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Uma Rosa para Emily (William Faulkner)

fevereiro 19, 2013 7 comentários

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Quando Miss Emily Grierson morreu, toda a nossa cidade compareceu ao enterro: os homens em atenção a essa espécie de carinho respeitoso que se tem por um monumento tombado; as mulheres movidas pela curiosidade de ver o interior de sua casa, onde ninguém entrara nos últimos dez anos, exceto um velho negro, ao mesmo tempo cozinheiro e jardineiro.

Era um casarão quadrado, de madeira, outrora branco, decorado de cúpulas, de flechas, de balcões, no estilo pesadamente frívolo da época de 1870, situado na rua que já tinha sido a mais distinta da cidade. Mas as garagens e as debulhadoras de algodão, multiplicando-se em derredor, acabaram por fazer desaparecer até os nomes augustos daquele bairro. A casa de Miss Emily era a única, levantando sua decrepitude teimosa e faceira acima dos vagões de algodão e das bombas de gasolina. Emily tinha ido juntar-se aos representantes daqueles nomes augustos, no cemitério adormecido sob os cedros, onde jaziam entre os túmulos enfileirados e anônimos, dos soldados da União e dos Confederados mortos no campo de batalha de Jefferson.
Viva, Miss Emily fora uma ‘tradição, um dever e um aborrecimento: espécie de obrigação hereditária, pesando sobre a cidade desde o dia em que, em 1894, o Coronel Sartóris (o prefeito que baixou o decreto proibindo às negras saírem à rua sem avental) a isentara do pagamento de impostos, isenção definitiva, que datava da morte de seu pai. Isto não quer dizer que Miss Emily aceitasse a caridade. O Coronel Sartóris inventara a complicada história de um empréstimo em dinheiro, feito pelo pai de Miss Emily à cidade e que a cidade, por conveniência própria, preferia reembolsar dessa maneira. Só um homem da geração e com as idéias do Coronel Sartóris poderia ter imaginado semelhante coisa, e só uma mulher poderia ter acreditado.

Quando a geração seguinte, com suas idéias modernas, deu, por sua vez, prefeitos e intendentes municipais, essa concessão provocou alguns descontentamentos. No primeiro dia do ano, dirigiram a Miss Emily uma notificação de impostos. Fevereiro chegou, sem trazer resposta. Enviaram-lhe uma carta oficial, pedindo-lhe para passar, quando pudesse, no gabinete do delegado. Na semana seguinte, o próprio prefeito lhe escreveu, oferecendo-se para ir, em pessoa, à sua casa, ou para mandar buscá-la no seu carro particular. Recebeu, como resposta, uma folha de papel de feitio arcaico, escrita com tinta desbotada, numa letra miúda e fluente, comunicando-lhe que não saía mais de casa. A notificação dê pagamento de imposto vinha inclusa, sem comentários.

O Conselho Municipal reuniu-se em sessão extraordinária. Uma delegação dirigiu-se à sua casa e bateu naquela porta que nenhum visitante transpusera desde que, oito ou dez anos antes, Miss Emily deixara de dar lições de pintura em porcelana. Os membros da delegação foram introduzidos num saguão escuro, de onde uma escada se projetava para as sombras ainda mais que espessas do andar superior. Havia em tudo um cheiro de poeira, de guardado, de coisas que nunca são usadas -um cheiro de mofo e umidade. O negro conduziu-os ao salão, de mobiliário pesado, forrado de couro. Quando o negro abriu as cortinas de uma das janelas, viram que o couro estava estalado, descascando e, ao se sentarem, uma nuvem leve de pó subiu-lhe preguiçosamente em volta das coxas e se espalhou em círculos vagarosos, desenrolando-se, desagregada, na única réstia de sol. Num cavalete de moldura dourada, perto da lareira, via-se o retrato a carvão do pai de Miss Emily.

Levantaram-se à sua entrada. Era uma mulherzinha pequena e gorda, vestida de preto, com uma fina corrente de ouro descendo-lhe do pescoço até a cintura, onde desaparecia no cós da saia. Tinha a ossatura pequena e delicada; talvez, por isso, o que em outra pessoa seria apenas gordura, parecia, nela, obesidade. Dava a impressão de estar inchada, como um cadáver muito tempo submerso numa água estagnada; tinha, mesmo, de um afogado, a carne lívida e balofa. Seus olhos, perdidos nas intumescências de sua face, lembravam dois pedacinhos de carvão enfiados numa bola de massa e iam de um rosto a outro, enquanto os visitantes expunham o caso.
Não mandou que sentassem. Conservou-se, apenas, em pé no limiar da sala, e esperou tranqüilamente que o porta-voz se interrompesse, balbuciando. Então, puderam ouvir o tic-tac do relógio invisível, preso na ponta de sua corrente de ouro.

Sua voz era seca e fria:
– Não tenho impostos a pagar em Jefferson. O Corenel Sartóris me explicou isso. Talvez um dos senhores possa consultar os arquivos da cidade e dar satisfações aos demais.
– Mas nós o fizemos. Nós somos as autoridades no município, Miss Emily. A senhora não recebeu a notificação assinada pelo delegado?
– Sim, recebi um papel – disse Miss Emily. – Talvez ele se considere realmente o delegado… Não tenho impostos a pagar em Jefferson.
– Mas não há, nos livros, nada que o possa provar. Veja a senhora… É preciso que nós…
– Procurem o Coronel Sartóris. Não tenho impostos a pagar em Jefferson.
– Mas, Miss Emily –
– Procurem o Coronel Sartóris. (Havia quase dez anos que o Coronel Sartóris estava morto) – Não tenho impostos a pagar em Jefferson. Tobe! – O negro apareceu. – Acompanha estes cavalheiros.

Assim ela os venceu irremediavelmente, como já lhes vencera os pais, trinta anos antes, a respeito do cheiro. Isso aconteceu dois anos após a morte de seu pai, e quase em seguida à ocasião em que o namorado – aquele mesmo que nós pensávamos iria se casar com ela – a abandonou. Aquela morte e o abandono do namorado fizeram que ela depois pouco saísse de casa. Algumas senhoras tiveram a temeridade de ir visitá-la, mas não foram recebidas e, naquela casa, o único sinal de vida era o negro – ainda moço, então – que entrava e saía com um cesto de compras.
– Como se um homem – seja quem for! – pudesse conservar limpa uma cozinha! – diziam as senhoras. Assim, ninguém se surpreendeu quando se começou a sentir o cheiro. Foi um novo laço que se estendeu entre a gente grosseira e prolífica do bairro e os grandes e poderosos Grierson.

Uma mulher, sua vizinha, foi queixar-se ao prefeito, Juiz Stevens, que contava, então, oitenta anos.

– Mas que quer a senhora que eu faça? – perguntou ele,
– Ora, que ela acabe com isso – disse a mulher. Não existe lei?
– Estou certo de que não será necessário – afirmou o Juiz Stevens. Provavelmente, é só uma cobra ou um rato que o negro matou no quintal. Amanhã falarei com ele a esse respeito.
No dia seguinte, recebeu duas novas queixas; uma partiu de um homem, que apresentou uma súplica tímida.
– Nós precisamos, realmente, fazer alguma coisa nesse caso, sr. Juiz. Eu seria a última pessoa neste mundo capaz de incomodar Miss Emily, mas precisamos fazer alguma coisa.

Nessa mesma noite, reuniu-se o Conselho Municipal: três barbas grisalhas e um rapaz moço, membro da nova geração.
– A coisa é muito simples – disse o moço. – Mandem. lhe dizer para limpar a casa. Dêem-lhe um certo prazo para obedecer e, se ela não…
– Deus me livre, senhor! – exclamou o Juiz Stevens. Quer então dizer a uma senhora, nas bochechas, que ela cheira mal?

Assim, na noite seguinte, de madrugada, quatro homens atravessaram o gramado do jardim de Miss Emily e, como assaltantes, rondaram a casa, farejando os alicerces de tijolos e os respiradouros do porão, enquanto um deles, com um saco nos ombros, fazia, com regularidade, o gesto do semeador. Arrombaram a porta da adega, que salpicaram de cal, assim como todas as dependências. Quando, de volta, atravessaram o gramado, uma janela, até então sombria, iluminou-se de repente e viram Miss Emily sentada à contraluz, ereta, rígida, imóvel como um ídolo. Atravessaram em silêncio o gramado, metendo-se por entre as sombras das acácias que margeavam a rua. Depois de uma ou duas semanas, o cheiro desapareceu.
Isso foi quando as pessoas começaram realmente a ter pena dela. A gente de nossa cidade, que se lembrava de Lady Wyatt, sua tia-avó, que acabara louca, achava que os Grierson se julgavam muito mais importantes do que eram na realidade. Nenhum dos rapazes da cidade fora jamais considerado à altura de Miss Emily. Nós os imaginávamos muitas vezes como um quadro: ao fundo, Miss Emily, esguia figura vestida de branco; no primeiro plano, a silhueta de seu pai, virando-lhe as costas, com as pernas abertas, um chicote na mão; ambos, enquadrados pelos caixilhos da porta escancarada. Assim, quando ela chegou aos trinta anos ainda solteira, não posso dizer que isso tenha causado uma verdadeira alegria, mas nós, os rapazes, nos sentimos vingados; mesmo com os casos de loucura na família, ela não teria virado as costas a todas as oportunidades, se essas se tivessem verdadeiramente materializado.
Morto o pai, correu o boato de que só lhe tinha ficado a casa de herança, o que, de certo modo, alegrou todo mundo. Até que enfim, podiam apiedar-se de Miss Emily. Sozinha e na pobreza, iria humanizar-se. Agora, ela também conheceria a velha satisfação e o velho desespero de um vintém a mais ou de um vintém a menos.

No dia seguinte ao da morte do velho, as senhoras da cidade preparavam-me para ir à sua casa, apresentar-lhe os pêsames, conforme o costume. Miss Emily recebeu-as no limiar da porta, vestida como nos outros dias, e sem a menor marca de tristeza ou sofrimento na expressão. Disse-lhes que o pai não tinha morrido. Repetiu essas palavras durante três dias, quando os pastores e os médicos iam vê-la, tentando persuadi-la a deixar dispor do cadáver. Mas, no momento em que estavam resolvidos a recorrer à Lei e à força, ela cedeu, e enterraram-lhe o pai a toda pressa.

Não se disse, então, que estava louca. Pensamos que tinha agido como devia. Lembrávamo-nos de todos os moços que seu pai afastara, e sabíamos que, achando-se sem nada, ela deveria agarrar-se àquele que a despojara de tudo, como em geral acontece.
Esteve muito tempo doente. Quando tornamos a vê-la, tinha os cabelos cortados, o que a fazia parecer uma menina e lhe dava uma vaga semelhança com os anjos dos vitrais de igreja – uma mistura de trágico e sereno.
A cidade acabava justamente de firmar o contrato para pavimentação das calçadas e, no verão que seguiu a morte de seu pai, começaram os trabalhos. A companhia construtora trouxe negros, mulas e máquinas, e um contramestre chamado Homer Barron, um “yankee”, homem grande, moreno e decidido, com um vozeirão enorme e olhos mais claros do que a pele do rosto. Os garotos seguiam-no aos bandos, para ouvi-lo gritar com os negros, e para ouvir os negros cantando em compasso, enquanto erguiam e abaixavam a picareta. Em breve, o contramestre conhecia toda a gente da cidade. Cada vez que se ouviam ruidosas gargalhadas na praça, podia-se jurar que Homer Barron estava no centro do grupo. Não tardamos a avistá-lo, nos domingos à tarde, passeando com Miss Emily na carriola de aluguel, que tinha rodas amarelas e era puxada por uma parelha de cavalos baios.

A princípio, todos ficaram satisfeitos de ver que Miss Emily tinha agora um interesse na vida. As senhoras andavam dizendo: “Naturalmente, nunca uma Grierson tomará a sério um nortista, um assalariado.”

Mas havia outras pessoas, as mais velhas, que achavam que nem mesmo o desgosto deveria fazer que uma verdadeira senhora se esquecesse de que “noblesse oblige”. (Sem no entanto, empregar essa expressão: Noblesse oblige). Diziam, apenas: “Pobre Emily. Os parentes deviam procurá-la.”

Tinha parentes em Alabama, mas, alguns anos antes, o pai rompera com eles por causa da herança da velha Lady Wyatt, a louca, e não havia mais relações entre as duas famílias. Nem sequer se tinham feito representar no enterro.

E, mal a gente velha exclamou “Pobre Emíly”, os mexericos começaram: “Vocês imaginam que, realmente. . .” diziam uns para os outros. – “Mas nem há dúvida. Porque, a não ser isso. . ” tudo sussurrado atrás das mãos no amarrotado farfalhar de sedas e cetins por detrás das janelas fechadas ao sol das tardes de domingo, enquanto a parelha de cavalos baios passava num leve e apressado clop-clop-clop. – “Pobre Emily!”

Ela, porém, erguia a cabeça bem alto, mesmo quando pensávamos que tinha decaído. Parecia, mais do que nunca, exigir que se reconhecesse sua dignidade de última dos Grierson, como se fosse necessário aquele toque de vulgaridade terrestre para acentuar mais profundamente a sua impenetrabilidade. Tal como no dia em que comprou o veneno para ratos, o arsênico. Isso aconteceu um ano depois de terem começado a dizer:
“Pobre Emily”, e quando as duas primas estavam hospedadas em sua casa.
– Quero comprar veneno – disse ao farmacêutico. Contava, então, mais de trinta anos; era ainda delgada, embora estivesse mais magra do que de costume, com os olhos negros, altivos e frios num rosto cuja pele se repuxava na altura das têmporas e em volta das pálpebras, como se imaginava que deveria ser o rosto de um guardião de farol. – Quero comprar veneno.
– Pois não, Míss Emily. Que espécie de veneno? para ratos ou qualquer coisa assim? Recomen…
– Quero o que o senhor tiver de melhor. Não importa qual seja.

O farmacêutico citou alguns:
– Matariam até mesmo um elefante. Mas o que a senhora quer e…
– Arsênico – disse ela. – É bom?
– É… arsênico? Pois sim, senhora. Mas o que a senhora quer ….
– Eu quero arsênico.
– Pois, naturalmente – disse ele. – Se é isso que a senhora quer. Porém, a lei determina que a senhora declare o fim que dará ao veneno.

Miss Emily limitou-se a fitá-lo, com a cabeça pendida para melhor fixar os olhos nos olhos dele, até forçá-lo a desviar o olhar e a ir buscar o arsênico, que embrulhou. O caixeiro negro que fazia entregas trouxe-lhe o pacote, pois o farmacêutico não tornou a aparecer. Ao chegar em casa, tirou o papel; na tampa da caixa, debaixo da caveira e os dois ossos, estava escrito: “Para ratos”.

Assim, no dia seguinte, nós dizíamos: “Ela vai suicidar-se”, e achávamos que era a melhor solução. Quando começáramos a vê-la com Homer Barrou, tínhamos dito: “Vai casar-se com ele”. Depois, dizíamos: “Ela ainda acabará por persuadi-lo”, porque o próprio Homer observava – gostava da companhia dos homens e sabia-se que bebia com os rapazes no Elk’s Club – que não era feito para casamento. Mais tarde, dissemos: “Pobre Emily”, por detrás das venezianas, quando ambos passavam, nas tardes de domingo, na carriola vistosa, Miss Emily de cabeça erguida e Homer Barrou com o chapéu de lado e um charuto entre os dentes, segurando as rédeas e o chicote nas luvas amarelas.

Então, algumas senhoras começaram a declarar que aquilo era uma vergonha para a cidade e um mau exemplo para a gente moça. Os homens não ousavam intervir, mas, finalmente, as mulheres forçaram o pastor batista – a gente de Miss Emily era episcopal – a ir procurá-la. O pastor negou-se sempre a contar o que acontecera durante a entrevista e recusou-se a voltar à sua casa. No domingo seguinte, saíram juntos novamente e, no outro dia, a mulher do ministro escreveu aos parentes de Miss Emily, em Alabama.

Dessa forma, ela teve pessoas de seu sangue outra vez debaixo de seu teto e nós ficamos todos à espera dos acontecimentos. A princípio, nada aconteceu. Depois, ficamos convencidos de que iam se casar. Soubemos que Miss Emily fôra à joalheria e encomendara um jogo de toucador para homem, todo de prata, com as iniciais II. B. gravadas em cada peça. Dois dias mais tarde, fomos informados de que comprara um enxoval masculino completo, inclusive uma camisola de dormir, e dissemos: “Estão casados”. E ficamos contentes, porque as duas primas eram mais Grierson ainda do que Miss Emily jamais o fora.

Não tivemos grande surpresa quando, terminado o calçamento das ruas, Homer Barron partiu. Sentimo-nos um pouco decepcionados por não ter havido nenhuma manifestação pública de regozijo, mas julgamos que se tivesse afastado para preparar a ida de Miss Emily, ou para lhe dar a oportunidade de se livrar das primas. (Por essa época formáramos uma verdadeira cabala, e éramos todos aliados de Miss Emily no sentido de ajudá-la a alijar as primas). O que é certo é que elas partiram ao fim de outra semana. E, como esperávamos, no terceiro dia após essa partida, Homer Barron estava de volta à cidade. Os vizinhos viram o negro abrir-lhe a porta da cozinha, uma tarde ao escurecer.

Foi essa a última vez que vimos Homer Barron. E, durante algum tempo, não tornamos também a ver Miss Emily. O negro ia e vinha com a cesta das compras, mas a porta da entrada continuava fechada. Uma vez ou outra conseguimos avistá-la à janela por alguns instantes, como naquela noite em que os homens foram à sua casa espalhar a cal; durante mais de seis meses, porém, ela não apareceu nas ruas. Compreendemos que isso também era de esperar; como se aquele aspecto do caráter de seu pai, que tantas vezes constrangera sua vida de mulher, fosse virulento e furioso demais para morrer assim.

Quando a vimos novamente, Miss Emily tinha engordado muito e seus cabelos estavam ficando grisalhos. Nos anos seguintes, foram ficando cada vez mais grisalhos, até o momento em que, tendo adquirido um tom cinzento-de-aço, sua cabeleira não mudou mais de cor. Até o dia de sua morte, aos setenta e quatro anos, aqueles cabelos conservavam ainda esse vigoroso tom cinzento-de-aço, como os cabelos de um homem ativo.

Desde aquela época, sua porta ficara fechada, exceto no decorrer de um período de seis ou sete anos, quando ela, quarentona, dava aulas de pintura em porcelana. Instalara, num aposento do andar térreo, o atelier onde as filhas e netas dos contemporâneos do Coronel Sartóris lhe eram enviadas com a mesma regularidade e dentro do mesmo espírito com que as mandavam à igreja, nos domingos, munidas de uma moedinha de vinte centavos para a hora da coleta. Nesse ínterim, Miss Emily se vira dispensada do pagamento de impostos.

A nova geração tornou-se, então, a espinha dorsal e a alma da cidade, as alunas cresceram e dispersaram-se, e não lhe mandaram as filhas com as caixinhas de tinta, os aborrecidos pincéis e os modelos recortados das revistas ilustradas femininas. A porta fechou-se sobre a última aluna e ficou fechada desde então. Quando a cidade adotou a distribuição gratuita do correio, Miss Emily foi a única pessoa que se negou a consentir que fixassem um número de metal acima de sua porta e uma caixa postal ao lado. Não houve argumento que a convencesse.

Dias, meses e anos, vimos o negro, cada vez mais grisalho e curvado, entrando e saindo com a cesta de compras. Anualmente, em dezembro, mandavam-lhe a declaração de impostos, que o correio devolvia na semana seguinte, com a nota de não haver sido reclamada. Uma vez ou outra, nós a avistávamos diante da janela do andar térreo – tinha, evidentemente, fechado todo o andar superior da casa – semelhante ao busto esculpido de um ídolo no seu nicho, e nunca chegamos a saber se estava olhando para nós, ou se nem sequer nos via. E assim passou ela de geração para geração – querida, inevitável, impenetrável, tranqüila e perversa.

E, então, ela morreu. Caiu doente no seu casarão cheio de sombras e de pó, tendo como único auxílio o negro caduco. Nem ao menos soubéramos que estava doente, pois havia já muito tempo que desistíramos de arrancar qualquer informação ao negro. Não falava com pessoa alguma, talvez nem mesmo com ela; sua voz se tornara áspera e rouquenha como uma voz que não serve nunca.

Morreu num dos quartos do andar térreo, numa cama de nogueira maciça com cortinados, a cabeça grisalha erguida por um travesseiro amarelo e mofado pelo tempo e pela falta de sol.

O negro encontrou a primeira das senhoras na porta da frente; deixou-as entrar, com suas vozes sussurradas e sibilantes, com seus olhares rápidos, furtivos e curiosos, e depois desapareceu. Meteu-se pela casa a dentro, atravessou-a toda, saiu pelos fundos e sumiu para sempre.

A duas primas não tardaram a chegar. Fizeram o enterro no segundo dia. A cidade em peso compareceu para ver Miss Emily coberta por um montão de flores compradas, o retrato, a carvão, de seu pai profundamente pensativo, acima do caixão, cercado pelas senhoras sibilantes e macabras. No saguão e no gramado, homens, muito velhos – alguns nos uniformes de confederados muito bem escovadinhos – falavam de Miss Emily como se fosse uma de suas contemporâneas, imaginando que tinham dançado com ela, e até mesmo, talvez, que a tinham namorado, confundindo o tempo e a progressão matemática, como fazem os velhos, para os quais o passado não é uma estrada que se vai encurtando, porém uma vasta planície nunca atingida pelo inverno, dividida para eles, agora, pelo estreito gargalo da ampulheta dos últimos dez anos.

Nós todos já sabíamos da existência, naquela região, do andar superior, onde ninguém pisara há quarenta anos, de um quarto fechado que seria preciso arrombar. Esperamos que Miss Emily estivesse docemente enterrada, antes de forçá-lo.

A violência com que pusemos a porta abaixo pareceu encher o quarto de uma poeira penetrante. Era como se uma mortalha, tênue e acre, se estendesse sobre todas as coisas daquele quarto, mobiliado e enfeitado para urna noite de núpcias: sobre as desbotadas cortinas de pesada seda cor-de-rosa, sobre os quebra. Luzes rosados das lâmpadas, sobre a penteadeira, sobre os delicados objetos de cristal, sobre as peças do aparelho de toucador para homem, com seus dorsos de prata embaciados, tão embaciados que nem se distinguiam os monogramas escurecidos.

Entre os pertences do toucador, estavam jogados um colarinho e uma gravata, como se tivessem acabado de tirá-los naquele momento; quando os levantamos, deixaram na superfície uma pálida meia lua traçada na poeira. O terno de roupa estava dobrado cuidadosamente numa cadeira, debaixo da qual se viam os dois sapatos mudos e as meias largadas no chão.

E o homem estava deitado na cama.

Durante muito tempo, ali ficamos, imóveis, olhando para o seu ríctus profundo e descarnado, O corpo devia ter, a principio, repousado na atitude de carícia, abraçado a outro corpo, mas agora o grande sono que sobrevive ao amor, o grande sono que vence até mesmo as carícias do amor, dominara-o afinal. O que restava dele, em decomposição dentro do que restava de sua camisola de dormir, tornara-se inseparável do leito em que jazia; e sobre ele, assim como sobre o travesseiro vazio ao seu lado, estendera-se aquela camada espessa de paciente e obstinada poeira.

Notamos, então, que no segundo travesseiro havia a marca funda de uma cabeça. Um de nós encontrou qualquer coisa caída sobre esse travesseiro e, debruçando-se, enquanto a leve, impalpável poeira acre e seca, nos entrava pelas narinas, vimos um longo fio de cabelo de um tom cinzento-de-aço.


*** Extraído do blog: Angie Chalas
***

Guts (Chuck Palahniuk)

Chuck Palahniuk

Inspire.

Inspire o máximo de ar que conseguir. Essa estória deve durar aproximadamente o tempo que você consegue segurar sua respiração, e um pouco mais. Então escute o mais rápido que puder.

Um amigo meu aos 13 anos ouviu falar sobre “fio-terra”. Isso é quando alguém enfia um consolo na bunda. Estimule a próstata o suficiente, e os rumores dizem que você pode ter orgasmos explosivos sem usar as mãos. Nessa idade, esse amigo é um pequeno maníaco sexual. Ele está sempre buscando uma melhor forma de gozar. Ele sai para comprar uma cenoura e lubrificante. Para conduzir uma pesquisa particular. Ele então imagina como seria a cena no caixa do supermercado, a solitária cenoura e o lubrificante percorrendo pela esteira o caminho até o atendente no caixa. Todos os clientes esperando na fila, observando. Todos vendo a grande noite que ele preparou.

Então, esse amigo compra leite, ovos, açúcar e uma cenoura, todos os ingredientes para um bolo de cenoura. E vaselina.

Como se ele fosse para casa enfiar um bolo de cenoura no rabo.

Em casa, ele corta a ponta da cenoura com um alicate. Ele a lubrifica e desce seu traseiro por ela. Então, nada. Nenhum orgasmo. Nada acontece, exceto pela dor.

Então, esse garoto, a mãe dele grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para descer, naquele momento.

Ele remove a cenoura e coloca a coisa pegajosa e imunda no meio das roupas sujas debaixo da cama.

Depois do jantar, ele procura pela cenoura, e não está mais lá. Todas as suas roupas sujas, enquanto ele jantava, foram recolhidas por sua mãe para lavá-las. Não havia como ela não encontrar a cenoura, cuidadosamente esculpida com uma faca da cozinha, ainda lustrosa de lubrificante e fedorenta.

Esse amigo meu, ele espera por meses na surdina, esperando que seus pais o confrontem. E eles nunca fazem isso. Nunca. Mesmo agora que ele cresceu, aquela cenoura invisível aparece em toda ceia de Natal, em toda festa de aniversário. Em toda caça de ovos de páscoa com seus filhos, os netos de seus pais, aquela cenoura fantasma paira por sobre todos eles. Isso é algo vergonhoso demais para dar um nome.

As pessoas na França possuem uma expressão: “sagacidade de escadas.” Em francês:esprit de l’escalier. Representa aquele momento em que você encontra a resposta, mas é tarde demais. Digamos que você está numa festa e alguém o insulta. Você precisa dizer algo. Então sob pressão, com todos olhando, você diz algo estúpido. Mas no momento em que sai da festa….

Enquanto você desce as escadas, então – mágica. Você pensa na coisa mais perfeita que poderia ter dito. A réplica mais avassaladora.

Esse é o espírito da escada.

O problema é que até mesmo os franceses não possuem uma expressão para as coisas estúpidas que você diz sob pressão. Essas coisas estúpidas e desesperadas que você pensa ou faz.

Alguns atos são baixos demais para receberem um nome. Baixos demais para serem discutidos.

Agora que me recordo, os especialistas em psicologia dos jovens, os conselheiros escolares, dizem que a maioria dos casos de suicídio adolescente eram garotos se estrangulando enquanto se masturbavam. Seus pais o encontravam, uma toalha enrolada em volta do pescoço, a toalha amarrada no suporte de cabides do armário, o garoto morto. Esperma por toda a parte. É claro que os pais limpavam tudo. Colocavam calças no garoto. Faziam parecer… melhor. Ao menos, intencional. Um caso comum de triste suicídio adolescente.

Outro amigo meu, um garoto da escola, seu irmão mais velho na Marinha dizia como os caras do Oriente Médio se masturbavam de forma diferente do que fazemos por aqui. Esse irmão tinha desembarcado num desses países cheios de camelos, na qual o mercado público vendia o que pareciam abridores de carta chiques. Cada uma dessas coisas é apenas um fino cabo de latão ou prata polida, do comprimento aproximado de sua mão, com uma grande ponta numa das extremidades, ou uma esfera de metal ou uma dessas empunhaduras como as de espadas. Esse irmão da Marinha dizia que os árabes ficavam de pau duro e inseriam esse cabo de metal dentro e por toda a extremidade de seus paus. Eles então batiam punheta com o cabo dentro, e isso os faziam gozar melhor. De forma mais intensa.

Esse irmão mais velho viajava pelo mundo, mandando frases em francês. Frases em russo. Dicas de punhetagem.

Depois disso, o irmão mais novo, um dia ele não aparece na escola. Naquela noite, ele liga pedindo para eu pegar seus deveres de casa pelas próximas semanas. Porque ele está no hospital.

Ele tem que compartilhar um quarto com velhos que estiveram operando as entranhas. Ele diz que todos compartilham a mesma televisão. Que a única coisa para dar privacidade é uma cortina. Seus pais não o vem visitar. No telefone, ele diz como os pais dele queriam matar o irmão mais velho da Marinha.

Pelo telefone, o garoto diz que, no dia anterior, ele estava meio chapado. Em casa, no seu quarto, ele deitou-se na cama. Ele estava acendendo uma vela e folheando algumas revistas pornográficas antigas, preparando-se para bater uma. Isso foi depois que ele recebeu as notícias de seu irmão marinheiro. Aquela dica de como os árabes se masturbam. O garoto olha ao redor procurando por algo que possa servir. Uma caneta é grande demais. Um lápis, grande demais e áspero. Mas escorrendo pelo canto da vela havia um fino filete de vela derretida que poderia servir. Com as pontas dos dedos, o garoto descola o filete da vela. Ele o enrola na palma de suas mãos. Longo, e liso, e fino.

Chapado e com tesão, ele enfia lá dentro, mais e mais fundo por dentro do canal urinário de seu pau. Com uma boa parte da cera ainda para fora, ele começa o trabalho.

Até mesmo nesse momento ele reconhece que esses árabes eram caras muito espertos. Eles reinventaram totalmente a punheta. Deitado totalmente na cama, as coisas estão ficando tão boas que o garoto nem observa a filete de cera. Ele está quase gozando quando percebe que a cera não está mais lá.

O fino filete de cera entrou. Bem lá no fundo. Tão fundo que ele nem consegue sentir a cera dentro de seu pau.

Das escadas, sua mãe grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para ele descer naquele momento. O garoto da cenoura e o garoto da cera eram pessoas diferentes, mas viviam basicamente a mesma vida.

Depois do jantar, as entranhas do garoto começam a doer. É cera, então ele imagina que ela vá derreter dentro dele e ele poderá mijar para fora. Agora suas costas doem. Seus rins. Ele não consegue ficar ereto corretamente.

O garoto falando pelo telefone do seu quarto de hospital, no fundo pode-se ouvir campainhas, pessoas gritando. Game shows.

Os raios-X mostram a verdade, algo longo e fino, dobrado dentro de sua bexiga. Esse longo e fino V dentro dele está coletando todos os minerais no seu mijo. Está ficando maior e mais expesso, coletando cristais de cálcio, está batendo lá dentro, rasgando a frágil parede interna de sua bexiga, bloqueando a urina. Seus rins estão cheios. O pouco que sai de seu pau é vermelho de sangue.

O garoto e seus pais, a família inteira, olhando aquela chapa de raio-X com o médico e as enfermeiras ali, um grande V de cera brilhando na chapa para todos verem, ele deve falar a verdade. Sobre o jeito que os árabes se masturbam. Sobre o que o seu irmãos mais velho da Marinha escreveu.

No telefone, nesse momento, ele começa a chorar.

Eles pagam pela operação na bexiga com o dinheiro da poupança para sua faculdade. Um erro estúpido, e agora ele nunca mais será um advogado.

Enfiando coisas dentro de você. Enfiando-se dentro de coisas. Uma vela no seu pau ou seu pescoço num nó, sabíamos que não poderia acabar em problemas.

O que me fez ter problemas, eu chamava de Pesca Submarina. Isso era bater punheta embaixo d’água, sentando no fundo da piscina dos meus pais. Pegando fôlego, eu afundava até o fundo da piscina e tirava meu calção. Eu sentava no fundo por dois, três, quatro minutos.

Só de bater punheta eu tinha conseguido uma enorme capacidade pulmonar. Se eu tivesse a casa só para mim, eu faria isso a tarde toda. Depois que eu gozava, meu esperma ficava boiando em grandes e gordas gotas.

Depois disso eram mais alguns mergulhos, para apanhar todas. Para pegar todas e colocá-las em uma toalha. Por isso chamava de Pesca Submarina. Mesmo com o cloro, havia a minha irmã para se preocupar. Ou, Cristo, minha mãe.

