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Archive for the ‘Charles Bukowski’ Category

um poema cruel (Bukowski)

eles continuam a escrever
a despejar poemas –
jovens rapazes e professores universitários
mulheres que bebem vinho toda a tarde
enquanto os maridos trabalham,
eles continuam a escrever
com os mesmos nomes nas mesmas revistas
cada ano a escreverem pior,
publicam colectâneas de poesia
e despejam mais poemas
parece um concurso
é um concurso
mas o prémio é invisível.

eles não escrevem nem contos nem ensaios
nem romances
apenas
despejam poemas
todos parecidos com os dos outros
e cada vez menos originais,
e alguns dos rapazes cansam-se e desistem
mas os professores nunca desistem
e as mulheres que bebem vinho toda a tarde
nunca, mas mesmo nunca, desistem
e chegam outros rapazes com novas revistas
e há troca de cartas entre poetas e poetisas
alguns chegam a foder
e tudo é exagerado e aborrecido.

quando os poemas saem
eles reescrevem-nos
e enviam-nos para a próxima revista na lista,
e fazem leituras
todas as que conseguem fazer
a maior parte de borla
na esperança que alguém repare neles
que alguém os aplauda
lhes reconheça o talento
os felicite
eles estão convencidos da sua genialidade
há muito poucas dúvidas,
e muitos vivem no Grande Porto ou Grande Lisboa,
e as suas caras são como os poemas que escrevem:
semelhantes,
e conhecem-se uns aos outros e
reúnem e odeiam e admiram e escolhem e expulsam
e continuam a despejar mais poemas
mais e mais poemas
mais e mais poemas
o concurso dos pasmados:
tap tap tap, tap tap, tap tap tap, tap tap…

Tradução

então queres ser escritor? (Bukowski)

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração da tua cabeça da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-
-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.

e nunca houve.

Tradução de Manuel A. Domingos

como ser um grande escritor (Bukowski)

tens que foder muitas mulheres
mulheres bonitas
e escrever alguns bons poemas de amor.

e não tens que te preocupar com a idade
e/ou novos talentos.

apenas bebe mais cerveja
mais e mais cerveja

e vai às corridas pelo menos uma vez
por semana

e vence
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer imbecil pode ser um bom perdedor.

e não te esqueças de Brahams
nem de Bach nem
da cerveja.

não faças exercício a mais.

dorme até ao meio-dia.

evita cartões de crédito
ou pagar seja o que for a
tempo e horas.

lembra-te que não há nenhum cu
no mundo que valha mais de $50
(em 1977).

e se tens a capacidade de amar
ama-te primeiro
mas nunca te esqueças da possibilidade de
derrota total
mesmo que a razão para a derrota
seja justa ou injusta –

sentir cedo o bafo da morte não é
assim tão mau.

afasta-te das igrejas e bares e museus,
e como a aranha sê
paciente –
o tempo é a nossa cruz,
mais o exílio
a derrota
a traição

tudo isso.

sê fiel à cerveja.

uma amante constante.

arranja uma grande máquina-de-escrever
e enquanto ouves os passos para cima e para baixo
lá fora

martela a coisa
martela com força

transforma-a num combate de pesos-pesados

transforma-a no touro na sua primeira investida

e lembra os velhos sacanas
que tão bem lutaram:
Hemingway, Céline, Dostoievsky, Hamsun.

se pensas que eles não enlouqueceram
em pequenos quartos
tal como tu agora

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então não estás preparado.

bebe mais cerveja.
há tempo.
e se não houver
está tudo bem
na mesma.

versão de manuel a. domingos como ser um grande escritor

tens que foder muitas mulheres
mulheres bonitas
e escrever alguns bons poemas de amor.

e não tens que te preocupar com a idade
e/ou novos talentos.

apenas bebe mais cerveja
mais e mais cerveja

e vai às corridas pelo menos uma vez
por semana

e vence
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer imbecil pode ser um bom perdedor.

e não te esqueças de Brahams
nem de Bach nem
da cerveja.

não faças exercício a mais.

dorme até ao meio-dia.

