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Archive for junho \29\UTC 2010

O Aumento (Dino Buzzati)

Quando ficou sabendo que seu jovem colega Bossi, a mais recente admissão da firma, ganhava mais de vinte mil liras por mês do que ele, Giovanni Battistela viu-se tomado de uma raiva espantosa. E teve uma coragem do que em condições normais lhe pareceria uma loucura: de fazer-se receber pelo diretor e dizer-lhe poucas e boas. E ei-lo que se apresenta no solene escritório em cujo fundo estava sentado o chefe.
– Por favor, por favor. Pode se aproximar…
– Queria me desculpar, senhor comendador, mas…
– Desculpar por quê? Não me fale em se desculpar. Não faltava mais nada, meu caro Battistela. Eu é que devo lhe agradecer por ter vindo.
– O senhor!?
– Eu, sim. E estou contente, contentíssimo em revê-lo. Mas por favor, sente-se, sim, porque as pessoas que nos são caras, em quem temos mais confiança, são precisamente aquelas que mais negligenciamos. Esta é a cruel lei da vida, não é mesmo? Diga, diga, meu caro Battistela, há quanto tempo não trocamos duas palavras em santa paz? Semanas, não é mesmo? Semanas o quê! Meses, talvez. Muitos meses. Eu mesmo não me surpreenderia se, em vez de meses, fossem anos…
– Faz exatamente dois anos e meio…
– Dois anos e meio! Mas acredite, meu caro Battistela, que durante esses dois anos e meio, todas as noites – sabe disso? -, na hora em que fazemos nosso exame de consciência, eu pensava sempre no senhor. Todas as noites antes de dormir, dizia comigo mesmo: “E Battistela? E o excelente Battistela? Não estás te esquecendo dele?” Era o que eu mesmo me dizia: “Quando irás te decidir a lhe dar o cargo que ele merece?
Um trabalhador como ele, uma coluna mestra da administração, um homem desses, hoje cada vez mais raros…” Assim falava eu, e todas as noites sentia remorsos, pode acreditar.
– Pois então, senhor comendador…
– Estou disposto a ajudá-lo, não era isso que ia me perguntar? Ah, não fale, não me diga nada. Acha que eu não tenho o condão de captar o seu pensamento? Palavra por palavra, poderei lhe repetir tudo quanto tinha a intenção de me dizer… Que existe quem, com muito menos títulos, está ganhando mais do que o senhor, que isso é uma injustiça, que o senhor perdeu a paciência etc. etc. Não é isso mesmo?
– É, realmente.
– E o senhor, meu caro Battistela, teve um ímpeto de exasperação, não é verdade? Quem não teria tido, não é mesmo? A injustiça consegue transformar criaturas mansas e humildes em verdadeiros tigres, não é mesmo?
– Bem, em suma…
– Está vendo? E o senhor pensava que eu não compreenderia, que eu não sabia, que eu não me interessava. Homem de pouquíssima fé!… Bem, este deve ser um belo dia para nós. Esta noite ambos estaremos satisfeitos um com o outro. Que me diz de 150?
– Como?
– Creio que agora o senhor ganha entre 95 e 98, se não me engano, não é isso?
– 97.
– Bem. Podemos dar um passo adiante. Um pequeno passo. Cento e cinqüenta. Não chega?
– Bem, confesso que não esperava…
– Está vendo? Não sou mais aquele dragão, aquele carniceiro, aquele devorador de cristãos, aquele lobo esfomeado – não é isso que dizem de mim?
– Eu…eu lhe agradeço.
– Não tem nada que me agradecer. Eu é que lhe agradeço pelo seu trabalho… Um cigarro?
– Obrigado, não fumo…
– Bravo, é mais uma virtude… Quanto a mim, fumo como um desesperado… Bem, bem, quer me parecer que ficou tudo resolvido…
– Bem, quer dizer, não quero mais tirar o seu tempo…
– Não sou eu que vou retê-lo, meu caro Battistela. E faço os melhores votos para que… – suspirou. – É pena!
– “É pena”, por quê?
– Nada, nada… Eu… para você… eu tinha outros projetos. Mas agora é inútil… O que está feito, está feito.
– Outros projetos?
– Sim, projetos, que eu fazia… Mas, agora…
– Comendador, não quer fazer a gentileza de me dizer…?
– Não, eu te conheço. Aquilo que se faz para o seu bem, o senhor leva a mal…
– Isso não é verdade…
– Seria como lhe dar uma prova de confiança, uma demonstração de amizade. Seria. Mas compreendo que poderia lhe dar uma impressão esquisita…
– Esquisita como?
– Além do mais é um assunto… é um assunto extremamente reservado…
– Não confia em mim?