Esse era meu maior medo: minha irmã adolescente e virgem, pensando que estava ficando gorda e dando a luz a um bebê retardado de duas cabeças. As duas parecendo-se comigo. Eu, o pai e o tio. No fim, são as coisas nais quais você não se preocupa que te pegam.

A melhor parte da Pesca Submarina era o duto da bomba do filtro. A melhor parte era ficar pelado e sentar nela.

Como os franceses dizem, Quem não gosta de ter seu cú chupado? Mesmo assim, num minuto você é só um garoto batendo uma, e no outro nunca mais será um advogado.

Num minuto eu estou no fundo da piscina e o céu é um azul claro e ondulado, aparecendo através de dois metros e meio de água sobre minha cabeça. Silêncio total exceto pelas batidas do coração que escuto em meu ouvido. Meu calção amarelo-listrado preso em volta do meu pescoço por segurança, só em caso de algum amigo, um vizinho, alguém que apareça e pergunte porque faltei aos treinos de futebol. O constante chupar da saída de água me envolve enquanto delicio minha bunda magra e branquela naquela sensação.

Num momento eu tenho ar o suficiente e meu pau está na minha mão. Meus pais estão no trabalho e minha irmão no balé. Ninguém estará em casa por horas.

Minhas mãos começam a punhetar, e eu paro. Eu subo para pegar mais ar. Afundo e sento no fundo.

Faço isso de novo, e de novo.

Deve ser por isso que garotas querem sentar na sua cara. A sucção é como dar uma cagada que nunca acaba. Meu pau duro e meu cú sendo chupado, eu não preciso de mais ar. O bater do meu coração nos ouvidos, eu fico no fundo até as brilhantes estrelas de luz começarem a surgir nos meus olhos. Minhas pernas esticadas, a batata das pernas esfregando-se contra o fundo. Meus dedos do pé ficando azul, meus dedos ficando enrugados por estar tanto tempo na água.

E então acontece. As gotas gordas de gozo aparecem. É nesse momento que preciso de mais ar. Mas quando tento sair do fundo, não consigo. Não consigo colocar meus pés abaixo de mim. Minha bunda está presa.

Médicos de plantão de emergência podem confirmar que todo ano cerca de 150 pessoas ficam presas dessa forma, sugadas pelo duto do filtro de piscina. Fique com o cabelo preso, ou o traseiro, e você vai se afogar. Todo o ano, muita gente fica. A maioria na Flórida.

As pessoas simplesmente não falam sobre isso. Nem mesmo os franceses falam sobre tudo. Colocando um joelho no fundo, colocando um pé abaixo de mim, eu empurro contra o fundo. Estou saindo, não mais sentado no fundo da piscina, mas não estou chegando para fora da água também.

Ainda nadando, mexendo meus dois braços, eu devo estar na metade do caminho para a superfície mas não estou indo mais longe que isso. O bater do meu coração no meu ouvido fica mais alto e mais forte.

As brilhantes fagulhas de luz passam pelos meus olhos, e eu olho para trás… mas não faz sentido. Uma corda espessa, algum tipo de cobra, branco-azulada e cheia de veias, saiu do duto da piscina e está segurando minha bunda. Algumas das veias estão sangrando, sangue vermelho que aparenta ser preto debaixo da água, que sai por pequenos cortes na pálida pele da cobra. O sangue começa a sumir na água, e dentro da pele fina e branco-azulada da cobra é possível ver pedaços de alguma refeição semi-digerida.

Só há uma explicação. Algum horrível monstro marinho, uma serpente do mar, algo que nunca viu a luz do dia, estava se escondendo no fundo escuro do duto da piscina, só esperando para me comer.

Então… eu chuto a coisa, chuto a pele enrugada e escorregadia cheia de veias, e parece que mais está saindo do duto. Deve ser do tamanho da minha perna nesse momento, mas ainda segurando firme no meu cú. Com outro chute, estou a centímetros de conseguir respirar. Ainda sentido a cobra presa no meu traseiro, estou bem próximo de escapar.

Dentro da cobra, é possível ver milho e amendoins. E dá pra ver uma brilhante esfera laranja. É um daqueles tipos de vitamina que meu pai me força a tomar, para poder ganhar massa. Para conseguir a bolsa como jogador de futebol. Com ferro e ácidos graxos Ômega 3.

Ver essa pílula foi o que me salvou a vida.

Não é uma cobra. É meu intestino grosso e meu cólon sendo puxados para fora de mim. O que os médicos chamam de prolapso de reto. São minhas entranhas sendo sugadas pelo duto.

Os médicos de plantão de emergência podem confirmar que uma bomba de piscina pode puxar 300 litros de água por minuto. Isso corresponde a 180 quilos de pressão. O grande problema é que somos todos interconectados por dentro. Seu traseiro é apenas o término da sua boca. Se eu deixasse, a bomba continuaria a puxar minhas entranhas até que chegasse na minha língua. Imagine dar uma cagada de 180 quilos e você vai perceber como isso pode acontecer.

O que eu posso dizer é que suas entranhas não sentem tanta dor. Não da forma que sua pele sente dor. As coisas que você digere, os médicos chamam de matéria fecal. No meio disso tudo está o suco gástrico, com pedaços de milho, amendoins e ervilhas.

Essa sopa de sangue, milho, merda, esperma e amendoim flutua ao meu redor. Mesmo com minhas entranhas saindo pelo meu traseiro, eu tentando segurar o que restou, mesmo assim, minha vontade é de colocar meu calção de alguma forma.

Deus proíba que meus pais vejam meu pau.

Com uma mão seguro a saída do meu rabo, com a outra mão puxo o calção amarelo-listrado do meu pescoço. Mesmo assim, é impossível puxar de volta.

Se você quer sentir como seria tocar seus intestinos, compre um camisinha feita com intestino de carneiro. Pegue uma e desenrole. Encha de manteiga de amendoim. Lubrifique e coloque debaixo d’água. Então tente rasgá-la. Tente partir em duas. É firme e ao mesmo tempo macia. É tão escorregadia que não dá para segurar.

Uma camisinha dessas é feita do bom e velho intestino.

Você então vê contra o que eu lutava.

Se eu largo, sai tudo.

Se eu nado para a superfície, sai tudo.

Se eu não nadar, me afogo.

É escolher entre morrer agora, e morrer em um minuto.

O que meus pais vão encontrar depois do trabalho é um feto grande e pelado, todo curvado. Mergulhado na árgua turva da piscina de casa. Preso ao fundo por uma larga corda de veias e entranhas retorcidas. O oposto do garoto que se estrangula enquanto bate uma. Esse é o bebê que trouxeram para casa do hospital há 13 anos. Esse é o garoto que esperavam conseguir uma bolsa de jogador de futebol e eventualmente um mestrado. Que cuidaria deles quando estivessem velhinhos. Seus sonhos e esperanças. Flutuando aqui, pelado e morto. Em volta dele, gotas gordas de esperma.

Ou isso, ou meus pais me encontrariam enrolado numa toalha encharcada de sangue, morto entre a piscina e o telefone da cozinha, os restos destroçados das minhas entranhas para fora do meu calção amarelo-listrado.

Algo sobre o qual nem os franceses falam.

Aquele irmão mais velho na Marinha, ele ensinou uma outra expressão bacana. Uma expressão russa. Do jeito que nós falamos “Preciso disso como preciso de um buraco na cabeça…,” os russos dizem, “Preciso disso como preciso de dentes no meu cú……

Mne eto nado kak zuby v zadnitse.

Essas histórias de como animais presos em armadilhas roem a própria perna fora, bem, qualquer coiote poderá te confirmar que algumas mordidas são melhores que morrer.

Droga… mesmo se você for russo, um dia vai querer esses dentes.

Senão, o que você pode fazer é se curvar todo. Você coloca um cotovelo por baixo do joelho e puxa essa perna para o seu rosto. Você morde e rói seu próprio cú. Se você ficar sem ar você consegue roer qualquer coisa para poder respirar de novo.

Não é algo que seja bom contar a uma garota no primeiro encontro. Não se você espera por um beijinho de despedida. Se eu contasse como é o gosto, vocês não comeriam mais frutos do mar.

É difícil dizer o que enojaria mais meus pais: como entrei nessa situação, ou como me salvei. Depois do hospital, minha mãe dizia, “Você não sabia o que estava fazendo, querido. Você estava em choque.” E ela teve que aprender a cozinhar ovos pochê.

Todas aquelas pessoas enojadas ou sentindo pena de mim….

Precisava disso como precisaria de dentes no cú.

Hoje em dia, as pessoas sempre me dizem que eu sou magrinho demais. As pessoas em jantares ficam quietas ou bravas quando não como o cozido que fizeram. Cozidos podem me matar. Presuntadas. Qualquer coisa que fique mais que algumas horas dentro de mim, sai ainda como comida. Feijões caseiros ou atum, eu levanto e encontro aquilo intacto na privada.

Depois que você passa por uma lavagem estomacal super-radical como essa, você não digere carne tão bem. A maioria das pessoas tem um metro e meio de intestino grosso. Eu tenho sorte de ainda ter meus quinze centímetros. Então nunca consegui minha bolsa de jogador de futebol. Nunca consegui meu mestrado. Meus dois amigos, o da cera e o da cenoura, eles cresceram, ficaram grandes, mas eu nunca pesei mais do que pesava aos 13 anos.

Outro problema foi que meus pais pagaram muita grana naquela piscina. No fim meu pai teve que falar para o cara da limpeza da piscina que era um cachorro. O cachorro da família caiu e se afogou. O corpo sugado pelo duto. Mesmo depois que o cara da limpeza abriu o filtro e removeu um tubo pegajoso, um pedaço molhado de intestino com uma grande vitamina laranja dentro, mesmo assim meu pai dizia, “Aquela porra daquele cachorro era maluco.”

Mesmo do meu quarto no segundo andar, podia ouvir meu pai falar, “Não dava para deixar aquele cachorro sozinho por um segundo….”

E então a menstruação da minha irmã atrasou.

Mesmo depois que trocaram a água da piscina, depois que vendemos a casa e mudamos para outro estado, depois do aborto da minha irmã, mesmo depois de tudo isso meus pais nunca mencionaram mais isso novamente.

Nunca.

Essa é a nossa cenoura invisível.

Você. Agora você pode respirar.

Eu ainda não.

* Retirado do blog Lendas Urbanas

O Estranho caso de Benjamin Button (F. Scott Fitzgerald)


I
No longínquo ano de 1860 a maneira correta de nascer era em casa. Presentemente, segundo me dizem, os sumo-sacerdotes da medicina decretaram que os primeiros vagidos dos recém-nascidos devem ser soltos no ar antiestético de um hospital, de preferência de um hospital em voga. Por isso, Mr. e Mrs. Roger Button estavam cinqüenta anos à frente do estilo da época quando, num dia do Verão de 1860, decidiram que o seu primeiro bebê nasceria num hospital. Jamais se saberá se este anacronismo teve alguma influência na espantosa história que estou prestes a contar. Contarei o que aconteceu e deixarei que julguem por si mesmos. Os Roger Button ocupavam uma posição invejável, tanto social como financeiramente, na Baltimore de antes da guerra. Eram aparentados com Esta Família e com Aquela Família, o que, como todos os habitantes do Sul sabiam, lhes conferia o direito de pertencerem àquele enorme pariato que povoava largamente a Confederação. Esta era a sua primeira experiência relacionada com o fascinante velho costume de ter bebês. Mr. Button sentia-se, naturalmente, nervoso. Esperava que fosse um menino para poder enviá-lo para o Yale College, no Connecticut, em cuja instituição ele próprio fora conhecido durante quatro anos pela alcunha um tanto quanto óbvia de «Bainha».

Na manhã de Setembro consagrada ao enorme evento levantou-se nervosamente às seis horas da manhã, vestiu-se, ajustou um impecável plastrão e correu apressadamente pelas ruas de Baltimore a caminho do hospital, a fim de averiguar se a escuridão da noite trouxera nova vida no seu seio. Quando se encontrava a cerca de cem metros do Hospital Particular de Maryland para Damas e Cavalheiros viu o Dr. Keene, o médico da família, descendo os degraus da frente, esfregando as mãos uma na outra como se estivesse a lavá-las — tal como é exigido a todos os médicos pela ética consuetudinária da sua profissão. Mr. Roger Button,presidente da Roger Button & Co., Grossista de Ferragens, começou a correr na direção do Dr. Keene com muito menos dignidade do que a esperada de um cavalheiro sulista daquele pitoresco período. — Dr. Keene! — chamou. — Ó Dr. Keene! O médico ouviu-o, deu meia volta e parou à espera, com uma expressão curiosa a fixar-se no rosto severo e clínico à medida que Mr. Button se aproximava. — O que aconteceu? — perguntou Mr. Button, ao chegar, numa agitação ofegante. — O que foi? Como está ela? Um menino? Quem é? O que… — Fale com lógica! — ordenou o Dr. Keene, asperamente. Parecia um bocado agastado. — A criança nasceu? — perguntou, suplicante, Mr. Button. O Dr. Keene franziu a testa.

— Bem, sim, suponho… é como quem diz… — E lançou outro olhar curioso a Mr. Button. — A minha mulher está bem? — Está. — É menino ou menina? — Essa agora! — explodiu o Dr. Keene, extremamente irritado. — Peço-lhe que vá e veja com os seus olhos. Escandaloso! — Soltou a última palavra como se tivesse apenas uma sílaba. Depois virou-se, a resmungar: — Imagina que um caso como este beneficia a minha reputação profissional? Outro igual me arruinaria… arruinaria qualquer um. — Mas, afinal, o que se passa? — perguntou Mr. Button, em pânico. — Trigêmeos? — Não, não se trata de trigêmeos! — respondeu o médico, cortante. — Sabe que mais? Vá e veja com os seus olhos. E arranje outro médico. Trouxe-o a este mundo, meu rapaz, e há quarenta anos que sou médico da sua família, mas agora acabou-se! Estou farto. Não quero voltar a vê-lo, nunca mais, nem ao Sr., nem a qualquer dos seus familiares! Passe bem! Virou as costas, bruscamente. E, sem dizer mais uma palavra, entrou na carruagem que o esperava na beira do passeio e partiu com ar severo. Mr. Button ficou parado no passeio, estupefato e a tremer da cabeça aos pés. Que horrível tragédia acontecera? Perdera de súbito toda a vontade de ir ao Hospital Particular de Maryland para Damas e Cavalheiros, e foi com extrema dificuldade que, um momento depois, impôs a si mesmo subir a escada e transpor a porta principal.

Uma enfermeira estava sentada à secretária, na obscuridade opaca do átrio. Engolindo a vergonha que o atormentava, Mr. Button dirigiu-se a ela. — Bom dia — ela o saudou, a olhá-lo agradavelmente. — Bom dia. Eu sou… eu sou Mr. Button. Perante tais palavras, uma expressão de absoluto terror alastrou-se pelo rosto da jovem. Levantou-se como se fosse fugir do átrio, contendo-se apenas com aparente e grande dificuldade. — Quero ver o meu filho — disse Mr. Button. A enfermeira soltou um gritinho. — Oh… com certeza! — exclamou, esganiçadamente. — É lá em cima. Lá bem em cima. Suba! Apontou-lhe a direção e Mr. Button, alagado por uma transpiração fria, virou-se, cambaleante, e começou a subir para o segundo andar. No átrio superior dirigiu-se a outra enfermeira que se aproximou dele com uma bacia na mão. — Sou Mr. Button — articulou ele, a custo. — Desejo ver a minha… Catrapus! A bacia caiu ruidosamente e rolou na direção da escada. Catrapus! Catrapus! Iniciou uma descida metódica, como se partilhasse o terror geral que aquele cavalheiro provocava. — Quero ver o meu filho! — insistiu Mr. Button, à beira do colapso. Catrapus! A bacia chegara ao andar de baixo. A enfermeira dominou-se e lançou a Mr. Button um olhar de profundo desprezo.

— Pois não, Mr. Button — concordou, em voz abafada. — Pois não! Mas se soubesse em que estado pôs a todos nós, esta manhã! Absolutamente escandaloso! O hospital jamais terá uma sombra de reputação depois… — Apresse-se! — gritou ele, roucamente. — Não posso suportar isto! — Nesse caso, venha por aqui, Mr. Button. Ele arrastou-se atrás dela. Ao fundo de um comprido corredor chegaram a um quarto de onde saía uma variedade de gritos — um quarto que, na verdade, viria a ser conhecido como o «quarto da gritaria». Entraram. Ao longo das paredes encontrava-se meia dúzia de berços de balanço, de esmalte branco, cada um com uma etiqueta atada à cabeceira. — Bem — perguntou Mr. Button, ofegante —, qual é o meu? — Está ali — respondeu a enfermeira. Os olhos de Mr. Button seguiram o dedo estendido, e eis o que viu: embrulhado num volumoso cobertor branco, e parcialmente entalado num dos berços, estava um velho que aparentava cerca de setenta anos de idade. Tinha o cabelo ralo quase branco e pingava-lhe do queixo uma comprida barba cor de fumo que se agitava absurdamente, para trás e para diante, ao sabor da brisa que entrava pela janela. Olhou para cima, para Mr. Button, com uns olhos turvos e sem vida dos quais espreitava uma pergunta intrigada.

— Estarei doido? — berrou Mr. Button, cujo terror se transformara em fúria. — Isto é alguma horrível brincadeira de hospital? — A nós não parece brincadeira nenhuma — respondeu, em tom grave, a enfermeira. — E não sei se o senhor é louco ou não… mas este é, sem sombra de dúvida, o seu filho. O suor frio duplicou na testa de Mr. Button. Fechou os olhos e depois abriu-os e voltou a olhar. Não havia engano algum: estava olhando para um homem de setenta anos… um bebê de setenta anos cujos pés pendiam dos lados do berço em que repousava. O velho olhou placidamente de um para o outro, durante um momento, e, de súbito, perguntou numa voz esganiçada e senil: — É o meu pai? Mr. Button e a enfermeira estremeceram violentamente. — Porque, se é — continuou o velho, ranzinza —, quero que me tire deste lugar… ou, pelo menos, que lhes diga para pôr uma cadeira de balanço confortável aqui. — De onde demônio você veio? Quem é? — explodiu Mr. Button, exasperado. — Não sei lhe dizer exatamente quem sou — respondeu a voz esganiçada e rabugenta — porque nasci há poucas horas apenas… mas o meu sobrenome é, sem dúvida, Button. — Está mentindo! É um impostor! O velho voltou-se, fatigado, para a enfermeira.

— Bonita maneira de dar as boas-vindas a um recém-nascido — queixou-se, em voz fraca. — Por que não lhe diz que está enganado? — Está enganado, Mr. Button — afirmou a enfermeira, com firmeza. — Este é o seu filho e terá de se resignar com isso. Vamos pedir-lhe que o leve consigo para casa o mais brevemente possível… ainda hoje. — Para casa? — repetiu Mr. Button, incrédulo. — Sim, nós não podemos ficar com ele aqui. Não podemos mesmo, compreende? — O que muito me agrada — guinchou o velho. — É um belo lugar para um jovem de gostos tranqüilos. Com toda esta gritaria e todos estes berros não tenho conseguido pregar os olhos. Pedi qualquer coisa para comer — a sua voz adquiriu um tom esganiçado de protesto — e trouxeram-me uma mamadeira de leite! Mr. Button deixou-se cair numa cadeira ao lado do filho e ocultou o rosto com as mãos. — Valha-me Deus! — murmurou, horrorizado. — O que dirão as pessoas? O que devo fazer? — Tem de levá-lo para casa — insistiu a enfermeira. — Imediatamente! Uma imagem grotesca surgiu, com terrível clareza, diante dos olhos do homem torturado, uma imagem de si mesmo a caminhar pelas ruas cheias de gente da cidade com aquela pavorosa aparição a andar silenciosamente ao seu lado. «Não posso. Não posso», gemeu.

O que diria às pessoas que parassem para lhe falar? Teria de apresentar este… aquele septuagenário: «Este é o meu filho, nasceu esta manhã, cedo.» Depois o velho apertaria o cobertor em volta do corpo e seguiriam o seu caminho, passando pelas lojas movimentadas, pelo mercado de escravos — durante um sombrio momento, Mr. Button desejou veementemente que o filho fosse preto —, passando pelas casas luxuosas do bairro residencial, passando pelo lar dos velhos… — Então! Controle-se! — ordenou a enfermeira. — Ouça — avisou, de súbito, o velho —, se pensa que vou a pé para casa embrulhado neste cobertor, está redondamente enganada. — Os bebês sempre usam cobertores. Com uma risadinha maliciosa, o velho levantou um pequeno cueiro branco. — Olhem! — exclamou a voz de cana rachada. — Isto é o que tinham para mim. — Os bebês sempre usam isso — sentenciou a enfermeira, presumidamente. — Pois bem — respondeu o velho —, este bebê não vai usar nada dentro de cerca de dois minutos. O cobertor dá comichão. Podiam ter me dado, ao menos, um lençol. — Não o tire! Não o tire! — apressou-se Mr. Button a dizer. Depois voltou-se para a enfermeira e perguntou: — O que é que eu faço?

— Vá à baixada e compre algumas roupas para o seu filho. A voz do rebento de Mr. Button seguiu-o pelo corredor afora: — E uma bengala, pai. Preciso de uma bengala. Mr. Button bateu brutalmente com a porta de saída…

II

— Bons dias — disse Mr. Button, nervosamente, ao empregado da Chesapeake Dry Goods Company. — Preciso comprar roupas para o meu filho. — Que idade tem o seu filho? — Cerca de seis horas — respondeu Mr. Button, sem a necessária reflexão. — A seção de artigos para bebês fica nos fundos. — Bem, não creio… não tenho certeza de que é isso que quero. É que… trata-se de um bebê invulgarmente grande. Excepcionalmente… hum… grande. — Eles têm os tamanhos maiores para bebês. — Onde fica a seção para meninos? — perguntou Mr. Button, mudando desesperadamente de rumo. Tinha a sensação de que o empregado farejaria, com certeza, o seu vergonhoso segredo. — Aqui mesmo. — Bem… — hesitou. Repugnava-lhe a idéia de vestir no filho roupas de homem. Se ao menos conseguisse encontrar um traje infantil muito grande poderia cortar-lhe aquela comprida e horrorosa barba, pintar-lhe o cabelo branco de castanho e ocultar, assim, o pior e manter algum do seu amorpróprio — para não falar no seu lugar na sociedade de Baltimore. Mas uma inspeção desesperada na seção para meninos revelou não existirem trajes que servissem ao recém-nascido Button.

Pôs a culpa na loja, evidentemente — em casos assim, culpa-se a loja. — Que idade disse que o seu rapaz tem? — perguntou curiosamente o empregado. — Tem… dezesseis. — Oh, queira perdoar. Pensei que tinha dito seis horas. Encontrará a seção para jovens na coxia seguinte. Mr. Button virou-se desanimadamente. Depois parou, recuperou o ânimo e estendeu o dedo para um manequim vestido que se encontrava na vitrine. — Ali está! — exclamou. — Levo aquele traje, o que o manequim está vestindo. O empregado olhou fixamente. — Mas — protestou — aquele não é um traje para criança. Quero dizer, poderá ser, mas para usar como traje de fantasia. O senhor mesmo poderia usá-lo! — Embrulhe-o — insistiu nervosamente o freguês. — É aquele que eu quero. O estupefato empregado obedeceu. De novo no hospital, Mr. Button entrou no berçário e quase atirou o embrulho ao filho. — Aqui estão as suas roupas — rosnou. O velho tirou o barbante do embrulho e observou o conteúdo com um olhar intrigado. — Parecem um pouco esquisitas para mim — queixou-se. — Não quero fazer papel de macaco…

— Já fez de mim um macaco! — explodiu Mr. Button, furiosamente. — Não se preocupe com o quanto parece esquisito. Vista-as… ou eu… ou eu te desanco. — Engoliu com dificuldade depois de dizer a última palavra, mas sentiu, apesar disso, que dissera as palavras adequadas. — Está bem, pai. — Este assentimento era uma simulação grotesca de respeito filial. — Já viveu mais tempo do que eu e, por isso, sabe mais do que eu. Farei como quer. Como acontecera antes, o som da palavra «pai» fez Mr. Button estremecer violentamente. — E apresse-se. — Estou me apressando, pai. Quando o filho acabou de se vestir, Mr. Button olhou para ele, deprimido. O vestuário constava de meias de bolinhas, calças cor-de-rosa e uma camisa com cinto e uma larga gola branca. Sobre esta agitava-se uma comprida barba esbranquiçada que descia quase até à cintura. O efeito não era nada bom. — Espere! Mr. Button empunhou uma tesoura hospitalar e, com três tesouradas rápidas, amputou uma grande extensão da barba. Mas, apesar dessa melhoria, o conjunto ficou aquém da perfeição. O restolho esparso do cabelo que restara, os olhos lacrimosos e os dentes velhos e amarelos pareciam destoar peculiarmente do aspecto vistoso do traje. No entanto, Mr. Button manteve-se inexorável e estendeu a mão:

— Anda, vamos! — disse, firmemente. O filho deu-lhe, confiante, a mão. — Como vai me chamar, pai? — perguntou em voz trêmula, enquanto saíam do berçário. — Apenas por «bebê», durante algum tempo? Até se lembrar de um nome melhor? Mr. Button soltou um grunhido. — Não sei — respondeu, irritado. — Acho que vamos te chamar de Matusalém.

III

Mesmo depois de lhe terem cortado o cabelo muito curto e, em seguida, o terem pintado de um preto disperso e pouco natural, de lhe terem barbeado o rosto tão rente que até cintilava e de lhe terem vestido roupas de rapazinho, feitas sob medida por um alfaiate espantado, foi impossível a Mr. Button ignorar o fato de o filho ser uma fraca desculpa como primeiro bebê da família. Apesar da corcova da idade, Benjamin Button — pois era assim que o tratavam em vez de, pelo apropriado, mas detestável, nome de Matusalém — tinha um metro e setenta de altura. O vestuário não ocultava isso, do mesmo modo que o aparar e o tingir das sobrancelhas não disfarçavam o fato de, por baixo delas, os seus olhos estarem baços, lacrimosos e cansados. Por isso, a ama que fora contratada de antemão foi-se embora após um único olhar e num estado de grande indignação. Mas Mr. Button persistiu no seu inabalável propósito. Benjamin era um bebê e continuaria a ser um bebê. A princípio, declarou que, se não gostava de leite morno, continuaria sem comer nada, mas por fim deixou-se convencer e, optando pelo meio termo, permitiu que o filho comesse pão com manteiga e, até, papas de aveia. Um dia levou para casa uma roca e, ao dá-la a Benjamin, impôs-lhe, clara e firmemente, que «brincasse com ela». O velho aceitou-a com ar enfastiado e ouviam-no sacudi-la obediente e intervaladamente ao longo do dia.

Não restavam, porém, dúvidas de que a roca o aborrecia e, quando estava sozinho, encontrava outros divertimentos mais apaziguadores. Por exemplo, um dia Mr. Button descobriu que, ao longo da semana anterior, fumara mais charutos do que nunca — fenômeno que foi explicado poucos dias depois quando, ao entrar inesperadamente no quarto do bebê, o encontrou envolto numa tênue névoa azulada e Benjamin tentando, com ar culpado, esconder a bituca de um havano escuro. É claro que isso justificava uma forte surra, mas Mr. Button descobriu que não era capaz de dá-la. Limitou-se a adverti-lo de que «aquilo tolheria o seu desenvolvimento». Apesar disso, persistiu na sua atitude. Levava para casa soldadinhos de chumbo, comboios de brincar, grandes e simpáticos animais feitos de algodão e, para fortalecer a ilusão que estava criando — pelo menos para si mesmo —, perguntou veementemente ao empregado da loja de brinquedos se «havia o risco de a tinta se soltar do pato cor-derosa se o bebê o metesse na boca». Mas, não obstante todos os seus esforços paternais, Benjamin recusava interessar-se pelos brinquedos. Descia sorrateiramente a escada dos fundos e voltava para o quarto de bebê com um volume da Enciclopédia Britânica sobre o qual se debruçava uma tarde inteira, enquanto as suas vacas de pano e a sua Arca de Noé ficavam esquecidas no chão. De pouco valiam

os esforços de Mr. Button contra semelhante teimosia. A princípio, a sensação que o caso provocou em Baltimore foi prodigiosa. Não é possível determinar o que semelhante revés teria custado, socialmente, aos Button e aos seus familiares porque o deflagrar da Guerra Civil desviou a atenção da cidade para outras coisas. Algumas pessoas inabalavelmente corteses espremiam os miolos em busca de elogios para fazer aos pais — e, por fim, descobriram o engenhoso expediente de declarar que o bebê se parecia com o avô, fato que, em virtude do estado de decadência padrão de todos os homens de setenta anos, não podia ser negado. Mr. e Mrs. Roger Button não gostavam e o avô de Benjamin sentia-se furiosamente insultado. Quando saiu do hospital, Benjamin aceitou a vida tal como a encontrou. Alguns rapazinhos foram visitá-lo e ele passou uma tarde atormentado, com as articulações emperradas, tentando se interessar por piões e bolinhas de gude — conseguiu até, inteiramente por acaso, quebrar o vidro da janela de uma cozinha com uma pedra disparada por um estilingue, proeza que deliciou, secretamente, o seu pai. Daí em diante, Benjamin foi capaz de quebrar qualquer coisa todos os dias, mas fazia-o apenas por ser isso que esperavam dele e por ser prestativo por natureza. Quando o antagonismo inicial do avô desapareceu, Benjamin e esse cavalheiro passaram a encontrar enorme prazer na companhia mútua.

Esses dois, tão distantes um do outro em idade e experiência, sentavam-se juntos horas a fio e, como velhos cupinchas, discutiam com incansável monotonia as lentas ocorrências quotidianas. Benjamin sentia-se mais à vontade na presença do avô do que na dos pais — estes pareciam sempre um tanto quanto temerosos dele e, apesar da autoridade ditatorial que exerciam sobre o filho, tratavam-no com freqüência por «Senhor». Ele sentia-se tão intrigado como qualquer outra pessoa com a idade aparentemente avançada do seu corpo e do seu cérebro ao nascer. Leu a esse respeito no jornal médico, mas descobriu que nunca antes fora noticiado caso algum como o seu. Por insistência do pai fazia um esforço sincero para brincar com outros rapazes e participava freqüentemente nos jogos menos violentos — o futebol abalava-o demais e ele temia que, se sofresse uma fratura, os seus velhos ossos recusassem a unir-se de novo. Quando tinha cinco anos mandaram-no para o jardim da infância, onde foi iniciado na arte de colar papel verde sobre papel cor de laranja, desenhar mapas coloridos e fazer infindáveis colares de cartolina. Tinha tendência para cochilar e adormecer no meio dessas tarefas, hábito que, simultaneamente, irritava e assustava a sua jovem professora. Para alívio de Benjamin, ela queixou-se aos seus pais, que o retiraram da escola. Os Roger Button disseram aos amigos que pensavam que o filho era novo demais.

Quando completou doze anos, os pais já tinham se habituado a ele. Na verdade, a força do hábito é tão forte que já não achavam o filho diferente de qualquer outra criança — a não ser quando alguma curiosa anomalia lhes recordava esse fato. Mas um dia, poucas semanas depois de ter feito doze anos, quando se via no espelho, Benjamin fez, ou pensou que fez, uma espantosa descoberta. Estariam os olhos a enganá-lo ou o seu cabelo passara, nos doze anos de sua vida, de branco para cinzaferro sob a pintura encobridora? Estaria o labirinto de rugas do seu rosto a tornar-se menos pronunciado? Estaria a sua pele mais saudável e firme e, até, com um toque de avermelhada cor invernal? Não saberia dizer. Sabia, porém, que já não estava corcovado e que o seu estado físico melhorara desde os primeiros dias de sua vida. «Será possível?», pensou, ou melhor, quase não se atreveu a pensar. Foi falar com o pai. — Sou crescido — anunciou, com determinação. — Quero usar calças compridas. O pai hesitou. — Bem — disse, por fim —, não sei. Catorze anos é a idade para vestir calças compridas… e você só tem doze. — Mas tem que concordar — protestou Benjamin — que sou grande para a minha idade. O pai olhou-o com um ar de ilusória especulação. — Oh, não estou muito certo disso. Eu era do seu tamanho quando tinha doze anos.

