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Archive for the ‘Escritores Brasileiros’ Category

A Rua (João do Rio)


Rua do Ouvidor — 1890

Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado épartilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia,mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma,tudo varia — o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste efica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.

A rua! Que é a rua? Um cançonetista de Montmartre fá-la dizer:
Je suís la rue, femme êternellement verte,
Je n’ai jamais trouvé d’autre carrière ouverte
Sinon d’être la rue, et, de tout temps, depuis
Que ce pénible monde est monde, je la suis…

A verdade e o trocadilho! Os dicionários dizem: “Rua, do latim ruga, sulco. Espaço entre as casas e as povoações por onde se anda e passeia”. E Domingos Vieira, citando asOrdenações: “Estradas e rua pruvicas antiguamente usadas e os rios navegantes se som cabedaes que correm continuamente e de todo o tempo pero que o uso assy das estradas e ruas pruvicas”.A obscuridade da gramática e da lei! Os dicionários só são considerados fontes fáceis de completo saber pelos que nunca os folhearam. Abri o primeiro, abri o segundo, abri dez, vinteenciclopédias, manuseei in-folios especiais de curiosidade. A rua era para eles apenas um alinhado de fachadas por onde se anda nas povoações. Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! Em Benares ou em Amsterdão, em Londres ou Buenos Aires, sob os céus mais diversos, nos maisvariados climas, a rua é a agasalhadora da miséria. Os desgraçados não se sentem de todo sem o auxílio dos deuses enquanto diante dos seus olhos uma rua abre para outra rua. A rua é o aplausodos medíocres, dos infelizes, dos miseráveis da arte. Não paga ao Tamagno para ouvir berros atenorados de leão avaro, nem à velha Patti para admitir um fio de voz velho, fraco e legendário.Bate, em compensação, palmas aos saltimbancos que, sem voz, rouquejam com fome para alegrá-la e para comer. A rua é generosa. O crime, o delírio, a miséria não os denuncia ela. A ruaé a transformadora das línguas. Os Cândido de Figueiredo do universo estafam-se em juntar regrinhas para enclausurar expressões; os prosadores bradam contra os Cândido. A rua continua,matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons futuros. A ruaresume para o animal civilizado todo o conforto humano. Dá-lhe luz, luxo, bem-estar, comodidade e até impressões selvagens no adejar das árvores e no trinar dos pássaros.

A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis deter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopéia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essamiséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas. A rua criou todas as blagues todos os lugares-comuns. Foi ela que fez a majestade dosrifões, dos brocardos, dos anexins, e foi também ela que batizou o imortal Calino. Sem o consentimento da rua não passam os sábios, e os charlatães, que a lisonjeiam lhe resumem abanalidade, são da primeira ocasião desfeitos e soprados como bolas de sabão. A rua é a eterna imagem da ingenuidade. Comete crimes, desvaria à noite, treme com a febre dos delírios, paraela como para as crianças a aurora é sempre formosa, para ela não há o despertar triste, quando o sol desponta e ela abre os olhos esquecida das próprias ações, é, no encanto da vida renovada, nochilrear do passaredo, no embalo nostálgico dos pregões — tão modesta, tão lavada, tão risonha, que parece papaguear com o céu e com os anjos…

A rua faz as celebridades e as revoltas, a rua criou um tipo universal, tipo que vive em cada aspecto urbano, em cada detalhe, em cada praça, tipo diabólico que tem dos gnomos e dossilfos das florestas, tipo proteiforme, feito de risos e de lágrimas, de patifarias e de crimes irresponsáveis, de abandono e de inédita filosofia, tipo esquisito e ambíguo com saltos de felinoe risos de navalha, o prodígio de uma criança mais sabida e cética que os velhos de setenta invernos, mas cuja ingenuidade é perpétua, voz que dá o apelido fatal aos potentados e nuncateve preocupações, criatura que pede como se fosse natural pedir, aclama sem interesse, e pode rir, francamente, depois de ter conhecido todos os males da cidade, poeira d’ouro que se fazlama e torna a ser poeira — a rua criou o garoto!

Essas qualidades nós as conhecemos vagamente. Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso terespírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dosesportes — a arte de flanar. É fatigante o exercício?

Para os iniciados sempre foi grande regalo. A musa de Horácio, a pé, não fez outra coisanos quarteirões de Roma. Sterne e Hoffmann proclamavam-lhe a profunda virtude, e Balzac fez todos os seus preciosos achados flanando. Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nosdicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é irpor aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças osajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti de casaca aplaudirem o maior tenor do Lírico numaópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem fazer nada e acharabsolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amorcausa inveja.

É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisasnecessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à porta do café,como Poe no Homem da Multidões, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões, as preocupações e até os crimes dos transeuntes. É uma espécie de secreta à maneira de SherlockHolmes, sem os inconvenientes dos secretas nacionais. Haveis de encontrá-lo numa bela noite numa noite muito feia. Não vos saberá dizer donde vem, que está a fazer, para onde vai.Pensareis decerto estar diante de um sujeito fatal? Coitado! O flâneur é o bonhomme possuidor de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura, porque deambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence da inutilidade da cólera e da necessidade do perdão.

O flâneur é ingênuo quase sempre. Pára diante dos rolos, é o eterno “convidado dosereno” de todos os bailes, quer saber a história dos boleiros, admira-se simplesmente, e conhecendo cada rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe ahistória dos amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga idéia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio. O balão que sobe ao meio-dia no Castelo,sobe para seu prazer; as bandas de música tocam nas praças para alegrá-lo; se num beco perdido há uma serenata com violões chorosos, a serenata e os violões estão ali para diverti-lo. E de tantover que os outros quase não podem entrever, o flâneur reflete. As observaçõs foram guardadas na placa sensível do cérebro; as frases, os ditos, as cenas vibram-lhe no cortical. Quando oflâneur deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia, a alma das ruas. E é então que haveis depasmar da futilidade do mundo e da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de observação…

Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo e imóvel.

Balzac dizia que as ruas de Paris nos dão impressões humanas.São assim as ruas de todasas cidades, com vida e destinos iguais aos do homem.

Por que nascem elas? Da necessidade de alargamento das grandes colmeias sociais, deinteresses comerciais, dizem. Mas ninguém o sabe. Um belo dia, alinha-se um tarrascal, corta-se um trecho de chácara, aterra-se lameiro, e aí está: nasceu mais uma rua. Nasceu para evoluir,para ensaiar primeiros passos, para balbuciar, crescer, criar uma individualidade. Os homens têm no cérebro a sensação dessa semelhança, e assim como dizem de um rapagão:

— Quem há de pensar que vi este menino a engatinhar!
Murmuram:
— Quem há de dizer que esta rua há dez anos só tinha uma casa!

Um cavalheiro notável, ao entrar comigo certa vez na Rua Senador Dantas, não se conteve:

— É impossível passar por aqui sem lembrar que a velhice começa a chegar. Quando vim da província esta rua tinha apenas duas casas no antigo jardim do Convento, e eu tomava choppsno Guarda Velha a três vinténs!

