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Archive for the ‘Meus Textos’ Category

São Jorge (Kiko Dinucci & Juçara Marçal)

“Guerreio é no lombo do meu cavalo
Bala vem mas eu não caio, armadura é a proteção
Avanço sob a noite iluminado, luto sem pestanejar
Derrubo sem me esforçar, a guarnição

A guimba e a fumaça do meu cigarro
Cega o olho do soldado que pensou em me ferir
Com um sorriso derrubo uma tropa inteira
Mesmo que na dianteira sombra venha me seguir

O gole da cachaça esguicho no ar
Chorando na labuta ouço a corrente se quebrar
E o golpe do destino esse eu sinto mas não caio
Guerreio é no lombo do meu cavalo”

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Morre Gabriel García Márquez

Como bem me disse um amigo a poucos minutos: “Morreu Gabo numa quarta-feira chuvosa, como o Coronel Aureliano Buéndia. Só não é outubro ainda….”

http://www.estadao.com.br/noticias/arte-e-lazer,morre-gabriel-garcia-marquez,1155304,0.htm

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Li hoje quase duas páginas (Fernando Pessoa)

Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.

A importância da desimportância

I Love Realism

“Um homem carrega seus livros”. A frase ressoa na minha cabeça como se a ouvisse pela primeira vez. Estranhamente o autor da frase não se lembra dela. Tinha eu onze, talvez doze anos. Lembro que me causou fortíssima impressão. Somente anos depois pude notar que foi ali que começou minha atração quase maníaca pela estética das frases.

E só foi bem depois disso que me convenci que a beleza por si só já era mais do que um meio ou um motivo, mas um fim em si,  só então é que pude me desculpar por mais essa futilidade confessa. E ainda que alguém discorde, se pensarmos que em nossas vidas tudo de importante volta e meia vem empacotado com um bolo de futilidades… eu hoje não perderia tempo tentando me justificar.

Mas volto a frase. Estou na sala da casa dos meus pais, meu pai curvado na estante recolhe seus últimos livros antes de sair de casa. Eu pergunto o que ele está fazendo, a frase ressoa, e meu interesse por livros torna-se instantâneo. Dramaticamente instantâneo, para o bem ou para o mal.

À partir daquele momento surgia uma nova necessidade, se a frase não fosse dita, eu talvez colecionasse selos ou moedas ao invés de livros. Ninguém acredita em destino a não ser quando um pedaço de reboco despenca do alto de um prédio pra nossa cabeça. A tragédia é inerente a condição humana, e perceber as coisas como inevitáveis ajuda a confortar o inesperado. Hoje acho que aquele momento foi determinante e inevitável, influenciou minha personalidade para o resto da vida. E não é fácil admitir o acaso, mesmo que o bom senso nos implore a entender que foi uma mera casualidade.

Digo isso pra me fazer entender, não é de hoje que me chamam de velho. Todas as minhas namoradas repetiram isso em algum momento e meus amigos mais próximos não escondem o espanto e não cansam de lembrar minha vergonhosa velhice precoce. Como alguém prefere Coltrane à sei lá o que esteja na moda? Nem eu mesmo consigo entender. Nenhum amigo meu ouvia Coltrane, Miles ou Charlie Parker, nem sabiam que eles existiam. E o motivo não é fútil, não havia quem os conhecesse por perto. Grande parte das coisas diferentes que conheci veio pelos livros. Eu nunca correria pra uma loja de disco a quilômetros de distância da minha casa se não tivesse lido um romancezinho besta (que infelizmente não lembro o nome) contando as histórias de um saxofonista americano exilado em Paris; sem isso eu nunca me perguntaria que tipo de música era aquela, e sem conhecer, nunca saberia se iria gostar ou não.

Dia desses eu folheava um livro do Hesse, me veio a pergunta: como seria minha vida se eu nunca tivesse lido Demian, ou ainda o Lobo da Estepe. o Lobo é o maior culpado da minha vergonhosa senilidade, depois que li a primeira vez devo ter envelhecido uns dez anos tentando superar os questionamentos que o livro causou. É certo que não devemos nos cobrar tanto ou tentar avançar além das nossas pernas, poucas coisas aliás, são mais inconvenientes que uma criança ou um jovem de bom senso. Hoje admito isso de bom grado, e não escondo o desejo de diminuir sucessivamente o pouco bom senso que acumulei ou fingi ter acumulado até o mínimo possível. Pretendo aos 40 já ter atingido o mesmo nível de um bêbe, quem sabe?!

Não tenho como evitar, mas estou convencido que a glória do dia-a-dia está reservada ao idiota da objetividade, ao Medalhão do Machado, ao Conselheiro Acácio do Eça. E se não fossem essas figuras eu talvez fosse o canalha fundamental que o Nelson Rodrigues tanto condenava. Não fosse Oscar Wilde e seu Dorian Gray, eu talvez desse mais importância ao meu trabalho. Não fosse o Hesse, eu talvez me desesperasse sem saber que existe uma certa unidade que eu posso buscar.

Hoje, quem não me conhece tão bem, até pode pensar que a maior importância da minha vida sejam os meus livros e os meus discos, e por isso eu sou um velho — ou pior um jovem travestido de velho. Mas eu particularmente não penso, nem tento pensar nisso. Não faz muito  tempo que passei a reconhecer que a maior importância na vida de alguém é buscar ou criar alguma coisa bela. Ainda que não tenha sentido ou utilidade. Ainda que não consiga.

