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Posts Tagged ‘O Buraco na Parede’

A Carne e os Ossos (Rubem Fonseca)

Meu avião só partia no dia seguinte. Pela primeira vez lamentei não ter um retrato da minha mãe comigo, mas sempre achei uma idiotice andar com retratos da família no bolso, ainda mais da mãe.
Eu não me incomodava de ficar mais dois dias vagando pelas ruas daquele grande formigueiro sujo, poluído, cheio de gente estranha. Era melhor do que andar por uma cidade pequena com ar puro e caipiras que dizem bom-dia quando cruzam com você. Eu ficaria ali um ano se não tivesse aquele compromisso me esperando.
Andei o dia inteiro respirando monóxido de carbono. À noite meu anfitrião me convidou para jantar. Uma mulher nos acompanhava.
Comemos vermes, o prato mais caro do restaurante. Ao olhar um deles na ponta do garfo, pareceu-me uma espécie de larva ou pupa de berne que ao ser frita perdera os pêlos negros e a cor leitosa. Era um verme raro, explicaram-me, extraído de um vegetal. Se fosse um berne a iguaria seria ainda mais cara, respondi, irônico, já tive berne no meu corpo três vezes, dois na perna e um na barriga, e os meus cavalos e os meus cães também tiveram, é difícil tirar ele inteiro, de forma a ser comido frito, somente frito poderia ser saboroso, como estes aqui — e enchi minha boca de vermes.
Depois fomos a um lugar que o meu anfitrião queria me mostrar.
O amplo salão tinha ao centro um corredor por onde mulheres desfilavam nuas, dançando ou fazendo poses. Passamos por entre as mesas, em torno das quais sentavam-se homens engravatados. Pedimos algo ao garçom, depois que nos instalamos. Ao nosso lado uma mulher com apenas um cache-sexe, postada de quatro, esfregava as nádegas no púbis de um homem de paletó e gravata sentado de pernas abertas. Ela exibia uma fisionomia neutra e o homem, um sujeito de uns quarenta anos, parecia tranqüilo como se estivesse alojado numa cadeira de barbeiro. O conjunto lembrava uma instalação de arte moderna. Poucos dias antes, em outra cidade, em outro país, eu havia ido a um salão de arte ver um porco morto apodrecer dentro de uma caixa de vidro. Como fiquei poucos dias na cidade, pude apenas ver o animal ficar esverdeado, disseram-me que era uma pena eu não poder contemplar a obra em toda a sua força transcendente, os vermes comendo a carne.
Ali, no cabaré, aquela exibição também me parecia metafísica como a visão do porco morto em seu recipiente de cristal brilhante. A mulher me lembrou, por um curto momento, um sapo gigantesco, porque estava agachada e porque seu rosto, mulato ou índio, tinha algo de anfíbio. Na mesa havia mais três homens, que fingiam não tomar conhecimento dos movimentos da mulher.
Do nosso lugar não podíamos ver tudo o que acontecia no salão. Mas nas mesas em torno de nós havia sempre uma ou duas mulheres atracadas num homem inteiramente vestido. O bilhete de entrada dava direito a que uma das inúmeras mulheres que faziam strip-tease em vários pontos do salão se esfregasse por algum tempo no portador do ticket de entrada. Havia um padrão coreográfico nas carícias: a mulher punha-se de quatro, roçava as nádegas no púbis do homem que permanecia sentado na cadeira, depois dançava à frente dele. Algumas, mais rebuscadas, subiam em cima do sujeito e prendiam-lhe o rosto no vértice das suas coxas. Depois pegavam o ticket de entrada e afastavam-se.
A única mulher que assistia àquele espetáculo era a nossa acompanhante. O meu anfitrião a chamava de Condessa, não sei se era o nome dela ou o título. Quando era jovem conheci uma mulher que me disse ser uma Condessa verdadeira, mas acho que era mentira. De qualquer forma eu chamava a minha companheira de mesa de senhora Condessa, como antigamente eu fazia com a outra. Ela olhava o que acontecia em torno e sorria discretamente, comportava-se como supunha que um adulto deve proceder num circo.
De todos os cantos vinha o som alto de dance music. Para poder falar com a Condessa eu tinha que aproximar minha boca da sua orelha. Eu disse alguma coisa que me distinguia como um observador isento e entediado, esqueci o que foi. Também com a boca quase colada na minha orelha, a Condessa, depois de comentar a atitude de uma mulher perto de nós que esfregava a boceta na cara de um homem de gravata-borboleta, citou em latim a conhecida frase de Terêncio: as coisas humanas não lhe eram alheias, e portanto não a assustavam. E para demonstrar isso balançou o corpo no ritmo do som retumbante e cantou a letra de uma das músicas. Eu a acompanhei, batendo na mesa.
