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Ao Espelho (Rubem Braga)

rubembraga

Tu, que não foste belo nem perfeito,
Ora te vejo (e tu me vês) com tédio
E vã melancolia, contrafeito,
Como a um condenado sem remédio.

Evitas meu olhar inquiridor
Fugindo, aos meus dois olhos vermelhos,
Porque já te falece algum valor
Para enfrentar o tédio dos espelhos.

Ontem bebeste em demasia, certo,
Mas não foi, convenhamos, a primeira
Nem a milésima vez que hás bebido.

Volta portanto a cara, vê de perto
A cara, tua cara verdadeira,
Oh Braga envelhecido, envilecido.

Extraído do Jornal da Poesia

O Chamado de Cthulhu

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“De tais seres ou potestades superiores pode ser concebida uma sobrevivência… uma sobrevivência de um período fantasticamente remoto onde… a consciência se manifestava, talvez, em vultos e formas desde então repelidos pela maré montante da humanidade… formas das quais apenas a poesia e a lenda captaram uma memória fugaz e as chamaram deuses, monstros, seres míticos de todos os tipos e espécies…”

Algernon Blackwood1

I. O horror de argila

A coisa mais misericordiosa do mundo, acho eu, é a incapacidade da mente humana correlacionar tudo que ela contém. Vivemos numa plácida ilha de ignorância em meio a mares tenebrosos de infinidade, e não estávamos destinados a chegar longe. As ciências, cada uma puxando para seu próprio lado, nos causaram poucos danos até agora, mas algum dia a junção das peças do conhecimento disperso descortinará visões tão terríveis da realidade e de nossa pavorosa posição dentro dela que só nos restará enlouquecer com a revelação ou fugir da iluminação mortal para a paz e a segurança de uma nova idade das trevas.

Os teosofistas imaginaram o admirável esplendor do ciclo cósmico no qual o nosso mundo e a raça humana são incidentes transitórios. Eles sugeriram estranhos remanescentes com termos que congelariam o sangue se não fossem mascarados por um suave otimismo. Mas não foi deles que me chegou o especial vislumbre de eras ancestrais proibidas que me arrepia ao lembrar e me enlouquece nos sonhos. Esse vislumbre, como todos os pavorosos vislumbres da verdade, revelou-­se de uma hora para outra com a junção acidental de peças separadas, nesse caso, uma velha notícia de jornal e as anotações de um professor já falecido. Espero que ninguém mais junte essas peças. Se eu viver, jamais ajuntarei, deliberadamente, um elo a tão odiosa cadeia, com certeza. Imagino que o professor também pretendia guardar silêncio sobre a parte que sabia, e que teria destruído suas anotações se a morte súbita não o tivesse colhido.

Meu contato com o assunto começou no inverno de 1926-27 com a morte de meu tio-avô George Gammell Angell, Professor Emérito de Línguas Semíticas na Universidade Brow, Providence, Rhode Island. O professor Angell era muitíssimo conhecido como uma autoridade em inscrições antigas e costumava ser consultado por curadores de museus importantes, de forma que muitos se lembrarão de seu falecimento, aos noventa e dois anos de idade. No meio local, o interesse foi intensificado pela obscuridade da causa da morte. O professor fora atingido quando voltava do barco de Newport, caindo de repente, segundo testemunhas, depois de receber o encontrão de um negro com ar de marinheiro que saiu de uma das vielas tenebrosas da ladeira íngreme que servia de atalho do cais até a casa do falecido na Williams Street. Os médicos não conseguiram detectar nenhuma doença visível e concluíram, depois de um debate confuso, que o fim se devera a alguma obscura lesão cardíaca provocada pela subida apressada de uma ladeira tão íngreme por um homem tão idoso. Na ocasião, não tive por que discordar dessa conclusão, mas ultimamente me sinto inclinado a estranhar… e mais do que estranhar.

Na qualidade de herdeiro e executor testamentário de meu tio-avô, pois ele morreu viúvo e sem filhos, teria de examinar seus papéis com certa meticulosidade, e para esse fim transferi todas as suas pastas e arquivos para minha moradia em Boston. Boa parte do material que eu correlacionei será no futuro publicada pela Sociedade Arqueológica Americana, mas havia uma caixa que me intrigou sobremaneira e não quis expô-la a outras vistas. Ela estava trancada e não consegui encontrar a chave até que me ocorreu olhar a argola de chaves que o professor trazia sempre no bolso. Consegui então abri-la, mas ao fazê-lo deparei-me com um obstáculo maior e ainda mais protegido, pois qual poderia ser o significado do estranho baixo-relevo de argila e os apontamentos, divagações e recortes de jornais desconexos que encontrei? Teria meu tio, em seus últimos anos, se transformado num crédulo das mais levianas imposturas? Resolvi então procurar o excêntrico escultor responsável por aquela aparente perturbação da paz de espírito de um velho.

O baixo-relevo era um retângulo tosco com menos de uma polegada de espessura e cerca de cinco por seis polegadas de área, de origem ao que tudo indica moderna. A atmosfera e as sugestões de seus motivos estava longe de ser modernas, porém, pois não obstante as excentricidades de cubismo e futurismo serem muitas e alucinadas, elas não reproduzem amiúde aquela regularidade críptcia que emerge de documentos pré-históricos. E o grosso daqueles desenhos com certeza parecia ser algum tipo de escrita, conquanto minha memória, embora familiarizada com os papéis e as coleções de meu tio, não conseguiu de maneira alguma identificar aquele tipo particular, ou mesmo inferir suas filiações remotas.

Ao alto desses aparentes hieróglifos havia uma figura com finalidade evidentemente decorativa, embora seu estilo impressionista prejudicasse a formação de uma idéia muito precisa da natureza. Parecia uma espécie de monstro, ou símbolo representando um monstro, cuja forma só poderia ter sido concebida por uma fantasia mórbida. Se digo que minha imaginação um tanto extravagante forjou imagens simultâneas de um polvo, um dragão e uma caricatura humana, não estarei sendo infiel ao espírito da coisa. Uma cabeça carnuda e tentaculada coroava um corpo grotesco, coberto de escamas, com asas rudimentares, mas era o contorno geral do conjunto que o tornava mais aterrorizante. Por trás da figura havia a vaga sugestão de uma paisagem arquitetônica ciclópica.

Exceto por uma pilha de recortes da imprensa, os textos que acompanhavam essa extravagância eram obra recente da mão do Professor Angell, sem a menor pretensão a um estilo literário. O que parecia ser o documento principal se intitulava “CULTO DE CTHULHU”2 em caracteres cuidadosamente grafados para evitar a leitura incorreta de uma palavra tão invulgar. O manuscrito estava dividido em duas seções, a primeira intitulada “1925 – Sonho e Obra do Sonho de H.A. Wilcox, Thomas Street, 7, Providence, R.I.”, e o segundo, “Narrativa do Inspetor John R. Lesgrasse, Bieville Street, 121, Nova Orleans, La., em 1908 A.A.S. Mtg. – Notas sobre o Mesmo, & Prof. Webb´s Acct”. Os outros papéis manuscritos eram todos anotações breves, alguns deles relatos de sonhos bizarros de diversas pessoas, outros citações de livros e revistas teosóficos (especialmente de Atlantis and the Lost Lemuria de W. Scott-Elliot), e o resto comentários sobre antigas sociedades secretas e cultos proibidos, com indicações de passagens de livros de referência de antropologia e mitologia como Golden Bought3 de Frazer e Witch-Cult in Western Europe da Srta. Murray4. A maior parte dos recortes aludia a doenças mentais excêntricas e surtos de loucura ou mania coletiva na primavera de 1925.

A primeira metade do manuscrito principal relatava uma história muito estranha. Ao que parece, em 1º de março de 1925, um jovem magro e soturno, de aspecto neurótico e exaltado, tinha procurado o Professor Angell, levando um curioso baixo-relevo de argila ainda muito fresco e úmido. Seu cartão trazia o nome de Henry Anthony Wilcox, e meu tio o identificara como o filho mais jovem de uma excelente família que ele conhecia de longe. O jovem era estudante de escultura na Escola de Desenho de Rhode Island e morava no edifício Fleur-de-Lys perto daquela instituição5. Wilcox era um jovem precoce, de gênio conhecido, mas grande excentricidade, e desde a infância ele chamava a atenção pelas histórias bizarras e sonhos curiosos que tinha o hábito de relatar. Ele se considerava “psiquicamente hipersensível”, mas para o povo pacato da antiga cidade comercial ele não passava de um “esquisitão”. Sem nunca se misturar muito com sua própria gente, ele foi perdendo aos poucos a visibilidade social e agora só era conhecido de um pequeno grupo de estetas de outras cidades. Mesmo o Clube das Artes de Providence, zeloso de seu conservadorismo, o considerava um caso sem esperança.

Por ocasião da visita, dizia o manuscrito do professor, o escultor, de repente, pediu a ajuda dos conhecimentos arqueológicos de seu anfitrião para identificar os hieróglifos dos baixo-relevo. Ele falava de maneira calma, sonhadora, sugerindo uma simpatia afetada e distante, e meu tio foi um tanto ríspido na resposta, pois a condição claramente recente da tabuleta indicava afinidade com qualquer coisa, menos com arqueologia. A réplica do jovem Wilcox que impressionou meu tio o bastante para ele recordar-se dela e registrá-la tal qual, teve um feitio poético que deve ter marcado toda a conversa, e que mais tarde descobri tratar-se de uma forte característica sua. Ele disse, “É novo, de fato, visto que o fiz na noite passada em meio a um sonho com cidades estranhas, e os sonhos são mais antigos do que a fervilhante Tiro, ou a contemplativa Esfinge, ou a ajardinada Babilônia.”

Foi aí que ele começou aquele relato confuso que, de repente, espicaçou memórias adormecidas e conquistou o interesse febricitante de meu tio. Tinha havido um rápido tremor de terra na noite anterior, o mais forte sentido na Nova Inglaterra em muitos anos, e a imaginação de Wilcox fora fortemente abalada. Recolhendo-se ao leito, ele teve um sonho sem precedentes com grandes cidades ciclópicas, construídas com blocos titânicos e monolitos projetados para o céu, tudo exsudando um limo verde e sinistro de horror latente. As paredes e pilares estavam cobertos de hieróglifos, e de algum ponto indeterminado abaixo chegava uma voz que não era voz, uma sensação caótica que somente a fantasia poderia transformar em som, mas que ele tentara transmitir com o amontoado de letras quase impronunciável “Cthulhu fhtagn”.

Essa mixórdia verbal foi a chave para a recordação que exaltou e perturbou o Professor Angell. Ele interrogou o escultor com meticulosidade científica e estudou com atenção quase fanática, o baixo-relevo em que o jovem se vira trabalhando, enregelado e vestido apenas com as roupas de dormir, até a vigília insinuar-se em seu torpor. Meu tio culpou a sua velhice, disse Wilcox mais tarde, pela lentidão com que identificou os hieróglifos e a imagem. Muitas de suas perguntas pareceram deslocadas para o visitante, em especial as que tentavam relacioná-lo com cultos ou sociedades estranhos, e Wilcox não pôde compreender as repetidas promessas de silêncio que lhe foram feitas em troca de ser aceito em alguma ordem religiosa mística ou pagã. Quando o Professor Angell se convenceu de que o escultor ignorava mesmo qualquer culto ou sistema de sabedoria críptica, assediou o visitante com pedidos para que ele lhe relatasse sonhos futuros. Isso rendeu frutos regulares. Depois da primeira entrevista, o manuscrito registra visitas diárias do jovem durante as quais ele relatava fragmentos surpreendentes de imaginação noturna cujo tema constante era alguma vista ciclópica terrível de pedra escura e gotejante, com uma voz ou inteligência subterrânea gritando monotonamente através de enigmáticos impactos sensoriais só possíveis de descrever com palavras sem sentido. Os dois sons repetidos com maior freqüência são os expressos pelas letras “Cthulhu” e “R’lyeh”.

No dia 23 de março, prosseguia o manuscrito, Wilcox não apareceu, e indagações feitas em sua moradia revelaram que, atacado por um tipo desconhecido de febre, ele fora levado para a casa de sua família na Waterman Street. Ele havia gritado durante a noite, despertando outros artistas do prédio, e havia manifestado, a partir daquele momento, condições alternadas de consciência e delírio. Meu tio telefonou incontinente para a família e dali em diante passou a acompanhar o caso de perto, telefonando muitas vezes para o consultório do Dr. Tobey na Thayer Street, o médico que estava acompanhado o caso. A mente febril do jovem, ao que parecia, estava retida em coisas estranhas, e o médico chegava a estremecer quando as mencionava. Estas incluíam não só a repetição do que ele tinha sonhado antes, mas envolviam também algo gigantesco “com milhas de altura” que andava ou se arrastava de um lado para outro. Em nenhum momento ele descreveu essa coisa, mas expressões alucinadas ocasionais, reproduzidas pelo Dr. Tobey, convenceram o professor de que ela devia ser idêntica à monstruosidade inominável que ele tentara representar em sua escultura do sonho. A referência a essa coisa, acrescentou o doutor, preludiava sempre a recaída do jovem na letargia. Sua temperatura, por estranho que pareça não subia muito acima do normal, mas seu estado geral sugeria antes uma febre genuína do que uma perturbação mental.

No dia 2 de abril, por volta das três da tarde, todos os sintomas da doença de Wilcox desapareceram de uma hora para outra. Ele sentou-se na cama, espantado por estar em casa e sem a menor noção do que tinha acontecido em sonho ou realidade desde a noite de 22 de março. Recebendo alta do médico, voltou a seus aposentos em três dias, mas deixou de prestar qualquer ajuda ao Professor Angell. Todos os vestígios de sonhos estranhos tinham sumido de sua memória, e meu tio não guardou nenhum registro de seus pensamentos noturnos depois de uma semana de relatos insossos e irrelevantes sobre visões perfeitamente normais.

Aqui terminava a primeira parte do manuscrito, mas referências a algumas anotações espalhadas deram-me muito em que pensar, tanto, de fato, que só o arraigado ceticismo que marcava então a minha filosofia pode explicar a persistente aversão que senti pelo artista. As anotações em questão descreviam os sonhos de várias pessoas no mesmo período em que o jovem Wilcox sofrera suas estranhas provações. Meu tio, ao que parece, criou às pressas uma vasta rede de pesquisa envolvendo quase todos os amigos a quem poderia fazer perguntas sem parecer impertinente, pedindo-lhes que relatassem seus sonhos noturnos e as datas de qualquer visão extraordinária no passado recente. A receptividade a seu pedido parece Ter sido irregular, mas ele deve ter recebido, no mínimo, mais respostas do que uma pessoa normal poderia lidar sem uma secretária. Essa correspondência original não foi preservada, mas suas anotações formaram um resumo completo e realmente significativo. As pessoas comuns da sociedade e do meio comercial – o “sal da terra” da Nova Inglaterra tradicional – deram um retorno quase negativo, embora casos esparsos de impressões noturnas perturbadoras mas informes apareçam aqui e ali, sempre entre 23 de março e 2 de abril, o tempo do delírio do jovem Wilcox. Os homens de ciência foram afetados um pouco mais, embora quatro casos de descrição vaga sugiram vislumbres fugidios de paisagens exóticas, e, em um caso, seja mencionado o pavor de alguma coisa anormal.

Foi dos artistas e poetas que vieram as respostas pertinentes, e tenho clareza de que o pânico se alastraria se eles tivessem podido comparar as anotações. Tal como aconteceu, na falta das cartas originais, suspeitei que o compilador tinha feito perguntas indutivas ou editado a correspondência para corroborar o que ele estava potencialmente inclinado a ver. Isso reforçou minha idéia de que Wilcox, de alguma forma conhecedor dos dados antigos que meu tio possuía, vinha se insinuando junto ao veterano cientista. As respostas daqueles estetas contavam uma história perturbadora. De 28 de fevereiro a 2 de abril, uma grande parte deles havia tido sonhos extraordinários e a intensidade dos sonhos havia sido muito maior durante o período do delírio do escultor. Mais de um quarto dos que relataram algo, registravam cenas e sons vagos parecidos com os descritos por Wilcox, e alguns sonhadores confessaram ter sentido um intenso pavor da gigantesca e indescritível criatura avistada quase no fim. Um caso, que a anotação descreve com ênfase foi muito triste. O indivíduo, um arquiteto muito conhecido, com propensões para a teosofia e o ocultismo, tornou-se um louco furioso na data do acesso do jovem Wilcox e expirou alguns meses mais tarde depois de gritar incessantemente para ser salvo de algum invasor fugido do inferno. Se meu tio tivesse organizado esses casos por nome em vez de números, eu poderia tentar confirmá-los e fazer algumas investigações pessoais, mas do jeito como as coisas se deram, só consegui localizar alguns. Desses, porém, confirmei as anotações por completo. Muitas vezes me perguntei se todos os objetos das inquisições do professor ficaram tão perplexos quanto esses poucos. É bom que não lhes chegue nenhuma explicação.

Os recortes da imprensa, como sugeri, abordavam casos de pânico, mania e excentricidades durante o período em questão. O Professor Angell deve ter-se valido de um serviço especial, pois era imenso o número de recortes de fontes espalhadas por todo o Globo. Aqui, um suicídio noturno em Londres; alguém que dormia sozinho havia saltado pela janela depois de lançar um grito assustador. Ali, uma carta delirante ao editor de um jornal da América do Sul, onde um fanático deduz um futuro tétrico de visões que tivera. Um despacho da Califórnia descreve uma colônia de teosofistas distribuindo mantos brancos em massa para algum “acontecimento glorioso” que nunca chega, enquanto notícias da Índia falam com reservas de sérias rebeliões de nativos no final de março. Orgias de vodu multiplicam-se no Haiti e postos avançados na África registram murmúrios ominosos. Funcionários americanos nas Filipinas sentem que algumas tribos estão inquietas naquele período, e policiais de Nova York são atacados por levantinos histéricos na noite de 22 para 23 de março. Na região oeste da Irlanda, também, correm abundantes rumores e lendas fabulosos, e um pintor de temas fantásticos, Ardois-Bonnot, expõe uma blasfema “Paisagem Onírica” no salão de primavera de Paris de 1926. E são tão numerosos os distúrbios registrados em asilos de loucos que só um milagre poderia Ter impedido a comunidade médica de observar os estranhos paralelismos e tirar conclusões enganosas. No todo, um espantoso maço de recortes e até hoje mal consigo entender o calejado racionalismo que me fez deixá-los de lado. Mas eu estava convencido então de que o jovem Wilcox tinha conhecimentos dos assuntos mais antigos mencionados pelo professor.

II. A narrativa do Inspetor Legrasse

Os assuntos antigos que tornavam o sonho e o baixo-relevo do escultor tão significativos para meu tio constituíam o tema da segunda metade de seu extenso manuscrito. Ao que parece, o professor Angell já tinha visto a silhueta infernal da monstruosidade sem nome, já se tinha intrigado com os misteriosos hieróglifos e ouvido as sílabas aziagas que só podem ser representadas por “Cthulhu”, e isso tudo associado de maneira tão excitante e terrível que não causa espanto que ele tenha o jovem Wilcox com perguntas e solicitações de dados.

A experiência anterior tinha ocorrido em 1908, dezessete anos antes, quando a Sociedade Antropológica Americana realizara seu encontro anual em Saint Louis. O professor Angell, como convinha a alguém com sua autoridade e suas realizações, teve um papel destacado em todas as deliberações, e foi um dos primeiros a ser abordado por diversos leigos que aproveitaram a convocação para formular perguntas querendo respostas corretas e problemas para uma solução especializada.

