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Uma Rosa para Emily (William Faulkner)

fevereiro 19, 2013 7 comentários

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Quando Miss Emily Grierson morreu, toda a nossa cidade compareceu ao enterro: os homens em atenção a essa espécie de carinho respeitoso que se tem por um monumento tombado; as mulheres movidas pela curiosidade de ver o interior de sua casa, onde ninguém entrara nos últimos dez anos, exceto um velho negro, ao mesmo tempo cozinheiro e jardineiro.

Era um casarão quadrado, de madeira, outrora branco, decorado de cúpulas, de flechas, de balcões, no estilo pesadamente frívolo da época de 1870, situado na rua que já tinha sido a mais distinta da cidade. Mas as garagens e as debulhadoras de algodão, multiplicando-se em derredor, acabaram por fazer desaparecer até os nomes augustos daquele bairro. A casa de Miss Emily era a única, levantando sua decrepitude teimosa e faceira acima dos vagões de algodão e das bombas de gasolina. Emily tinha ido juntar-se aos representantes daqueles nomes augustos, no cemitério adormecido sob os cedros, onde jaziam entre os túmulos enfileirados e anônimos, dos soldados da União e dos Confederados mortos no campo de batalha de Jefferson.
Viva, Miss Emily fora uma ‘tradição, um dever e um aborrecimento: espécie de obrigação hereditária, pesando sobre a cidade desde o dia em que, em 1894, o Coronel Sartóris (o prefeito que baixou o decreto proibindo às negras saírem à rua sem avental) a isentara do pagamento de impostos, isenção definitiva, que datava da morte de seu pai. Isto não quer dizer que Miss Emily aceitasse a caridade. O Coronel Sartóris inventara a complicada história de um empréstimo em dinheiro, feito pelo pai de Miss Emily à cidade e que a cidade, por conveniência própria, preferia reembolsar dessa maneira. Só um homem da geração e com as idéias do Coronel Sartóris poderia ter imaginado semelhante coisa, e só uma mulher poderia ter acreditado.

Quando a geração seguinte, com suas idéias modernas, deu, por sua vez, prefeitos e intendentes municipais, essa concessão provocou alguns descontentamentos. No primeiro dia do ano, dirigiram a Miss Emily uma notificação de impostos. Fevereiro chegou, sem trazer resposta. Enviaram-lhe uma carta oficial, pedindo-lhe para passar, quando pudesse, no gabinete do delegado. Na semana seguinte, o próprio prefeito lhe escreveu, oferecendo-se para ir, em pessoa, à sua casa, ou para mandar buscá-la no seu carro particular. Recebeu, como resposta, uma folha de papel de feitio arcaico, escrita com tinta desbotada, numa letra miúda e fluente, comunicando-lhe que não saía mais de casa. A notificação dê pagamento de imposto vinha inclusa, sem comentários.

O Conselho Municipal reuniu-se em sessão extraordinária. Uma delegação dirigiu-se à sua casa e bateu naquela porta que nenhum visitante transpusera desde que, oito ou dez anos antes, Miss Emily deixara de dar lições de pintura em porcelana. Os membros da delegação foram introduzidos num saguão escuro, de onde uma escada se projetava para as sombras ainda mais que espessas do andar superior. Havia em tudo um cheiro de poeira, de guardado, de coisas que nunca são usadas -um cheiro de mofo e umidade. O negro conduziu-os ao salão, de mobiliário pesado, forrado de couro. Quando o negro abriu as cortinas de uma das janelas, viram que o couro estava estalado, descascando e, ao se sentarem, uma nuvem leve de pó subiu-lhe preguiçosamente em volta das coxas e se espalhou em círculos vagarosos, desenrolando-se, desagregada, na única réstia de sol. Num cavalete de moldura dourada, perto da lareira, via-se o retrato a carvão do pai de Miss Emily.

Levantaram-se à sua entrada. Era uma mulherzinha pequena e gorda, vestida de preto, com uma fina corrente de ouro descendo-lhe do pescoço até a cintura, onde desaparecia no cós da saia. Tinha a ossatura pequena e delicada; talvez, por isso, o que em outra pessoa seria apenas gordura, parecia, nela, obesidade. Dava a impressão de estar inchada, como um cadáver muito tempo submerso numa água estagnada; tinha, mesmo, de um afogado, a carne lívida e balofa. Seus olhos, perdidos nas intumescências de sua face, lembravam dois pedacinhos de carvão enfiados numa bola de massa e iam de um rosto a outro, enquanto os visitantes expunham o caso.
Não mandou que sentassem. Conservou-se, apenas, em pé no limiar da sala, e esperou tranqüilamente que o porta-voz se interrompesse, balbuciando. Então, puderam ouvir o tic-tac do relógio invisível, preso na ponta de sua corrente de ouro.

Sua voz era seca e fria:
– Não tenho impostos a pagar em Jefferson. O Corenel Sartóris me explicou isso. Talvez um dos senhores possa consultar os arquivos da cidade e dar satisfações aos demais.
– Mas nós o fizemos. Nós somos as autoridades no município, Miss Emily. A senhora não recebeu a notificação assinada pelo delegado?
– Sim, recebi um papel – disse Miss Emily. – Talvez ele se considere realmente o delegado… Não tenho impostos a pagar em Jefferson.
– Mas não há, nos livros, nada que o possa provar. Veja a senhora… É preciso que nós…
– Procurem o Coronel Sartóris. Não tenho impostos a pagar em Jefferson.
– Mas, Miss Emily –
– Procurem o Coronel Sartóris. (Havia quase dez anos que o Coronel Sartóris estava morto) – Não tenho impostos a pagar em Jefferson. Tobe! – O negro apareceu. – Acompanha estes cavalheiros.

Assim ela os venceu irremediavelmente, como já lhes vencera os pais, trinta anos antes, a respeito do cheiro. Isso aconteceu dois anos após a morte de seu pai, e quase em seguida à ocasião em que o namorado – aquele mesmo que nós pensávamos iria se casar com ela – a abandonou. Aquela morte e o abandono do namorado fizeram que ela depois pouco saísse de casa. Algumas senhoras tiveram a temeridade de ir visitá-la, mas não foram recebidas e, naquela casa, o único sinal de vida era o negro – ainda moço, então – que entrava e saía com um cesto de compras.
– Como se um homem – seja quem for! – pudesse conservar limpa uma cozinha! – diziam as senhoras. Assim, ninguém se surpreendeu quando se começou a sentir o cheiro. Foi um novo laço que se estendeu entre a gente grosseira e prolífica do bairro e os grandes e poderosos Grierson.

Uma mulher, sua vizinha, foi queixar-se ao prefeito, Juiz Stevens, que contava, então, oitenta anos.

– Mas que quer a senhora que eu faça? – perguntou ele,
– Ora, que ela acabe com isso – disse a mulher. Não existe lei?
– Estou certo de que não será necessário – afirmou o Juiz Stevens. Provavelmente, é só uma cobra ou um rato que o negro matou no quintal. Amanhã falarei com ele a esse respeito.
No dia seguinte, recebeu duas novas queixas; uma partiu de um homem, que apresentou uma súplica tímida.
– Nós precisamos, realmente, fazer alguma coisa nesse caso, sr. Juiz. Eu seria a última pessoa neste mundo capaz de incomodar Miss Emily, mas precisamos fazer alguma coisa.

Nessa mesma noite, reuniu-se o Conselho Municipal: três barbas grisalhas e um rapaz moço, membro da nova geração.
– A coisa é muito simples – disse o moço. – Mandem. lhe dizer para limpar a casa. Dêem-lhe um certo prazo para obedecer e, se ela não…
– Deus me livre, senhor! – exclamou o Juiz Stevens. Quer então dizer a uma senhora, nas bochechas, que ela cheira mal?

Assim, na noite seguinte, de madrugada, quatro homens atravessaram o gramado do jardim de Miss Emily e, como assaltantes, rondaram a casa, farejando os alicerces de tijolos e os respiradouros do porão, enquanto um deles, com um saco nos ombros, fazia, com regularidade, o gesto do semeador. Arrombaram a porta da adega, que salpicaram de cal, assim como todas as dependências. Quando, de volta, atravessaram o gramado, uma janela, até então sombria, iluminou-se de repente e viram Miss Emily sentada à contraluz, ereta, rígida, imóvel como um ídolo. Atravessaram em silêncio o gramado, metendo-se por entre as sombras das acácias que margeavam a rua. Depois de uma ou duas semanas, o cheiro desapareceu.
Isso foi quando as pessoas começaram realmente a ter pena dela. A gente de nossa cidade, que se lembrava de Lady Wyatt, sua tia-avó, que acabara louca, achava que os Grierson se julgavam muito mais importantes do que eram na realidade. Nenhum dos rapazes da cidade fora jamais considerado à altura de Miss Emily. Nós os imaginávamos muitas vezes como um quadro: ao fundo, Miss Emily, esguia figura vestida de branco; no primeiro plano, a silhueta de seu pai, virando-lhe as costas, com as pernas abertas, um chicote na mão; ambos, enquadrados pelos caixilhos da porta escancarada. Assim, quando ela chegou aos trinta anos ainda solteira, não posso dizer que isso tenha causado uma verdadeira alegria, mas nós, os rapazes, nos sentimos vingados; mesmo com os casos de loucura na família, ela não teria virado as costas a todas as oportunidades, se essas se tivessem verdadeiramente materializado.
Morto o pai, correu o boato de que só lhe tinha ficado a casa de herança, o que, de certo modo, alegrou todo mundo. Até que enfim, podiam apiedar-se de Miss Emily. Sozinha e na pobreza, iria humanizar-se. Agora, ela também conheceria a velha satisfação e o velho desespero de um vintém a mais ou de um vintém a menos.

No dia seguinte ao da morte do velho, as senhoras da cidade preparavam-me para ir à sua casa, apresentar-lhe os pêsames, conforme o costume. Miss Emily recebeu-as no limiar da porta, vestida como nos outros dias, e sem a menor marca de tristeza ou sofrimento na expressão. Disse-lhes que o pai não tinha morrido. Repetiu essas palavras durante três dias, quando os pastores e os médicos iam vê-la, tentando persuadi-la a deixar dispor do cadáver. Mas, no momento em que estavam resolvidos a recorrer à Lei e à força, ela cedeu, e enterraram-lhe o pai a toda pressa.

Não se disse, então, que estava louca. Pensamos que tinha agido como devia. Lembrávamo-nos de todos os moços que seu pai afastara, e sabíamos que, achando-se sem nada, ela deveria agarrar-se àquele que a despojara de tudo, como em geral acontece.
Esteve muito tempo doente. Quando tornamos a vê-la, tinha os cabelos cortados, o que a fazia parecer uma menina e lhe dava uma vaga semelhança com os anjos dos vitrais de igreja – uma mistura de trágico e sereno.
A cidade acabava justamente de firmar o contrato para pavimentação das calçadas e, no verão que seguiu a morte de seu pai, começaram os trabalhos. A companhia construtora trouxe negros, mulas e máquinas, e um contramestre chamado Homer Barron, um “yankee”, homem grande, moreno e decidido, com um vozeirão enorme e olhos mais claros do que a pele do rosto. Os garotos seguiam-no aos bandos, para ouvi-lo gritar com os negros, e para ouvir os negros cantando em compasso, enquanto erguiam e abaixavam a picareta. Em breve, o contramestre conhecia toda a gente da cidade. Cada vez que se ouviam ruidosas gargalhadas na praça, podia-se jurar que Homer Barron estava no centro do grupo. Não tardamos a avistá-lo, nos domingos à tarde, passeando com Miss Emily na carriola de aluguel, que tinha rodas amarelas e era puxada por uma parelha de cavalos baios.

A princípio, todos ficaram satisfeitos de ver que Miss Emily tinha agora um interesse na vida. As senhoras andavam dizendo: “Naturalmente, nunca uma Grierson tomará a sério um nortista, um assalariado.”

Mas havia outras pessoas, as mais velhas, que achavam que nem mesmo o desgosto deveria fazer que uma verdadeira senhora se esquecesse de que “noblesse oblige”. (Sem no entanto, empregar essa expressão: Noblesse oblige). Diziam, apenas: “Pobre Emily. Os parentes deviam procurá-la.”

Tinha parentes em Alabama, mas, alguns anos antes, o pai rompera com eles por causa da herança da velha Lady Wyatt, a louca, e não havia mais relações entre as duas famílias. Nem sequer se tinham feito representar no enterro.

E, mal a gente velha exclamou “Pobre Emíly”, os mexericos começaram: “Vocês imaginam que, realmente. . .” diziam uns para os outros. – “Mas nem há dúvida. Porque, a não ser isso. . ” tudo sussurrado atrás das mãos no amarrotado farfalhar de sedas e cetins por detrás das janelas fechadas ao sol das tardes de domingo, enquanto a parelha de cavalos baios passava num leve e apressado clop-clop-clop. – “Pobre Emily!”

Ela, porém, erguia a cabeça bem alto, mesmo quando pensávamos que tinha decaído. Parecia, mais do que nunca, exigir que se reconhecesse sua dignidade de última dos Grierson, como se fosse necessário aquele toque de vulgaridade terrestre para acentuar mais profundamente a sua impenetrabilidade. Tal como no dia em que comprou o veneno para ratos, o arsênico. Isso aconteceu um ano depois de terem começado a dizer:
“Pobre Emily”, e quando as duas primas estavam hospedadas em sua casa.
– Quero comprar veneno – disse ao farmacêutico. Contava, então, mais de trinta anos; era ainda delgada, embora estivesse mais magra do que de costume, com os olhos negros, altivos e frios num rosto cuja pele se repuxava na altura das têmporas e em volta das pálpebras, como se imaginava que deveria ser o rosto de um guardião de farol. – Quero comprar veneno.
– Pois não, Míss Emily. Que espécie de veneno? para ratos ou qualquer coisa assim? Recomen…
– Quero o que o senhor tiver de melhor. Não importa qual seja.

O farmacêutico citou alguns:
– Matariam até mesmo um elefante. Mas o que a senhora quer e…
– Arsênico – disse ela. – É bom?
– É… arsênico? Pois sim, senhora. Mas o que a senhora quer ….
– Eu quero arsênico.
– Pois, naturalmente – disse ele. – Se é isso que a senhora quer. Porém, a lei determina que a senhora declare o fim que dará ao veneno.

Miss Emily limitou-se a fitá-lo, com a cabeça pendida para melhor fixar os olhos nos olhos dele, até forçá-lo a desviar o olhar e a ir buscar o arsênico, que embrulhou. O caixeiro negro que fazia entregas trouxe-lhe o pacote, pois o farmacêutico não tornou a aparecer. Ao chegar em casa, tirou o papel; na tampa da caixa, debaixo da caveira e os dois ossos, estava escrito: “Para ratos”.

Assim, no dia seguinte, nós dizíamos: “Ela vai suicidar-se”, e achávamos que era a melhor solução. Quando começáramos a vê-la com Homer Barrou, tínhamos dito: “Vai casar-se com ele”. Depois, dizíamos: “Ela ainda acabará por persuadi-lo”, porque o próprio Homer observava – gostava da companhia dos homens e sabia-se que bebia com os rapazes no Elk’s Club – que não era feito para casamento. Mais tarde, dissemos: “Pobre Emily”, por detrás das venezianas, quando ambos passavam, nas tardes de domingo, na carriola vistosa, Miss Emily de cabeça erguida e Homer Barrou com o chapéu de lado e um charuto entre os dentes, segurando as rédeas e o chicote nas luvas amarelas.

Então, algumas senhoras começaram a declarar que aquilo era uma vergonha para a cidade e um mau exemplo para a gente moça. Os homens não ousavam intervir, mas, finalmente, as mulheres forçaram o pastor batista – a gente de Miss Emily era episcopal – a ir procurá-la. O pastor negou-se sempre a contar o que acontecera durante a entrevista e recusou-se a voltar à sua casa. No domingo seguinte, saíram juntos novamente e, no outro dia, a mulher do ministro escreveu aos parentes de Miss Emily, em Alabama.

Dessa forma, ela teve pessoas de seu sangue outra vez debaixo de seu teto e nós ficamos todos à espera dos acontecimentos. A princípio, nada aconteceu. Depois, ficamos convencidos de que iam se casar. Soubemos que Miss Emily fôra à joalheria e encomendara um jogo de toucador para homem, todo de prata, com as iniciais II. B. gravadas em cada peça. Dois dias mais tarde, fomos informados de que comprara um enxoval masculino completo, inclusive uma camisola de dormir, e dissemos: “Estão casados”. E ficamos contentes, porque as duas primas eram mais Grierson ainda do que Miss Emily jamais o fora.

Não tivemos grande surpresa quando, terminado o calçamento das ruas, Homer Barron partiu. Sentimo-nos um pouco decepcionados por não ter havido nenhuma manifestação pública de regozijo, mas julgamos que se tivesse afastado para preparar a ida de Miss Emily, ou para lhe dar a oportunidade de se livrar das primas. (Por essa época formáramos uma verdadeira cabala, e éramos todos aliados de Miss Emily no sentido de ajudá-la a alijar as primas). O que é certo é que elas partiram ao fim de outra semana. E, como esperávamos, no terceiro dia após essa partida, Homer Barron estava de volta à cidade. Os vizinhos viram o negro abrir-lhe a porta da cozinha, uma tarde ao escurecer.

Foi essa a última vez que vimos Homer Barron. E, durante algum tempo, não tornamos também a ver Miss Emily. O negro ia e vinha com a cesta das compras, mas a porta da entrada continuava fechada. Uma vez ou outra conseguimos avistá-la à janela por alguns instantes, como naquela noite em que os homens foram à sua casa espalhar a cal; durante mais de seis meses, porém, ela não apareceu nas ruas. Compreendemos que isso também era de esperar; como se aquele aspecto do caráter de seu pai, que tantas vezes constrangera sua vida de mulher, fosse virulento e furioso demais para morrer assim.

Quando a vimos novamente, Miss Emily tinha engordado muito e seus cabelos estavam ficando grisalhos. Nos anos seguintes, foram ficando cada vez mais grisalhos, até o momento em que, tendo adquirido um tom cinzento-de-aço, sua cabeleira não mudou mais de cor. Até o dia de sua morte, aos setenta e quatro anos, aqueles cabelos conservavam ainda esse vigoroso tom cinzento-de-aço, como os cabelos de um homem ativo.

Desde aquela época, sua porta ficara fechada, exceto no decorrer de um período de seis ou sete anos, quando ela, quarentona, dava aulas de pintura em porcelana. Instalara, num aposento do andar térreo, o atelier onde as filhas e netas dos contemporâneos do Coronel Sartóris lhe eram enviadas com a mesma regularidade e dentro do mesmo espírito com que as mandavam à igreja, nos domingos, munidas de uma moedinha de vinte centavos para a hora da coleta. Nesse ínterim, Miss Emily se vira dispensada do pagamento de impostos.

A nova geração tornou-se, então, a espinha dorsal e a alma da cidade, as alunas cresceram e dispersaram-se, e não lhe mandaram as filhas com as caixinhas de tinta, os aborrecidos pincéis e os modelos recortados das revistas ilustradas femininas. A porta fechou-se sobre a última aluna e ficou fechada desde então. Quando a cidade adotou a distribuição gratuita do correio, Miss Emily foi a única pessoa que se negou a consentir que fixassem um número de metal acima de sua porta e uma caixa postal ao lado. Não houve argumento que a convencesse.

Dias, meses e anos, vimos o negro, cada vez mais grisalho e curvado, entrando e saindo com a cesta de compras. Anualmente, em dezembro, mandavam-lhe a declaração de impostos, que o correio devolvia na semana seguinte, com a nota de não haver sido reclamada. Uma vez ou outra, nós a avistávamos diante da janela do andar térreo – tinha, evidentemente, fechado todo o andar superior da casa – semelhante ao busto esculpido de um ídolo no seu nicho, e nunca chegamos a saber se estava olhando para nós, ou se nem sequer nos via. E assim passou ela de geração para geração – querida, inevitável, impenetrável, tranqüila e perversa.

E, então, ela morreu. Caiu doente no seu casarão cheio de sombras e de pó, tendo como único auxílio o negro caduco. Nem ao menos soubéramos que estava doente, pois havia já muito tempo que desistíramos de arrancar qualquer informação ao negro. Não falava com pessoa alguma, talvez nem mesmo com ela; sua voz se tornara áspera e rouquenha como uma voz que não serve nunca.

Morreu num dos quartos do andar térreo, numa cama de nogueira maciça com cortinados, a cabeça grisalha erguida por um travesseiro amarelo e mofado pelo tempo e pela falta de sol.

O negro encontrou a primeira das senhoras na porta da frente; deixou-as entrar, com suas vozes sussurradas e sibilantes, com seus olhares rápidos, furtivos e curiosos, e depois desapareceu. Meteu-se pela casa a dentro, atravessou-a toda, saiu pelos fundos e sumiu para sempre.

A duas primas não tardaram a chegar. Fizeram o enterro no segundo dia. A cidade em peso compareceu para ver Miss Emily coberta por um montão de flores compradas, o retrato, a carvão, de seu pai profundamente pensativo, acima do caixão, cercado pelas senhoras sibilantes e macabras. No saguão e no gramado, homens, muito velhos – alguns nos uniformes de confederados muito bem escovadinhos – falavam de Miss Emily como se fosse uma de suas contemporâneas, imaginando que tinham dançado com ela, e até mesmo, talvez, que a tinham namorado, confundindo o tempo e a progressão matemática, como fazem os velhos, para os quais o passado não é uma estrada que se vai encurtando, porém uma vasta planície nunca atingida pelo inverno, dividida para eles, agora, pelo estreito gargalo da ampulheta dos últimos dez anos.

Nós todos já sabíamos da existência, naquela região, do andar superior, onde ninguém pisara há quarenta anos, de um quarto fechado que seria preciso arrombar. Esperamos que Miss Emily estivesse docemente enterrada, antes de forçá-lo.

A violência com que pusemos a porta abaixo pareceu encher o quarto de uma poeira penetrante. Era como se uma mortalha, tênue e acre, se estendesse sobre todas as coisas daquele quarto, mobiliado e enfeitado para urna noite de núpcias: sobre as desbotadas cortinas de pesada seda cor-de-rosa, sobre os quebra. Luzes rosados das lâmpadas, sobre a penteadeira, sobre os delicados objetos de cristal, sobre as peças do aparelho de toucador para homem, com seus dorsos de prata embaciados, tão embaciados que nem se distinguiam os monogramas escurecidos.

Entre os pertences do toucador, estavam jogados um colarinho e uma gravata, como se tivessem acabado de tirá-los naquele momento; quando os levantamos, deixaram na superfície uma pálida meia lua traçada na poeira. O terno de roupa estava dobrado cuidadosamente numa cadeira, debaixo da qual se viam os dois sapatos mudos e as meias largadas no chão.

E o homem estava deitado na cama.

Durante muito tempo, ali ficamos, imóveis, olhando para o seu ríctus profundo e descarnado, O corpo devia ter, a principio, repousado na atitude de carícia, abraçado a outro corpo, mas agora o grande sono que sobrevive ao amor, o grande sono que vence até mesmo as carícias do amor, dominara-o afinal. O que restava dele, em decomposição dentro do que restava de sua camisola de dormir, tornara-se inseparável do leito em que jazia; e sobre ele, assim como sobre o travesseiro vazio ao seu lado, estendera-se aquela camada espessa de paciente e obstinada poeira.

Notamos, então, que no segundo travesseiro havia a marca funda de uma cabeça. Um de nós encontrou qualquer coisa caída sobre esse travesseiro e, debruçando-se, enquanto a leve, impalpável poeira acre e seca, nos entrava pelas narinas, vimos um longo fio de cabelo de um tom cinzento-de-aço.


*** Extraído do blog: Angie Chalas
***

A Cigarra e a Formiga (W. Somerset Maugham)

fevereiro 10, 2012 1 comentário
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A Cigarra e a Formiga de La Fontaine (Gustave Doré)
Quando eu era ainda muito pequeno, obrigaram-me a decorar algumas das fábulas de La Fontaine, e explicaram-me cuidadosamente a moral de cada uma. Entre elas, aprendi a da cigarra e da formiga, que pretende incutir nos jovens a útil lição de que num mundo imperfeito o trabalho é recompensado e a leviandade castigada. Nesta fábula admirável (peço desculpa por ir contar qualquer coisa que, por delicadeza, mas erradamente, se supõe que toda a gente sabe) a formiga passa o verão a trabalhar afanosamente para guarnecer a despensa, enquanto a cigarra se senta na relva a cantar ao sol.

O inverno chega, e a formiga está confortavelmente fornecida, mas a cigarra tem a despensa vazia: dirige-se à formiga e pede-lhe alguma comida. Então, a formiga dá-lhe a resposta clássica:

“O que é que andaste a fazer durante o verão?”
“Com o devido respeito, cantei, cantei dia e noite.”
“Ai cantaste? Então agora, dança.”Não atribuo o fato a perversidade da minha parte, mas antes à inconsequência da infância, a que falta sentido moral, mas realmente nunca aceitei bem esta lição. As minhas simpatias iam para a cigarra, e durante algum tempo nunca via uma formiga que não lhe pusesse um pé em cima. Desta maneira sumária (e, como tenho vindo a descobrir desde então, inteiramente humana) procurava exprimir o meu repúdio da sisudez e do senso-comum.
Não pude deixar de pensar nesta fábula quando outro dia encontrei George Ramsay a almoçar sozinho num restaurante. Nunca vi ninguém com uma expressão tão profundamente sombria. Olhava fixamente o espaço. Dava a impressão de que carregava o mundo inteiro sobre os ombros. Tive pena dele: desconfiei logo de que o infeliz irmão lhe tinha dado problemas outra vez. Dirigi-me a ele e estendi-lhe a mão.
“Como estás?” perguntei.
“Não estou muito bem disposto,” respondeu ele.
“Foi o Tom outra vez?”
Ele suspirou.
“Foi. Foi o Tom outra vez.”
“Por que é que não te vês livre dele? Já fizeste por ele tudo o que podias. Já devias saber que é um caso perdido.”
Parece-me que em todas as famílias há uma ovelha ranhosa. Tom fora uma dura provação para a sua, durante vinte anos. Começara a vida bastante bem: meteu-se no negócio, casou, e teve dois filhos. Os Ramsay eram pessoas perfeitamente respeitáveis, e tudo levava a crer que Tom Ramsay iria ter uma carreira útil e meritória. Mas um dia, sem aviso prévio, anunciou que não gostava do trabalho e que não estava talhado para o casamento. Queria gozar a vida. E não quis ouvir mais nada. Deixou a mulher e o escritório. Tinha algum dinheiro e passou dois anos felizes em várias capitais da Europa. Aos ouvidos dos familiares chegavam de vez em quando rumores do que ele andava a fazer, o que os chocava profundamente. Fartou-se de gozar, com certeza. Eles abanavam a cabeça e interrogavam-se sobre o que aconteceria quando se lhe acabasse o dinheiro. Em breve o ficaram a saber: pedia emprestado. Ele era encantador e não tinha escrúpulos. Nunca conheci ninguém a quem fosse tão difícil recusar um empréstimo. Conseguiu, dos amigos, uma receita certa, e ele fazia amigos muito facilmente. Mas sempre dizia que o dinheiro que se gastava para satisfazer as necessidades era enfadonho; o dinheiro que dava gozo gastar era aquele que se despendia em coisas supérfluas que dão prazer. Em relação a este, dependia do irmão George. Mas não desperdiçava com ele os seus encantos. George era um homem sério e insensível a tal tipo de sedução. Era um homem respeitável. Por uma ou duas vezes deixou-se levar pelas promessas de emenda de Tom e deu-lhe quantias consideráveis para que ele pudesse começar tudo de novo. Com esse dinheiro, Tom comprou um carro e algumas jóias lindíssimas. Mas quando as circunstâncias levaram George a aperceber-se de que o irmão nunca assentaria, e a lavar daí as mãos, Tom começou, sem o mínimo receio, a fazer chantagem com ele. Para um advogado tão respeitável, não era muito agradável encontrar o irmão atrás do balcão do bar do seu restaurante favorito a preparar cocktails, ou vê-lo ao volante de um taxi à saída do seu clube. Tom dizia que trabalhar num bar ou conduzir um taxi era um emprego perfeitamente decente, mas se George o obsequiasse com algumas centenas de libras não se importaria, por uma questão de honra da família, de desistir da idéia. E George pagou.
Uma vez aconteceu que Tom quase foi parar na cadeia. George ficou perturbadíssimo. Tomou todo aquele incômodo assunto em suas mãos. Realmente o Tom tinha ido longe demais. Já fora insensato, irrefletido e egoísta, mas até agora não fizera ainda nada de desonesto, isto é, ilegal, no dizer de George; e se fosse acusado seria, com toda a certeza, condenado. Mas não se pode permitir que o nosso único irmão vá para a prisão. O homem que Tom enganou, de nome Cranshaw, era vingativo. Estava decidido a levar a questão ao tribunal; dizia que Tom era um canalha e que devia ser punido. A resolução da questão custou a George quinhentas libras e um enormíssimo monte de trabalho. E nunca o vi tão furioso como quando soube que, mal levantaram o cheque, Tom e Cranshaw partiram juntos para Monte Carlo. Passaram lá um mês delicioso.
Durante vinte anos Tom apostou em corridas e jogou, flertou com as mais bonitas mulheres, dançou, comeu nos restaurantes mais caros e vestiu elegantemente. Tinha sempre o ar aprumado de quem tinha acabado de se arranjar para uma festa. Embora tivesse já quarenta e seis anos, ninguém lhe daria mais de trinta e cinco. Era um companheiro extremamente divertido e, embora sabendo-o um perfeito inútil, ninguém podia deixar de gostar da sua companhia. Era bem humorado, de uma alegria inabalável, e de um encanto incrível. Nunca regateei as contribuições que ele regularmente me pedia para satisfação das suas necessidades básicas. Nunca lhe emprestei cinquenta libras que fossem sem ficar com a sensação de que eu é que lhe ficava a dever. Tom Ramsay conhecia toda a gente, e toda a gente conhecia o Tom Ramsay. Ninguém podia concordar com o seu comportamento, mas também ninguém podia deixar de gostar dele.
O pobre George, um ano apenas mais velho do que o estouvado do irmão, parecia ter já sessenta anos. Durante um quarto de século, nunca tinha tirado mais do que quinze dias de férias por ano. Chegava ao escritório todas as manhãs às nove e meia e nunca saía antes das seis. Era honesto, trabalhador e digno. Tinha uma boa esposa, a quem nunca fora infiel, nem em pensamento, e quatro filhas para quem era o melhor dos pais. Fazia questão de poupar um terço do seu rendimento, e a sua idéia era aposentar-se aos cinqüenta e cinco anos e retirar-se para uma casinha no campo onde tencionava dedicar-se à jardinagem e ao golfe. A sua vida era irrepreensível. Sentia-se contente por estar envelhecendo, porque afinal com o Tom acontecia o mesmo. Esfregava as mãos e dizia:
“Quando Tom era jovem e bem parecido, ainda enfim, mas ele é apenas um ano mais novo do que eu. Daqui a quatro anos ele faz cinqüenta. Nessa altura não vai achar a vida assim tão fácil. Quando eu fizer cinqüenta já terei trinta mil libras. Há vinte e cinco anos que ando a dizer que o Tom vai acabar na sarjeta. E vamos ver como é que ele vai se dar nessa situação. E vamos ver então o que é que compensa mais, se trabalhar ou preguiçar.”
Coitado do George! Ofereci-lhe a minha solidariedade. Agora, ali sentado a seu lado, perguntava-me que coisa terrível não teria feito o Tom. George estava visivelmente muitíssimo perturbado.
“Sabe o que é que aconteceu agora?” perguntou-me.
Eu estava preparado para o pior. Perguntava-me se o Tom não teria finalmente caído nas mãos da polícia. Com alguma dificuldade George decidiu-se a começar:
“Você não pode negar que eu tenho sido trabalhador, honesto, respeitável e reto durante toda a minha vida. Depois de uma vida trabalhando e poupando, posso pensar numa aposentadoria com um pequeno rendimento de títulos de toda a confiança. Sempre cumpri com o meu dever na vida que a Providência me reservou.”
“É verdade.”
“E também não se pode negar que o Tom tem sido um patife preguiçoso, indigno, dissoluto, sem princípios. Se houvesse justiça, ele estaria num reformatório.”
“É verdade.”
George corou.
“Há poucas semanas ficou noivo de uma mulher com idade para ser mãe dele. E agora ela morreu e deixou-lhe tudo o que tinha. Meio milhão de libras, um iate, uma casa em Londres e uma casa no campo.”
George Ramsay deu um murro na mesa.
“Não é justo, digo, não é justo. Que diabo, não é justo.”
Não pude evitá-lo. Desatei à gargalhada quando vi o olhar irado do George, rebolei na cadeira, quase caí ao chão. O George nunca me perdoou. Mas o Tom convida-me muitas vezes para jantares excelentes na sua encantadora casa em Mayfair, e se ocasionalmente me pede um dinheirinho insignificante é apenas a força do hábito. Nunca mais do que uma libra.
* Texto extraído da “Página de Beatrix

Guts (Chuck Palahniuk)

Chuck Palahniuk

Inspire.