No salão havia um boxe de vidro com chuveiro, fortemente iluminado por spots de luz, no qual as mulheres se revezavam tomando banho. Algumas molhavam e lavavam o corpo inteiro, ensaboavam artelhos, pentelhos, joelhos, cotovelos, cabelos. Outras faziam abluções estilizadas. Elas estão dizendo estou limpa, confie em mim, sussurrou a Condessa no meu ouvido.
Esperamos correr a rifa. O premiado poderia escolher qualquer das mulheres para passar o resto da noite com ele, na palavra do mestre-de-cerimônias.
Nós, eu e o meu anfitrião, não fomos sorteados. A Condessa não comprara a rifa.
Então ficamos calados, sem cantar e sem bater na mesa acompanhando a música. Pagamos — o anfitrião pagou — e saímos.
Despedimo-nos na calçada em frente ao bar. A Condessa se ofereceu para me levar ao hotel. O anfitrião também. Eu disse que queria andar um pouco, as grandes cidades são muito bonitas ao amanhecer.
Eu já caminhava havia uns dez minutos, lastimando não ter uma foto da minha mãe no bolso, nem num álbum, nem em nenhuma gaveta, quando o carro da Condessa parou ao meu lado.
Entra, ela disse, estou sentindo vontade de chorar e não quero chorar sozinha.
Ao chegarmos ao hotel havia um recado do meu irmão. Liguei para ele do quarto. A Condessa ouviu a conversa com meu irmão. Sinto muito, ela disse, sentando-se na cama, cobrindo o rosto com as mãos, mas não estou chorando por você, estou chorando por mim.
Deitei na cama e olhei para o teto. Ela deitou-se ao meu lado. Encostou o rosto úmido no meu e disse que foder era uma maneira de celebrar a vida. Fodemos em silêncio e depois tomamos banho juntos, ela imitou uma das mulheres do cabaré se lavando e cantando e eu a acompanhei batendo nas paredes do boxe do chuveiro. Ela disse que estava se sentindo melhor e eu disse que estava me sentindo melhor.
Peguei o avião.
Nove horas e meia depois cheguei ao hospital.
O corpo de minha mãe estava na capela, dentro de um caixão coberto de flores, sobre um catafalco. Meu irmão fumava ao lado. Não havia mais ninguém.
Ela perguntava muito por você, disse o meu irmão, então me aproximei dela e disse que eu era você, ela segurou na minha mão com força, disse o seu nome e morreu.
No jazigo da família já estavam os restos do meu pai e do meu irmão. Um funcionário do cemitério disse que alguém teria que assistir à exumação. Eu fui. Meu irmão parecia mais cansado do que eu.
Eram quatro exumadores. Abriram a campa de mármore rosa e arrebentaram com martelos a placa de cimento que fechava a sepultura. O jazigo era dividido em dois por uma laje. Um dos coveiros entrou dentro do buraco aberto, com cuidado para não pisar nos restos do meu irmão, na parte superior. As roupas do meu irmão estavam em bom estado. Ele tinha bons dentes, os molares obturados com ouro. Quando a cabeça foi retirada o maxilar inferior se desprendeu do resto do crânio. O fêmur e a tíbia estavam mais ou menos inteiros; as costelas pareciam de papelão pardo.
Os ossos foram jogados pelo coveiro numa caixa de plástico branco ao lado da sepultura. Três baratas e uma lacraia vermelha subiram pelas paredes, a lacraia parecia mais veloz do que as baratas, mas as baratas sumiram primeiro. Eu disse em voz alta que a lacraia era venenosa. O coveiro, ou que nome tivesse, não deu importância ao que eu dissera.
Logo que os restos do meu irmão foram colocados na caixa de plástico, o nome dele foi escrito em letras grandes na tampa. Um dos homens entrou na sepultura e arrebentou com marreta e formão a laje que fechava a parte inferior onde se encontravam os restos do meu pai, que morrera dois anos antes do meu irmão. O exumador voltou a entrar na sepultura. Os ossos do meu pai estavam em pior estado que os do meu irmão, alguns tão pulverizados que pareciam terra. Tudo foi jogado dentro de outra caixa plástica, misturado com restos de tecido, as roupas do meu pai não eram tão boas como as do meu irmão e haviam apodrecido tanto quanto os ossos. Do crânio do meu pai só restara a dentadura postiça; o acrílico vermelho da dentadura brilhava mais do que a lacraia.
Dei uma boa gorjeta para os sujeitos. As duas caixas foram colocadas ao lado da sepultura.
Voltei para a capela.
Meu irmão fumava olhando pela janela o trânsito lá fora.
Um padre apareceu e rezou.
O caixão fechado foi colocado numa carreta. Seguimos, eu e o meu irmão, a carreta empurrada pelo coveiro até a sepultura aberta. O caixão da minha mãe foi colocado na parte inferior. Uma laje foi cimentada, deixando a parte superior vazia, à espera do futuro ocupante. Sobre essa laje foram provisoriamente depositadas as duas caixas com os restos do meu pai e do meu irmão. A campa de mármore rosa com os nomes dos dois, gravados em bronze, fechou a sepultura.