O principal desses leigos, e, dentro em pouco, o centro de interesse de todos os participantes, era um homem de meia idade e aparência comum que tinha vindo de Nova Orleans atrás de informações especiais impossíveis de obter junto a alguma fonte local. Chamava-se John Raymon Legrasse e era, de profissão, inspetor de polícia. Trouxera consigo o motivo de sua visita, uma estatueta de pedra, grotesca, repulsiva e ao que tudo indica muito antiga, cuja origem não conseguira determinar. Não se deve supor que o Inspetor Legrasse tivesse o menor interesse em arqueologia. Ao contrário, seu desejo de esclarecimento era movido por considerações estritamente profissionais. A estatueta, ídolo, fetiche, ou seja lá o que fosse, fora capturada alguns meses antes nos pântanos arborizados ao sul de Nova Orleans, durante uma batida a uma suposta reunião vodu, e os ritos a ela associados eram tão extraordinários e repulsivos que a polícia não pôde deixar de concluir que tinha topado com um culto demoníaco totalmente desconhecido e muito mais diabólico do que os mais tenebrosos círculos de vodu africanos. Sobre a sua origem, afora as histórias desencontradas e inacreditáveis extraídas dos praticantes capturados, não se haveria de descobrir absolutamente nada, o que explicava a ansiedade da polícia por qualquer sabedoria arcaica que a ajudasse a situar o pavoroso símbolo e, através dele, a reconstituir a origem do culto.

O Inspetor Legrasse não estava preparado para a sensação que seu oferecimento provocou. Bastou uma vista ao objeto para colocar os homens de ciência em estado de tensa excitação, e sem demora eles de aglomeraram ao seu redor para examinar a diminuta figura cuja absoluta estranheza e aparência de antigüidade abissal sugeriam poderosamente panoramas arcaicos e fechados. Nenhuma escola de escultura identificável havia inspirado o terrível objeto, mas, entretanto, centenas, milhares de anos, talvez, pareciam gravados na superfície turva e esverdeada da pedra inclassificável.

A estatueta, que foi sendo passada com vagar de mão em mão para um estudo mais cuidadoso, tinha sete a oito polegadas de altura e um acabamento artístico raro. Representava um monstro de perfil meio antropóide, mas com uma cabeça de polvo com um amontoado de tentáculos por face e um corpo coberto de escamas aparentemente elástico, garras prodigiosas nas patas dianteiras e traseiras, e asas longas e estreitas nas costas. A coisa, que parecia animada de uma malignidade terrível e apavorante, tinha o corpo um tanto estufado e estava acocorada num pedestal, ou bloco retangular, com inscrições indecifráveis. As pontas das asas tocavam na borda escura do bloco, o traseiro ocupava o centro, enquanto as garras longas e curvas das patas traseiras dobradas agarravam a borda frontal e se prolongavam até um quarto da distância até a base do pedestal. A cabeça cefalópode estava curvada para a frente de tal forma que as pontas dos tentáculos faciais raspavam nos dorsos das patas dianteiras que se apoiavam nos joelhos erguidos da figura acocorada. Ela dava uma impressão geral de estar viva, e era ainda mais assustadora por sua origem ser tão absolutamente desconhecida. Sua antigüidade imensa, espantosa e incalculável era inegável, embora ela não revelasse qualquer ligação com algum tipo de arte da aurora da civilização – ou, mesmo, de alguma outra era. Em contrapartida, o próprio material de que era feita constituía um mistério, pois a pedra lisa preto-esverdeada com suas listras ou estrias douradas ou iridescentes não se assemelhava a nada que a geologia ou a mineralogia conhecessem. As inscrições ao longo da base eram também intrigantes e nenhum dos presentes, apesar de ali se encontrar a metade do conhecimento especializado do mundo nesse campo, conseguiu formar a menor idéia nem mesmo de sua mais remota filiação lingüística. Assim como a figura e o material, elas pertenciam a algo terrivelmente antigo e distinto da humanidade tal como a conhecemos, algo que sugeria com pavor ciclos de vida remotos e profanos, alheios a nosso mundo e a nossas concepções.

Contudo, enquanto os membros abanavam com seriedade as cabeças e confessavam sua derrota em face do problema apresentado pelo inspetor, uma pessoa naquela reunião presumiu um traço de estranha familiaridade na forma monstruosa e na inscrição e contou, com certa modéstia, uma curiosidade de seu conhecimento. Tratava-se do hoje falecido William Channing Webb, professor de antropologia da Universidade de Princeton e conhecido explorador. O professor Webb participara, quarenta e oito anos antes, de uma expedição à Groenlândia e à Islândia em busca de certas inscrições rúnicas que não conseguiu descobrir, e na costa da Groenlândia Ocidental havia encontrado uma tribo ou culto singular de esquimós degenerados cuja religião, uma curiosa forma de adoração ao diabo, o havia estarrecido por seu caráter deliberado cruel e repulsivo. A fé era pouco conhecida dos outros esquimós e eles só a mencionavam entre arrepios, dizendo que tinha surgido em épocas terrivelmente primitivas, antes mesmo do mundo existir. Além de ritos indescritíveis e sacrifícios humanos, ela incluía certos rituais hereditários fantásticos devotados a um demônio ancestral supremo ou tornasuk, e o professor Webb havia conseguido uma cuidadosa transcrição fonética deste de um velho mago-sacerdote ou angekok, expressando os sons em caracteres romanos da melhor maneira que pôde. Mas no momento, tinha um significado todo especial o fetiche que esse culto adorava e ao redor do qual os praticantes dançavam enquanto a aurora boreal luzia por cima dos penhascos de gelo. Era, pontificou o professor, um baixo-relevo em pedra muito tosco exibindo uma figura repulsiva e algumas inscrições misteriosas. Até onde ele saberia dizer, tratava-se de um similar tosco, em todos os traços, em todos os traços essenciais, do objeto bestial pousado, naquele momento, diante daquela assembléia.

Essas informações, recebidas com espanto e admiração pelos membros ali reunidos, mostraram-se empolgantes em dobro para o inspetor Legrasse, e ele na hora assediou o informante de perguntas. Tendo anotado e transcrito um ritual oral dos adoradores do pântano que seus homens haviam detido, pediu ao professor que se lembrasse o melhor possível das sílabas anotadas entre os esquimós satanistas. Seguiu-se uma exaustiva comparação de detalhes e um momento de respeitoso silêncio quando ambos, investigador e cientista, concordaram sobre a identidade virtual da frase comum aos dois rituais satânicos separados por mundos de distância. O que, em essência, tanto os feiticeiros esquimós como os sacerdotes do pântano da Louisiana tinham entoado para seus venerados ídolos era algo assim – sendo a divisão de palavras inferidas das quebras normais da frase quando entoada em voz alta:

“Ph’nglui mglw’ nafh Cthulhu R’yleh wgah’nagl fhtagn.”

Legrasse estava um passo à frente do professor Webb, pois vários de seus prisioneiros mestiços tinham repetido pare ele o que os celebrantes mais velhos lhes tinham dito sobre o significado das palavras. Esse texto dizia algo assim:

“Em sua morada em R’yleh o morto Cthulhu espera sonhando.”

Então, atendendo a um pedido geral e insistente, o inspetor Legrasse contou, da forma mais completa possível, sua experiência com os adoradores do pântano, contado uma história a que, como pude observar, meu tio atribuiu um significado profundo. Ela sugeria os mais alucinados sonhos dos criadores de mitos e teosofistas, e revelava um espantoso grau de imaginação cósmica em mestiços e párias.

Em 1º de novembro de 1907, a polícia de Nova Orleans recebera um chamado frenético da região lacustre e pantanosa ao sul. Os posseiros da região, em sua maioria descendentes primitivos mas de boa índole dos homens de Lafitte6, estavam tomados de mais absoluto pavor por uma coisa desconhecida que se aproximara furtivamente deles durante a noite. Parecia vodu, mas vodu de um tipo mais terrível do que todos que conheciam, e algumas mulheres e crianças tinham desaparecido desde que o tantã maléfico começara seu batimento incessante no coração dos bosques escuros e assombrados onde ninguém se aventura. Havia gritos insanos e uivos angustiados, cantos de arrepiar a alma e chamas diabólicas dançantes, e, prosseguiu o assustado mensageiro, as pessoas não podiam mais suportar.

Assim, um corpo de vinte policiais que lotava dois veículos e um automóvel partiu ao entardecer, levando o trêmulo posseiro como guia. No final da estrada transitável eles apearam e chapinharam muitas milhas em silêncio pelos terríveis bosques de ciprestes onde o dia não penetrava. Raízes pavorosas e festões pendentes e malignos de musgo espanhol os cercavam e, de vez em quando, um amontoado de pedras úmidas ou fragmentos de alguma parede apodrecida intensificavam, com sua sugestão de moradia mórbida, o sentimento de depressão que cada árvore retorcida e cada ilhota musgosa se combinavam para produzir. Finalmente despontou o povoado de posseiros, um amontoado de casebres miseráveis, e moradores histéricos vieram correndo aglomerar-se em volta do grupo de lanternas balouçantes. A batida surda dos tambores era agora pouco audível ao longe, muito ao longe, e um uivo horripilante chegava em intervalos irregulares quando o vento mudava. Um clarão avermelhado parecia filtrar através da pálida vegetação rasteira além das intermináveis avenidas de escuridão florestal. Mesmo relutando em ser deixados mais uma vez a sós, os amedrontados posseiros recusaram-se a avançar uma polegada na direção do culto profano, e o inspetor Legrasse e seus dezenove colegas tiveram que seguir em frente sem guia pelas negras arcadas de horror que nenhum deles jamais percorrera.

A região invadida pela polícia tinha má reputação e era geralmente desconhecida e não freqüentada por homens brancos. Corriam lendas de um lago oculto, jamais vislumbrado por olhos mortais, habitado por uma coisa poliposa branca e informe, com olhos luminosos, e os posseiros sussurravam que demônios com asas de morcego saíam voando de cavernas nas entranhas da terra para adorá-la à meia-noite Eles diziam que a criatura já estava ali antes de D’Iberville7, antes de La Salle8, antes dos índios, e antes mesmo dos animais e pássaros são dos bosques. Era o próprio pesadelo e vê-la significava a morte, mas ela fazia os homens sonharem e assim eles sabiam o bastante para se manter à distância. A orgia de vodu acontecia, de fato, na fímbria só da zona abominável, mas aquele local era ruim o bastante, daí, porque, talvez o próprio local da adoração aterrorizasse os posseiros mais do que os pavorosos sons e incidentes.

Somente a poesia ou a loucura poderiam fazer justiça aos barulhos escutados pelos homens de Legrasse enquanto abriam caminho pelo pântano tenebroso na direção do clarão vermelho e do tantã abafado. Há características vocais típicas dos homens, e características vocais típicas das feras, e é terrível ouvir uma quando a fonte devia indicar a outra. A fúria animal e a libertinagem orgiástica atingiram ali alturas demoníacas com uivos e guinchos extáticos que cortavam, reverberando o bosque sombrio como tempestades pestilenciais das profundas do inferno. De vez em quando, a gritaria desordenada cessava, destacando-se o que parecia um coro bem ensaiado de vozes roucas entoando compassadamente aquela frase ou ritual hediondo:

“Ph’nglui mglw’ nafh Cthulhu R’yleh wgah’nagl fhtagn.”

Atingindo um ponto onde o arvoredo era menos denso, os homens toparam de repente com a visão do próprio espetáculo. Quatro deles cambalearam, um desmaiou e dois foram sacudidos por um pranto convulsivo que a furiosa cacofonia do festim felizmente abafou. Legrassse aspergiu água do pântano no rosto do desmaiado e todos ficaram paralisados, tremendo, quase hipnotizados pelo horror.

Numa clareira natural do pântano havia uma ilha relvada e sem árvores, com um acre de extensão, talvez, e em certa medida seca. Sobre ela saltitava e se contorcia uma horda de anormalidade humana tão indescritível que só um Sime ou Angarola9 poderiam descrever. Desprovida de roupas, aquela prole híbrida zurrava, urrava e se contorcia em volta de um anel de fogo cujo centro, revelado por aberturas ocasionais da cortina de chamas, era ocupado por um grande monolito branco com quase oito pés de altura, sobre o qual repousava, parecendo incongruente por sua pequena dimensão, a pérfida estatueta cinzelada. De um amplo círculo formado por dez patíbulos dispostos em intervalos regulares, tendo monolito branco rodeado de chamas como centro, pendiam, de cabeça para baixo, os corpos terrivelmente desfigurados dos infortunados posseiros desaparecidos. Era no interior desse círculo que a roda de adoradores saltava e rugia, movendo-se da esquerda para a direita num Bacanal interminável entre o anel de corpo e o anel de fogo.

Pode ter sido apenas imaginação e podem ter sido apenas os ecos a induzir um dos homens, um espanhol impressionável, a imaginar ter ouvido reposta antifônicas ao ritual de algum ponto distante e escuro das profundezas do bosque de antiga lenda e horror. Esses homem, Joseph D. Galvez, eu encontrei e interroguei mais tarde, e ele se mostrou espantosamente imaginativo, chegando a sugerir um tênue bater de grandes asas e o vislumbre de olhos brilhantes e de um enorme vulto branco além das árvores mais distantes – mas imagino que tenha ouvido muitas superstições nativas.

A paralisia de pavor dos homens, na verdade, durou pouco. O dever logo se impôs e mesmo havendo por ali perto uma centena de mestiços celebrantes, a polícia confiou em suas armas e caiu, com determinação, em cima da turba repugnante. Durante cinco minutos, o alvoroço e o caos resultantes foram indescritíveis. Golpes terríveis, tiros e fugas, mas no final Legrasse pôde contar cerca de quarenta e sete prisioneiros sombrios que foram obrigados a se vestir às pressas e se alinhar entre duas filas de policiais. Cinco adoradores estavam mortos, e dois gravemente feridos foram levados em macas improvisadas por seus colegas presos. A estatueta sobre o monólito foi retirada com cuidado, é claro, e trazida por Legrasse.

Inquiridos na delegacia depois de uma jornada de tensão e cansaço intensos, os prisioneiros revelaram-se todos homens de um tipo de mestiçagem muito inferior e mentalmente aberrante. Eram marinheiros, em sua maioria, e um punhado de negros e mulatos, sobretudos caribenhos ou portugueses de Brava nas ilhas de Cabo Verde, dava um toque de voduísmo ao culto heterogêneo. Mas não foi preciso muita inquisição para ficar evidente que havia algo muito mais profundo e mais antigo do que o fetichismo negro. Degradadas e ignorantes como eram, as criaturas defendiam, com surpreendente consistência, a idéia central de sua abominável fé.

Eles adoravam, assim disseram, os Grandes Antigos que viveram muitas eras antes de existirem os homens, e que tinha vindo do céu para o mundo jovem. Esses Antigos já tinham partido, para o interior da Terra e o fundo do mar, mas seus corpos mortos tinham revelado seus segredos em sonhos aos primeiros homens, que criaram um culto que jamais deixara de existir. Aquilo que praticavam era esse culto, e segundo os prisioneiros ele sempre existira e sempre existiria, escondido em desertos remotos e lugares sombrios espalhados pelo mundo até o dia em que o grande sacerdote Cthulhu, saindo de sua tétrica morada na imponente cidade submarina de R’yleh, emergeria e colocaria a Terra novamente sob seu jugo. Algum dia ele conclamaria, quando as estrelas estivessem preparadas, e o culto secreto estaria pronto para libertá-lo.

Até lá, nada mais deveria ser dito. Havia um segredo que nem a tortura poderia extrair. A humanidade não era de modo algum a única das coisas conscientes da Terra, pois emergiam vulto da escuridão para visitar os poucos fiéis. Mas esses não eram os Grandes Antigos. Nenhum homem jamais vira os Antigos. O ídolo cinzelado era o grande Cthulhu, mas ninguém saberia dizer se os outros era exatamente iguais a ele. Ninguém conseguira ler a antiga inscrição, mas as coisas eram transmitidas de boca em boca. O ritual entoado não era o segredo – esse jamais era dito em voz alta, apenas sussurrado. O canto significava apenas isto: “Em sua morada em R’yleh, o morto Cthulhu espera sonhando.”

Somente dois dos prisioneiros foram considerados sãos o bastante para a forca e o resto foi confiado a várias instituições. Todos negaram que a matança tinha sido feita pelos Alados Negros que tinha vindo até eles de seu imemorial ponto de encontro no bosque assombrado. Mas daqueles aliados misteriosos, não se pôde jamais obter um relato coerente. O grosso do que a polícia conseguiu extrair veio de um mestizo muito velho chamado Castro, que alegava ter navegado em portos estranhos e conversado com líderes imortais do culto nas montanhas da China.

O velho Castro recordou fragmentos da odiosa lenda que fizeram empalidecer as especulações dos teosofistas e faziam o homem e o mundo parecerem recentes e transitórios. Durante muitas eras, outras Criaturas governaram a Terra, e Elas tinham construído grandes cidades. Restos Delas, segundo lhe disseram os chineses imortais, ainda poderiam ser encontrados como pedras ciclópicas em ilhas do Pacífico. Elas todas tinham desaparecido vastas eras antes dos homens chegarem, mas certas artes poderiam revivê-las quando as estrelas girassem novamente para as posições certas no ciclo da eternidade. Elas próprias, na verdade, tinham vindo das estrelas, e trazido Suas imagens Consigo.

Os Grandes Antigos, prosseguiu Castro, não eram totalmente de carne e sangue. Tinham forma – pois não o prova essa estatueta estrelada? – mas essa forma não era feita de matéria. Quando as estrelas estivessem posicionadas, Eles podiam saltar de mundo para mundo céu afora, mas quando as estrelas estavam na posição errada, não podiam viver. Mas embora não vivessem mais, Eles jamais podiam realmente morrer. Jaziam em casas de pedra em Sua grande cidade de R’yleh, preservados pelos feitiços do poderoso Cthulhu para uma gloriosa ressurreição quando as estrelas e a Terra estivessem mais uma vez prontas para Eles. Mas a essa altura, alguma força exterior teria de agir para libertar Seus corpos. Os encantamentos que Os mantinham intatos também Os impediam de dar o passo inicial, e Eles só podiam ficar deitados, despertos, no escuro, e pensar, enquanto incontáveis milhões de anos transcorriam. Sabiam tudo que se passava no universo, mas se comunicavam por transmissão de pensamentos. Mesmo agora Eles conversavam em Seus túmulos. Quando, depois de infinidades de caos, surgiram os primeiros homens, os Grandes Antigos falaram aos mais sensíveis deles, moldando seus sonhos, pois só assim Sua linguagem conseguia atingir as mentes carnais dos mamíferos.

Então, sussurrou Castro, aqueles primeiros homens criaram o culto em torno de pequenos ídolos que os Grandes lhes mostraram, ídolos trazidos de estrelas escuras para zonas sombrias. Esse culto não morreria jamais até que as estrelas estivessem de novo em posição e os sacerdotes secretos tirassem o grande Cthulhu de Sua sepultura para reanimar Seus súditos e recuperar Seu domínio sobre a Terra. O momento seria fácil reconhecer pois a humanidade se teria tornado então como os Grandes Antigos, livre, selvagem, e além do bem e do mal, com as leis e os comportamentos morais deixados de lado, e todos os homens, em júbilo, gritando matando e festejando. Os Antigos libertadores lhes ensinariam então novas maneiras de gritar, matar, festejar, se divertir, e toda a Terra arderia num holocausto de êxtase e liberdade. Até lá, o culto, através de ritos apropriados, devia manter viva a memória daqueles costumes ancestrais e transmitir secretamente a profecia de sua volta.