evita cartões de crédito
ou pagar seja o que for a
tempo e horas.

lembra-te que não há nenhum cu
no mundo que valha mais de $50
(em 1977).

e se tens a capacidade de amar
ama-te primeiro
mas nunca te esqueças da possibilidade de
derrota total
mesmo que a razão para a derrota
seja justa ou injusta –

sentir cedo o bafo da morte não é
assim tão mau.

afasta-te das igrejas e bares e museus,
e como a aranha sê
paciente –
o tempo é a nossa cruz,
mais o exílio
a derrota
a traição

tudo isso.

sê fiel à cerveja.

uma amante constante.

arranja uma grande máquina-de-escrever
e enquanto ouves os passos para cima e para baixo
lá fora

martela a coisa
martela com força

transforma-a num combate de pesos-pesados

transforma-a no touro na sua primeira investida

e lembra os velhos sacanas
que tão bem lutaram:
Hemingway, Céline, Dostoievsky, Hamsun.

se pensas que eles não enlouqueceram
em pequenos quartos
tal como tu agora

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então não estás preparado.

bebe mais cerveja.
há tempo.
e se não houver
está tudo bem
na mesma.

Tradução de Manuel A. Domingos

uma das melhores (Bukowski)

ela usava uma peruca prateada
a cara estava cheia de base e rouge
e tinha abusado no batôn
os lábios demasiado pintados
e o seu pescoço era enrugado
mas ainda tinha o cu de uma jovem rapariga
e as pernas eram boas.
tirei-lhe as cuecas azuis que usava
subi-lhe o vestido, e com a televisão ligada
tomei-a de pé
enquanto lutávamos pelo quarto
(estou a foder a morte, pensei, estou
a ressuscitar os mortos, maravilhoso
tão maravilhoso
como comer azeitonas às 3 da manhã
com a cidade a arder)
vim-me.

vocês os jovens podem ficar com as vossas virgens
dêem-me antes mulheres maduras e quentes de salto alto
com cus que se esqueceram de envelhecer.

é claro que depois tu vais embora
ou embebedas-te
o que é a mesma
coisa.

bebemos vinho durante horas e vimos televisão
e quando fomos para a cama
dormir para esquecer
ela deixou os dentes postos
toda a noite.

Tradução de Manuel A. Domingos

adeus (Bukowski)

adeus Hemingway adeus Céline (morrestes no mesmo dia)
adeus Saroyan adeus meu bom Henry Miller adeusTennessee
Williams adeus cães mortos nas auto-estradas adeus todo o
amor que nunca foi adeus Ezra é triste é sempre triste quando
alguém dá e depois alguém tira eu compreendo
eu compreendo e dou-te o meu carro e o meu isqueiro
e o meu cálice de prata e o telhado que afasta
a maior parte da chuva adeus Hemigway adeus Céline adeus
Saroyan adeus meu bom Henry Miller adeus Camus adeus Gorky
adeus equilibrista que cais enquanto rostos sem expressão
olham para cima depois para baixo e depois afastam a cara
zanguem-se com o sol, disse Jeffers, adeus Jeffers, eu só posso pensar
que a morte de gente boa e de gente má é igualmente triste
adeus D.H. Lawrence adeus à raposa dos meus sonhos e
ao telefone
foi mais difícil do que esperava
adeus Two Ton Tony adeus Flying Circus
fizeram o suficiente adeus Tennessee minha bicha alcoólica
esta noite estou a beber uma garrafa a mais de vinho
à tua saúde.

Tradução de Manuel A. Domingos

Poema para o meu 43º Aniversário (Bukowski)

Acabar sozinho
num quarto sepultura
sem cigarros
ou vinho –
só uma pequena luz,
barriga,
cabelo grisalho
e feliz por ter
o quarto.
… logo de manhã
eles aí estão
a fazer pela vida:
juízes, carpinteiros,
canalizadores, médicos,
ardinas, polícias,
barbeiros, lavadores de carros,
dentistas, floristas,
empregadas de balcão, cozinheiros,
taxistas…
e tu viras-te para
o lado esquerdo
para apanhares sol
nas costas
e não
nos olhos.