Eu sorria, mas o pobre sujeito importante dizia isso como se recordasse os dois primeiros dentes de um homenzarrão, com uma dentadura capaz atualmente de morder as algibeiras de uma sociedade inteira. Era arecordação, a saudade do passado começo. Há nada mais enternecedor que o princípio de uma rua? É ir vê-lo nos arrabaldes. A princípio capim, um braço a ligar duas artérias. Percorre-o sem pensar meia dúzia de criaturas. Um diacercam à beira um lote de terreno. Surgem em seguida os alicerces de uma casa. Depois de outra e mais outra. Um combustor tremeluz indicando que ela já se não deita com as primeiras sombras. Três ou quatro habitantesproclamam a sua salubridade ou o seu sossego. Os vendedores ambulantes entram por ali como por terreno novo a conquistar. Aparece a primeira reclamação nos jornais contra a lama ou o capim. É o batismo. As notas policiaiscontam que os gatunos deram num dos seus quintais. É a estréia na celebridade, que exige o calçamento ou o prolongamento da linha de bondes. E insensivelmente, há na memória da produção, bem nítida, bem pessoal, umaindividualidade topográfica a mais, uma individualidade que tem fisionomia e alma.
Algumas dão para malandras, outras para austeras; umas são pretensiosas, outras riem aos transeuntes e o destino as conduz como conduz o homem, misteriosamente, fazendo-asnascer sob uma boa estrela ou sob um signo mau, dando-lhes glórias e sofrimentos, matando-as ao cabo de um certo tempo.

Oh! sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres,delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastampara contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, spleenéticas,snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue…

Vede a Rua do Ouvidor. É a fanfarronada em pessoa, exagerando, mentindo, tomandoparte em tudo, mas desertando, correndo os taipais das montras1 à mais leve sombra de perigo.Esse beco inferno de pose, de vaidade, de inveja, tem a especialidade da bravata. E fatalmenteoposicionista, criou o boato, o “diz-se…“ aterrador e o “fecha-fecha” prudente. Começou porchamar-se Desvio do Mar. Por ela continua a passar para todos os desvios muita gente boa. Notempo em que os seus melhores prédios se alugavam modestamente por dez mil réis, era a Ruado Gadelha. Podia ser ainda hoje a Rua dos Gadelhas, atendendo ao número prodigioso depoetas nefelibatas que a infestam de cabelos e de versos. Um dia resolveu chamar-se do Ouvidorsem que o senado da câmara fosse ouvido. Chamou-se como calunia, e elogia, como insulta eaplaude, porque era preciso denominar o lugar em que todos falam de lugar do que ouve; eparece que cada nome usado foi como a antecipação moral de um dos aspectos atuais dessairresponsável artéria da futilidade.

A Rua da Misericórdia, ao contrário, com as suas hospedarias lôbregas, a miséria, adesgraça das casas velhas e a cair, os corredores bafientos, é perpetuamente lamentável. Foi aprimeira rua do Rio. Dela partimos todos nós, nela passaram os vice-reis malandros, osgananciosos, os escravos nus, os senhores em redes; nela vicejou a imundície, nela desabotoou aflor da influência jesuítica. Índios batidos, negros presos a ferros, domínio ignorante e bestial, oprimeiro balbucio da cidade foi um grito de misericórdia, foi um estertor, um ai! tremendoatirado aos céus. Dela brotou a cidade no antigo esplendor do Largo do Paço, dela decorreram,como de um corpo que sangra, os becos humildes e os coalhos de sangue, que são as praças,ribeirinhas do mar. Mas, soluço de espancado, primeiro esforço de uma porção de infelizes, elacontinuou pelos séculos afora sempre lamentável, e tão augustiosa e franca e verdadeira na suador que os patriotas lisonjeiros e os governos, ninguém, ninguém se lembrou nunca de lhe tirardas esquinas aquela muda prece, aquele grito de mendiga velha: — Misericórdia!

Há ruas que mudam de lugar, cortam morros, vão acabar em certos pontos que ninguémdantes imaginara — a Rua dos Ourives; há ruas que, pouco honestas no passado, acabaramtomando vergonha — a da Quitanda. Essa tinha mesmo a mania de mudar de nome. Chamou-sedo Açougue Velho, do lnácio Castanheira, do Sucusarrará, do Tomé da Silva, que sei eu? Atémesmo Canto do Tabaqueiro. Acabou Quitanda do Marisco, mas, como certos indivíduos queorganizam o nome conforme a posição que ocupam, cortou o marisco e ficou só Quitanda. Háruas, guardas tradicionais da fidalguia, que deslizam como matronas conservadoras — a dasLaranjeiras; há ruas lúgubres, por onde passais com um arrepio, sentindo o perigo da morte — oLargo do Moura por exemplo. Foi sempre assim. Lá existiu o Necrotério e antes do Necrotério láse erguia a Forca. Antes da autópsia, o enforcamento. O velho largo macabro, com a alma deTropmann e de Jack, depois de matar, avaramente guardou anos e anos, para escalpelá-los, parachamá-los, para gozá-los, todos os corpos dos desgraçados que se suicidam ou morremassassinados. Tresanda a crime, assusta. A Prainha também. Mesmo hoje, aberta, alargada com prédios novos e a trepidação contínua do comércio, há de vos dar uma impressão de vago horror.À noite são mais densas as sombras, as luzes mais vermelhas, as figuras maiores. Por que teráessa rua um aspecto assim? Oh! Porque foi sempre má, porque foi sempre ali o Aljube, alipadeceram os negros dos três primeiros trapiches do sal, porque também ali a forca espalhou amorte!

Há entretanto outras ruas, que nascem íntimas, familiares, incapazes de dar um passo semque todas as vizinhas não saibam. As ruas de Santa Teresa estão nestas condições. Umcavalheiro salta no Curvelo, vai a pé até o França, e quando volta já todas as ruas perguntam quedeseja ele, se as suas tenções são puras e outras impertinências íntimas. Em geral, procura-se omistério da montanha para esconder um passeio mais ou menos amoroso. As ruas de SantaTeresa, é descobrir o par e é deitar a rir proclamando aos quatro ventos o acontecimento. Umadas ruas, mesmo, mais leviana e tagarela do que as outras, resolveu chamar-se logo Rua doAmor, e a Rua do Amor lá está na freguesia de S. José. Será exatamente um lugar escolhido peloAmor, deus decadente? Talvez não. Há também na freguesia do Engenho Velho uma ruaintitulada Feliz Lembrança e parece que não a teve, segundo a opinião respeitável da poesiaanônima:

Na Rua Feliz Lembrança
Eu escapei por um triz
De ser mandado à tábua.
Ai! que lembrança infeliz
Tal nome pôr nesta rua!

Há ruas que têm as blandícias de Goriot e de Shylock para vos emprestar a juro, paraesconder quem pede e paga o explorador com ar humilde. Não vos lembrais da Rua doSacramento, da rua dos penhores? Uma aragem fina e suave encantava sempre o ar. Defronte àigreja, casas velhas guardavam pessoas tradicionais. No Tesouro, por entre as grades de ferro,uma ou outra cara desocupada. E era ali que se empenhavam as jóias, que pobres entesangustiados iam levar os derradeiros valores com a alma estrangulada de soluços; era ali querefluíam todas as paixões e todas as tristezas, cujo lenitivo dependesse de dinheiro…

Há ruas oradoras, ruas de meeting — o Largo do Capim que assim foi sempre, o Largode S. Francisco; ruas de calma alegria burguesa, que parecem sorrir com honestidade — a Ruade Haddock Lobo; ruas em que não se arrisca a gente sem volver os olhos para trás a ver se nosvêem —a Travessa da Barreira; ruas melancólicas, da tristeza dos poetas; ruas de prazer suspeitopróximo do centro urbano e como que dele muito afastadas; ruas de paixão romântica, quepedem virgens loiras e luar.