Pra mim, os livros são só uma maneira de continuar buscando essas coisas enquanto eu estou sozinho em casa. Nunca os permito serem substitutos da realidade, são desimportantes, e por isso mesmo essenciais.

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Livros falados – LibriVox

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Uma descoberta recente que trombei por acaso ontem — pode não ser novidade pra muita gente, já que o site é um pouco conhecido, mas acho que vale a dica. A proposta e o jeitão do LibriVox lembram bastante o Gutenberg Project, sobre o qual já comentei por aqui um tempo atrás.

Mas ao invés de ditalizar e traduzir livros e contos, os voluntários do LibriVox os colocam no formato de livros falados (MP3/OGG) em vários idiomas.

Existe um fórum bem legal no site onde os projetos em andamento podem ser acompanhados, e apesar de boa parte do material estar em inglês, existem várias coisas interessantes faladas em português.

Para quem está com o inglês em dia, é possível acompanhar poemas, contos e livros completos falados, inclusive via PodCast, de autores conhecidos como Joyce, Jack London, D. H. Lawrence, Jane Austen e Charles Dickens, só pra citar alguns.

Projeto Gutenberg – Seja um voluntário!

O Projeto Gutenberg (PG) é um esforço voluntário para digitalizar, arquivar e distribuir obras culturais através da digitalização de livros. Fundado em 1971, é a mais antiga biblioteca digital. A maioria dos itens no seu acervo são textos completos de livros em domínio público. O projecto tenta torná-los tão livres quanto possível, em formatos duradouros e abertos, que possam ser usados em praticamente quaisquer computadores.

Além de simplesmente baixar os milhares de livros digitalizados, você pode ajudar o Projeto Gutenberg a produzir mais livros eletrônicos . Todos os livros eletrônicos do Projeto Gutenberg foram produzidos por pessoas comuns. Você pode ajudar de muitas maneiras:

Procure Livros em Papel Elegíveis

O primeiro passo na produção de um livro eletrônico se dá a partir de um livro em papel cujos direitos autorais já tenham caducado. Se o livro foi impresso antes de 1923, os seus direitos autorais norte-americanos já terão quase de certeza expirado. Para os portugueses e brasileiros, veja esta página para questões de direitos autorais.

Para ajudar na produção de um livro eletrônico, o Projeto Gutenberg oferece vários documentos com Perguntas Frequentes e Como-Fazer. Respostas para as dúvidas mais comuns estão nas PergFreq dos Voluntários.

Você poderá visitar uma lista de alfarrarabistas e livreiros antiquários nesta página.

A Biblioteca Nacional Digital de Portugal possui milhares de digitalizações de páginas nas quais você poderá estar interessado.

Ajude a Rever um Livro

Você pode ajudar a rever alguns dos novos livros eletrônicos juntando-se à equipe do Distributed Proofreaders (DP). Fazendo parte deste grupo você poderá rever uma página de cada vez, tantas quantas quiser, com a freqüência que desejar. Existem diversos fóruns do DP para facilitar a comunicação entre os revisores voluntários.

Depois de efetuar e confirmar seu registro no Distributed Proofreaders, você deverá se dirigir à seção “Activity Hub” e depois à “Proofreading Round One”, na qual encontrará uma lista de livros em processamento. Alguns estão em Português. Clique no título que lhe interessar e depois em “Start Proofreading”. O objetivo é fazer com que o texto corresponda à imagem escaneada

Atualize a Ortografia de Livros

Alguns dos livros eletrônicos que o Projeto Gutenberg disponibiliza possuem uma ortografia antiga. Quando foram publicados, era assim que se escrevia. Você poderá ajudar atualizando o Português. Dada a sua complexidade, esta tarefa ainda está em fase experimental. Veja as dicas nesta página.)

Promova o Projeto Gutenberg

Promova o Project Gutenberg colocando uma imagem ou banner.

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LibraryThing (I See Dead People’s Books)


Vai uma dica de um site bem interessante que encontrei navegando pela Web. O LibraryThing é um site interessante para “devoradores de livros”. Ele permite publicar resenhas e entrar em contato com pessoas com o mesmo gosto literário.

Depois de criar uma conta, o usuário acrescenta livros ao seu catálogo digitando as informações ou importando dados diretamente de sites como a Amazon. A rede social traz uma ferramenta que importa arquivos com bibliografias, desde que eles informem os códigos ISBN de cada item.

Mas o recurso mais interessante que o site oferece é o “I See Dead People’s Books“, um grupo que armazena os catálogos literários das bibliotecas de várias personalidades, e até mesmo relaciona os livros que você tem em comum.

Os nomes listados são bem variados, nomes como Ernest Hemingway, Marilyn Monroe, Wolfgang Mozart, John F. Kennedy, Sylvia Plath ou até mesmo Tupac Shakur.

Coloquei alguns dos meus livros favoritos pra testar o site, e ele funciona relativamente bem. O único problema é que não existem muitos títulos brasileiros cadastrados, mas o cadastro manual é até bem simples de se fazer pra quem tiver um pouco de paciência. Pra quem estiver curioso, segue o link para a minha biblioteca.

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