Tradução de Manuel A. Domingos.

O cobertor (Charles Bukowski)

Não ando dormindo bem ultimamente; mas é sobre isso, exatamente, que pretendo falar. É quando parece que vou pegar no sono que acontece. Eu disse “parece que vou pegar no sono” porque não passa disso. De uns tempos pra cá, tenho cada vez mais a impressão, a sensação, de que estou dormindo e, no entanto, no meu sonho eu sonho com meu quarto, que estou dormindo e que tudo está no mesmo lugar onde deixei quando fui pra cama. O jornal caído no chão, a garrafa de cerveja vazia em cima da cômoda, meu único peixinho dourado circulando devagar no fundo do aquário, todas essas coisas tão íntimas que parecem que já fazem parte de mim como o meu cabelo. E muitas vezes, quando NÃO estou dormindo, deitado na cama, olhando pras paredes, cochilando, esperando pra dormir, é freqüente me perguntar: ainda estou acordado ou já peguei no sono e sonho com meu quarto?

Tem acontecido muita coisa ruim ultimamente. Mortes; cavalos correndo mal; dor de dente; hemorragias, sem falar noutras coisas que não convém mencionar. Volta e meia me vem a sensação de que, ora, pior é que não pode ficar. E aí eu penso, bem, pelo menos você tem onde morar. Não anda aí pela rua. Houve tempo em que não me importava com isso. Hoje acharia insuportável. São poucas as coisas que ainda acho suportáveis. Já fui alfinetado, lancetado, é, inclusive bombardeado… com tanta frequência que simplesmente não agüento mais; não conseguiria enfrentar outro fogo cerrado.

Mas vamos ao que interessa. Quando pego no sono e sonho, não sei se estou no meu quarto ou se torno a acordar e tudo está acontecendo mesmo, só sei que começam ocorrer coisas estranhas. Noto que a porta do armário se abriu de leve e tenho certeza que momentos antes estava fechada. Aí percebo também que a fresta na porta do armário está em linha reta com o ventilador (fazia muito calor e deixei ele no chão) e que essa linha reta termina na minha cabeça. Fico de repente com raiva e me afasto do travesseiro. Eu disse “com raiva” porque sempre solto algum palavrão contra “aqueles” ou “aquilo” que quer me eliminar. Agora tenho impressão que estou ouvindo você dizer “Este cara é louco”, e de fato, é bem possível que seja. Mas, não sei porque, acho que não é bem o caso. Embora constitua um ponto muito fraco a meu favor, se é que chega a constituir. Quando ando no meio de outras pessoas, não me sinto bem, O que elas falam e o entusiasmo que demonstram nada têm a ver comigo. O mais curioso é que justamente quando estou na companhia delas que me sinto mais forte. Me vem a idéia seguinte: se podem existir só com esses fragmentos de coisas, então eu também posso. Mas é quando estou sozinho e todas as comparações se reduzem a mim mesmo contra as paredes, contra a minha própria respiração, contra a história, contra o meu fim, que começam a ocorrer coisas estranhas. Sou evidentemente um sujeito fraco. Experimentei ler a bíblia, os filósofos, os poetas, mas pra mim, de certo modo, erraram de alvo. Ficam falando de uma coisa completamente diversa. Por isso há muito tempo desisti de ler. Encontro um pouco de conforto na bebida, no jogo e no sexo, e dessa forma me assemelho bastante a qualquer membro da comunidade, da cidade e do país; a única diferença é que não tenho o menor interesse em “vencer”, constituir família, ter casa própria, um emprego respeitável etc. e tal. Portanto, lá estava eu: sem ter nada de intelectual, de artista; nem tampouco as raízes redentoras do homem comum. Me sentindo dependurado com uma espécie de rótulo indeferido e muito receio, sim, que isso marcasse o início da loucura.

E como vou julga! enfio o dedo no cu e coço. Tenho hemorróidas, aos montes. É melhor que uma relação sexual. Fico coçando até tirar sangue, até que a dor me obriga a parar. Os macacos, os gorilas, fazem o mesmo. Nunca viram eles nos zoológicos, com o rabo vermelho de tanto sangrar?