Inspire o máximo de ar que conseguir. Essa estória deve durar aproximadamente o tempo que você consegue segurar sua respiração, e um pouco mais. Então escute o mais rápido que puder.

Um amigo meu aos 13 anos ouviu falar sobre “fio-terra”. Isso é quando alguém enfia um consolo na bunda. Estimule a próstata o suficiente, e os rumores dizem que você pode ter orgasmos explosivos sem usar as mãos. Nessa idade, esse amigo é um pequeno maníaco sexual. Ele está sempre buscando uma melhor forma de gozar. Ele sai para comprar uma cenoura e lubrificante. Para conduzir uma pesquisa particular. Ele então imagina como seria a cena no caixa do supermercado, a solitária cenoura e o lubrificante percorrendo pela esteira o caminho até o atendente no caixa. Todos os clientes esperando na fila, observando. Todos vendo a grande noite que ele preparou.

Então, esse amigo compra leite, ovos, açúcar e uma cenoura, todos os ingredientes para um bolo de cenoura. E vaselina.

Como se ele fosse para casa enfiar um bolo de cenoura no rabo.

Em casa, ele corta a ponta da cenoura com um alicate. Ele a lubrifica e desce seu traseiro por ela. Então, nada. Nenhum orgasmo. Nada acontece, exceto pela dor.

Então, esse garoto, a mãe dele grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para descer, naquele momento.

Ele remove a cenoura e coloca a coisa pegajosa e imunda no meio das roupas sujas debaixo da cama.

Depois do jantar, ele procura pela cenoura, e não está mais lá. Todas as suas roupas sujas, enquanto ele jantava, foram recolhidas por sua mãe para lavá-las. Não havia como ela não encontrar a cenoura, cuidadosamente esculpida com uma faca da cozinha, ainda lustrosa de lubrificante e fedorenta.

Esse amigo meu, ele espera por meses na surdina, esperando que seus pais o confrontem. E eles nunca fazem isso. Nunca. Mesmo agora que ele cresceu, aquela cenoura invisível aparece em toda ceia de Natal, em toda festa de aniversário. Em toda caça de ovos de páscoa com seus filhos, os netos de seus pais, aquela cenoura fantasma paira por sobre todos eles. Isso é algo vergonhoso demais para dar um nome.

As pessoas na França possuem uma expressão: “sagacidade de escadas.” Em francês:esprit de l’escalier. Representa aquele momento em que você encontra a resposta, mas é tarde demais. Digamos que você está numa festa e alguém o insulta. Você precisa dizer algo. Então sob pressão, com todos olhando, você diz algo estúpido. Mas no momento em que sai da festa….

Enquanto você desce as escadas, então – mágica. Você pensa na coisa mais perfeita que poderia ter dito. A réplica mais avassaladora.

Esse é o espírito da escada.

O problema é que até mesmo os franceses não possuem uma expressão para as coisas estúpidas que você diz sob pressão. Essas coisas estúpidas e desesperadas que você pensa ou faz.

Alguns atos são baixos demais para receberem um nome. Baixos demais para serem discutidos.

Agora que me recordo, os especialistas em psicologia dos jovens, os conselheiros escolares, dizem que a maioria dos casos de suicídio adolescente eram garotos se estrangulando enquanto se masturbavam. Seus pais o encontravam, uma toalha enrolada em volta do pescoço, a toalha amarrada no suporte de cabides do armário, o garoto morto. Esperma por toda a parte. É claro que os pais limpavam tudo. Colocavam calças no garoto. Faziam parecer… melhor. Ao menos, intencional. Um caso comum de triste suicídio adolescente.

Outro amigo meu, um garoto da escola, seu irmão mais velho na Marinha dizia como os caras do Oriente Médio se masturbavam de forma diferente do que fazemos por aqui. Esse irmão tinha desembarcado num desses países cheios de camelos, na qual o mercado público vendia o que pareciam abridores de carta chiques. Cada uma dessas coisas é apenas um fino cabo de latão ou prata polida, do comprimento aproximado de sua mão, com uma grande ponta numa das extremidades, ou uma esfera de metal ou uma dessas empunhaduras como as de espadas. Esse irmão da Marinha dizia que os árabes ficavam de pau duro e inseriam esse cabo de metal dentro e por toda a extremidade de seus paus. Eles então batiam punheta com o cabo dentro, e isso os faziam gozar melhor. De forma mais intensa.

Esse irmão mais velho viajava pelo mundo, mandando frases em francês. Frases em russo. Dicas de punhetagem.

Depois disso, o irmão mais novo, um dia ele não aparece na escola. Naquela noite, ele liga pedindo para eu pegar seus deveres de casa pelas próximas semanas. Porque ele está no hospital.

Ele tem que compartilhar um quarto com velhos que estiveram operando as entranhas. Ele diz que todos compartilham a mesma televisão. Que a única coisa para dar privacidade é uma cortina. Seus pais não o vem visitar. No telefone, ele diz como os pais dele queriam matar o irmão mais velho da Marinha.

Pelo telefone, o garoto diz que, no dia anterior, ele estava meio chapado. Em casa, no seu quarto, ele deitou-se na cama. Ele estava acendendo uma vela e folheando algumas revistas pornográficas antigas, preparando-se para bater uma. Isso foi depois que ele recebeu as notícias de seu irmão marinheiro. Aquela dica de como os árabes se masturbam. O garoto olha ao redor procurando por algo que possa servir. Uma caneta é grande demais. Um lápis, grande demais e áspero. Mas escorrendo pelo canto da vela havia um fino filete de vela derretida que poderia servir. Com as pontas dos dedos, o garoto descola o filete da vela. Ele o enrola na palma de suas mãos. Longo, e liso, e fino.

Chapado e com tesão, ele enfia lá dentro, mais e mais fundo por dentro do canal urinário de seu pau. Com uma boa parte da cera ainda para fora, ele começa o trabalho.

Até mesmo nesse momento ele reconhece que esses árabes eram caras muito espertos. Eles reinventaram totalmente a punheta. Deitado totalmente na cama, as coisas estão ficando tão boas que o garoto nem observa a filete de cera. Ele está quase gozando quando percebe que a cera não está mais lá.

O fino filete de cera entrou. Bem lá no fundo. Tão fundo que ele nem consegue sentir a cera dentro de seu pau.

Das escadas, sua mãe grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para ele descer naquele momento. O garoto da cenoura e o garoto da cera eram pessoas diferentes, mas viviam basicamente a mesma vida.

Depois do jantar, as entranhas do garoto começam a doer. É cera, então ele imagina que ela vá derreter dentro dele e ele poderá mijar para fora. Agora suas costas doem. Seus rins. Ele não consegue ficar ereto corretamente.

O garoto falando pelo telefone do seu quarto de hospital, no fundo pode-se ouvir campainhas, pessoas gritando. Game shows.

Os raios-X mostram a verdade, algo longo e fino, dobrado dentro de sua bexiga. Esse longo e fino V dentro dele está coletando todos os minerais no seu mijo. Está ficando maior e mais expesso, coletando cristais de cálcio, está batendo lá dentro, rasgando a frágil parede interna de sua bexiga, bloqueando a urina. Seus rins estão cheios. O pouco que sai de seu pau é vermelho de sangue.

O garoto e seus pais, a família inteira, olhando aquela chapa de raio-X com o médico e as enfermeiras ali, um grande V de cera brilhando na chapa para todos verem, ele deve falar a verdade. Sobre o jeito que os árabes se masturbam. Sobre o que o seu irmãos mais velho da Marinha escreveu.

No telefone, nesse momento, ele começa a chorar.

Eles pagam pela operação na bexiga com o dinheiro da poupança para sua faculdade. Um erro estúpido, e agora ele nunca mais será um advogado.

Enfiando coisas dentro de você. Enfiando-se dentro de coisas. Uma vela no seu pau ou seu pescoço num nó, sabíamos que não poderia acabar em problemas.

O que me fez ter problemas, eu chamava de Pesca Submarina. Isso era bater punheta embaixo d’água, sentando no fundo da piscina dos meus pais. Pegando fôlego, eu afundava até o fundo da piscina e tirava meu calção. Eu sentava no fundo por dois, três, quatro minutos.

Só de bater punheta eu tinha conseguido uma enorme capacidade pulmonar. Se eu tivesse a casa só para mim, eu faria isso a tarde toda. Depois que eu gozava, meu esperma ficava boiando em grandes e gordas gotas.

Depois disso eram mais alguns mergulhos, para apanhar todas. Para pegar todas e colocá-las em uma toalha. Por isso chamava de Pesca Submarina. Mesmo com o cloro, havia a minha irmã para se preocupar. Ou, Cristo, minha mãe.

Esse era meu maior medo: minha irmã adolescente e virgem, pensando que estava ficando gorda e dando a luz a um bebê retardado de duas cabeças. As duas parecendo-se comigo. Eu, o pai e o tio. No fim, são as coisas nais quais você não se preocupa que te pegam.

A melhor parte da Pesca Submarina era o duto da bomba do filtro. A melhor parte era ficar pelado e sentar nela.

Como os franceses dizem, Quem não gosta de ter seu cú chupado? Mesmo assim, num minuto você é só um garoto batendo uma, e no outro nunca mais será um advogado.

Num minuto eu estou no fundo da piscina e o céu é um azul claro e ondulado, aparecendo através de dois metros e meio de água sobre minha cabeça. Silêncio total exceto pelas batidas do coração que escuto em meu ouvido. Meu calção amarelo-listrado preso em volta do meu pescoço por segurança, só em caso de algum amigo, um vizinho, alguém que apareça e pergunte porque faltei aos treinos de futebol. O constante chupar da saída de água me envolve enquanto delicio minha bunda magra e branquela naquela sensação.

Num momento eu tenho ar o suficiente e meu pau está na minha mão. Meus pais estão no trabalho e minha irmão no balé. Ninguém estará em casa por horas.

Minhas mãos começam a punhetar, e eu paro. Eu subo para pegar mais ar. Afundo e sento no fundo.

Faço isso de novo, e de novo.

Deve ser por isso que garotas querem sentar na sua cara. A sucção é como dar uma cagada que nunca acaba. Meu pau duro e meu cú sendo chupado, eu não preciso de mais ar. O bater do meu coração nos ouvidos, eu fico no fundo até as brilhantes estrelas de luz começarem a surgir nos meus olhos. Minhas pernas esticadas, a batata das pernas esfregando-se contra o fundo. Meus dedos do pé ficando azul, meus dedos ficando enrugados por estar tanto tempo na água.

E então acontece. As gotas gordas de gozo aparecem. É nesse momento que preciso de mais ar. Mas quando tento sair do fundo, não consigo. Não consigo colocar meus pés abaixo de mim. Minha bunda está presa.

Médicos de plantão de emergência podem confirmar que todo ano cerca de 150 pessoas ficam presas dessa forma, sugadas pelo duto do filtro de piscina. Fique com o cabelo preso, ou o traseiro, e você vai se afogar. Todo o ano, muita gente fica. A maioria na Flórida.

As pessoas simplesmente não falam sobre isso. Nem mesmo os franceses falam sobre tudo. Colocando um joelho no fundo, colocando um pé abaixo de mim, eu empurro contra o fundo. Estou saindo, não mais sentado no fundo da piscina, mas não estou chegando para fora da água também.

Ainda nadando, mexendo meus dois braços, eu devo estar na metade do caminho para a superfície mas não estou indo mais longe que isso. O bater do meu coração no meu ouvido fica mais alto e mais forte.

As brilhantes fagulhas de luz passam pelos meus olhos, e eu olho para trás… mas não faz sentido. Uma corda espessa, algum tipo de cobra, branco-azulada e cheia de veias, saiu do duto da piscina e está segurando minha bunda. Algumas das veias estão sangrando, sangue vermelho que aparenta ser preto debaixo da água, que sai por pequenos cortes na pálida pele da cobra. O sangue começa a sumir na água, e dentro da pele fina e branco-azulada da cobra é possível ver pedaços de alguma refeição semi-digerida.

Só há uma explicação. Algum horrível monstro marinho, uma serpente do mar, algo que nunca viu a luz do dia, estava se escondendo no fundo escuro do duto da piscina, só esperando para me comer.

Então… eu chuto a coisa, chuto a pele enrugada e escorregadia cheia de veias, e parece que mais está saindo do duto. Deve ser do tamanho da minha perna nesse momento, mas ainda segurando firme no meu cú. Com outro chute, estou a centímetros de conseguir respirar. Ainda sentido a cobra presa no meu traseiro, estou bem próximo de escapar.

Dentro da cobra, é possível ver milho e amendoins. E dá pra ver uma brilhante esfera laranja. É um daqueles tipos de vitamina que meu pai me força a tomar, para poder ganhar massa. Para conseguir a bolsa como jogador de futebol. Com ferro e ácidos graxos Ômega 3.

Ver essa pílula foi o que me salvou a vida.

Não é uma cobra. É meu intestino grosso e meu cólon sendo puxados para fora de mim. O que os médicos chamam de prolapso de reto. São minhas entranhas sendo sugadas pelo duto.

Os médicos de plantão de emergência podem confirmar que uma bomba de piscina pode puxar 300 litros de água por minuto. Isso corresponde a 180 quilos de pressão. O grande problema é que somos todos interconectados por dentro. Seu traseiro é apenas o término da sua boca. Se eu deixasse, a bomba continuaria a puxar minhas entranhas até que chegasse na minha língua. Imagine dar uma cagada de 180 quilos e você vai perceber como isso pode acontecer.

O que eu posso dizer é que suas entranhas não sentem tanta dor. Não da forma que sua pele sente dor. As coisas que você digere, os médicos chamam de matéria fecal. No meio disso tudo está o suco gástrico, com pedaços de milho, amendoins e ervilhas.

Essa sopa de sangue, milho, merda, esperma e amendoim flutua ao meu redor. Mesmo com minhas entranhas saindo pelo meu traseiro, eu tentando segurar o que restou, mesmo assim, minha vontade é de colocar meu calção de alguma forma.

Deus proíba que meus pais vejam meu pau.

Com uma mão seguro a saída do meu rabo, com a outra mão puxo o calção amarelo-listrado do meu pescoço. Mesmo assim, é impossível puxar de volta.

Se você quer sentir como seria tocar seus intestinos, compre um camisinha feita com intestino de carneiro. Pegue uma e desenrole. Encha de manteiga de amendoim. Lubrifique e coloque debaixo d’água. Então tente rasgá-la. Tente partir em duas. É firme e ao mesmo tempo macia. É tão escorregadia que não dá para segurar.

Uma camisinha dessas é feita do bom e velho intestino.

Você então vê contra o que eu lutava.

Se eu largo, sai tudo.

Se eu nado para a superfície, sai tudo.

Se eu não nadar, me afogo.

É escolher entre morrer agora, e morrer em um minuto.

O que meus pais vão encontrar depois do trabalho é um feto grande e pelado, todo curvado. Mergulhado na árgua turva da piscina de casa. Preso ao fundo por uma larga corda de veias e entranhas retorcidas. O oposto do garoto que se estrangula enquanto bate uma. Esse é o bebê que trouxeram para casa do hospital há 13 anos. Esse é o garoto que esperavam conseguir uma bolsa de jogador de futebol e eventualmente um mestrado. Que cuidaria deles quando estivessem velhinhos. Seus sonhos e esperanças. Flutuando aqui, pelado e morto. Em volta dele, gotas gordas de esperma.

Ou isso, ou meus pais me encontrariam enrolado numa toalha encharcada de sangue, morto entre a piscina e o telefone da cozinha, os restos destroçados das minhas entranhas para fora do meu calção amarelo-listrado.

Algo sobre o qual nem os franceses falam.

Aquele irmão mais velho na Marinha, ele ensinou uma outra expressão bacana. Uma expressão russa. Do jeito que nós falamos “Preciso disso como preciso de um buraco na cabeça…,” os russos dizem, “Preciso disso como preciso de dentes no meu cú……

Mne eto nado kak zuby v zadnitse.

Essas histórias de como animais presos em armadilhas roem a própria perna fora, bem, qualquer coiote poderá te confirmar que algumas mordidas são melhores que morrer.

Droga… mesmo se você for russo, um dia vai querer esses dentes.

Senão, o que você pode fazer é se curvar todo. Você coloca um cotovelo por baixo do joelho e puxa essa perna para o seu rosto. Você morde e rói seu próprio cú. Se você ficar sem ar você consegue roer qualquer coisa para poder respirar de novo.

Não é algo que seja bom contar a uma garota no primeiro encontro. Não se você espera por um beijinho de despedida. Se eu contasse como é o gosto, vocês não comeriam mais frutos do mar.

É difícil dizer o que enojaria mais meus pais: como entrei nessa situação, ou como me salvei. Depois do hospital, minha mãe dizia, “Você não sabia o que estava fazendo, querido. Você estava em choque.” E ela teve que aprender a cozinhar ovos pochê.

Todas aquelas pessoas enojadas ou sentindo pena de mim….

Precisava disso como precisaria de dentes no cú.

Hoje em dia, as pessoas sempre me dizem que eu sou magrinho demais. As pessoas em jantares ficam quietas ou bravas quando não como o cozido que fizeram. Cozidos podem me matar. Presuntadas. Qualquer coisa que fique mais que algumas horas dentro de mim, sai ainda como comida. Feijões caseiros ou atum, eu levanto e encontro aquilo intacto na privada.

Depois que você passa por uma lavagem estomacal super-radical como essa, você não digere carne tão bem. A maioria das pessoas tem um metro e meio de intestino grosso. Eu tenho sorte de ainda ter meus quinze centímetros. Então nunca consegui minha bolsa de jogador de futebol. Nunca consegui meu mestrado. Meus dois amigos, o da cera e o da cenoura, eles cresceram, ficaram grandes, mas eu nunca pesei mais do que pesava aos 13 anos.

Outro problema foi que meus pais pagaram muita grana naquela piscina. No fim meu pai teve que falar para o cara da limpeza da piscina que era um cachorro. O cachorro da família caiu e se afogou. O corpo sugado pelo duto. Mesmo depois que o cara da limpeza abriu o filtro e removeu um tubo pegajoso, um pedaço molhado de intestino com uma grande vitamina laranja dentro, mesmo assim meu pai dizia, “Aquela porra daquele cachorro era maluco.”

Mesmo do meu quarto no segundo andar, podia ouvir meu pai falar, “Não dava para deixar aquele cachorro sozinho por um segundo….”

E então a menstruação da minha irmã atrasou.

Mesmo depois que trocaram a água da piscina, depois que vendemos a casa e mudamos para outro estado, depois do aborto da minha irmã, mesmo depois de tudo isso meus pais nunca mencionaram mais isso novamente.

Nunca.

Essa é a nossa cenoura invisível.

Você. Agora você pode respirar.

Eu ainda não.

* Retirado do blog Lendas Urbanas

A Rua (João do Rio)


Rua do Ouvidor — 1890

Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado épartilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia,mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma,tudo varia — o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste efica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.

A rua! Que é a rua? Um cançonetista de Montmartre fá-la dizer:
Je suís la rue, femme êternellement verte,
Je n’ai jamais trouvé d’autre carrière ouverte
Sinon d’être la rue, et, de tout temps, depuis
Que ce pénible monde est monde, je la suis…

A verdade e o trocadilho! Os dicionários dizem: “Rua, do latim ruga, sulco. Espaço entre as casas e as povoações por onde se anda e passeia”. E Domingos Vieira, citando asOrdenações: “Estradas e rua pruvicas antiguamente usadas e os rios navegantes se som cabedaes que correm continuamente e de todo o tempo pero que o uso assy das estradas e ruas pruvicas”.A obscuridade da gramática e da lei! Os dicionários só são considerados fontes fáceis de completo saber pelos que nunca os folhearam. Abri o primeiro, abri o segundo, abri dez, vinteenciclopédias, manuseei in-folios especiais de curiosidade. A rua era para eles apenas um alinhado de fachadas por onde se anda nas povoações. Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! Em Benares ou em Amsterdão, em Londres ou Buenos Aires, sob os céus mais diversos, nos maisvariados climas, a rua é a agasalhadora da miséria. Os desgraçados não se sentem de todo sem o auxílio dos deuses enquanto diante dos seus olhos uma rua abre para outra rua. A rua é o aplausodos medíocres, dos infelizes, dos miseráveis da arte. Não paga ao Tamagno para ouvir berros atenorados de leão avaro, nem à velha Patti para admitir um fio de voz velho, fraco e legendário.Bate, em compensação, palmas aos saltimbancos que, sem voz, rouquejam com fome para alegrá-la e para comer. A rua é generosa. O crime, o delírio, a miséria não os denuncia ela. A ruaé a transformadora das línguas. Os Cândido de Figueiredo do universo estafam-se em juntar regrinhas para enclausurar expressões; os prosadores bradam contra os Cândido. A rua continua,matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons futuros. A ruaresume para o animal civilizado todo o conforto humano. Dá-lhe luz, luxo, bem-estar, comodidade e até impressões selvagens no adejar das árvores e no trinar dos pássaros.

A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis deter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopéia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essamiséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas. A rua criou todas as blagues todos os lugares-comuns. Foi ela que fez a majestade dosrifões, dos brocardos, dos anexins, e foi também ela que batizou o imortal Calino. Sem o consentimento da rua não passam os sábios, e os charlatães, que a lisonjeiam lhe resumem abanalidade, são da primeira ocasião desfeitos e soprados como bolas de sabão. A rua é a eterna imagem da ingenuidade. Comete crimes, desvaria à noite, treme com a febre dos delírios, paraela como para as crianças a aurora é sempre formosa, para ela não há o despertar triste, quando o sol desponta e ela abre os olhos esquecida das próprias ações, é, no encanto da vida renovada, nochilrear do passaredo, no embalo nostálgico dos pregões — tão modesta, tão lavada, tão risonha, que parece papaguear com o céu e com os anjos…

A rua faz as celebridades e as revoltas, a rua criou um tipo universal, tipo que vive em cada aspecto urbano, em cada detalhe, em cada praça, tipo diabólico que tem dos gnomos e dossilfos das florestas, tipo proteiforme, feito de risos e de lágrimas, de patifarias e de crimes irresponsáveis, de abandono e de inédita filosofia, tipo esquisito e ambíguo com saltos de felinoe risos de navalha, o prodígio de uma criança mais sabida e cética que os velhos de setenta invernos, mas cuja ingenuidade é perpétua, voz que dá o apelido fatal aos potentados e nuncateve preocupações, criatura que pede como se fosse natural pedir, aclama sem interesse, e pode rir, francamente, depois de ter conhecido todos os males da cidade, poeira d’ouro que se fazlama e torna a ser poeira — a rua criou o garoto!

Essas qualidades nós as conhecemos vagamente. Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso terespírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dosesportes — a arte de flanar. É fatigante o exercício?

Para os iniciados sempre foi grande regalo. A musa de Horácio, a pé, não fez outra coisanos quarteirões de Roma. Sterne e Hoffmann proclamavam-lhe a profunda virtude, e Balzac fez todos os seus preciosos achados flanando. Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nosdicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é irpor aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças osajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti de casaca aplaudirem o maior tenor do Lírico numaópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem fazer nada e acharabsolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amorcausa inveja.

É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisasnecessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à porta do café,como Poe no Homem da Multidões, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões, as preocupações e até os crimes dos transeuntes. É uma espécie de secreta à maneira de SherlockHolmes, sem os inconvenientes dos secretas nacionais. Haveis de encontrá-lo numa bela noite numa noite muito feia. Não vos saberá dizer donde vem, que está a fazer, para onde vai.Pensareis decerto estar diante de um sujeito fatal? Coitado! O flâneur é o bonhomme possuidor de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura, porque deambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence da inutilidade da cólera e da necessidade do perdão.

O flâneur é ingênuo quase sempre. Pára diante dos rolos, é o eterno “convidado dosereno” de todos os bailes, quer saber a história dos boleiros, admira-se simplesmente, e conhecendo cada rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe ahistória dos amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga idéia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio. O balão que sobe ao meio-dia no Castelo,sobe para seu prazer; as bandas de música tocam nas praças para alegrá-lo; se num beco perdido há uma serenata com violões chorosos, a serenata e os violões estão ali para diverti-lo. E de tantover que os outros quase não podem entrever, o flâneur reflete. As observaçõs foram guardadas na placa sensível do cérebro; as frases, os ditos, as cenas vibram-lhe no cortical. Quando oflâneur deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia, a alma das ruas. E é então que haveis depasmar da futilidade do mundo e da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de observação…

Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo e imóvel.

Balzac dizia que as ruas de Paris nos dão impressões humanas.São assim as ruas de todasas cidades, com vida e destinos iguais aos do homem.

Por que nascem elas? Da necessidade de alargamento das grandes colmeias sociais, deinteresses comerciais, dizem. Mas ninguém o sabe. Um belo dia, alinha-se um tarrascal, corta-se um trecho de chácara, aterra-se lameiro, e aí está: nasceu mais uma rua. Nasceu para evoluir,para ensaiar primeiros passos, para balbuciar, crescer, criar uma individualidade. Os homens têm no cérebro a sensação dessa semelhança, e assim como dizem de um rapagão:

— Quem há de pensar que vi este menino a engatinhar!
Murmuram:
— Quem há de dizer que esta rua há dez anos só tinha uma casa!

Um cavalheiro notável, ao entrar comigo certa vez na Rua Senador Dantas, não se conteve:

— É impossível passar por aqui sem lembrar que a velhice começa a chegar. Quando vim da província esta rua tinha apenas duas casas no antigo jardim do Convento, e eu tomava choppsno Guarda Velha a três vinténs!

Eu sorria, mas o pobre sujeito importante dizia isso como se recordasse os dois primeiros dentes de um homenzarrão, com uma dentadura capaz atualmente de morder as algibeiras de uma sociedade inteira. Era arecordação, a saudade do passado começo. Há nada mais enternecedor que o princípio de uma rua? É ir vê-lo nos arrabaldes. A princípio capim, um braço a ligar duas artérias. Percorre-o sem pensar meia dúzia de criaturas. Um diacercam à beira um lote de terreno. Surgem em seguida os alicerces de uma casa. Depois de outra e mais outra. Um combustor tremeluz indicando que ela já se não deita com as primeiras sombras. Três ou quatro habitantesproclamam a sua salubridade ou o seu sossego. Os vendedores ambulantes entram por ali como por terreno novo a conquistar. Aparece a primeira reclamação nos jornais contra a lama ou o capim. É o batismo. As notas policiaiscontam que os gatunos deram num dos seus quintais. É a estréia na celebridade, que exige o calçamento ou o prolongamento da linha de bondes. E insensivelmente, há na memória da produção, bem nítida, bem pessoal, umaindividualidade topográfica a mais, uma individualidade que tem fisionomia e alma.
Algumas dão para malandras, outras para austeras; umas são pretensiosas, outras riem aos transeuntes e o destino as conduz como conduz o homem, misteriosamente, fazendo-asnascer sob uma boa estrela ou sob um signo mau, dando-lhes glórias e sofrimentos, matando-as ao cabo de um certo tempo.