Outrora, nos tempos idos, homens escolhidos tinham conversado com os sepultados Antigos em sonhos, mas alguma coisa acontecera então. A grande cidade de pedra de R’yleh, com seus monólitos e sepulcros, tinha afundado debaixo das ondas e as águas profundas, cheias do mistério primordial no qual nem mesmo o pensamento pode penetrar, tinham interrompido o intercâmbio espectral. Mas a memória nunca morria, e sumos sacerdotes diziam que a cidade se ergueria de novo quando as estrelas se posicionassem. Depois sairiam do chão, mofados e tétricos, os espíritos negros da Terra, e cercados de rumores sombrios ocuparam cavernas por baixo dos leitos esquecidos dos mares. Mas o velho Castro não ousou falar muito deles. Calou-se bruscamente e não houve persuasão ou sutilezas que pudessem elucidar mais nessa direção. O tamanho dos Antigos, também, o que é curioso, ele não quis mencionar. Sobre o culto, disse que seu núcleo devia estar no centro dos desertos intransitáveis da Arábia, onde Irem, a Cidade dos Pilares, sonha oculta e intocada. Ele não tinha qualquer relação com o culto das bruxas europeu, e era virtualmente desconhecido entre seus membros. Nenhum livro jamais se referira de fato a ele, embora, segundo os imortais chineses, houvesse um duplo significado no Necronomicon10do árabe louco Abdul Alhazred que os iniciados poderiam ler quando quisessem, especialmente no muito discutido dístico:

“Pois não há morto que fique em repouso eterno,

E com imensa idade, poderá finar-se a morte.”

Legrasse, muitíssimo impressionado e não menos perplexo, tinha interrogado em vão sobre as filiações históricas do culto. Castro, ao que parece, falara a verdade ao dizer que ele era absolutamente secreto. As autoridades da Universidade de Tulane não puderam lançar luz nem sobre o culto, nem sobre a imagem, e o investigador tinha procurado as mais altas autoridades do país, obtendo apenas a história da Groenlândia do professor Webb.

O interesse febril provocado pelo relato de Legrasse ao encontro, corroborado como era pela estatueta, repetiu-se na correspondência subseqüente dos participantes, embora só apareçam menções esparsas a ele nas publicações formais da sociedade. A cautela é o primeiro cuidado dos que se acostumam a enfrentar o charlatanismo e a impostura. Legrasse emprestou a imagem por algum tempo ao professor Webb, mas quando este morreu, ela lhe foi devolvida e permanece em sua posse, onde eu a vi não faz muito tempo. É, de fato, uma coisa terrível, e está inconfundivelmente relacionada com a escultura de sonho do jovem Wilcox.

Não me espanta que meu tio ficasse excitado com a história do escultor, pois o que poderia pensar ao saber, conhecendo o que Legrasse havia apurado sobre o culto, de um jovem sensível que tinha sonhado não só com a figura e os hieróglifos exatos da imagem encontrada no pântano e da tabuleta diabólica da Groenlândia, mas chegara em seus sonhos a pelo menos três das palavras exatas da fórmula pronunciada por satanistas esquimós e mestiços da Louisiana? O pronto empreendimento de uma investigação de extrema eficácia pelo professor Angell era perfeitamente natural, embora eu suspeitasse que o jovem Wilcox tinha tomado conhecimento do culto por algum canal indireto, e tinha inventado uma seqüência de sonhos para aumentar e prolongar o mistério às custas do meu tio. As narrativas de sonhos e os recortes colecionados pelo professor eram, por certo, uma prova poderosa, mas minha vocação racionalista e a extravagância do assunto todo levaram-me a adotar o que considerei as conclusões mais sensatas. Assim, depois de estudar cuidadosamente o manuscrito de novo e comparar as anotações teosóficas e antropológicas com a narrativa sobre o culto de Legrasse, fiz uma viagem à Providence para encontrar o escultor e censurá-lo, como achava que merecia, por se impor de maneira tão atrevida a um homem culto e idoso.

Wilcox ainda morava sozinho no Edifício Fleur-de-Lys da Thomas Street, uma pavorosa imitação vitoriana da arquitetura Breton do século XVII que pavoneia sua fachada de estuque em meio às adoráveis casas coloniais da antiga colina e à sombra do mais belo campanário da América. Encontrei. Encontrei-o a trabalhar em seus aposentos, e deduzi, imediatamente, pelos modelos espalhados por ali, que seu gênio era mesmo profundo e autêntico. Algum dia, acredito, ele será conhecido como um grande decadentista, pois conseguiu cristalizar em argila a algum dia espelhará em mármore aqueles pesadelos e fantasias que Arthur Machen11 evoca em prosa e Clark Ashton Smith12 exibe em versos e pinturas.

Frágil, soturno e um tanto desleixado, virou-se languidamente à minha batida perguntou-me, sem se levantar, o que eu queria. Quando lhe contei quem eu era, mostrou algum interesse, pois meu tio havia excitado sua curiosidade ao investigar seus sonhos bizarros, mesmo sem nunca explicar as razões de seu estudo. Eu não ampliei seus conhecimentos a esse respeito, mas tentei, com alguma sutileza, interessá-lo. Em pouco tempo, convenci-me de sua absoluta sinceridade, pois ele falou dos sonhos de uma maneira que não deixava dúvidas. Os sonhos e seu resíduo subconsciente tiveram profunda influência em sua arte, e ele me mostrou uma estátua cujos contornos me fizeram estremecer com a perversidade que sugeria. Não se lembrava de ter visto o original da coisa exceto no baixo-relevo sonhado, mas as linhas foram insensivelmente tomando forma em suas mãos. Era, sem dúvida, a forma gigante que ele tinha expressado em seu delírio. Logo ficou claro que ele não sabia nada sobre o culto secreto afora o que a sabatina implacável de meu tio deixara escapar, e mais uma vez tentei imaginar alguma maneira pela qual ele pudesse ter recebido as pavorosas impressões.

Ele falou de seus sonhos de uma maneira curiosamente poética, fazendo-me ver, com terrível nitidez, a úmida cidade ciclópica de pedras verdes escorregadias – cuja geometria, comentou casualmente, era toda errada – e ouvir, em suspensa expectativa, o incessante e quase mental chamado das profundezas: “Cthulhu fhtagn”, “Cthulhu fhtagn”. Essas palavras eram em parte do terrível ritual que falava da vigília em sonho do falecido Cthulhu em sua cripta de pedra em R’yleh, e fiquei profundamente comovido a despeito de minhas crenças racionais. Wilcox, com certeza, ouvira falar do culto de maneira casual e logo se esquecera dele em meio à profusão de leituras e fantasias também excêntricas. Mais tarde, sendo muito impressionável, aquilo tinha encontrado expressão subconsciente em sonhos, no baixo-relevo e na terrível estátua que eu agora tinha diante de mim, de forma que sua imposição sobre meu tio tinha sido muito inocente. O jovem era de um tipo um tanto afetado e um tanto rude ao mesmo tempo, de que eu jamais poderia gostar, mas eu já me sentia inclinado a admitir seu gênio e sua honestidade. Despedi-me amistosamente, desejando-lhe todo o sucesso que seu talento promete.

A questão do culto continuava a me fascinar, e às vezes eu tinha vislumbres de glória pessoal com as pesquisas sobre sua origem e suas conexões. Visitei Nova Orleans, conversei com Legrasse e outros participantes daquela antiga batida policial, vi o ídolo assustador e cheguei a inquirir os prisioneiros mestiços sobreviventes. O velho Castro, infelizmente, morrera há alguns anos. O que ouvi de forma tão vívida de primeira mão, conquanto apenas confirmasse em detalhes o que meu tio tinha escrito, animou-me de novo, pois me parecia estar na pista de uma religião muito real, muito secreta e muito antiga cuja descoberta faria de um antropólogo ilustre. Minha atitude ainda era toda materialista, tomara ainda fosse, e desconsiderei com perversidade quase inexplicável a coincidência entre as anotações dos sonhos e os curiosos recortes colecionados pelo professor Angell.

Uma coisa de que comecei a suspeitar, e que agora temo saber, é que a morte de meu tio não fora natural. Ele caíra numa rua enladeirada e estreita que levava a um antigo cais coalhado de mestiços estrangeiros, depois do esbarrão involuntário de um marinheiro negro. Eu não me esquecera do sangue misto e das atividades marinhas dos membros do culto em Louisiana, e não me surpreendia ficar sabendo de métodos secretos e agulhas envenenadas tão implacáveis e tão ancestralmente conhecidas quando os ritos e crenças eram secretos. Legrasse e seus homens, é verdade, não tinham sido afetados, mas na Noruega, um certo marinheiro que vira cosas está morto. As investigações mais profundas de meu tio depois de obter os dados do escultor não poderiam ter chegado a ouvidos sinistros? Creio que o professor Angell morreu porque sabia demais, ou porque, provavelmente, viria a saber demais. Resta saber se irei como ele se foi, pois também sei muito agora.

III. A loucura vinda do mar

Se o céu algum dia quisesse conceder-me uma benção, esta seria apagar de todo os efeitos do acaso que fez meus olhos se fixarem num pedaço de papel que forrava uma prateleira. Não era algo com que eu me teria deparado naturalmente em minhas ocupações diárias, pois se tratava de um número velho de um jornal australiano, o Sydney Bulletin, de 18 de abril de 1925. Ele tinha escapado inclusive à firma de distribuição de recortes que, por ocasião de sua edição, vinha coletando material para a pesquisa de meu tio.

Minhas investigações sobre o que o professor Angell chamava de “Culto de Cthulhu” estavam quase paradas e eu estava de visita a um amigo erudito em Paterson, Nova Jersey, curador de um museu local e mineralogista de renome. Examinando, certo dia, o espécimes de reserva espalhados nas prateleiras de uma sala de fundo do museu, meu olhar foi atraído por uma curiosa ilustração num dos velhos jornais estendidos embaixo das pedras. Tratava-se do Sydney Bulletin que mencionei, pois meu amigo tinha amplas relações no exterior, e a ilustração era uma autotipia recortada de uma repulsiva imagem de pedra quase idêntica à que Legrasse tinha encontrado o pântano.

Retirei, impaciente, as peças preciosas de cima da folha de jornal e examinei minuciosamente a matéria, despontando-me com o pouco que dizia. O que ela sugeria, porém, teve profundas repercussões em minha busca periclitante e recordei com todo cuidado para tomar medidas imediatas. Ela dizia o seguinte:

MISTERIOSO NAVIO PERDIDO ENCONTRADO NO MAR Vigilant chega rebocando iate neozelandês armado e abandonado. Encontrados um sobrevivente e um morto a bordo.

História de batalha desesperada e mortes no mar. Marinheiro resgatado omite detalhes sobre a estranha experiência. Encontrado ídolo estranho em sua posse. Investigações prosseguem.

O cargueiro Vigilant da Morrison Co., com destino a Valparaíso, chegou esta manhã a sua doca no Porto de Darling, rebocando o iate a vapor Alert, combatido e inutilizado mas fortemente armado, de Dunedin, Nova Zelândia, que foi avistado no dia 12 de abril em 34º 21’ de Latitude S. e 152º 17’ de Longitude O. com um homem vivo e um morto a bordo.

O Vigilant deixou Valparaíso em 25 de março, e no dia 2 de abril foi impelido muito ao sul de sua rota por tempestades excepcionalmente violentas e ondas monstruosas. Em 12 de abril, o navio abandonado foi visto, e embora parecesse estar deserto, depois de abordado verificou-se que abrigava um sobrevivente em condições quase delirantes e um homem que, com certeza, estava morto havia mais de uma semana. O vivo estava agarrado a um horrível ídolo de pedra de origem desconhecida, com cerca de trinta centímetros de altura, sobre cuja natureza autoridades da Universidade de Sydney, da Royal Society e do Museu da College Street professaram total perplexidade, e que o sobrevivente fiz ter encontrado na cabine do iate, num pequeno escrínio cinzelado de tipo comum.

Esse homem, depois de recobrar os sentidos, contou uma história muito estranha de pirataria e chacina. Trata-se de Gustaf Johansen, um norueguês de alguma inteligência, e que fora o contramestre da escuna Emma, de Auckland, que zarpou para Callao com uma tripulação de onze homens em 20 de fevereiro. A Emma, dizia ele, foi retardada e empurrada com toda força para o sul de sua rota pela grande tormenta de 1º de março, e em 22 de março, estando em 49º 51’ de Latitude

S. e 128º 34’ de Longitude O. encontrou Alert, manejado por uma tripulação estranha e mal­encarada de canacas e mestiços. Ordenado peremptoriamente a voltar, o capitão Collins se recusou, diante do que a estranha tripulação começou a atirar com selvageria e sem aviso na escuna com a bateria pesada de canhões de bronze que equipava o iate. Os homens da Emma travaram luta, conta

o sobrevivente, e embora a escuna começasse a afundar com os tiros recebidos abaixo da linha d’água, eles conseguiram emparelhar o barco com o inimigo e abordá-lo, enfrentando a tripulação selvagem no convés do iate, e sendo forçados a matar todos, cujo número era um pouco superior, devido ao modo particularmente abominável e desesperado, ainda que canhestro, com que eles lutavam.

Três homens da Emma, inclusive o capitão Collins e o imediato Green, foram mortos, e os oito restantes, comandados pelo contramestre Johansen trataram de manobrar o iate capturado, seguindo em seu curso original para ver se existia alguma razão para a ordem de voltar. No dia seguinte, ao que parece, eles desembarcaram numa pequena ilha, embora não soubesse da existência de nenhuma ilha naquela parte do oceano, e seis dos homens morreram, de alguma forma, em terra, embora Johansen seja curiosamente reticente sobre essa parte de sua história e fale apenas de eles terem caído numa fenda da rocha. Mais tarde, ao que parece, ele e um companheiro subiram a bordo do iate e tentaram manobrá-lo, mas foram fustigados pela tempestade de 2 de abril. Daquele momento até seu resgate no dia 12, o homem pouco se recorda, e nem mesmo se lembra de quando William Briden, seu companheiro, morreu. Não há evidências visíveis da causa da morte de Briden, e é provável que se tenha dado à perturbação mental ou à desproteção. Informações telegráficas de Dunedin relatam que o Alert era bem conhecido ali como um barco mercante na ilha, e possuía uma péssima reputação em todo o cais. Pertencia a um estranho grupo de mestiços cujas reuniões freqüentes e incursões noturnas aos bosques atraíam grande curiosidade, e tinha zarpado com grande pressa pouco depois da tempestade e dos tremores de terra de 1º de março. Nosso correspondente de Auckland confere uma excelente reputação à Emma e a sua tripulação, e Johansen é descrito como homem sóbrio e valoroso. O almirantado vai abrir um inquérito sobre o assunto todo a partir de amanhã, e todos os esforços serão enviados para induzir Johansen a falar mais fracamente do que tem feito até agora.

Isso era tudo, além da imagem da estatueta infernal, mas que associação de idéias desencadeou em minha mente! Ali estavam novas e preciosas informações sobre o Culto de Cthulhu, e evidências de que ele guardava estranhas relações com o mar, assim com a terra. O que teria levado a tripulação mestiça a ordenar que a Emma retornasse enquanto seguiram em frente com seu hediondo ídolo? O que seria a ilha desconhecida onde seis homens da Emma tinham morrido, e sobre a qual o imediato Johansen era tão reticente? O que a investigação do vice­almirantado teria apurado e o que se saberia do abominável culto em Dunedin? E o mais admirável, que relação profunda e sobrenatural de datas era aquela que emprestava um significado maligno agora inegável às diversas viravoltas dos acontecimentos tão cuidadosamente anotadas por meu tio?

Em 1º de março – nosso 28 de fevereiro segundo a linha internacional da data – vieram o terremoto e a tempestade. De Dunedin, o Alert e sua deletéria tripulação tinha partido a toda pressa como se fossem imperiosamente convocados, e no outro lado da Terra, poetas e artistas tinham começado a sonhar com uma estranha cidade ciclópica e úmida, enquanto o jovem escultor tinha modelado, durante o sono, a forma do temível Cthulhu. Em 23 de março, a tripulação da Emma desembarcou numa ilha desconhecida onde deixou seis mortos; e naquela mesma data, os sonhos de homens sensíveis assumiram uma vivacidade acentuada, obscureceram de pavor da perseguição maligna de um monstro gigantesco, enquanto um arquiteto enlouquecia e um escultor mergulhava no delírio! E quanto a essa tempestade de 2 de abril – a data em que todos os sonhos com a cidade úmida cessaram e Wilcox escapou ileso do jugo de estranha febre? O que pensar disso tudo – e das sugestões do velho Castro sobre os Antigos de origem estelar submersos e o advento de seu reinado, seu culto religioso e seu domínio sobre os sonhos? Estaria eu cambaleando à beira de horrores cósmicos que a capacidade humana seria incapaz de suportar? Se assim fosse, deviam ser apenas horrores mentais, pois, de algum modo, o dois de abril dra um fim à qualquer ameaça monstruosa que tivesse começado seu assédio à alma da humanidade.

Naquela noite, depois de um dia de arranjos e telegramas apressados, despedi-me de meu hospedeiro e tomei um trem para San Francisco. Em menos de um mês, eu estava em Dunedin, onde descobri, porém, que pouco se sabia dos estranhos membros do culto que tinham perambulado pelas velhas tavernas do cais. A escória das docas era comum demais para merecer alguma menção especial, embora corressem vagos rumores sobre uma viagem ao interior feita por aqueles mestiços durante a qual se notaram um longínquo rufar de tambores e chamas vermelhas nos morros distantes. Em Auckland, fiquei sabendo que Johansen tinha voltado com os cabelos louros embranquecidos depois de uma inquisição perfunctória e inconclusiva em Sydney, e depois disso vendera sua casinha na West Street e navegara com a mulher para sua velha casa em Oslo. Sobre a sua estarrecedora experiência, ele não diria aos amigos mais do que dissera aos funcionários do almirantado, e tudo que eles puderam fazer foi dar-me seu endereço em Oslo.

Depois disso, fui a Sydney e conversei com marinheiros e membros do tribunal do vice­almirantado, mas foi em vão. Vi o Alert, agora vendido e em uso comercial, no Cais Circular em Sydney Cove, mas de nada me serviu sua aparência vulgar. A estatueta agachada com sua cabeça de choco, corpo de dragão, asas escamadas e pedestal hieróglifo, estava guardada no Museu do Parque Hyde. Eu a estudei atentamente, achando-a de um artesanato muito raro, contendo o mesmo absoluto mistério, terrível antiguidade e sinistra estranheza de material que eu tinha notado no exemplar menor de Lagrasse. Os geólogos, contou-me o curador, a tinha considerado um grande mistério, pois juravam que não havia no mundo uma pedra daquele tipo. Estremecendo, pensei no que o velho Castro tinha dito a Lagrasse sobre os Grandes primitivos: “Eles vieram das estrelas e trouxeram Suas imagens consigo.”

Abalado por uma revolução mental como jamais conhecera, resolvi visitar o contramestre Johansen em Oslo. Navegando até Londres, tornei a embarcar em seguida para a capital da Noruega onde desembarquei, num certo dia de outono, nas docas bem cuidadas à sombra de Egeberg13. O endereço de Johansen, conforme verifiquei, ficava na Cidade Velha do Rei Harold Haardrada, que mantivera vivo o nome de Oslo durante os séculos em que a cidade maior se disfarçara de “Christiana.”14 Fiz o breve percurso de táxi com o coração palpitando, na porta de um velho e bem cuidado edifício com a frente rebocada. Uma mulher de rosto melancólico, de preto, atendeu, causando-me profunda frustração ao me contar, num inglês vacilante, que Gustaf Johansen já não existia.

Não sobrevivera a seu retorno, contou-me a esposa, pois os acontecimentos ao mar, em 1925, tinham acabado com ele. Ele não tinha contado à esposa nada além do que dissera em público, mas tinha deixado um longo manuscrito – sobre “assuntos técnicos” como dizia – escrito em inglês, evidentemente para protegê-la do risco de uma leitura casual. Caminhando por uma estreita viela perto do cais de Gotemburgo, fora atingido e derrubado por um fardo de papel caído de uma janela de sótão. Dois marinheiros indianos ajudaram-no prontamente a se levantar, mas antes que a ambulância chegasse, ele estava morto. Os médicos não encontraram nenhuma causa apropriada para o seu falecimento e atribuíram a problemas cardíacos e à constituição debilitada.