Devem ter roubado as obturações de ouro dos dentes do meu irmão enquanto fui à capela apanhar a minha mãe, pensei. Mas estava muito cansado para comentar isso. Caminhamos em silêncio até a porta do cemitério. Meu irmão me deu um abraço. Quer uma carona?, perguntou. Eu disse que ia caminhar um pouco. Olhei o carro dele se afastar. Fiquei ali, em pé, até escurecer.

O Balão Fantasma (Rubem Fonseca)

Um balão gigantesco, o maior do mundo, disse o informante. Onde?, perguntei. Tudo o que eu sei é que eles já compraram dez toneladas de papel de seda. Informante é assim: ouviu dizer, só sabe a metade, a metade que é falsa. Eu fazia parte de um Grupo especial criado para estudar e pro-por maneiras de evitar que os baloeiros construíssem e soltassem balões, principalmente durante o mês de junho, nas festas dedicadas a São João e a São Pedro, os dois santos fogueteiros. Os balões eram ilegais. Ao cair incendiavam a vegetação dos parques da cidade, instalações industriais, residências particulares. Campanhas publicitárias haviam sido feitas, com a colaboração da mídia, sem resultado. Eu era o representante da polícia no Grupo. Os outros membros eram duas mulheres, uma da prefeitura e a outra da agência federal responsável pelo meio ambiente. Sempre gostei de trabalhar com mulheres. As duas eram inteligentes e dedicadas. E também ecólogas fanáticas, para elas árvore era a melhor coisa que existia no mundo. Acreditavam que o problema tinha uma solução simples: cadeia para os baloeiros. Em junho os céus se enchiam de balões e junho estava chegando e eu sabia que a minha vida ia ficar um inferno. Ainda por cima cometi a imprudência de contar para as minhas companheiras de Grupo a história do balão de dez toneladas de papel de seda. As duas ficaram indignadas. Fico imaginando o tamanho da bucha de um balão como esse. Ele está preocupado com o tamanho da bucha, não com a calamidade que ela pode causar, disse Marina. Você tem homens, armas, a lei, por que não acaba com esses baloeiros? O problema é muito complicado. Já ouvimos essa desculpa antes, disse Marina. E esse balão gigante é um boato. Vamos supor que não seja um boato, disse Fabiana. A prisão dos responsáveis por esse superbalão serviria de exemplo, teria um efeito suasório. Os portugueses trouxeram o balão para o Brasil há centenas de anos. Mas, como ocorre com todas as tradições, o tempo acabará com mais esta. A urbanização… Enquanto isso as florestas e os morros da cidade pegam fogo, cortou Marina. Afinal, o que você está fazendo neste Grupo? Ela vivia me provocando, mas eu nunca perdia a paciência com ela. Nem com ninguém. Por favor, disse Fabiana. Tudo o que Fabiana pedia, eu fazia. Mesmo quando era uma perda de tempo. Em dois dias coloquei seis detetives na rua percorrendo os subúrbios, se infiltrando, só para descobrir onde ia ser feito o megabalão, se é que ia ser feito. Consegui no Gabinete que me cedessem o detetive Diogo Cão para esse trabalho. Na reunião semanal do Grupo relatei às minhas colegas as providências que estava tomando. Falei dos seis detetives, principalmente do Diogo Cão. Ele vai nos ajudar muito, acrescentei. Cão? O policial se chama Cão? Não tem gente chamada Gato? Pinto? Leitão? Diogo Cão é de família portuguesa. É capaz de descender do navegador quatrocentista. Você está fugindo do assunto. A floresta vai pegar fogo!, disse Marina. O Diogo sabe tudo sobre balão. Ele me disse que os incêndios são causados pelos balões pequenos. Os balões grandes são feitos por especialistas e apagam ainda no céu. Quando ele cai, a bucha já não arde. Não contei para elas que às vezes, por um defeito da bucha ou da estrutura, os balões grandes estouram, o que na linguagem dos baloeiros significa que pegam fogo. E ao cair incendeiam tudo o que está embaixo. Agora mais essa falácia, os baloeiros se preocupam com o meio ambiente, disse Marina. Eles querem é recuperar o balão, admiti. Preciso falar com você, disse Fabiana. Cão policial, uma combinação perfeita, eu disse fazendo graça, e elas me olharam enviesado. Preciso muito falar com você, repetiu Fabiana. Eu já vou, disse Marina, que sabia do meu envolvimento com Fabiana. Ao sair olhou para nós, balançou a cabeça e bateu a porta. Vamos ao cinema? Não estou com vontade de ir ao cinema. Vamos jantar no chinês. Não estou com vontade de jantar no chinês. Vamos comprar um CD no shopping. Me leva pra minha casa. Estou com dor de cabeça. Quando chegamos na porta da casa dela eu perguntei se podia