Qual de vós já passou a noite em claro ouvindo o segredo de cada rua? Qual de vós jásentiu o mistério, o sono, o vício, as idéias de cada bairro?

A alma da rua só é inteiramente sensível a horas tardias. Há trechos em que a gente passacomo se fosse empurrada, perseguida, corrida — são as ruas em que os passos reboam,repercutem, parecem crescer, clamam, ecoam e, em breve, são outros tantos passos ao nossoencalço. Outras que se envolvem no mistério logo que as sombras descem — o Largo de Paço.Foi esse largo o primeiro esplendor da cidade. Por ali passaram, na pompa dos pálios e dosbaldaquins d’ouro e púrpura, as procissões do Enterro, do Triunfo, do Senhor dos Passos; por ali,ao lado da Praia do Peixe, simples vegetação de palhoças, o comércio agitava as suas primeiraselegâncias e as suas ambições mais fortes. O largo, apesar das reformas, parece guardar atradição de dormir cedo. À noite, nada o reanima, nada o levanta. Uma grande revolução morreno seu bojo como um suspiro; a luz leva a lutar com a treva; os próprios revérberos parecedormitarem, e as sombras que por ali deslizam são trapos da existência almejando o fimpróximo, ladrões sem pousada, imigrantes esfaimados… Deixai esse largo, ide às ruelas daMisericórdia, trechos da cidade que lembram o Amsterdão sombrio de Rembrandt. Há homensem esteiras, dormindo na rua como se estivessem em casa. Não nos admiremos. Somos reflexos.O Beco da Música ou o Beco da Fidalga reproduzem a alma das ruas de Nápoles, de Florença,das ruas de Portugal, das ruas da África, e até, se acreditarmos na fantasia de Heródoto, das ruasdo antigo Egito. E por quê? Porque são ruas da proximidade do mar, ruas viajadas, com a visãode outros horizontes. Abri uma dessas pocilgas que são a parte do seu organismo. Haveis de verchineses bêbados de ópio, marinheiros embrutecidos pelo álcool, feiticeiras ululando cançõessinistras, toda a estranha vida dos portos de mar. E esses becos, essas betesgas têm a perfídia dosoceanos, a miséria das imigrações, e o vício, o grande vício do mar e das colônias…

Se as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm idéias, filosofia e religião. Há ruasinteiramente católicas, ruas protestantes, ruas livres-pensadoras e até ruas sem religião.Trafalgar Square, dizia o mestre humorista Jerome, não tem uma opinião teológica definitiva. Omesmo se pode dizer da Praça da Concórdia de Paris ou da Praça Tiradentes. Há criatura maissem miolos que o Largo do Rocio? Devia ser respeitável e austero. Lá, Pedro I, trepado numbelo cavalo e com um belo gesto, mostra aos povos a carta da independência, fingindo dar umgrito que nunca deu. Pois bem: não há sujeito mais pândego e menos sério do que o velho ex-Largo do Rocio. Os seus sentimentos religiosos oscilam entre a depravação e a roleta.Felizmente, outras redimem a sociedade de pedra e cal, pelo seu culto e o seu fervor. A RuaBenjamin Constant está neste caso, é entre nós um tremendo exemplo de confusão religiosa.Solene, grave, guarda três templos, e parece dizer com circunspecção e o ar compenetrado decertos senhores de todos nós conhecidos:

— Faço as obras do Coração de Jesus, creio em Deus, nas orações, nos bentinhos e sónão sou positivista porque é tarde para mudar de crença. Mas respeito muito e admiro TeixeiraMendes…

Nós, os homens nervosos, temos de quando em vez alucinações parciais da pele, doresfulgurantes, a sensação de um contacto que não existe, a certeza de que chamam por nós. As ruastêm os rolos, as casas mal assombradas, e há até ruas possessas, com o diabo no corpo. Em S.Luís do Maranhão há uma rua sonâmbula muito menos cacete que a ópera célebre do mesmonome. Essa rua é a Rua de Santa Ana, a lady Macbeth da topografia. Deu-se lá um crimehorrível. Às dez horas, a rua cai em estado sonambúlico e é só gritos, clamores: sangue! sangue!

Ruas assim ainda mostram o que pensam. Talvez as outras tenham maiores delírios, massão como os homens normais — guardam dentro do cérebro todos os pensamentosextravagantes. Quem se atreveria a resumir o que num minuto pensa de mal, de inconfessável, omais honesto cidadão? Entre as ruas existem também as falsas, as hipócritas, com a alma deTartufo e de Iago. Por isso os grandes mágicos do interior da África Central, que dos sertõesadustos levavam às cidades inglesas do litoral sacos d’ouro em pó e grandes macacos tremendos,têm uma cantiga estranha que vale por uma sentença breve de Catão:

O di ti a uê, chê
F’u, a uá ny
Odé, odá, bi ejô
Sa lo dê

Sentença que em eubá (dialeto do reino iorubá Egbá, língua geral dos negros oriundos da atual Nigéria), o esperanto das hordas selvagens, quer dizer apenas isto: rua foifeita para ajuntamentos. Rua é como cobra. Tem veneno. Foge da rua!

Mas o importante, o grave, é ser a rua a causa fundamental da diversidade dos tiposurbanos. Não sei se lestes um curioso livro de E. Demolins, Comment la route crée le typesocial. É uma revolução no ensino da Geografia. “A causa primeira e decisiva da diversidade dasraças, diz ele, é a estrada, o caminho que os homens seguirem. Foi a estrada que criou a raça e otipo social. Os grandes caminhos do globo foram, de qualquer forma, os alambiques poderosos.que transformaram os povos. Os caminhos das grandes estepes asiáticas, das tundras siberianas,das savanas da América ou das florestas africanas insensivelmente e fatalmente criaram o tipotártaro-mongol, o lapão-esquimó, o pele-vermelha, o índio, o negro”.

A rua é a civilização da estrada. Onde morre o grande caminho começa a rua, e, por isso,ela está para a grande cidade como a estrada está para o mundo. Em embrião, é o princípio, acausa dos pequenos agrupamentos de uma raça idêntica. Daí, em muitos sítios da terra as aldeiasterem o único nome de rua. Quando aumentam e crescem depois, ou pela devoção da maioriados habitantes ou por uma impressão de local, acrescentam ao substantivo rua o complementoque das outras as deve diferençar. Em Portugal esse fato é comum. Há uma aldeia de 700habitantes no Minho que se chama modestamente Rua de S. Jorge, uma outra no Douro que é aRua da Lapela, e existem até uma Rua de Cima e uma Rua de Baixo.

Nas grandes cidades a rua passa a criar o seu tipo, a plasmar o moral dos seus habitantes,a inocular-lhes misteriosamente gostos, costumes, hábitos, modos, opiniões políticas. Vós todosdeveis ter ouvido ou dito aquela frase:

— Como estas meninas cheiram a Cidade Nova!

Não é só a Cidade Nova, sejam louvados os deuses! Há meninas que cheiram a Botafogo,a Haddock Lobo, a Vila Isabel, como há velhas em idênticas condições, como há homenstambém. A rua fatalmente cria o seu tipo urbano como a estrada criou o tipo social. Todos nósconhecemos o tipo do rapaz do Largo do Machado: cabelo à americana, roupas amplas à inglesa,lencinho minúsculo no punho largo, bengala de volta, pretensões às línguas estrangeiras, calçasdobradas como Eduardo VII e toda a snobopolis do universo. Esse mesmo rapaz, dadas idênticasposições, é no Largo do Estácio inteiramente diverso. As botas são de bico fino, os fatos emgeral justos, o lenço no bolso de dentro do casaco, o cabelo à meia cabeleira com muito óleo. Seformos ao Largo do Depósito, esse mesmo rapaz usará lenço de seda preta, forro na gola dopaletot, casaquinho curto e calças obedecendo ao molde corrente na navegação aérea — calças àbalão.