Oh! sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres,delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastampara contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, spleenéticas,snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue…

Vede a Rua do Ouvidor. É a fanfarronada em pessoa, exagerando, mentindo, tomandoparte em tudo, mas desertando, correndo os taipais das montras1 à mais leve sombra de perigo.Esse beco inferno de pose, de vaidade, de inveja, tem a especialidade da bravata. E fatalmenteoposicionista, criou o boato, o “diz-se…“ aterrador e o “fecha-fecha” prudente. Começou porchamar-se Desvio do Mar. Por ela continua a passar para todos os desvios muita gente boa. Notempo em que os seus melhores prédios se alugavam modestamente por dez mil réis, era a Ruado Gadelha. Podia ser ainda hoje a Rua dos Gadelhas, atendendo ao número prodigioso depoetas nefelibatas que a infestam de cabelos e de versos. Um dia resolveu chamar-se do Ouvidorsem que o senado da câmara fosse ouvido. Chamou-se como calunia, e elogia, como insulta eaplaude, porque era preciso denominar o lugar em que todos falam de lugar do que ouve; eparece que cada nome usado foi como a antecipação moral de um dos aspectos atuais dessairresponsável artéria da futilidade.

A Rua da Misericórdia, ao contrário, com as suas hospedarias lôbregas, a miséria, adesgraça das casas velhas e a cair, os corredores bafientos, é perpetuamente lamentável. Foi aprimeira rua do Rio. Dela partimos todos nós, nela passaram os vice-reis malandros, osgananciosos, os escravos nus, os senhores em redes; nela vicejou a imundície, nela desabotoou aflor da influência jesuítica. Índios batidos, negros presos a ferros, domínio ignorante e bestial, oprimeiro balbucio da cidade foi um grito de misericórdia, foi um estertor, um ai! tremendoatirado aos céus. Dela brotou a cidade no antigo esplendor do Largo do Paço, dela decorreram,como de um corpo que sangra, os becos humildes e os coalhos de sangue, que são as praças,ribeirinhas do mar. Mas, soluço de espancado, primeiro esforço de uma porção de infelizes, elacontinuou pelos séculos afora sempre lamentável, e tão augustiosa e franca e verdadeira na suador que os patriotas lisonjeiros e os governos, ninguém, ninguém se lembrou nunca de lhe tirardas esquinas aquela muda prece, aquele grito de mendiga velha: — Misericórdia!

Há ruas que mudam de lugar, cortam morros, vão acabar em certos pontos que ninguémdantes imaginara — a Rua dos Ourives; há ruas que, pouco honestas no passado, acabaramtomando vergonha — a da Quitanda. Essa tinha mesmo a mania de mudar de nome. Chamou-sedo Açougue Velho, do lnácio Castanheira, do Sucusarrará, do Tomé da Silva, que sei eu? Atémesmo Canto do Tabaqueiro. Acabou Quitanda do Marisco, mas, como certos indivíduos queorganizam o nome conforme a posição que ocupam, cortou o marisco e ficou só Quitanda. Háruas, guardas tradicionais da fidalguia, que deslizam como matronas conservadoras — a dasLaranjeiras; há ruas lúgubres, por onde passais com um arrepio, sentindo o perigo da morte — oLargo do Moura por exemplo. Foi sempre assim. Lá existiu o Necrotério e antes do Necrotério láse erguia a Forca. Antes da autópsia, o enforcamento. O velho largo macabro, com a alma deTropmann e de Jack, depois de matar, avaramente guardou anos e anos, para escalpelá-los, parachamá-los, para gozá-los, todos os corpos dos desgraçados que se suicidam ou morremassassinados. Tresanda a crime, assusta. A Prainha também. Mesmo hoje, aberta, alargada com prédios novos e a trepidação contínua do comércio, há de vos dar uma impressão de vago horror.À noite são mais densas as sombras, as luzes mais vermelhas, as figuras maiores. Por que teráessa rua um aspecto assim? Oh! Porque foi sempre má, porque foi sempre ali o Aljube, alipadeceram os negros dos três primeiros trapiches do sal, porque também ali a forca espalhou amorte!

Há entretanto outras ruas, que nascem íntimas, familiares, incapazes de dar um passo semque todas as vizinhas não saibam. As ruas de Santa Teresa estão nestas condições. Umcavalheiro salta no Curvelo, vai a pé até o França, e quando volta já todas as ruas perguntam quedeseja ele, se as suas tenções são puras e outras impertinências íntimas. Em geral, procura-se omistério da montanha para esconder um passeio mais ou menos amoroso. As ruas de SantaTeresa, é descobrir o par e é deitar a rir proclamando aos quatro ventos o acontecimento. Umadas ruas, mesmo, mais leviana e tagarela do que as outras, resolveu chamar-se logo Rua doAmor, e a Rua do Amor lá está na freguesia de S. José. Será exatamente um lugar escolhido peloAmor, deus decadente? Talvez não. Há também na freguesia do Engenho Velho uma ruaintitulada Feliz Lembrança e parece que não a teve, segundo a opinião respeitável da poesiaanônima:

Na Rua Feliz Lembrança
Eu escapei por um triz
De ser mandado à tábua.
Ai! que lembrança infeliz
Tal nome pôr nesta rua!

Há ruas que têm as blandícias de Goriot e de Shylock para vos emprestar a juro, paraesconder quem pede e paga o explorador com ar humilde. Não vos lembrais da Rua doSacramento, da rua dos penhores? Uma aragem fina e suave encantava sempre o ar. Defronte àigreja, casas velhas guardavam pessoas tradicionais. No Tesouro, por entre as grades de ferro,uma ou outra cara desocupada. E era ali que se empenhavam as jóias, que pobres entesangustiados iam levar os derradeiros valores com a alma estrangulada de soluços; era ali querefluíam todas as paixões e todas as tristezas, cujo lenitivo dependesse de dinheiro…

Há ruas oradoras, ruas de meeting — o Largo do Capim que assim foi sempre, o Largode S. Francisco; ruas de calma alegria burguesa, que parecem sorrir com honestidade — a Ruade Haddock Lobo; ruas em que não se arrisca a gente sem volver os olhos para trás a ver se nosvêem —a Travessa da Barreira; ruas melancólicas, da tristeza dos poetas; ruas de prazer suspeitopróximo do centro urbano e como que dele muito afastadas; ruas de paixão romântica, quepedem virgens loiras e luar.

Qual de vós já passou a noite em claro ouvindo o segredo de cada rua? Qual de vós jásentiu o mistério, o sono, o vício, as idéias de cada bairro?

A alma da rua só é inteiramente sensível a horas tardias. Há trechos em que a gente passacomo se fosse empurrada, perseguida, corrida — são as ruas em que os passos reboam,repercutem, parecem crescer, clamam, ecoam e, em breve, são outros tantos passos ao nossoencalço. Outras que se envolvem no mistério logo que as sombras descem — o Largo de Paço.Foi esse largo o primeiro esplendor da cidade. Por ali passaram, na pompa dos pálios e dosbaldaquins d’ouro e púrpura, as procissões do Enterro, do Triunfo, do Senhor dos Passos; por ali,ao lado da Praia do Peixe, simples vegetação de palhoças, o comércio agitava as suas primeiraselegâncias e as suas ambições mais fortes. O largo, apesar das reformas, parece guardar atradição de dormir cedo. À noite, nada o reanima, nada o levanta. Uma grande revolução morreno seu bojo como um suspiro; a luz leva a lutar com a treva; os próprios revérberos parecedormitarem, e as sombras que por ali deslizam são trapos da existência almejando o fimpróximo, ladrões sem pousada, imigrantes esfaimados… Deixai esse largo, ide às ruelas daMisericórdia, trechos da cidade que lembram o Amsterdão sombrio de Rembrandt. Há homensem esteiras, dormindo na rua como se estivessem em casa. Não nos admiremos. Somos reflexos.O Beco da Música ou o Beco da Fidalga reproduzem a alma das ruas de Nápoles, de Florença,das ruas de Portugal, das ruas da África, e até, se acreditarmos na fantasia de Heródoto, das ruasdo antigo Egito. E por quê? Porque são ruas da proximidade do mar, ruas viajadas, com a visãode outros horizontes. Abri uma dessas pocilgas que são a parte do seu organismo. Haveis de verchineses bêbados de ópio, marinheiros embrutecidos pelo álcool, feiticeiras ululando cançõessinistras, toda a estranha vida dos portos de mar. E esses becos, essas betesgas têm a perfídia dosoceanos, a miséria das imigrações, e o vício, o grande vício do mar e das colônias…

Se as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm idéias, filosofia e religião. Há ruasinteiramente católicas, ruas protestantes, ruas livres-pensadoras e até ruas sem religião.Trafalgar Square, dizia o mestre humorista Jerome, não tem uma opinião teológica definitiva. Omesmo se pode dizer da Praça da Concórdia de Paris ou da Praça Tiradentes. Há criatura maissem miolos que o Largo do Rocio? Devia ser respeitável e austero. Lá, Pedro I, trepado numbelo cavalo e com um belo gesto, mostra aos povos a carta da independência, fingindo dar umgrito que nunca deu. Pois bem: não há sujeito mais pândego e menos sério do que o velho ex-Largo do Rocio. Os seus sentimentos religiosos oscilam entre a depravação e a roleta.Felizmente, outras redimem a sociedade de pedra e cal, pelo seu culto e o seu fervor. A RuaBenjamin Constant está neste caso, é entre nós um tremendo exemplo de confusão religiosa.Solene, grave, guarda três templos, e parece dizer com circunspecção e o ar compenetrado decertos senhores de todos nós conhecidos:

— Faço as obras do Coração de Jesus, creio em Deus, nas orações, nos bentinhos e sónão sou positivista porque é tarde para mudar de crença. Mas respeito muito e admiro TeixeiraMendes…

Nós, os homens nervosos, temos de quando em vez alucinações parciais da pele, doresfulgurantes, a sensação de um contacto que não existe, a certeza de que chamam por nós. As ruastêm os rolos, as casas mal assombradas, e há até ruas possessas, com o diabo no corpo. Em S.Luís do Maranhão há uma rua sonâmbula muito menos cacete que a ópera célebre do mesmonome. Essa rua é a Rua de Santa Ana, a lady Macbeth da topografia. Deu-se lá um crimehorrível. Às dez horas, a rua cai em estado sonambúlico e é só gritos, clamores: sangue! sangue!

Ruas assim ainda mostram o que pensam. Talvez as outras tenham maiores delírios, massão como os homens normais — guardam dentro do cérebro todos os pensamentosextravagantes. Quem se atreveria a resumir o que num minuto pensa de mal, de inconfessável, omais honesto cidadão? Entre as ruas existem também as falsas, as hipócritas, com a alma deTartufo e de Iago. Por isso os grandes mágicos do interior da África Central, que dos sertõesadustos levavam às cidades inglesas do litoral sacos d’ouro em pó e grandes macacos tremendos,têm uma cantiga estranha que vale por uma sentença breve de Catão:

O di ti a uê, chê
F’u, a uá ny
Odé, odá, bi ejô
Sa lo dê

Sentença que em eubá (dialeto do reino iorubá Egbá, língua geral dos negros oriundos da atual Nigéria), o esperanto das hordas selvagens, quer dizer apenas isto: rua foifeita para ajuntamentos. Rua é como cobra. Tem veneno. Foge da rua!

Mas o importante, o grave, é ser a rua a causa fundamental da diversidade dos tiposurbanos. Não sei se lestes um curioso livro de E. Demolins, Comment la route crée le typesocial. É uma revolução no ensino da Geografia. “A causa primeira e decisiva da diversidade dasraças, diz ele, é a estrada, o caminho que os homens seguirem. Foi a estrada que criou a raça e otipo social. Os grandes caminhos do globo foram, de qualquer forma, os alambiques poderosos.que transformaram os povos. Os caminhos das grandes estepes asiáticas, das tundras siberianas,das savanas da América ou das florestas africanas insensivelmente e fatalmente criaram o tipotártaro-mongol, o lapão-esquimó, o pele-vermelha, o índio, o negro”.

A rua é a civilização da estrada. Onde morre o grande caminho começa a rua, e, por isso,ela está para a grande cidade como a estrada está para o mundo. Em embrião, é o princípio, acausa dos pequenos agrupamentos de uma raça idêntica. Daí, em muitos sítios da terra as aldeiasterem o único nome de rua. Quando aumentam e crescem depois, ou pela devoção da maioriados habitantes ou por uma impressão de local, acrescentam ao substantivo rua o complementoque das outras as deve diferençar. Em Portugal esse fato é comum. Há uma aldeia de 700habitantes no Minho que se chama modestamente Rua de S. Jorge, uma outra no Douro que é aRua da Lapela, e existem até uma Rua de Cima e uma Rua de Baixo.

Nas grandes cidades a rua passa a criar o seu tipo, a plasmar o moral dos seus habitantes,a inocular-lhes misteriosamente gostos, costumes, hábitos, modos, opiniões políticas. Vós todosdeveis ter ouvido ou dito aquela frase:

— Como estas meninas cheiram a Cidade Nova!

Não é só a Cidade Nova, sejam louvados os deuses! Há meninas que cheiram a Botafogo,a Haddock Lobo, a Vila Isabel, como há velhas em idênticas condições, como há homenstambém. A rua fatalmente cria o seu tipo urbano como a estrada criou o tipo social. Todos nósconhecemos o tipo do rapaz do Largo do Machado: cabelo à americana, roupas amplas à inglesa,lencinho minúsculo no punho largo, bengala de volta, pretensões às línguas estrangeiras, calçasdobradas como Eduardo VII e toda a snobopolis do universo. Esse mesmo rapaz, dadas idênticasposições, é no Largo do Estácio inteiramente diverso. As botas são de bico fino, os fatos emgeral justos, o lenço no bolso de dentro do casaco, o cabelo à meia cabeleira com muito óleo. Seformos ao Largo do Depósito, esse mesmo rapaz usará lenço de seda preta, forro na gola dopaletot, casaquinho curto e calças obedecendo ao molde corrente na navegação aérea — calças àbalão.

Esses três rapazes da mesma idade, filhos da mesma gente honrada, às vezes até parentes,não há escolas, não há contactos passageiros, não há academias que lhes tranformem o gosto porcerta cor de gravatas, a maneira de comer, as expressões, as idéias — porque cada rua tem umstock especial de expressões, de idéias e de gostos. A gente de Botafogo vai às “primeiras” doLírico, mesmo sem ter dinheiro. A gente de Haddock Lobo tem dinheiro mas raramente vai aoLírico. Os moradores da Tijuca aplaudem Sarah Bernhardt como um prodígio. Os moradores daSaúde amam enternecidamente o Dias Braga. As meninas das Laranjeiras valsam ao som dasvalsas de Strauss e de Berger, que lembram os cassinos da Riviera e o esplendor dos kursaals3.As meninas dos bailes de Catumbi só conhecem as novidades do senhor Aurélio Cavalcante. Asconversas variam, o amor varia, os ideais são inteiramente outros, e até o namoro, essaencantadora primeira fase do eclipse do casamento, essa meia ação da simpatia que se funde emdesejo, é abolutamente diverso. Em Botafogo, à sombra das árvores do parque ou no grandeportão, Julieta espera Romeu, elegante e solitária; em Haddock Lobo, Julieta garruleia embandos pela calçada; e nas casas humildes da Cidade Nova, Julieta, que trabalhou todo o diapensando nessa hora fugace, pende à janela o seu busto formoso…

Oh! sim, a rua faz o indivíduo, nós bem o sentimos. Um cidadão que tenha passadometade da existência na Rua do Pau Ferro não se habitua jamais à Rua Marquês de Abrantes! Osintelectuais sentem esse tremendo efeito do ambiente, menos violentamente, mas sentem. Euconheci um elegante barão da monarquia, diplomata em perpétua disponibilidade, que anecessidade forçara a aceitar de certo proprietário o quarto de um cortiço da Rua Bom Jardim. Opobre homem, com as suas poses à Brummell, sempre de monóculo entalado, era o escândalo darua. Por mais que saudasse as damas e cumprimentasse os homens, nunca ninguém se lembravade o tratar senão com desconfiança assustada. O barão sentia-se desesperado e resumira a vida3 Cassino.num gozo único: sempre que podia, tomava o bonde de Botafogo, acendia um charuto, e ia porali altivo, airoso, com a velha redingote4 abotoada, a “caramela” de cristal cintilante… Estava noseu bairro. Até parece, dizia ele, que as pedras me conhecem!

As pedras! As pedras são a couraça da rua, a resistência que elas apresentam ao novotranseunte. Refleti que nunca pisastes pela primeira vez uma rua de arrabalde sem que o vossopasso fosse hesitante como que, inconscientemente, se habituando ao terreno; refleti nessascoisas sutis que a vida cria, e haveis de compreender então a razão por que os humildes limitamtodo o seu mundo à rua onde moram, e por que certos tipos, os tipos populares, só o sãorealmente em determinados quarteirões.

As ruas são tão humanas, vivem tanto e formam de tal maneira os seus habitantes, que háaté ruas em conflito com outras. Os malandros e os garotos de uma olham para os de outra comopara inimigos. Em 1805, há um século, era assim: os capoeiras da Praia não podiam passar porSanta Luzia. No tempo das eleições mais à navalha que à pena, o Largo do Machadinho e a RuaPedro Américo eram inimigos irreconciliáveis. Atualmente a sugestão é tal que eles se intitulampovo. Há o povo da Rua do Senado, o povo da Travessa do mesmo nome, o povo de Catumbi.Haveis de ouvir, à noite, um grupo de pequenos valentes armados de vara:

— Vamos embora! O povo da Travessa está conosco.

É a Rua do Senado que, aliada à Travessa, vai sovar a Rua Frei Caneca…

Como outrora os homens, mais ou menos notáveis, tomavam o nome da cidade ondetinham nascido — Tales de Mileto, Luciano de Samosata, Epicarmo de Alexandria — os chefesda capadoçagem5 juntam hoje ao nome de batismo o nome da sua rua. Há o José do Senado, oJuca da Harmonia, o Lindinho do Castelo, e ultimamente, nos fatos do crime, tornaram-secélebres dois homens, Carlito e Cardosinho, só temidos em toda a cidade, cheia de Cardosinhose de Carlitos, porque eram o Carlito e o Cardosinho da Saúde. Direis que é uma observaçãopuramente local? Não, cem vezes não! Em Paris, a Ville-Lumière, os bandos de assassinostomam freqüentemente o nome da rua onde se organizaram; em Londres há ruas dos bairrostrágicos com esse predomínio, e na própria história de Bizâncio haveis de encontrar ruas tãoguerreiras que os seus habitantes as juntavam ao nome como um distintivo.

E assim os tipos populares.

Tive o prazer de conhecer dois desses tipos, em que mais vivamente se exteriorizava ainfluência psicológica da rua: o Pai da Criança e a Perereca.

O Pai da Criança estava deslocado, na decadência. Esse ser repugnante nascera comouma depravação da Rua do Ouvidor. Quando o vi doente, nas tascas da Rua Frei Caneca, comojá não estava na sua rua, não era mais notável. Os garotos já não riam dele, ninguém o seguia, eo nojento sujeito conversava nas bodegas, como qualquer mortal, da gatunice dos governos. Sófui descobrir a sua celebridade quando o vi em plena Ouvidor, cheio de fitas, vaiado, cuspindoinsolências, inconcebível de descaro e de náusea. A Perereca, ao contrário. Na Rua do Ouvidorseria apenas uma preta velha. Na Rua Frei Caneca era o regalo, o delírio, a extravagância. Osmalandrins corriam-lhe ao encalço atirando-lhe pedras, os negociantes chegavam às portas, todasas janelas iluminavam-se de gargalhadas. E por quê? Porque esses tipos são o riso das ruas eassim como não há duas pessoas que riam do mesmo modo não há duas ruas cujo riso seja omesmo.

Se a rua é para o homem urbano o que a estrada foi para o homem social, é claro que apreocupação maior, a associada a todas as outras idéias do ser das cidades, é a rua. Nóspensamos sempre na rua. Desde os mais tenros anos ela resume para o homem todos os ideais,os mais confusos, os mais antagônicos, os mais estranhos, desde a noção de liberdade e dedifamação — idéias gerais — até a aspiração de dinheiro, de alegria e de amor, idéiasparticulares. Instintivamente, quando a criança começa a engatinhar, só tem um desejo: ir para arua! Ainda não fala e já a assustam: se você for para a rua encontra o bicho! Se você sair apanha palmadas! Qual! Não há nada! É pilhar um portão aberto que o petiz não se lembra mais debichos nem de pancadas!

Sair só é a única preocupação das crianças até uma certa idade. Depois continuar a sairsó. E quando já para nós esse prazer se usou, a rua é a nossa própria existência. Nela se fazemnegócios, nela se fala mal do próximo, nela mudam as idéias e as convicções, nela surgem asdores e os desgostos, nela sente o homem a maior emoção.

Quando se encontra o amor
Na rua, sem o saber…

— Ponho-o no olho da rua! brada o pai ao filho no auge da fúria.
Aí está a rua como expressão da maior calamidade.

— Você está em casa, venha para a rua se é gente!
Aí temos a rua indicando sítio livre para a valentia a substituir o campo de torneiomedieval.

— É mais deslavado que as pedras da rua!Frase em que se exprime uma sem-vergonhice inconcebível.

— É mais velho que uma rua!Conceito talvez errado porque há ruas que morrem moças.
Às vezes até a rua é a arma que fere e serve de elogio conforme a opinião que dela setem.

— Ah! minha amiga! Meu filho é muito comportado. Já vai à rua sozinho…

— Ah! meninas, o filho de d. Alice está perdido! Pois se até anda sozinho na rua!
E a rua, impassível, é o mistério, o escândalo, o terror…

Os políticos vivem no meio da rua aqui, na China, em Tombuctu, na França; ospresidentes de república, os reis, os papas, no pavor de uma surpresa da rua — a bomba, arevolta; os chefes de polícia são os alucinados permanentes das ruas; todos quantos queremsubir, galgar a inútil e movediça montanha da glória, anseiam pelo juízo da rua, pela aprovaçãoda via pública, e há na patologia nervosa uma vasta parte em que se trata apenas das moléstiasproduzidas pela rua, desde a neurastenia até à loucura furiosa. E que a rua chega a ser a obsessãoem que se condensam todas as nossas ambições. O homem, no desejo de ganhar a vida com maisabundância ou maior celebridade, precisava interessar à rua. Começou pois fazendo discursosem plena ágora (Praça central das cidades da antiga Grécia, em torno da qual se fazia a vida urbana), discursos que, desde os tempos mais remotos aos meetings contemporâneos daestátua de José Bonifácio, falam sempre de coisas altivas, generosas e nobres. Um belo dia, a ruaproclamou a excelente verdade: que as palavras leva-as o vento. Logo, nós assustados,imaginamos o homem-sandwich, o cartaz ambulante; mandamos pregar-lhe, enquanto dorme,com muita goma e muita ingenuidade, os cartazes proclamando a melhor conserva, o doce maisgostoso, o ideal político mais austero, o vinho mais generoso, não só em letras impressas mascom figuras alegóricas, para poupar-lhe o trabalho de ler, para acariciar-lhe a ignorância, paraalegrá-la. Como se não bastassem o cartaz, a lanterna mágica, o homem-sandwich,desveladamente, aos poucos, resolvemos compor-lhe a história e fizemos o jornal — esseformidável folhetim-romance permanente, composto de verdades, mentiras, lisonjas, insultos eda fantasia dos Gaboriau (Émile Gaboriau, escritor francês do século XIX, tido como o criador do romance policial.) que somos todos nós…

Há uma estética da rua, afirmou Bulls. Sim. Há. Porque as atrizes de fama, os oradoresmais populares, os hércules mais cheios de força, os produtos mais evidentes dos blocoscomerciais, vivem de procurar agradá-la. Desse orgulho transitório surgiu para a rua a glóriapolicroma da arte. O temor de serem esquecidos criou para cada uma a roupagem variada,encheu-as como Melusinas de pedra, como fadas cruéis que se teme e se satisfaz, de vestidos múltiplos, de cores variegadas, de fanfreluches 8de papel, da ardência fulgurante das montras decambiantes luzentes; deu-lhes uma perpétua apoteose de sacrifício à espera do milagre do lucroou da popularidade. A estética, a ornamentação das ruas, é o resultado do respeito e do medo quelhes temos…

No espírito humano a rua chega a ser uma imagem que se liga a todos os sentimentos eserve para todas as comparações. Basta percorrer a poesia anônima para constatar a flagranteverdade. É quase sempre na rua que se fala mal do próximo. Folheemos uma coleção de fados.Lá está a idéia:

Adeus, ó Rua Direita
Ó Rua da Murmuração.
Onde se faz audiência
Sem juiz nem escrivão.

Aliás muito tímida, como devendo ser cantada por quem tem culpa no cartório. Mas, seum apaixonado quer descrever o seu peito, só encontra uma comparação perfeita.

O meu peito é uma rua
Onde o meu bem nunca passa,
É a rua da amargura
Onde passeia a desgraça.

Se sente o apetite de descrever, os espécimens são sem conta.

Na rua do meu amor
Não se pode namorar:
De dia, velhas à porta,
De noite, cães a ladrar.

E é suave lembrar aquele sonhador que, defronte da janela da amada e desejando realizaro impossível para lhe ser agradável, só pôde sussurrar esta vontade meiga:

Se esta rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar
De pedrinhas de brilhante
Para meu bem passar.

O povo observa também, e diz mais numa quadra do que todos nós a armar o efeito deperíodos brilhantes. Sempre recordarei um tocador de violão a cantar com lágrimas na voz comodiante do inexorável destino:

Vista Alegre é rua morta
A Formosa é feia e brava
A Rua Direita é torta
A do Sabão não se lava…

Toda a psicologia das construções e do alinhamento em quatro versos! A rua chega apreocupar os loucos. Nos hospícios, onde esses cavalheiros andam doidos por se ver cá fora,8 Ornamento de pouco valor.encontrei planos de ruas ideais, cantores de rua, e um deles mesmo chegou a entregar-me umlongo poema que começava assim:

A rua…
Cumprida, cumprida, atua…
Olê! complicada, complicada, alua
A rua
Nua!

Essa idéia reflete-se nas religiões, nos livros sagrados, na arte de todos os tempos, cadavez mais afiada, cada vez mais sensível. Na literatura atual a rua é a inspiração dos grandesartistas, desde Victor Hugo, Balzac e Dickens, até às epopéias de Zola, desde o funambulismo deBanville até o humorismo de Mark Twain. Não há um escritor moderno que não tenha cantado arua. Os sonhadores levam mesmo a exagerá-la, e hoje, devido certamente à corrente socialista,há toda uma literatura em que a alma das ruas soluça. Os poetas refinados levam a mórbidainspiração a cantar os aspectos parciais da rua. Como os românticos cantavam os pés, os olhos, aboca e outras partes do corpo das apaixonadas, eles cantam o semblante das casas vazias, osrevérberos de gás como Rodenbach:

Le dimanche, en semaine, et par tous les temps
L’un est debout, un autre, il semble, s’agenouille.
Et chacun se sent seul comme dans une foule.
Les revérbéres des banlieues
Sont des cages oú des oiseaux déplient leurs queues.

Os pregões, as calçadas, e houve até um — Mário Pederneiras —que nos deu asutilíssima e admirável psicologia das árvores urbanas:

Com que magoado encanto
Com que triste saudade
Sobre mim atua
Esta estranha feição das árvores da rua.
E elas são, entretanto,
A única ilusão rural de uma cidade!

As árvores urbanas
São, em geral, conselheiras e frias
Sem as grandes expansões e as grandes alegrias
Das provincianas.

Não têm sequer os plácidos carinhos
Dessas largas manhãs provinciais e enxutas.
Nem a orquestra dos ninhos
Nem a graça vegetal das frutas.

Os artistas modernos já não se limitam a exprimir os aspectos proteiformes da rua, aanalisar traço por traço o perfil físico e moral de cada rua. Vão mais longe, sonham a rua ideal,como sonharam um mundo melhor. Williams Morris, por exemplo, imaginou nas Novelas departe alguma a rua socialista e rara, com edifícios magníficos, sem mendigos e sem dinheiro.Rimbaud, nas Illuminations, teve a idéia da rua babélica, reproduzindo nos edifícios, sob o céucinzento, todas as maravilhas clássicas da arquitetura. Bellamy, no Locking Bockward, jásonhava o agrupamento dos grandes armazéns; e hoje, entre essas ruas de sonho, que GustavoKhan considera as ruas utópicas e que talvez se tornem realidade um dia, é o estranho e infernalsulco descrito por Wells na História dos tempos futuros, rua em que tudo dependerá desindicatos formidáveis, em que tudo será elétrico, em que os homens, escravos de meia dúzia,serão como os elos de uma mesma corrente arrastados pelo trabalho através dos casarões.