subir. Hoje não. Eu morro se não tomar o seu café-com-leite hoje, agora, eu morro. Já conheço todos os seus truques, deixa de ser ridículo. Estou falando sério. Eu é que preciso falar um assunto muito sério com você. Entramos no apartamento. Você vai fazer café-com-leite pra gente? Não. Tenho que te dizer uma coisa. Depois, meu bem. Agora, preciso falar agora. Eu te amo, eu disse, abraçando-a. Eu também te amo. Tenho que te dizer uma coisa. Depois. Fomos para a cama. Ir para a cama com ela era a maior felicidade que a vida me dava. Ficávamos alegres e ríamos e suávamos mesmo no ar refrigerado de tanto rolar na cama, e nos intervalos tomávamos café-com-leite que ela fazia jogando café solúvel no leite fervendo, e eu saía de lá de madrugada para ela poder dormir, pois não sei dormir com ninguém, nem mesmo com a mulher que eu amo, e dizia em voz alta o nome dela para o sol, se o sol já tivesse nascido, para a chuva, quando tinha chuva, Fabiana, para as portas das casas, Fabiana, para os bueiros, Fabiana, para os carros que passavam. E ela sempre sentia dor nos músculos das pernas no dia seguinte. Naquela noite ela não riu uma vez sequer. Enquanto eu me vestia, ela repetiu muito séria, tenho que te dizer uma coisa. Amanhã. Agora você vai dormir. Hoje. Esse balão é uma coisa monstruosa. Qualquer balão é uma coisa monstruosa. Os baloeiros são um bando de criminosos. Por que não um bando de sonhadores? O sonho de Bartolomeu Lourenço de Gusmão. Dos Montgolfier. Está vendo? A Marina tem razão. Você simpatiza com eles, você está do lado deles. São comunidades inteiras que fazem o balão, homens, mulheres, velhos, crianças. Eles apenas querem ver o balão subir para o céu, o mais alto possível. Comunidades inteiras? Que justificativa mais idiota. Comunidades inteiras praticam o linchamento e você fica do lado dos assassinos? Estamos perdendo tempo com a sua sociologia equivocada. Não estou do lado de ninguém. A Marina não gosta de mim. Sonhadores foram os que fizeram a floresta da Tijuca, anos e anos de um trabalho de amor. Você sabe que o Rio é a única cidade no mundo que tem em seu perímetro urbano uma floresta, a Floresta da Tijuca. Ou não sabe? Sei. E esses baloeiros cretinos todo ano destroem um pedaço da floresta e você chama eles de sonhadores. Eu preciso te dizer uma coisa. Então diz o que você precisa dizer. Mas antes fique sabendo que eu fiz um esforço danado para conseguir os seis detetives e mais o Diogo Cão para fazer essa investigação idiota sobre um balão gigante que provavelmente nunca será feito e que se for feito será apenas mais um entre milhares. Milhares, meu bem, põe isso na sua cabeça, são muitos milhares os balões fabricados nesta época do ano e dezenas de milhares as pessoas envolvidas. Quando soltar balão não era crime, os baloeiros imprimiam convites convocando o povo para assistir ao lançamento dos balões grandes. E o balão tinha nome e celebrava alguma coisa, um santo, um acontecimento, uma data histórica, um desejo. E os poetas da comunidade escreviam odes ao balão, que eram cantadas durante o lançamento. Agora diz o que você está querendo me dizer. Ainda bem que foi proibida essa perversidade cultural. Diz o que você quer me dizer. Ela não disse imediatamente. Saiu da cama se enrolando no lençol para eu não ver o corpo nu dela, coisa que nunca aconteceu, a não ser nos primeiros dias. Enxugou os olhos no lençol, cuidando para que não aparecesse nenhuma parte íntima do seu corpo. O que Fabiana ia falar devia ser coisa séria, ela raramente chorava. Anda, pode falar, eu não agüento ver você chorar e não vou deixar de te amar, não importa o que me disser. Eu e Marina estamos escrevendo um ofício ao secretário de Segurança Pública pedindo que seja indicado um outro delegado para integrar o Grupo em seu lugar. Pára de chorar, meu bem. Vocês dizem o quê, para justificar minha substituição? Que sou incapaz? Frouxo? Não com essas palavras. Incompetente? Negligente? O Grupo se reúne há quase um ano e nada foi feito. Eu pedi para você prender os baloeiros que estão construindo esse monstro e você não deu importância. Esse balão não existe. A Marina diz que você está do lado deles. E você? Também acha isso? Não sei. Sim, acho. Você está zangado comigo? Zangado? Isso é nome de anão da Branca de Neve. Mas eu não achei graça nem ela achou graça e eu passei a mão de leve sobre a cabeça dela. Agora ela chorava sem esconder. Te cuida, garota. Eu nunca havia saído da casa dela sofrendo. Tudo