Sentia agora corroer-me as entranhas aquele terror hediondo que jamais me abandonará até que eu também fique em repouso, “por acidente” ou de alguma outra forma. Persuadindo a viúva de que minha conexão com os “assuntos técnicos” de seu marido me intitulava a ficar com o manuscrito, levei o documento e comecei sua leitura no navio para Londres. Era uma coisa simplória, desconexa – o esforço de um marinheiro ingênuo num diário a posteriori – e procurava recordar, dia a dia, aquela última e terrível viagem. Não posso tentar transcrevê-lo literalmente em toda sua nebulosidade e redundância, mas reproduzirei o bastante de seu conteúdo para mostrar por que o som da água contra os costados do navio se tornou de tal forma insuportável para mim que tapei os ouvidos com algodão.

Johansen, graças a Deus, não sabia tudo, apesar de ter visto a cidade e a Coisa, mas eu jamais dormirei tranqüilo enquanto pensar nos horrores que espreitam sem parar por trás da existência no tempo e no espaço, e naquelas blasfêmias profanas de estrelas primitivas que sonham no fundo do mar, conhecidas e veneradas por um culto de pesadelo pronto e ávido para soltá-las no mundo sempre que algum terremoto suspender sua monstruosa cidade de pedra novamente até o sol e o ar.

A viagem de Johansen tinha começado tal como ele contou ao vice-almirantado. A Emma, navegando com lastro, fizera-se ao mar em Auckland, em 20 de fevereiro, e tinha sido atingida em cheio por aquela tempestade provocada pelo terremoto que devia ter desprendido, do fundo do mar, os horrores que povoam os sonhos humanos. De novo sob controle, a embarcação avançava em boa marcha quando foi atacada pelo Alert, em 22 de março, e pude sentir o desgosto do imediato enquanto descrevia seu bombardeio e afundamento. Aos fanáticos mestiços do Alert, ele se refere com perceptível horror. Eles tinham alguma coisa especialmente abominável que parecia quase um dever destruí-los, e Johansen manifesta um espanto ingênuo com a acusação de impiedade feita a seu grupo durante o inquérito judicial. Depois, impelidos pela curiosidade, seguiram em frente no iate capturado sob o comando de Johansen e avistaram uma grande coluna de pedra se projetando para cima da superfície do mar, e em 47º 9’ de Latitude S. e 126º 43’ de Longitude O. chegaram a um litoral combinando lodo, limo e construções de alvenaria ciclópica coberta de ervas daninhas que outra coisa não poderia ser senão a substância tangível do supremo horror sobre a Terra – a pavorosa cidade-defunta de R’yleh, construída em eras imemoriais anteriores à História pelas formas imensas e malignas que se infiltraram das estrelas sombrias. Ali jaziam o poderoso Cthulhu e suas hordas, ocultos em criptas verdes, enlameadas, e expedindo, enfim, depois de ciclos temporais incalculáveis, os pensamentos que espalhavam o terror nos sonhos de pessoas sensíveis e convocavam imperiosamente os fiéis a uma romaria de libertação e restauração. Disso tudo não suspeitava Johansen, mas Deus sabe que ele logo veria o suficiente.

Imagino que um único topo de montanha, a hedionda cidadela encimada por monólito sobre a qual o grande Cthulhu estava enterrado, emergiu mesmo das águas. Quando penso na extensão de tudo que pode estar germinando naquele lugar, tenho vontade de me matar. Johansen e seus homens ficaram admirados diante da majestade cósmica daquela Babilônia gotejante de demônios ancestrais, e devem ter imaginado, sem orientação, que aquilo não pertencia a este nem a qualquer outro planeta são. A admiração com o tamanho descomunal da cidade de blocos de pedra esverdeados, com altura estonteante do grande monólito cinzelado e com a estarrecedora semelhança entre as colossais estátuas e baixos-relevos e a imagem bizarra encontrada num escrínio do Alert, é dolorosamente visível em cada linha da apavorada descrição do contramestre.

Sem conhecer o futurismo, Johansen chegou muito perto dele ao falar da cidade, pois, em vez de descrever alguma estrutura ou edifício definido, ele se atém a impressões gerais sobre os imensos ângulos e superfícies de pedra – superfícies grande demais para pertencerem a qualquer coisa normal ou própria desta Terra, corrompidas por imagens e hieróglifos terríveis. Menciono sua referência a ângulos porque sugere algo que Wilcox me disse sobre seus pavorosos sonhos. Ele disse que a geometria do lugar que via em sonhos era anormal, não euclidiana, sugerindo locais e dimensões repulsivos, diferentes dos nossos. Agora, um marinheiro iletrado sentia a mesma coisa observando a terrível realidade.

Johansen e seus homens desembarcaram num banco de lama inclinado daquela monstruosa Acrópole, e escalaram aos escorregões os titânicos blocos enlameados que não poderiam ser a escada de nenhum mortal. O próprio sol no firmamento parecia distorcido visto através dos miasmas polarizantes que exalavam daquela perversão encharcada, e um misto de ameaça e expectativa, às escondidas, daqueles ângulos loucamente enganosos de rocha entalhada onde se revelava côncavo a um segundo olhar o que se mostrara convexo a um primeiro.

Algo muito parecido com pavor tomara conta de todos os exploradores antes mesmo de avistarem qualquer coisa mais definida do que rocha, limo e mato. Cada um deles teria fugido não fosse por medo da zombaria dos outros, e foi sem muito entusiasmo que eles procuraram – em vão, com se provou – alguma lembrança que pudessem carregar.

Foi Rodriguez, o português, quem escalou a base do monólito e gritou, informando o que tinha encontrado. Os outros seguiram e olharam, cheios de curiosidade, a imensa porta entalhada com o já familiar baixo-relevo em forma de dragão com cabeça de lula. Parecia, segundo Johansen, uma grande porta de celeiro, e todos sentiram que era uma porta devido à verga, umbral e batentes ornamentados que a cercavam, embora não conseguissem ter claro se era horizontal como um alçapão ou inclinada como a porta externa de um porão. Como Wilcox teria dito, a geometria do lugar era toda errada. Não se podia ter certeza se o mar e o chão eram horizontais e, por isso, a posição relativa de tudo o mais parecia irrealmente variável.

Briden tentou forçar a porta em vários pontos, sem resultado. Depois Donovan tateou-a sua borda deliberadamente, pressionando um ponto de cada vez. Ele subiu pela grotesca moldura de pedra – isto é, podia-se chamar aquilo de subir já que não era mesmo horizontal – e os homens se perguntavam como alguma porta no universo podia ser tão imensa. Então, lenta e suavemente, o imenso painel começou a ceder para dentro na parte superior, e eles puderam notar que ele era articulado. Donovan escorregou, ou algo assim, para baixo ou ao longo do batente, juntando-se aos companheiros, e todos ficaram observando o estranho recuo daquele portal com os entalhes monstruosos. Naquela ilusão de distorção prismática, ele se movia de forma anormal, em diagonal, parecendo contrariar todas as regras da matéria e da perspectiva.

A abertura era negra, de uma escuridão quase matéria. Aquelas trevas eram, na verdade, uma qualidade positiva, pois escureciam as partes das paredes internas que deveriam ser reveladas, e exalava para fora como fumaça de sua prisão multimilenar, obscurecendo a olhos vistos o sol, ao escoar para o céu inchado e convexo num adejar de asas membranosas. O cheiro que exalava das profundezas recém-abertas era intolerável, até que Hawkins, que tinha ouvidos muito aguçados, pensou ter ouvido um chapinhar repulsivo no interior. Os homens ficaram atentos e ainda tentaram ouvir quando a Coisa se arrastou, babando, à vista de todos, espremendo Sua imensidade verde e gelatinosa pela passagem escura para o ar exterior infecto daquela venenosa cidade de loucura.

A caligrafia do pobre Johansen quase estancou neste ponto. Dos seis homens que jamais retornaram ao navio, ele acha que dois sucumbiram de puro pavor naquele maldito instante. A Coisa não pode ser descrita – não há linguagem para abismos tão imemoriais de pavor e demência, contradições tão grandes de matéria, força e ordem cósmica. Uma montanha caminhado ou se arrastando. Deus! Não espanta que, por toda a Terra, um grande arquiteto enlouquecesse e o pobre Wilcox delirasse de febre naquele instante telepático! A Coisa dos ídolos, a cria verde e gosmenta vinda das estrelas, tinha despertado para reclamar o que era seu. As estrelas estavam posicionadas uma vez mais e o que um culto ancestral não tinha conseguido deliberadamente, um grupo de inocentes marinheiros tinha obtido por acidente. Após eras incontáveis, o poderoso Cthulhu estava livre outra vez, e ávido de prazer.

Três homens foram varridos pelas patas balofas antes de alguém poder virar-se. Que descansem em paz, se algum repouso existir no universo. Era eles Donovan, Guerrera e Cngstrom Parker. Parker escorregou enquanto os outros três mergulhavam freneticamente em paisagens intermináveis de rocha incrustada de verde para o barco, e Johansen jura que ele foi engolido por um ângulo de parede que não deveria estar ali, um ângulo que era agudo mas se comportava com se fosse obtuso. Assim, só Briden e Johansen conseguiram alcançar o barco e remaram desesperados para o Alert enquanto a monstruosidade montanhosa se deixava cair pesadamente sobre as rochas escorregadias, até parar, hesitante, à beira do mar.

O vapor do navio não estava totalmente extinto, apesar da ida de todos os braços para a praia, e alguns minutos de correria febril de um lado para outro entre a roda do leme e as máquinas foi o que bastou para colocar o Alert em movimento. Devagar, em meio aos horrores distorcidos daquela paisagem indescritível, ele começou a agitar as águas letais, enquanto sobre a estrutura de pedra daquela praia espectral que não era da Terra, a Coisa titânica das estrelas babava e resmungava como Polifemo maldizendo o navio em fuga de Ulisses15. Em seguida, mais audacioso do que os célebres Ciclopes, o poderoso Cthulhu deslizou viscosamente para a água e saiu em perseguição do navio com braçadas de uma potência cósmica e tão imensas que chegavam a formar ondas na superfície do mar. Briden olhou para trás e enlouqueceu, rindo histericamente, e assim seguiu rindo, com intervalos, até que a morte o encontrou, certa noite, na cabine, enquanto Johansen perambulava delirante pelo navio.

Mas Johansen ainda não tinha desistido. Sabendo que a Coisa certamente alcançaria o Alert antes que o navio navegasse a pleno vapor, resolveu fazer uma tentativa desesperada e ajustando a máquina para plena velocidade, correu como um raio para o convés e inverteu o leme. Formou-se um portentoso turbilhão de espuma no abominável oceano, e enquanto a pressão do vapor ia aumentando, e aumentando, o bravo norueguês dirigia a proa da embarcação para o caçador gelatinoso que se erguia acima da espuma imunda com a proa de um galeão infernal. A pavorosa cabeça de lula com tentáculos retorcidos já estava quase alcançando o gurupés do robusto iate, mas implacável, Johansen avançava. Houve um ruído de bexiga estourando, uma sujeira gosmenta de peixe-lula rasgado, um fedor como se um milhar de sepulturas fossem abertas e um som que o cronista não conseguiu pôr no papel. Por um instante, o navio ficou coberto por uma nuvem verde, acre e cegante, e depois restou apenas um fervilhar venenoso a ré, onde – Deus! – a massa plástica dispersa daquela inominável criatura celeste ia vagamente recompondo sua odiosa forma original, enquanto se alargava a distância que a separava, a cada segundo, do Alert que ganhava ímpeto com a pressão crescente do vapor.

Isso foi tudo. Em seguida, Johansen apenas meditou sobre o ídolo na cabine e cuidou da comida para si e para o maníaco risonho ao seu lado. Ele não tentou navegar depois da primeira e corajosa fuga, pois o contra-ataque tinha extraído algo de sua energia. Depois veio a tormenta de 2 de abril e sua consciência se anuviou. Há uma sensação de vertigem espectral por abismos líquidos do infinito, de corridas alucinadas por universos instáveis montado numa cauda de cometa, e de saltos histéricos do poço à lua e da lua novamente ao poço, tudo animado por um coro cachinante dos corrompidos, hilários deuses antigos e dos zombeteiros duendes verdes com asas de morcego do Tártaro.16

Fora daquele sonho, veio a salvação – o Vigilant, o tribunal do vice-almirantado, as ruas de Dunedin e a longa viagem de volta para a velha casa à sombra de Egeberg. Ele não poderia contar – eles o achariam louco. Escreveria tudo que sabia antes da morte chegar, mas sua esposa não devia suspeitar. A morte seria uma bênção se ao menos pudesse apagar as lembranças.

Esse foi o documento que li e coloquei agora na caixa de estanho ao lado do baixo-relevo e dos papéis do professor Angell. Com ele irá esse meu registro – esse teste de minha própria atitude mental, em que se reconstituiu aquele que eu espero que jamais se reconstitua de novo. Considerei tudo de que o universo dispõe para conter o horror, e mesmo os céus de primavera e as flores de verão serão, para sempre, veneno para mim. Mas não creio que minha vida dure muito. Assim como meu tio se foi, como o pobre Johansen se foi, eu irei. Sei demais, e o culto ainda vive.

Cthulhu ainda vive, também, imagino, naquele abismo de pedra que o abrigou desde que o sol era jovem. Sua maldita cidade está novamente submersa, pois o Vigilant navegou até o local depois da tormenta de abril, mas seus agentes em terra ainda urram, cabriolam e matam em torno de monólitos coroado por ídolos em locais desertos. Ele dever ter sido apanhado pelo afundamento enquanto estava dentro de seu abismo negro, senão o mundo estaria agora gritando de pavor e loucura. Quem conhecerá o fim? Aquilo que emergiu pode afundar, e o que afundou pode emergir. A repugnância espera e sonha nas profundezas, e a podridão se espalha sobre as precárias cidades dos homens. Chegará um momento… mas não devo e não posso pensar! Deixem-me rezar para que, se não sobreviver a este manuscrito, meus executores testamentários coloquem a cautela a frente da audácia e cuidem que ele não chegue a outros olhos.

Notas:

  1. Blackwood, Algernon Henry (1869-1951), famoso escritor inglês do gênero horror e muito admirado por Lovecraft. (Nota de Transcrição)
  2. O termo “Cthulhu” é pronunciado comumente como “kuh-THOO-loo” (em português soa algo como: “Katuuluu”, pronunciado rapidamente), por causa da pronuncia indicada na caixa do famoso RPG de nome “Call of Cthulhu” da Chaosium. Entretanto, existem vários estudantes sérios de Lovecraft que preferem a pronúncia como “Cloo-loo”, justificando suas teses em referências dos contos do autor. Fora isto a discussão se estende e encontramos ainda uma série de pronuncias diferentes, mas que na prática nada, ou muito pouco, acrescentam ao termo. O próprio Lovecraft brincava com seus amigos escritores pronunciando hora de uma forma ora de outra. (Nota de Transcrição)
  3. Traduzido no Brasil da versão inglesa resumida e ilustrada The Ilustrated Golden Bough, da monumental obra de antropologia da religião The Golden Bough de Sir James George Frazer, como O Ramo de Ouro, Ed. Guanabara Koogan, 1982.
  4. Margaret A. Murray publicou em 1921 o livro citado, onde defende a tese de que o culto às bruxas, tanto na Europa como na América, tem origem numa raça pré-ariana que foi impelida para um mundo subterrâneo, mas continua à espreita em cantos escondidos da terra.
  5. Esta casa-estúdio foi criada pelo artista de Providence, R.I., Sydney Richmond Burleigh e de fato existe na Rua Thomas nº 77 nesta mesma cidade. Foi utilizada como inspiração para esta história. (Nota de Transcrição).
  6. La Fayette, Marquês de (1757-1834), líder militar e político francês, lutou no bando dos rebeldes das colônias durante a guerra da Independência Americana. (Nota de Transcrição)
  7. Iberville, sieur d’ (Pierre Le Moyne) (1661-1706), explorador famoso e um dos fundadores da Louisiana. (Nota de Transcrição)
  8. La Salle, René-Robert Cavelier (1643-1687), explorador francês famoso pela descoberta de um vale, o qual viria a ser a atual Louisiana, em homenagem ao rei Luís XIV. (Nota de Transcrição)
  9. Sidney Herbert Sime (1867-1945), ilustrador admirado por Lovecraft; Anthony Angarola (1893-1929), ilustrador norte americano de livros.
  10. Livro místico imaginário criado por Lovecraft. Neste grimório desconhecido estariam guardados segredos sobre os Antigos e práticas mágicas. Em “A História do Necronomicon”, o autor nos fala, inclusive com mais detalhes, sobre cidade dos pilares de Irem, citada anteriormente e de cópias secretas do livro preservadas até hoje. É importante dizer que este livro nunca existiu, e Lovecraft apenas se referia a ele nunca criando uma versão do livro, inclusive versões do livro é que não faltam na Internet algumas até ridículas associando Lovecraft ao famoso ocultista A. Crowley e outras besteiras mais. (Nota de Transcrição)
  11. Machen, Arthur (1863-1947), escritor inglês de renome que abordava temas sobrenaturais, admirado por Lovecraft. (Nota de Transcrição)
  12. Smith, Clark Ashton (1893-1961), escritor e artista plástico que além de amigo de Lovecraft era admirado por ele.(Nota de Transcrição)
  13. Bergen, cidade marítima e portuária do sudoeste da Noruega. (Nota de Transcrição)
  14. Oslo foi fundada por Harold III da Noruega por volta de 1050. Destruída em 1624 por um incêndio, Christian IV a reconstruiu batizando-a de Cristiania em sua homenagem. Assim foi até 1925, quando recuperou seu nome histórico. (Nota de Transcrição)
  15. Ulisses, nome latino de Odisseu, na mitologia grega, governador da ilha de Ítaca e um dos chefes do exército grego durante a guerra de Tróia. (Nota de Transcrição)
  16. Tártaro, na mitologia grega, a região mais baixa dos infernos. Segundo Hesíodo e Virgílio, o Tártaro é fechado por portas de ferro e está tão abaixo do mundo subterrâneo de Hades quanto a terra está em relação ao céu. (Nota de Transcrição).