Mas, a quem não fará sonhar a rua? A sua influência é fatal na palheta dos pintores, naalma dos poetas, no cérebro das multidões. Quem criou o reclamo? A rua! Quem inventou acaricatura! A rua! Onde a expansão de todos os sentimentos da cidade? Na rua! Por isso para dara expressão da dor funda, o grande poeta Bilac fez um dia:

A Avenida assombrada e triste da saudade
Onde vem passear a procissão chorosa
Dos órfãos do carinho e da felicidade.

E certo poeta árabe, reconhecendo com a presciência dos vates que só a rua nos pode dara expressão do sofrimento absoluto como da alegria completa, escreveu a celebrada Praça doriso ao nascer da aurora; o riso de cristal das crianças, o riso perlado das mulheres, o riso gravedos homens a formar um conjunto de tanta harmonia que as árvores também riam no canto dospássaros, e a própria umbela azul do céu se estriava d’ouro no imenso riso do sol..

Neste elogio, talvez fútil, considerei a rua um ser vivo, tão poderoso que conseguemodificar o homem insensivelmente e fazê-lo o seu perpétuo escravo delirante, e mostrei mesmoque a rua é o motivo emocional da arte urbana mais forte e mais intenso. A rua tem ainda umvalor de sangue e de sofrimento: criou um símbolo universal. Há ainda uma rua, construída naimaginação e na dor, rua abjeta e má, detestável e detestada, cuja travessia se faz contra a nossavontade, cujo trânsito é um doloroso arrastar pelo enxurro de uma cidade e de um povo. Todosacotovelam-se e vociferam aí, todos, vindos da Rua da Alegria ou da Rua da Paz, atravessandoas betesgas (Viela, rua estreita.) do Saco do Alferes ou descendo de automóvel dos bairros civilizados, encontram-seaí e aí se arrastam, em lamentações, em soluços, em ódio à vida e ao Mundo. No traçado dascidades ela não se ostenta com as suas imprecações e os seus rancores. É uma rua esconsa enegra, perdida na treva, com palácios de dor e choupanas de pranto, cuja existência se conhecenão por um letreiro à esquina, mas por uma vaga apreensão, um irredutível sentimento deangústia, cuja travessia não se pode jamais evitar. Correi os mapas de Atenas, de Roma, deNínive ou de Babilônia, o mapa das cidades mortas. Termas, canais, fontes, jardins suspensos,lugares onde se fez negócio, onde se amou, lugares onde se se cultuaram os deuses — tudo desapareceu.Olhai o mapa das cidades modernas. De século em século a transformação é quaseradical. As ruas são perecíveis como os homens. A outra, porém, essa horrível rua de todosconhecida e odiada, pela qual diariamente passamos, essa é eterna como o medo, a infâmia, ainveja. Quando Jerusalém fulgia no seu máximo esplendor, já ela lá existia. Enquanto em Atenasartistas e guerreiros recebiam ovações, enquanto em Roma a multidão aplaudia os gladiadorestriunfais e os césares devassos, na rua aflitiva cuspinhava o opróbrio e chorava a inocência.Cartago tinha uma rua assim, e ainda hoje Paris, New York, Berlim a têm, cortando a suaalegria, empanando o seu brilho, enegrecendo todos os triunfos e todas as belezas. Qual de vósnão quebrou, inesperadamente, o ângulo em arestas dessa rua? Se chorastes, se sofrestes acalúnia, se vos sentistes ferido pela maledicência, podereis ter a certeza de que entrastes naobscura via! Ah! Não procureis evita-la! Jamais o conseguireis. Quanto mais se procura dela sairmais dentro dela se sofre. E não espereis nunca que o mundo melhore enquanto ela existir.

Não éuma rua onde sofrem apenas alguns entes, é a rua interminável, que atravessa cidades, países,continentes, vai de pólo a pólo; em que se alanceiam todos os ideais, em que se insultam todas asverdades, onde sofreu Epaminondas e pela qual Jesus passou. Talvez que extinto o mundo, apagados todos os astros, feito o universo treva, talvez ela ainda exista, e os seus soluçossinistramente ecoem na total ruína, rua das lágrimas, rua do desespero — interminável rua da amargura.

O Aumento (Dino Buzzati)

Quando ficou sabendo que seu jovem colega Bossi, a mais recente admissão da firma, ganhava mais de vinte mil liras por mês do que ele, Giovanni Battistela viu-se tomado de uma raiva espantosa. E teve uma coragem do que em condições normais lhe pareceria uma loucura: de fazer-se receber pelo diretor e dizer-lhe poucas e boas. E ei-lo que se apresenta no solene escritório em cujo fundo estava sentado o chefe.
– Por favor, por favor. Pode se aproximar…
– Queria me desculpar, senhor comendador, mas…
– Desculpar por quê? Não me fale em se desculpar. Não faltava mais nada, meu caro Battistela. Eu é que devo lhe agradecer por ter vindo.
– O senhor!?
– Eu, sim. E estou contente, contentíssimo em revê-lo. Mas por favor, sente-se, sim, porque as pessoas que nos são caras, em quem temos mais confiança, são precisamente aquelas que mais negligenciamos. Esta é a cruel lei da vida, não é mesmo? Diga, diga, meu caro Battistela, há quanto tempo não trocamos duas palavras em santa paz? Semanas, não é mesmo? Semanas o quê! Meses, talvez. Muitos meses. Eu mesmo não me surpreenderia se, em vez de meses, fossem anos…
– Faz exatamente dois anos e meio…
– Dois anos e meio! Mas acredite, meu caro Battistela, que durante esses dois anos e meio, todas as noites – sabe disso? -, na hora em que fazemos nosso exame de consciência, eu pensava sempre no senhor. Todas as noites antes de dormir, dizia comigo mesmo: “E Battistela? E o excelente Battistela? Não estás te esquecendo dele?” Era o que eu mesmo me dizia: “Quando irás te decidir a lhe dar o cargo que ele merece?
Um trabalhador como ele, uma coluna mestra da administração, um homem desses, hoje cada vez mais raros…” Assim falava eu, e todas as noites sentia remorsos, pode acreditar.
– Pois então, senhor comendador…
– Estou disposto a ajudá-lo, não era isso que ia me perguntar? Ah, não fale, não me diga nada. Acha que eu não tenho o condão de captar o seu pensamento? Palavra por palavra, poderei lhe repetir tudo quanto tinha a intenção de me dizer… Que existe quem, com muito menos títulos, está ganhando mais do que o senhor, que isso é uma injustiça, que o senhor perdeu a paciência etc. etc. Não é isso mesmo?
– É, realmente.
– E o senhor, meu caro Battistela, teve um ímpeto de exasperação, não é verdade? Quem não teria tido, não é mesmo? A injustiça consegue transformar criaturas mansas e humildes em verdadeiros tigres, não é mesmo?
– Bem, em suma…
– Está vendo? E o senhor pensava que eu não compreenderia, que eu não sabia, que eu não me interessava. Homem de pouquíssima fé!… Bem, este deve ser um belo dia para nós. Esta noite ambos estaremos satisfeitos um com o outro. Que me diz de 150?
– Como?
– Creio que agora o senhor ganha entre 95 e 98, se não me engano, não é isso?
– 97.
– Bem. Podemos dar um passo adiante. Um pequeno passo. Cento e cinqüenta. Não chega?
– Bem, confesso que não esperava…
– Está vendo? Não sou mais aquele dragão, aquele carniceiro, aquele devorador de cristãos, aquele lobo esfomeado – não é isso que dizem de mim?
– Eu…eu lhe agradeço.
– Não tem nada que me agradecer. Eu é que lhe agradeço pelo seu trabalho… Um cigarro?
– Obrigado, não fumo…
– Bravo, é mais uma virtude… Quanto a mim, fumo como um desesperado… Bem, bem, quer me parecer que ficou tudo resolvido…
– Bem, quer dizer, não quero mais tirar o seu tempo…
– Não sou eu que vou retê-lo, meu caro Battistela. E faço os melhores votos para que… – suspirou. – É pena!
– “É pena”, por quê?
– Nada, nada… Eu… para você… eu tinha outros projetos. Mas agora é inútil… O que está feito, está feito.
– Outros projetos?
– Sim, projetos, que eu fazia… Mas, agora…
– Comendador, não quer fazer a gentileza de me dizer…?
– Não, eu te conheço. Aquilo que se faz para o seu bem, o senhor leva a mal…
– Isso não é verdade…
– Seria como lhe dar uma prova de confiança, uma demonstração de amizade. Seria. Mas compreendo que poderia lhe dar uma impressão esquisita…
– Esquisita como?
– Além do mais é um assunto… é um assunto extremamente reservado…
– Não confia em mim?

O diretor levantou-se devagar, atravessou o escritório com ar circunspecto, fechou a porta com a chave, parou como se escutasse a passagem de alguém lá fora, avizinhou o indicador dos lábios num gesto de silêncio, voltou à escrivaninha e começou a falar em voz baixa:
– Battistela… me escuta… Eu estou ficando velho…
– Não é verdade.
– Velho, sim. O coração às vezes anda falhando. De um dia para o outro…
– Não diga isso nem brincando…
– E onde? Aqui mesmo, nesta escrivaninha? No meu posto, quem sabe? Mas escuta, Battistela…
– Estou ouvindo.
– Recomendo que guarde isso só para você. Porque em você eu confio… De algum tempo para cá fala-se em grandes mudanças…
– Mudanças?
– Com certeza já deve ter ouvido falar, pelo menos por alto: mudança de proprietários, segundo se diz, passando a firma para as mãos de outro grupo financeiro. E sabe o que isso significa?
– Que os chefes atuais vão-se embora e outros virão.
– E isso não lhe diz mais nada? Não compreende o que pode acontecer em tais circunstâncias?
– Não faço a menor idéia…
– Podem vir medidas de contenção de despesas. Porque se esta mudança ocorrer, o motivo é um só: é que as coisas não vão bem, que a crise está sendo sentida também por nós. Razão, portanto, para que a preocupação dos novos donos seja, sem dúvida, a de poupar ao máximo. E de que maneira? É simplicíssimo. Sabe o que se faz, nestes casos?
– Não. O quê?
– Redimensionamento. Bela palavra, não é? Redimensionamento. Sabe o que ela significa? Significa desembaraçar-se do peso excessivo, eis a solução genial. Elimina-se a escória. Aperta-se o cinto. Passa-se uma vista d’olhos na folha de pagamento. E quem tem alta remuneração, zapt! Estes são os primeiros a se fritarem. Como em todos os casos, são só os peixes miúdos que se salvam.
– E então?
– E então, quer que eu fique contente com a idéia de ver liquidado um elemento como o senhor? O meu dever, neste caso, uma vez que tenho um peso na consciência, é o de alertá-lo, meu caro Battistela. Não só o de alertá-lo, como o de ajudá-lo a evitar essa possível ameaça.
– Evitar?
– Claro. Quero subtraí-lo à dizimação, mimetizá-lo, colocá-lo numa posição segura. Mas é inútil. Os senhores, os jovens, não se dão conta de que…
– Ao contrário. Pode dizer, comendador, pode dizer…
– Quer que eu lhe fale com o coração nas mãos? Como se o senhor fosse o meu próprio filho? Bem, se eu fosse o senhor, frente a uma conjectura desta ordem, sabe que coisa…
– Que coisa o senhor faria?
– É fácil compreender. A moral da história é a seguinte: melhorando a sua situação financeira, no fundo eu lhe prestei um péssimo serviço. Foi a mesma coisa que se eu o atirasse na rua para falar tipo pão-pão, queijo-queijo…
– De maneira que eu…
– Caro Battistela, não quero que amanhã venha a ter motivos para me recriminar. Se amanhã o senhor vier a me perguntar: mas, comendador, por que não me avisou antes? Por que não me abriu os olhos? Meu querido, as coisas estão chegando a um ponto tal que, mude-se ou não de patrões, um dia eu me verei constrangido a adotar medidas severas. E por que haverá de ser com o seu sacrifício?
– Mas, eu… Bem, não estou compreendendo… Está me falando de aumento? Acha que é melhor eu esperar?
– Não, nada de esperar! Se prevenir, sim. O que fazem os soldados, quando os inimigos abrem fogo? Abaixam a cabeça, agacham-se no chão para não serem atingidos. Agache-se também, Battistela.
– Agachar-me?
– Em sentido figurado, bem entendido. No momento, convém uma manobra, uma dissimulação, um subterfúgio estratégico. No momento, convém exagerar no seu zelo. Compreendeu, Battistela?
– Realmente…
– E depois, que importância teria para o senhor, que é solteiro, uma pequena redução no salário? Se em vez de 97 fossem apenas 80, isso não causaria a morte de ninguém. Digo-lhe isso porque agora até os ordenados de 90 estão dando na vista! Mas em compensação… considere a segurança, a tranqüilidade, a certeza de não ir de encontro com nenhum desprazer.
– Redução de salário?
– Está vendo como eu não estava enganado? Como era melhor me manter calado? O senhor já está dando às minhas palavras uma interpretação negativa!
– O senhor disse oitenta mil?
– Setenta talvez fosse melhor, mas creio que oitenta será o suficiente…
– Mas comendador…
– Eu sabia. O senhor é um rapaz inteligente, pega as coisas no ar, toma decisões com rapidez… Pense agora se eu, em vez de lhe falar sobre isso, me calasse… O senhor teria lá o seu aumento. De cinqüenta mil por mês. Mas, e depois? Ia se meter em poucas e boas! Seria carregado pela primeira onda. Menos mal, menos mal que existe alguém que lhe quer bem…
– Quer dizer que acha mesmo que o aumento…?
– Não resta a menor dúvida, meu filho: seria o mesmo que estar com uma corda no pescoço.
– Bem, comendador, eu lhe agradeço. O senhor me poupou de um grande aborrecimento.
– Não precisa agradecer… Vá, volte contente, volte tranqüilo para o seu trabalho. E, meu caro Battistela, saiba que o meu desgosto é apenas um: o de não poder fazer pelo senhor – eu lhe juro – um pouco mais do que fiz.

O Estranho caso de Benjamin Button (F. Scott Fitzgerald)


I
No longínquo ano de 1860 a maneira correta de nascer era em casa. Presentemente, segundo me dizem, os sumo-sacerdotes da medicina decretaram que os primeiros vagidos dos recém-nascidos devem ser soltos no ar antiestético de um hospital, de preferência de um hospital em voga. Por isso, Mr. e Mrs. Roger Button estavam cinqüenta anos à frente do estilo da época quando, num dia do Verão de 1860, decidiram que o seu primeiro bebê nasceria num hospital. Jamais se saberá se este anacronismo teve alguma influência na espantosa história que estou prestes a contar. Contarei o que aconteceu e deixarei que julguem por si mesmos. Os Roger Button ocupavam uma posição invejável, tanto social como financeiramente, na Baltimore de antes da guerra. Eram aparentados com Esta Família e com Aquela Família, o que, como todos os habitantes do Sul sabiam, lhes conferia o direito de pertencerem àquele enorme pariato que povoava largamente a Confederação. Esta era a sua primeira experiência relacionada com o fascinante velho costume de ter bebês. Mr. Button sentia-se, naturalmente, nervoso. Esperava que fosse um menino para poder enviá-lo para o Yale College, no Connecticut, em cuja instituição ele próprio fora conhecido durante quatro anos pela alcunha um tanto quanto óbvia de «Bainha».

Na manhã de Setembro consagrada ao enorme evento levantou-se nervosamente às seis horas da manhã, vestiu-se, ajustou um impecável plastrão e correu apressadamente pelas ruas de Baltimore a caminho do hospital, a fim de averiguar se a escuridão da noite trouxera nova vida no seu seio. Quando se encontrava a cerca de cem metros do Hospital Particular de Maryland para Damas e Cavalheiros viu o Dr. Keene, o médico da família, descendo os degraus da frente, esfregando as mãos uma na outra como se estivesse a lavá-las — tal como é exigido a todos os médicos pela ética consuetudinária da sua profissão. Mr. Roger Button,presidente da Roger Button & Co., Grossista de Ferragens, começou a correr na direção do Dr. Keene com muito menos dignidade do que a esperada de um cavalheiro sulista daquele pitoresco período. — Dr. Keene! — chamou. — Ó Dr. Keene! O médico ouviu-o, deu meia volta e parou à espera, com uma expressão curiosa a fixar-se no rosto severo e clínico à medida que Mr. Button se aproximava. — O que aconteceu? — perguntou Mr. Button, ao chegar, numa agitação ofegante. — O que foi? Como está ela? Um menino? Quem é? O que… — Fale com lógica! — ordenou o Dr. Keene, asperamente. Parecia um bocado agastado. — A criança nasceu? — perguntou, suplicante, Mr. Button. O Dr. Keene franziu a testa.

— Bem, sim, suponho… é como quem diz… — E lançou outro olhar curioso a Mr. Button. — A minha mulher está bem? — Está. — É menino ou menina? — Essa agora! — explodiu o Dr. Keene, extremamente irritado. — Peço-lhe que vá e veja com os seus olhos. Escandaloso! — Soltou a última palavra como se tivesse apenas uma sílaba. Depois virou-se, a resmungar: — Imagina que um caso como este beneficia a minha reputação profissional? Outro igual me arruinaria… arruinaria qualquer um. — Mas, afinal, o que se passa? — perguntou Mr. Button, em pânico. — Trigêmeos? — Não, não se trata de trigêmeos! — respondeu o médico, cortante. — Sabe que mais? Vá e veja com os seus olhos. E arranje outro médico. Trouxe-o a este mundo, meu rapaz, e há quarenta anos que sou médico da sua família, mas agora acabou-se! Estou farto. Não quero voltar a vê-lo, nunca mais, nem ao Sr., nem a qualquer dos seus familiares! Passe bem! Virou as costas, bruscamente. E, sem dizer mais uma palavra, entrou na carruagem que o esperava na beira do passeio e partiu com ar severo. Mr. Button ficou parado no passeio, estupefato e a tremer da cabeça aos pés. Que horrível tragédia acontecera? Perdera de súbito toda a vontade de ir ao Hospital Particular de Maryland para Damas e Cavalheiros, e foi com extrema dificuldade que, um momento depois, impôs a si mesmo subir a escada e transpor a porta principal.

Uma enfermeira estava sentada à secretária, na obscuridade opaca do átrio. Engolindo a vergonha que o atormentava, Mr. Button dirigiu-se a ela. — Bom dia — ela o saudou, a olhá-lo agradavelmente. — Bom dia. Eu sou… eu sou Mr. Button. Perante tais palavras, uma expressão de absoluto terror alastrou-se pelo rosto da jovem. Levantou-se como se fosse fugir do átrio, contendo-se apenas com aparente e grande dificuldade. — Quero ver o meu filho — disse Mr. Button. A enfermeira soltou um gritinho. — Oh… com certeza! — exclamou, esganiçadamente. — É lá em cima. Lá bem em cima. Suba! Apontou-lhe a direção e Mr. Button, alagado por uma transpiração fria, virou-se, cambaleante, e começou a subir para o segundo andar. No átrio superior dirigiu-se a outra enfermeira que se aproximou dele com uma bacia na mão. — Sou Mr. Button — articulou ele, a custo. — Desejo ver a minha… Catrapus! A bacia caiu ruidosamente e rolou na direção da escada. Catrapus! Catrapus! Iniciou uma descida metódica, como se partilhasse o terror geral que aquele cavalheiro provocava. — Quero ver o meu filho! — insistiu Mr. Button, à beira do colapso. Catrapus! A bacia chegara ao andar de baixo. A enfermeira dominou-se e lançou a Mr. Button um olhar de profundo desprezo.

— Pois não, Mr. Button — concordou, em voz abafada. — Pois não! Mas se soubesse em que estado pôs a todos nós, esta manhã! Absolutamente escandaloso! O hospital jamais terá uma sombra de reputação depois… — Apresse-se! — gritou ele, roucamente. — Não posso suportar isto! — Nesse caso, venha por aqui, Mr. Button. Ele arrastou-se atrás dela. Ao fundo de um comprido corredor chegaram a um quarto de onde saía uma variedade de gritos — um quarto que, na verdade, viria a ser conhecido como o «quarto da gritaria». Entraram. Ao longo das paredes encontrava-se meia dúzia de berços de balanço, de esmalte branco, cada um com uma etiqueta atada à cabeceira. — Bem — perguntou Mr. Button, ofegante —, qual é o meu? — Está ali — respondeu a enfermeira. Os olhos de Mr. Button seguiram o dedo estendido, e eis o que viu: embrulhado num volumoso cobertor branco, e parcialmente entalado num dos berços, estava um velho que aparentava cerca de setenta anos de idade. Tinha o cabelo ralo quase branco e pingava-lhe do queixo uma comprida barba cor de fumo que se agitava absurdamente, para trás e para diante, ao sabor da brisa que entrava pela janela. Olhou para cima, para Mr. Button, com uns olhos turvos e sem vida dos quais espreitava uma pergunta intrigada.

— Estarei doido? — berrou Mr. Button, cujo terror se transformara em fúria. — Isto é alguma horrível brincadeira de hospital? — A nós não parece brincadeira nenhuma — respondeu, em tom grave, a enfermeira. — E não sei se o senhor é louco ou não… mas este é, sem sombra de dúvida, o seu filho. O suor frio duplicou na testa de Mr. Button. Fechou os olhos e depois abriu-os e voltou a olhar. Não havia engano algum: estava olhando para um homem de setenta anos… um bebê de setenta anos cujos pés pendiam dos lados do berço em que repousava. O velho olhou placidamente de um para o outro, durante um momento, e, de súbito, perguntou numa voz esganiçada e senil: — É o meu pai? Mr. Button e a enfermeira estremeceram violentamente. — Porque, se é — continuou o velho, ranzinza —, quero que me tire deste lugar… ou, pelo menos, que lhes diga para pôr uma cadeira de balanço confortável aqui. — De onde demônio você veio? Quem é? — explodiu Mr. Button, exasperado. — Não sei lhe dizer exatamente quem sou — respondeu a voz esganiçada e rabugenta — porque nasci há poucas horas apenas… mas o meu sobrenome é, sem dúvida, Button. — Está mentindo! É um impostor! O velho voltou-se, fatigado, para a enfermeira.

— Bonita maneira de dar as boas-vindas a um recém-nascido — queixou-se, em voz fraca. — Por que não lhe diz que está enganado? — Está enganado, Mr. Button — afirmou a enfermeira, com firmeza. — Este é o seu filho e terá de se resignar com isso. Vamos pedir-lhe que o leve consigo para casa o mais brevemente possível… ainda hoje. — Para casa? — repetiu Mr. Button, incrédulo. — Sim, nós não podemos ficar com ele aqui. Não podemos mesmo, compreende? — O que muito me agrada — guinchou o velho. — É um belo lugar para um jovem de gostos tranqüilos. Com toda esta gritaria e todos estes berros não tenho conseguido pregar os olhos. Pedi qualquer coisa para comer — a sua voz adquiriu um tom esganiçado de protesto — e trouxeram-me uma mamadeira de leite! Mr. Button deixou-se cair numa cadeira ao lado do filho e ocultou o rosto com as mãos. — Valha-me Deus! — murmurou, horrorizado. — O que dirão as pessoas? O que devo fazer? — Tem de levá-lo para casa — insistiu a enfermeira. — Imediatamente! Uma imagem grotesca surgiu, com terrível clareza, diante dos olhos do homem torturado, uma imagem de si mesmo a caminhar pelas ruas cheias de gente da cidade com aquela pavorosa aparição a andar silenciosamente ao seu lado. «Não posso. Não posso», gemeu.

O que diria às pessoas que parassem para lhe falar? Teria de apresentar este… aquele septuagenário: «Este é o meu filho, nasceu esta manhã, cedo.» Depois o velho apertaria o cobertor em volta do corpo e seguiriam o seu caminho, passando pelas lojas movimentadas, pelo mercado de escravos — durante um sombrio momento, Mr. Button desejou veementemente que o filho fosse preto —, passando pelas casas luxuosas do bairro residencial, passando pelo lar dos velhos… — Então! Controle-se! — ordenou a enfermeira. — Ouça — avisou, de súbito, o velho —, se pensa que vou a pé para casa embrulhado neste cobertor, está redondamente enganada. — Os bebês sempre usam cobertores. Com uma risadinha maliciosa, o velho levantou um pequeno cueiro branco. — Olhem! — exclamou a voz de cana rachada. — Isto é o que tinham para mim. — Os bebês sempre usam isso — sentenciou a enfermeira, presumidamente. — Pois bem — respondeu o velho —, este bebê não vai usar nada dentro de cerca de dois minutos. O cobertor dá comichão. Podiam ter me dado, ao menos, um lençol. — Não o tire! Não o tire! — apressou-se Mr. Button a dizer. Depois voltou-se para a enfermeira e perguntou: — O que é que eu faço?

— Vá à baixada e compre algumas roupas para o seu filho. A voz do rebento de Mr. Button seguiu-o pelo corredor afora: — E uma bengala, pai. Preciso de uma bengala. Mr. Button bateu brutalmente com a porta de saída…

II

— Bons dias — disse Mr. Button, nervosamente, ao empregado da Chesapeake Dry Goods Company. — Preciso comprar roupas para o meu filho. — Que idade tem o seu filho? — Cerca de seis horas — respondeu Mr. Button, sem a necessária reflexão. — A seção de artigos para bebês fica nos fundos. — Bem, não creio… não tenho certeza de que é isso que quero. É que… trata-se de um bebê invulgarmente grande. Excepcionalmente… hum… grande. — Eles têm os tamanhos maiores para bebês. — Onde fica a seção para meninos? — perguntou Mr. Button, mudando desesperadamente de rumo. Tinha a sensação de que o empregado farejaria, com certeza, o seu vergonhoso segredo. — Aqui mesmo. — Bem… — hesitou. Repugnava-lhe a idéia de vestir no filho roupas de homem. Se ao menos conseguisse encontrar um traje infantil muito grande poderia cortar-lhe aquela comprida e horrorosa barba, pintar-lhe o cabelo branco de castanho e ocultar, assim, o pior e manter algum do seu amorpróprio — para não falar no seu lugar na sociedade de Baltimore. Mas uma inspeção desesperada na seção para meninos revelou não existirem trajes que servissem ao recém-nascido Button.

Pôs a culpa na loja, evidentemente — em casos assim, culpa-se a loja. — Que idade disse que o seu rapaz tem? — perguntou curiosamente o empregado. — Tem… dezesseis. — Oh, queira perdoar. Pensei que tinha dito seis horas. Encontrará a seção para jovens na coxia seguinte. Mr. Button virou-se desanimadamente. Depois parou, recuperou o ânimo e estendeu o dedo para um manequim vestido que se encontrava na vitrine. — Ali está! — exclamou. — Levo aquele traje, o que o manequim está vestindo. O empregado olhou fixamente. — Mas — protestou — aquele não é um traje para criança. Quero dizer, poderá ser, mas para usar como traje de fantasia. O senhor mesmo poderia usá-lo! — Embrulhe-o — insistiu nervosamente o freguês. — É aquele que eu quero. O estupefato empregado obedeceu. De novo no hospital, Mr. Button entrou no berçário e quase atirou o embrulho ao filho. — Aqui estão as suas roupas — rosnou. O velho tirou o barbante do embrulho e observou o conteúdo com um olhar intrigado. — Parecem um pouco esquisitas para mim — queixou-se. — Não quero fazer papel de macaco…

— Já fez de mim um macaco! — explodiu Mr. Button, furiosamente. — Não se preocupe com o quanto parece esquisito. Vista-as… ou eu… ou eu te desanco. — Engoliu com dificuldade depois de dizer a última palavra, mas sentiu, apesar disso, que dissera as palavras adequadas. — Está bem, pai. — Este assentimento era uma simulação grotesca de respeito filial. — Já viveu mais tempo do que eu e, por isso, sabe mais do que eu. Farei como quer. Como acontecera antes, o som da palavra «pai» fez Mr. Button estremecer violentamente. — E apresse-se. — Estou me apressando, pai. Quando o filho acabou de se vestir, Mr. Button olhou para ele, deprimido. O vestuário constava de meias de bolinhas, calças cor-de-rosa e uma camisa com cinto e uma larga gola branca. Sobre esta agitava-se uma comprida barba esbranquiçada que descia quase até à cintura. O efeito não era nada bom. — Espere! Mr. Button empunhou uma tesoura hospitalar e, com três tesouradas rápidas, amputou uma grande extensão da barba. Mas, apesar dessa melhoria, o conjunto ficou aquém da perfeição. O restolho esparso do cabelo que restara, os olhos lacrimosos e os dentes velhos e amarelos pareciam destoar peculiarmente do aspecto vistoso do traje. No entanto, Mr. Button manteve-se inexorável e estendeu a mão:

— Anda, vamos! — disse, firmemente. O filho deu-lhe, confiante, a mão. — Como vai me chamar, pai? — perguntou em voz trêmula, enquanto saíam do berçário. — Apenas por «bebê», durante algum tempo? Até se lembrar de um nome melhor? Mr. Button soltou um grunhido. — Não sei — respondeu, irritado. — Acho que vamos te chamar de Matusalém.

III

Mesmo depois de lhe terem cortado o cabelo muito curto e, em seguida, o terem pintado de um preto disperso e pouco natural, de lhe terem barbeado o rosto tão rente que até cintilava e de lhe terem vestido roupas de rapazinho, feitas sob medida por um alfaiate espantado, foi impossível a Mr. Button ignorar o fato de o filho ser uma fraca desculpa como primeiro bebê da família. Apesar da corcova da idade, Benjamin Button — pois era assim que o tratavam em vez de, pelo apropriado, mas detestável, nome de Matusalém — tinha um metro e setenta de altura. O vestuário não ocultava isso, do mesmo modo que o aparar e o tingir das sobrancelhas não disfarçavam o fato de, por baixo delas, os seus olhos estarem baços, lacrimosos e cansados. Por isso, a ama que fora contratada de antemão foi-se embora após um único olhar e num estado de grande indignação. Mas Mr. Button persistiu no seu inabalável propósito. Benjamin era um bebê e continuaria a ser um bebê. A princípio, declarou que, se não gostava de leite morno, continuaria sem comer nada, mas por fim deixou-se convencer e, optando pelo meio termo, permitiu que o filho comesse pão com manteiga e, até, papas de aveia. Um dia levou para casa uma roca e, ao dá-la a Benjamin, impôs-lhe, clara e firmemente, que «brincasse com ela». O velho aceitou-a com ar enfastiado e ouviam-no sacudi-la obediente e intervaladamente ao longo do dia.