Não era verdade: fazia tudo parte do pacto silencioso que Roger Button fizera consigo próprio para acreditar na normalidade do filho. Por fim, chegaram a um acordo: Benjamin continuaria a pintar o cabelo. Tentaria de novo, e com mais empenho, brincar com rapazes da sua idade. Não usaria óculos nem andaria de bengala na rua. Em troca dessas concessões era-lhe permitido o seu primeiro traje de calças compridas…

IV

Tenciono dizer pouco a respeito da vida de Benjamin Button entre os seus doze e os seus vinte e um anos. Basta registrar que foram anos de normal nãocrescimento. Quando tinha dezoito anos Benjamin andava ereto como um homem de cinqüenta, tinha mais cabelo e de um tom cinzento-escuro, os seus passos eram firmes e a sua voz perdera o tom de cana rachada e descera para um barítono saudável. Por isso, o pai mandou-o para o Connecticut a fim de fazer exames de admissão no Yale College. Benjamin foi aprovado nos exames e tornou-se membro da turma dos calouros. No terceiro dia após a matrícula recebeu uma notificação de Mr. Hart, o escrivão da faculdade, para se apresentar no seu gabinete a fim de elaborar o seu horário. Benjamin olhou para o espelho e achou que o seu cabelo precisava de uma nova aplicação de tinta castanha, mas uma procura ansiosa na gaveta da escrivaninha revelou que o frasco da tinta para o cabelo não se encontrava lá. Lembrouse, então: gastara o resto no dia anterior e jogara o frasco fora. Encontrava-se perante um dilema. Tinha que comparecer no gabinete do escrivão dali a cinco minutos. A isso não podia esquivar-se: tinha que ir tal qual se encontrava. E foi. — Bom dia — disse o escrivão cortesmente. — Vem informar-se a respeito do seu filho.

— Bem, na verdade, chamo-me Button… — começou Benjamin, mas Mr. Hart não o deixou acabar. — Tenho muito prazer em conhecê-lo, Mr. Button. Estou à espera do seu filho, de um momento para o outro. — Sou eu! — explodiu Benjamin. — Sou um calouro. — O quê?! — Sou um calouro. — Está, com certeza, brincando. — De modo algum. O escrivão franziu a testa e olhou para um cartão que tinha à sua frente. — Como é possível, se Mr. Benjamin Button está aqui registrado como tendo dezoito anos? — É essa a minha idade — afirmou Benjamin, corando ligeiramente. O escrivão olhou-o, enfadado. — Não espera, certamente, que eu acredite nisso, Mr. Button. Benjamin sorriu, cansado. — Tenho dezoito anos — repetiu. O escrivão apontou, carrancudo, para a porta. — Saia! — ordenou. — Saia da universidade e saia da cidade. É um louco perigoso. — Tenho dezoito anos. Mr. Hart abriu a porta. — O atrevimento! — gritou. — Um homem da sua idade tentando entrar aqui como calouro.

Com que então, dezoito anos? Pois bem, dou-lhe dezoito minutos para sair da cidade. Benjamin Button saiu do gabinete com dignidade e meia dúzia de estudantes que esperavam no átrio seguiram-no curiosamente com o olhar. Quando se afastara um pouco, Benjamin voltou-se, encarou o enraivecido escrivão, que continuava parado à entrada da porta, e repetiu, com voz firme: — Tenho dezoito anos. Seguido por um coro de risadas trocistas do grupo de estudantes, Benjamin pôs-se a caminho. Mas não estava destinado a safar-se com tanta facilidade. Na sua caminhada melancólica para a estação ferroviária percebeu que estava sendo seguido por um grupo, depois por um cortejo e, finalmente, por uma densa massa de estudantes. Correra o boato de que um louco transpusera a entrada da sala de exames de admissão em Yale e tentara impingir a treta de que era um jovem de dezoito anos. Alastrou pela universidade uma sanha de agitação. Homens descabelados saíam correndo das salas de aula, a equipe de futebol abandonou o treino e juntou-se à turba, as mulheres dos professores, com chapéus de lado e anquinhas fora do lugar, corriam aos gritos atrás do cortejo, do qual emanava uma sucessão contínua de comentários que tinham como alvo as delicadas susceptibilidades de Benjamin Button. — Deve ser o Judeu Errante! — Devia ir para a escola primária, com a sua idade! — Olhem para o menino-prodígio!

— Achava que isto era o lar dos velhos! — Vai para Harvard! Benjamin estugou o passo e, pouco depois, começou a correr. Iria para Harvard e, então, eles se arrependeriam dos seus agressivos sarcasmos! Seguro dentro do trem para Baltimore, pôs a cabeça fora da janela e gritou: — Vão se arrepender-se disso! — Ah! Ah! Ah! — riram-se os estudantes. — Ah! Ah! Ah! Foi o maior erro que o Yale College jamais cometeu…

V

Em 1880 Benjamin Button tinha vinte anos e assinalou o seu aniversário indo trabalhar para o pai na Roger Button & Co., Grossista de Ferragens. Nesse mesmo ano começou a «sair socialmente» — ou seja, o pai insistiu em levá-lo a vários bailes em voga. Roger Button tinha, então, cinqüenta anos e ele e o filho faziam cada vez mais companhia um ao outro — na verdade, desde que Benjamin deixara de pintar o cabelo (que ainda estava grisalho) pareciam ter mais ou menos a mesma idade e poderiam passar por irmãos. Uma noite, em Agosto, meteram-se na carruagem, ambos vestidos a rigor, e seguiram para um baile na casa de campo de Shevlin, que ficava logo à saída de Baltimore. Estava uma noite maravilhosa. A lua cheia cobria a estrada com a cor baça da platina e flores de colheita tardia exalavam para o ar parado aromas semelhantes a risadas baixas, que mal se ouviam. O campo aberto, atapetado dezenas de metros em redor por trigo luminoso, estava tão transluzente como durante o dia. Era quase impossível não ser afetado pela pura beleza do céu — quase. — Há um grande futuro no negócio dos tecidos — dizia Roger Button. Não era um homem espiritual e o seu sentido de estética não ia além do rudimentar.

«Tipos velhos como eu não aprendem novos truques — observou, em tom profundo. — São vocês, jovens com energia e vitalidade, que têm um grande futuro pela frente. Muito acima, na estrada, as luzes da casa de campo dos Shevlin surgiram à vista e, pouco depois, ouviu-se um ruído suspirante que dir-se-ia rastejar persistentemente direito a eles — poderia ter sido o belo lamento de violinos ou o roçar do trigo prateado debaixo da Lua. Pararam atrás de um belo carro puxado por um cavalo e cujos passageiros estavam apeando à porta. Saiu uma senhora, depois um cavalheiro idoso e depois uma jovem senhora bela como o pecado. Benjamin estremeceu. Uma mudança quase química pareceu dissolver e recompor os próprios elementos do seu corpo. Percorreu-o um calafrio, subiu-lhe o sangue às faces e à testa e sentiu um latejar constante nos ouvidos. Era o primeiro amor. A jovem era esbelta e frágil, com cabelo cor de cinza ao luar e cor de mel sob os crepitantes candeeiros a gás do alpendre. Cobria-lhe os ombros uma mantilha espanhola de um suavíssimo amarelo salpicado de borboletas pretas, e os seus pés eram botões cintilantes na fímbria do vestido com anquinhas. — Aquela — disse Roger Button, inclinando-se para o filho — é Hildegarde Moncrief, filha do general Moncrief. Benjamin acenou friamente com a cabeça.

— Bonita criaturinha — comentou, com indiferença. Mas, quando o criado negro se afastou com a carruagem, acrescentou: — Podia apresentarme, pai. Aproximaram-se de um grupo do qual Miss Moncrief era o centro. Educada segundo a antiga tradição, fez uma mesura acentuada. Sim, concedialhe uma dança. Ele agradeceu e afastou-se — estonteado. O compasso de espera, até que chegasse a sua vez, prolongou-se interminavelmente. Benjamin manteve-se junto da parede, silencioso e impenetrável, observando com olhos mortíferos os jovens de Baltimore que se moviam ao redor de Hildegarde Moncrief e cujos rostos revelavam uma admiração apaixonada. Como lhe pareciam detestáveis e insuportavelmente rosados! As suas costeletas castanhas encaracoladas despertavam nele um sentimento equivalente a indigestão. Mas quando chegou a sua vez e deslizou com ela pelo chão mutável ao ritmo da música da mais recente valsa parisiense, os seus ciúmes e ansiedades dissolveram-se e escorreram dele como um manto de neve. Cego pelo arrebatamento, sentiu que a vida estava apenas começando. — O senhor e o seu irmão chegaram aqui ao mesmo tempo que nós, não chegaram? — perguntou Hildegarde, olhando-o com olhos que pareciam brilhante esmalte azul. Benjamin hesitou. Se ela o tomava pelo irmão do seu pai seria adequado esclarecê-la? Recordou-se da sua experiência em Yale e decidiu não fazê-lo.

Seria indelicado contradizer uma dama; seria criminoso macular aquela requintada ocasião com a história grotesca de sua origem. Mais tarde, talvez. Por isso, acenou com a cabeça, sorriu, escutou e sentiu-se feliz. — Gosto de homens da sua idade — disselhe Hildegarde. — Os rapazes novos são tão patetas! Dizem-me quanto champanhe beberam na faculdade e quanto dinheiro perderam em jogos de cartas. Os homens da sua idade sabem apreciar as mulheres. Benjamin sentiu-se à beira de uma declaração, mas, com um esforço, sufocou o impulso. — Tem, precisamente, a idade romântica — continuou ela —, cinqüenta anos. Os vinte e cinco são experientes demais; os trinta têm tendência para a palidez devido ao excesso de trabalho; quarenta é a idade das longas histórias que demoram um charuto inteiro a serem contadas; os sessenta são… oh, os sessenta estão perto demais dos setenta, mas os cinqüenta são a idade madura. Adoro os cinqüenta. Cinqüenta anos pareceram a Benjamin uma idade gloriosa. Ansiou apaixonadamente por ter cinqüenta anos. — Eu sempre disse — continuou Hildegarde — que preferiria casar com um homem de cinqüenta anos que cuidasse de mim a casar com um homem de trinta e ter que cuidar dele. O resto da noite pareceu a Benjamin banhado por uma bruma cor de mel. Hildegarde concedeu-lhe mais duas danças e descobriram que estavam maravilhosamente de acordo em todas as questões atuais.

Ela iria passear de carro com ele no domingo seguinte e, então, aprofundariam essas questões. De regresso para casa na carruagem, pouco antes do romper da alvorada, quando as primeiras abelhas zumbiam e a desfalecente Lua bruxuleava no orvalho fresco, Benjamin teve a vaga noção de que o seu pai estava falando de ferragens por atacado. — …E o que pensa que deveria merecer a nossa maior atenção, depois dos martelos e dos pregos? — perguntava o Button sênior. — O amor — respondeu Benjamin, distraidamente. — Tambores? — admirou-se Roger Button. — Mas eu já resolvi a questão dos tambores. Benjamin fitou-o com olhos pasmos no preciso momento em que uma réstia de luz se abria subitamente no céu, do lado oriental, e um papafigos piava agudamente nas árvores trêmulas…

VI

Quando, passados seis meses, o compromisso de Miss Hildegarde Moncrief para com Mr. Benjamin Button foi dado a conhecer (digo «dado a conhecer» porque o general Moncrief declarou que preferia cair sobre a sua espada a anunciá-lo), a excitação atingiu um clímax febril no seio da sociedade de Baltimore. A história quase esquecida do nascimento de Benjamin foi recordada e espalhada aos sete ventos do escândalo de forma ao mesmo tempo pícara e incrível. Disse-se que Benjamin Button era, realmente, o pai de Roger Button, que era o seu irmão que estivera quarenta anos preso, que era John Wilkes Booth disfarçado e, finalmente, que tinha dois pequenos chifres cônicos brotando da cabeça. Os suplementos de domingo dos jornais nova-iorquinos brincaram com o caso, usando esboços fascinantes que mostravam a cabeça de Benjamin Button presa a um peixe, a uma serpente e, por fim, a um corpo de sólido latão. Tornou-se jornalisticamente conhecido como o Homem Mistério de Maryland. Mas, como geralmente acontece, a verdadeira história teve uma circulação muito pequena. No entanto, todos concordavam com o general Moncrief, segundo o qual era «criminoso» uma jovem encantadora, que podia ter casado com qualquer janota de Baltimore, lançar-se assim nos braços de um homem que tinha, com certeza, cinqüenta anos. Em vão Mr. Roger Button publicou a certidão de nascimento do filho, em letras gordas, no Blaze

de Baltimore. Ninguém acreditou. Bastava olhar para Benjamin e ver. Da parte das duas pessoas mais interessadas não houve a mínima hesitação. Tantas das teorias acerca do seu noivo eram falsas que Hildegarde se recusou obstinadamente a acreditar, até mesmo na verdadeira. Em vão o general Moncrief chamou a atenção da filha para o elevado grau de mortalidade entre os homens de cinqüenta anos ou pelo menos, entre os homens que pareciam tê-los; em vão lhe falou da instabilidade do negócio grossista de ferragens. Hildegarde escolhera casar pela maturidade — e casou!

VII

Num ponto, pelo menos, os amigos de Hildegarde Moncrief estavam enganados: o negócio grossista de ferragens. Nos quinze anos decorridos entre o casamento de Benjamin Button, em 1880, e a aposentadoria de seu pai, em 1895, a fortuna da família duplicou — e isso deveu-se, em grande parte, ao sócio mais jovem da firma. Escusado seria dizer que Baltimore acabou por acolher o casal no seu seio. Até o velho general Moncrief se reconciliou com o genro quando Benjamin lhe deu o dinheiro necessário para publicar a sua História da Guerra Civil em vinte volumes, que fora recusada por nove proeminentes editores. Esses quinze anos trouxeram muitas mudanças ao próprio Benjamin. Tinha a impressão de que o sangue lhe corria nas veias com novo vigor. Começou a ser um prazer levantar-se de manhã, caminhar com passo vigoroso pela rua movimentada e cheia de sol, trabalhar incansavelmente com os seus embarques de martelos e os seus carregamentos de pregos. Foi em 1890 que efetuou a sua famosa jogada comercial: apresentou a sugestão de que todos os pregos usados para pregar os caixotes em que os pregos são embarcados constituem propriedade do expedidor, proposta que se tornou um estatuto, foi aprovada pelo Juiz Supremo Fossile e poupou a Roger Button & Company, Grossista de Ferragens, mais de seiscentos pregos por ano.

Além disso, Benjamin descobriu que estava se sentindo cada vez mais atraído pelo lado alegre da vida. Foi característico do seu crescente entusiasmo pelo prazer o fato de ter sido o primeiro homem de Baltimore a possuir e conduzir um automóvel. Ao encontrá-lo na rua, os seus contemporâneos fitavam invejosamente a sua imagem de saúde e vitalidade. «Parece tornar-se mais novo de dia para dia», comentavam. E se, a princípio, o velho Roger Button, agora com sessenta e cinco anos, pecara por não dar ao filho as devidas boas-vindas, reparava agora, finalmente, essa falta tratando-o com o que equivalia a adulação. Chegamos a um assunto desagradável que convém ultrapassar o mais depressa possível. Havia apenas uma coisa que preocupava Benjamin Button: a esposa deixara de atraí-lo. Nessa altura, Hildegarde era uma mulher de trinta e cinco anos, com um filho, Roscoe, de catorze. Nos primeiros tempos de casamento Benjamin adorara-a. Mas, com o passar dos anos, o seu cabelo cor de mel tornara-se um castanho insípido, o azulesmalte dos seus olhos adquirira o aspecto de louça de barro barata e, além disso, e sobretudo, ela tornara-se acomodada demais na sua maneira de ser, plácida demais, satisfeita demais, débil demais nos seus arroubos e sóbria demais no seu gosto. Quando noiva fora ela quem «arrastara» Benjamin para bailes e jantares, mas agora a situação invertera-se. Saía socialmente com ele, mas sem entusiasmo, devorada já por aquela eterna inércia que, um dia, começa a viver com cada um de nós e permanece conosco até o fim. O descontentamento de Benjamin foi se tornando cada vez mais forte.

No início da Guerra Hispano-Americana, em 1898, a sua casa tivera para ele tão pouco encanto que resolvera alistar-se no exército. Graças à influência do seu negócio, obteve uma patente de capitão e revelou-se tão adaptável ao trabalho que o passaram a major e, por fim, a tenente-coronel, bem a tempo de participar na célebre arrancada pela San Juan Hill acima. Ficou ligeiramente ferido e recebeu uma medalha. Benjamin afeiçoara-se tanto à atividade e à excitação da vida no exército que lamentou abandoná-la, mas o seu negócio requeria atenção e, por isso, ele renunciou à sua comissão de serviço e voltou para casa. Foi recebido na estação por uma charanga e escoltado até sua casa.

VIII

Acenando com uma grande bandeira de seda, Hildegarde saudou-o no alpendre e ele, ao mesmo tempo que a beijava, sentiu, com um baque no coração, que aqueles três anos tinham cobrado o seu tributo. Ela era agora uma mulher de quarenta anos, com uma leve e tímida linha de cabelos grisalhos na cabeça. Tal visão deprimiu-o. No andar de cima, no quarto, viu a sua própria imagem refletida no espelho familiar. Aproximou-se mais e examinou, ansioso, o próprio rosto, comparando-o, decorrido um momento, com uma fotografia sua, fardado, tirada imediatamente antes da guerra. — Santo Deus! — exclamou, em voz alta. O processo continuava. Não restava dúvida alguma: parecia agora um homem de trinta anos. Em vez de encantado, sentiu-se inquieto: ele estava se tornando mais novo. Até então esperara que, uma vez atingida uma idade física equivalente à sua idade cronológica, o grotesco fenômeno que assinalara o seu nascimento deixaria de funcionar. Estremeceu, arrepiado. O seu destino parecia-lhe assustador, incrível. Quando desceu, Hildegarde esperava-o. Parecia irritada e ele perguntou-se se teria descoberto, finalmente, que havia alguma coisa errada. Foi num esforço para aliviar a tensão entre ambos que tocou no assunto, ao jantar, de um modo que considerou delicado.

— Bem — comentou, em tom ligeiro —, todo mundo diz que pareço mais novo do que nunca. Hildegarde fitou-o com desdém. E fungou. — Acha que é motivo para se gabar? — Não estou me gabando — afirmou ele, muito pouco à vontade. Hildegarde fungou de novo. — Que idéia! — exclamou e, passado um momento, acrescentou: — Achava que teria dignidade suficiente para acabar com isso. — Como posso fazê-lo? — Não vou discutir contigo. Mas há uma maneira certa e uma maneira errada de fazer as coisas. Se resolveu ser diferente de todos, não creio que possa detê-lo, mas, com franqueza, não me parece uma atitude muito delicada. — Mas, Hildegarde, não posso evitá-lo. — Pode, sim. É, pura e simplesmente, teimoso. Pensa que não quer ser como qualquer outra pessoa. Sempre foi e sempre será assim. Mas pense no que aconteceria se todo mundo visse as coisas como você vê. Como seria o mundo? Como se tratava de um argumento tolo e irrespondível, Benjamin não respondeu. E, a partir desse momento, abriu-se, e começou a alargar, um abismo entre ambos. Perguntou, até, a si mesmo que possível fascínio ela exercera sobre ele. Como se o abismo não chegasse, descobriu, à medida que o novo século avançava, que a sua sede de divertimento era cada vez maior. Não havia uma festa em Baltimore, fosse qual fosse a sua natureza, em que não estivesse presente, dançando com as

mais bonitas das jovens mulheres casadas, conversando com as mais populares das debutantes e achando a sua companhia encantadora, enquanto a mulher, uma velhota agourenta, se sentava entre os dois-de-paus, ora numa atitude de altiva desaprovação, ora seguindo os seus movimentos com olhar grave, intrigado e recriminador. «Olhem!», comentavam as pessoas. «Que pena! Um tipo jovem daquela idade ligado a uma mulher de quarenta e cinco anos. Deve ser vinte anos mais novo do que ela.» Tinham-se esquecido — como é inevitável que as pessoas se esqueçam — que na passada década de 1880 as suas mamães e os seus papais também tinham feito comentários a respeito deste mesmo desarmônico casal. A crescente infelicidade de Benjamin, em casa, era compensada pelos seus muitos novos interesses. Dedicou-se ao golfe e teve grande êxito. Tomou gosto pela dança: em 1906 era perito em «The Boston» e em 1908 foi considerado competente no «Maxime», enquanto em 1909 o seu «Castle Walk» causava inveja a todos os homens jovens da cidade. É claro que as suas atividades sociais interferiam, em certa medida, no seu negócio, mas a verdade é que trabalhara duramente no ramo de ferragens por atacado e achava que podia entregá-lo ao filho, Roscoe, recentemente licenciado pela Harvard. O certo é que, freqüentemente, ele e o filho eram confundidos um com o outro. Isso agradava a Benjamin, que não tardou a esquecer o medo insidioso que se apoderara dele no regresso da Guerra Hispano-Americana e passou a sentir um ingênuo prazer com a sua aparência. Havia apenas um senão no delicioso ungüento: detestava aparecer em público com a mulher. Hildegarde tinha quase cinqüenta anos e o aspecto dela fazia-o sentir-se absurdo…

IX

Num certo dia de Setembro de 1910 — poucos anos depois de a Roger Button & Co., Grossista de Ferragens, ter passado para as mãos do jovem Roscoe Button — um homem que aparentava vinte anos inscreveu-se como calouro na Universidade de Harvard, em Cambridge. Não caiu na asneira de anunciar que não voltaria a ver os cinqüenta anos e também não mencionou que o filho se formara na mesma instituição dez anos antes. Foi admitido e atingiu quase de imediato uma situação proeminente na turma, em parte por parecer um pouco mais velho do que os outros calouros, cuja idade média rondava os dezoito anos. Mas o seu êxito deveu-se em grande medida ao fato de, no jogo de futebol com a Yale, ter jogado tão brilhantemente, com tanto ímpeto e uma fúria tão intensa e implacável que marcara sete touchdowns e catorze field goals por Harvard e fizera com que onze homens da Yale, ou seja, uma equipe inteira, fossem levados um por um do campo, todos eles inconscientes. Foi o homem mais célebre da universidade. Pode parecer estranho, mas no seu terceiro ano — ou júnior — dificilmente conseguiu «chegar» à equipe. Os treinadores diziam que ele perdera peso e parecia, até, aos mais observadores, que não estava tão alto como antes. Já não marcava touchdowns — na realidade, foi mantido na equipe prin-

cipalmente na esperança de que a sua enorme reputação causasse terror e desorganização à equipe da Yale. No seu ano sênior não chegou, sequer, a fazer parte da equipe. Tornara-se tão débil e frágil que, um dia, alguns estudantes do segundo ano o tomaram por um calouro, incidente que o humilhou tremendamente. Passou a ser conhecido como uma espécie de prodígio — um sênior que, seguramente, não tinha mais de dezesseis anos — e sentiu-se muitas vezes chocado com a mundaneidade de alguns dos seus condiscípulos. Os estudos tinham-se tornado mais difíceis para ele — tinha a sensação de que eram avançados demais. Ouvira os seus condiscípulos falar da St. Midas, a famosa escola secundária onde tantos deles tinham se preparado para a universidade, e decidiu que, terminado o curso, ele próprio iria para a St. Midas onde a vida abrigada entre rapazes do seu tamanho seria mais agradável para si. Terminado o curso em 1914 regressou para casa, em Baltimore, com o diploma da Harvard na algibeira. Como Hildegarde residia agora na Itália, Benjamin foi viver com o filho, Roscoe. Mas, apesar de ter sido de modo geral bem recebido, não havia, obviamente, nenhum entusiasmo nos sentimentos de Roscoe em relação a ele — havia mesmo uma tendência perceptível, da parte do filho, para pensar que, enquanto vagueava pela casa mergulhado numa divagação adolescente, o pai atrapalhava um pouco. Roscoe era agora casado e notável na vida de Balti-

more e não queria que surgisse nenhum escândalo relacionado com a sua família. Benjamin, que deixara de ser persona grata entre os debutantes e o grupo mais jovem da nata da faculdade, deu consigo muito isolado e só, excetuando a camaradagem de três ou quatro rapazes de quinze anos do bairro. A idéia de ir para a St. Midas School era recorrente nele. — Ouça — lembrou, um dia, a Roscoe —, já lhe disse não sei quantas vezes que quero ir para a escola secundária. — Está bem, vá — respondeu Roscoe, secamente. O assunto desagradava-lhe e queria evitar uma discussão. — Não posso ir sozinho — disse Benjamin, desanimadamente. — Terá que me matricular e levar lá. — Não tenho tempo — replicou Roscoe, com brusquidão, e depois semicerrou os olhos e olhou pouco à vontade para o pai. — Na verdade — acrescentou —, seria melhor não continuar com essa idéia muito mais tempo. Seria melhor travar. Seria melhor… seria melhor… — Fez uma pausa e o seu rosto tornou-se escarlate enquanto procurava as palavras adequadas — … seria melhor dar uma volta e recomeçar no sentido inverso. Isto já foi longe demais para ser uma brincadeira. Deixou de ter graça. Você… você se comporte! Benjamin olhou-o, à beira das lágrimas. — Mais uma coisa — continuou Roscoe —, quando tivermos visitas em casa quero que me trate por «tio»… não por «Roscoe», mas por tio, compre-

endeu? Parece absurdo um rapaz de quinze anos tratar-me pelo meu nome próprio. Talvez seja melhor me tratar sempre por tio, para se habituar. Olhando severamente para o pai, Roscoe virou as costas e afastou-se…

X

Terminada esta entrevista, Benjamin subiu desalentadamente para o andar de cima e fitou-se no espelho. Não fazia a barba há três meses, mas não conseguia encontrar nada no rosto além de uma tênue penugem branca com a qual parecia desnecessário preocupar-se. Quando regressara para casa de Harvard, Roscoe abordara-o com a proposta de que devia usar óculos e costeletas de imitação coladas às faces, o que o levara a pensar, momentaneamente, que a farsa dos seus primeiros anos iria se repetir. Mas as costeletas tinham-lhe dado comichão e envergonhado. Chorou e Roscoe abrandou, relutantemente. Benjamin abriu um livro de histórias para meninos, Os Escoteiros em Bimini Bay, e começou a lê-lo. Mas dava consigo a pensar persistentemente na guerra. A América juntara-se à causa dos Aliados no mês anterior e Benjamin queria alistar-se, mas, infelizmente, os dezesseis anos eram a idade mínima e ele não parecia tão velho. De qualquer modo, a sua verdadeira idade, cinqüenta e sete anos, também o teria desqualificado. Bateram à porta e o mordomo apareceu com uma carta com um grande cabeçalho oficial ao canto endereçada a Mr. Benjamin Button. Benjamin abriu-a avidamente e leu, encantado, o que dizia. Informava-o de que muitos oficiais na reserva que tinham servido na Guerra Hispano-Americana esta-

vam sendo chamados de novo para prestar serviço com um posto mais elevado e isso o incluía como brigadeiro-general no Exército dos Estados Unidos com ordem para se apresentar imediatamente. Benjamin levantou-se de um pulo, praticamente a tremer de entusiasmo. Era aquilo que ele queria. Pegou no boné e dez minutos depois entrou numa grande alfaiataria na Charles Street e pediu, no seu hesitante tom agudo, que lhe tirassem as medidas para um uniforme. — Quer brincar de soldado, meu filho? — perguntou, indiferente, um empregado. Benjamin corou. — Olhe, não se preocupe com o que eu quero! — replicou, irritado. — Me chamo Button e moro na Mt. Vernon Place. Por isso sabe que posso pagar. — Bem — admitiu o empregado, hesitante —, se não pode, suponho que o seu pai pode. Tiraram-lhe as medidas e, uma semana depois, o seu uniforme estava pronto. Teve dificuldade em obter a adequada insígnia de general porque o empregado teimava em insistir que um bonito distintivo da I.W.C.A. ficaria igualmente bem e seria muito mais divertido para brincar. Sem dizer nada a Roscoe, saiu de casa, uma noite, e viajou de trem para Camp Mosby, na Carolina do Sul, onde iria comandar uma brigada de Infantaria. Num abafado dia de Abril aproximou-se da entrada do acampamento, pagou ao taxista que o trouxera da estação e voltou-se para a sentinela de serviço.

— Chame alguém para levar a minha bagagem! — ordenou, brusco. A sentinela olhou-o com ar de censura. — Aonde vai com essa farda de general, meu filho? Benjamin, veterano da Guerra HispanoAmericana, virou-se rapidamente para ele com os olhos a cuspir fogo, mas, infelizmente, com um tremor agudo na voz. — Ponha-se em sentido! — tentou dizer com voz de trovão. Fez uma pausa para recuperar o fôlego… e, de súbito, viu a sentinela bater os calcanhares e pôr a carabina em cena. Benjamin disfarçou um sorriso de contentamento, mas quando olhou ao seu redor o sorriso desvaneceu-se. Não fora ele que inspirara a atitude de obediência, mas, sim, um imponente coronel de artilharia que se aproximava a cavalo. — Coronel! — exclamou esganiçadamente. O coronel aproximou-se, segurou as rédeas e olhou friamente para ele com um fulgor no olhar. — É filho de quem, rapazinho? — perguntou, bondosamente. — Diabos me levem se não tardo a mostrarlhe de quem o rapazinho é filho! — replicou Benjamin, em tom feroz. — Desça desse cavalo! O coronel desatou a rir ruidosamente. — O quer, meu general? — Aqui está! — gritou Benjamin desesperadamente. — Leia isto — e estendeu o certificado ao coronel.

O coronel leu e os seus olhos pareceram querer saltar das órbitas. — Onde arranjou isto? — perguntou, ao mesmo tempo que enfiava o documento na algibeira. — Obtive-o do governo, como não tardará a descobrir! — Venha comigo — ordenou o coronel, com uma expressão peculiar. — Vamos ao quartelgeneral e conversaremos a este respeito. Venha. O coronel voltou-se e pôs o cavalo a passo na direção do quartel-general. Benjamin não podia fazer nada a não ser segui-lo com o máximo de dignidade possível — ao mesmo tempo que prometia a si mesmo uma implacável vingança. Mas essa vingança não se materializou. Dois dias depois, no entanto, seu filho Roscoe materializou-se vindo de Baltimore, encalorado e contrafeito após uma viagem apressada, e acompanhou o choroso general sem uniforme no regresso a sua casa.