por causa de um maldito balão fantasma. Todas as florestas do mundo não valiam o amor que eu sentia por Fabiana, mas aquela florestinha de merda trepada nos cocurutos da cidade, cuja árvore mais antiga tinha a idade da minha avó, valia mais do que o amor de Fabiana por mim. As mulheres, pensava eu enquanto caminhava pela rua escura, não sabiam amar como os homens. Nós, os homens, havíamos inventado o romantismo e o suicídio por amor, por elas tínhamos coragem de ser palhaços, assassinos, ladrões. Pensei nos suicidas que conhecia. Mas não havia nenhum homem, todos eram mulheres, que por amor haviam cortado os pulsos, tomado barbitúrico, ateado fogo às vestes, pulado na frente do trem, pulado da janela, se enforcado no basculante, só mulheres. O único homem de quem me lembrei foi o Werther. Esse não valia. As mulheres sabiam amar sim. Então me deu saudades de Fabiana e comecei a dizer o nome dela no meio da rua e um mendigo que tentava dormir embaixo de uma marquise ficou olhando para mim e eu disse vem cá e ele não veio e eu gritei vem cá, estou mandando, e ele veio apavorado e eu disse repete comigo Fabiana, Fabiana. E ficamos os dois dizendo Fabiana, Fabiana, e depois dei a ele a nota de maior valor que eu tinha no bolso e ele voltou para debaixo da marquise. E quando eu já estava longe ele gritou Fabiana, já deitado, acenando com a mão, e eu gritei Deus te abençoe meu bom mendigo, acenando de volta. Pura novela das seis. No dia seguinte, na delegacia, mandei chamar o Diogo Cão. Então? O balão talvez exista. Talvez vá ser feito, talvez. E se for, vai ser na Baixada. Em Caxias eles contrataram um meteorologista para saber com certeza a direção e a hora dos ventos bons. Estou de olho no Caveirinha, para descobrir quem vai ficar com ele. Ninguém segue balão melhor do que o Caveira, ele conhece todos os caminhos da cidade e todos os caminhos da Baixada e todas as estradas que vão dar em Minas, São Paulo e Espírito Santo. Já teve balão grande que atravessou as fronteiras. No volante de uma pick-up ele é melhor do que o Senna pilotando o McLaren. Se o Caveira for para Caxias, já é uma pista. São João de Meriti e Caxias estão disputando um americano que trabalhou soltando foguete em Cabo Canaveral, o gringo veio para o Carnaval, pirou e ficou. São os dois grupos que estão investindo mais, pelo visto. Vamos ver para que lado vai o rastreador Zé de Souza. O tempo está passando, Diogo. Minhas colegas de Grupo dizem que esse balão vai causar um grande incêndio. Que balão, doutor? Nós não sabemos de nada. O Caveirinha e o Gringo podem apenas significar que vão ser feitos os balões de sempre. Vamos presumir que o balão fantasma exista. E que está sendo feito aos pedaços, em locais diferentes, para nós não descobrirmos, e depois eles vão juntar tudo, acender a bucha e soltar o bicho. Não dá para você descobrir alguma coisa, alguém dar o serviço? Depois que foi proibido soltar balão ninguém mais abre o bico. É uma espécie de religião. Cristãos na catacumba. Uma coisa assim. Lembra, doutor, daquele avião francês que os terroristas seqüestraram? Um passageiro que estava no avião disse que estava tranqüilo até que os seqüestradores se reuniram num canto e começaram a rezar. Então ele percebeu que aquela reza significava que os passageiros estavam fodidos. Logo em seguida começou a matança dos reféns. Religião é isso. O balão é a reza dos baloeiros. O senhor pode trazer um deles para cá e arrancar os colhões do elemento com um alicate que ele não dá o serviço. E os colhões são o bem mais precioso de um homem, não é verdade? É verdade, respondi, pensando em Fabiana. O senhor sabe que o Zé de Souza é meu amigo, não sabe? Estou sabendo agora. O Zé de Souza um dia me disse que está cagando para a lei dos tribunais e para a frescura dos ecologistas. Nossa briga, ele me disse, é com a lei de Newton. Quando eu falei nas florestas ele respondeu fodam-se as florestas, as florestas pegam fogo há milhões de anos e o mundo não acabou. Dez toneladas de papel de seda fazem um volume enorme, eu disse. Pode ser exagero de quem dedurou. Já apurei, ninguém vendeu essa quantidade de papel. Eles podem ter comprado em várias cidades, em pequenas quantidades, em datas espaçadas. O Brasil é grande. Pode ser. Mas tenho minhas dúvidas. Cão, alguma vez eu te pedi alguma coisa dizendo que era um assunto de vida ou morte? Não senhor. Este é de vida ou morte. Entendi. Mas balão é uma coisa bonita, não é, doutor? Um incêndio também. A