Esses três rapazes da mesma idade, filhos da mesma gente honrada, às vezes até parentes,não há escolas, não há contactos passageiros, não há academias que lhes tranformem o gosto porcerta cor de gravatas, a maneira de comer, as expressões, as idéias — porque cada rua tem umstock especial de expressões, de idéias e de gostos. A gente de Botafogo vai às “primeiras” doLírico, mesmo sem ter dinheiro. A gente de Haddock Lobo tem dinheiro mas raramente vai aoLírico. Os moradores da Tijuca aplaudem Sarah Bernhardt como um prodígio. Os moradores daSaúde amam enternecidamente o Dias Braga. As meninas das Laranjeiras valsam ao som dasvalsas de Strauss e de Berger, que lembram os cassinos da Riviera e o esplendor dos kursaals3.As meninas dos bailes de Catumbi só conhecem as novidades do senhor Aurélio Cavalcante. Asconversas variam, o amor varia, os ideais são inteiramente outros, e até o namoro, essaencantadora primeira fase do eclipse do casamento, essa meia ação da simpatia que se funde emdesejo, é abolutamente diverso. Em Botafogo, à sombra das árvores do parque ou no grandeportão, Julieta espera Romeu, elegante e solitária; em Haddock Lobo, Julieta garruleia embandos pela calçada; e nas casas humildes da Cidade Nova, Julieta, que trabalhou todo o diapensando nessa hora fugace, pende à janela o seu busto formoso…

Oh! sim, a rua faz o indivíduo, nós bem o sentimos. Um cidadão que tenha passadometade da existência na Rua do Pau Ferro não se habitua jamais à Rua Marquês de Abrantes! Osintelectuais sentem esse tremendo efeito do ambiente, menos violentamente, mas sentem. Euconheci um elegante barão da monarquia, diplomata em perpétua disponibilidade, que anecessidade forçara a aceitar de certo proprietário o quarto de um cortiço da Rua Bom Jardim. Opobre homem, com as suas poses à Brummell, sempre de monóculo entalado, era o escândalo darua. Por mais que saudasse as damas e cumprimentasse os homens, nunca ninguém se lembravade o tratar senão com desconfiança assustada. O barão sentia-se desesperado e resumira a vida3 Cassino.num gozo único: sempre que podia, tomava o bonde de Botafogo, acendia um charuto, e ia porali altivo, airoso, com a velha redingote4 abotoada, a “caramela” de cristal cintilante… Estava noseu bairro. Até parece, dizia ele, que as pedras me conhecem!

As pedras! As pedras são a couraça da rua, a resistência que elas apresentam ao novotranseunte. Refleti que nunca pisastes pela primeira vez uma rua de arrabalde sem que o vossopasso fosse hesitante como que, inconscientemente, se habituando ao terreno; refleti nessascoisas sutis que a vida cria, e haveis de compreender então a razão por que os humildes limitamtodo o seu mundo à rua onde moram, e por que certos tipos, os tipos populares, só o sãorealmente em determinados quarteirões.

As ruas são tão humanas, vivem tanto e formam de tal maneira os seus habitantes, que háaté ruas em conflito com outras. Os malandros e os garotos de uma olham para os de outra comopara inimigos. Em 1805, há um século, era assim: os capoeiras da Praia não podiam passar porSanta Luzia. No tempo das eleições mais à navalha que à pena, o Largo do Machadinho e a RuaPedro Américo eram inimigos irreconciliáveis. Atualmente a sugestão é tal que eles se intitulampovo. Há o povo da Rua do Senado, o povo da Travessa do mesmo nome, o povo de Catumbi.Haveis de ouvir, à noite, um grupo de pequenos valentes armados de vara:

— Vamos embora! O povo da Travessa está conosco.

É a Rua do Senado que, aliada à Travessa, vai sovar a Rua Frei Caneca…

Como outrora os homens, mais ou menos notáveis, tomavam o nome da cidade ondetinham nascido — Tales de Mileto, Luciano de Samosata, Epicarmo de Alexandria — os chefesda capadoçagem5 juntam hoje ao nome de batismo o nome da sua rua. Há o José do Senado, oJuca da Harmonia, o Lindinho do Castelo, e ultimamente, nos fatos do crime, tornaram-secélebres dois homens, Carlito e Cardosinho, só temidos em toda a cidade, cheia de Cardosinhose de Carlitos, porque eram o Carlito e o Cardosinho da Saúde. Direis que é uma observaçãopuramente local? Não, cem vezes não! Em Paris, a Ville-Lumière, os bandos de assassinostomam freqüentemente o nome da rua onde se organizaram; em Londres há ruas dos bairrostrágicos com esse predomínio, e na própria história de Bizâncio haveis de encontrar ruas tãoguerreiras que os seus habitantes as juntavam ao nome como um distintivo.

E assim os tipos populares.

Tive o prazer de conhecer dois desses tipos, em que mais vivamente se exteriorizava ainfluência psicológica da rua: o Pai da Criança e a Perereca.

O Pai da Criança estava deslocado, na decadência. Esse ser repugnante nascera comouma depravação da Rua do Ouvidor. Quando o vi doente, nas tascas da Rua Frei Caneca, comojá não estava na sua rua, não era mais notável. Os garotos já não riam dele, ninguém o seguia, eo nojento sujeito conversava nas bodegas, como qualquer mortal, da gatunice dos governos. Sófui descobrir a sua celebridade quando o vi em plena Ouvidor, cheio de fitas, vaiado, cuspindoinsolências, inconcebível de descaro e de náusea. A Perereca, ao contrário. Na Rua do Ouvidorseria apenas uma preta velha. Na Rua Frei Caneca era o regalo, o delírio, a extravagância. Osmalandrins corriam-lhe ao encalço atirando-lhe pedras, os negociantes chegavam às portas, todasas janelas iluminavam-se de gargalhadas. E por quê? Porque esses tipos são o riso das ruas eassim como não há duas pessoas que riam do mesmo modo não há duas ruas cujo riso seja omesmo.

Se a rua é para o homem urbano o que a estrada foi para o homem social, é claro que apreocupação maior, a associada a todas as outras idéias do ser das cidades, é a rua. Nóspensamos sempre na rua. Desde os mais tenros anos ela resume para o homem todos os ideais,os mais confusos, os mais antagônicos, os mais estranhos, desde a noção de liberdade e dedifamação — idéias gerais — até a aspiração de dinheiro, de alegria e de amor, idéiasparticulares. Instintivamente, quando a criança começa a engatinhar, só tem um desejo: ir para arua! Ainda não fala e já a assustam: se você for para a rua encontra o bicho! Se você sair apanha palmadas! Qual! Não há nada! É pilhar um portão aberto que o petiz não se lembra mais debichos nem de pancadas!

Sair só é a única preocupação das crianças até uma certa idade. Depois continuar a sairsó. E quando já para nós esse prazer se usou, a rua é a nossa própria existência. Nela se fazemnegócios, nela se fala mal do próximo, nela mudam as idéias e as convicções, nela surgem asdores e os desgostos, nela sente o homem a maior emoção.