XI

O primeiro filho de Roscoe Button nasceu em 1920. No entanto, durante os festejos inerentes, ninguém achou adequado mencionar que o rapazinho encardido, que aparentava cerca de dez anos e brincava pela casa com soldadinhos de chumbo e um circo em miniatura, era o próprio avô do bebê. Ninguém antipatizava com o rapazinho em cujo rosto fresco e alegre havia uma sombra, apenas uma sombra, de tristeza, mas, para Roscoe, a sua presença era uma fonte de tormento. De acordo com a gíria de sua geração, Roscoe não considerava o assunto «eficiente». Parecia-lhe que o pai, ao recusar-se a aparentar sessenta anos, não se comportara como um «macho de sangue bem vermelho» — esta era a expressão favorita de Roscoe —, mas sim de um modo curioso e perverso. Na realidade, pensar no assunto um máximo de meia hora empurrava-o para a beira da insanidade. Roscoe acreditava que os espalha-brasas deviam manter-se jovens, mas aplicar a norma em semelhante escala era… enfim, era contraproducente. E Roscoe ficou por aí. Cinco anos depois, o rapazinho de Roscoe tinha idade suficiente para brincadeiras infantis com o pequeno Benjamin sob a vigilância da mesma ama. Roscoe levou ambos para o jardim da infância no mesmo dia e Benjamin descobriu que brincar com fitas de papel colorido, fazer esteiras, correntes

e belos e curiosos desenhos era a brincadeira mais fascinante do mundo. Uma vez foi mal comportado e teve que ficar de castigo num canto — nessa altura chorou —, mas na maior parte do tempo havia horas divertidas na sala alegre, com o sol a entrar pelas janelas e a mão bondosa de Miss Bailey a pousar um momento, de vez em quando, no seu cabelo ouriçado. O filho de Roscoe passou para a primeira classe ao fim de um ano, mas Benjamin permaneceu no jardim da infância. Sentia-se muito feliz. Às vezes, quando outras crianças falavam do que fariam quando crescessem, perpassava uma sombra pelo seu pequeno rosto como se ele compreendesse, de um modo vago e infantil, que nunca partilharia aquelas coisas. Os dias fluíam monotonamente. Ele voltou, pelo terceiro ano, para o jardim da infância, mas tornara-se agora pequeno demais para compreender para que serviam as reluzentes folhas de papel. O professor falava com ele, mas, embora tentasse compreender, Benjamin não compreendia absolutamente nada. Tiraram-no do jardim da infância. A sua ama, Nana, no seu vestido engomado de algodão listrado, tornou-se o centro do minúsculo mundo dele. Nos dias luminosos passeavam no parque. Nana apontava para um grande monstro cinzento e dizia «elefante» e depois Benjamin repetia, e à noite, quando o despiam para se deitar, ele não se cansava de lhe repetir, em voz alta: «Elifante, elifante, elifante.» Às vezes Nana deixava-o saltar em cima da cama e isso

era divertido, porque, se descemos de modo exatamente certo, ressaltamos e ficamos de novo em pé, e se dizemos «Ah» durante muito tempo enquanto saltamos obtemos um agradável efeito vocal intermitente. Ele adorava tirar uma grande bengala do cabide e andar por ali batendo com ela em cadeiras e mesas e a dizer: «Luta, luta, luta.» Quando haviam pessoas presentes as senhoras idosas riam-se dele, com um riso que lembrava um cacarejo, o que lhe interessava, e as senhoras jovens tentavam beijá-lo, o que ele consentia com plácido enfado. E quando o longo dia terminava, às cinco horas, subia com Nana para o andar de cima e deixava-se alimentar, à colheradas, com papas de aveia e comidas moles. Não havia recordações penosas no seu sono infantil; não lhe acudiam lembranças dos seus arrojados anos na faculdade, dos anos esplendorosos em que fizera palpitar o coração de muitas jovens. Havia apenas os lados brancos e seguros do seu berço, Nana e um homem que o visitava de vez em quando e uma grande bola cor de laranja para a qual Nana apontava pouco antes da sua crepuscular hora de dormir e a que chamava «Sol». Quando o Sol se punha os olhos dele ficavam ensonados: não havia sonhos, não havia sonhos que o assombrassem. O passado — a carga violenta à frente dos seus homens pela San Juan Hill acima; nos primeiros anos do seu casamento trabalhava até tarde, pela penumbra estival, na movimentada cidade para a jovem Hildegarde a quem amava; os dias anteriores a isso em que se sentava fumando com o avô, pela

noite adentro, na velha casa sombria dos Button na Monroe Street —, tudo isso se desvanecera como sonhos irreais, como se nunca tivesse existido. Não se lembrava. Não se lembrava com clareza se o leite estava morno ou frio da última vez que comera nem de como os dias passavam — havia apenas o seu berço e a presença familiar de Nana. E depois esqueceu-se de tudo. Quando tinha fome gritava — mais nada. Durante as tardes e as noites respirava e havia sobre ele suaves resmungos e murmúrios que mal ouvia, odores levemente diferenciados, luz e escuridão. Depois escureceu tudo e o seu berço branco, e os rostos obscuros que pairavam sobre ele, e o aroma morno e doce do leite desvaneceram-se por completo da sua mente.

Título original: The Curious Case of Benjamin Button Autor: F. Scott Fitzgerald  – Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues, Lisboa, 2008 Composição, impressão e acabamento: Multitipo — Artes Gráficas, Lda. 1ª edição, Lisboa, Janeiro, 2009 2ª edição, Lisboa, Janeiro, 2009 3ª edição, Lisboa, Fevereiro, 2009 Depósito legal no 288 506/09

Obra digitalizada por Sandra Amaral Adaptado para o Português do Brasil por Yuna — Toca Digital
Data da digitalização: Fevereiro de 2009

O Chamado de Cthulhu

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“De tais seres ou potestades superiores pode ser concebida uma sobrevivência… uma sobrevivência de um período fantasticamente remoto onde… a consciência se manifestava, talvez, em vultos e formas desde então repelidos pela maré montante da humanidade… formas das quais apenas a poesia e a lenda captaram uma memória fugaz e as chamaram deuses, monstros, seres míticos de todos os tipos e espécies…”

Algernon Blackwood1

I. O horror de argila

A coisa mais misericordiosa do mundo, acho eu, é a incapacidade da mente humana correlacionar tudo que ela contém. Vivemos numa plácida ilha de ignorância em meio a mares tenebrosos de infinidade, e não estávamos destinados a chegar longe. As ciências, cada uma puxando para seu próprio lado, nos causaram poucos danos até agora, mas algum dia a junção das peças do conhecimento disperso descortinará visões tão terríveis da realidade e de nossa pavorosa posição dentro dela que só nos restará enlouquecer com a revelação ou fugir da iluminação mortal para a paz e a segurança de uma nova idade das trevas.

Os teosofistas imaginaram o admirável esplendor do ciclo cósmico no qual o nosso mundo e a raça humana são incidentes transitórios. Eles sugeriram estranhos remanescentes com termos que congelariam o sangue se não fossem mascarados por um suave otimismo. Mas não foi deles que me chegou o especial vislumbre de eras ancestrais proibidas que me arrepia ao lembrar e me enlouquece nos sonhos. Esse vislumbre, como todos os pavorosos vislumbres da verdade, revelou-­se de uma hora para outra com a junção acidental de peças separadas, nesse caso, uma velha notícia de jornal e as anotações de um professor já falecido. Espero que ninguém mais junte essas peças. Se eu viver, jamais ajuntarei, deliberadamente, um elo a tão odiosa cadeia, com certeza. Imagino que o professor também pretendia guardar silêncio sobre a parte que sabia, e que teria destruído suas anotações se a morte súbita não o tivesse colhido.

Meu contato com o assunto começou no inverno de 1926-27 com a morte de meu tio-avô George Gammell Angell, Professor Emérito de Línguas Semíticas na Universidade Brow, Providence, Rhode Island. O professor Angell era muitíssimo conhecido como uma autoridade em inscrições antigas e costumava ser consultado por curadores de museus importantes, de forma que muitos se lembrarão de seu falecimento, aos noventa e dois anos de idade. No meio local, o interesse foi intensificado pela obscuridade da causa da morte. O professor fora atingido quando voltava do barco de Newport, caindo de repente, segundo testemunhas, depois de receber o encontrão de um negro com ar de marinheiro que saiu de uma das vielas tenebrosas da ladeira íngreme que servia de atalho do cais até a casa do falecido na Williams Street. Os médicos não conseguiram detectar nenhuma doença visível e concluíram, depois de um debate confuso, que o fim se devera a alguma obscura lesão cardíaca provocada pela subida apressada de uma ladeira tão íngreme por um homem tão idoso. Na ocasião, não tive por que discordar dessa conclusão, mas ultimamente me sinto inclinado a estranhar… e mais do que estranhar.

Na qualidade de herdeiro e executor testamentário de meu tio-avô, pois ele morreu viúvo e sem filhos, teria de examinar seus papéis com certa meticulosidade, e para esse fim transferi todas as suas pastas e arquivos para minha moradia em Boston. Boa parte do material que eu correlacionei será no futuro publicada pela Sociedade Arqueológica Americana, mas havia uma caixa que me intrigou sobremaneira e não quis expô-la a outras vistas. Ela estava trancada e não consegui encontrar a chave até que me ocorreu olhar a argola de chaves que o professor trazia sempre no bolso. Consegui então abri-la, mas ao fazê-lo deparei-me com um obstáculo maior e ainda mais protegido, pois qual poderia ser o significado do estranho baixo-relevo de argila e os apontamentos, divagações e recortes de jornais desconexos que encontrei? Teria meu tio, em seus últimos anos, se transformado num crédulo das mais levianas imposturas? Resolvi então procurar o excêntrico escultor responsável por aquela aparente perturbação da paz de espírito de um velho.

O baixo-relevo era um retângulo tosco com menos de uma polegada de espessura e cerca de cinco por seis polegadas de área, de origem ao que tudo indica moderna. A atmosfera e as sugestões de seus motivos estava longe de ser modernas, porém, pois não obstante as excentricidades de cubismo e futurismo serem muitas e alucinadas, elas não reproduzem amiúde aquela regularidade críptcia que emerge de documentos pré-históricos. E o grosso daqueles desenhos com certeza parecia ser algum tipo de escrita, conquanto minha memória, embora familiarizada com os papéis e as coleções de meu tio, não conseguiu de maneira alguma identificar aquele tipo particular, ou mesmo inferir suas filiações remotas.

Ao alto desses aparentes hieróglifos havia uma figura com finalidade evidentemente decorativa, embora seu estilo impressionista prejudicasse a formação de uma idéia muito precisa da natureza. Parecia uma espécie de monstro, ou símbolo representando um monstro, cuja forma só poderia ter sido concebida por uma fantasia mórbida. Se digo que minha imaginação um tanto extravagante forjou imagens simultâneas de um polvo, um dragão e uma caricatura humana, não estarei sendo infiel ao espírito da coisa. Uma cabeça carnuda e tentaculada coroava um corpo grotesco, coberto de escamas, com asas rudimentares, mas era o contorno geral do conjunto que o tornava mais aterrorizante. Por trás da figura havia a vaga sugestão de uma paisagem arquitetônica ciclópica.

Exceto por uma pilha de recortes da imprensa, os textos que acompanhavam essa extravagância eram obra recente da mão do Professor Angell, sem a menor pretensão a um estilo literário. O que parecia ser o documento principal se intitulava “CULTO DE CTHULHU”2 em caracteres cuidadosamente grafados para evitar a leitura incorreta de uma palavra tão invulgar. O manuscrito estava dividido em duas seções, a primeira intitulada “1925 – Sonho e Obra do Sonho de H.A. Wilcox, Thomas Street, 7, Providence, R.I.”, e o segundo, “Narrativa do Inspetor John R. Lesgrasse, Bieville Street, 121, Nova Orleans, La., em 1908 A.A.S. Mtg. – Notas sobre o Mesmo, & Prof. Webb´s Acct”. Os outros papéis manuscritos eram todos anotações breves, alguns deles relatos de sonhos bizarros de diversas pessoas, outros citações de livros e revistas teosóficos (especialmente de Atlantis and the Lost Lemuria de W. Scott-Elliot), e o resto comentários sobre antigas sociedades secretas e cultos proibidos, com indicações de passagens de livros de referência de antropologia e mitologia como Golden Bought3 de Frazer e Witch-Cult in Western Europe da Srta. Murray4. A maior parte dos recortes aludia a doenças mentais excêntricas e surtos de loucura ou mania coletiva na primavera de 1925.

A primeira metade do manuscrito principal relatava uma história muito estranha. Ao que parece, em 1º de março de 1925, um jovem magro e soturno, de aspecto neurótico e exaltado, tinha procurado o Professor Angell, levando um curioso baixo-relevo de argila ainda muito fresco e úmido. Seu cartão trazia o nome de Henry Anthony Wilcox, e meu tio o identificara como o filho mais jovem de uma excelente família que ele conhecia de longe. O jovem era estudante de escultura na Escola de Desenho de Rhode Island e morava no edifício Fleur-de-Lys perto daquela instituição5. Wilcox era um jovem precoce, de gênio conhecido, mas grande excentricidade, e desde a infância ele chamava a atenção pelas histórias bizarras e sonhos curiosos que tinha o hábito de relatar. Ele se considerava “psiquicamente hipersensível”, mas para o povo pacato da antiga cidade comercial ele não passava de um “esquisitão”. Sem nunca se misturar muito com sua própria gente, ele foi perdendo aos poucos a visibilidade social e agora só era conhecido de um pequeno grupo de estetas de outras cidades. Mesmo o Clube das Artes de Providence, zeloso de seu conservadorismo, o considerava um caso sem esperança.

Por ocasião da visita, dizia o manuscrito do professor, o escultor, de repente, pediu a ajuda dos conhecimentos arqueológicos de seu anfitrião para identificar os hieróglifos dos baixo-relevo. Ele falava de maneira calma, sonhadora, sugerindo uma simpatia afetada e distante, e meu tio foi um tanto ríspido na resposta, pois a condição claramente recente da tabuleta indicava afinidade com qualquer coisa, menos com arqueologia. A réplica do jovem Wilcox que impressionou meu tio o bastante para ele recordar-se dela e registrá-la tal qual, teve um feitio poético que deve ter marcado toda a conversa, e que mais tarde descobri tratar-se de uma forte característica sua. Ele disse, “É novo, de fato, visto que o fiz na noite passada em meio a um sonho com cidades estranhas, e os sonhos são mais antigos do que a fervilhante Tiro, ou a contemplativa Esfinge, ou a ajardinada Babilônia.”

Foi aí que ele começou aquele relato confuso que, de repente, espicaçou memórias adormecidas e conquistou o interesse febricitante de meu tio. Tinha havido um rápido tremor de terra na noite anterior, o mais forte sentido na Nova Inglaterra em muitos anos, e a imaginação de Wilcox fora fortemente abalada. Recolhendo-se ao leito, ele teve um sonho sem precedentes com grandes cidades ciclópicas, construídas com blocos titânicos e monolitos projetados para o céu, tudo exsudando um limo verde e sinistro de horror latente. As paredes e pilares estavam cobertos de hieróglifos, e de algum ponto indeterminado abaixo chegava uma voz que não era voz, uma sensação caótica que somente a fantasia poderia transformar em som, mas que ele tentara transmitir com o amontoado de letras quase impronunciável “Cthulhu fhtagn”.

Essa mixórdia verbal foi a chave para a recordação que exaltou e perturbou o Professor Angell. Ele interrogou o escultor com meticulosidade científica e estudou com atenção quase fanática, o baixo-relevo em que o jovem se vira trabalhando, enregelado e vestido apenas com as roupas de dormir, até a vigília insinuar-se em seu torpor. Meu tio culpou a sua velhice, disse Wilcox mais tarde, pela lentidão com que identificou os hieróglifos e a imagem. Muitas de suas perguntas pareceram deslocadas para o visitante, em especial as que tentavam relacioná-lo com cultos ou sociedades estranhos, e Wilcox não pôde compreender as repetidas promessas de silêncio que lhe foram feitas em troca de ser aceito em alguma ordem religiosa mística ou pagã. Quando o Professor Angell se convenceu de que o escultor ignorava mesmo qualquer culto ou sistema de sabedoria críptica, assediou o visitante com pedidos para que ele lhe relatasse sonhos futuros. Isso rendeu frutos regulares. Depois da primeira entrevista, o manuscrito registra visitas diárias do jovem durante as quais ele relatava fragmentos surpreendentes de imaginação noturna cujo tema constante era alguma vista ciclópica terrível de pedra escura e gotejante, com uma voz ou inteligência subterrânea gritando monotonamente através de enigmáticos impactos sensoriais só possíveis de descrever com palavras sem sentido. Os dois sons repetidos com maior freqüência são os expressos pelas letras “Cthulhu” e “R’lyeh”.

No dia 23 de março, prosseguia o manuscrito, Wilcox não apareceu, e indagações feitas em sua moradia revelaram que, atacado por um tipo desconhecido de febre, ele fora levado para a casa de sua família na Waterman Street. Ele havia gritado durante a noite, despertando outros artistas do prédio, e havia manifestado, a partir daquele momento, condições alternadas de consciência e delírio. Meu tio telefonou incontinente para a família e dali em diante passou a acompanhar o caso de perto, telefonando muitas vezes para o consultório do Dr. Tobey na Thayer Street, o médico que estava acompanhado o caso. A mente febril do jovem, ao que parecia, estava retida em coisas estranhas, e o médico chegava a estremecer quando as mencionava. Estas incluíam não só a repetição do que ele tinha sonhado antes, mas envolviam também algo gigantesco “com milhas de altura” que andava ou se arrastava de um lado para outro. Em nenhum momento ele descreveu essa coisa, mas expressões alucinadas ocasionais, reproduzidas pelo Dr. Tobey, convenceram o professor de que ela devia ser idêntica à monstruosidade inominável que ele tentara representar em sua escultura do sonho. A referência a essa coisa, acrescentou o doutor, preludiava sempre a recaída do jovem na letargia. Sua temperatura, por estranho que pareça não subia muito acima do normal, mas seu estado geral sugeria antes uma febre genuína do que uma perturbação mental.

No dia 2 de abril, por volta das três da tarde, todos os sintomas da doença de Wilcox desapareceram de uma hora para outra. Ele sentou-se na cama, espantado por estar em casa e sem a menor noção do que tinha acontecido em sonho ou realidade desde a noite de 22 de março. Recebendo alta do médico, voltou a seus aposentos em três dias, mas deixou de prestar qualquer ajuda ao Professor Angell. Todos os vestígios de sonhos estranhos tinham sumido de sua memória, e meu tio não guardou nenhum registro de seus pensamentos noturnos depois de uma semana de relatos insossos e irrelevantes sobre visões perfeitamente normais.

Aqui terminava a primeira parte do manuscrito, mas referências a algumas anotações espalhadas deram-me muito em que pensar, tanto, de fato, que só o arraigado ceticismo que marcava então a minha filosofia pode explicar a persistente aversão que senti pelo artista. As anotações em questão descreviam os sonhos de várias pessoas no mesmo período em que o jovem Wilcox sofrera suas estranhas provações. Meu tio, ao que parece, criou às pressas uma vasta rede de pesquisa envolvendo quase todos os amigos a quem poderia fazer perguntas sem parecer impertinente, pedindo-lhes que relatassem seus sonhos noturnos e as datas de qualquer visão extraordinária no passado recente. A receptividade a seu pedido parece Ter sido irregular, mas ele deve ter recebido, no mínimo, mais respostas do que uma pessoa normal poderia lidar sem uma secretária. Essa correspondência original não foi preservada, mas suas anotações formaram um resumo completo e realmente significativo. As pessoas comuns da sociedade e do meio comercial – o “sal da terra” da Nova Inglaterra tradicional – deram um retorno quase negativo, embora casos esparsos de impressões noturnas perturbadoras mas informes apareçam aqui e ali, sempre entre 23 de março e 2 de abril, o tempo do delírio do jovem Wilcox. Os homens de ciência foram afetados um pouco mais, embora quatro casos de descrição vaga sugiram vislumbres fugidios de paisagens exóticas, e, em um caso, seja mencionado o pavor de alguma coisa anormal.

Foi dos artistas e poetas que vieram as respostas pertinentes, e tenho clareza de que o pânico se alastraria se eles tivessem podido comparar as anotações. Tal como aconteceu, na falta das cartas originais, suspeitei que o compilador tinha feito perguntas indutivas ou editado a correspondência para corroborar o que ele estava potencialmente inclinado a ver. Isso reforçou minha idéia de que Wilcox, de alguma forma conhecedor dos dados antigos que meu tio possuía, vinha se insinuando junto ao veterano cientista. As respostas daqueles estetas contavam uma história perturbadora. De 28 de fevereiro a 2 de abril, uma grande parte deles havia tido sonhos extraordinários e a intensidade dos sonhos havia sido muito maior durante o período do delírio do escultor. Mais de um quarto dos que relataram algo, registravam cenas e sons vagos parecidos com os descritos por Wilcox, e alguns sonhadores confessaram ter sentido um intenso pavor da gigantesca e indescritível criatura avistada quase no fim. Um caso, que a anotação descreve com ênfase foi muito triste. O indivíduo, um arquiteto muito conhecido, com propensões para a teosofia e o ocultismo, tornou-se um louco furioso na data do acesso do jovem Wilcox e expirou alguns meses mais tarde depois de gritar incessantemente para ser salvo de algum invasor fugido do inferno. Se meu tio tivesse organizado esses casos por nome em vez de números, eu poderia tentar confirmá-los e fazer algumas investigações pessoais, mas do jeito como as coisas se deram, só consegui localizar alguns. Desses, porém, confirmei as anotações por completo. Muitas vezes me perguntei se todos os objetos das inquisições do professor ficaram tão perplexos quanto esses poucos. É bom que não lhes chegue nenhuma explicação.

Os recortes da imprensa, como sugeri, abordavam casos de pânico, mania e excentricidades durante o período em questão. O Professor Angell deve ter-se valido de um serviço especial, pois era imenso o número de recortes de fontes espalhadas por todo o Globo. Aqui, um suicídio noturno em Londres; alguém que dormia sozinho havia saltado pela janela depois de lançar um grito assustador. Ali, uma carta delirante ao editor de um jornal da América do Sul, onde um fanático deduz um futuro tétrico de visões que tivera. Um despacho da Califórnia descreve uma colônia de teosofistas distribuindo mantos brancos em massa para algum “acontecimento glorioso” que nunca chega, enquanto notícias da Índia falam com reservas de sérias rebeliões de nativos no final de março. Orgias de vodu multiplicam-se no Haiti e postos avançados na África registram murmúrios ominosos. Funcionários americanos nas Filipinas sentem que algumas tribos estão inquietas naquele período, e policiais de Nova York são atacados por levantinos histéricos na noite de 22 para 23 de março. Na região oeste da Irlanda, também, correm abundantes rumores e lendas fabulosos, e um pintor de temas fantásticos, Ardois-Bonnot, expõe uma blasfema “Paisagem Onírica” no salão de primavera de Paris de 1926. E são tão numerosos os distúrbios registrados em asilos de loucos que só um milagre poderia Ter impedido a comunidade médica de observar os estranhos paralelismos e tirar conclusões enganosas. No todo, um espantoso maço de recortes e até hoje mal consigo entender o calejado racionalismo que me fez deixá-los de lado. Mas eu estava convencido então de que o jovem Wilcox tinha conhecimentos dos assuntos mais antigos mencionados pelo professor.

II. A narrativa do Inspetor Legrasse

Os assuntos antigos que tornavam o sonho e o baixo-relevo do escultor tão significativos para meu tio constituíam o tema da segunda metade de seu extenso manuscrito. Ao que parece, o professor Angell já tinha visto a silhueta infernal da monstruosidade sem nome, já se tinha intrigado com os misteriosos hieróglifos e ouvido as sílabas aziagas que só podem ser representadas por “Cthulhu”, e isso tudo associado de maneira tão excitante e terrível que não causa espanto que ele tenha o jovem Wilcox com perguntas e solicitações de dados.

A experiência anterior tinha ocorrido em 1908, dezessete anos antes, quando a Sociedade Antropológica Americana realizara seu encontro anual em Saint Louis. O professor Angell, como convinha a alguém com sua autoridade e suas realizações, teve um papel destacado em todas as deliberações, e foi um dos primeiros a ser abordado por diversos leigos que aproveitaram a convocação para formular perguntas querendo respostas corretas e problemas para uma solução especializada.

O principal desses leigos, e, dentro em pouco, o centro de interesse de todos os participantes, era um homem de meia idade e aparência comum que tinha vindo de Nova Orleans atrás de informações especiais impossíveis de obter junto a alguma fonte local. Chamava-se John Raymon Legrasse e era, de profissão, inspetor de polícia. Trouxera consigo o motivo de sua visita, uma estatueta de pedra, grotesca, repulsiva e ao que tudo indica muito antiga, cuja origem não conseguira determinar. Não se deve supor que o Inspetor Legrasse tivesse o menor interesse em arqueologia. Ao contrário, seu desejo de esclarecimento era movido por considerações estritamente profissionais. A estatueta, ídolo, fetiche, ou seja lá o que fosse, fora capturada alguns meses antes nos pântanos arborizados ao sul de Nova Orleans, durante uma batida a uma suposta reunião vodu, e os ritos a ela associados eram tão extraordinários e repulsivos que a polícia não pôde deixar de concluir que tinha topado com um culto demoníaco totalmente desconhecido e muito mais diabólico do que os mais tenebrosos círculos de vodu africanos. Sobre a sua origem, afora as histórias desencontradas e inacreditáveis extraídas dos praticantes capturados, não se haveria de descobrir absolutamente nada, o que explicava a ansiedade da polícia por qualquer sabedoria arcaica que a ajudasse a situar o pavoroso símbolo e, através dele, a reconstituir a origem do culto.

O Inspetor Legrasse não estava preparado para a sensação que seu oferecimento provocou. Bastou uma vista ao objeto para colocar os homens de ciência em estado de tensa excitação, e sem demora eles de aglomeraram ao seu redor para examinar a diminuta figura cuja absoluta estranheza e aparência de antigüidade abissal sugeriam poderosamente panoramas arcaicos e fechados. Nenhuma escola de escultura identificável havia inspirado o terrível objeto, mas, entretanto, centenas, milhares de anos, talvez, pareciam gravados na superfície turva e esverdeada da pedra inclassificável.

A estatueta, que foi sendo passada com vagar de mão em mão para um estudo mais cuidadoso, tinha sete a oito polegadas de altura e um acabamento artístico raro. Representava um monstro de perfil meio antropóide, mas com uma cabeça de polvo com um amontoado de tentáculos por face e um corpo coberto de escamas aparentemente elástico, garras prodigiosas nas patas dianteiras e traseiras, e asas longas e estreitas nas costas. A coisa, que parecia animada de uma malignidade terrível e apavorante, tinha o corpo um tanto estufado e estava acocorada num pedestal, ou bloco retangular, com inscrições indecifráveis. As pontas das asas tocavam na borda escura do bloco, o traseiro ocupava o centro, enquanto as garras longas e curvas das patas traseiras dobradas agarravam a borda frontal e se prolongavam até um quarto da distância até a base do pedestal. A cabeça cefalópode estava curvada para a frente de tal forma que as pontas dos tentáculos faciais raspavam nos dorsos das patas dianteiras que se apoiavam nos joelhos erguidos da figura acocorada. Ela dava uma impressão geral de estar viva, e era ainda mais assustadora por sua origem ser tão absolutamente desconhecida. Sua antigüidade imensa, espantosa e incalculável era inegável, embora ela não revelasse qualquer ligação com algum tipo de arte da aurora da civilização – ou, mesmo, de alguma outra era. Em contrapartida, o próprio material de que era feita constituía um mistério, pois a pedra lisa preto-esverdeada com suas listras ou estrias douradas ou iridescentes não se assemelhava a nada que a geologia ou a mineralogia conhecessem. As inscrições ao longo da base eram também intrigantes e nenhum dos presentes, apesar de ali se encontrar a metade do conhecimento especializado do mundo nesse campo, conseguiu formar a menor idéia nem mesmo de sua mais remota filiação lingüística. Assim como a figura e o material, elas pertenciam a algo terrivelmente antigo e distinto da humanidade tal como a conhecemos, algo que sugeria com pavor ciclos de vida remotos e profanos, alheios a nosso mundo e a nossas concepções.

Contudo, enquanto os membros abanavam com seriedade as cabeças e confessavam sua derrota em face do problema apresentado pelo inspetor, uma pessoa naquela reunião presumiu um traço de estranha familiaridade na forma monstruosa e na inscrição e contou, com certa modéstia, uma curiosidade de seu conhecimento. Tratava-se do hoje falecido William Channing Webb, professor de antropologia da Universidade de Princeton e conhecido explorador. O professor Webb participara, quarenta e oito anos antes, de uma expedição à Groenlândia e à Islândia em busca de certas inscrições rúnicas que não conseguiu descobrir, e na costa da Groenlândia Ocidental havia encontrado uma tribo ou culto singular de esquimós degenerados cuja religião, uma curiosa forma de adoração ao diabo, o havia estarrecido por seu caráter deliberado cruel e repulsivo. A fé era pouco conhecida dos outros esquimós e eles só a mencionavam entre arrepios, dizendo que tinha surgido em épocas terrivelmente primitivas, antes mesmo do mundo existir. Além de ritos indescritíveis e sacrifícios humanos, ela incluía certos rituais hereditários fantásticos devotados a um demônio ancestral supremo ou tornasuk, e o professor Webb havia conseguido uma cuidadosa transcrição fonética deste de um velho mago-sacerdote ou angekok, expressando os sons em caracteres romanos da melhor maneira que pôde. Mas no momento, tinha um significado todo especial o fetiche que esse culto adorava e ao redor do qual os praticantes dançavam enquanto a aurora boreal luzia por cima dos penhascos de gelo. Era, pontificou o professor, um baixo-relevo em pedra muito tosco exibindo uma figura repulsiva e algumas inscrições misteriosas. Até onde ele saberia dizer, tratava-se de um similar tosco, em todos os traços, em todos os traços essenciais, do objeto bestial pousado, naquele momento, diante daquela assembléia.

Essas informações, recebidas com espanto e admiração pelos membros ali reunidos, mostraram-se empolgantes em dobro para o inspetor Legrasse, e ele na hora assediou o informante de perguntas. Tendo anotado e transcrito um ritual oral dos adoradores do pântano que seus homens haviam detido, pediu ao professor que se lembrasse o melhor possível das sílabas anotadas entre os esquimós satanistas. Seguiu-se uma exaustiva comparação de detalhes e um momento de respeitoso silêncio quando ambos, investigador e cientista, concordaram sobre a identidade virtual da frase comum aos dois rituais satânicos separados por mundos de distância. O que, em essência, tanto os feiticeiros esquimós como os sacerdotes do pântano da Louisiana tinham entoado para seus venerados ídolos era algo assim – sendo a divisão de palavras inferidas das quebras normais da frase quando entoada em voz alta:

“Ph’nglui mglw’ nafh Cthulhu R’yleh wgah’nagl fhtagn.”

Legrasse estava um passo à frente do professor Webb, pois vários de seus prisioneiros mestiços tinham repetido pare ele o que os celebrantes mais velhos lhes tinham dito sobre o significado das palavras. Esse texto dizia algo assim:

“Em sua morada em R’yleh o morto Cthulhu espera sonhando.”

Então, atendendo a um pedido geral e insistente, o inspetor Legrasse contou, da forma mais completa possível, sua experiência com os adoradores do pântano, contado uma história a que, como pude observar, meu tio atribuiu um significado profundo. Ela sugeria os mais alucinados sonhos dos criadores de mitos e teosofistas, e revelava um espantoso grau de imaginação cósmica em mestiços e párias.

Em 1º de novembro de 1907, a polícia de Nova Orleans recebera um chamado frenético da região lacustre e pantanosa ao sul. Os posseiros da região, em sua maioria descendentes primitivos mas de boa índole dos homens de Lafitte6, estavam tomados de mais absoluto pavor por uma coisa desconhecida que se aproximara furtivamente deles durante a noite. Parecia vodu, mas vodu de um tipo mais terrível do que todos que conheciam, e algumas mulheres e crianças tinham desaparecido desde que o tantã maléfico começara seu batimento incessante no coração dos bosques escuros e assombrados onde ninguém se aventura. Havia gritos insanos e uivos angustiados, cantos de arrepiar a alma e chamas diabólicas dançantes, e, prosseguiu o assustado mensageiro, as pessoas não podiam mais suportar.

Assim, um corpo de vinte policiais que lotava dois veículos e um automóvel partiu ao entardecer, levando o trêmulo posseiro como guia. No final da estrada transitável eles apearam e chapinharam muitas milhas em silêncio pelos terríveis bosques de ciprestes onde o dia não penetrava. Raízes pavorosas e festões pendentes e malignos de musgo espanhol os cercavam e, de vez em quando, um amontoado de pedras úmidas ou fragmentos de alguma parede apodrecida intensificavam, com sua sugestão de moradia mórbida, o sentimento de depressão que cada árvore retorcida e cada ilhota musgosa se combinavam para produzir. Finalmente despontou o povoado de posseiros, um amontoado de casebres miseráveis, e moradores histéricos vieram correndo aglomerar-se em volta do grupo de lanternas balouçantes. A batida surda dos tambores era agora pouco audível ao longe, muito ao longe, e um uivo horripilante chegava em intervalos irregulares quando o vento mudava. Um clarão avermelhado parecia filtrar através da pálida vegetação rasteira além das intermináveis avenidas de escuridão florestal. Mesmo relutando em ser deixados mais uma vez a sós, os amedrontados posseiros recusaram-se a avançar uma polegada na direção do culto profano, e o inspetor Legrasse e seus dezenove colegas tiveram que seguir em frente sem guia pelas negras arcadas de horror que nenhum deles jamais percorrera.

