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A Cigarra e a Formiga (W. Somerset Maugham)

fevereiro 10, 2012 1 comentário
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A Cigarra e a Formiga de La Fontaine (Gustave Doré)
Quando eu era ainda muito pequeno, obrigaram-me a decorar algumas das fábulas de La Fontaine, e explicaram-me cuidadosamente a moral de cada uma. Entre elas, aprendi a da cigarra e da formiga, que pretende incutir nos jovens a útil lição de que num mundo imperfeito o trabalho é recompensado e a leviandade castigada. Nesta fábula admirável (peço desculpa por ir contar qualquer coisa que, por delicadeza, mas erradamente, se supõe que toda a gente sabe) a formiga passa o verão a trabalhar afanosamente para guarnecer a despensa, enquanto a cigarra se senta na relva a cantar ao sol.

O inverno chega, e a formiga está confortavelmente fornecida, mas a cigarra tem a despensa vazia: dirige-se à formiga e pede-lhe alguma comida. Então, a formiga dá-lhe a resposta clássica:

“O que é que andaste a fazer durante o verão?”
“Com o devido respeito, cantei, cantei dia e noite.”
“Ai cantaste? Então agora, dança.”Não atribuo o fato a perversidade da minha parte, mas antes à inconsequência da infância, a que falta sentido moral, mas realmente nunca aceitei bem esta lição. As minhas simpatias iam para a cigarra, e durante algum tempo nunca via uma formiga que não lhe pusesse um pé em cima. Desta maneira sumária (e, como tenho vindo a descobrir desde então, inteiramente humana) procurava exprimir o meu repúdio da sisudez e do senso-comum.
Não pude deixar de pensar nesta fábula quando outro dia encontrei George Ramsay a almoçar sozinho num restaurante. Nunca vi ninguém com uma expressão tão profundamente sombria. Olhava fixamente o espaço. Dava a impressão de que carregava o mundo inteiro sobre os ombros. Tive pena dele: desconfiei logo de que o infeliz irmão lhe tinha dado problemas outra vez. Dirigi-me a ele e estendi-lhe a mão.
“Como estás?” perguntei.
“Não estou muito bem disposto,” respondeu ele.
“Foi o Tom outra vez?”
Ele suspirou.
“Foi. Foi o Tom outra vez.”
“Por que é que não te vês livre dele? Já fizeste por ele tudo o que podias. Já devias saber que é um caso perdido.”
Parece-me que em todas as famílias há uma ovelha ranhosa. Tom fora uma dura provação para a sua, durante vinte anos. Começara a vida bastante bem: meteu-se no negócio, casou, e teve dois filhos. Os Ramsay eram pessoas perfeitamente respeitáveis, e tudo levava a crer que Tom Ramsay iria ter uma carreira útil e meritória. Mas um dia, sem aviso prévio, anunciou que não gostava do trabalho e que não estava talhado para o casamento. Queria gozar a vida. E não quis ouvir mais nada. Deixou a mulher e o escritório. Tinha algum dinheiro e passou dois anos felizes em várias capitais da Europa. Aos ouvidos dos familiares chegavam de vez em quando rumores do que ele andava a fazer, o que os chocava profundamente. Fartou-se de gozar, com certeza. Eles abanavam a cabeça e interrogavam-se sobre o que aconteceria quando se lhe acabasse o dinheiro. Em breve o ficaram a saber: pedia emprestado. Ele era encantador e não tinha escrúpulos. Nunca conheci ninguém a quem fosse tão difícil recusar um empréstimo. Conseguiu, dos amigos, uma receita certa, e ele fazia amigos muito facilmente. Mas sempre dizia que o dinheiro que se gastava para satisfazer as necessidades era enfadonho; o dinheiro que dava gozo gastar era aquele que se despendia em coisas supérfluas que dão prazer. Em relação a este, dependia do irmão George. Mas não desperdiçava com ele os seus encantos. George era um homem sério e insensível a tal tipo de sedução. Era um homem respeitável. Por uma ou duas vezes deixou-se levar pelas promessas de emenda de Tom e deu-lhe quantias consideráveis para que ele pudesse começar tudo de novo. Com esse dinheiro, Tom comprou um carro e algumas jóias lindíssimas. Mas quando as circunstâncias levaram George a aperceber-se de que o irmão nunca assentaria, e a lavar daí as mãos, Tom começou, sem o mínimo receio, a fazer chantagem com ele. Para um advogado tão respeitável, não era muito agradável encontrar o irmão atrás do balcão do bar do seu restaurante favorito a preparar cocktails, ou vê-lo ao volante de um taxi à saída do seu clube. Tom dizia que trabalhar num bar ou conduzir um taxi era um emprego perfeitamente decente, mas se George o obsequiasse com algumas centenas de libras não se importaria, por uma questão de honra da família, de desistir da idéia. E George pagou.