Mas deixa eu ir adiante. Embora você preferir que eu fale de excentricidades, podia descrever o crime. Esses Sonhos com o Quarto, como se poderiam chamá-los, começaram há alguns anos. Um dos primeiros foi em Filadélfia. Naquele tempo eu já não trabalhava muito também e talvez andasse inquieto por causa do aluguel. Não bebia mais que um pouco de vinho e cerveja e ainda não tinha começado a me dedicar, com força total, ao sexo e à jogatina. Apesar de estar morando na época com uma senhora que ganhava a vida girando a bolsinha na rua, me pareciam muito esquisito que ela quisesse ainda mais sexo ou “amor”, como dizia, quando chegava a minha vez, depois de ceder seus favores a 2, 3 ou mais homens no mesmo dia e noite, e embora eu fosse um sujeito tão viajado e tão encanado como qualquer Paladino das Ruas, tinha qualquer coisa com aquele negócio de meter ali dentro depois de tudo AQUILO… que não combinava comigo e me deixava aporrinhado. “Queridinho”, dizia ela, “você precisa entender que eu TE AMO. Com os outros não significa nada. É que você não conhece as mulheres. A gente pode dar pra um sujeito e deixar ele pensando que se tá participando da coisa, mas não tá nada. Com você é diferente, eu participo.” Todo esse papo não adiantava grande coisa. Só apertava ainda mais as paredes. E uma noite, não sei se estava dormindo ou não, mas de repente acordei (ou sonhei que acordei), olhei ao redor, e deparei com todos aqueles homenzinhos, uns 30 ou 40, amarrando nós dois na cama com uma espécie de arame prateado, e davam voltas e mais voltar, por baixo, por cima, por tudo quanto era lado. A tal senhora deve ter se dado conta do meu nervosismo. Vi que estava de olhos abertos, olhando pra mim.

– Fica quieta! – pedi – Não te mexe! Tão querendo nos eletrocutar!

– QUEM TÁ QUERENDO?

– Puta merda, eu pedi pra você ficar QUIETA! Fica parada agora!

Deixei que continuassem mais um pouco com aquilo, fingindo que dormia. De repente, com toda a força, ergui o corpo, rebentando o arame e surpreendendo os homenzinhos. Dei um soco num deles, mas não acertei. Não sei aonde foram parar, mas me livrei deles

– Acabo de salvar a vida da gente – disse pra tal senhora.

– Me beije, velhinho – retrucou.

Seja lá como for, retomemos a situação atual. Ando me levantando de manhã com o corpo todo marcado por vergões. Manchas roxas, Tem um determinado cobertor que venho observando há dias. Acho que me cobre sozinho enquanto durmo. Acordo e, às vezes, está aqui em cima na garganta, mal me deixando respirar. É sempre o mesmo. Mas até agora fingi que não notava. Abro uma cerveja, aliso bem o Programa de Corridas com o polegar, olho pela janela pra ver se está chovendo e procuro. Ando cansado. Não quero ficar imaginando nem inventando coisas.

E, no entanto, essa noite o cobertor voltou a me incomodar. Se mexe feito cobra. Assume várias formas. Não é capaz de permanecer estendido, cobrindo toda a cama, Na noite seguinte foi a mesma coisa. Atiro pra longe com o pé e cai junto do sofá. Aí vejo que anda. Com a maior rapidez, percebo que o cobertor se desloca no momento em que viro a cabeça pra outro lado. Levanto, acendo a luz, pego o jornal pra ler, leio tudo, até o que não me interessa, as notícias da bolsa de calores, os últimos modelos da moda, como cozinhar uma pomba, como se livrar do capim no jardim; cartas à redação, colunas políticas, anúncios de emprego, obituários, etc. Durante todo esse tempo o cobertos não se mexe e tomo 3 ou 4 garrafas de cerveja, talvez até mais, e aí então o dia já começa a raiar e depois fica mais fácil dormir.

