorar a ilha mas não encontrávamos nada que nos fizesse entrever uma saída. Tampouco nos atrevíamos a avançar demais no mar com a frágil canoa do eremita. Duas vezes avistamos navios, louvamos o Senhor e gritamos e acenamos mas tudo foi em vão. Jogávamo-nos desesperados na praia, molhando a areia com nossas lágrimas quentes. Mais alguns meses passaram e, numa tarde serena, o bondoso eremita índio morreu, para nossa grande e sincera dor, e sepultamo-no cristãmente, pensando que a ele devíamos nossa vida. Colocamos sobre sua campa uma cruz de ébano, madeira muito abundante na ilha. Em nosso desespero, como nenhum de nós quisesse continuar naquela selvática e solitária ilha, após muitas orações fervorosas, decidimos partir na pequena canoa do ancião. Bem sabíamos quão poucas eram as esperanças de cruzar o oceano com vida mas preferíamos tentá-lo a ficar apodrecendo até que o Senhor se decidisse levar-nos. Embarcamos então na canoa, pusemos-lhe dentro algum peixe seco, arroz e sagu, e içamos uma pequena vela. Assim largamos para o alto-mar, sem esperança de chegar a outras terras, porém confiantes em encontrar, pelo menos, um navio que nos recolhesse. Após remarmos dois dias, vimos formarem-se imensas nuvens negras puxadoras de água, assim chamadas porque parecem chupar a água do mar para seu pesado ventre e que entre os marinheiros têm o nome de tornados. Quando vimos esse espetáculo correndo perdemos toda a coragem, lançamo-nos de bruços no fundo da canoa e clamamos por socorro. Deus compadeceu-se de nossa tão prolongada miséria e, em sua misericórdia, mandou-nos um galeão inglês. Mas, apenas mal havíamos entrevisto esse instrumento do Senhor e o tornado desabou sobre nós, com espantosa violência e ruido, desmantelando a frágil canoa num remoinho e jogando-nos às ferozes ondas. Ainda ouvi meu amigo Koellen gritar “Que Deus nos acuda”, e preparamo-nos para morrer com resignação. Naqueles instantes de pavor extremo, vi que um bote a remos enviado pelo navio estrangeiro se aproximava rapidamente de m i m com sete homens que, com perigo da própria vida, acorriam temerariamente a salvar-nos. Mas só puderam recolher Koellen e eu, pois nosso terceiro companheiro, de nome Karlsen, já se afogara e os vagalhões, altos como navios, nada nos deixavam ver à nossa volta. Estávamos completamente exaustos e nossos salvadores nos tomaram em seus braços e nos levaram para bordo do galeão. Agradecemos comovidos a esses homens generosos e ajoelhamo-nos no convés, dando graças a Deus. Levaram-nos imediatamente para dormir, deram-nos vinho e alimentos, e no dia seguinte já nossas forças voltavam, mais pelo ânimo de nos vermos a salvo e a caminho de nossa terra do que por vontade do corpo. Então fui passear pelo tombadilho e, de repente, tive um grande susto, pois entre os passageiros avistei a minha boa Sillah, a quem deslealmente abandonara em Amboina. Ela, porém, não me reconheceu, pois eu tinha a barba pela cintura e o rosto mais negro do que o de um selvagem africano e ninguém me tomaria, nem ao meu companheiro, por cristãos. Fiquei bem quieto e tratei de esconder-me de Sillah. Sua majestade o rei da Inglaterra não se encontrava, nessa época, em paz com os holandeses e, por isso, o galeão não pôde tocar em Batávia. Contei ao capitão tudo o que me acontecera e o que padecera até aquele dia e todos os que me ouviram, até muitas pessoas nobres e distintas, ficaram muito admiradas com a minha longa odisséia. Então roguei encarecidamente ao comandante que me deixasse ficar no Cabo, que era a minha terra natal, oferecendo-me para trabalhar a bordo sem soldo até lá chegarmos. O nobre marinheiro concordou mas ordenou que eu fizesse primeiro a barba e ficasse de novo com a minha aparência de homem civilizado. Há muito eu já tinha vontade de fazê-lo mas obedeci contrariado, temendo que Sillah me reconhecesse. Barbeei-me, então, pois uma ordem do capitão vale tanto quanto uma do papa, com a diferença de que a