Um Homem Chamado Ziegler (Hermann Hesse)

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Em tempos idos, viveu na Brauergasse um jovem de nome Ziegler. Pertencia àquele gênero de pessoas que encontramos todos os dias em nossa rua mas cujo rosto nunca conseguimos recordar direito, porque todas têm um rosto idêntico — uma cara coletiva. Ziegler era e fazia tudo o que essas pessoas sempre são e fazem. Não era ignorante mas tampouco era uma inteligência rara, gostava de dinheiro e diversões, gostava de se vestir bem e tinha aquela dose de covardia da maioria das pessoas: sua vida e ações eram menos pautadas por ambições e impulsos do que por proibições, pelo medo de ser punido. Além disso, tinha alguns rasgos de honestidade e era uma pessoa agradável, enfim, um homem normal, para quem a própria vida era a coisa mais importante e cara. Tinha-se na conta, como toda a gente, de uma personalidade, quando em apenas um espécime, e julgava-se o centro do universo, como toda a gente. Dúvidas não existiam em sua mente e se os fatos contradiziam sua concepção do mundo, fechava os olhos em desaprovação. Como pessoa moderna, tinha Ziegler um respeito ilimitado pelo dinheiro e, além deste, por uma outra grande força: a ciência. Não saberia definir exatamente o que era a ciência, imaginava-a alguma coisa assim como a estatística, ou um pouco como a bacteriologia, e estava bem a par de quanto dinheiro e honrarias o Estado outorga aos homens de ciência. Tinha particular respeito pelas pesquisas sobre o câncer, pois seu pai morrera dessa doença e Ziegler esperava que, quanto mais desenvolvida estivesse a ciência, menores seriam as probabilidades dele morrer de câncer. Não, os cientistas não permitiriam que tal coisa acontecesse. Exteriormente, Ziegler distinguia-se pela ambição de trajar sempre acima do que seus recursos o permitiam, nunca deixando de mudar o guarda-roupa de acordo com a moda do ano. Não lhe permitindo os recursos acompanhar a moda do mês e da estação, desprezava os que podiam fazê-lo naturalmente, considerando-os uns mascarados, uns palhaços. Dava muito valor à firmeza de caráter e não temia ofender, entre os seus iguais e desde que estivesse em lugar seguro, seus superiores e o governo. Talvez tenha demorado demais com esta descrição. Mas Ziegler era, realmente, um moço encantador e não é culpa nossa se, sem o querermos, perdemos demasiado tempo com ele. Pois a verdade é que, contra todos os seus laboriosos planos e merecidas esperanças, Ziegler encontrou um prematuro e estranho fim. Pouco depois de ter chegado à nossa cidade, resolveu ele, certa vez, passar um domingo alegre e distraído. Não fizera ainda relações pessoais e, por falta de decisão, tampouco ingressara em qualquer dos clubes sociais e recreativos da cidade. Talvez tenha sido essa a causa de sua desgraça. Nunca é bom que um homem f i que só. Assim dependia de sua própria iniciativa escolher alguma das atrações oferecidas pela cidade aos forasteiros. Fez minuciosas indagações e, após cuidadoso estudo, decidiu-se por uma visita ao Museu Histórico e ao Jardim Zoológico. Aos domingos de manhã, a entrada no museu era gratuita e o Jardim Zoológico podia ser visitado de tarde a preços reduzidos. Trajando seu novo terno de passeio com botões forrados, de que ele gostava muito, Ziegler dirigiu-se, no domingo de manhã, ao Museu Histórico. Levava uma fina e elegante bengala de castão quadrado e laqueado de vermelho, que lhe conferia muita pose e elegância; para seu profundo desgosto, porém, o porteiro do museu intimara-o a deixá-la no bengaleiro, antes de entrar nas salas. Nas extensas galerias de tetos altos havia muita coisa digna de ser vista e o curioso visitante exaltava, em seu íntimo, a todapoderosa ciência que também ali exibia fielmente sua grandeza, como Ziegler pôde constatar através da leitura das esclarecedoras inscrições nas vitrinas. Velhas bugigangas imprestáveis e enferrujadas de ferro batido, colheres quebradas e cheias de azinhavre, e muitas coisas semelhantes ganhavam com essas doutas explicações um surpreendente interesse. Era maravilhoso como a ciência se ocupava de tudo, como sabia pôr nomes em tudo… ah, sim! Em breve acabariam também com o câncer e, quem sabe, com a própria morte! Na segunda sala havia um mostruário envidraçado cujos cristais eram tão polidos e reluzentes que, despercebidamente, Ziegler pôde dar um toque de arrumação no terno, pentear os cabelos, ajeitar o colarinho, verificar o vinco das calças e o nó da gravata com o zelo de um sargento passando em revista o pelotão de guardas. Sorriu satisfeito e continuou seu passeio, dedicando a maior atenção a alguns objetos de talha de séculos passados. Rapazes competentes, esses entalhadores, pensou ele, embora muito ingênuos. Observou também, com um sorriso benevolente, um antigo relógio de caixa alta, com figurinhas de marfim que dançavam o minueto quando os carrilhões badalavam as horas. Depois, aquela geringonça toda começou a causar-lhe um certo tédio. Bocejou e, por mais de uma vez, puxou o relógio de bolso que, aliás, tinha o maior prazer em exibir, pois era de ouro maciço — herança do pai. Ainda lhe sobrava muito tempo até à hora do almoço e resolveu passar a uma outra galeria do museu que talvez lhe despertasse mais interesse. Lá se expunham diversos objetos relacionados com as superstições da Idade Média, pergaminhos que explicavam como fazer feitiços, tratados de magia, amuletos, utensílios de bruxaria e, num canto, fora reconstituído um laboratório completo de alquimista, com fogão, retortas, almofarizes, bexigas de porco, foles e uma infinidade de outras coisas. Este recanto estava isolado dos visitantes por um cordão e uma tabuleta advertia ser proibido tocar nos objetos expostos. Porém, essas tabuletas nunca são lidas com muita atenção e, além do mais, Ziegler estava sozinho na sala. Assim, esticou o braço por cima do cordão e tocou, despreocupadamente, em alguns desses extravagantes objetos. Já tinha lido um pouco sobre a Idade Média e suas engraçadas superstições; não lhe entrava na cabeça como as pessoas, nessa época, podiam se ocupar em coisas tão infantis e que, simplesmente, as autoridades não tivessem proibido essa farsa da bruxaria e das artes mágicas. As autoridades, por vezes, têm desses descuidos. A alquimia, porém, era diferente; podia ser perdoada pois dela resultaria a tão útil e prestimosa química. Santo Deus, pensando bem, todos esses potes, e tubos, retortas de alquimista talez tivessem sido indispensáveis, porque sem eles era muito possível que ainda hoje não existissem a aspirina e as bombas de gás asfixiante. Com a displicência do curioso que mata o seu tempo, Ziegler pegou numa bolinha de cor escura, que parecia com uma pílula; era um pedaço de massa leve e seca, virou-o entre os dedos e já se dispunha e repô-lo em seu lugar quando ouviu passos atrás dele. Virou-se e era outro visitante, caminhando na sua direção. Ziegler ficou com vergonha de que o vissem com a bolinha na mão pois, naturalmente, tinha lido o aviso na tabuleta. Por isso, fechou a mão, meteu-a no bolso e saiu. Já estava de novo na rua quando se lembrou da pílula. T i rou-a do bolso e pensou em jogá-la fora mas, antes, levou-a perto do nariz e cheirou. Tinha um -aroma levemente resinoso que lhe agradou e resolveu enfiá-la de novo no bolso. Dirigiu-se então a um restaurante, encomendou o almoço, folheou um jornal, ajeitou o nó da gravata e dirigiu aos outros comensais olhares ora respeitosos, ora petulantes, conforme eles estivessem vestidos. Como a refeição demorasse, o jornal já estivesse lido e os outros comensais inspecionados, Ziegler tirou do bolso a sua, por mero acidente, roubada pílula de alquimista e cheirou-a outra vez. Depois, raspou-a um pouco com a unha do dedo indicador e, finalmente, obedecendo a um impulso pueril, levou-a à ponta da língua para ver que gosto tinha. Assim que a pílula lhe tocou na boca derreteu-se num abrir e fechar de olhos. Não tinha gosto desagradável e Ziegler acabou engolindo-a com um trago de cerveja. Logo depois chegou o almoço. Às duas horas, o jovem saltou do bonde em frente ao Jardim Zoológico e comprou um ingresso a preço reduzido. Sorridente, encaminhou-se para o setor dos macacos e foi postar-se diante da grande jaula do chimpanzé. O símio piscou-lhe o olho, acenou cordialmente e, em voz grave, disse: — Como vai, querido irmão? Enojado e surpreendido, Ziegler afastou-se rapidamente e, na retirada, ainda ouviu o cliimpanzé dizer, irritado: — Não querem ver o orgulhoso? Nem responde a um cumprimento, o ignorante pé-chato! Já assustado, Ziegler dirigiu-se rapidamente ao cercado dos cercopitecos. Pulavam e corriam, em suas costumeiras diabruras, e gritavam: — Dá-me açúcar, companheiro! Como ele não tivesse torrões de açúcar para jogar-lhes, os macacos enfureceram-se, xingaram-no de “pobre-diabo” e mostraram-lhe os dentes arreganhados. Ziegler não suportou mais; consternado e confuso, fugiu do cercado e dirigiu-se para o setor dos cervos e veados, dos quais esperava um comportamento mais natural. Um grande e belo alce estava perto da vedação e olhou para o visitante. Aí é que Ziegler realmente se alarmou. Percebeu que, desde que engohra a velha pílula mágica, entendia a língua dos animais, E o alce falava-lhe com os olhos, dois grandes e expressivos olhos castanhos. E esse olhar tranqüilo, que para os outros significava altivez, resignação e tristeza, para Ziegler traduziu um sentimento de profundo e aviltante desprezo. De acordo com a expressão majestosa do alce, o jovem compreendeu que, apesar do seu terno domingueiro, do chapéu, da bengala de castão iaqueado, do relógio de ouro, o cativo apenas via no visitante um ridículo e repugnante animal. Ziegler viu o alce voltar-lhe as ancas e resmungar “canalha”. Fugiu para a cerca dos bodes, dali para a das camurças, passou pelo Ihama, pelos gnus, os javalis e os ursos. Por nenhum deles foi insultado mas por todos desprezado. Escutava-os falando entre eles e ficou sabendo o que pensavam dos homens. Sobretudo, admiravam-se que a esses feios, fedorentos e cruéis bípedes fosse permitido circularem livremente, metidos em suas espalhafatosas fantasias. Ouviu um puma conversar com seu filhote. Era uma fala cheia de dignidade e objetiva sabedoria, como raras vezes se ouve entre os humanos. Escutou uma pantera manifestar-se, em termos aristocráticos, sobre a gentalha que a visitava aos domingos. Encarou o nobre leão de juba loura e ficou sabendo como era vasto e maravilhoso o mundo selvagem onde não existiam jaulas nem seres humanos. Viu um milhafre, triste mas orgulhoso, pousado num galho seco e que observou Ziegler com uma expressão de confrangedora melancolia. Os gaios e pegas suportavam seu cativeiro com muita decência, indifererntes ao que se passava do lado de fora das gaiolas, ou trocando apenas alguns comentários trocistas e bem-humorados. No auge da perturbação e arrancado às normas do seu raciocínio habitual, Ziegler dirigiu-se, em seu desespero, para um agrupamento de homens, na esperança de encontrar um olhar que compreendesse sua aflição e medo Escutou as conversas para ouvir algo consolador que o sossegasse, observou os gestos dos numerosos visitantes, ansioso por surpreender em algum deles um gesto de dignidade, uma expressão de pobreza e silenciosa superioridade humana. Mas ficou terrivelmente decepcionado. Ouvia as vozes e palavras, via os gestos e olhares mas como observava tudo, agora, através de uma visão animal nada mais encontrou senão uma sociedade degenerada falsa mentirosa, de criaturas ammalescas e feias que pareciam constituir o refugo de todas as outras espécies animais. Ziegler pôs-se a vaguear Pelo jardim, imensamente envergonhado de si mesmo A bengala de castão laqueado já fora há muito jogada para o meio doS arbustos. Seguiram-se-lhe as luvas. Mas quando arrancou o chapéu, descalçou as botas, tirou a gravata, e foi encostar-se soluçando, no tapume do cercado do alce, causou uma enorme admiração entre os visitantes de domingo, e foi internado num manicômio.

A Neves de Kilimanjaro (Ernest Hemingway)

kilimanjaro
Kilimanjaro é uma montanha coberta de neve, a 6.000 metros de altitude, e diz-se que é a montanha mais alta da África. O seu pico ocidental chama-se ‘Ngàge Ngài’, a Casa de Deus. Junto a este pico encontra-se a carcaça de um leopardo. Ninguém ainda conseguiu explicar o que procurava o leopardo naquela altitude.

— O que é fantástico é que isto é indolor — disse ele.
— É assim que ficamos a saber quando ela começa.
— É assim realmente?
— Absolutamente. Mas, desculpa este cheiro. Deve incomodar-te.
— Não! Por favor, não digas isso.
— Olha para eles —, disse ele. — É o que vêem ou o que lhes cheira que os atrai desta maneira? A cama de lona em que o homem estava deitado estava na extensa sombra de uma mimosa, e quando ele olhou para além da sombra, no brilho intenso da planície viam-se três daquelas aves obscenamente agachadas, enquanto, no céu, mais uma dúzia voava, fazendo sombras velozes quando passavam.
— Eles andam ali desde o dia em que a camioneta avariou — , disse ele. — Hoje foi a primeira vez que alguns pousaram. Reparei na maneira como eles voam, ao princípio com muito cuidado, para o caso de eu alguma vez os querer utilizar numa história. É engraçado.
— Espero que não —, disse ela.
— Estou só a falar —, disse ele.
— As coisas ficam mais fáceis se eu falar. Mas não quero incomodar-te.
— Tu sabes bem que isso não me incomoda —, disse ela. — É que fiquei tão nervosa por não poder fazer qualquer coisa. Parece-me que devíamos facilitar as coisas o mais possível até que o avião chegue.
— Ou até que o avião não chegue.
— Diz-me, por favor, o que é que eu posso fazer. Há-de haver alguma coisa que eu possa fazer.
— Podes arrancar-me a perna, e isso talvez resolvesse a questão, embora tenha as minhas dúvidas. Ou podes dar-me um tiro. Tu já tens uma boa pontaria. Eu ensinei-te a atirar, não foi?
— Por favor, não fales assim. Eu podia ler-te qualquer coisa.
— Ler o quê? — Um livro qualquer daqueles que estão no saco e que ainda não lemos.
— Não estou capaz de ouvir —, disse ele. — Falar é mais fácil. Discutimos, e isso ajuda a passar o tempo.
— Eu não discuto. Eu nunca quero discutir. Vamos acabar com as discussões. Por mais nervosos que estejamos. Talvez eles voltem hoje com outra camioneta. Talvez o avião chegue.
— Eu não quero sair daqui —, disse o homem. — Não faz sentido sair daqui, a não ser para te facilitar as coisas.
— Isso é cobardia.
— Será que tu não és capaz de deixar uma pessoa morrer sem lhe chamar nomes? De que serve insultares-me?
— Tu não vais morrer.
— Não sejas parva. Eu já estou a morrer. Pergunta àqueles canalhas.

Olhou para o sítio onde estavam aquelas enormes aves imundas, agachadas, com as cabeças nuas enterradas nas penas arqueadas. Uma quarta desceu em vôo planado, para depois correr rapidamente, e finalmente, bamboleando-se, caminhou vagarosamente em direção às outras.

— Eles andam sempre por perto em todos os acampamentos. A gente nunca repara neles. Tu não morres se não desistires.
— Onde é que leste isso? És uma idiota chapada.
— Podias pensar em arranjar outra pessoa.
— Por amor de Deus —, disse ele. — Não tenho feito outra coisa.

Estendeu-se então na cama e ficou calado por momentos a olhar para a orla do bosque através da luz tremula do calor. Muito longe, viu uma manada de zebras brancas, contra o fundo verde do bosque. O acampamento era agradável, sob grandes árvores, junto a uma colina, com boa água, e, muito perto, um charco quase seco, onde, de manhã, voavam galinhas bravas.
— Não queres que te leia qualquer coisa? — perguntou ela. Estava sentada numa cadeira de lona ao lado da cama. — Está-se a levantar uma brisa.
— Não, obrigado.
— Talvez a camioneta venha.
— A camioneta não me interessa nada.
— A mim interessa.
— A ti interessam-te tantas coisas que a mim não interessam nada.
— Não são assim tantas, Harry.
— E se eu bebesse qualquer coisa?
— Deve fazer-te mal. Diz no Black que se deve evitar o álcool. Não devias beber.
— Molo! — Chamou ele.
— Diga, Bwana.
— Traz-me whisky-soda.
— Sim, Bwana.
— Não devias —, disse ela. — É isso que eu quero dizer com desistir. Faz-te mal. Eu sei que te faz mal.
— Não —, disse ele. — Faz-me bem.

Portanto, agora acabou-se, pensou ele. Já não teria oportunidade de o acabar. Portanto, o fim era assim, uma questiúncula acompanhada de uma bebida. Desde que a gangrena começara na perna direita ele não sentia dores, e com a dor fora-se também o horror, e tudo o que ele agora sentia era um grande cansaço e irritação por aquilo ser o fim. Em relação àquilo que estava para chegar, não tinha grande curiosidade. Durante anos, tinha-o obcecado; mas agora não significava nada em si mesmo. Estranho, como o cansaço facilitava as coisas. Já não escreveria as coisas que tinha reservado só para escrever quando soubesse o bastante para escrever bem. Bom, também não teria de falhar na tentativa de as escrever. Talvez nunca viesses a ser capaz de as escrever, e essa era a razão por que as adiavas e atrasavas o seu começo. Bem, agora, nunca viria a saber.