Uma noite destas aconteceu. Ou começou de tarde. Tendo dormido pouquíssimo na véspera, me deite lá pelas 4 da tarde e quando acordei ou sonhei, outra vez, com o meu quarto, vi que estava tudo escuro e o cobertor aqui em cima na garganta, resolvido que desta vez era pra VALER! Nada de dissimulações! Queria o meu couro, e usava de força, ou então parecia que eu é que me sentia fraco, como se fosse num sonho, e precisei recorrer a todas as minhas forças pra impedir que finalmente me cortasse a respiração. Mas estava ali parado, enrolado em mim, de vez em quando desferindo rápidas estocadas, procurando me pegar desprevenido. Eu sentia o suor escorrendo da testa. Quem acreditaria numa coisa destas? Como era possível, porra? um cobertor ganhando vida e tentando me matar? Tudo é inverossímil enquanto não acontece pela PRIMEIRA vez – que nem a bomba atômica, os russo lançando um cosmonauta no espaço ou Deus descendo à terra e depois sendo pregado na cruz por aqueles que Ele mesmo criou. Quem há de acreditar em coisas que ainda estão por vir? No último pavio de vela? Nos 8 ou 10 homens e mulheres em alguma espaçonave, a Nova Arca, rumo a outro planeta pra plantar a exaurida semente da humanidade e recomeçar tudo de novo? E onde estava o homem ou a mulher que iria acreditar que esse cobertor queria me estrangular? Ninguém cairia nessa, por nada deste mundo! O que, não sei por que, só agravava a situação. Embora tivesse o maior desinteresse pela opinião das massas a meu respeito, queria, não sei por que, que ficasse sabendo do cobertos. Esquisito, não é? Por que seria isso? E o mais estranho é que eu, apesar de já ter várias vezes pensado em me matar, agora que o cobertor queria me ajudar, oferecia a maior resistência.

Por fim, arranquei aquele troço de cima de mim, joguei no chão e acendi a luz. Agora ia acabar com aquilo! LUZ, LUZ, LUZ!

Mas qual. Quando vi, estava se retorcendo ou andando uma ou duas polegadas, mesmo com o quarto todo iluminado. Sentei na cama e fiquei olhando com a maior atenção. Se mexeu de novo. Desta vez quase meio metro. Levantei e comecei a me vestir, me desviando dele pra achar os sapatos, as meias, etc. Depois que já estava todo arrumado, não sabia mais o que fazer. O cobertor agora estava imóvel. Quem sabe um passeio, pela ar noturno. Sim. Conversaria com os jornaleiros da esquina. Embora a perspectiva não fosse nada animadora. Todos os jornaleiros do bairro eram intelectuais: Liam G. B. Shaw, O Spengler e Hegel. E não eram propriamente jornaleiros: tinham 60, 80 e até 1.000 anos. Merda. Bati a porta com força e saí.

Aí, quando cheguei perto da escada, qualquer coisa me obrigou a virar e olhar pra trás. Você acertou: o cobertor vinha me seguindo pelo corredor afora, deslizando feito cobra, dobras e sombras na sua frente compondo a cabeça, a boa, os olhos. Devo confessar que, assim que a gente começa a se convencer de que um horror é um horror, no mesmo instante ele se torna MENOR. Por um instante cheguei a pensar que o meu cobertor era assim como um cachorro velho que não queria ficar sozinho sem mim, tinha que vir atrás. Mas de repente me lembrei que esse cão, esse cobertor, estava disposto a matar e então desci a escada correndo.

Sim, sim, ele veio no meu encalço! Andava tão depressa quanto queria, por aqueles degraus abaixo. Sem barulho. Determinado.

Eu morava no terceiro andar. Veio me seguindo. Até o segundo. Até o primeiro. A minha primeira idéia foi sair na disparada, mas lá fora estava muito escuro, um bairro silencioso e deserto, longe das grandes avenidas. A melhor solução seria me aproximar de algumas pessoas pra testar a realidade da situação. Precisava de PELO MENOS 2 votos pra me convencer de que era realidade. Os artistas que estiveram muito adiantados pra sua época já descobriram isso e as pessoas que sofrem de demência e de pretensas alucinações também passaram pela mesma experiência. Se a gente for a única criatura que enxerga uma visão, é sempre chamado de Santo ou de louco.