Quando se encontra o amor
Na rua, sem o saber…

— Ponho-o no olho da rua! brada o pai ao filho no auge da fúria.
Aí está a rua como expressão da maior calamidade.

— Você está em casa, venha para a rua se é gente!
Aí temos a rua indicando sítio livre para a valentia a substituir o campo de torneiomedieval.

— É mais deslavado que as pedras da rua!Frase em que se exprime uma sem-vergonhice inconcebível.

— É mais velho que uma rua!Conceito talvez errado porque há ruas que morrem moças.
Às vezes até a rua é a arma que fere e serve de elogio conforme a opinião que dela setem.

— Ah! minha amiga! Meu filho é muito comportado. Já vai à rua sozinho…

— Ah! meninas, o filho de d. Alice está perdido! Pois se até anda sozinho na rua!
E a rua, impassível, é o mistério, o escândalo, o terror…

Os políticos vivem no meio da rua aqui, na China, em Tombuctu, na França; ospresidentes de república, os reis, os papas, no pavor de uma surpresa da rua — a bomba, arevolta; os chefes de polícia são os alucinados permanentes das ruas; todos quantos queremsubir, galgar a inútil e movediça montanha da glória, anseiam pelo juízo da rua, pela aprovaçãoda via pública, e há na patologia nervosa uma vasta parte em que se trata apenas das moléstiasproduzidas pela rua, desde a neurastenia até à loucura furiosa. E que a rua chega a ser a obsessãoem que se condensam todas as nossas ambições. O homem, no desejo de ganhar a vida com maisabundância ou maior celebridade, precisava interessar à rua. Começou pois fazendo discursosem plena ágora (Praça central das cidades da antiga Grécia, em torno da qual se fazia a vida urbana), discursos que, desde os tempos mais remotos aos meetings contemporâneos daestátua de José Bonifácio, falam sempre de coisas altivas, generosas e nobres. Um belo dia, a ruaproclamou a excelente verdade: que as palavras leva-as o vento. Logo, nós assustados,imaginamos o homem-sandwich, o cartaz ambulante; mandamos pregar-lhe, enquanto dorme,com muita goma e muita ingenuidade, os cartazes proclamando a melhor conserva, o doce maisgostoso, o ideal político mais austero, o vinho mais generoso, não só em letras impressas mascom figuras alegóricas, para poupar-lhe o trabalho de ler, para acariciar-lhe a ignorância, paraalegrá-la. Como se não bastassem o cartaz, a lanterna mágica, o homem-sandwich,desveladamente, aos poucos, resolvemos compor-lhe a história e fizemos o jornal — esseformidável folhetim-romance permanente, composto de verdades, mentiras, lisonjas, insultos eda fantasia dos Gaboriau (Émile Gaboriau, escritor francês do século XIX, tido como o criador do romance policial.) que somos todos nós…

Há uma estética da rua, afirmou Bulls. Sim. Há. Porque as atrizes de fama, os oradoresmais populares, os hércules mais cheios de força, os produtos mais evidentes dos blocoscomerciais, vivem de procurar agradá-la. Desse orgulho transitório surgiu para a rua a glóriapolicroma da arte. O temor de serem esquecidos criou para cada uma a roupagem variada,encheu-as como Melusinas de pedra, como fadas cruéis que se teme e se satisfaz, de vestidos múltiplos, de cores variegadas, de fanfreluches 8de papel, da ardência fulgurante das montras decambiantes luzentes; deu-lhes uma perpétua apoteose de sacrifício à espera do milagre do lucroou da popularidade. A estética, a ornamentação das ruas, é o resultado do respeito e do medo quelhes temos…

No espírito humano a rua chega a ser uma imagem que se liga a todos os sentimentos eserve para todas as comparações. Basta percorrer a poesia anônima para constatar a flagranteverdade. É quase sempre na rua que se fala mal do próximo. Folheemos uma coleção de fados.Lá está a idéia:

Adeus, ó Rua Direita
Ó Rua da Murmuração.
Onde se faz audiência
Sem juiz nem escrivão.

Aliás muito tímida, como devendo ser cantada por quem tem culpa no cartório. Mas, seum apaixonado quer descrever o seu peito, só encontra uma comparação perfeita.

O meu peito é uma rua
Onde o meu bem nunca passa,
É a rua da amargura
Onde passeia a desgraça.

Se sente o apetite de descrever, os espécimens são sem conta.

Na rua do meu amor
Não se pode namorar:
De dia, velhas à porta,
De noite, cães a ladrar.

E é suave lembrar aquele sonhador que, defronte da janela da amada e desejando realizaro impossível para lhe ser agradável, só pôde sussurrar esta vontade meiga:

Se esta rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar
De pedrinhas de brilhante
Para meu bem passar.

O povo observa também, e diz mais numa quadra do que todos nós a armar o efeito deperíodos brilhantes. Sempre recordarei um tocador de violão a cantar com lágrimas na voz comodiante do inexorável destino:

Vista Alegre é rua morta
A Formosa é feia e brava
A Rua Direita é torta
A do Sabão não se lava…

Toda a psicologia das construções e do alinhamento em quatro versos! A rua chega apreocupar os loucos. Nos hospícios, onde esses cavalheiros andam doidos por se ver cá fora,8 Ornamento de pouco valor.encontrei planos de ruas ideais, cantores de rua, e um deles mesmo chegou a entregar-me umlongo poema que começava assim:

A rua…
Cumprida, cumprida, atua…
Olê! complicada, complicada, alua
A rua
Nua!

Essa idéia reflete-se nas religiões, nos livros sagrados, na arte de todos os tempos, cadavez mais afiada, cada vez mais sensível. Na literatura atual a rua é a inspiração dos grandesartistas, desde Victor Hugo, Balzac e Dickens, até às epopéias de Zola, desde o funambulismo deBanville até o humorismo de Mark Twain. Não há um escritor moderno que não tenha cantado arua. Os sonhadores levam mesmo a exagerá-la, e hoje, devido certamente à corrente socialista,há toda uma literatura em que a alma das ruas soluça. Os poetas refinados levam a mórbidainspiração a cantar os aspectos parciais da rua. Como os românticos cantavam os pés, os olhos, aboca e outras partes do corpo das apaixonadas, eles cantam o semblante das casas vazias, osrevérberos de gás como Rodenbach:

Le dimanche, en semaine, et par tous les temps
L’un est debout, un autre, il semble, s’agenouille.
Et chacun se sent seul comme dans une foule.
Les revérbéres des banlieues
Sont des cages oú des oiseaux déplient leurs queues.

Os pregões, as calçadas, e houve até um — Mário Pederneiras —que nos deu asutilíssima e admirável psicologia das árvores urbanas:

Com que magoado encanto
Com que triste saudade
Sobre mim atua
Esta estranha feição das árvores da rua.
E elas são, entretanto,
A única ilusão rural de uma cidade!

As árvores urbanas
São, em geral, conselheiras e frias
Sem as grandes expansões e as grandes alegrias
Das provincianas.

Não têm sequer os plácidos carinhos
Dessas largas manhãs provinciais e enxutas.
Nem a orquestra dos ninhos
Nem a graça vegetal das frutas.