O diretor levantou-se devagar, atravessou o escritório com ar circunspecto, fechou a porta com a chave, parou como se escutasse a passagem de alguém lá fora, avizinhou o indicador dos lábios num gesto de silêncio, voltou à escrivaninha e começou a falar em voz baixa:
– Battistela… me escuta… Eu estou ficando velho…
– Não é verdade.
– Velho, sim. O coração às vezes anda falhando. De um dia para o outro…
– Não diga isso nem brincando…
– E onde? Aqui mesmo, nesta escrivaninha? No meu posto, quem sabe? Mas escuta, Battistela…
– Estou ouvindo.
– Recomendo que guarde isso só para você. Porque em você eu confio… De algum tempo para cá fala-se em grandes mudanças…
– Mudanças?
– Com certeza já deve ter ouvido falar, pelo menos por alto: mudança de proprietários, segundo se diz, passando a firma para as mãos de outro grupo financeiro. E sabe o que isso significa?
– Que os chefes atuais vão-se embora e outros virão.
– E isso não lhe diz mais nada? Não compreende o que pode acontecer em tais circunstâncias?
– Não faço a menor idéia…
– Podem vir medidas de contenção de despesas. Porque se esta mudança ocorrer, o motivo é um só: é que as coisas não vão bem, que a crise está sendo sentida também por nós. Razão, portanto, para que a preocupação dos novos donos seja, sem dúvida, a de poupar ao máximo. E de que maneira? É simplicíssimo. Sabe o que se faz, nestes casos?
– Não. O quê?
– Redimensionamento. Bela palavra, não é? Redimensionamento. Sabe o que ela significa? Significa desembaraçar-se do peso excessivo, eis a solução genial. Elimina-se a escória. Aperta-se o cinto. Passa-se uma vista d’olhos na folha de pagamento. E quem tem alta remuneração, zapt! Estes são os primeiros a se fritarem. Como em todos os casos, são só os peixes miúdos que se salvam.
– E então?
– E então, quer que eu fique contente com a idéia de ver liquidado um elemento como o senhor? O meu dever, neste caso, uma vez que tenho um peso na consciência, é o de alertá-lo, meu caro Battistela. Não só o de alertá-lo, como o de ajudá-lo a evitar essa possível ameaça.
– Evitar?
– Claro. Quero subtraí-lo à dizimação, mimetizá-lo, colocá-lo numa posição segura. Mas é inútil. Os senhores, os jovens, não se dão conta de que…
– Ao contrário. Pode dizer, comendador, pode dizer…
– Quer que eu lhe fale com o coração nas mãos? Como se o senhor fosse o meu próprio filho? Bem, se eu fosse o senhor, frente a uma conjectura desta ordem, sabe que coisa…
– Que coisa o senhor faria?
– É fácil compreender. A moral da história é a seguinte: melhorando a sua situação financeira, no fundo eu lhe prestei um péssimo serviço. Foi a mesma coisa que se eu o atirasse na rua para falar tipo pão-pão, queijo-queijo…
– De maneira que eu…
– Caro Battistela, não quero que amanhã venha a ter motivos para me recriminar. Se amanhã o senhor vier a me perguntar: mas, comendador, por que não me avisou antes? Por que não me abriu os olhos? Meu querido, as coisas estão chegando a um ponto tal que, mude-se ou não de patrões, um dia eu me verei constrangido a adotar medidas severas. E por que haverá de ser com o seu sacrifício?
– Mas, eu… Bem, não estou compreendendo… Está me falando de aumento? Acha que é melhor eu esperar?
– Não, nada de esperar! Se prevenir, sim. O que fazem os soldados, quando os inimigos abrem fogo? Abaixam a cabeça, agacham-se no chão para não serem atingidos. Agache-se também, Battistela.
– Agachar-me?
– Em sentido figurado, bem entendido. No momento, convém uma manobra, uma dissimulação, um subterfúgio estratégico. No momento, convém exagerar no seu zelo. Compreendeu, Battistela?
– Realmente…
– E depois, que importância teria para o senhor, que é solteiro, uma pequena redução no salário? Se em vez de 97 fossem apenas 80, isso não causaria a morte de ninguém. Digo-lhe isso porque agora até os ordenados de 90 estão dando na vista! Mas em compensação… considere a segurança, a tranqüilidade, a certeza de não ir de encontro com nenhum desprazer.
– Redução de salário?
– Está vendo como eu não estava enganado? Como era melhor me manter calado? O senhor já está dando às minhas palavras uma interpretação negativa!
– O senhor disse oitenta mil?
– Setenta talvez fosse melhor, mas creio que oitenta será o suficiente…
– Mas comendador…
– Eu sabia. O senhor é um rapaz inteligente, pega as coisas no ar, toma decisões com rapidez… Pense agora se eu, em vez de lhe falar sobre isso, me calasse… O senhor teria lá o seu aumento. De cinqüenta mil por mês. Mas, e depois? Ia se meter em poucas e boas! Seria carregado pela primeira onda. Menos mal, menos mal que existe alguém que lhe quer bem…
– Quer dizer que acha mesmo que o aumento…?
– Não resta a menor dúvida, meu filho: seria o mesmo que estar com uma corda no pescoço.
– Bem, comendador, eu lhe agradeço. O senhor me poupou de um grande aborrecimento.
– Não precisa agradecer… Vá, volte contente, volte tranqüilo para o seu trabalho. E, meu caro Battistela, saiba que o meu desgosto é apenas um: o de não poder fazer pelo senhor – eu lhe juro – um pouco mais do que fiz.