Bati na porta do apartamento 102. A mulher de Mick veio atender.

– Olá, Hank – disse, – entra.

Mick estava deitado. Todo inchado, as canelas com o dobro da grossura normal, a barriga maior que a de uma mulher grávida. Antigamente bebia feito doido e o fígado não agüentou mais. Estava com hidropisia. À espera de um leito vago no hospital dos Veteranos.

– Oi, Hank – disse, – trouxe cerveja?

– Ora, Mick – ralhou a mulher, – você sabe o que o doutor disse: nunca mais, nem mesmo cerveja.

– Pra que o cobertor, garotão? – me perguntou ele.

Olhei pra baixo. O cobertor tinha saltado pra cima do meu braço, pra entrar sem despertar atenção.

– Bom, é que tenho demais- respondi. – Me lembrei que você podia estar precisando.

E joguei aquele troço no sofá.

– Não trouxe cerveja?

– Não, Mick.

– De cerveja é que estou precisando.

– Mick – ralhou a mulher.

– Ué, pensa que é fácil parar de uma hora pra outra depois de tantos anos?

– Bom, uma, talvez – concedeu ela. – Vou buscar no mercado.

– Nada disso – protestei, – eu tenho lá na geladeira.

Levantei e me dirigi pra porta, de olho no cobertor. Nem se mexeu. Ficou ali sentado no sofá, olhando pra mim.

– Já volto – avisei, fechando a porta.

E pensei: estou achando que é só imaginação. Vai ver que levei o cobertor junto comigo e imaginei que estivesse me seguindo. Devia procurar mais as outras pessoas. Meu mundo é muito bitolado.

Subi a escada, coloquei 3 ou 4 garrafas de cerveja numa sacola de papel e voltei. Já estava no segundo andar quando ouvi um grito, um palavrão e depois um tiro. Desci correndo o resto dos degraus e entrei no 102. Encontrei Mick em pé, todo inchado, segurando uma Magnum calibre 32, da qual saía um fio de fumaça. O cobertor continuava no sofá, tal como eu tinha deixado.

– Mick, você tá doido! – dizia a mulher.

– Exatamente – confirmou ele, – no minuto em que você foi pra cozinha, esse cobertor aí, juro por Deus, esse cobertor aí saltou pro lado da porta. Estava querendo girar a maçaneta, tentando sair, mas não conseguiu pegar direito. Depois que me recobrei do primeiro susto, saí da cama, fui na direção dele e quando cheguei perto ele saltou da maçaneta, se enrolou na minha garganta e quis me estrangular!

– O Mick anda doente – explicou ela, – tem tomando injeções. Anda vendo coisas. Antigamente, quando bebia, ele também via. Vai ficar bom quando for pro hospital.

– Puta que pariu! – gritou, parado ali em pé e todo inchado naquela camisola, – tô dizendo que esse troço aí tentou me matar e por sorte a velha Magnum tava carregada, corri pro armário, peguei a arma e quando aquilo me atacou de novo, dei um tiro. Saiu rastejando, voltou pro sofá e tá ali, oh. Você pode ver o furo por onde a bala passou. Isso não tem nada de imaginação!

Ouviu-se uma batida na porta. Era o administrador.

– Tá havendo barulho demais aqui – disse. – Não pode ter televisão nem rádio ligado depois das 10 horas, nem muita algazarra.

E aí foi-se embora.

Cheguei perto do cobertor. Claro que tinha um buraco de bala. Parecia totalmente imóvel. Qual será o ponto vulnerável de um cobertor vivo?

– Porra, vamos tomar cerveja – propôs Mick. – Pouco me importa se morro ou não.

A mulher abriu 3 garrafas e Mick e eu acendemos dois Pall Mall.

– Olha, garotão – recomendou, – leva esse cobertor com você quando for embora.

– Não tô precisando, Mick – retruquei, – pode ficar pra você.

Tomou um gole bem grande de cerveja.

– Tira essa maldita porra daqui!

– Ué, ele tá MORTO, não tá? – perguntei.