Os artistas modernos já não se limitam a exprimir os aspectos proteiformes da rua, aanalisar traço por traço o perfil físico e moral de cada rua. Vão mais longe, sonham a rua ideal,como sonharam um mundo melhor. Williams Morris, por exemplo, imaginou nas Novelas departe alguma a rua socialista e rara, com edifícios magníficos, sem mendigos e sem dinheiro.Rimbaud, nas Illuminations, teve a idéia da rua babélica, reproduzindo nos edifícios, sob o céucinzento, todas as maravilhas clássicas da arquitetura. Bellamy, no Locking Bockward, jásonhava o agrupamento dos grandes armazéns; e hoje, entre essas ruas de sonho, que GustavoKhan considera as ruas utópicas e que talvez se tornem realidade um dia, é o estranho e infernalsulco descrito por Wells na História dos tempos futuros, rua em que tudo dependerá desindicatos formidáveis, em que tudo será elétrico, em que os homens, escravos de meia dúzia,serão como os elos de uma mesma corrente arrastados pelo trabalho através dos casarões.

Mas, a quem não fará sonhar a rua? A sua influência é fatal na palheta dos pintores, naalma dos poetas, no cérebro das multidões. Quem criou o reclamo? A rua! Quem inventou acaricatura! A rua! Onde a expansão de todos os sentimentos da cidade? Na rua! Por isso para dara expressão da dor funda, o grande poeta Bilac fez um dia:

A Avenida assombrada e triste da saudade
Onde vem passear a procissão chorosa
Dos órfãos do carinho e da felicidade.

E certo poeta árabe, reconhecendo com a presciência dos vates que só a rua nos pode dara expressão do sofrimento absoluto como da alegria completa, escreveu a celebrada Praça doriso ao nascer da aurora; o riso de cristal das crianças, o riso perlado das mulheres, o riso gravedos homens a formar um conjunto de tanta harmonia que as árvores também riam no canto dospássaros, e a própria umbela azul do céu se estriava d’ouro no imenso riso do sol..

Neste elogio, talvez fútil, considerei a rua um ser vivo, tão poderoso que conseguemodificar o homem insensivelmente e fazê-lo o seu perpétuo escravo delirante, e mostrei mesmoque a rua é o motivo emocional da arte urbana mais forte e mais intenso. A rua tem ainda umvalor de sangue e de sofrimento: criou um símbolo universal. Há ainda uma rua, construída naimaginação e na dor, rua abjeta e má, detestável e detestada, cuja travessia se faz contra a nossavontade, cujo trânsito é um doloroso arrastar pelo enxurro de uma cidade e de um povo. Todosacotovelam-se e vociferam aí, todos, vindos da Rua da Alegria ou da Rua da Paz, atravessandoas betesgas (Viela, rua estreita.) do Saco do Alferes ou descendo de automóvel dos bairros civilizados, encontram-seaí e aí se arrastam, em lamentações, em soluços, em ódio à vida e ao Mundo. No traçado dascidades ela não se ostenta com as suas imprecações e os seus rancores. É uma rua esconsa enegra, perdida na treva, com palácios de dor e choupanas de pranto, cuja existência se conhecenão por um letreiro à esquina, mas por uma vaga apreensão, um irredutível sentimento deangústia, cuja travessia não se pode jamais evitar. Correi os mapas de Atenas, de Roma, deNínive ou de Babilônia, o mapa das cidades mortas. Termas, canais, fontes, jardins suspensos,lugares onde se fez negócio, onde se amou, lugares onde se se cultuaram os deuses — tudo desapareceu.Olhai o mapa das cidades modernas. De século em século a transformação é quaseradical. As ruas são perecíveis como os homens. A outra, porém, essa horrível rua de todosconhecida e odiada, pela qual diariamente passamos, essa é eterna como o medo, a infâmia, ainveja. Quando Jerusalém fulgia no seu máximo esplendor, já ela lá existia. Enquanto em Atenasartistas e guerreiros recebiam ovações, enquanto em Roma a multidão aplaudia os gladiadorestriunfais e os césares devassos, na rua aflitiva cuspinhava o opróbrio e chorava a inocência.Cartago tinha uma rua assim, e ainda hoje Paris, New York, Berlim a têm, cortando a suaalegria, empanando o seu brilho, enegrecendo todos os triunfos e todas as belezas. Qual de vósnão quebrou, inesperadamente, o ângulo em arestas dessa rua? Se chorastes, se sofrestes acalúnia, se vos sentistes ferido pela maledicência, podereis ter a certeza de que entrastes naobscura via! Ah! Não procureis evita-la! Jamais o conseguireis. Quanto mais se procura dela sairmais dentro dela se sofre. E não espereis nunca que o mundo melhore enquanto ela existir.

Não éuma rua onde sofrem apenas alguns entes, é a rua interminável, que atravessa cidades, países,continentes, vai de pólo a pólo; em que se alanceiam todos os ideais, em que se insultam todas asverdades, onde sofreu Epaminondas e pela qual Jesus passou. Talvez que extinto o mundo, apagados todos os astros, feito o universo treva, talvez ela ainda exista, e os seus soluçossinistramente ecoem na total ruína, rua das lágrimas, rua do desespero — interminável rua da amargura.

Os idiotas confessos (Nelson Rodrigues)

Antigamente, o idiota era o idiota. Nenhum ser tão sem mistério e repito: — tão cristalino. O sujeito o identificava, a olho nu, no meio de milhões. E mais: — o primeiro a identificar-se como tal era o próprio idiota. Não sei se me entendem. No passado, o marido era o último a saber. Sabiam os vizinhos, os credores, os familiares, os conhecidos e os desconhecidos. Só ele, marido, era obtusamente cego para o óbvio ululante.

Sim, o traído ia para as esquinas, botecos e retretas gabar a infiel: — “Uma santa! Uma santa!”. Mas o tempo passou. Hoje, dá-se o inverso. O primeiro a saber é o marido. Pode fingir-se de cego. Mas sabe, eis a verdade, sabe. Lembro-me de um que sabia endereço, hora, dia etc. etc. solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.

Pois o idiota era o primeiro a saber-se idiota. Não tinha nenhuma ilusão. E uma das cenas mais fortes que vi, em toda a minha infância, foi a de uma autoflagelação. Um vizinho berrava, atirando rútilas patadas: — “Eu sou um quadrúpede!”. Nenhuma objeção. E, então, insistia, heróico: — “Sou um quadrúpede de 28 patas!”. Não precisara beber para essa extroversão triunfal. Era um límpido, translúcido idiota.

E o imbecil como tal se comportava. Nascia numa família também de imbecis. Nem os avós, nem os pais, nem os tios, eram piores ou melhores. E, como todos eram idiotas, ninguém pensava. Tinha-se como certo que só uma pequena e seletíssima elite podia pensar. A vida política estava reservada aos “melho-res”. Só os “melhores”, repito, só os “melhores” ousavam o gesto político, o ato político, o pensamento político, a decisão política, o crime político. Por saber-se idiota, o sujeito babava na gravata de humildade. Na rua, deslizava, rente à parede, envergonhado da própria inépcia e da própria burrice. Não passava do quarto ano primário. E quando cruzava com um dos “melhores”, só faltava lamber-lhe as botas como uma cadelinha amestrada. Nunca, nunca o idiota ousaria ler, aprender, estudar, além de limites ferozes. No romance, ia até ao Maria, a desgraçada.

Vejam bem: — o imbecil não se envergonhava de o ser. Havia plena acomodação entre ele e sua insignificância. E admitia que só os “melhores” podem pensar, agir, decidir. Pois bem. O mundo foi assim, até outro dia. Há coisa de três ou quatro anos, uma telefonista aposentada me dizia: — “Eu não tenho o intelectual muito desenvolvido”. Não era queixa, era uma constatação. Santa senhora! Foi talvez a última idiota confessa do nosso tempo.