bordo existem chicotes e vergas para acalmar os insubordinados. A primeira vez que cruzei com Sillah minhas pernas tremeram como se tivesse sido atacado de sezões mas a moça indiana não me reconheceu, tão mudado de aparência eu estava, após as longas privações sofridas. Nesta nova travessia ainda aconteceram muitos contratempos mas seria enfadonho relatá-los, pois já relatei e escrevi muito e com isso fiz mais do que era necessário. Finalmente, enxerguei a Montanha da Mesa e não contive o pranto ao rever o Cabo depois de tantos anos, ansioso também por saber se encontraria minha esposa e amigos com vida. Despedi-me do capitão com muitos agradecimentos, abracei e beijei o meu bom companheiro Koellen, e, finalmente, pisei a terra da qual estivera separado cinco anos. Quando cheguei à cidade só encontrei caras novas. Tinham feito uma nova e ampla rua de que muito me admirei, sem contar muitas outras mudanças e novidades. Percorri toda a cidade como se fosse um estranho que ali chegasse pela primeira vez. Atravessei o campo pelo mesmo caminho por onde me haviam levado à força cinco anos atrás, e as lágrimas saltavam-me dos olhos, entre jubiloso e receoso. Vi então as minhas terras, muito bem cuidadas, os milheirais e os vinhedos, os pomares de belas frutas, e meu coração ansiava por possuir de novo todas aquelas boas coisas, e voltar a ver minha cara esposa, e apertá-la contra o peito. Quando cheguei a minha casa, gelaram-se-me as veias e meu corpo ficou paralisado de medo e tremores. Escutei muitos gemidos e lamentos, gritos e altos prantos dentro de casa e não sabia por quê. Enquanto ali estava, indeciso e não me atrevendo a entrar, a porta abriu-se de repente e minha esposa saiu desvairada e lavada em lágrimas, não dando sequer pela minha presença. Então acerquei-me dela e estendi-lhe os braços. “Quem sois vós?” — perguntou ela, arregalando os olhos como se tivesse visto um espectro de outro mundo. “Sou vosso esposo e viajei cinco anos” — respondi. Então ela me reconheceu e ficou muito assustada. “Por que chorais tanto e estais tao aflita?” — indaguei carinhosamente. Ela, muito agitada, suplicou que me calasse e levou-me para dentro de casa mas não para nossos aposentos. Empurrou-me apressadamente pela escada do sótão e quando aí chegamos fechou a porta com muita cautela, e tudo isso me deixou muito perplexo. Em voz baixa, pediu-me então que lhe contasse fielmente tudo o que me acontecera, sem faltar à verdade. Contei-lhe tudo, apenas ocultando, por mutias e compreensíveis razões, o caso de Sillah e as farras na estalagem, quando provei até ópio. “Por que não me escrevestcs, como vos pedi?” — perguntava ela, banhada em lágrimas. Contou-me então tudo o que acontecera na minha ausência. Esperara por mim dois anos, com toda a fidelidade. Depois, supondo-me perdido para sempre, desposara outro homem, de nome Ehlers, a quem agora pertencia, juntamente com minhas fazendas e tudo o que antes fora minha propriedade. Mas esse Sr. Ehlers estava agonizando e por essa razão minha esposa, que então era a esposa dele, estava chorando e lamentando-se tanto. E então ela disse: “Ficai escondido até que ele morra . ” E eu fiquei escondido no sótão durante cinco dias e cinco noites, em grande aflição e miséria, mas não me esquecia de agradecer ao Senhor, de todo o coração. Sua benevolência e a maravilhosa justiça de Suas decisões, pois no sexto dia houve Ele por bem chamar o Sr. Ehlers a Sua augusta presença e certamente lhe reservou dignos aposentos em Sua mansão celestial. Desci cautelosamente do desconfortável sótão, vesti bonitas e vistosas roupas e assim me tornei de novo um marido e homem rico, cercado pelo carinho de minha boa esposa, a quem consolei em sua tristeza. Nunca mais me entreguei aos antigos vícios da gula e luxúria, vivendo correta e dignamente. E assim Deus me ajude doravante a ficar no bom caminho com Sua inesgotável misericórdia, amém. E que assim seja para Sua maior glória, amém!