– Como é que vou saber, merda?

– Tá querendo dizer que acredita nessa bobagem toda que ele contou, Hank? – perguntou a mulher.

– Acredito, sim, senhora.

Ela jogou a cabeça pra trás e deu uma gargalhada.

– Puxa vida, tô pra ver dois cretinos mais loucos. – E depois: – você também bebe, não é, Hank?

– Bebo, sim, senhora.

– Muito?

– Às vezes.

– Só sei que você tem que TIRAR essa porra de cobertor DAQUI!

Tomei um grande gole de cerveja. Pena que não fosse vodca.

– Tá legal, companheiro – concordei, – já que você não quer mesmo, eu levo.

Dobrei direitinho e pus no braço.

– Boa noite, pessoal.

– Boa noite, Hank, e obrigado pela cerveja.

Comecei a subir a escada. O cobertor continuava imóvel. Talvez a bala tivesse liquidado com ele. Entrei em casa e atirei em cima de uma poltrona. Depois sentei um pouco, pra olhar. Aí tive uma idéia.

Peguei uma panela e enchi de jornais. Depois fui buscar um facão. Coloquei a panela no chão, sentei na poltrona e pus o cobertor no colo, sempre de facão na mão. Mas não era fácil cortar o cobertor. Fiquei ali sentado , com o vento noturno da detestável cidade de Los Angeles me batendo na nuca, e vi que não era nada fácil cortar aquilo. Como é que ia saber? Talvez fosse alguma mulher que tivesse gostado de mim e que houvesse encontrado aquela maneira de voltar a me procurar. Pensei em 2. Depois me concentrei só numa. Aí levantei, fui à cozinha e abri a garrafa de vodca. O médico tinha dito que se eu insistisse em beber troço forte, morreria. Mas andava fazendo umas experiências. Uma dose do tamanho de um dedal uma noite. 2 no dia seguinte. Desta vez enchi o copo. Não era o fato de morrer que importava, e sim a tristeza, o espanto. Um punhado de gente que presta, chorando de noite. As únicas pessoas que interessam. Quem sabe o cobertor tinha sido essa mulher que agora queria me matar pra me levar pra junto dela ou procurava fazer amor feito cobertor e não sabia como… ou tentou matar Mick por ter atrapalhado quando ela quis abrir a porta pra sair atrás de mim? Maluquice? Claro. Mas o que é que não é? A Vida não é pura Loucura? Todos nós não somos bonecos que só falta dar corda… apenas uma voltas, a gente sai andando e de repente pára, pra sempre?… depois que se caminha pra lá e pra cá, fazendo planos, elegendo governadores, cortando gramados… Loucura, sem dúvida, mas o que é que NÃO É?

Bebi o copo de vodca de um gole só e acendi um cigarro. Aí peguei o cobertor pela última vez e ENTÃO CORTEI! Cortei, cortei e cortei aquele troço todo em pedacinhos, até que não deu mais pra cortar… botei tudo dentro da panela, depois coloquei perto da janela e liguei o ventilador pra levar a fumaça pra fora. E enquanto as chamas começavam a se formar, fui à cozinha e me servi de outro copo de vodca. Quando voltei, o fogo já estava alto, vermelho, forte, como qualquer bruxa velha de Boston, que nem Hiroshima, que nem um amor, qualquer tipo de amor, e não me senti bem, não me senti nada bem. Emborquei o segundo copo de vodca e não senti reação. Fui buscar outro na cozinha, levando junto o facão. Joguei ele na pia e tirei a tampa da garrafa. Olhei de novo pro facão dentro da pia. A lâmina estava manchada de sangue.

Verifiquei minhas mãos, procurando ver se havia algum corte. As mãos de Cristo eram muito bonitas. Olhei as minhas. Não tinha nenhum arranhão. Nem só um talho. Nem sequer cicatriz.

Senti as lágrimas escorrendo no rosto, arrastando-se feito coisas insensatas e pesadas, sem pernas. Estava louco. Devia estar realmente louco.

Extraído de ‘Fabulário Geral do Delírio Cotidiano’