De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foram em maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais descobriram: — a vergonhosa inferioridade numérica dos “melhores”. Para um “gênio”, 800 mil, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de cretinos. E, certo dia, um idiota resolveu testar o poder numérico: — trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisou uma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.

Se o orador fosse Cristo, ou Buda, ou Maomé, não teria a audiência de um vira-lata, de um gato vadio. Teríamos de ser cada um de nós um pequeno Cristo, um pequeno Buda, um pequeno Maomé. Outrora, os imbecis faziam platéia para os “superiores”. Hoje, não. Hoje, só há platéia para o idiota. É preciso ser idiota indubitável para se ter emprego, salários, atuação, influência, amantes, carros, jóias etc. etc.

Quanto aos “melhores”, ou mudam, e imitam os cretinos, ou não sobrevivem. O inglês Wells, que tinha, em todos os seus escritos, uma pose profética, só não previu a “invasão dos idiotas”. E, de fato, eles explodem por toda parte: são professores, sociólogos, poetas, magistrados, cineastas, industriais. O dinheiro, a fé, a ciência, as artes, a tecnologia, a moral, tudo, tudo está nas mãos dos patetas.

E, então, os valores da vida começaram a apodrecer. Sim, estão apodrecendo nas nossas barbas espantadíssimas. As hierarquias vão ruindo como cúpulas de pauzinhos de fósforos. E nem precisamos ampliar muito a nossa visão. Vamos fixar apenas o problema religioso. A Igreja tem uma hierarquia de 2 mil anos. Tal hierarquia precisa ser preservada ou a própria Igreja não dura mais quinze minutos. No dia em que um coroinha começar a questionar o papa, ou Jesus, ou Em que pese a Virgem Maria, será exatamente o fim.

É o que está acontecendo. Nem se pense que a “invasão dos idiotas” só ocorreu no Brasil. Se fosse uma crise apenas brasileira, cada um de nós podia resmungar: — “Subdesenvolvimento” — e estaria encerrada a questão. Mas é uma realidade mundial. Em que pese a dessemelhança de idioma e paisagem, nada mais parecido com um idiota do que outro idiota. Todos são gêmeos, estejam uns aqui, outros em Cingapura.

Mas eu falava de que mesmo? Ah, da Igreja. Um dia, ao voltar de Roma, o dr. Alceu falou aos jornalistas. E atira, pela janela, 2 mil anos de fé. É pensador, um alto espírito e, pior, uma grande voz católica. Segundo ele, durante os vinte séculos, a Igreja não foi senão uma lacaia das classes dominantes, uma lacaia dos privilégios mais hediondos. Portanto, a Igreja é o próprio Cinismo, a própria Iniqüidade, a própria Abjeção, a própria Bandalheira (e vai tudo com a inicial maiúscula).

Mas quem diz isso? É o Diabo, em versão do teatro de revista? Não. É uma inteligência, uma cultura, um homem de bem e de fé. De mais a mais, o dr. Alceu tinha acabado de beijar a mão de Sua Santidade. Vinha de Roma, a eterna. E reduz a Igreja a uma vil e gigantesca impostura. Mas se ele o diz, e tem razão, vamos, já, já, fechar a Igreja e confiscar-lhe as pratas.

Cabe então a pergunta: — “O dr. Alceu pensa assim?”. Não. Em outra época, foi um dos “melhores”. Mas agora é preciso adular os idiotas, conquistar-lhes o apoio numérico. Hoje, até o gênio se finge imbecil. Nada de ser gênio, santo, herói ou simplesmente homem de bem. Os idiotas não os toleram. E as freiras põem short, maiô e posam para Manchete como se fossem do teatro rebolado. Por outro lado, d. Hélder quer missa com reco-reco, tamborim, pandeiro e cuíca. É a missa cômica e Jesus fazendo passista de Carlos Machado. Tem mais: — o papa visitará a América Latina. Segundo os jornais, teme-se que o papa seja agredido, assassinado, ultrajado etc. etc. A imprensa dá a notícia com a maior naturalidade, sem acrescentar ao fato um ponto de exclamação. São os idiotas, os idiotas, os idiotas.

[19/8/1968]

A Mosca Azul (Machado de Assis)

moscaMosca col el Giraso, de Migue! (Flickr)

Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão.
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada.
Em certa noite de verão.

E zumbia, e voava, e voava, e zumbia,
Refulgindo ao clarão do sol
E da lua – melhor do que refulgiria
Um brilhante do Grão-Mogol.

Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Um poleá lhe perguntou:
– “Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que te ensinou?”

Então ela, voando e revoando, disse:
– “Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor”.

E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo
E tranqüilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.

Entr as asas do inseto a voltear no espaço,
Uma coisa me pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço,
Eu vi um rosto que era o seu.

Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,
Que tinha sobre o colo nu
Um imenso colar de opala, e uma safira
Tirada ao corpo de Vixnu.

Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
E todo o amor que têm lhe dão.

Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,
Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhes de manso os aromados seios.
Voluptuosamente nus.

Vinha a glória depois; – quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e os parabéns unidos
Das coroas ocidentais.

Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
Das mulheres e dos varões,
Como em água que deixa o fundo descoberto,
Via limpos os corações.

Então ele, estendendo a mão calosa e tosca.
Afeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
Curioso de a examinar.

Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.
E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que ali tinha um império,
E para casa se partiu.

Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houve nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
Dissecar a sua ilusão.

Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil
Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil.

Hoje quando ele aí cai, de áloe e cardamomo
Na cabeça, com ar taful
Dizem que ensandeceu e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.

PC (Antônio Prata)

3/8/09

O politicamente incorreto está na moda nos meios de comunicação. (Fora deles, não, pois não pode estar na moda o que nunca caiu em desuso). Colunistas, jornalistas e blogueiros enchem o peito e, como se fossem os paladinos da liberdade de expressão, desancam os movimentos sociais, o feminismo, maio de 68, os quilombolas, os índios e tudo mais que tiver um ar de correção política ou cheire a idéias de esquerda. Tá legal, eu aceito os argumentos, mas não levantem as vozes tanto assim: não há ousadia nenhuma em ser politicamente incorreto no Brasil; aqui, a realidade já o é.

Imagine uma escola religiosa na Dinamarca. Flores nas janelas, cheiro de lavanda no ar, vinte alunos loiros, com cristo no coração e leite A correndo pelas veias, respondendo a uma chamada oral sobre o Pequeno Príncipe. Ali, o garoto que se levantar e cuspir no chão será ousado. Mostrará que a despeito do aroma de lavanda, o ser humano é áspero, é contraditório, é violento. Quando a realidade fica muito Saint-Exupéry, é importante que surjam uns Sex Pistols para equilibrar. Agora, cuspir no chão de uma escola municipal em São Paulo, diante da professora assustada que não consegue fazer com que os alunos, analfabetos aos dez anos, fiquem quietos, não tem nenhuma valentia. Quando a realidade da polis é o caos, o som e a fúria são a correção política.

O sarcasmo dirigido aos intelectuais de esquerda seria audaz e iconoclasta caso o Brasil tivesse vivido de 37 a 45 e de 64 a 85 sob as ditaduras de Antonio Candido e Paulo Freire. Se antropólogos de pochete e índios com camisa do Flamengo estivessem ameaçando o agronegócio, devastando lavouras de soja para plantar urucum e cabaça para fazer berimbau. Se durante o carnaval as feministas pusessem no lugar da Globeleza drops de filosofia com Marilena Chauí e Susan Sontag. Se a guitarra elétrica fosse banida da MPB pela banda de pífanos de Caruaru. Do jeito que as coisas são, contudo, o neoconservadorismo faz sucesso não porque choca a burguesia, ao cuspir no solo de onde brotam seus nobres valores, mas porque assina embaixo da barbárie vigente – e ri dela.