— Estou arrependida de ter vindo —, disse a mulher. Estava a olhar para ele, com o copo na mão e a morder o lábio.
— Tu nunca terias arranjado um problema como este em Paris. Sempre disseste que adoravas Paris. Podíamos ter ficado em Paris ou ido a outro sítio qualquer. Eu teria ido para outro sítio qualquer. Eu disse-te que ia para onde tu quisesses. Se querias caçar podíamos ter ido caçar confortavelmente na Hungria.
— O teu maldito dinheiro —, disse ele.
— Isso não é justo —, disse ela.
— Foi sempre tanto meu como teu. Deixei tudo e fui sempre para onde quer que tu quisesses ir, e fiz o que tu querias fazer. Mas nunca devíamos ter vindo.
— Tu disseste que adoravas.
— Sim, mas quando estavas bem. Agora detesto. Não percebo como é que isto te havia de acontecer à perna. O que é que nós fizemos para isto nos acontecer?
— Parece-me que o que eu fiz foi esquecer-me de lhe pôr tintura de iodo quando a cocei a primeira vez. Depois não lhe dei importância porque nunca tinha tido uma infecção. Mais tarde, quando piorou, foi provavelmente o ter usado aquela solução de fénico, quando os outros anti-sépticos acabaram que paralisou os minúsculos vasos sanguíneos e provocou a gangrena. — Ele olhou para ela, — Que mais?
— Eu não queria dizer isso.
— Se tivéssemos arranjado um bom mecânico em vez de um motorista kukuyu sem experiência, ele teria verificado o óleo e aquele rolamento da camioneta não se teria queimado.
— Eu não queria dizer isso.
— Se tu não tivesses deixado a tua maldita gente de Old Westbury, Saratoga, e Palm Beach…
— Oh, eu amava-te. Isso não é justo. E ainda te amo. Sempre te amarei. E tu não me amas?
— Não —, disse o homem. — Parece-me que não. Nunca te amei.
— Harry, que estás a dizer? Perdeste a cabeça.
— Não. Não tenho cabeça nenhuma para perder.
— Não bebas isso —, disse ela.
— Querido, por favor, não bebas isso. Temos de fazer tudo ao nosso alcance.
— Faz tu —, disse ele. — Eu estou cansado. Agora ele recordava uma estação de caminho de ferro em Karagatch e ele estava lá com o seu saco e aquilo era o farol do Simplon-Orient a rasgar a escuridão e ele ia partir da Trácia depois da retirada. Era uma das coisas que ele tinha reservado para escrever, e também, de manhã ao pequeno almoço, a olhar pela janela e a ver a neve nas montanhas da Bulgária e a Secretária de Nansen a perguntar ao velho se aquilo era neve e o velho a olhar e a dizer: — Não, aquilo não é neve. Ainda é cedo para a neve. E a Secretária a repetir para as outras raparigas: — Não, estão a ver, não é neve. E elas todas a dizerem: — Não é neve, estávamos enganadas. Mas era neve, sim senhor e ele mandou-as para lá quando elaborou a troca de populações. E foi neve que elas palmilharam até morrerem nesse inverno. Foi neve também que caiu durante toda a semana do Natal nesse ano no Guaertal, naquele ano que viveram na casa do lenhador com o fogão de porcelana que enchia metade da sala, e dormiam em colchões cheios de folhas de faia, na altura em que chegou o desertor com os pés ensangüentados na neve. Ele disse que a polícia andava atrás dele e eles deram-lhe meias de lã e demoraram os polícias à conversa até as marcas terem desaparecido. Em Schrunz, no dia de Natal, a neve brilhava tanto que fazia doer os olhos quando se olhava pela janela do weinstube e se via toda a gente a regressar da igreja. Foi aí que eles andaram pela estrada de piso macio, dos trenós, e amarela de urina, ao longo do rio, com colinas escarpadas cobertas de pinheiros, skis pesados ao ombro, e onde eles fizeram aquela grande corrida pelo glaciar abaixo, acima da Madlener-haus, a neve tão macia de ver como a cobertura de um bolo e tão leve como o pó e lembrou-se do ímpeto silencioso que a velocidade causava quando se saltava como um pássaro. Nessa altura ficaram bloqueados por uma tempestade de neve na Madlener-haus durante uma semana, a jogar as cartas no meio do fumo à luz da lanterna e as apostas eram cada vez mais altas enquanto Herr Lent perdia cada vez mais. Finalmente perdeu tudo. Tudo, o dinheiro da skischule e todos os lucros da época e depois o seu próprio capital. Ele via-o com o seu nariz comprido, a apanhar as cartas e depois a abrir ‘Sans Voir’. Havia sempre jogo nessa altura. Jogava-se quando não havia neve, e jogava-se quando havia neve demais. Pensou no tempo todo que passou a jogar. Mas nunca escrevera uma linha sobre isso, nem sobre aquele dia de Natal frio e claro com as montanhas a verem-se do outro lado da planície que Johnson tinha sobrevoado para lá da linha para bombardear o comboio dos oficiais que partiam de licença, metralhando-os à medida que eles se espalhavam e corriam. Lembrava-se de Johnson depois vir à Messe e começar a contar o acontecimento. E o silêncio que se fez e depois alguém a dizer, ‘Canalha assassino!’ Aqueles austríacos que eles então mataram eram os mesmos com que ele esquiou depois. Não, os mesmos, não. Hans, com quem ele esquiou todo aquele ano, tinha estado no Kaiser-Jägers e quando eles foram à caça juntos no pequeno vale acima da serração tinham conversado sobre a luta em Pasubio e sobre o ataque a Pertica e Asalone e ele nunca escrevera uma palavra sobre isso. Nem sobre Monte Corno, nem sobre Siete Commun, nem sobre Arsiedo. Quantos invernos é que ele tinha passado em Voralberg e em Arlberg? Quatro, e depois lembrou-se do homem que tinha a raposa para vender quando eles foram a Bludenz, dessa vez para comprar prendas, e do sabor a cereja do belo kirsch, a escorregadia investida à corrida da neve seca sobre o gelo, a cantar ‘Hi!Ho! disse Rolly!’ quando se corria o último troço até ao declive, indo a direito, depois a correr no pomar em três voltas, e para fora atravessando a vala e até à estrada com gelo por detrás da estalagem. A desapertar os cintos, a tirar os esquis e a encostálos à parte de madeira da estalagem, a luz do candeeiro vinda da janela, onde, dentro, no calor fumarento a cheirar a vinho novo, eles tocavam acordeão.
— Onde é que nós ficamos em Paris? — perguntou ele à mulher que estava sentada junto dele numa cadeira de lona, agora em África.
— No Crillon. Sabes muito bem.
— Sei muito bem porquê?
— Era onde sempre ficávamos.
— Não. Nem sempre.
— Lá e no Pavillon Henri-Quatre, em St Germain. Disseste que adoravas aquilo lá.
— A adoração é um esterqueiro —, disse Harry. — E eu sou o galo que vai para lá cantar.
— Se realmente tens de embarcar —, disse ela, — será que tens mesmo de destruir tudo o que deixas para trás? Quero dizer, tens mesmo de levar tudo contigo? Será que tens de matar o cavalo e a mulher e queimar a sela e a armadura?
— Tenho —, disse ele. — O teu dinheiro era a minha armadura. O meu Swift and Armour.
— Por favor.
— Está bem. Vou parar com isto. Não quero magoar-te.
— Já é um bocado tarde para isso.
— Está bem, está bem. Vou continuar a magoar-te. É mais divertido. A única coisa que eu gostava de fazer contigo já não posso fazer.
— Não, isso não é verdade. Tu gostavas de fazer muitas coisas comigo, e tudo o que tu querias fazer eu fazia.
— Oh, por amor de Deus, pára com essa gabarolice, sim? Ele olhou para ela e viu-a a chorar.
— Ouve —, disse ele. — Achas que eu me estou a divertir muito com isto? Não sei por que estou a fazê-lo. Acho que, ao tentar matar, a pessoa está a procurar manter-se viva. Eu estava bem quando começamos a conversar. Eu não tinha a intenção de começar com isto, e agora estou completamente maluco e estou a ser cruel contigo o mais possível. Não ligues ao que eu digo, querida. Eu amo-te mesmo. Sabes bem que sim. Nunca amei ninguém como amo a ti. Caiu nas mentiras habituais que o sustentavam.
— Tu és muito meigo para mim.
— Ó minha cabra —, disse ele. — Minha cabra rica. Isso é poesia. Já estou cheio de poesia. De podridão e poesia. De poesia podre.
— Cala-te. Harry, por que é que te hás-de agora transformar num demônio?
— Não gosto de deixar ficar seja o que for —, disse o homem. — Não gosto de deixar ficar as coisas para trás.

Era já quase noite e ele tinha estado a dormir. O sol já se escondia por detrás da colina, e agora a sombra cobria toda a planície e os animais pequenos comiam perto do acampamento; ele via-os a baixarem rapidamente a cabeça e a abanar a cauda, mantendo-se agora afastados do bosque. As tais aves já não estavam à espera no solo. Estavam todas pesadamente empoleiradas numa árvore. Havia agora muitas mais. O seu boy pessoal estava sentado junto da cama.
— A Memsahib foi caçar —, disse o rapaz.
— O Bwana quer alguma coisa?
— Nada. Ela tinha ido caçar para arranjar um pouco de carne e, sabendo como ele gostava de observar os animais, tinha ido para longe de modo a não perturbar aquela pequena parte da planície que ele abarcava com a vista. Ela era sempre ponderada, pensava ele. Em tudo o que sabia, ou que tinha lido, ou de que alguma vez tinha ouvido falar. Ela não tinha culpa de ele já estar acabado quando começaram a andar juntos. Como é que uma mulher podia saber que uma pessoa não queria dizer nada daquilo que disse; que uma pessoa falava apenas por falar e para se sentir bem? Depois que começou a fingir que falava verdade, as suas mentiras eram mais bem sucedidas com as mulheres do que quando ele lhes dizia a verdade. Não era tanto o fato de ele mentir, mas antes o de não haver uma verdade para dizer. Ele tinha vivido a sua vida e acabara-se e depois continuou a vivê-la de novo com pessoas diferentes e mais dinheiro, com os melhores dos mesmos lugares, e alguns novos. Evitavas pensar e era tudo fantástico. Armavas-te com um bom íntimo para assim não ficar despedaçado, como a maioria deles, e tomavas uma pose que mostrasse que o trabalho que antes fazias não te interessava nada, agora que já não podias fazêlo. Mas, para ti próprio dizias que havias de escrever sobre aquelas pessoas; sobre os muito ricos; que não eras um deles mas antes um espião no seu campo; que havia de deixar aquilo e escrever sobre aquilo e por uma vez aquilo seria escrito por alguém que sabia do que estava a escrever. Mas ele nunca o faria, porque cada dia sem escrita, sem conforto, cada dia em que ele era precisamente aquilo que desprezava, entorpecia a sua capacidade e amolecia a sua vontade de trabalhar, de tal maneira que, por fim, não fazia mesmo nada. As pessoas que ele agora conhecia sentiam-se muito melhor quando ele não trabalhava. A África era o lugar onde ele fora mais feliz nos bons tempos da sua vida, e portanto tinha lá voltado para começar de novo. Tinham feito este safári com um mínimo de conforto. Sem privações; mas também sem luxo, e ele pensara que assim poderia voltar ao treino daquela maneira. Que de certa maneira poderia desfazer-se da gordura do espírito tal como um lutador ia para a montanha trabalhar e treinar para assim queimar a do corpo. Ela gostara. Disse que adorava aquilo. Ela adorava qualquer coisa que fosse excitante, que envolvesse uma mudança de cenário, onde houvesse boas pessoas e onde as coisas fossem agradáveis. E ele tinha sentido a ilusão de recuperar a força de vontade para trabalhar. Ora, se era assim que as coisas iam acabar, e ele sabia que era, ele não devia começar a fazer como a serpente que morde a si própria por ter quebrado a espinha. A culpa não era desta mulher. Se não fosse ela, tinha sido outra qualquer. Se ele vivia numa mentira, devia morrer nela. Ouviu um tiro para lá da colina. Ela atirava bem, aquele cabra boa, aquela cabra rica, aquela simpática zeladora e destruidora do seu talento. Disparate. Ele é que tinha destruído o seu próprio talento. Por que é que ele havia de culpar aquela mulher por ela o tratar bem? Ele tinha destruído o seu talento não o utilizando, com traições a si próprio e àquilo em que acreditava, bebendo tanto que embotava o gume das suas percepções, com a preguiça, a indolência, e o snobismo, com o orgulho e o preconceito, com o bem e com o mal. O que era aquilo? Um catálogo de livros antigos? De qualquer maneira, o que era o seu talento? Era mesmo talento mas, em vez de o usar, ele tinha feito negócio com ele. A questão não era nunca o que ele tinha feito, mas sempre o que podia fazer. E ele escolhera ganhar a vida com qualquer coisa que não a caneta ou o lápis. Também era estranho, não era? que quando se apaixonava por mais outra mulher, essa mulher havia de ter sempre mais dinheiro do que a anterior. Mas quando já não estava apaixonado, quando já só andava a mentir, como no caso desta, agora, que era, de todas, a mais rica, que tinha o dinheiro todo, que tivera marido e filhos, que tinha arranjado amantes e se tinha fartado deles, que o amava profundamente como escritor, como homem, como companheiro, como uma posse de que se orgulhava; era estranho que, quando ele já não a amava de todo e andava a mentir, que ele fosse capaz de lhe dar mais pelo seu dinheiro do que quando realmente amara. Nós devemos ser feitos para aquilo que fazemos, pensou ele. O nosso talento reside na maneira como ganhamos a vida, seja ela qual for. Ele vendera a vitalidade, de uma forma ou de outra, toda a sua vida, e quando os nossos afetos não estão demasiado envolvidos damos muito mais valor ao dinheiro. Ele descobrira isto, mas também já nunca o iria escrever. Não, não o iria escrever, embora valesse bem a pena. Nesta altura ela apareceu à vista, a atravessar a planície em direção ao acampamento. Vestia calças de montar e trazia a espingarda. Os dois rapazes traziam uma arma à tiracolo e seguiam atrás dela. Ainda era uma bela mulher, pensou ele, e tinha um corpo agradável. Tinha grande talento para a cama e gostava, não era bonita, mas ele gostava do seu rosto, lia muitíssimo, gostava de montar e caçar e, claro, bebia demais. O marido morrera quando ela era ainda relativamente nova e durante um tempo dedicara-se aos seus dois filhos adolescentes, que não precisavam dela e ficavam embaraçados com a sua presença, ao seu estábulo, aos livros, às garrafas. Gostava de ler à noite, antes do jantar e bebia whisky e soda enquanto lia. Pela hora de jantar, estava já um pouco bêbada, e depois de uma garrafa de vinho ao jantar ficava normalmente embriagada o bastante para dormir. Isto foi antes dos amantes. Depois de ter os amantes já não bebia tanto porque então não precisava de estar bêbeda para dormir. Mas os amantes aborreciam-na. Tinha estado casada com um homem que nunca a aborrecera, e esta gente aborrecia-a imenso. Então, um dos seus dois filhos morreu num acidente de aviação e depois disso não mais quis os amantes, e, não sendo a bebida um anestésico, ela teve de arranjar outra vida. De repente, ficara agudamente amedrontada de estar só. Mas queria a companhia de alguém que ela respeitasse. Tudo tinha começado muito simplesmente. Ela gostava do que ele escrevia e sempre invejara a vida que ele fazia. Ela pensava que ele fazia exatamente tudo o que queria. Os passos que dera para o conquistar, e a maneira como finalmente se apaixonara por ele, fazia tudo parte de uma progressão regular em que ela construíra uma nova vida para si própria e ele tinha vendido o que restava da sua antiga vida.

Tinha-a vendido em troca de segurança, e também de conforto, isso não se podia negar, e de mais quê? Não sabia. Ela ter-lhe-ia trazido tudo o que ele quisesse. Ele sabia isso. Ela era uma belíssima mulher, também. Ele ia para a cama com ela como com qualquer outra; mas preferia-a a ela, porque era mais rica, porque era muito agradável e gostava, e porque nunca fazia cenas. E agora essa vida que ela construíra de novo estava a chegar ao fim, porque há quinze dias ele não usara tintura de iodo quando um espinho lhe tinha feito um arranhão num joelho ao avançarem para tentar fotografar uma manada de gamos parados, com a cabeça levantada, a espreitar, de nariz no ar, as orelhas bem estendidas para escutar o primeiro ruído que os precipitaria para o bosque. Mas eles fugiram antes de ele tirar a fotografia.

Aí vinha ela agora. Ele voltou a cabeça na cama para olhar para ela.
— Olá —, disse ele.
— Matei um carneiro —, disse-lhe ela.
— Vai fazer um belo caldo para ti e vou-lhes mandar fazer purê de batata com o Klim. Como é que te sentes?
— Muito melhor.
— Não é delicioso, isso? Sabes que eu já imaginava isso mesmo. Estavas a dormir quando fui embora.
— Fiz uma boa soneca. Foste para muito longe?
— Não. Só até ali adiante, atrás da colina. Foi um tiro bastante bom, no carneiro.
— Tu atiras muito bem, sabes?
— Adoro isto. Adorei a África. É verdade. Se ficares bom foi o melhor tempo que já tive. Tu não imaginas o gozo que foi caçar contigo. Adorei a região.
— Eu também gosto.
— Querido, não sabes como é maravilhoso ver-te melhor. Eu não suportava ver-te daquela maneira. Não vais falar mais comigo daquela maneira, pois não? Promete.
— Não —, disse ele. — Eu já não me lembro do que disse.
— Tu não precisas de me destruir. Pois não? Eu sou só uma mulher de meia idade que te ama e que quer fazer o que tu quiseres. Já me destruíram duas ou três vezes. Não ias com certeza querer destruir-me outra vez, pois não?
— Eu gostaria de te destruir umas vezes, na cama —, disse ele. — Sim. Essa é a boa destruição. Foi para sermos destruídos dessa maneira que nós fomos feitos. O avião vai chegar aí amanhã.
— Como é que sabes?
— Tenho a certeza. Tem de chegar. Os rapazes têm a madeira toda pronta e a erva para fazerem a fogueira. Fui ver hoje, outra vez. Há muito espaço para aterrar e nós temos as fogueiras preparadas, em ambos os extremos.
— O que é que te faz pensar que ele vem amanhã?
— Tenho a certeza de que vem. Já está atrasado. Depois, na cidade, eles tratam-te da perna e então nós trataremos de fazer alguma destruição. Não daquele terrível gênero falado.
— Vamos beber um whisky? O sol já se pôs.
— Achas que deves?
— Eu vou beber um.
— Vamos beber juntos. Molo, letti dui whisky-soda? — chamou ela.
— É melhor calçares as botas contra os mosquitos —, disselhe ele.
— Depois de tomar banho…

Enquanto escurecia estiveram a beber e precisamente antes de escurecer completamente e quando já não se via para disparar, uma hiena atravessou a clareira a caminho da colina.

— Aquele patife faz isto todas as noites —, disse o homem.
— Todas as noites há duas semanas.
— É ela que faz barulho de noite. Eu não me importo. Mas são animais imundos.

A beberem juntos, já sem dores, a não ser o desconforto de estar deitado sempre na mesma posição, os rapazes acenderem a fogueira e as suas sombras a saltar sobre as tendas, ele sentia o regresso da sua anuência a esta vida de agradável rendição. Ela era, de fato, muito boa para ele. Ele fora cruel e injusto para com ela, à tarde. Ela era uma belíssima mulher, realmente maravilhosa. E precisamente nessa altura lembrou-se de que ia morrer. A lembrança veio-lhe numa arremetida; não uma arremetida de água ou de vento; mas de um vazio súbito, cheirando a mal e o estranho é que a hiena deslizava levemente ao longo da margem.

— O que foi, Harry? — perguntou ela?
— Nada —, disse ele.
— Era melhor mudares para o outro lado. Para o lado do vento.
— O Molo mudou-te o penso?
— Mudou. Agora só estou a pôr o bórico.
— Como é que te sentes?
— Um bocado enjoado.
— Vou tomar banho —, disse ela. — Volto já. Venho comer contigo e depois pomos a cama lá dentro.

Portanto, disse ele consigo, fizemos bem em acabar com as discussões. Ele nunca tinha discutido muito com esta mulher, enquanto que com as mulheres que ele amava discutira tanto que sempre acabavam por matar a relação com a corrosão das discussões. Ele amara demais, exigira demais e esgotara tudo. Pensou naquela altura em que estava só em Constantinopla depois de uma discussão em Paris antes de ir embora. Passara o tempo com prostitutas e depois, quando isso acabou, não tinha conseguido vencer a solidão, mas apenas piorá-la, escrevera-lhe uma carta, à primeira, àquela que o deixou, uma carta a contar-lhe como não tinha conseguido vencê-la… como ao julgar vê-la à saída do Regence ele se sentira todo fraco e enjoado interiormente, e que costumava seguir uma mulher que se parecia com ela ao longo do Boulevard, com receio de ver que não era ela, com receio de perder aquela sensação que aquilo lhe dava. Como todas aquelas com quem dormira apenas lhe faziam sentir mais a sua falta. Como o que ela lhe fizera não podia nunca ter qualquer importância uma vez que ele não conseguia deixar de amá-la. Escreveu essa carta no Clube, completamente sóbrio, e mandou-a para Nova York pedindo que lhe respondesse para o escritório em Paris. Assim parecia seguro. E nessa noite, sentindo tanto a sua falta que se sentiu oco por dentro, vagueou pelo Taxim’s, arranjou uma rapariga, e levou-a a jantar. Tinha ido depois com ela dançar, ela dançava mal, e trocou-a por uma quente puta armênia, que se esfregava contra ele de tal maneira que quase queimava. Ele tirou-a de um artilheiro britânico subalterno depois de uma briga. O artilheiro desafiou-o lá para fora e eles lutaram na rua, sobre o empedrado, na escuridão. Ele tinha-lhe batido duas vezes, com força, ao lado do queixo e quando viu que ele não caiu, concluiu que tinha ali uma luta séria. O artilheiro atingiu-o no corpo e depois num olho. Ele atirou-lhe uma esquerda outra vez, vacilou e caiu ao chão e o artilheiro caiu-lhe em cima agarrou-lhe o sobretudo e rasgou-lhe uma manga e ele agrediu-o por duas vezes por detrás da orelha e depois socou-o com a direita enquanto o afastava. Quando o artilheiro caiu, bateu primeiro com a cabeça e ele fugiu com a rapariga porque ouviram os M.P.’s a chegar.