As Três Tílias (Hermann Hesse)

Há mais de cem anos, existiam no verde cemitério do Hospital do Espírito Santo, em Berlim, três antigas e belíssimas tílias, tão altas e copadas que cobriam todo o cemitério, como uma abóbada, com seus ramos, galhos e folhas entrelaçados. A origem dessas três admiradas tílias remontava, porém, a vários séculos atrás e é contada da seguinte maneira: Viviam em Berlim três irmãos que cultivavam entre si uma amizade tão profunda, uma confiança tão sólida, como só muito raramente se vê. Certa noite, o mais novo deles saiu sozinho, sem dizer coisa alguma aos irmãos, pois pretendia ir encontrar-se com uma moça, numa ruela afastada, para passearem juntos. Mas, antes de chegar ao loca! do encontro, quando caminhava alegremente e entregue a seus devaneios amorosos, ouviu um gemido abafado e agonizante, que lhe pareceu vir de um recanto sombrio e solitário entre duas casas; dirigiu-se para lá, supondo tratar-se de algum animal ferido, ou mesmo de uma criança a quem acontecera alguma desgraça e esperava por ajuda. Porém, quando chegou ao lugar escuro de onde partiam os gemidos v i u , apavorado, um homem estendido numa poça de sangue; abaixou-se e perguntou, compadecido, o que lhe acontecera e o que poderia fazer pelo infeliz, mas só teve como única resposta um débil sussurro e um arfar entrecortado, de quem já está nos estertores agônicos; o desgraçado recebera uma facada em pleno coração e, pouco depois, morria nos braços de quem intentara acudi-lo. O jovem não sabia o que fazer. Consternado e perplexo, decidiu prosseguir com passos vacilantes em seu caminho pela rua, o assassinado já não dava mais sinal de vida e já nada adiantava ele continuar ali de braços cruzados. Porém, ao entrar na ruela encontrou-se com dois policiais de ronda. O jovem pensou se deveria solicitar a ajuda deles ou afastar-se silenciosamente, já que o problema, afinal de contas, não lhe dizia respeito. Os guardas, entretanto, notaram o ar assustado do moço e, acercando-se viramlhe os sapatos e as mangas da camisa manchados de sangue. Ora, não hesitaram em prendê-lo imediatamente, arrastando-o à força. Ele lhes contou, suplicante, o que acontecera, mas os guardas nem lhe davam ouvidos. Encontraram o cadáver, já quase frio, e levaram o suposto .assassino para o cárcere, amarrando-o com grilhões e mantendo-o sob severa vigilância. No dia seguinte, foi ouvido pelo juiz. O cadáver foi trazido e só então, à luz do dia, o jovem reconheceu no assassinado um aprendiz de ferreiro com quem fizera, tempos atrás, alguma camaradagem. Mas, antes, já declarara não conhecer o assassinado e nada saber sobre ele. Com isso ficou mais reforçada a suspeita de que o tivesse esfaqueado e depois a situação agravou-se quando começaram desfilando as testemunhas que conheciam o morto; uma delas declarou que o jovem, tempos atrás, tivera ligações com a vitima, que tinham sido até bons amigos mas sobreviera uma disputa entre eles, por causa de uma moça, e dai em diante não mais se deram. Havia nisso alguma verdade, mas só uma pequena parcela, que o inocente admitiu, reiterando sua completa inocência e implorando não só justiça mas clemência. O juiz não duvidou que ele fosse o assassino e conseguiu dispor de suficientes provas para condená-lo e entregá-lo ao carrasco. Quanto mais o acusado insistia em sua inocência, mais culpado parecia aos olhos do tribunal. Entrementes, um de seus irmãos — o mais velho fora ao campo para tratar de negócios — esperava em casa pelo caçula inútilmente e, já alarmado, saiu em sua busca. Quando o informaram de que o irmão fora levado a tribunal e acusado de homicídio, embora o negasse tenazmente, ele correu logo à presença do juiz. — Meritíssimo Juiz — disse ele — tendes preso e condenado um jovem inocente! Soltai-o! Fui eu o assassino e não quero que um inocente sofra por m i m . Tive uma séria desavença com o ferreiro e o segui ontem à noite. Quando o vi encostar-se naquele recanto escuro para satisfazer uma necessidade, saltei sobre ele e cravei-lhe uma faca no coração. Surpreendido, o juiz ouviu a insólita confissão e ordenou que o algemassem e vigiassem até ser esclarecido o caso. Assim os dois irmãos ficaram acorrentados no mesmo cárcere, porém o mais novo ignorava o que o outro fizera por ele para salvá-lo e continuou insistindo em sua inocência. Decorreram dois dias sem que o juiz pudesse apurar algum fato novo para elucidar aquele