A região invadida pela polícia tinha má reputação e era geralmente desconhecida e não freqüentada por homens brancos. Corriam lendas de um lago oculto, jamais vislumbrado por olhos mortais, habitado por uma coisa poliposa branca e informe, com olhos luminosos, e os posseiros sussurravam que demônios com asas de morcego saíam voando de cavernas nas entranhas da terra para adorá-la à meia-noite Eles diziam que a criatura já estava ali antes de D’Iberville7, antes de La Salle8, antes dos índios, e antes mesmo dos animais e pássaros são dos bosques. Era o próprio pesadelo e vê-la significava a morte, mas ela fazia os homens sonharem e assim eles sabiam o bastante para se manter à distância. A orgia de vodu acontecia, de fato, na fímbria só da zona abominável, mas aquele local era ruim o bastante, daí, porque, talvez o próprio local da adoração aterrorizasse os posseiros mais do que os pavorosos sons e incidentes.

Somente a poesia ou a loucura poderiam fazer justiça aos barulhos escutados pelos homens de Legrasse enquanto abriam caminho pelo pântano tenebroso na direção do clarão vermelho e do tantã abafado. Há características vocais típicas dos homens, e características vocais típicas das feras, e é terrível ouvir uma quando a fonte devia indicar a outra. A fúria animal e a libertinagem orgiástica atingiram ali alturas demoníacas com uivos e guinchos extáticos que cortavam, reverberando o bosque sombrio como tempestades pestilenciais das profundas do inferno. De vez em quando, a gritaria desordenada cessava, destacando-se o que parecia um coro bem ensaiado de vozes roucas entoando compassadamente aquela frase ou ritual hediondo:

“Ph’nglui mglw’ nafh Cthulhu R’yleh wgah’nagl fhtagn.”

Atingindo um ponto onde o arvoredo era menos denso, os homens toparam de repente com a visão do próprio espetáculo. Quatro deles cambalearam, um desmaiou e dois foram sacudidos por um pranto convulsivo que a furiosa cacofonia do festim felizmente abafou. Legrassse aspergiu água do pântano no rosto do desmaiado e todos ficaram paralisados, tremendo, quase hipnotizados pelo horror.

Numa clareira natural do pântano havia uma ilha relvada e sem árvores, com um acre de extensão, talvez, e em certa medida seca. Sobre ela saltitava e se contorcia uma horda de anormalidade humana tão indescritível que só um Sime ou Angarola9 poderiam descrever. Desprovida de roupas, aquela prole híbrida zurrava, urrava e se contorcia em volta de um anel de fogo cujo centro, revelado por aberturas ocasionais da cortina de chamas, era ocupado por um grande monolito branco com quase oito pés de altura, sobre o qual repousava, parecendo incongruente por sua pequena dimensão, a pérfida estatueta cinzelada. De um amplo círculo formado por dez patíbulos dispostos em intervalos regulares, tendo monolito branco rodeado de chamas como centro, pendiam, de cabeça para baixo, os corpos terrivelmente desfigurados dos infortunados posseiros desaparecidos. Era no interior desse círculo que a roda de adoradores saltava e rugia, movendo-se da esquerda para a direita num Bacanal interminável entre o anel de corpo e o anel de fogo.

Pode ter sido apenas imaginação e podem ter sido apenas os ecos a induzir um dos homens, um espanhol impressionável, a imaginar ter ouvido reposta antifônicas ao ritual de algum ponto distante e escuro das profundezas do bosque de antiga lenda e horror. Esses homem, Joseph D. Galvez, eu encontrei e interroguei mais tarde, e ele se mostrou espantosamente imaginativo, chegando a sugerir um tênue bater de grandes asas e o vislumbre de olhos brilhantes e de um enorme vulto branco além das árvores mais distantes – mas imagino que tenha ouvido muitas superstições nativas.

A paralisia de pavor dos homens, na verdade, durou pouco. O dever logo se impôs e mesmo havendo por ali perto uma centena de mestiços celebrantes, a polícia confiou em suas armas e caiu, com determinação, em cima da turba repugnante. Durante cinco minutos, o alvoroço e o caos resultantes foram indescritíveis. Golpes terríveis, tiros e fugas, mas no final Legrasse pôde contar cerca de quarenta e sete prisioneiros sombrios que foram obrigados a se vestir às pressas e se alinhar entre duas filas de policiais. Cinco adoradores estavam mortos, e dois gravemente feridos foram levados em macas improvisadas por seus colegas presos. A estatueta sobre o monólito foi retirada com cuidado, é claro, e trazida por Legrasse.

Inquiridos na delegacia depois de uma jornada de tensão e cansaço intensos, os prisioneiros revelaram-se todos homens de um tipo de mestiçagem muito inferior e mentalmente aberrante. Eram marinheiros, em sua maioria, e um punhado de negros e mulatos, sobretudos caribenhos ou portugueses de Brava nas ilhas de Cabo Verde, dava um toque de voduísmo ao culto heterogêneo. Mas não foi preciso muita inquisição para ficar evidente que havia algo muito mais profundo e mais antigo do que o fetichismo negro. Degradadas e ignorantes como eram, as criaturas defendiam, com surpreendente consistência, a idéia central de sua abominável fé.

Eles adoravam, assim disseram, os Grandes Antigos que viveram muitas eras antes de existirem os homens, e que tinha vindo do céu para o mundo jovem. Esses Antigos já tinham partido, para o interior da Terra e o fundo do mar, mas seus corpos mortos tinham revelado seus segredos em sonhos aos primeiros homens, que criaram um culto que jamais deixara de existir. Aquilo que praticavam era esse culto, e segundo os prisioneiros ele sempre existira e sempre existiria, escondido em desertos remotos e lugares sombrios espalhados pelo mundo até o dia em que o grande sacerdote Cthulhu, saindo de sua tétrica morada na imponente cidade submarina de R’yleh, emergeria e colocaria a Terra novamente sob seu jugo. Algum dia ele conclamaria, quando as estrelas estivessem preparadas, e o culto secreto estaria pronto para libertá-lo.

Até lá, nada mais deveria ser dito. Havia um segredo que nem a tortura poderia extrair. A humanidade não era de modo algum a única das coisas conscientes da Terra, pois emergiam vulto da escuridão para visitar os poucos fiéis. Mas esses não eram os Grandes Antigos. Nenhum homem jamais vira os Antigos. O ídolo cinzelado era o grande Cthulhu, mas ninguém saberia dizer se os outros era exatamente iguais a ele. Ninguém conseguira ler a antiga inscrição, mas as coisas eram transmitidas de boca em boca. O ritual entoado não era o segredo – esse jamais era dito em voz alta, apenas sussurrado. O canto significava apenas isto: “Em sua morada em R’yleh, o morto Cthulhu espera sonhando.”

Somente dois dos prisioneiros foram considerados sãos o bastante para a forca e o resto foi confiado a várias instituições. Todos negaram que a matança tinha sido feita pelos Alados Negros que tinha vindo até eles de seu imemorial ponto de encontro no bosque assombrado. Mas daqueles aliados misteriosos, não se pôde jamais obter um relato coerente. O grosso do que a polícia conseguiu extrair veio de um mestizo muito velho chamado Castro, que alegava ter navegado em portos estranhos e conversado com líderes imortais do culto nas montanhas da China.

O velho Castro recordou fragmentos da odiosa lenda que fizeram empalidecer as especulações dos teosofistas e faziam o homem e o mundo parecerem recentes e transitórios. Durante muitas eras, outras Criaturas governaram a Terra, e Elas tinham construído grandes cidades. Restos Delas, segundo lhe disseram os chineses imortais, ainda poderiam ser encontrados como pedras ciclópicas em ilhas do Pacífico. Elas todas tinham desaparecido vastas eras antes dos homens chegarem, mas certas artes poderiam revivê-las quando as estrelas girassem novamente para as posições certas no ciclo da eternidade. Elas próprias, na verdade, tinham vindo das estrelas, e trazido Suas imagens Consigo.

Os Grandes Antigos, prosseguiu Castro, não eram totalmente de carne e sangue. Tinham forma – pois não o prova essa estatueta estrelada? – mas essa forma não era feita de matéria. Quando as estrelas estivessem posicionadas, Eles podiam saltar de mundo para mundo céu afora, mas quando as estrelas estavam na posição errada, não podiam viver. Mas embora não vivessem mais, Eles jamais podiam realmente morrer. Jaziam em casas de pedra em Sua grande cidade de R’yleh, preservados pelos feitiços do poderoso Cthulhu para uma gloriosa ressurreição quando as estrelas e a Terra estivessem mais uma vez prontas para Eles. Mas a essa altura, alguma força exterior teria de agir para libertar Seus corpos. Os encantamentos que Os mantinham intatos também Os impediam de dar o passo inicial, e Eles só podiam ficar deitados, despertos, no escuro, e pensar, enquanto incontáveis milhões de anos transcorriam. Sabiam tudo que se passava no universo, mas se comunicavam por transmissão de pensamentos. Mesmo agora Eles conversavam em Seus túmulos. Quando, depois de infinidades de caos, surgiram os primeiros homens, os Grandes Antigos falaram aos mais sensíveis deles, moldando seus sonhos, pois só assim Sua linguagem conseguia atingir as mentes carnais dos mamíferos.

Então, sussurrou Castro, aqueles primeiros homens criaram o culto em torno de pequenos ídolos que os Grandes lhes mostraram, ídolos trazidos de estrelas escuras para zonas sombrias. Esse culto não morreria jamais até que as estrelas estivessem de novo em posição e os sacerdotes secretos tirassem o grande Cthulhu de Sua sepultura para reanimar Seus súditos e recuperar Seu domínio sobre a Terra. O momento seria fácil reconhecer pois a humanidade se teria tornado então como os Grandes Antigos, livre, selvagem, e além do bem e do mal, com as leis e os comportamentos morais deixados de lado, e todos os homens, em júbilo, gritando matando e festejando. Os Antigos libertadores lhes ensinariam então novas maneiras de gritar, matar, festejar, se divertir, e toda a Terra arderia num holocausto de êxtase e liberdade. Até lá, o culto, através de ritos apropriados, devia manter viva a memória daqueles costumes ancestrais e transmitir secretamente a profecia de sua volta.

Outrora, nos tempos idos, homens escolhidos tinham conversado com os sepultados Antigos em sonhos, mas alguma coisa acontecera então. A grande cidade de pedra de R’yleh, com seus monólitos e sepulcros, tinha afundado debaixo das ondas e as águas profundas, cheias do mistério primordial no qual nem mesmo o pensamento pode penetrar, tinham interrompido o intercâmbio espectral. Mas a memória nunca morria, e sumos sacerdotes diziam que a cidade se ergueria de novo quando as estrelas se posicionassem. Depois sairiam do chão, mofados e tétricos, os espíritos negros da Terra, e cercados de rumores sombrios ocuparam cavernas por baixo dos leitos esquecidos dos mares. Mas o velho Castro não ousou falar muito deles. Calou-se bruscamente e não houve persuasão ou sutilezas que pudessem elucidar mais nessa direção. O tamanho dos Antigos, também, o que é curioso, ele não quis mencionar. Sobre o culto, disse que seu núcleo devia estar no centro dos desertos intransitáveis da Arábia, onde Irem, a Cidade dos Pilares, sonha oculta e intocada. Ele não tinha qualquer relação com o culto das bruxas europeu, e era virtualmente desconhecido entre seus membros. Nenhum livro jamais se referira de fato a ele, embora, segundo os imortais chineses, houvesse um duplo significado no Necronomicon10do árabe louco Abdul Alhazred que os iniciados poderiam ler quando quisessem, especialmente no muito discutido dístico:

“Pois não há morto que fique em repouso eterno,

E com imensa idade, poderá finar-se a morte.”

Legrasse, muitíssimo impressionado e não menos perplexo, tinha interrogado em vão sobre as filiações históricas do culto. Castro, ao que parece, falara a verdade ao dizer que ele era absolutamente secreto. As autoridades da Universidade de Tulane não puderam lançar luz nem sobre o culto, nem sobre a imagem, e o investigador tinha procurado as mais altas autoridades do país, obtendo apenas a história da Groenlândia do professor Webb.

O interesse febril provocado pelo relato de Legrasse ao encontro, corroborado como era pela estatueta, repetiu-se na correspondência subseqüente dos participantes, embora só apareçam menções esparsas a ele nas publicações formais da sociedade. A cautela é o primeiro cuidado dos que se acostumam a enfrentar o charlatanismo e a impostura. Legrasse emprestou a imagem por algum tempo ao professor Webb, mas quando este morreu, ela lhe foi devolvida e permanece em sua posse, onde eu a vi não faz muito tempo. É, de fato, uma coisa terrível, e está inconfundivelmente relacionada com a escultura de sonho do jovem Wilcox.

Não me espanta que meu tio ficasse excitado com a história do escultor, pois o que poderia pensar ao saber, conhecendo o que Legrasse havia apurado sobre o culto, de um jovem sensível que tinha sonhado não só com a figura e os hieróglifos exatos da imagem encontrada no pântano e da tabuleta diabólica da Groenlândia, mas chegara em seus sonhos a pelo menos três das palavras exatas da fórmula pronunciada por satanistas esquimós e mestiços da Louisiana? O pronto empreendimento de uma investigação de extrema eficácia pelo professor Angell era perfeitamente natural, embora eu suspeitasse que o jovem Wilcox tinha tomado conhecimento do culto por algum canal indireto, e tinha inventado uma seqüência de sonhos para aumentar e prolongar o mistério às custas do meu tio. As narrativas de sonhos e os recortes colecionados pelo professor eram, por certo, uma prova poderosa, mas minha vocação racionalista e a extravagância do assunto todo levaram-me a adotar o que considerei as conclusões mais sensatas. Assim, depois de estudar cuidadosamente o manuscrito de novo e comparar as anotações teosóficas e antropológicas com a narrativa sobre o culto de Legrasse, fiz uma viagem à Providence para encontrar o escultor e censurá-lo, como achava que merecia, por se impor de maneira tão atrevida a um homem culto e idoso.

Wilcox ainda morava sozinho no Edifício Fleur-de-Lys da Thomas Street, uma pavorosa imitação vitoriana da arquitetura Breton do século XVII que pavoneia sua fachada de estuque em meio às adoráveis casas coloniais da antiga colina e à sombra do mais belo campanário da América. Encontrei. Encontrei-o a trabalhar em seus aposentos, e deduzi, imediatamente, pelos modelos espalhados por ali, que seu gênio era mesmo profundo e autêntico. Algum dia, acredito, ele será conhecido como um grande decadentista, pois conseguiu cristalizar em argila a algum dia espelhará em mármore aqueles pesadelos e fantasias que Arthur Machen11 evoca em prosa e Clark Ashton Smith12 exibe em versos e pinturas.

Frágil, soturno e um tanto desleixado, virou-se languidamente à minha batida perguntou-me, sem se levantar, o que eu queria. Quando lhe contei quem eu era, mostrou algum interesse, pois meu tio havia excitado sua curiosidade ao investigar seus sonhos bizarros, mesmo sem nunca explicar as razões de seu estudo. Eu não ampliei seus conhecimentos a esse respeito, mas tentei, com alguma sutileza, interessá-lo. Em pouco tempo, convenci-me de sua absoluta sinceridade, pois ele falou dos sonhos de uma maneira que não deixava dúvidas. Os sonhos e seu resíduo subconsciente tiveram profunda influência em sua arte, e ele me mostrou uma estátua cujos contornos me fizeram estremecer com a perversidade que sugeria. Não se lembrava de ter visto o original da coisa exceto no baixo-relevo sonhado, mas as linhas foram insensivelmente tomando forma em suas mãos. Era, sem dúvida, a forma gigante que ele tinha expressado em seu delírio. Logo ficou claro que ele não sabia nada sobre o culto secreto afora o que a sabatina implacável de meu tio deixara escapar, e mais uma vez tentei imaginar alguma maneira pela qual ele pudesse ter recebido as pavorosas impressões.

Ele falou de seus sonhos de uma maneira curiosamente poética, fazendo-me ver, com terrível nitidez, a úmida cidade ciclópica de pedras verdes escorregadias – cuja geometria, comentou casualmente, era toda errada – e ouvir, em suspensa expectativa, o incessante e quase mental chamado das profundezas: “Cthulhu fhtagn”, “Cthulhu fhtagn”. Essas palavras eram em parte do terrível ritual que falava da vigília em sonho do falecido Cthulhu em sua cripta de pedra em R’yleh, e fiquei profundamente comovido a despeito de minhas crenças racionais. Wilcox, com certeza, ouvira falar do culto de maneira casual e logo se esquecera dele em meio à profusão de leituras e fantasias também excêntricas. Mais tarde, sendo muito impressionável, aquilo tinha encontrado expressão subconsciente em sonhos, no baixo-relevo e na terrível estátua que eu agora tinha diante de mim, de forma que sua imposição sobre meu tio tinha sido muito inocente. O jovem era de um tipo um tanto afetado e um tanto rude ao mesmo tempo, de que eu jamais poderia gostar, mas eu já me sentia inclinado a admitir seu gênio e sua honestidade. Despedi-me amistosamente, desejando-lhe todo o sucesso que seu talento promete.

A questão do culto continuava a me fascinar, e às vezes eu tinha vislumbres de glória pessoal com as pesquisas sobre sua origem e suas conexões. Visitei Nova Orleans, conversei com Legrasse e outros participantes daquela antiga batida policial, vi o ídolo assustador e cheguei a inquirir os prisioneiros mestiços sobreviventes. O velho Castro, infelizmente, morrera há alguns anos. O que ouvi de forma tão vívida de primeira mão, conquanto apenas confirmasse em detalhes o que meu tio tinha escrito, animou-me de novo, pois me parecia estar na pista de uma religião muito real, muito secreta e muito antiga cuja descoberta faria de um antropólogo ilustre. Minha atitude ainda era toda materialista, tomara ainda fosse, e desconsiderei com perversidade quase inexplicável a coincidência entre as anotações dos sonhos e os curiosos recortes colecionados pelo professor Angell.

Uma coisa de que comecei a suspeitar, e que agora temo saber, é que a morte de meu tio não fora natural. Ele caíra numa rua enladeirada e estreita que levava a um antigo cais coalhado de mestiços estrangeiros, depois do esbarrão involuntário de um marinheiro negro. Eu não me esquecera do sangue misto e das atividades marinhas dos membros do culto em Louisiana, e não me surpreendia ficar sabendo de métodos secretos e agulhas envenenadas tão implacáveis e tão ancestralmente conhecidas quando os ritos e crenças eram secretos. Legrasse e seus homens, é verdade, não tinham sido afetados, mas na Noruega, um certo marinheiro que vira cosas está morto. As investigações mais profundas de meu tio depois de obter os dados do escultor não poderiam ter chegado a ouvidos sinistros? Creio que o professor Angell morreu porque sabia demais, ou porque, provavelmente, viria a saber demais. Resta saber se irei como ele se foi, pois também sei muito agora.

III. A loucura vinda do mar

Se o céu algum dia quisesse conceder-me uma benção, esta seria apagar de todo os efeitos do acaso que fez meus olhos se fixarem num pedaço de papel que forrava uma prateleira. Não era algo com que eu me teria deparado naturalmente em minhas ocupações diárias, pois se tratava de um número velho de um jornal australiano, o Sydney Bulletin, de 18 de abril de 1925. Ele tinha escapado inclusive à firma de distribuição de recortes que, por ocasião de sua edição, vinha coletando material para a pesquisa de meu tio.

Minhas investigações sobre o que o professor Angell chamava de “Culto de Cthulhu” estavam quase paradas e eu estava de visita a um amigo erudito em Paterson, Nova Jersey, curador de um museu local e mineralogista de renome. Examinando, certo dia, o espécimes de reserva espalhados nas prateleiras de uma sala de fundo do museu, meu olhar foi atraído por uma curiosa ilustração num dos velhos jornais estendidos embaixo das pedras. Tratava-se do Sydney Bulletin que mencionei, pois meu amigo tinha amplas relações no exterior, e a ilustração era uma autotipia recortada de uma repulsiva imagem de pedra quase idêntica à que Legrasse tinha encontrado o pântano.

Retirei, impaciente, as peças preciosas de cima da folha de jornal e examinei minuciosamente a matéria, despontando-me com o pouco que dizia. O que ela sugeria, porém, teve profundas repercussões em minha busca periclitante e recordei com todo cuidado para tomar medidas imediatas. Ela dizia o seguinte:

MISTERIOSO NAVIO PERDIDO ENCONTRADO NO MAR Vigilant chega rebocando iate neozelandês armado e abandonado. Encontrados um sobrevivente e um morto a bordo.

História de batalha desesperada e mortes no mar. Marinheiro resgatado omite detalhes sobre a estranha experiência. Encontrado ídolo estranho em sua posse. Investigações prosseguem.

O cargueiro Vigilant da Morrison Co., com destino a Valparaíso, chegou esta manhã a sua doca no Porto de Darling, rebocando o iate a vapor Alert, combatido e inutilizado mas fortemente armado, de Dunedin, Nova Zelândia, que foi avistado no dia 12 de abril em 34º 21’ de Latitude S. e 152º 17’ de Longitude O. com um homem vivo e um morto a bordo.

O Vigilant deixou Valparaíso em 25 de março, e no dia 2 de abril foi impelido muito ao sul de sua rota por tempestades excepcionalmente violentas e ondas monstruosas. Em 12 de abril, o navio abandonado foi visto, e embora parecesse estar deserto, depois de abordado verificou-se que abrigava um sobrevivente em condições quase delirantes e um homem que, com certeza, estava morto havia mais de uma semana. O vivo estava agarrado a um horrível ídolo de pedra de origem desconhecida, com cerca de trinta centímetros de altura, sobre cuja natureza autoridades da Universidade de Sydney, da Royal Society e do Museu da College Street professaram total perplexidade, e que o sobrevivente fiz ter encontrado na cabine do iate, num pequeno escrínio cinzelado de tipo comum.

Esse homem, depois de recobrar os sentidos, contou uma história muito estranha de pirataria e chacina. Trata-se de Gustaf Johansen, um norueguês de alguma inteligência, e que fora o contramestre da escuna Emma, de Auckland, que zarpou para Callao com uma tripulação de onze homens em 20 de fevereiro. A Emma, dizia ele, foi retardada e empurrada com toda força para o sul de sua rota pela grande tormenta de 1º de março, e em 22 de março, estando em 49º 51’ de Latitude

S. e 128º 34’ de Longitude O. encontrou Alert, manejado por uma tripulação estranha e mal­encarada de canacas e mestiços. Ordenado peremptoriamente a voltar, o capitão Collins se recusou, diante do que a estranha tripulação começou a atirar com selvageria e sem aviso na escuna com a bateria pesada de canhões de bronze que equipava o iate. Os homens da Emma travaram luta, conta

o sobrevivente, e embora a escuna começasse a afundar com os tiros recebidos abaixo da linha d’água, eles conseguiram emparelhar o barco com o inimigo e abordá-lo, enfrentando a tripulação selvagem no convés do iate, e sendo forçados a matar todos, cujo número era um pouco superior, devido ao modo particularmente abominável e desesperado, ainda que canhestro, com que eles lutavam.

Três homens da Emma, inclusive o capitão Collins e o imediato Green, foram mortos, e os oito restantes, comandados pelo contramestre Johansen trataram de manobrar o iate capturado, seguindo em seu curso original para ver se existia alguma razão para a ordem de voltar. No dia seguinte, ao que parece, eles desembarcaram numa pequena ilha, embora não soubesse da existência de nenhuma ilha naquela parte do oceano, e seis dos homens morreram, de alguma forma, em terra, embora Johansen seja curiosamente reticente sobre essa parte de sua história e fale apenas de eles terem caído numa fenda da rocha. Mais tarde, ao que parece, ele e um companheiro subiram a bordo do iate e tentaram manobrá-lo, mas foram fustigados pela tempestade de 2 de abril. Daquele momento até seu resgate no dia 12, o homem pouco se recorda, e nem mesmo se lembra de quando William Briden, seu companheiro, morreu. Não há evidências visíveis da causa da morte de Briden, e é provável que se tenha dado à perturbação mental ou à desproteção. Informações telegráficas de Dunedin relatam que o Alert era bem conhecido ali como um barco mercante na ilha, e possuía uma péssima reputação em todo o cais. Pertencia a um estranho grupo de mestiços cujas reuniões freqüentes e incursões noturnas aos bosques atraíam grande curiosidade, e tinha zarpado com grande pressa pouco depois da tempestade e dos tremores de terra de 1º de março. Nosso correspondente de Auckland confere uma excelente reputação à Emma e a sua tripulação, e Johansen é descrito como homem sóbrio e valoroso. O almirantado vai abrir um inquérito sobre o assunto todo a partir de amanhã, e todos os esforços serão enviados para induzir Johansen a falar mais fracamente do que tem feito até agora.

Isso era tudo, além da imagem da estatueta infernal, mas que associação de idéias desencadeou em minha mente! Ali estavam novas e preciosas informações sobre o Culto de Cthulhu, e evidências de que ele guardava estranhas relações com o mar, assim com a terra. O que teria levado a tripulação mestiça a ordenar que a Emma retornasse enquanto seguiram em frente com seu hediondo ídolo? O que seria a ilha desconhecida onde seis homens da Emma tinham morrido, e sobre a qual o imediato Johansen era tão reticente? O que a investigação do vice­almirantado teria apurado e o que se saberia do abominável culto em Dunedin? E o mais admirável, que relação profunda e sobrenatural de datas era aquela que emprestava um significado maligno agora inegável às diversas viravoltas dos acontecimentos tão cuidadosamente anotadas por meu tio?

Em 1º de março – nosso 28 de fevereiro segundo a linha internacional da data – vieram o terremoto e a tempestade. De Dunedin, o Alert e sua deletéria tripulação tinha partido a toda pressa como se fossem imperiosamente convocados, e no outro lado da Terra, poetas e artistas tinham começado a sonhar com uma estranha cidade ciclópica e úmida, enquanto o jovem escultor tinha modelado, durante o sono, a forma do temível Cthulhu. Em 23 de março, a tripulação da Emma desembarcou numa ilha desconhecida onde deixou seis mortos; e naquela mesma data, os sonhos de homens sensíveis assumiram uma vivacidade acentuada, obscureceram de pavor da perseguição maligna de um monstro gigantesco, enquanto um arquiteto enlouquecia e um escultor mergulhava no delírio! E quanto a essa tempestade de 2 de abril – a data em que todos os sonhos com a cidade úmida cessaram e Wilcox escapou ileso do jugo de estranha febre? O que pensar disso tudo – e das sugestões do velho Castro sobre os Antigos de origem estelar submersos e o advento de seu reinado, seu culto religioso e seu domínio sobre os sonhos? Estaria eu cambaleando à beira de horrores cósmicos que a capacidade humana seria incapaz de suportar? Se assim fosse, deviam ser apenas horrores mentais, pois, de algum modo, o dois de abril dra um fim à qualquer ameaça monstruosa que tivesse começado seu assédio à alma da humanidade.

Naquela noite, depois de um dia de arranjos e telegramas apressados, despedi-me de meu hospedeiro e tomei um trem para San Francisco. Em menos de um mês, eu estava em Dunedin, onde descobri, porém, que pouco se sabia dos estranhos membros do culto que tinham perambulado pelas velhas tavernas do cais. A escória das docas era comum demais para merecer alguma menção especial, embora corressem vagos rumores sobre uma viagem ao interior feita por aqueles mestiços durante a qual se notaram um longínquo rufar de tambores e chamas vermelhas nos morros distantes. Em Auckland, fiquei sabendo que Johansen tinha voltado com os cabelos louros embranquecidos depois de uma inquisição perfunctória e inconclusiva em Sydney, e depois disso vendera sua casinha na West Street e navegara com a mulher para sua velha casa em Oslo. Sobre a sua estarrecedora experiência, ele não diria aos amigos mais do que dissera aos funcionários do almirantado, e tudo que eles puderam fazer foi dar-me seu endereço em Oslo.

Depois disso, fui a Sydney e conversei com marinheiros e membros do tribunal do vice­almirantado, mas foi em vão. Vi o Alert, agora vendido e em uso comercial, no Cais Circular em Sydney Cove, mas de nada me serviu sua aparência vulgar. A estatueta agachada com sua cabeça de choco, corpo de dragão, asas escamadas e pedestal hieróglifo, estava guardada no Museu do Parque Hyde. Eu a estudei atentamente, achando-a de um artesanato muito raro, contendo o mesmo absoluto mistério, terrível antiguidade e sinistra estranheza de material que eu tinha notado no exemplar menor de Lagrasse. Os geólogos, contou-me o curador, a tinha considerado um grande mistério, pois juravam que não havia no mundo uma pedra daquele tipo. Estremecendo, pensei no que o velho Castro tinha dito a Lagrasse sobre os Grandes primitivos: “Eles vieram das estrelas e trouxeram Suas imagens consigo.”

Abalado por uma revolução mental como jamais conhecera, resolvi visitar o contramestre Johansen em Oslo. Navegando até Londres, tornei a embarcar em seguida para a capital da Noruega onde desembarquei, num certo dia de outono, nas docas bem cuidadas à sombra de Egeberg13. O endereço de Johansen, conforme verifiquei, ficava na Cidade Velha do Rei Harold Haardrada, que mantivera vivo o nome de Oslo durante os séculos em que a cidade maior se disfarçara de “Christiana.”14 Fiz o breve percurso de táxi com o coração palpitando, na porta de um velho e bem cuidado edifício com a frente rebocada. Uma mulher de rosto melancólico, de preto, atendeu, causando-me profunda frustração ao me contar, num inglês vacilante, que Gustaf Johansen já não existia.

Não sobrevivera a seu retorno, contou-me a esposa, pois os acontecimentos ao mar, em 1925, tinham acabado com ele. Ele não tinha contado à esposa nada além do que dissera em público, mas tinha deixado um longo manuscrito – sobre “assuntos técnicos” como dizia – escrito em inglês, evidentemente para protegê-la do risco de uma leitura casual. Caminhando por uma estreita viela perto do cais de Gotemburgo, fora atingido e derrubado por um fardo de papel caído de uma janela de sótão. Dois marinheiros indianos ajudaram-no prontamente a se levantar, mas antes que a ambulância chegasse, ele estava morto. Os médicos não encontraram nenhuma causa apropriada para o seu falecimento e atribuíram a problemas cardíacos e à constituição debilitada.

Sentia agora corroer-me as entranhas aquele terror hediondo que jamais me abandonará até que eu também fique em repouso, “por acidente” ou de alguma outra forma. Persuadindo a viúva de que minha conexão com os “assuntos técnicos” de seu marido me intitulava a ficar com o manuscrito, levei o documento e comecei sua leitura no navio para Londres. Era uma coisa simplória, desconexa – o esforço de um marinheiro ingênuo num diário a posteriori – e procurava recordar, dia a dia, aquela última e terrível viagem. Não posso tentar transcrevê-lo literalmente em toda sua nebulosidade e redundância, mas reproduzirei o bastante de seu conteúdo para mostrar por que o som da água contra os costados do navio se tornou de tal forma insuportável para mim que tapei os ouvidos com algodão.

Johansen, graças a Deus, não sabia tudo, apesar de ter visto a cidade e a Coisa, mas eu jamais dormirei tranqüilo enquanto pensar nos horrores que espreitam sem parar por trás da existência no tempo e no espaço, e naquelas blasfêmias profanas de estrelas primitivas que sonham no fundo do mar, conhecidas e veneradas por um culto de pesadelo pronto e ávido para soltá-las no mundo sempre que algum terremoto suspender sua monstruosa cidade de pedra novamente até o sol e o ar.