Não restavam, porém, dúvidas de que a roca o aborrecia e, quando estava sozinho, encontrava outros divertimentos mais apaziguadores. Por exemplo, um dia Mr. Button descobriu que, ao longo da semana anterior, fumara mais charutos do que nunca — fenômeno que foi explicado poucos dias depois quando, ao entrar inesperadamente no quarto do bebê, o encontrou envolto numa tênue névoa azulada e Benjamin tentando, com ar culpado, esconder a bituca de um havano escuro. É claro que isso justificava uma forte surra, mas Mr. Button descobriu que não era capaz de dá-la. Limitou-se a adverti-lo de que «aquilo tolheria o seu desenvolvimento». Apesar disso, persistiu na sua atitude. Levava para casa soldadinhos de chumbo, comboios de brincar, grandes e simpáticos animais feitos de algodão e, para fortalecer a ilusão que estava criando — pelo menos para si mesmo —, perguntou veementemente ao empregado da loja de brinquedos se «havia o risco de a tinta se soltar do pato cor-derosa se o bebê o metesse na boca». Mas, não obstante todos os seus esforços paternais, Benjamin recusava interessar-se pelos brinquedos. Descia sorrateiramente a escada dos fundos e voltava para o quarto de bebê com um volume da Enciclopédia Britânica sobre o qual se debruçava uma tarde inteira, enquanto as suas vacas de pano e a sua Arca de Noé ficavam esquecidas no chão. De pouco valiam

os esforços de Mr. Button contra semelhante teimosia. A princípio, a sensação que o caso provocou em Baltimore foi prodigiosa. Não é possível determinar o que semelhante revés teria custado, socialmente, aos Button e aos seus familiares porque o deflagrar da Guerra Civil desviou a atenção da cidade para outras coisas. Algumas pessoas inabalavelmente corteses espremiam os miolos em busca de elogios para fazer aos pais — e, por fim, descobriram o engenhoso expediente de declarar que o bebê se parecia com o avô, fato que, em virtude do estado de decadência padrão de todos os homens de setenta anos, não podia ser negado. Mr. e Mrs. Roger Button não gostavam e o avô de Benjamin sentia-se furiosamente insultado. Quando saiu do hospital, Benjamin aceitou a vida tal como a encontrou. Alguns rapazinhos foram visitá-lo e ele passou uma tarde atormentado, com as articulações emperradas, tentando se interessar por piões e bolinhas de gude — conseguiu até, inteiramente por acaso, quebrar o vidro da janela de uma cozinha com uma pedra disparada por um estilingue, proeza que deliciou, secretamente, o seu pai. Daí em diante, Benjamin foi capaz de quebrar qualquer coisa todos os dias, mas fazia-o apenas por ser isso que esperavam dele e por ser prestativo por natureza. Quando o antagonismo inicial do avô desapareceu, Benjamin e esse cavalheiro passaram a encontrar enorme prazer na companhia mútua.

Esses dois, tão distantes um do outro em idade e experiência, sentavam-se juntos horas a fio e, como velhos cupinchas, discutiam com incansável monotonia as lentas ocorrências quotidianas. Benjamin sentia-se mais à vontade na presença do avô do que na dos pais — estes pareciam sempre um tanto quanto temerosos dele e, apesar da autoridade ditatorial que exerciam sobre o filho, tratavam-no com freqüência por «Senhor». Ele sentia-se tão intrigado como qualquer outra pessoa com a idade aparentemente avançada do seu corpo e do seu cérebro ao nascer. Leu a esse respeito no jornal médico, mas descobriu que nunca antes fora noticiado caso algum como o seu. Por insistência do pai fazia um esforço sincero para brincar com outros rapazes e participava freqüentemente nos jogos menos violentos — o futebol abalava-o demais e ele temia que, se sofresse uma fratura, os seus velhos ossos recusassem a unir-se de novo. Quando tinha cinco anos mandaram-no para o jardim da infância, onde foi iniciado na arte de colar papel verde sobre papel cor de laranja, desenhar mapas coloridos e fazer infindáveis colares de cartolina. Tinha tendência para cochilar e adormecer no meio dessas tarefas, hábito que, simultaneamente, irritava e assustava a sua jovem professora. Para alívio de Benjamin, ela queixou-se aos seus pais, que o retiraram da escola. Os Roger Button disseram aos amigos que pensavam que o filho era novo demais.

Quando completou doze anos, os pais já tinham se habituado a ele. Na verdade, a força do hábito é tão forte que já não achavam o filho diferente de qualquer outra criança — a não ser quando alguma curiosa anomalia lhes recordava esse fato. Mas um dia, poucas semanas depois de ter feito doze anos, quando se via no espelho, Benjamin fez, ou pensou que fez, uma espantosa descoberta. Estariam os olhos a enganá-lo ou o seu cabelo passara, nos doze anos de sua vida, de branco para cinzaferro sob a pintura encobridora? Estaria o labirinto de rugas do seu rosto a tornar-se menos pronunciado? Estaria a sua pele mais saudável e firme e, até, com um toque de avermelhada cor invernal? Não saberia dizer. Sabia, porém, que já não estava corcovado e que o seu estado físico melhorara desde os primeiros dias de sua vida. «Será possível?», pensou, ou melhor, quase não se atreveu a pensar. Foi falar com o pai. — Sou crescido — anunciou, com determinação. — Quero usar calças compridas. O pai hesitou. — Bem — disse, por fim —, não sei. Catorze anos é a idade para vestir calças compridas… e você só tem doze. — Mas tem que concordar — protestou Benjamin — que sou grande para a minha idade. O pai olhou-o com um ar de ilusória especulação. — Oh, não estou muito certo disso. Eu era do seu tamanho quando tinha doze anos.

Não era verdade: fazia tudo parte do pacto silencioso que Roger Button fizera consigo próprio para acreditar na normalidade do filho. Por fim, chegaram a um acordo: Benjamin continuaria a pintar o cabelo. Tentaria de novo, e com mais empenho, brincar com rapazes da sua idade. Não usaria óculos nem andaria de bengala na rua. Em troca dessas concessões era-lhe permitido o seu primeiro traje de calças compridas…

IV

Tenciono dizer pouco a respeito da vida de Benjamin Button entre os seus doze e os seus vinte e um anos. Basta registrar que foram anos de normal nãocrescimento. Quando tinha dezoito anos Benjamin andava ereto como um homem de cinqüenta, tinha mais cabelo e de um tom cinzento-escuro, os seus passos eram firmes e a sua voz perdera o tom de cana rachada e descera para um barítono saudável. Por isso, o pai mandou-o para o Connecticut a fim de fazer exames de admissão no Yale College. Benjamin foi aprovado nos exames e tornou-se membro da turma dos calouros. No terceiro dia após a matrícula recebeu uma notificação de Mr. Hart, o escrivão da faculdade, para se apresentar no seu gabinete a fim de elaborar o seu horário. Benjamin olhou para o espelho e achou que o seu cabelo precisava de uma nova aplicação de tinta castanha, mas uma procura ansiosa na gaveta da escrivaninha revelou que o frasco da tinta para o cabelo não se encontrava lá. Lembrouse, então: gastara o resto no dia anterior e jogara o frasco fora. Encontrava-se perante um dilema. Tinha que comparecer no gabinete do escrivão dali a cinco minutos. A isso não podia esquivar-se: tinha que ir tal qual se encontrava. E foi. — Bom dia — disse o escrivão cortesmente. — Vem informar-se a respeito do seu filho.

— Bem, na verdade, chamo-me Button… — começou Benjamin, mas Mr. Hart não o deixou acabar. — Tenho muito prazer em conhecê-lo, Mr. Button. Estou à espera do seu filho, de um momento para o outro. — Sou eu! — explodiu Benjamin. — Sou um calouro. — O quê?! — Sou um calouro. — Está, com certeza, brincando. — De modo algum. O escrivão franziu a testa e olhou para um cartão que tinha à sua frente. — Como é possível, se Mr. Benjamin Button está aqui registrado como tendo dezoito anos? — É essa a minha idade — afirmou Benjamin, corando ligeiramente. O escrivão olhou-o, enfadado. — Não espera, certamente, que eu acredite nisso, Mr. Button. Benjamin sorriu, cansado. — Tenho dezoito anos — repetiu. O escrivão apontou, carrancudo, para a porta. — Saia! — ordenou. — Saia da universidade e saia da cidade. É um louco perigoso. — Tenho dezoito anos. Mr. Hart abriu a porta. — O atrevimento! — gritou. — Um homem da sua idade tentando entrar aqui como calouro.

Com que então, dezoito anos? Pois bem, dou-lhe dezoito minutos para sair da cidade. Benjamin Button saiu do gabinete com dignidade e meia dúzia de estudantes que esperavam no átrio seguiram-no curiosamente com o olhar. Quando se afastara um pouco, Benjamin voltou-se, encarou o enraivecido escrivão, que continuava parado à entrada da porta, e repetiu, com voz firme: — Tenho dezoito anos. Seguido por um coro de risadas trocistas do grupo de estudantes, Benjamin pôs-se a caminho. Mas não estava destinado a safar-se com tanta facilidade. Na sua caminhada melancólica para a estação ferroviária percebeu que estava sendo seguido por um grupo, depois por um cortejo e, finalmente, por uma densa massa de estudantes. Correra o boato de que um louco transpusera a entrada da sala de exames de admissão em Yale e tentara impingir a treta de que era um jovem de dezoito anos. Alastrou pela universidade uma sanha de agitação. Homens descabelados saíam correndo das salas de aula, a equipe de futebol abandonou o treino e juntou-se à turba, as mulheres dos professores, com chapéus de lado e anquinhas fora do lugar, corriam aos gritos atrás do cortejo, do qual emanava uma sucessão contínua de comentários que tinham como alvo as delicadas susceptibilidades de Benjamin Button. — Deve ser o Judeu Errante! — Devia ir para a escola primária, com a sua idade! — Olhem para o menino-prodígio!

— Achava que isto era o lar dos velhos! — Vai para Harvard! Benjamin estugou o passo e, pouco depois, começou a correr. Iria para Harvard e, então, eles se arrependeriam dos seus agressivos sarcasmos! Seguro dentro do trem para Baltimore, pôs a cabeça fora da janela e gritou: — Vão se arrepender-se disso! — Ah! Ah! Ah! — riram-se os estudantes. — Ah! Ah! Ah! Foi o maior erro que o Yale College jamais cometeu…

V

Em 1880 Benjamin Button tinha vinte anos e assinalou o seu aniversário indo trabalhar para o pai na Roger Button & Co., Grossista de Ferragens. Nesse mesmo ano começou a «sair socialmente» — ou seja, o pai insistiu em levá-lo a vários bailes em voga. Roger Button tinha, então, cinqüenta anos e ele e o filho faziam cada vez mais companhia um ao outro — na verdade, desde que Benjamin deixara de pintar o cabelo (que ainda estava grisalho) pareciam ter mais ou menos a mesma idade e poderiam passar por irmãos. Uma noite, em Agosto, meteram-se na carruagem, ambos vestidos a rigor, e seguiram para um baile na casa de campo de Shevlin, que ficava logo à saída de Baltimore. Estava uma noite maravilhosa. A lua cheia cobria a estrada com a cor baça da platina e flores de colheita tardia exalavam para o ar parado aromas semelhantes a risadas baixas, que mal se ouviam. O campo aberto, atapetado dezenas de metros em redor por trigo luminoso, estava tão transluzente como durante o dia. Era quase impossível não ser afetado pela pura beleza do céu — quase. — Há um grande futuro no negócio dos tecidos — dizia Roger Button. Não era um homem espiritual e o seu sentido de estética não ia além do rudimentar.

«Tipos velhos como eu não aprendem novos truques — observou, em tom profundo. — São vocês, jovens com energia e vitalidade, que têm um grande futuro pela frente. Muito acima, na estrada, as luzes da casa de campo dos Shevlin surgiram à vista e, pouco depois, ouviu-se um ruído suspirante que dir-se-ia rastejar persistentemente direito a eles — poderia ter sido o belo lamento de violinos ou o roçar do trigo prateado debaixo da Lua. Pararam atrás de um belo carro puxado por um cavalo e cujos passageiros estavam apeando à porta. Saiu uma senhora, depois um cavalheiro idoso e depois uma jovem senhora bela como o pecado. Benjamin estremeceu. Uma mudança quase química pareceu dissolver e recompor os próprios elementos do seu corpo. Percorreu-o um calafrio, subiu-lhe o sangue às faces e à testa e sentiu um latejar constante nos ouvidos. Era o primeiro amor. A jovem era esbelta e frágil, com cabelo cor de cinza ao luar e cor de mel sob os crepitantes candeeiros a gás do alpendre. Cobria-lhe os ombros uma mantilha espanhola de um suavíssimo amarelo salpicado de borboletas pretas, e os seus pés eram botões cintilantes na fímbria do vestido com anquinhas. — Aquela — disse Roger Button, inclinando-se para o filho — é Hildegarde Moncrief, filha do general Moncrief. Benjamin acenou friamente com a cabeça.

— Bonita criaturinha — comentou, com indiferença. Mas, quando o criado negro se afastou com a carruagem, acrescentou: — Podia apresentarme, pai. Aproximaram-se de um grupo do qual Miss Moncrief era o centro. Educada segundo a antiga tradição, fez uma mesura acentuada. Sim, concedialhe uma dança. Ele agradeceu e afastou-se — estonteado. O compasso de espera, até que chegasse a sua vez, prolongou-se interminavelmente. Benjamin manteve-se junto da parede, silencioso e impenetrável, observando com olhos mortíferos os jovens de Baltimore que se moviam ao redor de Hildegarde Moncrief e cujos rostos revelavam uma admiração apaixonada. Como lhe pareciam detestáveis e insuportavelmente rosados! As suas costeletas castanhas encaracoladas despertavam nele um sentimento equivalente a indigestão. Mas quando chegou a sua vez e deslizou com ela pelo chão mutável ao ritmo da música da mais recente valsa parisiense, os seus ciúmes e ansiedades dissolveram-se e escorreram dele como um manto de neve. Cego pelo arrebatamento, sentiu que a vida estava apenas começando. — O senhor e o seu irmão chegaram aqui ao mesmo tempo que nós, não chegaram? — perguntou Hildegarde, olhando-o com olhos que pareciam brilhante esmalte azul. Benjamin hesitou. Se ela o tomava pelo irmão do seu pai seria adequado esclarecê-la? Recordou-se da sua experiência em Yale e decidiu não fazê-lo.

Seria indelicado contradizer uma dama; seria criminoso macular aquela requintada ocasião com a história grotesca de sua origem. Mais tarde, talvez. Por isso, acenou com a cabeça, sorriu, escutou e sentiu-se feliz. — Gosto de homens da sua idade — disselhe Hildegarde. — Os rapazes novos são tão patetas! Dizem-me quanto champanhe beberam na faculdade e quanto dinheiro perderam em jogos de cartas. Os homens da sua idade sabem apreciar as mulheres. Benjamin sentiu-se à beira de uma declaração, mas, com um esforço, sufocou o impulso. — Tem, precisamente, a idade romântica — continuou ela —, cinqüenta anos. Os vinte e cinco são experientes demais; os trinta têm tendência para a palidez devido ao excesso de trabalho; quarenta é a idade das longas histórias que demoram um charuto inteiro a serem contadas; os sessenta são… oh, os sessenta estão perto demais dos setenta, mas os cinqüenta são a idade madura. Adoro os cinqüenta. Cinqüenta anos pareceram a Benjamin uma idade gloriosa. Ansiou apaixonadamente por ter cinqüenta anos. — Eu sempre disse — continuou Hildegarde — que preferiria casar com um homem de cinqüenta anos que cuidasse de mim a casar com um homem de trinta e ter que cuidar dele. O resto da noite pareceu a Benjamin banhado por uma bruma cor de mel. Hildegarde concedeu-lhe mais duas danças e descobriram que estavam maravilhosamente de acordo em todas as questões atuais.

Ela iria passear de carro com ele no domingo seguinte e, então, aprofundariam essas questões. De regresso para casa na carruagem, pouco antes do romper da alvorada, quando as primeiras abelhas zumbiam e a desfalecente Lua bruxuleava no orvalho fresco, Benjamin teve a vaga noção de que o seu pai estava falando de ferragens por atacado. — …E o que pensa que deveria merecer a nossa maior atenção, depois dos martelos e dos pregos? — perguntava o Button sênior. — O amor — respondeu Benjamin, distraidamente. — Tambores? — admirou-se Roger Button. — Mas eu já resolvi a questão dos tambores. Benjamin fitou-o com olhos pasmos no preciso momento em que uma réstia de luz se abria subitamente no céu, do lado oriental, e um papafigos piava agudamente nas árvores trêmulas…

VI

Quando, passados seis meses, o compromisso de Miss Hildegarde Moncrief para com Mr. Benjamin Button foi dado a conhecer (digo «dado a conhecer» porque o general Moncrief declarou que preferia cair sobre a sua espada a anunciá-lo), a excitação atingiu um clímax febril no seio da sociedade de Baltimore. A história quase esquecida do nascimento de Benjamin foi recordada e espalhada aos sete ventos do escândalo de forma ao mesmo tempo pícara e incrível. Disse-se que Benjamin Button era, realmente, o pai de Roger Button, que era o seu irmão que estivera quarenta anos preso, que era John Wilkes Booth disfarçado e, finalmente, que tinha dois pequenos chifres cônicos brotando da cabeça. Os suplementos de domingo dos jornais nova-iorquinos brincaram com o caso, usando esboços fascinantes que mostravam a cabeça de Benjamin Button presa a um peixe, a uma serpente e, por fim, a um corpo de sólido latão. Tornou-se jornalisticamente conhecido como o Homem Mistério de Maryland. Mas, como geralmente acontece, a verdadeira história teve uma circulação muito pequena. No entanto, todos concordavam com o general Moncrief, segundo o qual era «criminoso» uma jovem encantadora, que podia ter casado com qualquer janota de Baltimore, lançar-se assim nos braços de um homem que tinha, com certeza, cinqüenta anos. Em vão Mr. Roger Button publicou a certidão de nascimento do filho, em letras gordas, no Blaze

de Baltimore. Ninguém acreditou. Bastava olhar para Benjamin e ver. Da parte das duas pessoas mais interessadas não houve a mínima hesitação. Tantas das teorias acerca do seu noivo eram falsas que Hildegarde se recusou obstinadamente a acreditar, até mesmo na verdadeira. Em vão o general Moncrief chamou a atenção da filha para o elevado grau de mortalidade entre os homens de cinqüenta anos ou pelo menos, entre os homens que pareciam tê-los; em vão lhe falou da instabilidade do negócio grossista de ferragens. Hildegarde escolhera casar pela maturidade — e casou!

VII

Num ponto, pelo menos, os amigos de Hildegarde Moncrief estavam enganados: o negócio grossista de ferragens. Nos quinze anos decorridos entre o casamento de Benjamin Button, em 1880, e a aposentadoria de seu pai, em 1895, a fortuna da família duplicou — e isso deveu-se, em grande parte, ao sócio mais jovem da firma. Escusado seria dizer que Baltimore acabou por acolher o casal no seu seio. Até o velho general Moncrief se reconciliou com o genro quando Benjamin lhe deu o dinheiro necessário para publicar a sua História da Guerra Civil em vinte volumes, que fora recusada por nove proeminentes editores. Esses quinze anos trouxeram muitas mudanças ao próprio Benjamin. Tinha a impressão de que o sangue lhe corria nas veias com novo vigor. Começou a ser um prazer levantar-se de manhã, caminhar com passo vigoroso pela rua movimentada e cheia de sol, trabalhar incansavelmente com os seus embarques de martelos e os seus carregamentos de pregos. Foi em 1890 que efetuou a sua famosa jogada comercial: apresentou a sugestão de que todos os pregos usados para pregar os caixotes em que os pregos são embarcados constituem propriedade do expedidor, proposta que se tornou um estatuto, foi aprovada pelo Juiz Supremo Fossile e poupou a Roger Button & Company, Grossista de Ferragens, mais de seiscentos pregos por ano.

Além disso, Benjamin descobriu que estava se sentindo cada vez mais atraído pelo lado alegre da vida. Foi característico do seu crescente entusiasmo pelo prazer o fato de ter sido o primeiro homem de Baltimore a possuir e conduzir um automóvel. Ao encontrá-lo na rua, os seus contemporâneos fitavam invejosamente a sua imagem de saúde e vitalidade. «Parece tornar-se mais novo de dia para dia», comentavam. E se, a princípio, o velho Roger Button, agora com sessenta e cinco anos, pecara por não dar ao filho as devidas boas-vindas, reparava agora, finalmente, essa falta tratando-o com o que equivalia a adulação. Chegamos a um assunto desagradável que convém ultrapassar o mais depressa possível. Havia apenas uma coisa que preocupava Benjamin Button: a esposa deixara de atraí-lo. Nessa altura, Hildegarde era uma mulher de trinta e cinco anos, com um filho, Roscoe, de catorze. Nos primeiros tempos de casamento Benjamin adorara-a. Mas, com o passar dos anos, o seu cabelo cor de mel tornara-se um castanho insípido, o azulesmalte dos seus olhos adquirira o aspecto de louça de barro barata e, além disso, e sobretudo, ela tornara-se acomodada demais na sua maneira de ser, plácida demais, satisfeita demais, débil demais nos seus arroubos e sóbria demais no seu gosto. Quando noiva fora ela quem «arrastara» Benjamin para bailes e jantares, mas agora a situação invertera-se. Saía socialmente com ele, mas sem entusiasmo, devorada já por aquela eterna inércia que, um dia, começa a viver com cada um de nós e permanece conosco até o fim. O descontentamento de Benjamin foi se tornando cada vez mais forte.

No início da Guerra Hispano-Americana, em 1898, a sua casa tivera para ele tão pouco encanto que resolvera alistar-se no exército. Graças à influência do seu negócio, obteve uma patente de capitão e revelou-se tão adaptável ao trabalho que o passaram a major e, por fim, a tenente-coronel, bem a tempo de participar na célebre arrancada pela San Juan Hill acima. Ficou ligeiramente ferido e recebeu uma medalha. Benjamin afeiçoara-se tanto à atividade e à excitação da vida no exército que lamentou abandoná-la, mas o seu negócio requeria atenção e, por isso, ele renunciou à sua comissão de serviço e voltou para casa. Foi recebido na estação por uma charanga e escoltado até sua casa.

VIII

Acenando com uma grande bandeira de seda, Hildegarde saudou-o no alpendre e ele, ao mesmo tempo que a beijava, sentiu, com um baque no coração, que aqueles três anos tinham cobrado o seu tributo. Ela era agora uma mulher de quarenta anos, com uma leve e tímida linha de cabelos grisalhos na cabeça. Tal visão deprimiu-o. No andar de cima, no quarto, viu a sua própria imagem refletida no espelho familiar. Aproximou-se mais e examinou, ansioso, o próprio rosto, comparando-o, decorrido um momento, com uma fotografia sua, fardado, tirada imediatamente antes da guerra. — Santo Deus! — exclamou, em voz alta. O processo continuava. Não restava dúvida alguma: parecia agora um homem de trinta anos. Em vez de encantado, sentiu-se inquieto: ele estava se tornando mais novo. Até então esperara que, uma vez atingida uma idade física equivalente à sua idade cronológica, o grotesco fenômeno que assinalara o seu nascimento deixaria de funcionar. Estremeceu, arrepiado. O seu destino parecia-lhe assustador, incrível. Quando desceu, Hildegarde esperava-o. Parecia irritada e ele perguntou-se se teria descoberto, finalmente, que havia alguma coisa errada. Foi num esforço para aliviar a tensão entre ambos que tocou no assunto, ao jantar, de um modo que considerou delicado.

— Bem — comentou, em tom ligeiro —, todo mundo diz que pareço mais novo do que nunca. Hildegarde fitou-o com desdém. E fungou. — Acha que é motivo para se gabar? — Não estou me gabando — afirmou ele, muito pouco à vontade. Hildegarde fungou de novo. — Que idéia! — exclamou e, passado um momento, acrescentou: — Achava que teria dignidade suficiente para acabar com isso. — Como posso fazê-lo? — Não vou discutir contigo. Mas há uma maneira certa e uma maneira errada de fazer as coisas. Se resolveu ser diferente de todos, não creio que possa detê-lo, mas, com franqueza, não me parece uma atitude muito delicada. — Mas, Hildegarde, não posso evitá-lo. — Pode, sim. É, pura e simplesmente, teimoso. Pensa que não quer ser como qualquer outra pessoa. Sempre foi e sempre será assim. Mas pense no que aconteceria se todo mundo visse as coisas como você vê. Como seria o mundo? Como se tratava de um argumento tolo e irrespondível, Benjamin não respondeu. E, a partir desse momento, abriu-se, e começou a alargar, um abismo entre ambos. Perguntou, até, a si mesmo que possível fascínio ela exercera sobre ele. Como se o abismo não chegasse, descobriu, à medida que o novo século avançava, que a sua sede de divertimento era cada vez maior. Não havia uma festa em Baltimore, fosse qual fosse a sua natureza, em que não estivesse presente, dançando com as

mais bonitas das jovens mulheres casadas, conversando com as mais populares das debutantes e achando a sua companhia encantadora, enquanto a mulher, uma velhota agourenta, se sentava entre os dois-de-paus, ora numa atitude de altiva desaprovação, ora seguindo os seus movimentos com olhar grave, intrigado e recriminador. «Olhem!», comentavam as pessoas. «Que pena! Um tipo jovem daquela idade ligado a uma mulher de quarenta e cinco anos. Deve ser vinte anos mais novo do que ela.» Tinham-se esquecido — como é inevitável que as pessoas se esqueçam — que na passada década de 1880 as suas mamães e os seus papais também tinham feito comentários a respeito deste mesmo desarmônico casal. A crescente infelicidade de Benjamin, em casa, era compensada pelos seus muitos novos interesses. Dedicou-se ao golfe e teve grande êxito. Tomou gosto pela dança: em 1906 era perito em «The Boston» e em 1908 foi considerado competente no «Maxime», enquanto em 1909 o seu «Castle Walk» causava inveja a todos os homens jovens da cidade. É claro que as suas atividades sociais interferiam, em certa medida, no seu negócio, mas a verdade é que trabalhara duramente no ramo de ferragens por atacado e achava que podia entregá-lo ao filho, Roscoe, recentemente licenciado pela Harvard. O certo é que, freqüentemente, ele e o filho eram confundidos um com o outro. Isso agradava a Benjamin, que não tardou a esquecer o medo insidioso que se apoderara dele no regresso da Guerra Hispano-Americana e passou a sentir um ingênuo prazer com a sua aparência. Havia apenas um senão no delicioso ungüento: detestava aparecer em público com a mulher. Hildegarde tinha quase cinqüenta anos e o aspecto dela fazia-o sentir-se absurdo…

IX

Num certo dia de Setembro de 1910 — poucos anos depois de a Roger Button & Co., Grossista de Ferragens, ter passado para as mãos do jovem Roscoe Button — um homem que aparentava vinte anos inscreveu-se como calouro na Universidade de Harvard, em Cambridge. Não caiu na asneira de anunciar que não voltaria a ver os cinqüenta anos e também não mencionou que o filho se formara na mesma instituição dez anos antes. Foi admitido e atingiu quase de imediato uma situação proeminente na turma, em parte por parecer um pouco mais velho do que os outros calouros, cuja idade média rondava os dezoito anos. Mas o seu êxito deveu-se em grande medida ao fato de, no jogo de futebol com a Yale, ter jogado tão brilhantemente, com tanto ímpeto e uma fúria tão intensa e implacável que marcara sete touchdowns e catorze field goals por Harvard e fizera com que onze homens da Yale, ou seja, uma equipe inteira, fossem levados um por um do campo, todos eles inconscientes. Foi o homem mais célebre da universidade. Pode parecer estranho, mas no seu terceiro ano — ou júnior — dificilmente conseguiu «chegar» à equipe. Os treinadores diziam que ele perdera peso e parecia, até, aos mais observadores, que não estava tão alto como antes. Já não marcava touchdowns — na realidade, foi mantido na equipe prin-

cipalmente na esperança de que a sua enorme reputação causasse terror e desorganização à equipe da Yale. No seu ano sênior não chegou, sequer, a fazer parte da equipe. Tornara-se tão débil e frágil que, um dia, alguns estudantes do segundo ano o tomaram por um calouro, incidente que o humilhou tremendamente. Passou a ser conhecido como uma espécie de prodígio — um sênior que, seguramente, não tinha mais de dezesseis anos — e sentiu-se muitas vezes chocado com a mundaneidade de alguns dos seus condiscípulos. Os estudos tinham-se tornado mais difíceis para ele — tinha a sensação de que eram avançados demais. Ouvira os seus condiscípulos falar da St. Midas, a famosa escola secundária onde tantos deles tinham se preparado para a universidade, e decidiu que, terminado o curso, ele próprio iria para a St. Midas onde a vida abrigada entre rapazes do seu tamanho seria mais agradável para si. Terminado o curso em 1914 regressou para casa, em Baltimore, com o diploma da Harvard na algibeira. Como Hildegarde residia agora na Itália, Benjamin foi viver com o filho, Roscoe. Mas, apesar de ter sido de modo geral bem recebido, não havia, obviamente, nenhum entusiasmo nos sentimentos de Roscoe em relação a ele — havia mesmo uma tendência perceptível, da parte do filho, para pensar que, enquanto vagueava pela casa mergulhado numa divagação adolescente, o pai atrapalhava um pouco. Roscoe era agora casado e notável na vida de Balti-

more e não queria que surgisse nenhum escândalo relacionado com a sua família. Benjamin, que deixara de ser persona grata entre os debutantes e o grupo mais jovem da nata da faculdade, deu consigo muito isolado e só, excetuando a camaradagem de três ou quatro rapazes de quinze anos do bairro. A idéia de ir para a St. Midas School era recorrente nele. — Ouça — lembrou, um dia, a Roscoe —, já lhe disse não sei quantas vezes que quero ir para a escola secundária. — Está bem, vá — respondeu Roscoe, secamente. O assunto desagradava-lhe e queria evitar uma discussão. — Não posso ir sozinho — disse Benjamin, desanimadamente. — Terá que me matricular e levar lá. — Não tenho tempo — replicou Roscoe, com brusquidão, e depois semicerrou os olhos e olhou pouco à vontade para o pai. — Na verdade — acrescentou —, seria melhor não continuar com essa idéia muito mais tempo. Seria melhor travar. Seria melhor… seria melhor… — Fez uma pausa e o seu rosto tornou-se escarlate enquanto procurava as palavras adequadas — … seria melhor dar uma volta e recomeçar no sentido inverso. Isto já foi longe demais para ser uma brincadeira. Deixou de ter graça. Você… você se comporte! Benjamin olhou-o, à beira das lágrimas. — Mais uma coisa — continuou Roscoe —, quando tivermos visitas em casa quero que me trate por «tio»… não por «Roscoe», mas por tio, compre-

endeu? Parece absurdo um rapaz de quinze anos tratar-me pelo meu nome próprio. Talvez seja melhor me tratar sempre por tio, para se habituar. Olhando severamente para o pai, Roscoe virou as costas e afastou-se…