coisa mais bonita que vi foi o incêndio da refinaria. O belo horrível, Cão. Fodam-se as florestas. Estou brincando, doutor. Toda noite eu saía em diligência com o Cão. Descobrimos dezenas de lugares onde os caras estavam fazendo balões, mas não adiantava prender ninguém, teríamos que deter muita gente, mesmo deixando os velhos e as crianças de fora. Cristãos nas catacumbas. Também não havia como apreender o material, os balões eram feitos em partes. Corte das folhas, colagem de gomos, armação de flâmulas e bandeiras, encadeamento das cangalhas de fogos de artifício, enlaçamento da fieira de lanternas, flexão do vergalhão da boca, entrouxamento das buchas, cada coisa era elaborada num local diferente, quintais, campos de peladas de futebol, galpões abandonados, para depois ser tudo montado no lugar em que o balão ia ser lançado. Nas diligências íamos só nós dois, no velho fusca do Cão, para ninguém desconfiar que éramos da polícia. E ouvimos o disse-me-disse que circulava em todos os terreiros, em todas as várzeas: em algum lugar estava sendo feito um balão gigantesco que ia assombrar o mundo e entrar para sempre no Guinness. Cão, eu disse, o filho da puta está mesmo sendo construído. Passamos a chamar o balão de O Fodão. Se ele está sendo feito, disse para os meus detetives, eu quero pegar O Fodão, pegar inteiro, antes deles soltarem o bicho, na hora de acenderem a bucha, antes do sebo ficar azul. E isso só podia acontecer na véspera de São João, na noite do dia vinte e três. Falei com o comandante da PM e ele garantiu que naquele dia poria à minha disposição cinqüenta homens da tropa de choque. Cinqüenta homens da tropa de choque? É pouco, tinham que mobilizar todo o efetivo da PM, disse Marina. Acho que vamos pegar o balão fantasma. Não podíamos dizer a elas o nome feio que eu e o Cão havíamos dado ao balão. Fabiana não dizia uma palavra. Eu fazia cara de sofredor e procurava os olhos dela, mas Fabiana fingia ocupar-se com a leitura de um livro. Não adianta destruir apenas essa monstruosidade e a quadrilha responsável por ela, disse Marina, a polícia tem que pegar todos os baloeiros da cidade, processar um a um. Inclusive as crianças. Ela desprezou a ironia. As crianças têm que ser educadas. Se tivéssemos uma polícia operante as crianças estariam fazendo outra coisa. Todo mundo devia ser polícia durante um ano, para ver a merda que é. Eu pensei, mas não disse. O Cão chegou e me chamou num canto. O Caveirinha encheu a cara num bar da Vila Isabel e dizia em altos brados, olhem para o céu no dia vinte e três!, olhem para o céu no dia vinte e três! Acho que o Caveira vai ser o seguidor. Não sabemos pra quem. Em Vila Isabel? Isso não quer dizer nada. Temos que achar o rastreador. Se for o Zé de Souza ele te dá o serviço? Não. Nem eu vou baratinar o Zé, ele é meu amigo. Está certo. Essa conversa é secreta?, perguntou Marina. Vocês estão cochichando. Querem que a gente saia da sala? Vamos sair da sala, Fabiana. Fabiana fechou o livro, olhou para mim tão rapidamente que nem me deu tempo de fazer cara de sofredor para ela ter pena de mim, e levantou-se. Calma, calma. Estou conversando com o detetive Cão sobre o rastreador, falávamos baixinho para não incomodar a leitura da Fabiana. Fabiana aproveitou a chance e perguntou com certa doçura, rastreador, o que é isso? É o sujeito que diz ao pessoal da captura a direção que o balão vai tomar conforme as correntes de ar da atmosfera, eu disse, fazendo a cara de sofredor. Fabiana, comovida, fez um leve gesto de aproximação, como se fosse me abraçar, mas se conteve. Depois que o balão é soltado por uma comunidade com recursos, que solta muitos balões grandes, disse o Cão, entram em cena o seguidor, que é o elemento que tem de conhecer todos os caminhos da cidade e dirige uma pick-up, o rastreador, que é essa figura que o doutor explicou, e a turma da captura. A função dessa turma é resgatar o balão, se possível intato, dobrar, colocar na pick-up e levar o bicho apagado de volta, para depois ser soltado de novo. Se alguém se meter, uma turma rival ou então tascadores avulsos, eles enchem todo mundo de porrada, desculpem. Já morreu gente nesse entrevero. A psicologia do tascador…, comecei. Poupe-nos dessas digressões, disse Marina. Por que uma pick-up?, perguntou Fabiana. Tem que ser uma viatura grande para poder transportar a turma da captura, o rastreador e o balão resgatado, se for o caso. Outras turmas, de outras comunidades, podem querer capturar o