A viagem de Johansen tinha começado tal como ele contou ao vice-almirantado. A Emma, navegando com lastro, fizera-se ao mar em Auckland, em 20 de fevereiro, e tinha sido atingida em cheio por aquela tempestade provocada pelo terremoto que devia ter desprendido, do fundo do mar, os horrores que povoam os sonhos humanos. De novo sob controle, a embarcação avançava em boa marcha quando foi atacada pelo Alert, em 22 de março, e pude sentir o desgosto do imediato enquanto descrevia seu bombardeio e afundamento. Aos fanáticos mestiços do Alert, ele se refere com perceptível horror. Eles tinham alguma coisa especialmente abominável que parecia quase um dever destruí-los, e Johansen manifesta um espanto ingênuo com a acusação de impiedade feita a seu grupo durante o inquérito judicial. Depois, impelidos pela curiosidade, seguiram em frente no iate capturado sob o comando de Johansen e avistaram uma grande coluna de pedra se projetando para cima da superfície do mar, e em 47º 9’ de Latitude S. e 126º 43’ de Longitude O. chegaram a um litoral combinando lodo, limo e construções de alvenaria ciclópica coberta de ervas daninhas que outra coisa não poderia ser senão a substância tangível do supremo horror sobre a Terra – a pavorosa cidade-defunta de R’yleh, construída em eras imemoriais anteriores à História pelas formas imensas e malignas que se infiltraram das estrelas sombrias. Ali jaziam o poderoso Cthulhu e suas hordas, ocultos em criptas verdes, enlameadas, e expedindo, enfim, depois de ciclos temporais incalculáveis, os pensamentos que espalhavam o terror nos sonhos de pessoas sensíveis e convocavam imperiosamente os fiéis a uma romaria de libertação e restauração. Disso tudo não suspeitava Johansen, mas Deus sabe que ele logo veria o suficiente.

Imagino que um único topo de montanha, a hedionda cidadela encimada por monólito sobre a qual o grande Cthulhu estava enterrado, emergiu mesmo das águas. Quando penso na extensão de tudo que pode estar germinando naquele lugar, tenho vontade de me matar. Johansen e seus homens ficaram admirados diante da majestade cósmica daquela Babilônia gotejante de demônios ancestrais, e devem ter imaginado, sem orientação, que aquilo não pertencia a este nem a qualquer outro planeta são. A admiração com o tamanho descomunal da cidade de blocos de pedra esverdeados, com altura estonteante do grande monólito cinzelado e com a estarrecedora semelhança entre as colossais estátuas e baixos-relevos e a imagem bizarra encontrada num escrínio do Alert, é dolorosamente visível em cada linha da apavorada descrição do contramestre.

Sem conhecer o futurismo, Johansen chegou muito perto dele ao falar da cidade, pois, em vez de descrever alguma estrutura ou edifício definido, ele se atém a impressões gerais sobre os imensos ângulos e superfícies de pedra – superfícies grande demais para pertencerem a qualquer coisa normal ou própria desta Terra, corrompidas por imagens e hieróglifos terríveis. Menciono sua referência a ângulos porque sugere algo que Wilcox me disse sobre seus pavorosos sonhos. Ele disse que a geometria do lugar que via em sonhos era anormal, não euclidiana, sugerindo locais e dimensões repulsivos, diferentes dos nossos. Agora, um marinheiro iletrado sentia a mesma coisa observando a terrível realidade.

Johansen e seus homens desembarcaram num banco de lama inclinado daquela monstruosa Acrópole, e escalaram aos escorregões os titânicos blocos enlameados que não poderiam ser a escada de nenhum mortal. O próprio sol no firmamento parecia distorcido visto através dos miasmas polarizantes que exalavam daquela perversão encharcada, e um misto de ameaça e expectativa, às escondidas, daqueles ângulos loucamente enganosos de rocha entalhada onde se revelava côncavo a um segundo olhar o que se mostrara convexo a um primeiro.

Algo muito parecido com pavor tomara conta de todos os exploradores antes mesmo de avistarem qualquer coisa mais definida do que rocha, limo e mato. Cada um deles teria fugido não fosse por medo da zombaria dos outros, e foi sem muito entusiasmo que eles procuraram – em vão, com se provou – alguma lembrança que pudessem carregar.

Foi Rodriguez, o português, quem escalou a base do monólito e gritou, informando o que tinha encontrado. Os outros seguiram e olharam, cheios de curiosidade, a imensa porta entalhada com o já familiar baixo-relevo em forma de dragão com cabeça de lula. Parecia, segundo Johansen, uma grande porta de celeiro, e todos sentiram que era uma porta devido à verga, umbral e batentes ornamentados que a cercavam, embora não conseguissem ter claro se era horizontal como um alçapão ou inclinada como a porta externa de um porão. Como Wilcox teria dito, a geometria do lugar era toda errada. Não se podia ter certeza se o mar e o chão eram horizontais e, por isso, a posição relativa de tudo o mais parecia irrealmente variável.

Briden tentou forçar a porta em vários pontos, sem resultado. Depois Donovan tateou-a sua borda deliberadamente, pressionando um ponto de cada vez. Ele subiu pela grotesca moldura de pedra – isto é, podia-se chamar aquilo de subir já que não era mesmo horizontal – e os homens se perguntavam como alguma porta no universo podia ser tão imensa. Então, lenta e suavemente, o imenso painel começou a ceder para dentro na parte superior, e eles puderam notar que ele era articulado. Donovan escorregou, ou algo assim, para baixo ou ao longo do batente, juntando-se aos companheiros, e todos ficaram observando o estranho recuo daquele portal com os entalhes monstruosos. Naquela ilusão de distorção prismática, ele se movia de forma anormal, em diagonal, parecendo contrariar todas as regras da matéria e da perspectiva.

A abertura era negra, de uma escuridão quase matéria. Aquelas trevas eram, na verdade, uma qualidade positiva, pois escureciam as partes das paredes internas que deveriam ser reveladas, e exalava para fora como fumaça de sua prisão multimilenar, obscurecendo a olhos vistos o sol, ao escoar para o céu inchado e convexo num adejar de asas membranosas. O cheiro que exalava das profundezas recém-abertas era intolerável, até que Hawkins, que tinha ouvidos muito aguçados, pensou ter ouvido um chapinhar repulsivo no interior. Os homens ficaram atentos e ainda tentaram ouvir quando a Coisa se arrastou, babando, à vista de todos, espremendo Sua imensidade verde e gelatinosa pela passagem escura para o ar exterior infecto daquela venenosa cidade de loucura.

A caligrafia do pobre Johansen quase estancou neste ponto. Dos seis homens que jamais retornaram ao navio, ele acha que dois sucumbiram de puro pavor naquele maldito instante. A Coisa não pode ser descrita – não há linguagem para abismos tão imemoriais de pavor e demência, contradições tão grandes de matéria, força e ordem cósmica. Uma montanha caminhado ou se arrastando. Deus! Não espanta que, por toda a Terra, um grande arquiteto enlouquecesse e o pobre Wilcox delirasse de febre naquele instante telepático! A Coisa dos ídolos, a cria verde e gosmenta vinda das estrelas, tinha despertado para reclamar o que era seu. As estrelas estavam posicionadas uma vez mais e o que um culto ancestral não tinha conseguido deliberadamente, um grupo de inocentes marinheiros tinha obtido por acidente. Após eras incontáveis, o poderoso Cthulhu estava livre outra vez, e ávido de prazer.

Três homens foram varridos pelas patas balofas antes de alguém poder virar-se. Que descansem em paz, se algum repouso existir no universo. Era eles Donovan, Guerrera e Cngstrom Parker. Parker escorregou enquanto os outros três mergulhavam freneticamente em paisagens intermináveis de rocha incrustada de verde para o barco, e Johansen jura que ele foi engolido por um ângulo de parede que não deveria estar ali, um ângulo que era agudo mas se comportava com se fosse obtuso. Assim, só Briden e Johansen conseguiram alcançar o barco e remaram desesperados para o Alert enquanto a monstruosidade montanhosa se deixava cair pesadamente sobre as rochas escorregadias, até parar, hesitante, à beira do mar.

O vapor do navio não estava totalmente extinto, apesar da ida de todos os braços para a praia, e alguns minutos de correria febril de um lado para outro entre a roda do leme e as máquinas foi o que bastou para colocar o Alert em movimento. Devagar, em meio aos horrores distorcidos daquela paisagem indescritível, ele começou a agitar as águas letais, enquanto sobre a estrutura de pedra daquela praia espectral que não era da Terra, a Coisa titânica das estrelas babava e resmungava como Polifemo maldizendo o navio em fuga de Ulisses15. Em seguida, mais audacioso do que os célebres Ciclopes, o poderoso Cthulhu deslizou viscosamente para a água e saiu em perseguição do navio com braçadas de uma potência cósmica e tão imensas que chegavam a formar ondas na superfície do mar. Briden olhou para trás e enlouqueceu, rindo histericamente, e assim seguiu rindo, com intervalos, até que a morte o encontrou, certa noite, na cabine, enquanto Johansen perambulava delirante pelo navio.

Mas Johansen ainda não tinha desistido. Sabendo que a Coisa certamente alcançaria o Alert antes que o navio navegasse a pleno vapor, resolveu fazer uma tentativa desesperada e ajustando a máquina para plena velocidade, correu como um raio para o convés e inverteu o leme. Formou-se um portentoso turbilhão de espuma no abominável oceano, e enquanto a pressão do vapor ia aumentando, e aumentando, o bravo norueguês dirigia a proa da embarcação para o caçador gelatinoso que se erguia acima da espuma imunda com a proa de um galeão infernal. A pavorosa cabeça de lula com tentáculos retorcidos já estava quase alcançando o gurupés do robusto iate, mas implacável, Johansen avançava. Houve um ruído de bexiga estourando, uma sujeira gosmenta de peixe-lula rasgado, um fedor como se um milhar de sepulturas fossem abertas e um som que o cronista não conseguiu pôr no papel. Por um instante, o navio ficou coberto por uma nuvem verde, acre e cegante, e depois restou apenas um fervilhar venenoso a ré, onde – Deus! – a massa plástica dispersa daquela inominável criatura celeste ia vagamente recompondo sua odiosa forma original, enquanto se alargava a distância que a separava, a cada segundo, do Alert que ganhava ímpeto com a pressão crescente do vapor.

Isso foi tudo. Em seguida, Johansen apenas meditou sobre o ídolo na cabine e cuidou da comida para si e para o maníaco risonho ao seu lado. Ele não tentou navegar depois da primeira e corajosa fuga, pois o contra-ataque tinha extraído algo de sua energia. Depois veio a tormenta de 2 de abril e sua consciência se anuviou. Há uma sensação de vertigem espectral por abismos líquidos do infinito, de corridas alucinadas por universos instáveis montado numa cauda de cometa, e de saltos histéricos do poço à lua e da lua novamente ao poço, tudo animado por um coro cachinante dos corrompidos, hilários deuses antigos e dos zombeteiros duendes verdes com asas de morcego do Tártaro.16

Fora daquele sonho, veio a salvação – o Vigilant, o tribunal do vice-almirantado, as ruas de Dunedin e a longa viagem de volta para a velha casa à sombra de Egeberg. Ele não poderia contar – eles o achariam louco. Escreveria tudo que sabia antes da morte chegar, mas sua esposa não devia suspeitar. A morte seria uma bênção se ao menos pudesse apagar as lembranças.

Esse foi o documento que li e coloquei agora na caixa de estanho ao lado do baixo-relevo e dos papéis do professor Angell. Com ele irá esse meu registro – esse teste de minha própria atitude mental, em que se reconstituiu aquele que eu espero que jamais se reconstitua de novo. Considerei tudo de que o universo dispõe para conter o horror, e mesmo os céus de primavera e as flores de verão serão, para sempre, veneno para mim. Mas não creio que minha vida dure muito. Assim como meu tio se foi, como o pobre Johansen se foi, eu irei. Sei demais, e o culto ainda vive.

Cthulhu ainda vive, também, imagino, naquele abismo de pedra que o abrigou desde que o sol era jovem. Sua maldita cidade está novamente submersa, pois o Vigilant navegou até o local depois da tormenta de abril, mas seus agentes em terra ainda urram, cabriolam e matam em torno de monólitos coroado por ídolos em locais desertos. Ele dever ter sido apanhado pelo afundamento enquanto estava dentro de seu abismo negro, senão o mundo estaria agora gritando de pavor e loucura. Quem conhecerá o fim? Aquilo que emergiu pode afundar, e o que afundou pode emergir. A repugnância espera e sonha nas profundezas, e a podridão se espalha sobre as precárias cidades dos homens. Chegará um momento… mas não devo e não posso pensar! Deixem-me rezar para que, se não sobreviver a este manuscrito, meus executores testamentários coloquem a cautela a frente da audácia e cuidem que ele não chegue a outros olhos.

Notas:

  1. Blackwood, Algernon Henry (1869-1951), famoso escritor inglês do gênero horror e muito admirado por Lovecraft. (Nota de Transcrição)
  2. O termo “Cthulhu” é pronunciado comumente como “kuh-THOO-loo” (em português soa algo como: “Katuuluu”, pronunciado rapidamente), por causa da pronuncia indicada na caixa do famoso RPG de nome “Call of Cthulhu” da Chaosium. Entretanto, existem vários estudantes sérios de Lovecraft que preferem a pronúncia como “Cloo-loo”, justificando suas teses em referências dos contos do autor. Fora isto a discussão se estende e encontramos ainda uma série de pronuncias diferentes, mas que na prática nada, ou muito pouco, acrescentam ao termo. O próprio Lovecraft brincava com seus amigos escritores pronunciando hora de uma forma ora de outra. (Nota de Transcrição)
  3. Traduzido no Brasil da versão inglesa resumida e ilustrada The Ilustrated Golden Bough, da monumental obra de antropologia da religião The Golden Bough de Sir James George Frazer, como O Ramo de Ouro, Ed. Guanabara Koogan, 1982.
  4. Margaret A. Murray publicou em 1921 o livro citado, onde defende a tese de que o culto às bruxas, tanto na Europa como na América, tem origem numa raça pré-ariana que foi impelida para um mundo subterrâneo, mas continua à espreita em cantos escondidos da terra.
  5. Esta casa-estúdio foi criada pelo artista de Providence, R.I., Sydney Richmond Burleigh e de fato existe na Rua Thomas nº 77 nesta mesma cidade. Foi utilizada como inspiração para esta história. (Nota de Transcrição).
  6. La Fayette, Marquês de (1757-1834), líder militar e político francês, lutou no bando dos rebeldes das colônias durante a guerra da Independência Americana. (Nota de Transcrição)
  7. Iberville, sieur d’ (Pierre Le Moyne) (1661-1706), explorador famoso e um dos fundadores da Louisiana. (Nota de Transcrição)
  8. La Salle, René-Robert Cavelier (1643-1687), explorador francês famoso pela descoberta de um vale, o qual viria a ser a atual Louisiana, em homenagem ao rei Luís XIV. (Nota de Transcrição)
  9. Sidney Herbert Sime (1867-1945), ilustrador admirado por Lovecraft; Anthony Angarola (1893-1929), ilustrador norte americano de livros.
  10. Livro místico imaginário criado por Lovecraft. Neste grimório desconhecido estariam guardados segredos sobre os Antigos e práticas mágicas. Em “A História do Necronomicon”, o autor nos fala, inclusive com mais detalhes, sobre cidade dos pilares de Irem, citada anteriormente e de cópias secretas do livro preservadas até hoje. É importante dizer que este livro nunca existiu, e Lovecraft apenas se referia a ele nunca criando uma versão do livro, inclusive versões do livro é que não faltam na Internet algumas até ridículas associando Lovecraft ao famoso ocultista A. Crowley e outras besteiras mais. (Nota de Transcrição)
  11. Machen, Arthur (1863-1947), escritor inglês de renome que abordava temas sobrenaturais, admirado por Lovecraft. (Nota de Transcrição)
  12. Smith, Clark Ashton (1893-1961), escritor e artista plástico que além de amigo de Lovecraft era admirado por ele.(Nota de Transcrição)
  13. Bergen, cidade marítima e portuária do sudoeste da Noruega. (Nota de Transcrição)
  14. Oslo foi fundada por Harold III da Noruega por volta de 1050. Destruída em 1624 por um incêndio, Christian IV a reconstruiu batizando-a de Cristiania em sua homenagem. Assim foi até 1925, quando recuperou seu nome histórico. (Nota de Transcrição)
  15. Ulisses, nome latino de Odisseu, na mitologia grega, governador da ilha de Ítaca e um dos chefes do exército grego durante a guerra de Tróia. (Nota de Transcrição)
  16. Tártaro, na mitologia grega, a região mais baixa dos infernos. Segundo Hesíodo e Virgílio, o Tártaro é fechado por portas de ferro e está tão abaixo do mundo subterrâneo de Hades quanto a terra está em relação ao céu. (Nota de Transcrição).

O Sonho de Harvey (Stephen King)

Junto da pia, Janet se vira e subitamente vê seu marido, com quem se casou há quase 30 anos, sentado à mesa da cozinha, de camiseta e cueca branca, olhando para ela. Com uma freqüência cada vez maior ela encontra esse prócer de Wall Street nesse mesmo lugar, vestido dessa mesma maneira, nas manhãs de sábado: com os ombros caídos e o olhar vago, pêlos brancos nas bochechas, tetas masculinas estufando a frente da camiseta, cabelo eriçado feito uma versão envelhecida e emburrecida do Alfafa de “Os Batutinhas” (seriado norte-americano criado em 1922 por Hal Roach que fez sucesso entre as décadas de 20 e 40 nos EUA e se tornou filme em 1994. Alfafa, uma criança com cabelo espetado, é um dos personagens).
Na verdade, porém, ela não acredita que essas aparições silenciosas nas manhãs de sábado se devam a sintomas prematuros da doença, pois em todos os dias da semana, Harvey Stevens está pronto para sair e enfrentar o mundo às 6h45. É um homem de 60 anos que parece ter 50 (bem, 54) quando veste um dos seus ternos mais elegantes e que ainda domina como poucos a arte de armar uma transação, vender com lucro ou comprar barato.
Não, ele está só treinando para envelhecer, pensa ela, detestando a idéia. Tem medo de que ele fique assim toda manhã depois que se aposentar, pelo menos até que ela lhe dê um copo de suco de laranja e lhe pergunte (com uma impaciência crescente e impossível de evitar) se ele quer cereais ou apenas torradas. Tem medo de — ao interromper qualquer coisa que estiver fazendo — encontra-lo sempre sentado ali, sob um raio de sol brilhante demais, Harvey pela manhã, Harvey de camiseta e cueca, com as pernas abertas de modo que ela veja seus parcos dotes físicos (caso ela se preocupe com isso) e aqueles calos amarelados nos dedões de seus pés, que sempre a fazem pensar em Wallace Stevens e o Imperador do Sorvete.
Sentado ali, silencioso e amalucadamente contemplativo, em vez de se aprontar para sair, e se preparar psicologicamente para enfrentar o dia. Deus, tomara que esteja errada. Aquilo faz a vida parecer tão esquálida, tão estúpida de certa forma. Ela fica se perguntando se foi para isso que eles lutaram, criaram três filhas, separaram o inevitável caso extraconjugal dele durante a meia-idade, trabalharam e às vezes (encaremos a realidade) até foram um pouco inescrupulosos? Se é para isso que a gente enfrenta a selva da vida, pensa Janet, para acabar nesse… nesse estacionamento… para que se esforçar?
Mas a resposta é fácil. Ela não sabia. Ela descartava maioria das mentiras ao longo do caminho, mas se aferrara aquela que dizia que a vida era importante. Criara um álbum dedicado às mentiras, e ali elas ainda eram jovens, com possibilidades interessantes: Trisha, a mais velha, usando uma cartola e agitando uma vara de condão feita de papel-alumínio sobre Tim, o cocker spaniel. Jenna, congelada no meio de um salto por cima do chafariz do gramado, com seu fraco por drogas, cartões de crédito e homens mais velhos ainda muito além do horizonte. Stephanie, a mais nova, durante aquele concurso municipal de ortografia, em que a palavra “auspicioso” se revelara a sua Waterloo. Na maioria daqueles retratos (geralmente ao fundo), viam-se também Janet e o homem com quem ela se casara, sempre sorrindo como se fosse contra a lei fazer outra coisa.
Então um dia ela cometera o erro de olhar para trás e descobrira que as mentiras haviam crescido e que aquele homem — que só continuara sendo seu marido por que ela batalhara por isso — estava sentado ali de pernas abertas, umas pernas brancas feito carne de peixe, olhando fixamente para um raio de sol. Deus, talvez ele parecesse ter 54 num terno elegante, mas sentado à mesa da cozinha daquele jeito, parecia ter 70. Setenta e cinco, que diabo. Ele parecia aquilo que “Os Sopranos” chamavam de pateta.
Ela se volta para a pia e espirra delicadamente, uma, duas, três vezes.
— Como elas estão hoje? — pergunta ele, falando das cavidades nasais, das suas alergias. A resposta é que elas não estão muito bem, mas, como um surpreendente numero de coisas ruins, as alergias de verão também têm um lado positivo. Janet não precisa mais dormir com Harvey e brigar por sua cota de cobertores no meio da noite; não precisa mais escutar um ou outro peido abafado enquanto o marido se precipita no sono. Durante o verão ele consegue dormir seis ou até sete horas na maioria das noites, e isso é mais do que suficiente. Quando o outono chegar e Harvey voltar do quarto de hóspedes, o número de horas cairá para quatro, e grande parte disso será um sono perturbado.
Janet sabe que chegará um ano em que o marido não voltará. É, apesar de ela não lhe dizer isso — pois o deixaria magoado, e ela continua a não gostar de magoá-lo; o amor entre os dois se transformou nisso, ao menos da parte dela com relação a ele —, ela ficará feliz.
Ela suspira e enfia a mão numa caçarola com água dentro da pia, apalpando e dizendo: — Até que não estão tão mal assim.
E então, enquanto Janet pensa (não pela primeira vez) que a vida já não esconde nenhuma surpresa ou profundeza marital insondável, Harvey diz com uma voz estranhamente displicente: — Foi bom você não ter dormido comigo ontem à noite, Jax. Tive um sonho ruim. Na realidade, acordei de tanto gritar.
Ela se espanta. Há quanto tempo ele não a chamava de Jax, em vez de Janet ou Jan? Este último apelido secretamente ela detesta. Faz com que ela pense naquela atriz melosa de “Lassie”, que ela via quando criança. O garotinho (Timmy, seu nome era Timmy) sempre caía num poço, era mordido por uma cobra ou ficava preso sobe uma rocha. Que pais eram aqueles, que colocavam a vida de um filho nas mãos de uma porra de uma collie?
Ela se vira para ele novamente, esquecendo a caçarola com o último ovo lá dentro, a água já fora da fervura há tempo suficiente para estar morna. Ele teve um sonho ruim? Harvey? Janet tenta se lembrar de quando foi a última vez em que Harvey mencionou ter tido qualquer tipo de sonho, mas não consegue. A única coisa que lhe vem à memória é uma vaga lembrança dos tempos de namoro dos dois: Harvey dizendo algo como “eu sonho com você”, ela própria jovem o suficiente para achar aquilo meigo, em vez de bobo.
— Você o quê?
— Acordei de tanto gritar, diz ele. Você não ouviu?
— Não, ela responde ainda o fitando. Tenta ver se ele está brincando. É como se fosse uma piada matinal bizarra. Mas Harvey não é homem de brincadeiras. Para ele, humor é contar piadas à mesa de jantar sobre seus tempos no Exército. Janet já ouviu todas no mínimo cem vezes.
— Eu estava gritando umas palavras mas na realidade não conseguia dizer nada. Era como se… não sei… eu não conseguisse fechar a boca em torno das palavras. Parecia que eu tinha tido um derrama. E a minha a minha voz estava mais grave. Nem um pouco parecida com a minha voz verdadeira — diz ele, fazendo uma pausa. — Eu conseguia me ouvir e me obriguei a parar. Mas estava tremendo e tive de acender a luz por um tempo. Tentei mijar mas não consegui. Ultimamente parece que eu sempre consigo mijar, pelo menos um pouquinho, mas hoje, às 2h47 da madrugada, não consegui.
Ele faz uma pausa e fica sentado ali, sob o raio do sol. Janet vê os ciscos de poeira dançando na luz; aquilo parece envolve-lo numa auréola luminosa.
— Que sonho foi esse? — pergunta ela. Uma coisa estranha — essa é a primeira vez em cerca de cinco anos, desde que eles ficaram até tarde da noite discutindo se deveriam vender ou reter as ações da Motorola (acabaram vendendo), em que ela se interessa por algo que ele tem a dizer.
— Nem sei se quero contar a você — diz ele, exibindo uma timidez nada característica. Em seguida se vira, pega o moedor de pimenta e começa a joga-lo de uma ponta para a outra.
— Dizem que, se contamos nossos sonhos, eles não se realizam — diz ela, e surge a “coisa estranha número dois”: subitamente, Harvey parece estar presente ali de uma forma que não lhe parecia havia anos. Até sua sombra, na parede acima da torradeira, parece misteriosamente estar mais presente ali. Ela pensa: “Ele parece ter importância, e qual é o porquê disso? Exatamente quando eu acabo de pensar que a vida é esquálida, por que deveria achar que é consistente? É uma manhã de verão ao final de junho. Estamos em Connecticut. Sempre passamos os meses de junho em Connecticut. Logo um de nós irá pegar o jornal, que será dividido em três partes, tal como a Gália”.
— Dizem mesmo? — pergunta ele, contemplando as idéias com as sobrancelhas erguidas (Janet precisa apará-las novamente, pois já estão com aquela aparência selvagem, e Harvey nunca percebe), jogando o moedor de pimenta de uma mão para outra. Ela gostaria de manda-lo parar. Aquilo já a está deixando nervosa (tal como o negrume exclamatório da sombra dele na parede, tal como as batidas do seu próprio coração, que subitamente, sem razão nenhuma, começou a disparar), mas prefere não perturbar seus pensamentos nesta manhã de sábado.
Harvey larga o moedor de pimenta, e isso não deveria ser problema, mas de certa forma o é, pois o objeto tem uma sombra própria, que se projeta ao longo da mesa feito a sombra de uma peça de xadrez exageradamente aumentada. Até as migalhas das torradas que jazem ali têm sombra, e Janet não entende por que isso deveria assusta-la, mas fica assustada. Ela pensa no gato dizendo a Alice “todos nós somos loucos aqui” e subitamente não quer ouvir o sonho idiota de Harvey, do qual ele despertou aos gritos, parecendo um sujeito com um derrame. Subitamente, ela quer que a vida seja esquálida. A esqualidez é legal, a esqualidez é boa, quem duvida que olhe para as atrizes do cinema. Nada deve ser anunciado, pensa ela febrilmente. Sim, febrilmente; é como se estivesse tendo um daqueles acessos de calor típicos da menopausa, embora ela pudesse ter jurado que aquela bobajada terminara dois ou três anos antes. Nada deve ser anunciado, é sábado de manhã e nada deve ser anunciado.
Janet abre a boca para falar que entendeu a coisa ao contrário, na verdade dizem que, se contamos nossos sonhos, eles se realizam, mas é tarde demais, ele já está falando, e ela pensa que aquilo é o seu castigo por achar que a vida é esquálida. Na realidade, a vida é uma canção de Jethro Tull, espessa como um tijolo. Como ela pode ter pensado outra coisa?
— Sonhei que amanhecia e eu descia para a cozinha — diz ele. — Era sábado de manhã, tal como agora, só que você ainda não tinha acordado.
— Sempre me levanto antes de você nas manhãs de sábado — diz ela.
— Eu sei, mas era um sonho — diz ele pacientemente. Janet olha os pêlos brancos na parte interna das suas coxas, onde os músculos parecem moles, raquíticos. Antigamente, ele jogava tênis, mas foi a muito tempo. Ela pensa, com uma violência nada característica: “Você vai ter um enfarte, meu chapa, é isso que vai acabar com você, e talvez eles pensem em publicar um obituário seu no “Times”; mas, se alguma atriz de filme B da década de 50 ou uma bailarina semifamosa da década de 40 houverem morrido nesse dia, nem isso você vai ter”.
— Mas foi assim mesmo… Quer dizer, o sol estava brilhando aqui dentro — diz ele, erguendo a mão e agitando um turbilhão de ciscos de poeira em torno da cabeça. Janet sente vontade de gritar para que ele não faça aquilo, não perturbe o universo daquela maneira.
— Dava para ver minha sombra no chão.  Ela nunca me pareceu tão brilhante, ou tão espessa — diz ele, fazendo uma pausa e sorrindo. Ela vê que os lábios dele estão muito rachados. — “Brilhante” é uma palavra engraçada para usar em relação a uma sombra, não é? “Espessa” também.
— Harvey…
— Eu fui até a janela e olhei para fora. Vi que havia um amassado na lateral do Volvo do Frank e… não sei como… pressenti que Frank tinha saído para beber e que o carro tinha sido amassado no caminho para casa.
Subitamente, Janet sente que vai desmaiar. Ela própria vira o amassado na lateral do Volvo de Frank Friedman ao ir até a porta para ver se o jornal já chegara (ainda não) e pensara o mesmo, que Frank fora beber no Gourd e batera em alguma coisa no estacionamento. O que teria acontecido com o outro sujeito? Fora exatamente o que ela pensara.
Ela pensa que Harvey também já viu aquilo, que ele está brincando Poe alguma razão insondável. Isso é possível, certamente; o quarto de hóspedes em que ele dorme durante o verão tem vista para a rua. Só que Harvey não faz esse gênero. “Brincar” não é a “praia” de Harvey Stevens.
Ela sente o suor nas faces, na testa e na nuca, e seu coração nunca bateu tão rápido. Realmente parece que algo está se avizinhando, mas por que aquilo deveria estar acontecendo agora? Agora que o mundo está calmo e as perspectivas parecem tranqüilas? Se eu pedi isso, lamento, pensa ela. Ou talvez ela esteja rezando na realidade: Leve isso de volta, por favor, leve isso de volta.
— Eu fui até a geladeira e dei uma olhada lá dentro. Vi uma travessa de ovos cozidos coberta por plástico. Adorei ver aquilo… Eu já queria almoçar às sete da manhã — diz Harvey, rindo. Janet… ou melhor, Jax… baixa o olhar para a caçarola dentro da pia e examina o último ovo que resta ali. Os outros já foram descascados e fatiados em dois, com as gemas retiradas. Estão numa tigela ao lado do secador. Ao lado da tigela há uma jarra de maionese. Ela planejava servir os ovos cozidos no almoço junto com uma salada verde.
— Não quero ouvir o resto — diz Janet, mas numa voz tão baixa que ela mesma quase não se escuta. Antigamente, ela pertencia ao Clube de Drama; agora já nem consegue projetar a voz pela cozinha. Os músculos do seu peito parecem estar todos frouxos, como as pernas de Harvey estariam se tentasse jogar tênis.
— Pensei em comer um só — diz Harvey. — Mas depois pensei: “não”, se eu fizer isso, ela vai berrar comigo. E então o telefone tocou. Corri até lá, porque não queria que você acordasse. Agora vem a parte assustadora. Quer ouvir?

Soluços Sussurrados

Não, pensa ela, perto da pia. Não quero ouvir a parte assustadora. Ao mesmo tempo, porém, ela quer ouvir a parte assustadora, todo mundo quer ouvir a parte assustadora, todos nós somos loucos aqui, e sua mãe realmente dissera que, se contamos nossos sonhos, eles não se realizam. Isso significava que devíamos contar nossos pesadelos e guardar os sonhos bons para nós mesmos, escondê-los como um dente sob o travesseiro.
Eles têm três filhas. Uma delas mora na mesma rua: Jenna, uma divorciada animada, tem o mesmo nome de uma das gêmeas Bush, coisa que detesta. Passou até a exigir que as pessoas a chamem de Jen. Três meninas, coisa que significou muitos dentes sob os travesseiros, muitas preocupações com estranhos que oferecessem balas e caronas em carros, muitos cuidados. Ah, Janet torce para que sua mãe tenha razão, para que contar um sonho ruim seja como enfiar uma estaca no coração de um vampiro.
— Eu atendi o telefone e era Trisha — diz Harvey. Trisha é a filha mais velha, que idolatrava Houdini e Blackstone antes de descobrir os rapazes. — Ela só disse uma palavra a princípio, só “papai”, mas eu sabia que era Trisha. Sabe como nós sempre sabemos?
Sim. Janet sabe como n´s sempre sabemos. Nós sempre sabemos que são nossos filhos, desde sua primeira palavra. Pelo menos até eles crescerem a passarem a pertencerem a outras pessoas.
— Eu disse “oi, Trisha, por que você está ligando tão cedo, meu bem? Sua mãe ainda está dormindo”. A principio não houve resposta. Achei que a ligação tinha caído, mas depois, ouvi uns soluços sussurrados. Não chegavam a ser palavra, só meias palavras. Como se ela estivesse tentando falar, mas sem conseguir emitir nenhum som, porque estava sem forças ou sem fôlego. E foi então que comecei a ficar assustado.