Nos EUA, o politicamente correto está tão entranhado nas relações que eles até o chamam pelo apelido: PC. Aqui, as duas letras ainda nos remetem ao tesoureiro do Collor, o ex-presidente que caiu após escândalos de corrupção e apareceu na capa dos jornais essa semana depois de ser eleito para chefiar uma comissão no senado. Enquanto não substituirmos um PC pelo outro, em nosso imaginário e nas manchetes, quem quiser cuspir no chão pode continuar cuspindo, mas deixe de lado esse tom varonil de quem está pegando touro à unha, quando não faz mais do que chutar cachorro morto.

Bar ruim é lindo, bicho! (Antônio Prata)

boteco1

Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinqüenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinqüenta anos, mas tudo bem).

No bar ruim que ando freqüentando ultimamente o proletariado atende por Betão – é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.

– Ô Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim.

O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinqüenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato). Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.

Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?).

– Ô Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?

Meu coração fica com o coração dela…

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De que vale o conhecimento sem compaixão? Todas as atrocidades que caracterizam os nossos tempos foram feitas com a cumplicidade do conhecimento científico “Meu coração fica com o coração dela…” De que vale o conhecimento sem compaixão? Todas as atrocidades que caracterizam os nossos tempos foram feitas com a cumplicidade do conhecimento científico – “A boca fala do que está cheio o coração”: esse é um ditado da sabedoria judaica que se encontra nas escrituras sagradas. Bem que poderia ser a explicação sumária daquilo que a psicanálise tenta fazer: ouvir o que a boca fala para chegar ao que o coração sente. Acontece comigo. Cada texto é uma revelação do coração de quem escreve. Pois o meu coração ficou cheio com uma coisa que me disse minha neta Camila, de 11 anos. O que ela falou fez meu coração doer. Como resultado, fico pensando e falando sempre a mesma coisa. A Camila estava na sala de televisão sozinha, chorando. Fui conversar com ela para saber o que estava acontecendo. E foi isso que ela me disse: “Vovô, quando eu vejo uma pessoa sofrendo, eu sofro também. O meu coração fica com o coração dela”. Percebi que o coração da Camila conhecia aquilo que se chama “compaixão”. Compaixão, no seu sentido etimológico, quer dizer “sofrer com”. Não estou sofrendo, mas vejo uma pessoa sofrer. Aí, eu sofro com ela. Ponho o outro dentro de mim. Esse é o sentido do amor: ter o outro dentro da gente. O apóstolo Paulo escreveu que posso dar tudo o que tenho aos pobres, mas, se me faltar o amor, nada serei, porque posso dar com as mãos sem que o coração sinta. A compaixão é uma maneira de sentir. É dela que brota a ética. Alguém foi se aconselhar com santo Agostinho sobre o que fazer numa determinada situação. Ele respondeu curto e definitivo: “Ama e faze o que quiseres”. Pois não é óbvio? Se tenho compaixão, nada de mau poderei fazer a quem quer que seja. Fernando Pessoa escreveu um curto poema em que descreve a sua compaixão. Por favor, leia devagar: “Aquele arbusto fenece, e vai com ele parte da minha vida. Em tudo quanto olhei fiquei em parte. Com tudo quanto vi, se passa, passo. Nem distingue a memória do que vi do que fui”. Compaixão por um arbusto… Ele explica esse mistério da alma humana dizendo que “em tudo quando olhei fiquei em parte. Com tudo quanto vi, se passa, passo…”. Os olhos, movidos pela compaixão, o faziam participante da sorte do pequeno arbusto. Eu já sabia disso, mas nunca havia enchido o meu coração a ponto de doer. Doeu porque liguei a fala da Camila a essa tristeza que está acontecendo no Brasil. Os corruptos são homens que passaram pelas escolas, são portadores de muitos saberes. Tendo tantos saberes, o que lhes falta? Falta-lhes compaixão. A falta de compaixão é uma perturbação do olhar. Olhamos, vemos, mas a coisa que vemos fica fora de nós. Vejo os velhos e posso até mesmo escrever uma tese sobre eles, se eu for um professor universitário, mas a tristeza do velho é só dele, não entra em mim. Durmo bem. Nossas florestas vão aos poucos se transformando em desertos, mas isso não me faz sofrer. Não as sinto como uma ferida na minha carne. Vejo as crianças mendigando nos semáforos, mas não me sinto uma criança mendigando em um semáforo. Vejo os meus alunos nas salas de aulas, mas meu dever de professor é dar o programa e não sentir o que os meus alunos estão sentindo. De que vale o conhecimento sem compaixão? Todas as atrocidades que caracterizam os nossos tempos foram feitas com a cumplicidade do conhecimento científico. Parece que a inteligência dos maus é mais poderosa que a inteligência dos bons. Sabemos como ensinar saberes. Há muita ciência escrita sobre isso. Não me lembro, no entanto, de nenhum texto pedagógico que se proponha a ensinar a compaixão. Talvez o livrinho “Como Amar uma Criança”, do Janusz Korczak _mas Korczak é uma exceção. Ele sabia que, para ensinar algo a uma criança, é preciso amá-la primeiro. Korczak era um romântico. Por isso o amo. Aí, fiz a mim mesmo uma pergunta pedagógica: “Como ensinar a compaixão?”. Conversando sobre isso com minha filha Raquel, arquiteta, ela se lembrou de um incidente dos seus primeiros anos de escola, quando ainda era uma menina de sete anos. Seria o aniversário da faxineira, uma mulher que todos amavam. A classe se reuniu para escolher o seu presente. Ganhou por unanimidade que, no dia do seu aniversário, as crianças fariam o seu trabalho de faxina. Disse-me a Raquel que a faxineira chorou. Sei que as crianças aprendem com um olhar especial, o olhar de suas professoras. Elas sabem quando as professoras as olham com os mesmos olhos com os quais Fernando Pessoa olhava o arbusto quando escreveu o poema. Sei também que as histórias provocam compaixão quando o leitor se identifica com um personagem. Sei de um menininho que se pôs a chorar ao final da história “O Patinho que Não Aprendeu a Voar”. Ele teve compaixão do patinho. Identificou-se com ele. Vai carregar o patinho dentro de si, embora o patinho não exista. Lemos histórias para as crianças e para nós mesmos não só para ensinar a nossa língua mas também para ensinar a compaixão. Mas continuo perdido. Preciso que vocês me ajudem. Como se pode ensinar a compaixão?

Ao Espelho (Rubem Braga)

rubembraga

Tu, que não foste belo nem perfeito,
Ora te vejo (e tu me vês) com tédio
E vã melancolia, contrafeito,
Como a um condenado sem remédio.

Evitas meu olhar inquiridor
Fugindo, aos meus dois olhos vermelhos,
Porque já te falece algum valor
Para enfrentar o tédio dos espelhos.

Ontem bebeste em demasia, certo,
Mas não foi, convenhamos, a primeira
Nem a milésima vez que hás bebido.

Volta portanto a cara, vê de perto
A cara, tua cara verdadeira,
Oh Braga envelhecido, envilecido.

Extraído do Jornal da Poesia