Apanharam um táxi que os levou para Rimmily Hiss ao longo do Bósforo, e de volta, e depois outra vez a noite fria e depois a cama e ele sentiu-a demasiado madura como parecia, mas macia, como pétala de rosa, melada, de ventre macio, seios grandes, sem precisar de almofada por baixo das nádegas, e deixou-a antes de ela acordar com ar desprendido aos primeiros raios de luz e apareceu no Pera Palace com um olho negro e o sobretudo de baixo do braço porque lhe faltava uma manga. Nessa mesma noite partiu para a Anatólia e lembrou-se mais tarde, nessa viagem, de ter cavalgado todo o dia pelos campos de papoulas que eles cultivavam para fazer ópio e como aquilo o fazia sentir-se esquisito, finalmente, e todas as distâncias pareciam estar erradas, para onde eles tinham feito o ataque com os recémchegados oficiais de Constantino, que não percebiam nada, e a artilharia tinha disparado sobre as tropas e o observador britânico tinha chorado como uma criança. Foi nesse dia que ele viu pela primeira vez mortos com saias de ballet brancas e sapatos com a pontas reviradas e com pompons. Os turcos tinham vindo com regularidade aos magotes e ele tinha visto os homens de saias a correr e os oficiais a disparar sobre eles e depois a correr, eles também, e ele e o observador britânico tinham corrido também até os pulmões lhe doerem e a boca ficou cheia daquele sabor a dinheiro e pararam atrás de umas rochas e lá estavam os turcos a chegar sempre aos magotes. Mais tarde vira coisas que nunca imaginara e que ainda vira outra vez mais tarde, muito piores. Assim, quando voltou para Paris dessa vez não conseguia falar daquilo nem suportava que referissem o assunto. E naquele café onde ele passou estava aquele poeta americano com uma pilha de pires à sua frente e uma expressão estúpida na cara de batata a conversar sobre o movimento Dada com um romeno que disse chamar-se Tristan Tzara, que trazia sempre um monóculo e estava com dores de cabeça, e, de volta ao apartamento com a mulher, que, acabada a discussão, acabada a loucura, ele agora amava outra vez, feliz por estar em casa, o escritório mandava-lhe o correio para o apartamento. Então a carta em resposta àquela que ele escrevera chegou numa bandeja um dia de manhã e quando ele reparou na caligrafia ficou gelado e tentou esconder a carta debaixo de outra. Mas a mulher disse, “De quem é essa carta, querido?” e foi o fim do princípio daquilo. Recordou os bons tempos com todas elas, e as discussões. Elas escolhiam sempre os melhores sítios para as discussões. E por que é que elas discutiam sempre quando ele se sentia no melhor? Nunca tinha escrito sobre nada disto, porque, primeiro, nunca queria magoar ninguém e depois parecia-lhe que havia mais sobre que escrever, para além daquilo. Mas sempre pensou que acabaria por escrever. Havia tanto para escrever. Tinha visto o mundo mudar; não apenas os acontecimentos; embora ele tivesse visto muitos deles e tivesse observado as pessoas, mas tinha visto a mudança mais subtil e lembrava-se de como as pessoas eram nas diferentes alturas. Tinha estado por dentro e tinha observado e era seu dever escrever sobre isso; mas agora nunca o faria.

— Como é que te sentes? — disse ela. Já tinha saído da tenda, depois do banho.
— Bem.
— Já queres comer? — Ele viu Molo atrás dela, com a mesa desdobrável, e o outro rapaz, com os pratos.
— Eu quero escrever —, disse ele.
— Devias comer um pouco de caldo para manter as forças.
— Eu vou morrer esta noite —, disse ele. — Não preciso de forças.
— Por favor, Harry, não sejas melodramático —, disse ela.
— Por que é que tu não usas o nariz? Já estou todo podre até à coxa. Para que diabo me hei-de chatear com o caldo? Molo, traz-me o whisky-soda.
— Toma o caldo, por favor —, disse ela calmamente.
— Está bem. O caldo estava quente. Teve de o deixar arrefecer na tigela para o tomar e depois bebeu-o de um trago. — És uma excelente mulher —, disse ele. — Não ligues ao que eu digo. Ela olhou para ele com a sua conhecida cara bem-amada do Spur e Town and Country só um pouco pior na bebida, só um pouco pior na cama, mas Town and Country nunca mostraram aqueles seios tão bons e aquelas coxas tão úteis e aquelas mãos tão acariciadoras, e enquanto olhava e via o seu tão agradável e bem conhecido sorriso, sentiu a morte a aproximar-se de novo. Desta vez não havia pressa. Era um sopro, como de uma aragem que faz a chama da vela tremer e alongar-se. — Eles podem trazer-me a rede mais tarde e pendurá-la na árvore e fazer a fogueira. Esta noite não vou ficar na tenda. Não vale a pena mudar-me. Está uma noite clara. Não vai chover. Então era assim que se morria, em sussurros que não se ouviam. Bem, não haveria mais discussões. Podia prometê-lo. Não ia agora estragar a única coisa que nunca experimentara. Se calhar ia. Tu estragavas sempre tudo. Mas talvez não fosse.

— Tu não sabes tomar ditados, pois não?
— Nunca aprendi —, disse-lhe ela.
— Não tem importância. Não havia tempo, claro, embora desse a sensação de que aquilo se comprimia de maneira a poder meter-se tudo num parágrafo se se conseguisse agarrá-lo bem. Era uma casa de madeira com as juntas calafetadas com argamassa branca numa colina sobre o lago. Havia um sino num poste ao lado da porta para chamar as pessoas para as refeições. Por detrás da casa ficavam os campos e por detrás dos campos a floresta. Uma fila de choupos ia da casa até ao embarcadouro. Mais choupos ao longo do pontão. Uma estrada subia até às colinas acompanhando a orla da floresta e ao longo da estrada ele apanhava amoras silvestres. Depois a casa ardeu e todas as armas penduradas sobre a lareira se queimaram e depois os canos com o chumbo derretido nas câmaras e as coronhas carbonizadas, ficaram sobre o monte das cinzas que foram utilizadas para fazer soda cáustica para as grandes caldeiras de ferro do sabão, e tu perguntavas ao avô se podias brincar com elas, e ele dizia, não. Compreendes, ainda eram as suas armas e nunca mais comprou outras. E também nunca mais caçou. A casa foi reconstruída no mesmo local, aproveitando os destroços, e pintada de branco e da entrada viam-se os choupos e para além deles o lago; mas nunca mais houve armas. Os canos das armas que estavam penduradas na parede da casa estavam ali no monte das cinzas e nunca mais ninguém mexeu nelas. Na Floresta Negra, depois da guerra, alugamos um ribeiro de trutas e havia duas maneiras de lá chegar. Uma era ir pelo vale abaixo, desde Triberg, rodear a estrada do vale à sombra das árvores que bordejavam aquela estrada branca, e depois subir por um caminho lateral que seguia pela colina acima, passando por muitas pequenas quintas com aquelas grandes casas do Schwarzwald, até o caminho atravessar o ribeiro. Era aí que a pesca começava. A outra maneira era trepar pela orla escarpada dos bosques e depois atravessar o cume das colinas pelos pinhais e sair para a orla de uma veiga e descer por esta veiga até à ponte. Havia vidoeiros ao longo do ribeiro, e este não era grande, mas estreito, claro e rápido, com pequenos poços nos sítios onde a água tinha escavado a passagem por debaixo das raizes dos vidoeiros. No Hotel em Triberg o proprietário teve uma bela época. Foi muito agradável e éramos todos amigos. No ano seguinte veio a inflação e o dinheiro que ele tinha feito no ano anterior não chegou para comprar as provisões necessárias para abrir o hotel e enforcou-se. Tu podias ditar isto, mas não podias ditar a Praça Contrescarpe onde as vendedeiras de flores tingiam as flores na rua e a tinta escorria para o pavimento de onde os autocarros partiam e os velhos e as velhas, sempre bêbados de vinho e bagaço ordinários; o cheiro a suor sujo e a pobreza e a embriaguez no Café des Amateurs e as prostitutas no Bal Musette por cima do qual viviam. A porteira que acolhia o soldado da Guarda Republicana no seu apartamento, o capacete emplumado de crinas sobre a cadeira. A locatária da frente cujo marido era corredor de bicicleta e a alegria dela naquela manhã na Leitaria quando abriu o L’Auto e viu que ele se classificara em terceiro lugar no Paris-Tours; a sua primeira grande corrida. Ela corara e rira e subira as escadas a gritar, com aquele jornal desportivo amarelo na mão. O marido da mulher que dirigia o Bal Musette era motorista de táxi e quando ele, Harry, tinha de apanhar um avião muito cedo batia-lhe à porta para o acordar e eles bebiam um copo de vinho branco cada um ao balcão cromado do bar antes de partirem. Ele nessa altura conhecia os moradores daquele bairro porque eram todos pobres. Naquela Praça havia duas espécies de gente: os bêbados e os desportistas. Os bêbados matavam a pobreza dessa maneira; os desportistas superavam-na com o exercício. Eram os descendentes dos Communards e para eles não era preciso um grande esforço para saberem da sua política. Eles sabiam quem matara os pais, os parentes, os irmãos e os amigos quando as tropas de Versailles entraram na cidade e a tomaram depois da Comuna e executaram quem quer que apanhassem de mãos calosas ou que usasse boina ou exibisse qualquer outro sinal de que era um trabalhador. E naquela pobreza e naquele bairro do outro lado da rua de uma Boucherie Chevaline e de uma cooperativa vinícola ele tinha escrito o começo de tudo o que tinha que fazer. Nunca gostara de qualquer outra zona de Paris como gostava daquela, as árvores esparramadas, as velhas casas rebocadas de branco e pintadas de castanho na parte de baixo, o verde dos autocarros naquela praça quadrada, a tinta purpúrea das flores sobre o pavimento, a descida íngreme da Rua Cardinal Lemoine pela colina abaixo até ao Rio, e do outro lado o estreito mundo da Rua Mouffetard apinhada de gente.

A rua que subia em direção ao Panteão e a outra por onde ele ia sempre de bicicleta, a única rua asfaltada daquele bairro, macia sob os pneus, com as casas estreitas e altas e o edifício alto daquele hotel barato onde morrera Paul Verlaine. Os apartamentos onde eles viviam tinham apenas duas divisões e ele tinha um quarto no último andar desse hotel, que lhe custava sessenta francos por mês, onde ele escrevia, e de lá via os telhados e as chaminés e todas as colinas de Paris. Do apartamento apenas se via a loja do vendedor de lenha e carvão. Vendia vinho também, vinho ordinário. A cabeça de cavalo dourada na parte de fora da Boucherie Chevaline, onde se viam, penduradas na montra, as carcaças douradas e vermelhas, e a cooperativa pintada de verde onde eles compravam o vinho; vinho bom e barato. O resto eram paredes de estuque e as janelas dos vizinhos. Vizinhos que, à noite, quando algum bêbado, deitado na rua, resmungava e gemia, naquela ivresse tipicamente francesa que nos queriam convencer que não existia, abriam as janelas e depois o murmúrio das conversas. “Onde está o polícia? Quando não é preciso o gajo anda sempre por aí. Deve estar a dormir com alguma porteira. Chama o Agent.” Até que alguém atirava um balde de água da janela e os gemidos acabavam. “O que é aquilo? Água. Ah, inteligente.” E as janelas a fecharem-se. Marie, a mulher-a-dias dele, a protestar contra o dia de trabalho de oito horas dizendo, “Se o marido trabalha até às seis, embebeda-se só um bocado a caminho de casa e não gasta muito. Se trabalha só até às cinco embebeda-se todas as noites e fica sem dinheiro. É a mulher do trabalhador que sofre com esta redução das horas de trabalho.”

— Não queres mais caldo? — perguntou então a mulher.
— Não, obrigado. Está muito bom.
— Toma só um bocadinho.
— Eu queria era um whisky-soda.
— Isso não te faz bem.
— Não, faz-me mal. Cole Porter escreveu a letra e a música. O saber que vais ficar louca por mim.
— Sabes muito bem que eu gosto que bebas.
— Pois. Só que me faz mal. Quando ela se for, pensou ele, vou ter tudo o que quiser. Não tudo o que quiser, mas tudo o que houver. Sim, sim, ele estava cansado. Cansado demais. Ia dormir um pouco. Deixou-se ficar quieto e a morte não estava lá. Deve ter ido a outra rua. Foi aos pares, de bicicleta e deslocou-se em silêncio absoluto sobre os passeios. Não, ele nunca escrevera sobre Paris. Sobre a Paris de que ele gostava. Mas, e o resto, tudo o resto sobre que ele nunca escrevera? E o rancho e o cinzento prateado das salvas, a água rápida e clara nas valas de irrigação, e o verde pesado da alfafa? O caminho subia até às colinas e o gado no verão ficava tímido como os veados. Os gritos e o ruído regular e aquela mole imensa movendo-se lentamente, levantando a poeira quando os traziam para baixo no outono. E por detrás das montanhas, o pico afiado muito claro à luz da tardinha e, a cavalgar ao longo da caravana, à luz do luar muito brilhante no vale. Recordava agora a descida através da floresta, no meio da escuridão, agarrado à cauda do cavalo quando já não se via e todas as histórias que ele tencionava escrever. Sobre o moço de recados, um pateta, que deixaram no rancho e a quem recomendaram que não deixasse ninguém apanhar feno, e aquele velho patife do Forks que batera no rapaz quando este trabalhara para ele e que lá foi para arranjar umas rações.

O rapaz a recusar e o velho a dizer que lhe batia outra vez. O rapaz pegou na espingarda que estava na cozinha e disparou sobre ele quando tentava entrar no celeiro e quando eles regressaram ao rancho já ele estava morto há uma semana, congelado na cerca dos animais, e os cães já lhe tinham comido uma parte do corpo. Mas o que dele restava foi colocado num trenó, embrulhado num cobertor, e amarrado com cordas e tu mandaste o rapaz ajudar-te a arrastá-lo e os dois levaram-no pela estrada, em skis, para a cidade, a sessenta milhas, para entregar o rapaz, sem que ele fizesse idéia de que iria ser preso. Pensando que tinha cumprido com a sua obrigação e que tu eras amigo dele e que seria recompensado. Ele tinha ajudado a arrastar o velho para que toda a gente soubesse como o velho fora mau, e como tinha tentado tirar rações que não lhe pertenciam, e quando o xerife o algemou não queria acreditar. Começara então a chorar. Esta era uma história que ele tinha guardado para escrever. Conhecia pelo menos vinte boas histórias dali e nunca escrevera nenhuma. Porquê?
— Diz-lhes porquê —, disse ele.
— Porquê o quê, querido?
— Nada. Ela já não bebia tanto desde que o tinha com ela. Mas se ele sobrevivesse nunca escreveria sobre ela, e ele sabia disso. Nem sobre qualquer um deles. Os ricos eram maçadores e bebiam demais, ou jogavam demais ao backgammon. Eram maçadores e repetitivos. Lembrava-se do pobre Julian e do romântico horror que ele tinha deles e de como ele uma vez tinha iniciado uma história que começava, “Os muito ricos são diferentes de ti e de mim.” E de como alguém dissera a Julian, sim, têm mais dinheiro. Mas o Julian não achou graça. Ele pensava que eles eram uma raça especial e encantadora e quando descobriu que não eram, isso destroçou-o tanto como qualquer das outras coisas que o destroçavam. Ele desprezara aqueles que o destroçavam. Não se era obrigado a gostar disso por o compreender. Ele podia vencer qualquer coisa, pensava, porque nada o magoava, se não se preocupasse. Muito bem. Já não se preocupava com a morte. Uma coisa que sempre receara era a dor. Suportava a dor como qualquer pessoa, enquanto esta não se prolongasse por demasiado tempo e o desgastasse, mas aqui tinha qualquer coisa que o tinha magoado terrivelmente e precisamente quando sentira que isso o estava a quebrar, a dor desaparecera. Recordou a altura, há muito tempo, em que Williamson, o oficial do bombardeamento, foi atingido por uma granada que alguém da patrulha alemã tinha atirado quando ele ia a atravessar o arame naquela noite e pediu, aos gritos, que o matassem. Ele era gordo, corajoso e um bom oficial, embora com uma certa inclinação para exibições fantásticas. Mas naquela noite ele foi apanhado no arame, com um foguete luminoso a iluminá-lo e as suas entranhas derramadas sobre o arame, e assim, quando o trouxeram para dentro, vivo, tiveram de o cortar para o libertar. Mata-me, Harry. Por amor de deus, mata-me. Tinham discutido uma vez sobre o fato de Nosso Senhor nunca nos mandar qualquer coisa que não possamos suportar e uma teoria dizia que isso queria dizer que em determinada altura a dor provocava automaticamente o desmaio. Mas ele lembrava-se sempre de Williamson naquela noite. Nada o fez desmaiar até que ele lhe deu todos os comprimidos de morfina que tinha guardado para si próprio e não deram resultado imediato. Contudo, isto que ele agora tinha era fácil; e se não piorasse não era nada que o preocupasse. Exceto que gostaria de estar em melhor companhia. Pensou um pouco sobre a companhia que gostaria de ter ali. Não, pensou, quando tudo aquilo que se faz, se faz durante tempo demais, ou tarde demais, não se pode esperar que as pessoas ainda lá estejam. As pessoas foram-se todas embora. A festa acabou e agora fica-se com o anfitrião. Começo a ficar tão farto da morte como de tudo o resto, pensou.

— É uma chatice —, disse ele alto.
— O quê, querido?
— Qualquer coisa que se faça durante demasiado tempo. Olhou-lhe o rosto, entre ele e a fogueira. Estava encostada para trás na cadeira e a luz da fogueira brilhava-lhe no rosto de linhas agradáveis e ele viu que ela estava com sono. Ouviu o ruído da hiena mesmo a seguir à zona da fogueira.
— Estive a escrever —, disse ele.
— Mas fiquei cansado.
— Achas que consegues dormir?
— Com certeza. Por que é que não te vais deitar?
— Gosto de estar aqui contigo.
— Sentes alguma coisa esquisita?
— Não. Apenas tenho sono.
— Eu sinto. Ele sentira a morte a aproximar-se de novo.
— Sabes muito bem que a única coisa que nunca perdi foi a curiosidade —, disse-lhe ele.
— Tu nunca perdeste nada. És o homem mais completo que conheci.
— Meu Deus —, disse ele. — Que pouco sabem as mulheres. O que é isso? A tua intuição? Porque precisamente nessa altura a morte chegara e pousara a cabeça nos pés da cama e ele sentiu o seu hálito.
— Nunca acredites nessa balela da gadanha e da caveira —, disse-lhe ele. — Tanto podem ser dois polícias de bicicleta como um pássaro. Ou pode ter um focinho largo como uma hiena. Já tinha subido até ele, mas não tinha forma. Apenas ocupava espaço.
— Diz-lhe que se vá embora. Mas ela não se foi embora, antes se aproximou mais. “Tens um hálito dos diabos,” disse-lhe ele. “Canalha mal-cheirosa.” Ela aproximou-se ainda mais, mas mesmo assim, ele não conseguia falar com ela, e quando ela viu que ele não conseguia falar aproximou-se mais e mais, e então ele tentou afastá-la sem falar, mas ela trepou para cima dele de modo que o seu peso estava-lhe todo sobre o peito, e enquanto ela ali se instalava e ele não podia mexer-se nem falar, ouviu a mulher dizer, “Bwana já está a dormir. Peguem na cama com muito cuidado e levem-na para dentro da tenda.” Ele não conseguia falar para lhe pedir que a fizesse ir embora, e ela pesou-lhe ainda mais e ele já não conseguia respirar. E então, enquanto eles levantavam a cama, subitamente, ficou tudo bem, e o peso desapareceu-lhe do peito. Era já de manhã há algum tempo e ele ouviu o avião. Parecia muito pequenino e descreveu um grande círculo e os rapazes correram a acender as fogueiras com querosene, e fizeram montes de erva de modo que havia duas grandes fogueiras em cada um dos extremos da planura e a brisa da manhã soprava-as na direção do acampamento, e o avião descreveu mais dois círculos, mais baixo desta vez, e depois desceu até ao nível do terreno e aterrou suavemente, e, a caminhar na direção do acampamento, lá vinha o velho Compton, de calças, casaco de tweed e chapéu de feltro castanho.
— O que é que se passa, chefe? — disse Compton.
— Um problema numa perna —, disse-lhe ele.
— Não queres tomar o pequeno almoço?
— Obrigado. Só chá. É o Puss Moth, sabes. Não vou poder levar a Memsahib. Só há lugar para um. A tua camioneta já vem a caminho. Helen tinha puxado Compton aparte e estava a falar com ele. Compton voltou mais alegre que nunca.
— Vamos já levar-te —, disse ele. — Depois volto para levar a Mem. Mas acho que terei de parar em Arusha para reabastecer. É melhor irmos já.
— E o chá? — Já sabes que eu não gosto muito de chá. Os rapazes tinham pegado na cama e rodeando as tendas verdes levaram-na pela rocha abaixo para a planície até ao avião, passando pelas fogueiras que ardiam agora muito brilhantes, consumida já toda a erva e espevitadas pelo vento. Foi difícil pô-lo lá dentro, mas uma vez lá, ficou sentado no banco de couro, com a perna estendida para um dos lados do banco onde Compton se sentava. Compton arrancou com o motor e entrou. Ele acenou para Helen e para os rapazes e quando aquele ruído se tornou naquele roncar muito familiar deram a volta, o Compie atento aos buracos dos javalis, e aceleraram, aos solavancos, ao longo da faixa entre as fogueiras e, com um último solavanco levantaram vôo e ele viu-os todos de pé lá em baixo a acenar, e o acampamento ao lado da colina que agora começava a ficar achatada, e a planície a estender-se, maciços de árvores, e o bosque a ficar achatado, enquanto os rastos dos animais corriam macios até aos charcos secos, e havia uma nova água que ele nunca conhecera. Os costados já pequenos e arqueados das zebras, e os gnus, pequenos pontos de cabeça grande, parecendo trepar quando se deslocavam como que em longos dedos através da planície, espalhando-se agora que a sombra se aproximava deles, eram já muito pequenos e os seus movimentos não eram de galope, e a planície a perder de vista, já amarelo-acizentada, e à frente o tweed do casaco e o chapéu de feltro do velho Compie. Depois sobrevoaram as primeiras colinas e os gnus a correr à sua frente e depois as montanhas com súbitos vales cobertos de florestas verde claras e as sólidas encostas de bambus e depois floresta densa outra vez esculpida em picos e depressões, até as atravessarem, e as colinas desciam e depois outra planície, agora quente, e castanho púrpura, irregular do calor, e o Compie a olhar para trás para ver como ele estava. Depois outras montanhas escuras à frente. E então, em vez de irem para Arusha, viraram à esquerda, ele evidentemente concluiu que tinham combustível suficiente, e ao olhar para baixo viu uma nuvem cor-de-rosa granulada a deslocar-se sobre a terra e no ar, como as primeiras neves de uma tempestade vinda de parte nenhuma, e ele sabia que os gafanhotos vinham lá do sul. Começaram então a subir e parecia que se dirigiam para leste, e depois escureceu e ficaram no meio de uma tempestade, a chuva tão espessa que parecia que iam a voar no meio de uma queda de água, e depois saíram e o Compie voltou-se e mostrou um largo sorriso e apontou e lá à frente tudo o que ele conseguiu ver, largo como o mundo todo, grande, alto e inacreditavelmente branco da luz do sol, lá estava o cume quadrangular do Kilimanjaro. E então ficou a saber que era para lá que ia. Precisamente nesse momento a hiena calou-se na noite e começou a produzir um som estranho, humano, quase um choro. A mulher ouviu-a e mexeu-se, inquieta. Não acordou. Em sonhos, estava na casa de Long Island e era a noite da véspera do début da filha. Sem saber como nem porquê, o pai estava lá e fora muito grosseiro. Então o som da hiena era já tão alto que ela acordou e por momentos ficou sem saber onde estava e com medo. Pegou na lanterna e dirigiu-a para a outra cama que eles tinham trazido para dentro depois de Harry ter adormecido. Viu o volume do corpo dele debaixo da rede dos mosquitos, mas ele tinha como que estendido a perna para fora e ela pendia ao longo da cama. Os pensos tinham caído todos e ela não conseguia olhar para lá.  — Molo —, chamou ela. — Molo! Molo! — Depois disse, — Harry, Harry! — Depois subindo de tom, — Harry! Por favor. Oh, Harry! Não houve resposta e ela não o ouvia a respirar. Fora da tenda a hiena fez aquele mesmo som estranho que a tinha acordado. Mas ela não ouvia nada senão o bater do próprio coração.