X

Terminada esta entrevista, Benjamin subiu desalentadamente para o andar de cima e fitou-se no espelho. Não fazia a barba há três meses, mas não conseguia encontrar nada no rosto além de uma tênue penugem branca com a qual parecia desnecessário preocupar-se. Quando regressara para casa de Harvard, Roscoe abordara-o com a proposta de que devia usar óculos e costeletas de imitação coladas às faces, o que o levara a pensar, momentaneamente, que a farsa dos seus primeiros anos iria se repetir. Mas as costeletas tinham-lhe dado comichão e envergonhado. Chorou e Roscoe abrandou, relutantemente. Benjamin abriu um livro de histórias para meninos, Os Escoteiros em Bimini Bay, e começou a lê-lo. Mas dava consigo a pensar persistentemente na guerra. A América juntara-se à causa dos Aliados no mês anterior e Benjamin queria alistar-se, mas, infelizmente, os dezesseis anos eram a idade mínima e ele não parecia tão velho. De qualquer modo, a sua verdadeira idade, cinqüenta e sete anos, também o teria desqualificado. Bateram à porta e o mordomo apareceu com uma carta com um grande cabeçalho oficial ao canto endereçada a Mr. Benjamin Button. Benjamin abriu-a avidamente e leu, encantado, o que dizia. Informava-o de que muitos oficiais na reserva que tinham servido na Guerra Hispano-Americana esta-

vam sendo chamados de novo para prestar serviço com um posto mais elevado e isso o incluía como brigadeiro-general no Exército dos Estados Unidos com ordem para se apresentar imediatamente. Benjamin levantou-se de um pulo, praticamente a tremer de entusiasmo. Era aquilo que ele queria. Pegou no boné e dez minutos depois entrou numa grande alfaiataria na Charles Street e pediu, no seu hesitante tom agudo, que lhe tirassem as medidas para um uniforme. — Quer brincar de soldado, meu filho? — perguntou, indiferente, um empregado. Benjamin corou. — Olhe, não se preocupe com o que eu quero! — replicou, irritado. — Me chamo Button e moro na Mt. Vernon Place. Por isso sabe que posso pagar. — Bem — admitiu o empregado, hesitante —, se não pode, suponho que o seu pai pode. Tiraram-lhe as medidas e, uma semana depois, o seu uniforme estava pronto. Teve dificuldade em obter a adequada insígnia de general porque o empregado teimava em insistir que um bonito distintivo da I.W.C.A. ficaria igualmente bem e seria muito mais divertido para brincar. Sem dizer nada a Roscoe, saiu de casa, uma noite, e viajou de trem para Camp Mosby, na Carolina do Sul, onde iria comandar uma brigada de Infantaria. Num abafado dia de Abril aproximou-se da entrada do acampamento, pagou ao taxista que o trouxera da estação e voltou-se para a sentinela de serviço.

— Chame alguém para levar a minha bagagem! — ordenou, brusco. A sentinela olhou-o com ar de censura. — Aonde vai com essa farda de general, meu filho? Benjamin, veterano da Guerra HispanoAmericana, virou-se rapidamente para ele com os olhos a cuspir fogo, mas, infelizmente, com um tremor agudo na voz. — Ponha-se em sentido! — tentou dizer com voz de trovão. Fez uma pausa para recuperar o fôlego… e, de súbito, viu a sentinela bater os calcanhares e pôr a carabina em cena. Benjamin disfarçou um sorriso de contentamento, mas quando olhou ao seu redor o sorriso desvaneceu-se. Não fora ele que inspirara a atitude de obediência, mas, sim, um imponente coronel de artilharia que se aproximava a cavalo. — Coronel! — exclamou esganiçadamente. O coronel aproximou-se, segurou as rédeas e olhou friamente para ele com um fulgor no olhar. — É filho de quem, rapazinho? — perguntou, bondosamente. — Diabos me levem se não tardo a mostrarlhe de quem o rapazinho é filho! — replicou Benjamin, em tom feroz. — Desça desse cavalo! O coronel desatou a rir ruidosamente. — O quer, meu general? — Aqui está! — gritou Benjamin desesperadamente. — Leia isto — e estendeu o certificado ao coronel.

O coronel leu e os seus olhos pareceram querer saltar das órbitas. — Onde arranjou isto? — perguntou, ao mesmo tempo que enfiava o documento na algibeira. — Obtive-o do governo, como não tardará a descobrir! — Venha comigo — ordenou o coronel, com uma expressão peculiar. — Vamos ao quartelgeneral e conversaremos a este respeito. Venha. O coronel voltou-se e pôs o cavalo a passo na direção do quartel-general. Benjamin não podia fazer nada a não ser segui-lo com o máximo de dignidade possível — ao mesmo tempo que prometia a si mesmo uma implacável vingança. Mas essa vingança não se materializou. Dois dias depois, no entanto, seu filho Roscoe materializou-se vindo de Baltimore, encalorado e contrafeito após uma viagem apressada, e acompanhou o choroso general sem uniforme no regresso a sua casa.

XI

O primeiro filho de Roscoe Button nasceu em 1920. No entanto, durante os festejos inerentes, ninguém achou adequado mencionar que o rapazinho encardido, que aparentava cerca de dez anos e brincava pela casa com soldadinhos de chumbo e um circo em miniatura, era o próprio avô do bebê. Ninguém antipatizava com o rapazinho em cujo rosto fresco e alegre havia uma sombra, apenas uma sombra, de tristeza, mas, para Roscoe, a sua presença era uma fonte de tormento. De acordo com a gíria de sua geração, Roscoe não considerava o assunto «eficiente». Parecia-lhe que o pai, ao recusar-se a aparentar sessenta anos, não se comportara como um «macho de sangue bem vermelho» — esta era a expressão favorita de Roscoe —, mas sim de um modo curioso e perverso. Na realidade, pensar no assunto um máximo de meia hora empurrava-o para a beira da insanidade. Roscoe acreditava que os espalha-brasas deviam manter-se jovens, mas aplicar a norma em semelhante escala era… enfim, era contraproducente. E Roscoe ficou por aí. Cinco anos depois, o rapazinho de Roscoe tinha idade suficiente para brincadeiras infantis com o pequeno Benjamin sob a vigilância da mesma ama. Roscoe levou ambos para o jardim da infância no mesmo dia e Benjamin descobriu que brincar com fitas de papel colorido, fazer esteiras, correntes

e belos e curiosos desenhos era a brincadeira mais fascinante do mundo. Uma vez foi mal comportado e teve que ficar de castigo num canto — nessa altura chorou —, mas na maior parte do tempo havia horas divertidas na sala alegre, com o sol a entrar pelas janelas e a mão bondosa de Miss Bailey a pousar um momento, de vez em quando, no seu cabelo ouriçado. O filho de Roscoe passou para a primeira classe ao fim de um ano, mas Benjamin permaneceu no jardim da infância. Sentia-se muito feliz. Às vezes, quando outras crianças falavam do que fariam quando crescessem, perpassava uma sombra pelo seu pequeno rosto como se ele compreendesse, de um modo vago e infantil, que nunca partilharia aquelas coisas. Os dias fluíam monotonamente. Ele voltou, pelo terceiro ano, para o jardim da infância, mas tornara-se agora pequeno demais para compreender para que serviam as reluzentes folhas de papel. O professor falava com ele, mas, embora tentasse compreender, Benjamin não compreendia absolutamente nada. Tiraram-no do jardim da infância. A sua ama, Nana, no seu vestido engomado de algodão listrado, tornou-se o centro do minúsculo mundo dele. Nos dias luminosos passeavam no parque. Nana apontava para um grande monstro cinzento e dizia «elefante» e depois Benjamin repetia, e à noite, quando o despiam para se deitar, ele não se cansava de lhe repetir, em voz alta: «Elifante, elifante, elifante.» Às vezes Nana deixava-o saltar em cima da cama e isso

era divertido, porque, se descemos de modo exatamente certo, ressaltamos e ficamos de novo em pé, e se dizemos «Ah» durante muito tempo enquanto saltamos obtemos um agradável efeito vocal intermitente. Ele adorava tirar uma grande bengala do cabide e andar por ali batendo com ela em cadeiras e mesas e a dizer: «Luta, luta, luta.» Quando haviam pessoas presentes as senhoras idosas riam-se dele, com um riso que lembrava um cacarejo, o que lhe interessava, e as senhoras jovens tentavam beijá-lo, o que ele consentia com plácido enfado. E quando o longo dia terminava, às cinco horas, subia com Nana para o andar de cima e deixava-se alimentar, à colheradas, com papas de aveia e comidas moles. Não havia recordações penosas no seu sono infantil; não lhe acudiam lembranças dos seus arrojados anos na faculdade, dos anos esplendorosos em que fizera palpitar o coração de muitas jovens. Havia apenas os lados brancos e seguros do seu berço, Nana e um homem que o visitava de vez em quando e uma grande bola cor de laranja para a qual Nana apontava pouco antes da sua crepuscular hora de dormir e a que chamava «Sol». Quando o Sol se punha os olhos dele ficavam ensonados: não havia sonhos, não havia sonhos que o assombrassem. O passado — a carga violenta à frente dos seus homens pela San Juan Hill acima; nos primeiros anos do seu casamento trabalhava até tarde, pela penumbra estival, na movimentada cidade para a jovem Hildegarde a quem amava; os dias anteriores a isso em que se sentava fumando com o avô, pela

noite adentro, na velha casa sombria dos Button na Monroe Street —, tudo isso se desvanecera como sonhos irreais, como se nunca tivesse existido. Não se lembrava. Não se lembrava com clareza se o leite estava morno ou frio da última vez que comera nem de como os dias passavam — havia apenas o seu berço e a presença familiar de Nana. E depois esqueceu-se de tudo. Quando tinha fome gritava — mais nada. Durante as tardes e as noites respirava e havia sobre ele suaves resmungos e murmúrios que mal ouvia, odores levemente diferenciados, luz e escuridão. Depois escureceu tudo e o seu berço branco, e os rostos obscuros que pairavam sobre ele, e o aroma morno e doce do leite desvaneceram-se por completo da sua mente.

Título original: The Curious Case of Benjamin Button Autor: F. Scott Fitzgerald  – Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues, Lisboa, 2008 Composição, impressão e acabamento: Multitipo — Artes Gráficas, Lda. 1ª edição, Lisboa, Janeiro, 2009 2ª edição, Lisboa, Janeiro, 2009 3ª edição, Lisboa, Fevereiro, 2009 Depósito legal no 288 506/09

Obra digitalizada por Sandra Amaral Adaptado para o Português do Brasil por Yuna — Toca Digital
Data da digitalização: Fevereiro de 2009

O Chamado de Cthulhu

cthulhu-6

“De tais seres ou potestades superiores pode ser concebida uma sobrevivência… uma sobrevivência de um período fantasticamente remoto onde… a consciência se manifestava, talvez, em vultos e formas desde então repelidos pela maré montante da humanidade… formas das quais apenas a poesia e a lenda captaram uma memória fugaz e as chamaram deuses, monstros, seres míticos de todos os tipos e espécies…”

Algernon Blackwood1

I. O horror de argila

A coisa mais misericordiosa do mundo, acho eu, é a incapacidade da mente humana correlacionar tudo que ela contém. Vivemos numa plácida ilha de ignorância em meio a mares tenebrosos de infinidade, e não estávamos destinados a chegar longe. As ciências, cada uma puxando para seu próprio lado, nos causaram poucos danos até agora, mas algum dia a junção das peças do conhecimento disperso descortinará visões tão terríveis da realidade e de nossa pavorosa posição dentro dela que só nos restará enlouquecer com a revelação ou fugir da iluminação mortal para a paz e a segurança de uma nova idade das trevas.

Os teosofistas imaginaram o admirável esplendor do ciclo cósmico no qual o nosso mundo e a raça humana são incidentes transitórios. Eles sugeriram estranhos remanescentes com termos que congelariam o sangue se não fossem mascarados por um suave otimismo. Mas não foi deles que me chegou o especial vislumbre de eras ancestrais proibidas que me arrepia ao lembrar e me enlouquece nos sonhos. Esse vislumbre, como todos os pavorosos vislumbres da verdade, revelou-­se de uma hora para outra com a junção acidental de peças separadas, nesse caso, uma velha notícia de jornal e as anotações de um professor já falecido. Espero que ninguém mais junte essas peças. Se eu viver, jamais ajuntarei, deliberadamente, um elo a tão odiosa cadeia, com certeza. Imagino que o professor também pretendia guardar silêncio sobre a parte que sabia, e que teria destruído suas anotações se a morte súbita não o tivesse colhido.

Meu contato com o assunto começou no inverno de 1926-27 com a morte de meu tio-avô George Gammell Angell, Professor Emérito de Línguas Semíticas na Universidade Brow, Providence, Rhode Island. O professor Angell era muitíssimo conhecido como uma autoridade em inscrições antigas e costumava ser consultado por curadores de museus importantes, de forma que muitos se lembrarão de seu falecimento, aos noventa e dois anos de idade. No meio local, o interesse foi intensificado pela obscuridade da causa da morte. O professor fora atingido quando voltava do barco de Newport, caindo de repente, segundo testemunhas, depois de receber o encontrão de um negro com ar de marinheiro que saiu de uma das vielas tenebrosas da ladeira íngreme que servia de atalho do cais até a casa do falecido na Williams Street. Os médicos não conseguiram detectar nenhuma doença visível e concluíram, depois de um debate confuso, que o fim se devera a alguma obscura lesão cardíaca provocada pela subida apressada de uma ladeira tão íngreme por um homem tão idoso. Na ocasião, não tive por que discordar dessa conclusão, mas ultimamente me sinto inclinado a estranhar… e mais do que estranhar.

Na qualidade de herdeiro e executor testamentário de meu tio-avô, pois ele morreu viúvo e sem filhos, teria de examinar seus papéis com certa meticulosidade, e para esse fim transferi todas as suas pastas e arquivos para minha moradia em Boston. Boa parte do material que eu correlacionei será no futuro publicada pela Sociedade Arqueológica Americana, mas havia uma caixa que me intrigou sobremaneira e não quis expô-la a outras vistas. Ela estava trancada e não consegui encontrar a chave até que me ocorreu olhar a argola de chaves que o professor trazia sempre no bolso. Consegui então abri-la, mas ao fazê-lo deparei-me com um obstáculo maior e ainda mais protegido, pois qual poderia ser o significado do estranho baixo-relevo de argila e os apontamentos, divagações e recortes de jornais desconexos que encontrei? Teria meu tio, em seus últimos anos, se transformado num crédulo das mais levianas imposturas? Resolvi então procurar o excêntrico escultor responsável por aquela aparente perturbação da paz de espírito de um velho.

O baixo-relevo era um retângulo tosco com menos de uma polegada de espessura e cerca de cinco por seis polegadas de área, de origem ao que tudo indica moderna. A atmosfera e as sugestões de seus motivos estava longe de ser modernas, porém, pois não obstante as excentricidades de cubismo e futurismo serem muitas e alucinadas, elas não reproduzem amiúde aquela regularidade críptcia que emerge de documentos pré-históricos. E o grosso daqueles desenhos com certeza parecia ser algum tipo de escrita, conquanto minha memória, embora familiarizada com os papéis e as coleções de meu tio, não conseguiu de maneira alguma identificar aquele tipo particular, ou mesmo inferir suas filiações remotas.

Ao alto desses aparentes hieróglifos havia uma figura com finalidade evidentemente decorativa, embora seu estilo impressionista prejudicasse a formação de uma idéia muito precisa da natureza. Parecia uma espécie de monstro, ou símbolo representando um monstro, cuja forma só poderia ter sido concebida por uma fantasia mórbida. Se digo que minha imaginação um tanto extravagante forjou imagens simultâneas de um polvo, um dragão e uma caricatura humana, não estarei sendo infiel ao espírito da coisa. Uma cabeça carnuda e tentaculada coroava um corpo grotesco, coberto de escamas, com asas rudimentares, mas era o contorno geral do conjunto que o tornava mais aterrorizante. Por trás da figura havia a vaga sugestão de uma paisagem arquitetônica ciclópica.

Exceto por uma pilha de recortes da imprensa, os textos que acompanhavam essa extravagância eram obra recente da mão do Professor Angell, sem a menor pretensão a um estilo literário. O que parecia ser o documento principal se intitulava “CULTO DE CTHULHU”2 em caracteres cuidadosamente grafados para evitar a leitura incorreta de uma palavra tão invulgar. O manuscrito estava dividido em duas seções, a primeira intitulada “1925 – Sonho e Obra do Sonho de H.A. Wilcox, Thomas Street, 7, Providence, R.I.”, e o segundo, “Narrativa do Inspetor John R. Lesgrasse, Bieville Street, 121, Nova Orleans, La., em 1908 A.A.S. Mtg. – Notas sobre o Mesmo, & Prof. Webb´s Acct”. Os outros papéis manuscritos eram todos anotações breves, alguns deles relatos de sonhos bizarros de diversas pessoas, outros citações de livros e revistas teosóficos (especialmente de Atlantis and the Lost Lemuria de W. Scott-Elliot), e o resto comentários sobre antigas sociedades secretas e cultos proibidos, com indicações de passagens de livros de referência de antropologia e mitologia como Golden Bought3 de Frazer e Witch-Cult in Western Europe da Srta. Murray4. A maior parte dos recortes aludia a doenças mentais excêntricas e surtos de loucura ou mania coletiva na primavera de 1925.

A primeira metade do manuscrito principal relatava uma história muito estranha. Ao que parece, em 1º de março de 1925, um jovem magro e soturno, de aspecto neurótico e exaltado, tinha procurado o Professor Angell, levando um curioso baixo-relevo de argila ainda muito fresco e úmido. Seu cartão trazia o nome de Henry Anthony Wilcox, e meu tio o identificara como o filho mais jovem de uma excelente família que ele conhecia de longe. O jovem era estudante de escultura na Escola de Desenho de Rhode Island e morava no edifício Fleur-de-Lys perto daquela instituição5. Wilcox era um jovem precoce, de gênio conhecido, mas grande excentricidade, e desde a infância ele chamava a atenção pelas histórias bizarras e sonhos curiosos que tinha o hábito de relatar. Ele se considerava “psiquicamente hipersensível”, mas para o povo pacato da antiga cidade comercial ele não passava de um “esquisitão”. Sem nunca se misturar muito com sua própria gente, ele foi perdendo aos poucos a visibilidade social e agora só era conhecido de um pequeno grupo de estetas de outras cidades. Mesmo o Clube das Artes de Providence, zeloso de seu conservadorismo, o considerava um caso sem esperança.

Por ocasião da visita, dizia o manuscrito do professor, o escultor, de repente, pediu a ajuda dos conhecimentos arqueológicos de seu anfitrião para identificar os hieróglifos dos baixo-relevo. Ele falava de maneira calma, sonhadora, sugerindo uma simpatia afetada e distante, e meu tio foi um tanto ríspido na resposta, pois a condição claramente recente da tabuleta indicava afinidade com qualquer coisa, menos com arqueologia. A réplica do jovem Wilcox que impressionou meu tio o bastante para ele recordar-se dela e registrá-la tal qual, teve um feitio poético que deve ter marcado toda a conversa, e que mais tarde descobri tratar-se de uma forte característica sua. Ele disse, “É novo, de fato, visto que o fiz na noite passada em meio a um sonho com cidades estranhas, e os sonhos são mais antigos do que a fervilhante Tiro, ou a contemplativa Esfinge, ou a ajardinada Babilônia.”

Foi aí que ele começou aquele relato confuso que, de repente, espicaçou memórias adormecidas e conquistou o interesse febricitante de meu tio. Tinha havido um rápido tremor de terra na noite anterior, o mais forte sentido na Nova Inglaterra em muitos anos, e a imaginação de Wilcox fora fortemente abalada. Recolhendo-se ao leito, ele teve um sonho sem precedentes com grandes cidades ciclópicas, construídas com blocos titânicos e monolitos projetados para o céu, tudo exsudando um limo verde e sinistro de horror latente. As paredes e pilares estavam cobertos de hieróglifos, e de algum ponto indeterminado abaixo chegava uma voz que não era voz, uma sensação caótica que somente a fantasia poderia transformar em som, mas que ele tentara transmitir com o amontoado de letras quase impronunciável “Cthulhu fhtagn”.

Essa mixórdia verbal foi a chave para a recordação que exaltou e perturbou o Professor Angell. Ele interrogou o escultor com meticulosidade científica e estudou com atenção quase fanática, o baixo-relevo em que o jovem se vira trabalhando, enregelado e vestido apenas com as roupas de dormir, até a vigília insinuar-se em seu torpor. Meu tio culpou a sua velhice, disse Wilcox mais tarde, pela lentidão com que identificou os hieróglifos e a imagem. Muitas de suas perguntas pareceram deslocadas para o visitante, em especial as que tentavam relacioná-lo com cultos ou sociedades estranhos, e Wilcox não pôde compreender as repetidas promessas de silêncio que lhe foram feitas em troca de ser aceito em alguma ordem religiosa mística ou pagã. Quando o Professor Angell se convenceu de que o escultor ignorava mesmo qualquer culto ou sistema de sabedoria críptica, assediou o visitante com pedidos para que ele lhe relatasse sonhos futuros. Isso rendeu frutos regulares. Depois da primeira entrevista, o manuscrito registra visitas diárias do jovem durante as quais ele relatava fragmentos surpreendentes de imaginação noturna cujo tema constante era alguma vista ciclópica terrível de pedra escura e gotejante, com uma voz ou inteligência subterrânea gritando monotonamente através de enigmáticos impactos sensoriais só possíveis de descrever com palavras sem sentido. Os dois sons repetidos com maior freqüência são os expressos pelas letras “Cthulhu” e “R’lyeh”.

No dia 23 de março, prosseguia o manuscrito, Wilcox não apareceu, e indagações feitas em sua moradia revelaram que, atacado por um tipo desconhecido de febre, ele fora levado para a casa de sua família na Waterman Street. Ele havia gritado durante a noite, despertando outros artistas do prédio, e havia manifestado, a partir daquele momento, condições alternadas de consciência e delírio. Meu tio telefonou incontinente para a família e dali em diante passou a acompanhar o caso de perto, telefonando muitas vezes para o consultório do Dr. Tobey na Thayer Street, o médico que estava acompanhado o caso. A mente febril do jovem, ao que parecia, estava retida em coisas estranhas, e o médico chegava a estremecer quando as mencionava. Estas incluíam não só a repetição do que ele tinha sonhado antes, mas envolviam também algo gigantesco “com milhas de altura” que andava ou se arrastava de um lado para outro. Em nenhum momento ele descreveu essa coisa, mas expressões alucinadas ocasionais, reproduzidas pelo Dr. Tobey, convenceram o professor de que ela devia ser idêntica à monstruosidade inominável que ele tentara representar em sua escultura do sonho. A referência a essa coisa, acrescentou o doutor, preludiava sempre a recaída do jovem na letargia. Sua temperatura, por estranho que pareça não subia muito acima do normal, mas seu estado geral sugeria antes uma febre genuína do que uma perturbação mental.

No dia 2 de abril, por volta das três da tarde, todos os sintomas da doença de Wilcox desapareceram de uma hora para outra. Ele sentou-se na cama, espantado por estar em casa e sem a menor noção do que tinha acontecido em sonho ou realidade desde a noite de 22 de março. Recebendo alta do médico, voltou a seus aposentos em três dias, mas deixou de prestar qualquer ajuda ao Professor Angell. Todos os vestígios de sonhos estranhos tinham sumido de sua memória, e meu tio não guardou nenhum registro de seus pensamentos noturnos depois de uma semana de relatos insossos e irrelevantes sobre visões perfeitamente normais.

Aqui terminava a primeira parte do manuscrito, mas referências a algumas anotações espalhadas deram-me muito em que pensar, tanto, de fato, que só o arraigado ceticismo que marcava então a minha filosofia pode explicar a persistente aversão que senti pelo artista. As anotações em questão descreviam os sonhos de várias pessoas no mesmo período em que o jovem Wilcox sofrera suas estranhas provações. Meu tio, ao que parece, criou às pressas uma vasta rede de pesquisa envolvendo quase todos os amigos a quem poderia fazer perguntas sem parecer impertinente, pedindo-lhes que relatassem seus sonhos noturnos e as datas de qualquer visão extraordinária no passado recente. A receptividade a seu pedido parece Ter sido irregular, mas ele deve ter recebido, no mínimo, mais respostas do que uma pessoa normal poderia lidar sem uma secretária. Essa correspondência original não foi preservada, mas suas anotações formaram um resumo completo e realmente significativo. As pessoas comuns da sociedade e do meio comercial – o “sal da terra” da Nova Inglaterra tradicional – deram um retorno quase negativo, embora casos esparsos de impressões noturnas perturbadoras mas informes apareçam aqui e ali, sempre entre 23 de março e 2 de abril, o tempo do delírio do jovem Wilcox. Os homens de ciência foram afetados um pouco mais, embora quatro casos de descrição vaga sugiram vislumbres fugidios de paisagens exóticas, e, em um caso, seja mencionado o pavor de alguma coisa anormal.

Foi dos artistas e poetas que vieram as respostas pertinentes, e tenho clareza de que o pânico se alastraria se eles tivessem podido comparar as anotações. Tal como aconteceu, na falta das cartas originais, suspeitei que o compilador tinha feito perguntas indutivas ou editado a correspondência para corroborar o que ele estava potencialmente inclinado a ver. Isso reforçou minha idéia de que Wilcox, de alguma forma conhecedor dos dados antigos que meu tio possuía, vinha se insinuando junto ao veterano cientista. As respostas daqueles estetas contavam uma história perturbadora. De 28 de fevereiro a 2 de abril, uma grande parte deles havia tido sonhos extraordinários e a intensidade dos sonhos havia sido muito maior durante o período do delírio do escultor. Mais de um quarto dos que relataram algo, registravam cenas e sons vagos parecidos com os descritos por Wilcox, e alguns sonhadores confessaram ter sentido um intenso pavor da gigantesca e indescritível criatura avistada quase no fim. Um caso, que a anotação descreve com ênfase foi muito triste. O indivíduo, um arquiteto muito conhecido, com propensões para a teosofia e o ocultismo, tornou-se um louco furioso na data do acesso do jovem Wilcox e expirou alguns meses mais tarde depois de gritar incessantemente para ser salvo de algum invasor fugido do inferno. Se meu tio tivesse organizado esses casos por nome em vez de números, eu poderia tentar confirmá-los e fazer algumas investigações pessoais, mas do jeito como as coisas se deram, só consegui localizar alguns. Desses, porém, confirmei as anotações por completo. Muitas vezes me perguntei se todos os objetos das inquisições do professor ficaram tão perplexos quanto esses poucos. É bom que não lhes chegue nenhuma explicação.

Os recortes da imprensa, como sugeri, abordavam casos de pânico, mania e excentricidades durante o período em questão. O Professor Angell deve ter-se valido de um serviço especial, pois era imenso o número de recortes de fontes espalhadas por todo o Globo. Aqui, um suicídio noturno em Londres; alguém que dormia sozinho havia saltado pela janela depois de lançar um grito assustador. Ali, uma carta delirante ao editor de um jornal da América do Sul, onde um fanático deduz um futuro tétrico de visões que tivera. Um despacho da Califórnia descreve uma colônia de teosofistas distribuindo mantos brancos em massa para algum “acontecimento glorioso” que nunca chega, enquanto notícias da Índia falam com reservas de sérias rebeliões de nativos no final de março. Orgias de vodu multiplicam-se no Haiti e postos avançados na África registram murmúrios ominosos. Funcionários americanos nas Filipinas sentem que algumas tribos estão inquietas naquele período, e policiais de Nova York são atacados por levantinos histéricos na noite de 22 para 23 de março. Na região oeste da Irlanda, também, correm abundantes rumores e lendas fabulosos, e um pintor de temas fantásticos, Ardois-Bonnot, expõe uma blasfema “Paisagem Onírica” no salão de primavera de Paris de 1926. E são tão numerosos os distúrbios registrados em asilos de loucos que só um milagre poderia Ter impedido a comunidade médica de observar os estranhos paralelismos e tirar conclusões enganosas. No todo, um espantoso maço de recortes e até hoje mal consigo entender o calejado racionalismo que me fez deixá-los de lado. Mas eu estava convencido então de que o jovem Wilcox tinha conhecimentos dos assuntos mais antigos mencionados pelo professor.