balão. Se for uma turma amiga eles entregam o balão aos donos e depois juntos soltam novamente o bicho. E sempre que um balão cai aparecem tascadores avulsos. Tascam o balão porque não foram eles que puseram aquilo no céu, porque não perdoam ao balão o ter caído das alturas, porque o balão é um corpo estranho nas ruas. Ele é como os pássaros migratórios mortos a pauladas nas praias do Nordeste porque estão andando exaustos na areia quando deviam estar voando. Eles matam os pássaros porque sentem fome. Os tascadores também têm fome. Há muitas fomes. Você errou de profissão, disse Marina. Já sabíamos disso, pelas demonstrações óbvias que nos tem dado, e agora, com essas tiradas de almanaque… O Cão me defendeu: conhecer a psicologia dos infratores ajuda na investigação criminal. Eu estava falando com a Fabiana. Mas eu estou aqui e não sou surda. Tinhosa, a Marina. Não vamos brigar, disse Fabiana. Eu não estou brigando, respondi. Mas eu estou. Nós estamos escrevendo um ofício ao secretário de Segurança pedindo a sua substituição. Eu já disse a ele, disse Fabiana, voltando a ler. Não se esqueçam de dar uma olhada na portaria que criou o Grupo. A burocracia tem normas, procedimentos, regulamentos, etcetera, que devem ser obedecidos. Nós sabemos. Eu e o Diogo Cão vamos fazer uma diligência. Até mais. Paramos numa lanchonete para tomar uma água de coco. Essa dona ou ama ou odeia o senhor. A psicologia de almanaque atacou nós dois. Existem lugares onde nunca apareceu um arco-íris. Cão, isso não tem pé nem cabeça. É poesia pura. Chama essa dona para abraçar uma árvore com você. Não posso. Já fiz isso com a Fabiana. Foi assim que entrei no coração dela. Agora saiu, não é? Você é um tira esperto. Nós esquecemos do bucheiro, disse o Cão, um balão desse tamanho, se realmente está sendo feito, tem que ter o melhor especialista em bucha. Um cara como o velho Silva Mattoso. Ele faz a melhor bucha de estágio do Brasil, sabe como é, queima primeiro uma, depois outra… Sei como é. Ele faz balão de até oito estágios, que voa mais de quinhentos quilômetros. Vai parar em Minas, no Espírito Santo. Descobre por onde ele anda e o que está fazendo. O Edgar vai te ajudar. Dediquei-me ao Fodão. Andei por toda parte, com o Cão e sem ele. Méier, Madureira, Caxambi, Del Castilho, Bangu, Penha, Campinho, Quintino Bocaiúva, Cascadura, Anil, Pavuna, Costa Barros, Honório Gurgel, Cidade de Deus, Rio das Pedras, Gardênia Azul, Anchieta, Deodoro, Curicica, Ricardo de Albuquerque, Magalhães Bastos, Realengo, Camorim, Padre Miguel, Senador Camará, Vargem Pequena e Vargem Grande, Santíssimo, Curupira, Senador Vasconcelos, Campo Grande, Mendanha, Cosmos, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Caxias, Nilópolis, não nessa ordem, indo cada vez mais longe. Dei a volta ao mundo, me perdi inúmeras vezes, nem a Morte conhece todas as ruas e praças e estradas do Grande Rio. Balões estavam sendo feitos em toda parte, nos municípios adjacentes, na zona rural, nos subúrbios, nos morros, nos bairros. Até na Zona Sul havia gente fazendo balão. Baloeiros surfistas. Mas O Fodão era grande demais para ser solto numa rua ou numa praça, precisava de um terreiro grande, de uma várzea larga, e isso era a nosso favor. O dia vinte e três se aproximava. Fabiana não respondia aos recados que eu deixava na sua secretária eletrônica. Na reunião semanal do Grupo ela ficava calada. Também Marina falava pouco. Depois de me apunhalarem pelas costas as duas tinham mesmo que se sentir constrangidas. Eu não sabia se tinham ou não mandado o ofício pedindo a minha substituição, nem, caso afirmativo, que decisão fora tomada na Secretaria. Ia saber pelo Boletim, que é a maneira ruim de saber notícia ruim. No dia vinte e um, dois dias antes da data do provável lançamento do Fodão, tive uma reunião com os detetives e discutimos o assunto. Um deles, o detetive Arsênio, estava convicto de que o balão ia ser solto em Caxias. Eles contrataram o Gringo, o cara do Cabo Canaveral, disse Arsênio, o Gringo desfilou no Carnaval na Escola de Samba Grande Rio, que é de Caxias. Esses gringos gostam de coisas exóticas, deve ter se enrabichado por uma mulata e está na coisa por amor. E o Zé de Souza? Ele anda brigado com a turma de Caxias. Mas esse balão faz o sujeito esquecer qualquer divergência. Se chamarem ele vai? Vai, disse o Cão. E o Caveirinha? Dizem que o Caveira anda bebendo muito e que é carta fora do baralho. Não interessa perder tempo com ele, disse um dos