Uma vez aconteceu que Tom quase foi parar na cadeia. George ficou perturbadíssimo. Tomou todo aquele incômodo assunto em suas mãos. Realmente o Tom tinha ido longe demais. Já fora insensato, irrefletido e egoísta, mas até agora não fizera ainda nada de desonesto, isto é, ilegal, no dizer de George; e se fosse acusado seria, com toda a certeza, condenado. Mas não se pode permitir que o nosso único irmão vá para a prisão. O homem que Tom enganou, de nome Cranshaw, era vingativo. Estava decidido a levar a questão ao tribunal; dizia que Tom era um canalha e que devia ser punido. A resolução da questão custou a George quinhentas libras e um enormíssimo monte de trabalho. E nunca o vi tão furioso como quando soube que, mal levantaram o cheque, Tom e Cranshaw partiram juntos para Monte Carlo. Passaram lá um mês delicioso.
Durante vinte anos Tom apostou em corridas e jogou, flertou com as mais bonitas mulheres, dançou, comeu nos restaurantes mais caros e vestiu elegantemente. Tinha sempre o ar aprumado de quem tinha acabado de se arranjar para uma festa. Embora tivesse já quarenta e seis anos, ninguém lhe daria mais de trinta e cinco. Era um companheiro extremamente divertido e, embora sabendo-o um perfeito inútil, ninguém podia deixar de gostar da sua companhia. Era bem humorado, de uma alegria inabalável, e de um encanto incrível. Nunca regateei as contribuições que ele regularmente me pedia para satisfação das suas necessidades básicas. Nunca lhe emprestei cinquenta libras que fossem sem ficar com a sensação de que eu é que lhe ficava a dever. Tom Ramsay conhecia toda a gente, e toda a gente conhecia o Tom Ramsay. Ninguém podia concordar com o seu comportamento, mas também ninguém podia deixar de gostar dele.
O pobre George, um ano apenas mais velho do que o estouvado do irmão, parecia ter já sessenta anos. Durante um quarto de século, nunca tinha tirado mais do que quinze dias de férias por ano. Chegava ao escritório todas as manhãs às nove e meia e nunca saía antes das seis. Era honesto, trabalhador e digno. Tinha uma boa esposa, a quem nunca fora infiel, nem em pensamento, e quatro filhas para quem era o melhor dos pais. Fazia questão de poupar um terço do seu rendimento, e a sua idéia era aposentar-se aos cinqüenta e cinco anos e retirar-se para uma casinha no campo onde tencionava dedicar-se à jardinagem e ao golfe. A sua vida era irrepreensível. Sentia-se contente por estar envelhecendo, porque afinal com o Tom acontecia o mesmo. Esfregava as mãos e dizia:
“Quando Tom era jovem e bem parecido, ainda enfim, mas ele é apenas um ano mais novo do que eu. Daqui a quatro anos ele faz cinqüenta. Nessa altura não vai achar a vida assim tão fácil. Quando eu fizer cinqüenta já terei trinta mil libras. Há vinte e cinco anos que ando a dizer que o Tom vai acabar na sarjeta. E vamos ver como é que ele vai se dar nessa situação. E vamos ver então o que é que compensa mais, se trabalhar ou preguiçar.”
Coitado do George! Ofereci-lhe a minha solidariedade. Agora, ali sentado a seu lado, perguntava-me que coisa terrível não teria feito o Tom. George estava visivelmente muitíssimo perturbado.
“Sabe o que é que aconteceu agora?” perguntou-me.
Eu estava preparado para o pior. Perguntava-me se o Tom não teria finalmente caído nas mãos da polícia. Com alguma dificuldade George decidiu-se a começar:
“Você não pode negar que eu tenho sido trabalhador, honesto, respeitável e reto durante toda a minha vida. Depois de uma vida trabalhando e poupando, posso pensar numa aposentadoria com um pequeno rendimento de títulos de toda a confiança. Sempre cumpri com o meu dever na vida que a Providência me reservou.”
“É verdade.”
“E também não se pode negar que o Tom tem sido um patife preguiçoso, indigno, dissoluto, sem princípios. Se houvesse justiça, ele estaria num reformatório.”
“É verdade.”
George corou.
“Há poucas semanas ficou noivo de uma mulher com idade para ser mãe dele. E agora ela morreu e deixou-lhe tudo o que tinha. Meio milhão de libras, um iate, uma casa em Londres e uma casa no campo.”
George Ramsay deu um murro na mesa.
“Não é justo, digo, não é justo. Que diabo, não é justo.”
Não pude evitá-lo. Desatei à gargalhada quando vi o olhar irado do George, rebolei na cadeira, quase caí ao chão. O George nunca me perdoou. Mas o Tom convida-me muitas vezes para jantares excelentes na sua encantadora casa em Mayfair, e se ocasionalmente me pede um dinheirinho insignificante é apenas a força do hábito. Nunca mais do que uma libra.
* Texto extraído da “Página de Beatrix
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