II. A narrativa do Inspetor Legrasse

Os assuntos antigos que tornavam o sonho e o baixo-relevo do escultor tão significativos para meu tio constituíam o tema da segunda metade de seu extenso manuscrito. Ao que parece, o professor Angell já tinha visto a silhueta infernal da monstruosidade sem nome, já se tinha intrigado com os misteriosos hieróglifos e ouvido as sílabas aziagas que só podem ser representadas por “Cthulhu”, e isso tudo associado de maneira tão excitante e terrível que não causa espanto que ele tenha o jovem Wilcox com perguntas e solicitações de dados.

A experiência anterior tinha ocorrido em 1908, dezessete anos antes, quando a Sociedade Antropológica Americana realizara seu encontro anual em Saint Louis. O professor Angell, como convinha a alguém com sua autoridade e suas realizações, teve um papel destacado em todas as deliberações, e foi um dos primeiros a ser abordado por diversos leigos que aproveitaram a convocação para formular perguntas querendo respostas corretas e problemas para uma solução especializada.

O principal desses leigos, e, dentro em pouco, o centro de interesse de todos os participantes, era um homem de meia idade e aparência comum que tinha vindo de Nova Orleans atrás de informações especiais impossíveis de obter junto a alguma fonte local. Chamava-se John Raymon Legrasse e era, de profissão, inspetor de polícia. Trouxera consigo o motivo de sua visita, uma estatueta de pedra, grotesca, repulsiva e ao que tudo indica muito antiga, cuja origem não conseguira determinar. Não se deve supor que o Inspetor Legrasse tivesse o menor interesse em arqueologia. Ao contrário, seu desejo de esclarecimento era movido por considerações estritamente profissionais. A estatueta, ídolo, fetiche, ou seja lá o que fosse, fora capturada alguns meses antes nos pântanos arborizados ao sul de Nova Orleans, durante uma batida a uma suposta reunião vodu, e os ritos a ela associados eram tão extraordinários e repulsivos que a polícia não pôde deixar de concluir que tinha topado com um culto demoníaco totalmente desconhecido e muito mais diabólico do que os mais tenebrosos círculos de vodu africanos. Sobre a sua origem, afora as histórias desencontradas e inacreditáveis extraídas dos praticantes capturados, não se haveria de descobrir absolutamente nada, o que explicava a ansiedade da polícia por qualquer sabedoria arcaica que a ajudasse a situar o pavoroso símbolo e, através dele, a reconstituir a origem do culto.

O Inspetor Legrasse não estava preparado para a sensação que seu oferecimento provocou. Bastou uma vista ao objeto para colocar os homens de ciência em estado de tensa excitação, e sem demora eles de aglomeraram ao seu redor para examinar a diminuta figura cuja absoluta estranheza e aparência de antigüidade abissal sugeriam poderosamente panoramas arcaicos e fechados. Nenhuma escola de escultura identificável havia inspirado o terrível objeto, mas, entretanto, centenas, milhares de anos, talvez, pareciam gravados na superfície turva e esverdeada da pedra inclassificável.

A estatueta, que foi sendo passada com vagar de mão em mão para um estudo mais cuidadoso, tinha sete a oito polegadas de altura e um acabamento artístico raro. Representava um monstro de perfil meio antropóide, mas com uma cabeça de polvo com um amontoado de tentáculos por face e um corpo coberto de escamas aparentemente elástico, garras prodigiosas nas patas dianteiras e traseiras, e asas longas e estreitas nas costas. A coisa, que parecia animada de uma malignidade terrível e apavorante, tinha o corpo um tanto estufado e estava acocorada num pedestal, ou bloco retangular, com inscrições indecifráveis. As pontas das asas tocavam na borda escura do bloco, o traseiro ocupava o centro, enquanto as garras longas e curvas das patas traseiras dobradas agarravam a borda frontal e se prolongavam até um quarto da distância até a base do pedestal. A cabeça cefalópode estava curvada para a frente de tal forma que as pontas dos tentáculos faciais raspavam nos dorsos das patas dianteiras que se apoiavam nos joelhos erguidos da figura acocorada. Ela dava uma impressão geral de estar viva, e era ainda mais assustadora por sua origem ser tão absolutamente desconhecida. Sua antigüidade imensa, espantosa e incalculável era inegável, embora ela não revelasse qualquer ligação com algum tipo de arte da aurora da civilização – ou, mesmo, de alguma outra era. Em contrapartida, o próprio material de que era feita constituía um mistério, pois a pedra lisa preto-esverdeada com suas listras ou estrias douradas ou iridescentes não se assemelhava a nada que a geologia ou a mineralogia conhecessem. As inscrições ao longo da base eram também intrigantes e nenhum dos presentes, apesar de ali se encontrar a metade do conhecimento especializado do mundo nesse campo, conseguiu formar a menor idéia nem mesmo de sua mais remota filiação lingüística. Assim como a figura e o material, elas pertenciam a algo terrivelmente antigo e distinto da humanidade tal como a conhecemos, algo que sugeria com pavor ciclos de vida remotos e profanos, alheios a nosso mundo e a nossas concepções.

Contudo, enquanto os membros abanavam com seriedade as cabeças e confessavam sua derrota em face do problema apresentado pelo inspetor, uma pessoa naquela reunião presumiu um traço de estranha familiaridade na forma monstruosa e na inscrição e contou, com certa modéstia, uma curiosidade de seu conhecimento. Tratava-se do hoje falecido William Channing Webb, professor de antropologia da Universidade de Princeton e conhecido explorador. O professor Webb participara, quarenta e oito anos antes, de uma expedição à Groenlândia e à Islândia em busca de certas inscrições rúnicas que não conseguiu descobrir, e na costa da Groenlândia Ocidental havia encontrado uma tribo ou culto singular de esquimós degenerados cuja religião, uma curiosa forma de adoração ao diabo, o havia estarrecido por seu caráter deliberado cruel e repulsivo. A fé era pouco conhecida dos outros esquimós e eles só a mencionavam entre arrepios, dizendo que tinha surgido em épocas terrivelmente primitivas, antes mesmo do mundo existir. Além de ritos indescritíveis e sacrifícios humanos, ela incluía certos rituais hereditários fantásticos devotados a um demônio ancestral supremo ou tornasuk, e o professor Webb havia conseguido uma cuidadosa transcrição fonética deste de um velho mago-sacerdote ou angekok, expressando os sons em caracteres romanos da melhor maneira que pôde. Mas no momento, tinha um significado todo especial o fetiche que esse culto adorava e ao redor do qual os praticantes dançavam enquanto a aurora boreal luzia por cima dos penhascos de gelo. Era, pontificou o professor, um baixo-relevo em pedra muito tosco exibindo uma figura repulsiva e algumas inscrições misteriosas. Até onde ele saberia dizer, tratava-se de um similar tosco, em todos os traços, em todos os traços essenciais, do objeto bestial pousado, naquele momento, diante daquela assembléia.

Essas informações, recebidas com espanto e admiração pelos membros ali reunidos, mostraram-se empolgantes em dobro para o inspetor Legrasse, e ele na hora assediou o informante de perguntas. Tendo anotado e transcrito um ritual oral dos adoradores do pântano que seus homens haviam detido, pediu ao professor que se lembrasse o melhor possível das sílabas anotadas entre os esquimós satanistas. Seguiu-se uma exaustiva comparação de detalhes e um momento de respeitoso silêncio quando ambos, investigador e cientista, concordaram sobre a identidade virtual da frase comum aos dois rituais satânicos separados por mundos de distância. O que, em essência, tanto os feiticeiros esquimós como os sacerdotes do pântano da Louisiana tinham entoado para seus venerados ídolos era algo assim – sendo a divisão de palavras inferidas das quebras normais da frase quando entoada em voz alta:

“Ph’nglui mglw’ nafh Cthulhu R’yleh wgah’nagl fhtagn.”

Legrasse estava um passo à frente do professor Webb, pois vários de seus prisioneiros mestiços tinham repetido pare ele o que os celebrantes mais velhos lhes tinham dito sobre o significado das palavras. Esse texto dizia algo assim:

“Em sua morada em R’yleh o morto Cthulhu espera sonhando.”

Então, atendendo a um pedido geral e insistente, o inspetor Legrasse contou, da forma mais completa possível, sua experiência com os adoradores do pântano, contado uma história a que, como pude observar, meu tio atribuiu um significado profundo. Ela sugeria os mais alucinados sonhos dos criadores de mitos e teosofistas, e revelava um espantoso grau de imaginação cósmica em mestiços e párias.

Em 1º de novembro de 1907, a polícia de Nova Orleans recebera um chamado frenético da região lacustre e pantanosa ao sul. Os posseiros da região, em sua maioria descendentes primitivos mas de boa índole dos homens de Lafitte6, estavam tomados de mais absoluto pavor por uma coisa desconhecida que se aproximara furtivamente deles durante a noite. Parecia vodu, mas vodu de um tipo mais terrível do que todos que conheciam, e algumas mulheres e crianças tinham desaparecido desde que o tantã maléfico começara seu batimento incessante no coração dos bosques escuros e assombrados onde ninguém se aventura. Havia gritos insanos e uivos angustiados, cantos de arrepiar a alma e chamas diabólicas dançantes, e, prosseguiu o assustado mensageiro, as pessoas não podiam mais suportar.

Assim, um corpo de vinte policiais que lotava dois veículos e um automóvel partiu ao entardecer, levando o trêmulo posseiro como guia. No final da estrada transitável eles apearam e chapinharam muitas milhas em silêncio pelos terríveis bosques de ciprestes onde o dia não penetrava. Raízes pavorosas e festões pendentes e malignos de musgo espanhol os cercavam e, de vez em quando, um amontoado de pedras úmidas ou fragmentos de alguma parede apodrecida intensificavam, com sua sugestão de moradia mórbida, o sentimento de depressão que cada árvore retorcida e cada ilhota musgosa se combinavam para produzir. Finalmente despontou o povoado de posseiros, um amontoado de casebres miseráveis, e moradores histéricos vieram correndo aglomerar-se em volta do grupo de lanternas balouçantes. A batida surda dos tambores era agora pouco audível ao longe, muito ao longe, e um uivo horripilante chegava em intervalos irregulares quando o vento mudava. Um clarão avermelhado parecia filtrar através da pálida vegetação rasteira além das intermináveis avenidas de escuridão florestal. Mesmo relutando em ser deixados mais uma vez a sós, os amedrontados posseiros recusaram-se a avançar uma polegada na direção do culto profano, e o inspetor Legrasse e seus dezenove colegas tiveram que seguir em frente sem guia pelas negras arcadas de horror que nenhum deles jamais percorrera.

A região invadida pela polícia tinha má reputação e era geralmente desconhecida e não freqüentada por homens brancos. Corriam lendas de um lago oculto, jamais vislumbrado por olhos mortais, habitado por uma coisa poliposa branca e informe, com olhos luminosos, e os posseiros sussurravam que demônios com asas de morcego saíam voando de cavernas nas entranhas da terra para adorá-la à meia-noite Eles diziam que a criatura já estava ali antes de D’Iberville7, antes de La Salle8, antes dos índios, e antes mesmo dos animais e pássaros são dos bosques. Era o próprio pesadelo e vê-la significava a morte, mas ela fazia os homens sonharem e assim eles sabiam o bastante para se manter à distância. A orgia de vodu acontecia, de fato, na fímbria só da zona abominável, mas aquele local era ruim o bastante, daí, porque, talvez o próprio local da adoração aterrorizasse os posseiros mais do que os pavorosos sons e incidentes.

Somente a poesia ou a loucura poderiam fazer justiça aos barulhos escutados pelos homens de Legrasse enquanto abriam caminho pelo pântano tenebroso na direção do clarão vermelho e do tantã abafado. Há características vocais típicas dos homens, e características vocais típicas das feras, e é terrível ouvir uma quando a fonte devia indicar a outra. A fúria animal e a libertinagem orgiástica atingiram ali alturas demoníacas com uivos e guinchos extáticos que cortavam, reverberando o bosque sombrio como tempestades pestilenciais das profundas do inferno. De vez em quando, a gritaria desordenada cessava, destacando-se o que parecia um coro bem ensaiado de vozes roucas entoando compassadamente aquela frase ou ritual hediondo:

“Ph’nglui mglw’ nafh Cthulhu R’yleh wgah’nagl fhtagn.”

Atingindo um ponto onde o arvoredo era menos denso, os homens toparam de repente com a visão do próprio espetáculo. Quatro deles cambalearam, um desmaiou e dois foram sacudidos por um pranto convulsivo que a furiosa cacofonia do festim felizmente abafou. Legrassse aspergiu água do pântano no rosto do desmaiado e todos ficaram paralisados, tremendo, quase hipnotizados pelo horror.

Numa clareira natural do pântano havia uma ilha relvada e sem árvores, com um acre de extensão, talvez, e em certa medida seca. Sobre ela saltitava e se contorcia uma horda de anormalidade humana tão indescritível que só um Sime ou Angarola9 poderiam descrever. Desprovida de roupas, aquela prole híbrida zurrava, urrava e se contorcia em volta de um anel de fogo cujo centro, revelado por aberturas ocasionais da cortina de chamas, era ocupado por um grande monolito branco com quase oito pés de altura, sobre o qual repousava, parecendo incongruente por sua pequena dimensão, a pérfida estatueta cinzelada. De um amplo círculo formado por dez patíbulos dispostos em intervalos regulares, tendo monolito branco rodeado de chamas como centro, pendiam, de cabeça para baixo, os corpos terrivelmente desfigurados dos infortunados posseiros desaparecidos. Era no interior desse círculo que a roda de adoradores saltava e rugia, movendo-se da esquerda para a direita num Bacanal interminável entre o anel de corpo e o anel de fogo.

Pode ter sido apenas imaginação e podem ter sido apenas os ecos a induzir um dos homens, um espanhol impressionável, a imaginar ter ouvido reposta antifônicas ao ritual de algum ponto distante e escuro das profundezas do bosque de antiga lenda e horror. Esses homem, Joseph D. Galvez, eu encontrei e interroguei mais tarde, e ele se mostrou espantosamente imaginativo, chegando a sugerir um tênue bater de grandes asas e o vislumbre de olhos brilhantes e de um enorme vulto branco além das árvores mais distantes – mas imagino que tenha ouvido muitas superstições nativas.

A paralisia de pavor dos homens, na verdade, durou pouco. O dever logo se impôs e mesmo havendo por ali perto uma centena de mestiços celebrantes, a polícia confiou em suas armas e caiu, com determinação, em cima da turba repugnante. Durante cinco minutos, o alvoroço e o caos resultantes foram indescritíveis. Golpes terríveis, tiros e fugas, mas no final Legrasse pôde contar cerca de quarenta e sete prisioneiros sombrios que foram obrigados a se vestir às pressas e se alinhar entre duas filas de policiais. Cinco adoradores estavam mortos, e dois gravemente feridos foram levados em macas improvisadas por seus colegas presos. A estatueta sobre o monólito foi retirada com cuidado, é claro, e trazida por Legrasse.

Inquiridos na delegacia depois de uma jornada de tensão e cansaço intensos, os prisioneiros revelaram-se todos homens de um tipo de mestiçagem muito inferior e mentalmente aberrante. Eram marinheiros, em sua maioria, e um punhado de negros e mulatos, sobretudos caribenhos ou portugueses de Brava nas ilhas de Cabo Verde, dava um toque de voduísmo ao culto heterogêneo. Mas não foi preciso muita inquisição para ficar evidente que havia algo muito mais profundo e mais antigo do que o fetichismo negro. Degradadas e ignorantes como eram, as criaturas defendiam, com surpreendente consistência, a idéia central de sua abominável fé.

Eles adoravam, assim disseram, os Grandes Antigos que viveram muitas eras antes de existirem os homens, e que tinha vindo do céu para o mundo jovem. Esses Antigos já tinham partido, para o interior da Terra e o fundo do mar, mas seus corpos mortos tinham revelado seus segredos em sonhos aos primeiros homens, que criaram um culto que jamais deixara de existir. Aquilo que praticavam era esse culto, e segundo os prisioneiros ele sempre existira e sempre existiria, escondido em desertos remotos e lugares sombrios espalhados pelo mundo até o dia em que o grande sacerdote Cthulhu, saindo de sua tétrica morada na imponente cidade submarina de R’yleh, emergeria e colocaria a Terra novamente sob seu jugo. Algum dia ele conclamaria, quando as estrelas estivessem preparadas, e o culto secreto estaria pronto para libertá-lo.

Até lá, nada mais deveria ser dito. Havia um segredo que nem a tortura poderia extrair. A humanidade não era de modo algum a única das coisas conscientes da Terra, pois emergiam vulto da escuridão para visitar os poucos fiéis. Mas esses não eram os Grandes Antigos. Nenhum homem jamais vira os Antigos. O ídolo cinzelado era o grande Cthulhu, mas ninguém saberia dizer se os outros era exatamente iguais a ele. Ninguém conseguira ler a antiga inscrição, mas as coisas eram transmitidas de boca em boca. O ritual entoado não era o segredo – esse jamais era dito em voz alta, apenas sussurrado. O canto significava apenas isto: “Em sua morada em R’yleh, o morto Cthulhu espera sonhando.”

Somente dois dos prisioneiros foram considerados sãos o bastante para a forca e o resto foi confiado a várias instituições. Todos negaram que a matança tinha sido feita pelos Alados Negros que tinha vindo até eles de seu imemorial ponto de encontro no bosque assombrado. Mas daqueles aliados misteriosos, não se pôde jamais obter um relato coerente. O grosso do que a polícia conseguiu extrair veio de um mestizo muito velho chamado Castro, que alegava ter navegado em portos estranhos e conversado com líderes imortais do culto nas montanhas da China.

O velho Castro recordou fragmentos da odiosa lenda que fizeram empalidecer as especulações dos teosofistas e faziam o homem e o mundo parecerem recentes e transitórios. Durante muitas eras, outras Criaturas governaram a Terra, e Elas tinham construído grandes cidades. Restos Delas, segundo lhe disseram os chineses imortais, ainda poderiam ser encontrados como pedras ciclópicas em ilhas do Pacífico. Elas todas tinham desaparecido vastas eras antes dos homens chegarem, mas certas artes poderiam revivê-las quando as estrelas girassem novamente para as posições certas no ciclo da eternidade. Elas próprias, na verdade, tinham vindo das estrelas, e trazido Suas imagens Consigo.

Os Grandes Antigos, prosseguiu Castro, não eram totalmente de carne e sangue. Tinham forma – pois não o prova essa estatueta estrelada? – mas essa forma não era feita de matéria. Quando as estrelas estivessem posicionadas, Eles podiam saltar de mundo para mundo céu afora, mas quando as estrelas estavam na posição errada, não podiam viver. Mas embora não vivessem mais, Eles jamais podiam realmente morrer. Jaziam em casas de pedra em Sua grande cidade de R’yleh, preservados pelos feitiços do poderoso Cthulhu para uma gloriosa ressurreição quando as estrelas e a Terra estivessem mais uma vez prontas para Eles. Mas a essa altura, alguma força exterior teria de agir para libertar Seus corpos. Os encantamentos que Os mantinham intatos também Os impediam de dar o passo inicial, e Eles só podiam ficar deitados, despertos, no escuro, e pensar, enquanto incontáveis milhões de anos transcorriam. Sabiam tudo que se passava no universo, mas se comunicavam por transmissão de pensamentos. Mesmo agora Eles conversavam em Seus túmulos. Quando, depois de infinidades de caos, surgiram os primeiros homens, os Grandes Antigos falaram aos mais sensíveis deles, moldando seus sonhos, pois só assim Sua linguagem conseguia atingir as mentes carnais dos mamíferos.

Então, sussurrou Castro, aqueles primeiros homens criaram o culto em torno de pequenos ídolos que os Grandes lhes mostraram, ídolos trazidos de estrelas escuras para zonas sombrias. Esse culto não morreria jamais até que as estrelas estivessem de novo em posição e os sacerdotes secretos tirassem o grande Cthulhu de Sua sepultura para reanimar Seus súditos e recuperar Seu domínio sobre a Terra. O momento seria fácil reconhecer pois a humanidade se teria tornado então como os Grandes Antigos, livre, selvagem, e além do bem e do mal, com as leis e os comportamentos morais deixados de lado, e todos os homens, em júbilo, gritando matando e festejando. Os Antigos libertadores lhes ensinariam então novas maneiras de gritar, matar, festejar, se divertir, e toda a Terra arderia num holocausto de êxtase e liberdade. Até lá, o culto, através de ritos apropriados, devia manter viva a memória daqueles costumes ancestrais e transmitir secretamente a profecia de sua volta.

Outrora, nos tempos idos, homens escolhidos tinham conversado com os sepultados Antigos em sonhos, mas alguma coisa acontecera então. A grande cidade de pedra de R’yleh, com seus monólitos e sepulcros, tinha afundado debaixo das ondas e as águas profundas, cheias do mistério primordial no qual nem mesmo o pensamento pode penetrar, tinham interrompido o intercâmbio espectral. Mas a memória nunca morria, e sumos sacerdotes diziam que a cidade se ergueria de novo quando as estrelas se posicionassem. Depois sairiam do chão, mofados e tétricos, os espíritos negros da Terra, e cercados de rumores sombrios ocuparam cavernas por baixo dos leitos esquecidos dos mares. Mas o velho Castro não ousou falar muito deles. Calou-se bruscamente e não houve persuasão ou sutilezas que pudessem elucidar mais nessa direção. O tamanho dos Antigos, também, o que é curioso, ele não quis mencionar. Sobre o culto, disse que seu núcleo devia estar no centro dos desertos intransitáveis da Arábia, onde Irem, a Cidade dos Pilares, sonha oculta e intocada. Ele não tinha qualquer relação com o culto das bruxas europeu, e era virtualmente desconhecido entre seus membros. Nenhum livro jamais se referira de fato a ele, embora, segundo os imortais chineses, houvesse um duplo significado no Necronomicon10do árabe louco Abdul Alhazred que os iniciados poderiam ler quando quisessem, especialmente no muito discutido dístico:

“Pois não há morto que fique em repouso eterno,

E com imensa idade, poderá finar-se a morte.”

Legrasse, muitíssimo impressionado e não menos perplexo, tinha interrogado em vão sobre as filiações históricas do culto. Castro, ao que parece, falara a verdade ao dizer que ele era absolutamente secreto. As autoridades da Universidade de Tulane não puderam lançar luz nem sobre o culto, nem sobre a imagem, e o investigador tinha procurado as mais altas autoridades do país, obtendo apenas a história da Groenlândia do professor Webb.

O interesse febril provocado pelo relato de Legrasse ao encontro, corroborado como era pela estatueta, repetiu-se na correspondência subseqüente dos participantes, embora só apareçam menções esparsas a ele nas publicações formais da sociedade. A cautela é o primeiro cuidado dos que se acostumam a enfrentar o charlatanismo e a impostura. Legrasse emprestou a imagem por algum tempo ao professor Webb, mas quando este morreu, ela lhe foi devolvida e permanece em sua posse, onde eu a vi não faz muito tempo. É, de fato, uma coisa terrível, e está inconfundivelmente relacionada com a escultura de sonho do jovem Wilcox.

Não me espanta que meu tio ficasse excitado com a história do escultor, pois o que poderia pensar ao saber, conhecendo o que Legrasse havia apurado sobre o culto, de um jovem sensível que tinha sonhado não só com a figura e os hieróglifos exatos da imagem encontrada no pântano e da tabuleta diabólica da Groenlândia, mas chegara em seus sonhos a pelo menos três das palavras exatas da fórmula pronunciada por satanistas esquimós e mestiços da Louisiana? O pronto empreendimento de uma investigação de extrema eficácia pelo professor Angell era perfeitamente natural, embora eu suspeitasse que o jovem Wilcox tinha tomado conhecimento do culto por algum canal indireto, e tinha inventado uma seqüência de sonhos para aumentar e prolongar o mistério às custas do meu tio. As narrativas de sonhos e os recortes colecionados pelo professor eram, por certo, uma prova poderosa, mas minha vocação racionalista e a extravagância do assunto todo levaram-me a adotar o que considerei as conclusões mais sensatas. Assim, depois de estudar cuidadosamente o manuscrito de novo e comparar as anotações teosóficas e antropológicas com a narrativa sobre o culto de Legrasse, fiz uma viagem à Providence para encontrar o escultor e censurá-lo, como achava que merecia, por se impor de maneira tão atrevida a um homem culto e idoso.

Wilcox ainda morava sozinho no Edifício Fleur-de-Lys da Thomas Street, uma pavorosa imitação vitoriana da arquitetura Breton do século XVII que pavoneia sua fachada de estuque em meio às adoráveis casas coloniais da antiga colina e à sombra do mais belo campanário da América. Encontrei. Encontrei-o a trabalhar em seus aposentos, e deduzi, imediatamente, pelos modelos espalhados por ali, que seu gênio era mesmo profundo e autêntico. Algum dia, acredito, ele será conhecido como um grande decadentista, pois conseguiu cristalizar em argila a algum dia espelhará em mármore aqueles pesadelos e fantasias que Arthur Machen11 evoca em prosa e Clark Ashton Smith12 exibe em versos e pinturas.

Frágil, soturno e um tanto desleixado, virou-se languidamente à minha batida perguntou-me, sem se levantar, o que eu queria. Quando lhe contei quem eu era, mostrou algum interesse, pois meu tio havia excitado sua curiosidade ao investigar seus sonhos bizarros, mesmo sem nunca explicar as razões de seu estudo. Eu não ampliei seus conhecimentos a esse respeito, mas tentei, com alguma sutileza, interessá-lo. Em pouco tempo, convenci-me de sua absoluta sinceridade, pois ele falou dos sonhos de uma maneira que não deixava dúvidas. Os sonhos e seu resíduo subconsciente tiveram profunda influência em sua arte, e ele me mostrou uma estátua cujos contornos me fizeram estremecer com a perversidade que sugeria. Não se lembrava de ter visto o original da coisa exceto no baixo-relevo sonhado, mas as linhas foram insensivelmente tomando forma em suas mãos. Era, sem dúvida, a forma gigante que ele tinha expressado em seu delírio. Logo ficou claro que ele não sabia nada sobre o culto secreto afora o que a sabatina implacável de meu tio deixara escapar, e mais uma vez tentei imaginar alguma maneira pela qual ele pudesse ter recebido as pavorosas impressões.

Ele falou de seus sonhos de uma maneira curiosamente poética, fazendo-me ver, com terrível nitidez, a úmida cidade ciclópica de pedras verdes escorregadias – cuja geometria, comentou casualmente, era toda errada – e ouvir, em suspensa expectativa, o incessante e quase mental chamado das profundezas: “Cthulhu fhtagn”, “Cthulhu fhtagn”. Essas palavras eram em parte do terrível ritual que falava da vigília em sonho do falecido Cthulhu em sua cripta de pedra em R’yleh, e fiquei profundamente comovido a despeito de minhas crenças racionais. Wilcox, com certeza, ouvira falar do culto de maneira casual e logo se esquecera dele em meio à profusão de leituras e fantasias também excêntricas. Mais tarde, sendo muito impressionável, aquilo tinha encontrado expressão subconsciente em sonhos, no baixo-relevo e na terrível estátua que eu agora tinha diante de mim, de forma que sua imposição sobre meu tio tinha sido muito inocente. O jovem era de um tipo um tanto afetado e um tanto rude ao mesmo tempo, de que eu jamais poderia gostar, mas eu já me sentia inclinado a admitir seu gênio e sua honestidade. Despedi-me amistosamente, desejando-lhe todo o sucesso que seu talento promete.

A questão do culto continuava a me fascinar, e às vezes eu tinha vislumbres de glória pessoal com as pesquisas sobre sua origem e suas conexões. Visitei Nova Orleans, conversei com Legrasse e outros participantes daquela antiga batida policial, vi o ídolo assustador e cheguei a inquirir os prisioneiros mestiços sobreviventes. O velho Castro, infelizmente, morrera há alguns anos. O que ouvi de forma tão vívida de primeira mão, conquanto apenas confirmasse em detalhes o que meu tio tinha escrito, animou-me de novo, pois me parecia estar na pista de uma religião muito real, muito secreta e muito antiga cuja descoberta faria de um antropólogo ilustre. Minha atitude ainda era toda materialista, tomara ainda fosse, e desconsiderei com perversidade quase inexplicável a coincidência entre as anotações dos sonhos e os curiosos recortes colecionados pelo professor Angell.

Uma coisa de que comecei a suspeitar, e que agora temo saber, é que a morte de meu tio não fora natural. Ele caíra numa rua enladeirada e estreita que levava a um antigo cais coalhado de mestiços estrangeiros, depois do esbarrão involuntário de um marinheiro negro. Eu não me esquecera do sangue misto e das atividades marinhas dos membros do culto em Louisiana, e não me surpreendia ficar sabendo de métodos secretos e agulhas envenenadas tão implacáveis e tão ancestralmente conhecidas quando os ritos e crenças eram secretos. Legrasse e seus homens, é verdade, não tinham sido afetados, mas na Noruega, um certo marinheiro que vira cosas está morto. As investigações mais profundas de meu tio depois de obter os dados do escultor não poderiam ter chegado a ouvidos sinistros? Creio que o professor Angell morreu porque sabia demais, ou porque, provavelmente, viria a saber demais. Resta saber se irei como ele se foi, pois também sei muito agora.