Mal de Alzheimer

Bom, então ele é bem lento, não é? Pois Janet — que era a Jax na Sarah Lawrence, a Jax no Clube de Drama, a Jax que dava beijos de língua incríveis, a Jax que fumava Gitanes e fingia gostar de tragos de tequila —, Janet já está assustada há bastante tempo, já estava assustada entes de Harvey mencionar o amassado na lateral do Volvo de Frank Friedman.
E pensar nisso faz com que ela se lembre da conversa telefônica que teve com sua amiga Hannah há menos de uma semana, a conversa que acabou desembocando em aterrorizantes histórias sobre o mal de Alzheimer. Hannah estava na cidade. Janet enroscara-se junto à janela da sala e ficara olhando para aquele pedaço de terra que eles têm em Westport.
Olhando para todas aquelas belas coisas verdejantes que fazem com que ela espirre e fique com os olhos marejados. Antes que a conversa se desviasse para os casos de Alzheimer, elas haviam falado de Lucy Friedman e depois de Frank. Qual das duas dissera aquilo? Qual das duas dissera “se ele não tomar cuidado com esse negócio de beber e dirigir, vai acabar matando alguém”?
— Então Trisha disse algo que parecia ser “lixa” ou “Lícia”, mas no sonho eu sabia que ela estava… elidindo… essa é a palavra? Elidindo a primeira sílaba, e que na verdade dizia “polícia”. Eu perguntei o que tinha a polícia, o que ela estava tentando dizer a cerca da polícia, e me sentei. Bem ali — diz ele, apontando para uma cadeira no que eles chamam de cantinho do telefone.
— Houve outro silêncio, e depois outras daquelas meias palavras, aquelas palavras sussurradas. Ela estava me irritando tanto com aquilo, que eu pensei, “rainha do drama, sempre foi assim”, mas então ela disse “número”, claro como água. E eu pressenti — da mesma forma quando ela tentava falar “polícia” — que ela tentava me dizer que algum policial havia ligado para ela por não saber o nosso número.

Número Fora do Catálogo

Janet, amortecida, balança a cabeça. Eles haviam decidido retirar o número do catálogo porque os repórteres viviam ligando para Har4vey a respeito da confusão da Enron (uma das maiores empresas de energia dos EUA, que entrou em concordata em 2001 devido a fraudes financeiras).
Não Poe ele próprio ter algo a ver com a Enron, mas porque era uma espécie de perito em grandes companhias de energia. Chegara até a participar de um comitê presidencial alguns anos antes, na época em que Clinton era o manda-chuva e o mundo (ao menos na humilde opinião dela) era um lugar um pouco melhor, um pouco mais seguro.
E embora haja muitas coisas a respeito de Harvey das quais ela já não gosta, Janet sabe perfeitamente bem que ele tem mais integridade que todos aqueles canalhas da Enron juntos. Ela até pode se entediar com a integridade, às vezes, mas sabe muito bem o que é isso. Mas a polícia não tem um jeito de conseguir os números fora do catálogo? Bom, talvez não, quando há pressa em descobrir algo ou avisar alguém. Além disso, os sonhos não têm de ser lógicos, têm? Os sonhos são os poemas do subconsciente.
E agora, como ela já não agüenta mais ficar parada, Janet vai até a porta da cozinha e lança o olhar para aquele dia ensolarado de junho. Vê Sewing Lane, que é a pequena versão deles daquilo que ela supõe ser o sonho americano. Como esta manhã está calma, com um trilhão de gotas de orvalho ainda cintilando sobre a grama! Mas seu coração ainda martela dentro do peito, o suor rola pelo rosto e ela quer dizer a Harvey que ele precisa parar, que não pode contar esse sonho, esse sonho terrível. Precisa lembrar a ele que Jen mora bem ali na rua… Jen, isto é, Jen que trabalha na videolocadora da cidade e que nos finais de semana passa noites demais bebendo no Gourd com gente como Frank Friedman, que tem idade para ser seu pai. Coisa que indubitavelmente, é parte da atração.
— Todas aquelas meias palavrinhas sussurradas, e ela não falava — diz Harvey. — Então ouvi “morta” e pressenti que uma das meninas tinha morrido. Simplesmente pressenti. Não a Trisha, porque ela estava ao telefone, mas Jenna ou Stephanie. E fiquei tão assustado. Na realidade, fiquei sentado ali me perguntado qual delas eu queria que fosse, como a porra da escolha de Sofia. Comecei a gritar com Trisha. “Diga qual foi! Diga qual foi! Pelo amor de Deus, Trish, diga qual foi!” Só depois é que o mundo real começou a fluir novamente… presumindo que existia tal coisa.
Harvey dá uma risadinha e, na luz forte da manhã, Janet vê que há uma mancha avermelhada no meio do amassado no Volvo de Frank Friedman e que no meio da mancha há um trecho escuro que pode ser sujeira ou então cabelo. Ela pode imaginar Frank largando o carro todo torto junto do meio-fio às duas da madrugada, bêbado demais para tentar entrar na alameda, muito menos na garagem… reto é o portão e tudo mais. Ela pode vê-lo cambaleando até a casa com a cabeça baixa, respirando fundo pelo nariz. Viva o touro!
— Nesse ponto eu já sabia que estava na cama, mas ainda escutava aquela voz grava, que não se parecia nem um pouco com a minha; era como a voz de um estranho, que não conseguia terminar as palavras que pronunciava. “Diii-quaaa-fooo, diii-quaaa-fooo.” Era assim que ela soava. “Diii-quaaa-fooo,ish!” Diga qual foi. Diga qual foi, Trish.
Harvey silencia, pensando. Refletindo. Os ciscos de poeira dançam em torno do seu rosto. O sol faz a sua camiseta brilhar tanto que é até difícil fitá-la; é a camiseta de um comercial de sabão em pó.
— Fiquei deitado, esperando que você corresse até lá para ver qual era o problema — diz ele por fim. — Fiquei deitado ali todo arrepiado, tremendo, dizendo a mim mesmo que aquilo era só um sonho, como a gente sempre afaz, é claro, mas também pensando em como a coisa parecia real. E até maravilhosa, de uma forma terrível.

O Sonho de Um Poeta

Ele pára novamente, pensando em como dizer o que vem a seguir, sem perceber que a mulher já parou de lhe dar atenção. A ex-Jax está empregando toda sua mente, todos os seus consideráveis poderes mentais, para se forçar a acreditar que aquilo que ela está vendo não é sangue, e sim a camada de revestimento do Volvo, sob a tinta que foi arrancada. “Revestimento” é uma palavra que o subconsciente dela está ávido por oferecer.
— É incrível, não é, a profundidade da nossa imaginação? — diz ele por fim. — Um sonho como esse é como um poeta… um dos poetas verdadeiramente grandes… deve ver o seu poema. Com cada detalhe nítido e vívido
Ela silencia; a cozinha pertence de novo ao sol e aos ciscos dançantes. Lá fora, o mundo está à espera. Janet olha para o Volvo no outro lado da rua; o carro parece pulsar diante dos seus olhos, espesso feito um tijolo. Quando o telefone toca, ela gritaria se conseguisse ter fôlego, cobriria os ouvidos se conseguisse erguer as mãos. Ela ouve Harvey se levantar e ir até o cantinho. O aparelho toca novamente, e depois uma terceira vez.
É engano, pensa ela. Só pode ser, pois quando contamos nossos sonhos, eles não se realizam.
Harvey diz: — Alô?

William Wilson (Edgar Allan Poe)

IMAGINAI por um Momento que me chamo William Wilson. Meu nome verdadeiro não deve manchar a página virgem que tenho diante dos olhos. Demais, tem ele sido o horror e a abominação do mundo, a vergonha e o opróbrio de minha família. Não terão os ventos indignados levado a sua infâmia incomparável até às regiões mais longínquas do globo?
– Oh! Sou o mais abandonado de todos os proscritos! 0 mundo, as suas honras, as suas flores, as suas aspirações douradas, tudo acabou para mim. E, entre as minhas esperanças e o céu, paira eternamente uma nuvem espessa, lúgubre, ilimitada!
Ainda que pudesse, não quereria encerrar nestas paginas todas as lembranças dos meus últimos anos de miséria e de crime irremissível. Esse período recente da minha vida atingiu, de repente, tais dimensões de torpeza que seria tão horrendo como difícil descrevê-lo. 0 que quero é simplesmente determinar a origem desse súbito desenvolvimento de perversidade. Os homens, em geral, corrompem-se gradualmente; mas, de mim, a virtude desligou-se num momento, de uma vez, como se fora um manto. De uma perversidade relativamente ordinária, passei, com um salto gigantesco, a enormidades mais que heliogabálicas.
Permiti que vos conte do principio ao fim o caso, o acidente fatal, que motivou essa maldição. A morte aproxima-se e a sombra, que a precede, lançou, já, no meu coração, influência benéfica de arrependimento e de paz.
Próximo a atravessar o sombrio vale, suspiro pela piedade (ia dizer pela simpátia) dos meus semelhantes. Quereria convencê-los de que fui arrastado por circunstâncias superiores à resistência humana. Desejaria que descobrisse, na vasta seara de crime que vi desenrolar, algum pequeno oásis de fatalidade para mim. Que concordassem. (e talvez não possam deixar de concordar) que nunca, num mundo cheio de tentações, apareceu alguma coisa igual a esta e que jamais criatura humana sucumbiu vítima de torturas semelhantes.
Em verdade, tudo isto não será um sonho? Acaso não morrerei vitima do horror e do mistério da mais estranha visão de todas as visões sublunares?
Sou o descendente de uma raça conhecida, desde longo tempo, pela força da imaginação e pela extrema irritabilidade de temperamento, e confirmei desde pequeno o caráter tradicional de minha família, caráter que a idade desenvolveu e que veio, mais tarde, prejudicar-me de modo tão terrível como extraordinário.
Meus pais, fracos de espírito e, além disso, sofrendo do mesmo mal, quase nada podiam fazer para modificar os maus instintos que me distinguiam. Ainda assim, fizeram algumas tentativas, mas tão fracas e mal dirigidas, que abortaram inteiramente, convertendo-se em completo triunfo para mim. Desde então, minha voz foi a lei doméstica; e, numa idade em que poucas crianças pensam ainda sair do regaço materno, fui abandonado ao meu livre arbítrio, senhor absoluto de todas minhas ações.
As primeiras lembranças da minha vida de estudante estão ligadas a um casarão exótico, do estilo Isabel, situado numa aldeia tristonha da Inglaterra, semeada de árvores gigantescas, onde as casas eram todas de antiguidade respeitável. Na verdade, era um lugar fantástico, aquela aldeia antiga e venerável, e bem próprio para excitar a imaginação. Mesmo neste momento, sinto no espírito as impressões refrigerantes das suas avenidas, respiro as emanações das suas matas rumorosas, estremeço ainda, com indefinível voluptuosidade, à lembrança das badaladas profundas do sino, atravessando, de hora a hora, com o seu rugido súbito e moroso, a quietação da atmosfera escura. onde mergulhava o campanário gótico da igreja.
A recordação destas lembranças do colégio constitui. hoje, o único prazer que me é dado ainda sentir, imerso na desgraça, como estou (desgraça, ai. demasiado real); perdoar-me-ão procurar consolo bem ligeiro e bem curto nestas minúcias pueris e errantes. Além disso, por vulgares e insignificantes que pareçam, não podem deixar de ter na minha imaginação uma importância circunstancial, por motivo de sua íntima conexão com a época em que distingo agora os primeiros avisos ambíguos do destino, que ( Depois me envolveu tão profundamente na sua sombra. Deixai-me, pois, recordar. )
Como acabo de dizer, a casa era velha e irregular; a propriedade, grande, circundada por um muro de tijolos, alto e sólido, encimado por uma camada de argamassa e vidros quebrados. Aquela muralha, digna de uma prisão, formava os limites do nosso domínio. Não saíamos dali senão três vezes por semana; uma vez aos sábados de tarde, para uns passeios curtos e monótonos pelos campos vizinhos, em companhia dos prefeitos, e duas vezes aos domingos, quando íamos, com a regularidade de um regimento em parada, assistir aos ofícios da manhã e da tarde, na única igreja da aldeia.
0 cura dessa igreja era o reitor do colégio. Com que profundo sentimento de admiração e de dúvida o contemplávamos do nosso banco reservado, quando subia ao púlpito, com passo solene e vagaroso. Aquele personagem venerável, com aspecto tão modesto e tão benigno, vestes tão novas e tão clericalmente ondeantes, cabeleira tão perfeitamente empoada, tão direito e tão importante, podia ser o mesmo homem que, ainda agora, arrenegado e carrancudo, com as roupas todas sujas de tabaco, fazia executar, de palmatória na mão, as leis draconianas do colégio? Oh! gigantesco paradoxo, cuja monstruosidade não tem solução!
Mas, voltemos à descrição do edifício. Num ângulo da parede maciça, havia uma porta ainda mais maciça, solidamente carregada de fechaduras e terminada por um bosque de ferragens denticuladas. Essa porta (que sentimentos profundos ela inspirava) não se abria senão para as três saídas e entradas de que falei. Então, em cada crepitação dos seus gonzos possantes, achávamos uma superabundância de mistério, um mundo completo de observações solenes e de meditações ainda mais solenes.
0 recinto da propriedade era de forma irregular e dividido em muitas partes, das quais três ou quatro das maiores constituíam o pátio do recreio. Esse pátio, situado por detrás da casa, era alisado e coberto de areia, sem árvores nem bancos, nem coisa alguma semelhante: lembro-me perfeitamente. A frente do edifício, havia um pequeno jardim, plantado de buxo e outros arbustos; mas esse oásis sagrado só nos era franqueado em ocasiões solenes, tais como à entrada no colégio, à saída definitiva, ou ainda quando, convidados por algum parente ou amigo, partíamos alegremente para a casa paterna, nas férias do Natal ou de São João.
E a casa? Que curiosa construção apresentava! Para mim, que verdadeiro palácio mágico! Era um nunca acabar de recantos, de subdivisões incompreensíveis. Em qualquer parte que nos . achássemos, era difícil dizer ao certo se estávamos no primeiro ou no segundo andar. De sala para sala, havia sempre três ou quatro degraus a subir ou a descer. Depois, as subdivisões laterais eram incompreensíveis, inumeráveis, com tantas voltas e reviravoltas, que as nossas idéias mais exatas, relativamente ao conjunto da edificação, não eram mais aproximadas do que as que tínhamos do infinito. Durante cinco anos que ali residi, nunca me foi possível determinar exatamente a situação do
* dormitório que eu ocupava, em comunidade com pequeno mais dezoito ou vinte escolares.
A sala do estudo era a maior de todas da casa (e até de todo o mundo, pelo menos me parecia). Era muito comprida, muito estreita, com os tetos baixos e as janelas ogivais. Num canto afastado, de onde emanava o terror, havia um recinto quadrado de cito ou dez pés, que representava o “Sanctum” do nosso reitor, o Rev. Dr. Bransby, durante as horas de estudo.
Noutros dois cantos, viam-se outros compartimentos análogos, objetos de muito menos veneração: contudo, ainda era alvo de terror assaz considerável: um era a cadeira do mestre de belas letras; o outro a do mestre de inglês e de matemática. Espalhados pelo meio da casa, cruzavam-se, numa irregularidade completa, inumeráveis bancos e estantes carregadas de livros velhos e sujos; estas últimas, negras e antigas, estragadas pelo tempo, cobertas de cicatrizes, de letras e de nomes, de figuras grotescas e de outras numerosas obras-primas de canivete, conservavam apenas uns restos do pouco feitio original que noutros tempos haviam tido.
A uma extremidade da sala, estava um enorme balde cheio d’água e, na outra, o relógio de tamanho prodigioso.
Encerrado nos muros daquele colégio venerável, passei, todavia, sem aborrecimento nem mágoas, os anos do terceiro lustro de minha vida. 0 cérebro fecundo da infância não exige um mundo inferior acidentado para se entreter ou divertir; por isso, na monotonia aparente da escola, encontrei impressões mais vivas e mais intensas que todas as que a minha virilidade procurou depois, na devassidão e no crime.
0 meu primeiro desenvolvimento intelectual foi extraordinário, desregrado até. Em geral, os acontecimentos da vida infantil não deixam sobre a humanidade senão impressões mal definidas. Tudo são sombras, lembranças fracas e irregulares, confusão vaga de prazeres ligeiros e de penas fantasmagóricas. Comigo não acontece assim. É necessário que tenha sentido minha infância com a energia de homem feito; tudo o que encontro ainda hoje me está gravado na memória, com traços tão vivos, tão profundos e tão duradouros como as faces das medalhas cartaginesas.
E no entanto, debaixo do ponto de vista ordinário, esses dias mereciam pouca recordação. 0 levantar, o deitar, o estudo das lições, as recitações, os feriados periódicos e os passeios, o pátio do recreio, com suas lutas, os seus passatempos as suas intrigas, e nada mais; mas, tudo isso, por uma magia física que passou, continha uma superabundância de sensações, um mundo rico de incidentes, um universo de emoções variadas e de excitações inebriantes. Oh! bom tempo foi o desse século de ferro!
A minha natureza ardente, entusiasta e imperiosa, deu-me um lugar distinto entre os outros rapazes e pouco a pouco, como era natural, adquiri um poderoso ascendente sobre todos * os que não eram mais velhos do que eu; sobre todos, exceto sobre um. Este um era o aluno que, sem ter comigo parentesco algum, tinha o mesmo nome de batismo e o mesmo nome de família (circunstância pouco notável em si, porque o meu nome, não obstante a nobreza da origem, era um destes apelidos vulgares, que parece ter sido, desde tempo imemorial, por direito de prescrição,
propriedade comum do povo). Nesta narrativa, o nome de Wilson (nome fictício, mas que não está muito afastado do verdadeiro) : só o meu homônimo, entre todos os que, segundo a linguagem do colégio, compunham a nossa classe, ousava rivalizar comigo nos estudos das aulas, nos jogos e nas disputas do recreio, recusar fé absoluta às minhas asserções e submissão completa à minha vontade; em suma, contrariava minha ditadura em todos os casos possíveis. Se jamais houve no mundo despotismo supremo e sem restrição, é o que uma criança de gênio exerce sobre as almas menos enérgicas dos seus camaradas.
A rebelião de William era para mim fonte perene de desgostos, tanto mais que, não obstante a bravata com que afetava tratá-lo, e as suas pretensões, no fundo, temia-o. Não podia deixar de encarar a igualdade que mantinha tão facilmente comigo, como uma prova de verdadeira superioridade, porque, pela minha parte, não era sem grandes e contínuos esforços que conseguia conservar-me à sua altura. Contudo, essa igualdade, ou, antes, essa superioridade, não era reconhecida senão por mim; os outros rapazes, com uma cegueira inexplicável, pareciam não dar por isso.
Wilson parecia igualmente destituído da ambição que me impelia a dominar, e da energia que me dava autoridade. Dir-se-ia que o único móvel da sua rivalidade era o desejo caprichoso de me contradizer, de me assustar, de me atormentar, posto que muitas vezes não pudesse deixar de notar, com sentimento confuso de espanto, de cólera e de humilhação, que o meu rival misturava às impertinentes contradições certos ares de afetuosidade, os mais intempestivos e os mais desagradáveis do mundo. Não podia explicar a mim próprio semelhante conduta, senão supondo-a o resultado de uma presunção insolente, permitindo-se o tom da superioridade e da proteção.
A nossa homonímia, junto ao Fato, puramente acidental, de termos entrado ao mesmo tempo no colégio, espalhara, entre os nossos condiscípulos das classes superiores, a idéia de que éramos irmãos. Ordinariamente, os rapazes grandes não indagam com muita exatidão da vida dos menores. Já disse que William não era, nem no grau mais remoto, aparentado com minha família. Mas, se fôssemos irmãos, teríamos sido gêmeos, porque, depois de ter deixado a casa do Doutor Bransby, soube, por acaso, que o meu homônimo nascera no dia 19 de janeiro de 1813, sendo precisamente esse dia (coincidência notável) o do meu natalício.
Parece incrível que, não obstante a rivalidade de Wilson e o seu insuportável espírito de contradição, não tivéssemos chegado a odiar-nos absolutamente. É verdade que tínhamos todos os dias uma questão, na qual, concedendo-me publicamente a palma da vitória, Wilson não deixava de me fazer sentir, por qualquer forma, que era ele que a tinha merecido. Contudo, um sentimento de orgulho da minha parte, e da sua, uma verdadeira dignidade, mantinha-nos sempre nos termos da estrita conveniência. Ao mesmo tempo, a quase igualdade dos nossos caracteres havia despertado em mim um sentimento que, sem aquela situação hostil, teria progredido em amizade. Realmente, é-me difícil definir os verdadeiros sentimentos que nutria. por ele. Era uma mistura variegada e heterogênea: animosidade petulante, que não chegava a ser ódio; estima, respeito, muito receio e uma curiosidade imensa e inquieta. Para o moralista, é escusado acrescentar que William e eu éramos camaradas inseparãveis.
Em conseqüência dessa ambigüidade de relações, todos os meus ataques contra ele (e, francos ou dissimulados, esses ataques eram numerosos) tinham mais a forma da ironia e da brincadeira, que a da hostilidade séria e determinada. Mas, os meus esforços neste sentido não obtinham grande triunfo, por mais engenhosamente que os planasse – porque o meu homônimo tinha no caráter muita dessa austeridade plácida e reservada que dá aos que a possuem o privilégio de ferir os outros, sem mostrarem nunca o calcanhar de Aquiles. Nunca pude achar nele senão um ponto vulnerável; e isso mesmo era um pormenor físico que, procedendo talvez de uma enfermidade de construção, teria sido respeitado por qualquer antagonista menos encarniçado do que eu. 0 meu homônimo tinha fraqueza do aparelho vocal, que o impedia de levantar a voz acima de um murmúrio muito baixo. Era dessa imperfeição que eu tirava as minhas pequenas desforras.
Wilson tinha diferentes espécies de represálias, mas havia particularmente uma que me fazia ir aos ares. Não sei como chegou a perceber que semelhante futilidade produzia em mim tão grande efeito. Mas, desde que o descobriu, foi o seu gênero de tortura predileto.
0 meu nome de família, tão desengraçado e deselegante, e o meu nome próprio, tão trivial senão tão completamente plebeu, eram para mim, e toda a vida tinham sido, assuntos de grande desgosto. Ora, quando se apresentou no colégio, no mesmo dia da minha chegada, um segundo William Wilson, senti-me logo disposto contra ele, unicamente por se chamar assim, porque seria causa de eu ouvir pronunciar o dobro das vezes essas sílabas que me torturavam os ouvidos, porque a sua vida, no ram-ram das funções ,do colégio, seria, muitas vezes e imitavelmente, confundida com a minha. E, por todas essas razões, desgostei-me ainda mais do nome.
Este sentimento de irritação aumentava em cada circunstância, que tendia a pôr em evidência qualquer semelhança física ou moral entre mim e o meu homônimo. Nesse tempo, ainda eu não tinha descoberto o fato muito notável da paridade das nossas idades; mas via que éramos da mesma altura e achava até certa semelhança nas nossas fisionomias, o que me contrariava solenemente. A fama que corria, e que era geralmente acreditada, nas classes superiores, de que éramos parentes, exasperava-me do mesmo modo. Numa palavra, não havia nada que me encolerizasse mais (bem que eu me contrafizesse o mais possível para não dar a conhecer) do que uma alusão qualquer à nossa semelhança, quer física, quer moral, ou ao suposto parentesco. Todavia, nada me levava a crer que essas analogias tivessem dado lugar a comentários ou houvessem sequer sido percebidas pelos nossos camaradas de classe. Que Wilson as observasse com tanta atenção como eu, era natural; mas o que não era natural era ter descoberto em semelhantes circunstâncias mina tão rica de contrariedades para mim.
Tendo, pois, percebido quanto essas semelhanças me desagradavam, o meu homônimo aumentava-as ainda, arremedando-me com habilidade verdadeiramente prodigiosa.
Copiava-me o gesto, as minhas palavras; adotava o meu vestuário, o meu andar, as minhas maneiras, enfim, nem mesmo a minha voz lhe havia escapado, não obstante o seu defeito constitucional. Não me podia imitar as notas altas, mas o timbre e a entonação eram idênticos. Quando falava baixo, a sua voz era perfeitamente o eco da minha.
Não tentarei dizer-vos até que ponto aquele retrato curioso me apoquentava (porque não posso chamar-lhe. propriamente uma caricatura). A minha única consolação era que só eu notava essa perfeitíssima cópia; assim, não tinha a suportar senão os sorrisos misteriosos e singularmente sarcásticos de Wilson que, satisfeito de produzir no meu coração o efeito desejado, parecia deleitar-se, em segredo, na punhalada que me infligia, sem curar dos aplausos públicos, que o seu engenho lhe teria facilmente conquistado. Como é que os nossos camaradas não compreendiam, não se percebiam as manobras, não tomavam parte naquela maliciosa zombaria? Durante meses de inquietação, foi isto um enigma insolúvel para mim. Talvez que a lentidão graduada da imitação a tornasse menos notável; ou talvez devesse eu, antes, a minha salvação à perfeita mestria do copista que, desprezando a letra” (coisa única que os espíritos broncos podem apreciar na pintura), não se ocupava senão do espírito original. para maior admiração e desgosto da minha pessoa.
Já falei muitas vezes dos cruciantes ares de proteção que ele tomava para comigo e da sua intervenção oficiosa em quase todas as minhas vontades. Essa intervenção vinha, muitas vezes, sob a forma de conselho, conselho que não era dado francamente, mas sugerido, insinuado, 1 e que eu recebia com má vontade, a qual aumentava, à medida que me ia tornando mais velho. Contudo, nesta época longínqua, quero fazer-lhe a estrita justiça de confessar que tôdas as sugestões do meu rival eram ajuizadas e superiores à sua idade, ordinariamente destituída de reflexão e de experiência; que o seu bom-senso, os seus talentos e o seu conhecimento do mundo estavam muito acima dos meus; e que eu seria, hoje, melhor, e, por conseguinte, mais feliz, se não tivesse rejeitado tantas vezes os conselhos encerrados nessas assisadas sugestões, que então me inspiravam tamanho ódio e desprezo.
Por fim, revoltei-me inteiramente contra a sua odiosa vigilância. detestando cada vez mais o que eu considerava insolência intolerável. Disse que, nos primeiros anos da nossa camaradagem, os meus sentimentos para com ele poderiam, noutras circunstâncias, ter-se convertido em amizade; mas, durante os últimos meses que passei no colégio, não obstante a importunidade das suas maneiras habituais ter diminuído consideravelmente, esses sentimentos, numa proporção quase semelhante, tinham propendido para o ódio positivo. Uma vez, presumo que patenteei isto muito claramente, e, desde então, Wilson evitou-me ou simulou evitar-me.
Foi pouco mais ou menos nessa época (se a memória não me engana), numa altercação que tivemos, durante a qual ele perdeu a reserva ordinária, falando e portando-se com negligência quase estranha à sua natureza, que descobri ou imaginei descobrir na sua voz, nos seus modos e na sua fisionomia, geral, alguma coisa que me era muito familiar. Essa descoberta, primeiro, fiz-me estremecer, depois, interessou-me vivamente, trazendo ao espírito visões obscuras da minha primeira infância, recordações confusas, estranhas, resumidas, de um tempo que a memória não podia alcançar. Era como uma idéia extravagante e pertinaz de já ter visto o ser que me falava, em época muito antiga, em.período extremamente remoto, Essa ilusão, todavia, desvaneceu-se tão rapidamente como tinha vindo; não a menciono senão para determinar o dia da última altercação, que tive com o meu singular homônimo.
– 0 velho casarão do colégio, nas suas inumeráveis subdivisões, compreendia muitos quartos grandes, que comunicavam entre si e serviam de dormitório à maior parte dos alunos. Além disso, havia (como não podia deixar de ser numa edificação tão desastrada) uma quantidade de cantos e recantos, (sobras e remates da construção) que o talento econômico do Doutor Bransby tinha igualmente transformado em dormitórios; mas, como eram gabinetes pequenos, não podiam comportar mais de um indivíduo. Um destes quartos era ocupado por Wilson.
Uma noite, ‘ no fim do meu quinto ano de colégio, depois da alteração de que falei, levantei-me, enquanto todos dormiam, peguei num candeeiro e dirigi-me furtivamente, através de um labirinto de corredores estreitos, ao quarto do meu rival. Havia muito que projetava pregar-lhe uma.
partida, uma das tais troças que eu lhe fazia muitas vezes mas das quais, é preciso confessá-lo, nunca colhera grande resultado. Nessa noite, tinha resolvido pôr o meu plano em execução, disposto a fazer-lhe sentir toda a força da acrimônia que me animava contra ele. Quando chequei ao seu quarto, entrei, sem fazer bulha, deixando o candeeiro à porta, coberto com um guarda-luz, e avancei até sentir o ruído da sua respiração tranqüila. Tendo adquirido a certeza de que dormia profundamente, voltei à porta, pequei no candeeiro e aproximei-me novamente do leito.
As cortinas estavam fechadas. Ao abri-Ias, com todo ocuidado, para executar o meu projeto, a luz bateu em chapa no rosto do dormente; ao mesmo tempo o meu olhar caiu sobre a sua fisionomia… Penetrou-me instântanea mente uma sensação de gelo; o coração pulou-me no peito, vacilaram-me os joelhos; apoderou-se de toda a minha alma um horror espantoso, inexplicável! Respirei convulsivamente, aproximando ainda mais o candeeiro. Aquelas feições eram realmente as de Wilson? Sim, eram! eram! Que havia pois de extraordinário no seu semblante para
produzir em mim tal impressão? Contemplei-o durante alguns momentos, trèmulo, convulso; o meu cérebro girava sob a ação de mil pensamentos incoerentes. Êle não era assim, não! nunca chegara a ser assim nas horas ativas em que contrafazia a minha pessoa! Estaria verdadeiramente nos juizes da possibilidade humana, que o que eu via agora fosse unicamente , resultado dessa hábil imitação sarcástica? Gelado de espanto, apaguei o candeeiro, saí silenciosamente do quarto, e deixei para sempre o recinto daquela escola velha e extraordinária.
Depois de um lapso de alguns meses, que passei em casa de meus pais, na completa ociosidade, entrei para o Colégio de Eton. Esse pequeno intervalo bastara para dissipar as lembranças do Colégio Bransby, ou pelo menos para mudar consideravelmente a qualidade dos sentimentos que essas lembranças me inspiravam. 0 acontecimento, que me induzira a deixar o colégio, parecia-me agora efeito de pura imaginação. A realidade, o lado trágico do drama tinha desaparecido completamente. Quando me lembrava de semelhante aventura, admirava até onde pode chegar a credulidade humana, e ria-me da prodigiosa força de imaginação que havia herdado de minha família.
Ora, a minha vida em Eton não era nada própria para diminuir aquela espécie de ceticismo. 0 turbilhão de loucura em que mergulhei imediatamente varreu tudo, absorvendo de uma vez e inteiramente as impressões sólidas e sérias do passado.
Não pretendo, todavia, traçar aqui o curso dos meus miseráveis desregramentos, que nenhuma lei ou vigilância podia deter. Três anos eram passados; três anos perdidos em loucuras, durante os quais a minha alma se habituou ao vicio e o meu corpo adquiriu desenvolvimento quase anormal. Um dia, depois de uma semana inteira de dissipação brutal, convidei alguns estudantes dos mais dissolutos para uma orgia secreta no meu quarto. Reunimo-nos a altas horas da noite, devendo o deboche prolongar-se religiosamente até a manhã do dia seguinte. 0 vinho corria livremente, e outras seduções, talvez ainda mais perigosas, não tinham sido esquecidas. Quando a aurora despontava no oriente, o delírio e a extravagância tinham chegado ao apogeu.
Furiosamente inflamado pela embriaguez e pelas cartas, obstinava-me a propor um “toast” de todo indecente, quando a minha atenção foi subitamente distraída pela entrada precipitada de um criado, anunciando-me que alguém, que parecia estar com muita pressa, pedia para me falar no vestíbulo.
Excitado como estava pelo vinho, aquela interrupção inesperada causou-me mais prazer do que surpresa. Saí do quarto cambaleando, e em poucos segundos achei-me no vestíbulo da casa, uma sala baixa, estreita, alumiada apenas pela fraca luz da aurora, que penetrava através das janelas arqueadas. A pessoa que me esperava era um rapaz pouco mais ou menos da minha altura, vestido com uma roupa de casimira branca, exatamente irmã da que eu trazia nesse momento. Apenas me viu, avançou para mim, agarrou-me pelo braço com um gesto imperativo de impaciência, e murmurou-me ao ouvido: William Wilson. Aquelas palavras a minha embriaguez dissipou-se como por encanto. Havia nos modos do estrangeiro, no tremor nervoso do seu dedo erguido diante dos meus olhos, o que quer que seja sobrenatural. A importância, a solenidade da repreensão contida nas suas palavras baixas e sibilantes, o caráter, o tom, a chave dessas sílabas, simples, familiares, contudo misteriosamente segredadas, fizeram-me estremecer como se na minha alma se houvesse produzido a descarga de uma pilha voltaica.
Durante alguns segundos, o espanto e o terror aniquilaram-me o entendimento; quando voltei a mim, o rapaz tinha desaparecido.
Aquele acontecimento produziu um efeito poderosíssimo sobre minha imaginação desregrada. Contudo, esse efeito foi-se desvanecendo pouco a pouco. Pensei nisso, é verdade, durante muitas semanas, ora entregando-me a sérias investigações, ora permanecendo dias e dias engolfado em mórbidos pensamentos. A identidade do indivíduo, que se intrometia tão obstinadamente nos atos da minha vida, não me deixava dúvidas. Mas, quem era? Quem era William Wilson, de onde vinha e quais os seus fins? Esses pontos ficaram sempre obscuros para mim. De todas as indagações que fiz a seu respeito, só pude saber que um acontecimento súbito o obrigara a deixar o colégio na mesma tarde do dia em que eu fugira. Entretanto, passado certo tempo, deixei de pensar nisso, para me entregar inteiramente aos projetos da minha partida para Oxford.
Apenas chequei àquela cidade (permitindo-me a gene- rosidade pródiga de meus pais o luxo e a opulência tão caros ao meu coração) comecei a rivalizar em prodigalidades com os primeiros herdeiros dos condados mais ricos da Grã-Bretanha.
Incitado ao vicio por semelhantes meios, dei largas à natural propensão, calcando, na embriaguez louca dos meus desregramentos, os obstáculos vulgares da honra e da decência. Mas, seria absurdo demorar-me nos debates de tais extravagâncias. Basta dizer que as minhas dissipações ultrapassaram as de Herodes. Inventando uma multidão de loucuras novas, ajuntei copioso apêndice ao longo catálogo dos vícios que reinavam então na universidade mais devassa da Europa.
Enfim, arrastado pela corrente impetuosa da libertinagem e da cobiça, rebaixei-me ao ponto de adquirir as manhas mais vis dos jogadores de profissão, praticando habitualmente essa ciência desprezível como meio de aumentar a minha fortuna, já avultada, à custa da dos meus camaradas. A enormidade do 4tentado, incompatível com todos os sentimentos de honra e de dignidade, era por isso mesmo a minha salvaguarda. Qual dos meus camaradas, mesmo dentre os mais depravados, teria ousado conceber tal suspeita, do alegre, do franco, do generoso Willíam Wilson, do rapaz mais nobre e mais liberal de Oxford, aquele cujas loucuras, diziam os seus parasitas, não eram senão expansões da mocidade desenfreada, cujos erros não eram senão inimitáveis caprichos, e cujos vícios tenebrosos não passavam de ligeiras extravagâncias!
Deste modo alegre, tinha eu passado dois anos, quando chegou à universidade um rapaz de nobreza recente, chamado Glendinning, rico, diziam, como Herodes Attico, e que não punha muita dúvida em gastar a sua fortuna. Tratei de travar conhecimento com ele, e, vendo que era fraco de inteligência, assinalei-o desde logo para vítima dos meus talentos. Convidei-o a jogar muitas vezes, deixando-o ganhar a princípio, somas consideráveis (conforme a manha habitual dos jogadores). Por fim, o meu plano estando bem pensado, encontramo-nos (eu com a intenção bem firme de fazer das minhas) em casa de um dos nossos camaradas, M. Preston, igualmente conhecido de ambos, mas que, devo dizê-lo, não tinha a menor tenção de fazer jogo em sua casa. Para dar a tudo aquilo melhor aparência, trouxe comigo uma sociedade de oito a dez rapazes, preparando as coisas de modo quê a introdução das cartas parecesse perfeitamente acidental e que a idéia do jogo partisse da própria vítima. Em resumo (para abreviar assunto tão vil), não esqueci nenhuma das espertezas empregadas em casos idênticos, espertezas tão estúpidas e tão sabidas que, custa a crer, haja sempre pessoas assaz simples que se deixem enganar por elas. 0 jogo meu favorito foi o “écarté”.
A noite ia já em mais de meio, quando operei enfim de maneira a ficar com Giendinning por único adversário. As outras pessoas, interessadas pelas proporções grandiosas que ia tomando o nosso combate, tinham largado as cartas e faziam galeria à roda de nós. Glendinning baralhava, dava as cartas e jogava de modo singularmente nervoso; mas, como eu o fizera beber copiosamente durante a primeira parte da noite, imaginei que aquele estado era só efeito da embriaguez. Em pouco tempo, devia-me soma considerável. Então, depois de ter bebido mais um copo de Porto, fez exatamente o que eu tinha previsto: quis dobrar a parada, já muito extravagante. Com uma feliz afetação de resistência e só depois da minha recusa reiterada lhe ter provocado palavras azedas e duras, que deram ao meu consentimento a forma de vingança, cedi. 0 resultado foi o que devia ser. A presa caíra perfeitamente no laço; em menos de uma hora, a sua dívida tinha quadruplicado. Então, notei, com espanto, a palidez terrível ,que substituíra, quase repentinamente, na fisionomia do meu adversário, a vermelhidão do vinho. Digo com espanto,, porque, segundo as informações cuidadosas que tomara sobre Glendinning, imaginava-o prodigiosamente rico, e as somas que ele tinha perdido até ali, se bem que realmente fortes, não podiam (pelo menos assim o supunha eu) embaraçá-lo àquele ponto. Imaginei, ainda, que toda a sua perturbação era produzida pelo vinho e não por qualquer motivo de desinteresse; mas, unicamente para salvaguardar perante os outros rapazes a reputação do meu caráter, ia insistir peremptoriamente para acabar o jogo, quando algumas palavras pronunciadas ao meu lado e uma exclamação de Glendinning, exprimindo o mais completo desespero, me fizeram compreender que o tinha totalmente arruinado. Ser-me-ia difícil dizer a conduta que teria adotado em semelhante circunstância. A situação deplorável da minha vitima sensibilizava e entristecia a todos. Durante alguns minutos de profundo silêncio, senti, a meu pesar, ruborizarem-se-me as faces sob os olhos ardentes de repreensão que me dirigiam os menos endurecidos da sociedade. Confessarei, mesmo, que senti o coração aliviado dum peso intolerável à interrupção extraordinária que se seguiu. De repente, abriram-se de par em par as portas pesadas do aposento com uma impetuosidade tão vigorosa, que toda, as velas se apagaram como por encanto. Mas, antes de se extinguir, a luz deixou-nos ver alguém que entrava, u homem proximamente da minha estatura, embuçado nu capote. Não obstante, as trevas sendo agora completas, só o podíamos sentir no meio de nós. Antes de alguém ter voltado a si do espanto excessivo que produzira em todos aquela violência, ouvimos a voz do intruso:
– Meus senhores, – disse ele “com voz muito baixa”, mas distinta, uma voz inolvidável, que me gelou até à medula dos ossos, – meus senhores, não peço desculpa da minha conduta, porque, procedendo assim, não fiz mais que cumprir um dever. Não conheceis decerto o caráter da pessoa que acaba de ganhar no “écarté” uma soma enorme a Lorde Glendinning. Vou, pois, propor-vos um meio rápido de chegardes a esse importantíssimo conhecimento. Peço-vos, examinai bem o forro do canhão da sua manga esquerda e algumas cartas que achareis nas algibeiras assaz vastas do seu casaco.
0 silêncio em que o escutavam era tão profundo, que teria ouvido o ruído de um alfinete caindo ao chão. 0 desconhecido, mal acabou de falar, partiu tão bruscamente como havia entrado. Quanto a mim, não posso descrever, nem mesmo sei quais foram as minhas impressões! Senti-me agarrado por muitos braços, depois vieram luzes; seguiu-se uma pesquisa na minha pessoa. No forro da manga, acharam-me todas as figuras essenciais do “écarté” e, nas algibeiras do casaco, certo número de baralhos de cartas exatamente iguais aos que usávamos nas nossas reuniões, com a diferença de que as minhas eram daquelas chamadas propriamente boleadas. As cartas principais, sendo ligeiramente convexas do lado Pequeno, e as ordinárias imper- ceptivelmenté convexas do lado grande. Graças a esta disposição, o “ingênuo”, que corta o baralho (como se faz habitualmente) no sentido do cumprimento, corta, invariavelmente, de forma a dar ao parceiro uma carta principal, enquanto que o “esperto”, cortando no sentido da largura, não dará à sua vítima nada que possa levar-lhe vantagem.
Uma tempestade de indignação ter-me-ia feito sofrer menos que o silêncio desdenhoso e os sorrisos sarcásticos que acolheram aquela descoberta.
– Sr. Wilson, – disse o dono da casa, apanhando do chão uma capa magnífica forrada de peles preciosas, – Sr. Wilson, isto é seu (como o tempo estava frio, eu tinha efetivamente trazido uma capa, que tirara ao entrar na sala do jogo); creio – acrescentou, mirando as pregas da capa, com um sorriso amargo – creio que será escusado procurar aqui mais provas da sua arte: bastam-nos as que temos. Espero que compreenderá a necessidade de deixar Oxford; em todo o caso, sairá imediatamente de minha casa.
Aviltado, humilhado até a lama, é provável que tivesse castigado imediatamente aquela linguagem insultante: com alguma violência pessoal, se a minha atenção não estivesse, naquele momento, toda absorvida por um fato verdadeiramente pasmoso. A minha capa era um traste riqussimo, forrada de peles esplêndidas, duma variedade e dum preço extravagante (é inútil dizê-lo). 0 feitio era de fantasia, inventado por mim, porque me ocupava muito de todas essas futilidades luxuosas, levando o furor do dandismo até ao absurdo. Por isso, quando M. Preston me entregou a capa, que apanhara do chão, vi, com espanto vizinho do terror, que já trazia a minha no braço e que aquela, até nos pormenores minuciosos, era perfeitamente semelhante. Não perdi, contudo, a presença de espírito; pequei-a, coloquei-a sobre a minha, sem que os outros dessem por isso, e sai da sala com um olhar ameaçador. Na madrugada seguinte, deixei precipitadamente Oxford e fugi para o continente, coberto de vergonha e de terror.
Fugia em vão! 0 meu destino maldito perseguiu-me triunfante, provando-me que o seu poder misterioso tinha apenas começado. Mal pus os pés em Paris, tive logo uma prova da jurisdição de Wilson. Decorreram anos sem tréguas para mim. Miserável! Em Roma, com que desvê-lo importuno, com que ternura de espectro, veio interpor-se entre mim e a minha ambição! E em Vienal E em Berlim! E em Moscou! Aonde podia eu ir, que não achasse logo uma razão amarga para o amaldiçoar do fundo do coração? Atacado por um pânico indescritível, fugia diante da sua tirania como diante da peste. Fugi até ao fim do mundo, mas fugi em vão!
E sempre, sempre interrogando secretamente: a alma, repetia as minhas perguntas: Quem é? De onde vem?
Que quer? E analisava, então, com minucioso cuidado, as formas, o método, as feições características da sua insolente vigilância. Mas, nem nesse ponto achava nada que pudesse servir de base a uma conjetura. Era uma coisa verdadeiramente notável, que nos casos numerosos em que Wilson tinha recentemente, atravessado o meu caminho, todos os planos derrotados por ele eram loucuras que, se tivessem progredido, teriam fatalmente rematado por uma desgraça. Triste justificação, na verdade, de uma autoridade tão imperiosamente usurpada! Triste indenização dos direitos naturais do livre arbítrio, tão teimosa e insolentemente denegados!
Havia muito tempo que o meu carrasco, posto que exerceu sempre escrupulosamente e com destreza milagrosa a sua mania de “toilette” idêntica à minha, se apresentava em todas as suas intervenções, de maneira a não me mostrar o rosto. Quem quer que fosse esse danado Wilson, por certo semelhante mistério era o cúmulo da afetação e da toleima. Podia, acaso, supor que no meu conselheiro de Eton, no destruidor da minha honra em Oxford, naquele que tinha contrariado a minha ambição em Roma, a minha vingança em Paris, os meus amores em Nápoles e no Egito a minha cobiça, que nesse ente, meu grande inimigo e meu gênio mau. eu não reconhecia o William Wilson do colégio, o homônimo, o camarada, o rival temido e execrado da casa Bransby? Era impossível! Mas, deixai-me chegar à terrível cena que fechou o drama.
Até então, havia-me submetido covardemente ao seu domínio imperioso. 0 profundo sentimento de respeito com que me habituara a considerar o caráter elevado, a majestosa sabedoria, a onipresença e onipotência aparentes de Wilson, misturando com não sei quê de sensação e de terror, que inspiravam as outras feições da sua natureza e certos privilégios, tinham-me incutido a idéia da minha completa fraqueza e impotência, aconselhando-me, humildemente, sem restrição, posto que cheia de tristeza e de repugnância, submissão à sua arbitrária ditadura. Mas, ultimamente, tinha-me abandonado de todo ao vinho, e a sua influência irritante sobre o meu temperamento hereditário tornava-me cada vez mais rebelde a toda qualidade de censura. Entrei a murmurar, a hesitar, a resistir. Depois, pouco a pouco, comecei a sentir a inspiração de uma esperança ardente. Por fim, alimentei, em segredo, no pensamento, a resolução desesperada daquela escravidão.
Era em Roma, durante o carnaval de 18 … ; achava-me num baile de máscaras, no palácio do Duque Di Broglio, de Nápoles. Nessa noite, tinha abusado do vinha ainda mais do que o costume, e a atmosfera sufocante das salas cheias de gente irritava-me de modo insuportável. A difculdade de abrir caminho através da multidão não contribuiu pouco para me exasperar, porque procurava com ansiedade
(não direi com que indigno fim) a jovem, a alegre e bela li uma confiança assaz imprudente, me havia confiado o segredo do “costume” que ela devia trazer ao baile. Tendo-a avistado, finalmente, ao longe, apressava-me a chegar até ela, quando senti alguém que, ao de leve, me tocava o ombro, e depois o tom meu ouvido!
Do lho e extravagante Di Brog o que, com inolvidável, profundo, maldito murmúrio. Voltei-me furioso para aquele que assim me interrompia e agarrei-o violentamente pela gola. Trazia, já se vê, costume igual ao meu; manto espanhol de veludo azul e espada suspensa à cintura por um boldrié carmesim; a cara inteiramente coberta com uma máscara de seda preta.
– Miserável! – exclamei, com a voz enrouquecida pela cólera, que me aumentava a cada sílaba que proferia, – miserável! impostor! Celerado não voltarás mais a perseguir-me, a atormentar-me! Vem comigo ou mato-te aqui mesmo!
Dizendo aquelas palavras, abria caminho da sala do baile para uma pequena antecâmara contígua, arrastando-o irresistivelmente atrás de mim.
Apenas entrei, atirei com ele para longe, de encontro a uma parede; depois, fechei a porta, com uma praga tremenda, e mandei-o desembainhar a espada. Hesitou um segundo; por fim, suspirando ligeiramente, pôs-se em guarda, com silêncio e tranqüilidade extraordinárias.
0 combate não foi longo. Exasperado como estava, por ardentes excitações de toda espécie, sentia no braço a energia e o poder de um exército. Dentro em poucos segundos, levei-o contra a parede e ali, tendo-o à discrição, cravei-lhe repetidas vezes a espada no peito, com a ferocidade de um bruto.
Nesse momento, mexeram na fechadura da porta. Apressei-me a prevenir alguma invasão e voltei imediata- mente para junto do meu adversário agonizante. Mas que linguagem humana pode traduzir o espanto e o horror que se apoderaram de mim, ao espetáculo que, se me deparou!
Durante o curto instante que me afastara, produzira-se nas disposições locais do aposento uma mudança material.
No lugar onde me recordava de não ter visto – nada, estava agora um espelho enorme (no estado de perturbação em que me achava, assim se me afigurou) e, como eu caminhasse para ele, cheio de terror, a minha própria imagem, mas com a cara horrivelmente pálida e toda salpicada de sangue, avançou para mim a passos lentos e vacilantes.
Tal se me afigurava, digo, mas realmente não era assim. Era o meu adversário, era Wilson moribundo, que se erguia diante de mim. A sua máscara e o seu manto estavam no chão. Não havia um fio no seu vestuário, nem uma linha em toda a sua figura (tão caracterizada e tãcr singular) que não fosse meu, que não fosse minha; era o absoluto na identidade!
Era Wilson, mas Wilson sem murmurar já as suas palavras! Falando alto, e de modo que me pareceu que era a minha própria voz, que dizia:
– Venceste e eu sucumbo. Mas, doravante também estás morto, morto para o mundo, para o céu e para a esperança! Em mim existias; e, agora, olha para a minha morte, vê nesta imagem, que é a tua, como te assassinaste a ti próprio!