Tradução do texto original com o título The Snows of Kilimanjaro in The snows of Kilimanjaro and Other Stories Penguin Books, 1968 ©Luís Varela Pinto

Os Amantes (Rubem Braga)

René Magritte - Amantes

René Magritte - Amantes

Nos dois primeiros dias, sempre que o telefone tocava, um de nós esboçava um movimento, um gesto de quem vai atender. Mas o movimento era cortado no ar. Ficávamos imóveis, ouvindo a campainha bater, silenciar, bater outra vez. Havia um certo susto, como se aquele trinado repetido fosse uma acusação, um gesto agudo nos apontando. Era preciso que ficássemos imóveis, talvez respirando com mais cuidado, até que o aparelho silenciasse.

Então tínhamos um suspiro de alívio. Havíamos vencido mais uma vez os nossos inimigos. Nossos inimigos eram toda a população da cidade imensa, que transitava lá fora nos veículos dos quais nos chegava apenas um ruído distanmte de motores, a sinfonia abafada das buzinas, às vezes o ruído do elevador. Sabíamos quando alguém parava o elevador em nosso andar; tínhamos o ouvido apurado, pressentíamos os passos na escada antes que eles se aproximassem. A sala da frente estava sempre de luz apagada. Sentíamos, lá fora, o emissário do inimigo. Esperávamos quietos. Um segundo, dois – e a campainha da porta batia, alto, rascante. Ali, a dois metros, atrás da porta escura, estava respirando e esperando um inimigo. Se abríssemos, ele – fosse quem fosse – nos lançaria um olhar, diria alguma coisa – e então o nosso mundo seria invadido.

No segundo dia ainda hesitamos; mas resolvemos deixar que o pão e o leite ficassem lá fora; o jornal era remetido por baixo da porta, mas nenhum de nós o recolhia. Nossas provisões eram pequenas; no terceiro dia já tomávamos café sem açúcar, no quarto a despensa estava praticamente vazia. No apartamento mal iluminado íamos emagrecendo de felicidade. Devíamos estar ficando pálidos,e às vezes, unidos, olhos nos olhos, nos perguntávamos se tudo não era um sonho. O relógio parara, havia apenas aquela tênue claridade que vinha das janelas sempre fechadas. Mais tarde essa luz do dia distante, do dia dos outros, ia se perdendo, e então era apenas uma pequena lâmpada no chão que projetava nossas sombras nas paredes do quarto e vagamente escoava pelo corredor, lançava ainda uma penumbra confusa na sala, onde não íamos mais.

Pouco falávamos: se o inimigo estivesse escutando às nossas portas, mal ouviria vagos murmúrios; e a nossa felicidade imensa era ponteada de alegrias menores e inocentes, a água forte e grossa do chuveiro, a fartura festiva de toalhas limpas, de lençóis de linho.

O mundo ia pouco a pouco desistindo de nós; o telefone batia menos e a campainha da porta quase nunca. Ah, nós tínhamos vindo de muito e muito amargor, muita hesitação, longa tortura e remorso; agora a vida era nós dois apenas.

Sabíamos estar condenados; os inimigos, os outros, o resto da população do mundo nos esperava para lançar olhares, dizer coisas, ferir com maldade ou tristeza o nosso mundo, nosso pequeno mundo que ainda podíamos defender um dia ou dois, nosso mundo trêmulo de felicidade, sonâmbulo, irreal, fechado, e tão louco e tão bobo e tão bom como nunca mais haverá.

No sexto dia sentimos que tudo conspirava contra nós. Que importa a uma grande cidade que haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares edifícios – que importa que lá dentro não haja ninguém, ou que um homem e uma mulher ali estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um sonho?

Entretanto, a cidade, que durante uns dois ou três dias parecia nos haver esquecido, voltava subitamente a atacar. O telefone tocava, batia dez, quinze vezes, calava-se alguns minutos, voltava a chamar: e assim três, quatro vezes sucessivas.

Alguém vinha e apertava a campainha; esperava; apertava outra vez; experimentava a maçaneta da porta; batia com os nós dos dedos, cada vez mais forte, como se tivesse certeza de que havia alguém lá dentro. Ficávamos quietos, abraçados, até que o desconhecido se afastasse, voltasse para a rua, para a sua vida, nos deixasse em nossa felicidade que fluía num encantamento constante.

Eu sentia dentro de mim, doce, essa espécie de saturação boa, como um veneno que tonteia, como se os meus cabelos já tivesse o cheiro de seus cabelos, como se o cheiro de sua pele tivesse entrado na minha. Nosso corpos tinham chegado a um entendimento que era além do amor, eles tendiam a se parecer no mesmo repetido jogo lânguido, e uma vez que, sentado de frente para a janela, por onde filtrava um eco pálido de luz, eu a contemlava tão pura e nua, ela disse: “Meu Deus, seus olhos estão esverdeando”.

Nossas palavras baixas eram murmuradas pela mesma voz, nossos gestos eram parecidos e integrados, como se o amor fosse um longo ensaio para que um movimento chamsse outro; inconscientemente compúnhamos esse jogo de um ritmo imperceptível como um lento bailado.

Mas naquela manhã ela se sentiu tonta, e senti também minha fraqueza; resolvi sair, era preciso dar uma escapada para obter víveres; vesti-me, lentamente, calcei os sapatos como quem faz algo de estranho; que horas seriam?

Quando cheguei à rua e olhei, com um vago temor, um sol extraordinariamente claro me bateu nos olhos, na cara, desceu pela minha roupa, senti vagamente que aquecia meus sapatos. Fiquei um instante parado, encostado à parede, olhando aquele movimento sem sentido, aquelas pessoas e veículos irreais que se cruzavam; tive uma tonteira, e uma sensação dolorosa no estômago.

Havia um grande caminhão vendendo uvas, pequenas uvas escuras; comprei cinco quilos, o homem fez um grande embrulho; voltei, carregando aquele embrulho de encontro ao peito, como se fosse a minha salvação.

E levei dois, três minutos, na sala de janelas absurdamente abertas, diante de um desconhecido, para compreender que o milagre se acabara; alguém viera e batera à porta e ela abrira pensando que fosse eu, e então já havia também o carteiro querendo recibo de uma carta registrada e, quando o telefone bateu, foi preciso atender, e nosso mundo foi invadido, atravessado, desfeito, perdido para sempre – senti que ela me disse isto num instante, num olhar entretanto lento (achei seus olhos muito claros, há muito tempo que não os via assim, em plena luz) um olhar de apelo e de tristeza, onde, entretanto, ainda havia uma inútil, resignada esperança

A fotografia do ódio (Nelson Rodrigues)

É uma fotografia de Manchete, e com a agravante: — colorida. Lá está o sangue coagulado. O olho enorme, que ninguém fechou; e os intestinos escorrendo, no seu puro escarlate; e as mãos entrevadas pela morte. Morreu, não há dúvida, morreu.

E odeia. Morreu com esgar de ódio, com a boca aberta em grito. Nem sei se é de um lado ou de outro; se é guerrilheiro ou não. Morreu, mas o ódio sobrevive. É um cadáver e continua odiando. Olho a fotografia e vejo tudo. Não é americano, não pode ser americano. Tem de ser do outro lado, e explico.

O mistério de Manchete está na impressão, em cores. Seus anúncios são graficamente exemplares. Lembro-me de uma salada de página inteira. A alface, as fatias de tomate, os frios, a maionese, tudo, tudo é perfeito, irretocável. Manchete imprimiu o cadáver vietnamita com o mesmo virtuosismo da salada.

Mas eu digo que devia ser guerrilheiro pela miséria dentária. Eram cacos, não dentes. Dirá alguém que de um lado e do outro há maus dentes. Seja como for, instala-se em mim a certeza, talvez pueril, mas obsessiva: — são dentes de terrorista.

Mas não falemos mais na meia dúzia de cacos pendurados nas feias gengivas. O que realmente apavora é o ódio. Imaginem vocês que acabo de receber a carta de uma leitora. É uma brasileira que me escreve e não assina. A meu ver, não há carta anônima intranscendente. Se não tem assinatura, passa a valer como um documento trágico. Desde os velhos folhetins, a carta anônima é de uma veracidade apavorante.

A leitora fala da moça chamada Gisela, que morreu de gangrena. E morreu porque saiu, de hospital em hospital, e não encontrou um médico, uma enfermeira, um estudante, um porteiro. Teria sido salva, sem maiores problemas, se alguém a atendesse em tempo. Mas vinha um médico, olhava o braço partido e dizia: — “Não é urgente”. E a mandava embora.

Qualquer barbeiro diria: — “É de urgência, sim”. Mas não houve, repito, um médico que reconhecesse o óbvio. Não houve uma enfermeira, nem um funcionário. Há uma escola que se chama, pomposamente, Ana Nery. Pois as enfermeiras, práticas ou formadas, as serventes, ninguém teve pena, simplesmente pena. Temos pena de uma cachorra manca. E ninguém teve pena da gangrena em flor.

No fim, não havia a menor dúvida. Caso tão nítido, tão límpido, tão inequívoco. Qualquer um, a olho nu, veria a cor da gangrena e da orquídea. Mas os médicos, de vários hospitais, de todos os hospitais, continuavam a negar, de pés juntos, a gravidade e a urgência. Até que a menina morreu, apenas morreu, e nada mais.

E, então, a leitora me escreve. O que me impressionou na carta foi o ódio. Um ódio só comparável ao do cadáver que continuava odiando. Sempre digo que o verdadeiro amor continua para além da vida e para além da morte. Mas vejo o cadáver da guerra. E sinto que também o verdadeiro ódio dura mais que a vida e dura mais que a morte. Minha leitora viu a notícia no jornal. E conheceu, não a irritação efêmera, não a raiva que passa, não o protesto que se esquece. Não, não. Ela toma uma posição radical. É uma paixão que não conhecia. E, no seu ódio, pergunta se ninguém vai fazer nada. Nada, nada?

Sim, ninguém fará nada, nada. Exatamente nada. Mas a leitora tem um tesouro de ódio, íntimo tesouro, que não sabe como aplicar ou contra quem aplicar. Odeia, mas a quem? E o pior é que morreu uma só e repito: — uma só Gisela. Se fossem duzentas, trezentas Giselas, talvez tivéssemos, por aí, um surto de piedade convencional e enfática. Mas uma só gangrena é de tal insignificação numérica que comove de uma maneira muito epidérmica e ineficaz.

E me espanta o nosso vão esforço. Pagamos toda uma imensa organização, toda uma estrutura gigantesca. E sabem para quê? Para que um médico olhe uma gangrena inequívoca, óbvia, evidentíssima, e diga: — “Não é de urgência”. Ora, eu sou um obsessivo. E uma das minhas idéias fixas é, justamente, a seguinte: — o médico ou é um santo ou um gângster. Meu Deus, não vejam nas minhas palavras nem exagero, nem caricatura.

Um médico tem responsabilidades que ninguém tem. Estou dizendo o óbvio, mas paciência. O médico só devia ser médico depois de sofrer uma série de provas, de testes vitais crucialíssimos. O sujeito teria de passar três anos nos cafundós da África, tratando de negros leprosos. Como é que se pode passar um atestado de óbito sem tremer? Diz um amigo meu que o sujeito que assina um atestado de óbito substituiu Deus e O antecipa.

Mas não se aflijam. Os médicos que não identificaram a gangrena, que não enxergaram o óbvio e despacharam alegremente a moça continuarão a fazer a barba, a escovar os dentes, a namorar, a assobiar etc. etc. Mas volto ao cadáver que mereceu de Manchete uma impressão de salada. Eu falei de dois ódios e passo a um terceiro. Desta vez é um chofer de praça.

Imaginem um chefe de família, de origem italiana. Mas a origem pouco importa. Era uma criatura doce, cálida, generosa. Um dia foi preso porque não tinha, na hora, a sua identidade. Sua mulher, seus oito filhos, estão em casa, esperando para o jantar. Mas ele não vem porque foi atirado no fundo de um xadrez. Passou lá, entre marginais, 24 horas, e gritando. Digo eu que o verdadeiro grito parece falso. E o motorista gritava como se estivesse imitando, apenas imitando a dor da carne ferida.

Eis o que aconteceu: — fora estuprado por seis ou sete marginais. Saiu do xadrez, foi para casa. Empurrou a mulher, entrou no quarto e trancou-se. Lá, meteu uma bala na cabeça. Morreu de ódio, morreu odiando, como a fotografia de Manchete. E, como a leitora, não sabia a quem odiar. Os marginais eram, decerto, os menos culpados. Episódios assim são uma rotina que jamais variou. Isso pode acontecer com o filho, o pai, o irmão de qualquer um; pode acontecer com qualquer um. A vítima pode uivar três dias e três noites. Ninguém se mexe na delegacia.

A nova peça de Plínio Marcos, Barrela, que o Teatro Jovem ia levar, se passa num xadrez. Seis ou sete marginais estão em cena. E, de repente, entra mais um preso, um adolescente, preso porque brigara num bar do Leblon. Os outros o agarram, e qualquer um pode imaginar o resto. Pergunto: — que faremos nós? Desta vez, foi tomada a providência justa: — interditou-se a peça. Obscena é a denúncia e não a monstruosidade. A moral está salva, porque se emudeceu uma peça. E o ser humano continuará sendo violentado em cada xadrez, eternamente. Porque o nosso sentimento é impotente, como o ódio do chofer.

[20/3/1968]

Este texto foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source.

O espelho (Machado de Assis)

 

Esboço de uma nova teoria da alma humana

Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo.

 

Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinqüenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu:

 

— Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.

 

Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão, tornou-se difícil, senão impossível, pela multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal, e um pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, — uma conjetura, ao menos.

 

— Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas…

 

— Duas?

 

— Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro… Espantem-se à vontade; podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; — e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira: as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior daquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. “Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração”. Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma…

 

— Não?

 

— Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora, — na verdade, gentilíssima, — que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a Rua do Ouvidor, Petrópolis…

 

— Perdão; essa senhora quem é?

 

— Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome: chama-se Legião… E assim outros muitos casos. Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos…

 

Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que concerta a ponta do charuto, recolhendo as memórias. Eis aqui como ele começou a narração:

 

— Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da guarda nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que esses perderam. Suponho também que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos… Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viúva do Capitão Peçanha, que morava a muitas léguas da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a província não havia outro que me pusesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o “senhor alferes”. Um cunhado dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não me chamava de outra maneira. Era o “senhor alferes”, não por gracejo, mas a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples… Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom…

 

— Espelho grande?

 

— Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do propósito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o “senhor alferes” merecia muito mais. O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu?

 

— Não.

 

— O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar, não?

 

— Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes.

 

— Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos: os fatos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo em que a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse conta do sítio. Creio que, se não fosse a aflição, disporia o contrário; deixaria o cunhado, e iria comigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e a intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes de minuto a minuto. Nhô alferes é muito bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô alferes há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e profecias, que me deixou extático. Ah! pérfidos! mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.

 

— Matá-lo?

 

— Antes assim fosse.

 

— Coisa pior?

 

— Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo, nada, ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão-somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina; fiquei também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ela, para lhe dar a triste notícia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no outro, visto que tinha saído havia já trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestígio dele; e à tarde comecei a sentir a sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse consciência da ação muscular. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século, no velho relógio da sala, cuja pêndula, tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei com este famoso estribilho: Never, for ever!For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: — Never, for ever!For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte nenhuma… Riem-se?

 

— Sim, parece que tinha um pouco de medo.

 

— Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era outra coisa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: — o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me, orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único, — porque a alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar… Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a ver se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne, ne vois-tu rien venir? Nada, coisa nenhuma; tal qual como lenda francesa. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac, tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava. Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo político, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo. Mas o estilo, como a tia Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur Anne… Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.

 

— Mas não comia?

 

— Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas raízes tostadas ao fogo, mas suportaria tudo alegremente, se não fora a terrível situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia em trinta volumes. Às vezes fazia ginástica; outras dava beliscões nas pernas; mas o efeito era só uma sensação física de dor ou de cansaço, e mais nada. Tudo silêncio, um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pêndula. Tic-tac, tic-tac

 

— Na verdade, era de enlouquecer.

 

— Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias, deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer. — Vou-me embora, disse comigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado… Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos… Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me… Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha idéia…

 

— Diga.

 

— Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento… Não, não são capazes de adivinhar.

 

— Mas, diga, diga.

 

— Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e… não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo, olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regímen pude atravessar mais seis dias de solidão, sem os sentir…

 

Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.

 

Extraído do Ministério da Educação, onde foi digitalizada toda a obra de Machado de Assis.