III. A loucura vinda do mar

Se o céu algum dia quisesse conceder-me uma benção, esta seria apagar de todo os efeitos do acaso que fez meus olhos se fixarem num pedaço de papel que forrava uma prateleira. Não era algo com que eu me teria deparado naturalmente em minhas ocupações diárias, pois se tratava de um número velho de um jornal australiano, o Sydney Bulletin, de 18 de abril de 1925. Ele tinha escapado inclusive à firma de distribuição de recortes que, por ocasião de sua edição, vinha coletando material para a pesquisa de meu tio.

Minhas investigações sobre o que o professor Angell chamava de “Culto de Cthulhu” estavam quase paradas e eu estava de visita a um amigo erudito em Paterson, Nova Jersey, curador de um museu local e mineralogista de renome. Examinando, certo dia, o espécimes de reserva espalhados nas prateleiras de uma sala de fundo do museu, meu olhar foi atraído por uma curiosa ilustração num dos velhos jornais estendidos embaixo das pedras. Tratava-se do Sydney Bulletin que mencionei, pois meu amigo tinha amplas relações no exterior, e a ilustração era uma autotipia recortada de uma repulsiva imagem de pedra quase idêntica à que Legrasse tinha encontrado o pântano.

Retirei, impaciente, as peças preciosas de cima da folha de jornal e examinei minuciosamente a matéria, despontando-me com o pouco que dizia. O que ela sugeria, porém, teve profundas repercussões em minha busca periclitante e recordei com todo cuidado para tomar medidas imediatas. Ela dizia o seguinte:

MISTERIOSO NAVIO PERDIDO ENCONTRADO NO MAR Vigilant chega rebocando iate neozelandês armado e abandonado. Encontrados um sobrevivente e um morto a bordo.

História de batalha desesperada e mortes no mar. Marinheiro resgatado omite detalhes sobre a estranha experiência. Encontrado ídolo estranho em sua posse. Investigações prosseguem.

O cargueiro Vigilant da Morrison Co., com destino a Valparaíso, chegou esta manhã a sua doca no Porto de Darling, rebocando o iate a vapor Alert, combatido e inutilizado mas fortemente armado, de Dunedin, Nova Zelândia, que foi avistado no dia 12 de abril em 34º 21’ de Latitude S. e 152º 17’ de Longitude O. com um homem vivo e um morto a bordo.

O Vigilant deixou Valparaíso em 25 de março, e no dia 2 de abril foi impelido muito ao sul de sua rota por tempestades excepcionalmente violentas e ondas monstruosas. Em 12 de abril, o navio abandonado foi visto, e embora parecesse estar deserto, depois de abordado verificou-se que abrigava um sobrevivente em condições quase delirantes e um homem que, com certeza, estava morto havia mais de uma semana. O vivo estava agarrado a um horrível ídolo de pedra de origem desconhecida, com cerca de trinta centímetros de altura, sobre cuja natureza autoridades da Universidade de Sydney, da Royal Society e do Museu da College Street professaram total perplexidade, e que o sobrevivente fiz ter encontrado na cabine do iate, num pequeno escrínio cinzelado de tipo comum.

Esse homem, depois de recobrar os sentidos, contou uma história muito estranha de pirataria e chacina. Trata-se de Gustaf Johansen, um norueguês de alguma inteligência, e que fora o contramestre da escuna Emma, de Auckland, que zarpou para Callao com uma tripulação de onze homens em 20 de fevereiro. A Emma, dizia ele, foi retardada e empurrada com toda força para o sul de sua rota pela grande tormenta de 1º de março, e em 22 de março, estando em 49º 51’ de Latitude

S. e 128º 34’ de Longitude O. encontrou Alert, manejado por uma tripulação estranha e mal­encarada de canacas e mestiços. Ordenado peremptoriamente a voltar, o capitão Collins se recusou, diante do que a estranha tripulação começou a atirar com selvageria e sem aviso na escuna com a bateria pesada de canhões de bronze que equipava o iate. Os homens da Emma travaram luta, conta

o sobrevivente, e embora a escuna começasse a afundar com os tiros recebidos abaixo da linha d’água, eles conseguiram emparelhar o barco com o inimigo e abordá-lo, enfrentando a tripulação selvagem no convés do iate, e sendo forçados a matar todos, cujo número era um pouco superior, devido ao modo particularmente abominável e desesperado, ainda que canhestro, com que eles lutavam.

Três homens da Emma, inclusive o capitão Collins e o imediato Green, foram mortos, e os oito restantes, comandados pelo contramestre Johansen trataram de manobrar o iate capturado, seguindo em seu curso original para ver se existia alguma razão para a ordem de voltar. No dia seguinte, ao que parece, eles desembarcaram numa pequena ilha, embora não soubesse da existência de nenhuma ilha naquela parte do oceano, e seis dos homens morreram, de alguma forma, em terra, embora Johansen seja curiosamente reticente sobre essa parte de sua história e fale apenas de eles terem caído numa fenda da rocha. Mais tarde, ao que parece, ele e um companheiro subiram a bordo do iate e tentaram manobrá-lo, mas foram fustigados pela tempestade de 2 de abril. Daquele momento até seu resgate no dia 12, o homem pouco se recorda, e nem mesmo se lembra de quando William Briden, seu companheiro, morreu. Não há evidências visíveis da causa da morte de Briden, e é provável que se tenha dado à perturbação mental ou à desproteção. Informações telegráficas de Dunedin relatam que o Alert era bem conhecido ali como um barco mercante na ilha, e possuía uma péssima reputação em todo o cais. Pertencia a um estranho grupo de mestiços cujas reuniões freqüentes e incursões noturnas aos bosques atraíam grande curiosidade, e tinha zarpado com grande pressa pouco depois da tempestade e dos tremores de terra de 1º de março. Nosso correspondente de Auckland confere uma excelente reputação à Emma e a sua tripulação, e Johansen é descrito como homem sóbrio e valoroso. O almirantado vai abrir um inquérito sobre o assunto todo a partir de amanhã, e todos os esforços serão enviados para induzir Johansen a falar mais fracamente do que tem feito até agora.

Isso era tudo, além da imagem da estatueta infernal, mas que associação de idéias desencadeou em minha mente! Ali estavam novas e preciosas informações sobre o Culto de Cthulhu, e evidências de que ele guardava estranhas relações com o mar, assim com a terra. O que teria levado a tripulação mestiça a ordenar que a Emma retornasse enquanto seguiram em frente com seu hediondo ídolo? O que seria a ilha desconhecida onde seis homens da Emma tinham morrido, e sobre a qual o imediato Johansen era tão reticente? O que a investigação do vice­almirantado teria apurado e o que se saberia do abominável culto em Dunedin? E o mais admirável, que relação profunda e sobrenatural de datas era aquela que emprestava um significado maligno agora inegável às diversas viravoltas dos acontecimentos tão cuidadosamente anotadas por meu tio?

Em 1º de março – nosso 28 de fevereiro segundo a linha internacional da data – vieram o terremoto e a tempestade. De Dunedin, o Alert e sua deletéria tripulação tinha partido a toda pressa como se fossem imperiosamente convocados, e no outro lado da Terra, poetas e artistas tinham começado a sonhar com uma estranha cidade ciclópica e úmida, enquanto o jovem escultor tinha modelado, durante o sono, a forma do temível Cthulhu. Em 23 de março, a tripulação da Emma desembarcou numa ilha desconhecida onde deixou seis mortos; e naquela mesma data, os sonhos de homens sensíveis assumiram uma vivacidade acentuada, obscureceram de pavor da perseguição maligna de um monstro gigantesco, enquanto um arquiteto enlouquecia e um escultor mergulhava no delírio! E quanto a essa tempestade de 2 de abril – a data em que todos os sonhos com a cidade úmida cessaram e Wilcox escapou ileso do jugo de estranha febre? O que pensar disso tudo – e das sugestões do velho Castro sobre os Antigos de origem estelar submersos e o advento de seu reinado, seu culto religioso e seu domínio sobre os sonhos? Estaria eu cambaleando à beira de horrores cósmicos que a capacidade humana seria incapaz de suportar? Se assim fosse, deviam ser apenas horrores mentais, pois, de algum modo, o dois de abril dra um fim à qualquer ameaça monstruosa que tivesse começado seu assédio à alma da humanidade.

Naquela noite, depois de um dia de arranjos e telegramas apressados, despedi-me de meu hospedeiro e tomei um trem para San Francisco. Em menos de um mês, eu estava em Dunedin, onde descobri, porém, que pouco se sabia dos estranhos membros do culto que tinham perambulado pelas velhas tavernas do cais. A escória das docas era comum demais para merecer alguma menção especial, embora corressem vagos rumores sobre uma viagem ao interior feita por aqueles mestiços durante a qual se notaram um longínquo rufar de tambores e chamas vermelhas nos morros distantes. Em Auckland, fiquei sabendo que Johansen tinha voltado com os cabelos louros embranquecidos depois de uma inquisição perfunctória e inconclusiva em Sydney, e depois disso vendera sua casinha na West Street e navegara com a mulher para sua velha casa em Oslo. Sobre a sua estarrecedora experiência, ele não diria aos amigos mais do que dissera aos funcionários do almirantado, e tudo que eles puderam fazer foi dar-me seu endereço em Oslo.

Depois disso, fui a Sydney e conversei com marinheiros e membros do tribunal do vice­almirantado, mas foi em vão. Vi o Alert, agora vendido e em uso comercial, no Cais Circular em Sydney Cove, mas de nada me serviu sua aparência vulgar. A estatueta agachada com sua cabeça de choco, corpo de dragão, asas escamadas e pedestal hieróglifo, estava guardada no Museu do Parque Hyde. Eu a estudei atentamente, achando-a de um artesanato muito raro, contendo o mesmo absoluto mistério, terrível antiguidade e sinistra estranheza de material que eu tinha notado no exemplar menor de Lagrasse. Os geólogos, contou-me o curador, a tinha considerado um grande mistério, pois juravam que não havia no mundo uma pedra daquele tipo. Estremecendo, pensei no que o velho Castro tinha dito a Lagrasse sobre os Grandes primitivos: “Eles vieram das estrelas e trouxeram Suas imagens consigo.”

Abalado por uma revolução mental como jamais conhecera, resolvi visitar o contramestre Johansen em Oslo. Navegando até Londres, tornei a embarcar em seguida para a capital da Noruega onde desembarquei, num certo dia de outono, nas docas bem cuidadas à sombra de Egeberg13. O endereço de Johansen, conforme verifiquei, ficava na Cidade Velha do Rei Harold Haardrada, que mantivera vivo o nome de Oslo durante os séculos em que a cidade maior se disfarçara de “Christiana.”14 Fiz o breve percurso de táxi com o coração palpitando, na porta de um velho e bem cuidado edifício com a frente rebocada. Uma mulher de rosto melancólico, de preto, atendeu, causando-me profunda frustração ao me contar, num inglês vacilante, que Gustaf Johansen já não existia.

Não sobrevivera a seu retorno, contou-me a esposa, pois os acontecimentos ao mar, em 1925, tinham acabado com ele. Ele não tinha contado à esposa nada além do que dissera em público, mas tinha deixado um longo manuscrito – sobre “assuntos técnicos” como dizia – escrito em inglês, evidentemente para protegê-la do risco de uma leitura casual. Caminhando por uma estreita viela perto do cais de Gotemburgo, fora atingido e derrubado por um fardo de papel caído de uma janela de sótão. Dois marinheiros indianos ajudaram-no prontamente a se levantar, mas antes que a ambulância chegasse, ele estava morto. Os médicos não encontraram nenhuma causa apropriada para o seu falecimento e atribuíram a problemas cardíacos e à constituição debilitada.

Sentia agora corroer-me as entranhas aquele terror hediondo que jamais me abandonará até que eu também fique em repouso, “por acidente” ou de alguma outra forma. Persuadindo a viúva de que minha conexão com os “assuntos técnicos” de seu marido me intitulava a ficar com o manuscrito, levei o documento e comecei sua leitura no navio para Londres. Era uma coisa simplória, desconexa – o esforço de um marinheiro ingênuo num diário a posteriori – e procurava recordar, dia a dia, aquela última e terrível viagem. Não posso tentar transcrevê-lo literalmente em toda sua nebulosidade e redundância, mas reproduzirei o bastante de seu conteúdo para mostrar por que o som da água contra os costados do navio se tornou de tal forma insuportável para mim que tapei os ouvidos com algodão.

Johansen, graças a Deus, não sabia tudo, apesar de ter visto a cidade e a Coisa, mas eu jamais dormirei tranqüilo enquanto pensar nos horrores que espreitam sem parar por trás da existência no tempo e no espaço, e naquelas blasfêmias profanas de estrelas primitivas que sonham no fundo do mar, conhecidas e veneradas por um culto de pesadelo pronto e ávido para soltá-las no mundo sempre que algum terremoto suspender sua monstruosa cidade de pedra novamente até o sol e o ar.

A viagem de Johansen tinha começado tal como ele contou ao vice-almirantado. A Emma, navegando com lastro, fizera-se ao mar em Auckland, em 20 de fevereiro, e tinha sido atingida em cheio por aquela tempestade provocada pelo terremoto que devia ter desprendido, do fundo do mar, os horrores que povoam os sonhos humanos. De novo sob controle, a embarcação avançava em boa marcha quando foi atacada pelo Alert, em 22 de março, e pude sentir o desgosto do imediato enquanto descrevia seu bombardeio e afundamento. Aos fanáticos mestiços do Alert, ele se refere com perceptível horror. Eles tinham alguma coisa especialmente abominável que parecia quase um dever destruí-los, e Johansen manifesta um espanto ingênuo com a acusação de impiedade feita a seu grupo durante o inquérito judicial. Depois, impelidos pela curiosidade, seguiram em frente no iate capturado sob o comando de Johansen e avistaram uma grande coluna de pedra se projetando para cima da superfície do mar, e em 47º 9’ de Latitude S. e 126º 43’ de Longitude O. chegaram a um litoral combinando lodo, limo e construções de alvenaria ciclópica coberta de ervas daninhas que outra coisa não poderia ser senão a substância tangível do supremo horror sobre a Terra – a pavorosa cidade-defunta de R’yleh, construída em eras imemoriais anteriores à História pelas formas imensas e malignas que se infiltraram das estrelas sombrias. Ali jaziam o poderoso Cthulhu e suas hordas, ocultos em criptas verdes, enlameadas, e expedindo, enfim, depois de ciclos temporais incalculáveis, os pensamentos que espalhavam o terror nos sonhos de pessoas sensíveis e convocavam imperiosamente os fiéis a uma romaria de libertação e restauração. Disso tudo não suspeitava Johansen, mas Deus sabe que ele logo veria o suficiente.

Imagino que um único topo de montanha, a hedionda cidadela encimada por monólito sobre a qual o grande Cthulhu estava enterrado, emergiu mesmo das águas. Quando penso na extensão de tudo que pode estar germinando naquele lugar, tenho vontade de me matar. Johansen e seus homens ficaram admirados diante da majestade cósmica daquela Babilônia gotejante de demônios ancestrais, e devem ter imaginado, sem orientação, que aquilo não pertencia a este nem a qualquer outro planeta são. A admiração com o tamanho descomunal da cidade de blocos de pedra esverdeados, com altura estonteante do grande monólito cinzelado e com a estarrecedora semelhança entre as colossais estátuas e baixos-relevos e a imagem bizarra encontrada num escrínio do Alert, é dolorosamente visível em cada linha da apavorada descrição do contramestre.

Sem conhecer o futurismo, Johansen chegou muito perto dele ao falar da cidade, pois, em vez de descrever alguma estrutura ou edifício definido, ele se atém a impressões gerais sobre os imensos ângulos e superfícies de pedra – superfícies grande demais para pertencerem a qualquer coisa normal ou própria desta Terra, corrompidas por imagens e hieróglifos terríveis. Menciono sua referência a ângulos porque sugere algo que Wilcox me disse sobre seus pavorosos sonhos. Ele disse que a geometria do lugar que via em sonhos era anormal, não euclidiana, sugerindo locais e dimensões repulsivos, diferentes dos nossos. Agora, um marinheiro iletrado sentia a mesma coisa observando a terrível realidade.

Johansen e seus homens desembarcaram num banco de lama inclinado daquela monstruosa Acrópole, e escalaram aos escorregões os titânicos blocos enlameados que não poderiam ser a escada de nenhum mortal. O próprio sol no firmamento parecia distorcido visto através dos miasmas polarizantes que exalavam daquela perversão encharcada, e um misto de ameaça e expectativa, às escondidas, daqueles ângulos loucamente enganosos de rocha entalhada onde se revelava côncavo a um segundo olhar o que se mostrara convexo a um primeiro.

Algo muito parecido com pavor tomara conta de todos os exploradores antes mesmo de avistarem qualquer coisa mais definida do que rocha, limo e mato. Cada um deles teria fugido não fosse por medo da zombaria dos outros, e foi sem muito entusiasmo que eles procuraram – em vão, com se provou – alguma lembrança que pudessem carregar.

Foi Rodriguez, o português, quem escalou a base do monólito e gritou, informando o que tinha encontrado. Os outros seguiram e olharam, cheios de curiosidade, a imensa porta entalhada com o já familiar baixo-relevo em forma de dragão com cabeça de lula. Parecia, segundo Johansen, uma grande porta de celeiro, e todos sentiram que era uma porta devido à verga, umbral e batentes ornamentados que a cercavam, embora não conseguissem ter claro se era horizontal como um alçapão ou inclinada como a porta externa de um porão. Como Wilcox teria dito, a geometria do lugar era toda errada. Não se podia ter certeza se o mar e o chão eram horizontais e, por isso, a posição relativa de tudo o mais parecia irrealmente variável.

Briden tentou forçar a porta em vários pontos, sem resultado. Depois Donovan tateou-a sua borda deliberadamente, pressionando um ponto de cada vez. Ele subiu pela grotesca moldura de pedra – isto é, podia-se chamar aquilo de subir já que não era mesmo horizontal – e os homens se perguntavam como alguma porta no universo podia ser tão imensa. Então, lenta e suavemente, o imenso painel começou a ceder para dentro na parte superior, e eles puderam notar que ele era articulado. Donovan escorregou, ou algo assim, para baixo ou ao longo do batente, juntando-se aos companheiros, e todos ficaram observando o estranho recuo daquele portal com os entalhes monstruosos. Naquela ilusão de distorção prismática, ele se movia de forma anormal, em diagonal, parecendo contrariar todas as regras da matéria e da perspectiva.

A abertura era negra, de uma escuridão quase matéria. Aquelas trevas eram, na verdade, uma qualidade positiva, pois escureciam as partes das paredes internas que deveriam ser reveladas, e exalava para fora como fumaça de sua prisão multimilenar, obscurecendo a olhos vistos o sol, ao escoar para o céu inchado e convexo num adejar de asas membranosas. O cheiro que exalava das profundezas recém-abertas era intolerável, até que Hawkins, que tinha ouvidos muito aguçados, pensou ter ouvido um chapinhar repulsivo no interior. Os homens ficaram atentos e ainda tentaram ouvir quando a Coisa se arrastou, babando, à vista de todos, espremendo Sua imensidade verde e gelatinosa pela passagem escura para o ar exterior infecto daquela venenosa cidade de loucura.

A caligrafia do pobre Johansen quase estancou neste ponto. Dos seis homens que jamais retornaram ao navio, ele acha que dois sucumbiram de puro pavor naquele maldito instante. A Coisa não pode ser descrita – não há linguagem para abismos tão imemoriais de pavor e demência, contradições tão grandes de matéria, força e ordem cósmica. Uma montanha caminhado ou se arrastando. Deus! Não espanta que, por toda a Terra, um grande arquiteto enlouquecesse e o pobre Wilcox delirasse de febre naquele instante telepático! A Coisa dos ídolos, a cria verde e gosmenta vinda das estrelas, tinha despertado para reclamar o que era seu. As estrelas estavam posicionadas uma vez mais e o que um culto ancestral não tinha conseguido deliberadamente, um grupo de inocentes marinheiros tinha obtido por acidente. Após eras incontáveis, o poderoso Cthulhu estava livre outra vez, e ávido de prazer.

Três homens foram varridos pelas patas balofas antes de alguém poder virar-se. Que descansem em paz, se algum repouso existir no universo. Era eles Donovan, Guerrera e Cngstrom Parker. Parker escorregou enquanto os outros três mergulhavam freneticamente em paisagens intermináveis de rocha incrustada de verde para o barco, e Johansen jura que ele foi engolido por um ângulo de parede que não deveria estar ali, um ângulo que era agudo mas se comportava com se fosse obtuso. Assim, só Briden e Johansen conseguiram alcançar o barco e remaram desesperados para o Alert enquanto a monstruosidade montanhosa se deixava cair pesadamente sobre as rochas escorregadias, até parar, hesitante, à beira do mar.

O vapor do navio não estava totalmente extinto, apesar da ida de todos os braços para a praia, e alguns minutos de correria febril de um lado para outro entre a roda do leme e as máquinas foi o que bastou para colocar o Alert em movimento. Devagar, em meio aos horrores distorcidos daquela paisagem indescritível, ele começou a agitar as águas letais, enquanto sobre a estrutura de pedra daquela praia espectral que não era da Terra, a Coisa titânica das estrelas babava e resmungava como Polifemo maldizendo o navio em fuga de Ulisses15. Em seguida, mais audacioso do que os célebres Ciclopes, o poderoso Cthulhu deslizou viscosamente para a água e saiu em perseguição do navio com braçadas de uma potência cósmica e tão imensas que chegavam a formar ondas na superfície do mar. Briden olhou para trás e enlouqueceu, rindo histericamente, e assim seguiu rindo, com intervalos, até que a morte o encontrou, certa noite, na cabine, enquanto Johansen perambulava delirante pelo navio.

Mas Johansen ainda não tinha desistido. Sabendo que a Coisa certamente alcançaria o Alert antes que o navio navegasse a pleno vapor, resolveu fazer uma tentativa desesperada e ajustando a máquina para plena velocidade, correu como um raio para o convés e inverteu o leme. Formou-se um portentoso turbilhão de espuma no abominável oceano, e enquanto a pressão do vapor ia aumentando, e aumentando, o bravo norueguês dirigia a proa da embarcação para o caçador gelatinoso que se erguia acima da espuma imunda com a proa de um galeão infernal. A pavorosa cabeça de lula com tentáculos retorcidos já estava quase alcançando o gurupés do robusto iate, mas implacável, Johansen avançava. Houve um ruído de bexiga estourando, uma sujeira gosmenta de peixe-lula rasgado, um fedor como se um milhar de sepulturas fossem abertas e um som que o cronista não conseguiu pôr no papel. Por um instante, o navio ficou coberto por uma nuvem verde, acre e cegante, e depois restou apenas um fervilhar venenoso a ré, onde – Deus! – a massa plástica dispersa daquela inominável criatura celeste ia vagamente recompondo sua odiosa forma original, enquanto se alargava a distância que a separava, a cada segundo, do Alert que ganhava ímpeto com a pressão crescente do vapor.

Isso foi tudo. Em seguida, Johansen apenas meditou sobre o ídolo na cabine e cuidou da comida para si e para o maníaco risonho ao seu lado. Ele não tentou navegar depois da primeira e corajosa fuga, pois o contra-ataque tinha extraído algo de sua energia. Depois veio a tormenta de 2 de abril e sua consciência se anuviou. Há uma sensação de vertigem espectral por abismos líquidos do infinito, de corridas alucinadas por universos instáveis montado numa cauda de cometa, e de saltos histéricos do poço à lua e da lua novamente ao poço, tudo animado por um coro cachinante dos corrompidos, hilários deuses antigos e dos zombeteiros duendes verdes com asas de morcego do Tártaro.16

Fora daquele sonho, veio a salvação – o Vigilant, o tribunal do vice-almirantado, as ruas de Dunedin e a longa viagem de volta para a velha casa à sombra de Egeberg. Ele não poderia contar – eles o achariam louco. Escreveria tudo que sabia antes da morte chegar, mas sua esposa não devia suspeitar. A morte seria uma bênção se ao menos pudesse apagar as lembranças.

Esse foi o documento que li e coloquei agora na caixa de estanho ao lado do baixo-relevo e dos papéis do professor Angell. Com ele irá esse meu registro – esse teste de minha própria atitude mental, em que se reconstituiu aquele que eu espero que jamais se reconstitua de novo. Considerei tudo de que o universo dispõe para conter o horror, e mesmo os céus de primavera e as flores de verão serão, para sempre, veneno para mim. Mas não creio que minha vida dure muito. Assim como meu tio se foi, como o pobre Johansen se foi, eu irei. Sei demais, e o culto ainda vive.

Cthulhu ainda vive, também, imagino, naquele abismo de pedra que o abrigou desde que o sol era jovem. Sua maldita cidade está novamente submersa, pois o Vigilant navegou até o local depois da tormenta de abril, mas seus agentes em terra ainda urram, cabriolam e matam em torno de monólitos coroado por ídolos em locais desertos. Ele dever ter sido apanhado pelo afundamento enquanto estava dentro de seu abismo negro, senão o mundo estaria agora gritando de pavor e loucura. Quem conhecerá o fim? Aquilo que emergiu pode afundar, e o que afundou pode emergir. A repugnância espera e sonha nas profundezas, e a podridão se espalha sobre as precárias cidades dos homens. Chegará um momento… mas não devo e não posso pensar! Deixem-me rezar para que, se não sobreviver a este manuscrito, meus executores testamentários coloquem a cautela a frente da audácia e cuidem que ele não chegue a outros olhos.

Notas:

  1. Blackwood, Algernon Henry (1869-1951), famoso escritor inglês do gênero horror e muito admirado por Lovecraft. (Nota de Transcrição)
  2. O termo “Cthulhu” é pronunciado comumente como “kuh-THOO-loo” (em português soa algo como: “Katuuluu”, pronunciado rapidamente), por causa da pronuncia indicada na caixa do famoso RPG de nome “Call of Cthulhu” da Chaosium. Entretanto, existem vários estudantes sérios de Lovecraft que preferem a pronúncia como “Cloo-loo”, justificando suas teses em referências dos contos do autor. Fora isto a discussão se estende e encontramos ainda uma série de pronuncias diferentes, mas que na prática nada, ou muito pouco, acrescentam ao termo. O próprio Lovecraft brincava com seus amigos escritores pronunciando hora de uma forma ora de outra. (Nota de Transcrição)
  3. Traduzido no Brasil da versão inglesa resumida e ilustrada The Ilustrated Golden Bough, da monumental obra de antropologia da religião The Golden Bough de Sir James George Frazer, como O Ramo de Ouro, Ed. Guanabara Koogan, 1982.
  4. Margaret A. Murray publicou em 1921 o livro citado, onde defende a tese de que o culto às bruxas, tanto na Europa como na América, tem origem numa raça pré-ariana que foi impelida para um mundo subterrâneo, mas continua à espreita em cantos escondidos da terra.
  5. Esta casa-estúdio foi criada pelo artista de Providence, R.I., Sydney Richmond Burleigh e de fato existe na Rua Thomas nº 77 nesta mesma cidade. Foi utilizada como inspiração para esta história. (Nota de Transcrição).
  6. La Fayette, Marquês de (1757-1834), líder militar e político francês, lutou no bando dos rebeldes das colônias durante a guerra da Independência Americana. (Nota de Transcrição)
  7. Iberville, sieur d’ (Pierre Le Moyne) (1661-1706), explorador famoso e um dos fundadores da Louisiana. (Nota de Transcrição)
  8. La Salle, René-Robert Cavelier (1643-1687), explorador francês famoso pela descoberta de um vale, o qual viria a ser a atual Louisiana, em homenagem ao rei Luís XIV. (Nota de Transcrição)
  9. Sidney Herbert Sime (1867-1945), ilustrador admirado por Lovecraft; Anthony Angarola (1893-1929), ilustrador norte americano de livros.
  10. Livro místico imaginário criado por Lovecraft. Neste grimório desconhecido estariam guardados segredos sobre os Antigos e práticas mágicas. Em “A História do Necronomicon”, o autor nos fala, inclusive com mais detalhes, sobre cidade dos pilares de Irem, citada anteriormente e de cópias secretas do livro preservadas até hoje. É importante dizer que este livro nunca existiu, e Lovecraft apenas se referia a ele nunca criando uma versão do livro, inclusive versões do livro é que não faltam na Internet algumas até ridículas associando Lovecraft ao famoso ocultista A. Crowley e outras besteiras mais. (Nota de Transcrição)
  11. Machen, Arthur (1863-1947), escritor inglês de renome que abordava temas sobrenaturais, admirado por Lovecraft. (Nota de Transcrição)
  12. Smith, Clark Ashton (1893-1961), escritor e artista plástico que além de amigo de Lovecraft era admirado por ele.(Nota de Transcrição)
  13. Bergen, cidade marítima e portuária do sudoeste da Noruega. (Nota de Transcrição)
  14. Oslo foi fundada por Harold III da Noruega por volta de 1050. Destruída em 1624 por um incêndio, Christian IV a reconstruiu batizando-a de Cristiania em sua homenagem. Assim foi até 1925, quando recuperou seu nome histórico. (Nota de Transcrição)
  15. Ulisses, nome latino de Odisseu, na mitologia grega, governador da ilha de Ítaca e um dos chefes do exército grego durante a guerra de Tróia. (Nota de Transcrição)
  16. Tártaro, na mitologia grega, a região mais baixa dos infernos. Segundo Hesíodo e Virgílio, o Tártaro é fechado por portas de ferro e está tão abaixo do mundo subterrâneo de Hades quanto a terra está em relação ao céu. (Nota de Transcrição).