dilema e já se encontrava propenso a dar crédito ao homem que se confessara assassino. Nesse ínterim, regressou o irmão mais velho que estivera a negócio fora de Berlim. Não encontrou ninguém em casa e soube pelos vizinhos o que acontecera ao irmão caçula e como o outro se entregara ao juiz. Nessa mesma noite, dirigiu-se à casa do magistrado, fez com que o despertassem e arrojou-se a seus pés, com as seguintes palavras: — Nobre Senhor Juiz! Vossa Senhoria tem dois inocentes a ferros que sofrem por minha culpa. O aprendiz de ferreiro não foi assassinado nem pelo meu irmão caçula nem pelo outro, pois fui eu o autor do crime. Não posso suportar por mais tempo o remorso de vê-los sofrer sem culpa e rogo a Vossa Senhoria que os mandeis soltar. Prendei a m i m , que estou pronto a pagar o meu crime com a vida. O magistrado estava agora mais perplexo do que nunca e não viu outra solução para o caso senão mandar prender também o irirlão mais velho. Na manhã seguinte, quando o carceteiro foi levar ao irmão mais novo sua ração de pão, entregou-a pelo postigo da cela, dizendo: — Bem que eu gostaria de saber qual de vocês três f o i , afinal, o celerado. Por mais que o jovem o interrogasse e pedisse uma explicação para aquelas palavras, o carcereiro nada mais quis adiantar, porém o infeliz concluiu que seus irmãos tinham vindo apresentar-se à justiça para salvarem sua vida à custa da deles. Rompeu então em altos gritos e pediu que o levassem de novo à presença do juiz. Foi levado, arrastando os grilhões, e disse, com a voz entrecortada de soluços: — Oh, digno Juiz, perdoai tê-lo feito esperar tanto pela verdade! Mas eu supunha não ter sido visto quando perpetrava o crime e, assim, não haver quem provasse minha culpa. Mas agora reconheço que tudo tem de seguir seu caminho reto e não posso nem quero continuar negando que fui eu quem, realmente, assassinou o ferreiro. Sou eu que tenho de expiar com a minha pobre vida esse crime sem perdão. O juiz arregalou os olhos de espanto e já nem queria acreditar no que ouvia. Sua surpresa era indescritível e, no íntimo, começava a se arrepender por ter de cuidar de tão estranho caso, em que para um único crime apareciam mais autores do que era preciso. Fez o preso voltar a sua enxovia e mandou vigiar igualmente os outros dois irmãos. Meditou longamente sobre o assunto, pois bem via que só um deles podia ser o assassino e os outros dois se entregavam ao carrasco por generosidade de alma e puro amor fraterno. Suas cogitações não tinham fim e o juiz apercebeu-se de que, em semelhantes situações, os raciocínios humanos comuns não levavam a uma conclusão definitiva. Teria de recorrer ao discernimento de uma autoridade superior à sua e por isso mandou que os presos ficassem bem guardados enquanto ele solicitaria uma audiência ao príncipe eleitor, a quem relatou minuciosamente o caso. O príncipe ouviu com a maior admiração e, no final, disse: — Raro e curioso caso me contais! Pressinto, em meu coração, que nenhum dos três cometeu o assassinato, nem mesmo o mais novo que vossos guardas prenderam, e que a verdade é aquela declarada no começo pelo mais moço. Porém, como se trata de um assassinato, não podereis soltar o suspeito sem razão plausível. Por isso, vou apelar a Deus Nosso Senhor para que seja Ele próprio o juiz desses três fiéis irmãos e que fiquem entregues ao Seu julgamento. Assim foi feito. Chegara a primavera e, num dia quente e l u minoso, os três irmãos foram levados para fora da cidade, a um lugar verdejante onde teriam de plantar cada um deles uma nova e viçosa tilia. Mas foi-lhes ordenado que plantassem as tílias não com as raízes para baixo mas com as verdes e tenras copas metidas na terra e as raízes voltadas para o céu. A árvore que morresse ou secasse primeiro, essa teria sido plantada pelo assassino. Seria esse o irmão sentenciado. Assim cada um dos três irmãos plantou sua árvore, com o maior desvelo, os galhos enterrados na terra, as raízes apontadas para o alto. Não tardou muito, porém, que nas três pequenas árvores começassem a romper novos brotos, dos brotos surgissem novas folhas e, dentro em breve, as raizes fossem encobertas por novas copas verdejantes, como sinal de que os três irmãos estavam inocentes. E as tílias cresceram, floresceram, tornaram-se grandes e robustas árvores, e durante muitas centenas de anos foram vistas e admiradas no cemitério do Hospital do Espírito Santo, em Berlim.