Ratos do Cemitério (Henry Kuttner)

O Velho Masson, zelador de um dos mais antigos e relaxados cemitérios da cidade de Salem, vivia eternamente às voltas com os ratos. Há gerações atrás, tinham vindo eles dos molhes, dos cais, e se instalaram no cemitério, uma verdadeira colônia de enormes ratos. Quando Masson passou a ocupar o atual cargo, após o desaparecimento inexplicável do outro zelador, decidira dar-lhes caça. A principio, deitara-lhes armadilhas, envenenara comida, que largava pelos buracos, e, mais tarde, experimentara matá-los com uma espingarda, mas nada conseguiu. Os ratos continuavam, multiplicavam-se, infestando o cemitério, com suas hordas inextinguíveis.
Eram enormes, mesmo para o “mus decumanus”, que as vezes chega a medir quinze polegadas, excluindo-se o rabo cinza e rosa. Masson entrevira alguns tão grandes quanto gatos e, quando, certa vez, os coveiros remexeram em suas tocas, os mal odorosos túneis eram tão largos, que permitiriam a passagem de um homem agachado.
Vieram de distantes portos Salem, trouxeram consigo. Os navios, que gerações atrás para os cais arrebentados de estranhas cargas.
Masson frequentemente se admirava do tamanho desses túneis. Lembrava-se vagamente de lendas perturbadoras, que ouvira ao chegar àquela Salem, antiga e povoada de contos de feitiçaria – narrativas de uma vida inumana, moribunda, que se dizia ter existido em tocas esquecidas, nas profundezas da terra. Os velhos dias em que Cotton Mather perseguira os cultos diabólicos, que veneravam Hécate e a Magna Mater, orgias infernais, tinham passado. Mas, escuras e tétricas casas de torres pontiagudas ainda se inclinavam perigosamente umas para as outras em ruelas estranhas. E segredos blasfemos atestavam que, nas suas cavernas e adegas subterrâneas, celebravam-se ainda os ritos negros, que desafiam a sanidade mental. Meneando gravemente a cabeça branca, os mais velhos afirmavam que havia. Poucas cousa piores que ratos infestando a terra esburacad dos antigos cemitérios de Salem.
E, aqui, voltamos à curiosa questão dos ratos. Masson odiava e respeitava os ferozes roedores, pois conhecia o perigo que se desprendia de seu pêlo luzidio e caninos aguçados. Não entendia, porém, o horror que os mais velhos ressentiam pelas casas abandonadas de viventes e infestadas de ratos. Ouvira vagos rumores sobre – espectrais, que perambulam pelos subterrâneos e cujo poder se exerce sobre ratos, a organizá-los como um verdadeiro exército. Os ratos, murmuravam os mais velhos, são os mensageiros entre este mundo e o outro, que se oculta sob a terra de Salem. Cadáveres tinham sido roubados de seus túmulos, para os festins subterrâneos, assim diziam.
Masson não cuidava muito dessas histórias. Não confraternizava com seus vizinhos e tudo fazia, na verdade, para ocultar a existência dos ratos aos intrusos. Investigações, pensava ele, não sem razão, significariam a abertura de inúmeros túmulos. E, conquanto alguns caixões e corroídos, esvaziados mesmo, pudessem ser atribuídos à ação dos ratos, Masson achava difícil explicar os corpos atirados, que jaziam em algumas das tumbas.
0 ouro, o mais puro, é usado na obturação de dentes, o esse ouro não é removido por ocasião do sepultamento. Roupas, está claro, são outro assunto, pois o agente funerário se encarrega de que seu cliente vista as mais baratas possíveis. Mas o ouro não. E, mais ainda: estudantes de Medicina e médicos de reputação duvidosa estão sempre à cata de cadáveres e não se incomodam absolutamente em conhecer a origem desse fornecimento.
Por isso, Masson, até agora, conseguira impedir as investigações. Negara firmemente a existência dos ratos, embora estes lhe roubassem freqüentemente a presa. Masson pouco se incomodava com o que acontecesse aos corpos, depois que neles tivesse exercido sua operação, e os ratos, exoravelnente, arrastavam, o cadáver, através do buraco, roíam na parede do caixão.
0 tamanho desses buracos, às vezes, preocupava Masson. Acrescia, ainda, a estranha circunstância dos sarcófagos serem sempre abertos na parte correspondente às extremidades, nunca no cimo ou nos lados. Poder-se-ia crer que trabalhavam sob as ordens de algum líder impassível e extraordinariamente inteligente.
Neste momento, Masson achava-se de pé, em uma cova descoberta, atirando para o lado os últimos montes de terra. Chovia, uma garoa miúda e fria, que, por se- manas a fio, castigava a terra. 0 cemitério parecia um lamaçal amarelo, de que se destacavam as tumbas, como monstros desordenados.
Os ratos haviam-se retirado para suas tocas e fazia dias que Masson não punha o os sequer num. Seu rosto barbudo e de expressão dura estava totalmente enrugado. 0 caixão que pisava era de madeira.
0 corpo tinha sido sepultado dias antes, mas Masson ainda não ousara desenterrá-lo. Um parente do morto viera ao cemitério, por diversas vezes, arrostando o mau tempo. Confiava, porém, agora, em que não apareceria a horas tão tardias, por maior que fosse a sua dor, pensava Masson, a fazer caretas das mais horríveis. Descansou por instantes.
Da colina, em que estava situado o velho cemitério, divisava as luzes de Salem, tremeluzindo, através da neblina. Tirou uma lanterna do bolso. Precisaria de luz, agora. Empunhou a pá, inclinou-se e examinou a fechadura do caixão.
Parou abruptamente. Sua atenção foi despertada por um leve mexer, sob seus pés, como se algo se movesse dentro do caixão. Um medo supersticioso tomou conta dele, detendo-lhe a respiração, até que percebeu o significado daqueles ruídos. Os ratos tinham-no precedido, despojando-o de sua presa.
Num paroxismo de ódio, Masson arrebentou as ligaduras do caixão, enfiando a ponta da pá entre a tampa e o esquife: propriamente dito. Iluminou-o com a lanterna.
A chuva caiu de encontro ao cetim branco, do forro. 0 caixão estava vazio. Masson percebeu movimento na extremidade do sarcófago e dirigiu a lanterna para ela. Um buraco enorme deixava entrever um sapato preto, que se arrastava vagarosamente, e o homem compreendeu que os ratos o haviam precedido de apenas alguns minutos.
Caiu sobre os joelhos e tentou agarrar o sapato, deixando tombar a lanterna dentro do caixão. 0 sapato não foi, alcançado e ele ouviu um guincho agudo, excitado. Tomou novamente a lanterna, iluminando o buraco.
Era bem grande. Tinha que ser, ou o cadáver não poderia ter sido arrastado por ali. Masson espantou-se ainda uma vez ante o tamanho de ratos, que podiam agúentar com o cadáver de um homem, mas a certeza do remover, que carregava no bolso, confortou-o. Provavelmente, se o cadáver fosse de uma pessoa comum, Masson o deixaria entregue aos raptores e jamais se aventuraria naquela toca, mas estava bem lembrado de que o cadáver vestia uma camisa de linho finíssimo e que seu alfinete de gravata era de pérola. Sem quase refletir, pendurou a lanterna na cinta e engatinhou no buraco.
Era apertado. mas conseguiu passar. Bem à sua frente, podia ver os sapatos que andavam por sobre a terra úmida das profundezas do túnel. Engatinhou o mais rapidamente que pode, às vezes tendo que se arrastar de barriga, por falta de altura.
0 ar era irrespirável. Se não alcançasse o corpo em um minuto, decidiu Masson, voltaria. Terrores subconscientes começavam a fazer-lhe companhia, sem que pudesse evitar, mas o ódio impelia-o para a frente. Arrastou-se, atravessando túneis, que se entroncavam. As paredes eram limosas e por duas vezes bolas de lama caíram sobre e atrás dele. Da segunda vez, parou. Não enxergava. Desatou a lanterna da cinta e iluminou a escuridão.
Torres de terra amontoavam-se atrás dele e o perigo sua posição, de repente, tornou-se real, pavoroso. Com medo de ficar sepultado vivo, resolveu abandonar a perseguição, embora quase alcançado o cadáver e o ser invisível, que o arrastava. Mas, não pensara em uma cousa. 0 túnel era muito estreito, para permitir que ele se virasse. 0 pânico assaltou-o, mas lembrou-se: de um túnel que atravessara havia instantes e de costas; entrou nele girando aos poucos, até poder prosseguir de frente. Rápido tentou encontrar o caminho de volta. conquanto ” Joelhos estivessem machucados e trêmulos.
Uma dor aguda paralisou-lhe a perna. Um dente agudo se enterrara em sua carne. Masson se bateu freneticamente. Ouviu guinchos excitados e o mover de muitos pés. Iluminando com a lanterna, Masson prendeu a respiração, num choque causado pelo susto, ao perceber uma dúzia de enormes ratos, que* o contemplavam firmemente, seus olhos rasgados, brilhando àquela luz. Eram enormes, tão grandes como gatos, e atrás deles entreviu uma sombra negra, que deslizou suavemente. Masson estremeceu ante o descomunal daquela cousa invisível.
A luz os detivera momentaneamente, mas, agora, se aproximavam, os dentes alaranjados devido à iluminação. Masson conseguiu sacar a pistola do bolso e mirou cuidadosamente. Sua posição era péssima. Firmou os pés nas paredes limosas, para não desperdiçar o tiro.
0 ruído espantoso da explosão ensurdeceu-o por instantes e a fumaça provocou-lhe tosse. Quando pode ver e ouvir novamente, os ratos tinham desapareci o. Recolocou a pistola no lugar e quis prosseguir a caminhada de volta, mas, entre guinchos e arrastar de pés, já estavam de novo em cima dele.
Treparam em suas pernas, mordendo e guinchando loucamente. Masson estremeceu, ao procurar o revólver. Atirou sem mirar e unicamente a sorte o livrou de arrancar o próprio pé. Desta vez, os ratos não foram longe, mas Masson corria o melhor que podia, pronto para atirar ao primeiro ruído suspeito.
Novo ruído de pés e o homem iluminou, com a lanterna, atrás de si. Um enorme rato cinzento parou e vigiou-o. Seus longos bigodes moviam-se e o rabo, escabroso e sem pêlos, balançava de um lado para outro. Masson gritou, e o rato afastou-se.
Prosseguiu, detendo-se ante um túnel negro, bem à altura de seu cotovelo, bloqueado por uma massa, que julgou, por instantes, ser terra, desmoronada do teto, para logo verificar, horrorizado, que se tratara de um corpo humano.
Era uma múmia marrom, enrugada, e, por pior que aquilo lhe parecesse, a cousa se movia.
Arrastava-se na sua direção e, à luz da lanterna, a cara horrenda mergulhou na sua. Era um esqueleto de muitos anos, a viver uma vida diabólica. Não tinha olhos, mas buracos, que. inexplicavelmente, brilhavam, através de sua cegueira. E aquilo gritava à medida que avançava para Masson, a boca entreaberta e retorcida. Masson enregelou de pavor e nojo.
Antes que aquele horror o tocasse, Masson enterrou-se no túnel ao lado. Ouviu um arranhar de garras atrás dele, olhando de esguelha, gritou, gritou, enquanto mais enterrava no buraco estreito. Arrastou-se desajeitadamente, sentindo que pedrinhas agudíssimas lhe dilaceravam as mãos e os joelhos. A sujeira penetrara-lhe os olhos, mas não ousava parar. Engatinhava, blasfemando, respirando com dificuldade e rezando histericamente.
Guinchando triunfalmente, os ratos chegaram-se a ele, a fome horrenda escrita nos olhos. Masson quase sucumbiu ante os dentes agudos, mas conseguiu afastá-los. A passagem estreitava-se cada vez mais. No paroxismo do terror, Masson deu pontapés, gritou.
Achou-se, engatinhando, sob enorme pedra, incrustada no teto, que pesava cruelmente nas suas costas. Moveu-se Um pouco, quando foi atingido por seu corpo. Uma idéia atravessou a mente quase enlouquecida do homem. Se pudesse arrancar a pedra e bloquear o túnel!
A terra estava úmida, devido às chuvas e, de cócoras, Masson começou a escavar em torno da pedra. Os ratos se aproximavam cada vez mais. Via-lhes os olhos que brilhavam, a cada tremeluzir da lanterna. A pedra começava a ceder.
Um rato se aproximou – o monstro, que já entrevira. Cinzento e leproso, avançava, com os dentes alaranjados à mostra, rebocando aquela cousa morta; que guinchava à medida que se arrastava. Masson esforçou-se, trabalhando, desesperado, e sentiu que a pedra ia cair. Rápido, continuou a arrastar-se pelo túnel.
Atrás, a pedra ruiu fragorosa, e ouviu-se súbito guinchar de agonia. Torrões de pedra caíam sobre as pernas de Masson, que custava a livrar-se deles. Todo o túnel ia desmoronando!
Respirando com dificuldade, amedrontado, Masson impeliu-se para a frente, percebendo que a terra úmida queria engoli-lo. 0 túnel estava-se estreitando de tal maneira que já não podia usar mais as mãos e pernas para se mover.
Deitou-se de barriga no chão, coleando como uma enguia, mas de repente, quando experimentou erguer-se, descobriu que o teto se achava apenas a centímetros de suas costas. 0 pânico assaltou-o.
Quando o horror cego lhe bloqueara o caminho, atirara-se desesperado para um túnel lateral, túnel que parecia não ter saída! Só agora entendia. Estava num caixão, um caixão vazio, cuja extremidade, como de costume, tinha sido roída pelos ratos.
Experimentou voltar-se de costas, mas não pôde. Se ao menos pudesse levantar a tampa do caixão! Impossível. E, se pudesse escapar do sarcófago, como faria para remover a cinco pés de terra?
Masson arfava. 0 ar irrespirável, fétido, era de um calor infernal. Num paroxismo de terror, arranhou, raspou o cetim do forro, até que este se despedaçou. Com os pés, tentava cavar o monte de terra desmoronada, que lhe bloqueava a saída. Se ao menos pudesse mudar de posição, se pudesse encontrar um pouco de ar… ar…
Agonia amarela, morna, espalhou-se por seu rosto e turvou-lhe os olhos. Sua cabeça parecia intumescer, crescendo, aumentando, sempre mais.
E, de repente, ouviu o guinchar triunfal dos ratos. Pôs-se a gritar feito louco, mas já não conseguia afastá-los. Por momentos, buscou histericamente um refúgio dentro de sua estreita e estranha prisão, e depois aquietou-se, tentando respirar.
Seus cílios desceram sobre os olhos, a língua preta lançou-se fora da boca e ele mergulhou na escuridão da morte, enquanto os ratos, desatinados, banqueteavam-se em suas orelhas.