detetives. E o bucheiro? O Silva Mattoso? Sumiu. Mas ele é amigo do pessoal de São João de Meriti, disse o detetive Edgar. Só pode ser Caxias, insistiu Arsênio. Eles têm dinheiro. O bicheiro patrono da Escola de Samba está financiando tudo. E Meriti é um ovo, cidade-dormitório. É um ovo mas está cheio de baloeiros em Éden, Coelho da Rocha, São Mateus, Vilar dos Teles, Vila Rosali, disse o Cão. Se Caxias chamar, o Zé de Souza vai mesmo? Se chamarem e o balão estiver sendo feito em Caxias, ele vai. Mas não sei se chamaram, disse o Cão. Nem sabemos se eles estão fazendo o Fodão. Tem muita comunidade fazendo balão grande. Como acontece todo ano, disse Edgar. Não podemos esquecer o gringo de Cabo Canaveral, disse Arsênio, que estava infiltrado em Caxias. Bebi umas e outras com ele e uma turma de baloeiros e o Gringo só falava em, em, deixa eu pegar este papel onde escrevi tudo: forças gravitacionais, força de atrito, arrasto aerodinâmico, equações de movimento, órbitas keplerianas. Caralho, disse alguém. Só pode ser assunto do Fodão, continuou Arsênio. E eles vão soltar o bicho às nove horas. Vamos votar. Éramos oito votando. Eu, além do meu, teria o voto de Minerva. Mas não foi preciso desempatar. Caxias ganhou por sete a um. O Cão votou em São João de Meriti, mas sem muita convicção. Se não for Caxias dá tempo de deslocarmos nosso pessoal para São João de Meriti?, perguntei. Há a estrada Caxias—Meriti. Mas cinqüenta homens se deslocam devagar. Muito comando passando de um nível para o outro, disse o Cão. Chefe, disse Edgar, isso tudo pode ser uma fria, o Fodão não existe e nós vamos fazer um papel ridículo. Telefonei para Fabiana. Amanhã vamos pegar o balão fantasma. Eu gostaria que você viesse com a gente. Não quero ir. Eu te peço. Depois não te chateio nunca mais. Alguém do Grupo, além de mim, deve ir. E eu não quero levar a Marina. Ela não gosta de mim. Ela gosta sim. Ela até sonhou com você outro dia. Mas eu preferia que você fosse. Lembra do que você disse? O significado suasório dessa apreensão? Haverá violência? Nenhuma. Prometo. Passo na sua casa de tardinha. Depois fui ao Comando da PM e acertei tudo. Os homens da tropa de choque ficariam de prontidão. Do rádio do meu carro eu daria as coordenadas. Passei na casa de Fabiana às seis horas. Depois peguei o Cão na av. Presidente Vargas esquina de Senhor dos Passos. Tudo OK?, perguntei pelo rádio ao comandante da tropa de choque. Os homens já estão nas viaturas aguardando as ordens. O Arsênio está aí com vocês? Ele sabe o local. Arsênio estava com eles. O Cão, que estava comigo, também sabia onde era. Encontrei com os carros da tropa de choque na av. Brasil, em frente à refinaria de Manguinhos. Pegamos a estrada e paramos na entrada de Caxias. A tropa de choque usava escudos, coletes, cassetetes, metralhadoras, uniforme e capacetes escuros. É preciso isso tudo?, perguntou Fabiana. É só para assustar, eu disse. Chegamos com a tropa de choque ao local do lançamento. Uma grande e compacta aglomeração de pessoas fazia um enorme círculo em torno do balão, já inflado, ainda preso nas amarras. Os soldados saltaram das viaturas e irromperam por entre a multidão, abrindo o caminho a golpes de cassetete, até cercar o balão. Era um balão grande, mas eu e o Cão já havíamos visto dezenas iguais. Puta que pariu, esse aí não pode ser o Fodão, disse o detetive. O Fodão vai ser lançado em Meriti, eu disse. Você conhece a estrada para Meriti? Vamos para lá. Só nós? Não dá tempo de reagrupar a tropa de choque. Olha o melê, o pau está comendo, a cagada é total, disse o Cão. Estávamos tão nervosos que esquecemos a presença de Fabiana e gritávamos palavrões um para o outro. Vamos, porra, estou mandando. Então o senhor me dá o volante, disse o Cão. Seguimos em alta velocidade pela estrada Caxias—Meriti. Pelo rádio do carro tentei fazer contato com o comandante da tropa de choque, mas não consegui. Já estamos em Meriti, esta é a estrada do Munguengo. Eles devem estar lançando o Fodão numa várzea nas margens do Sarapuí, disse o Cão. E estavam mesmo. O Fodão subia para o céu, a coisa mais espantosa que já vi voando em toda a minha vida. O maior balão de ar quente de todos os tempos. O lançamento era saudado com exclamações de júbilo, e os gritos finos das mulheres e crianças cobriam as vozes dos homens. Saltamos do carro. Meu Deus, disse Fabiana. Eu e o Cão ficamos calados. Dizer o quê? Só olhamos, e olhamos, e olhamos o Fodão subir lentamente aos céus, enquanto da cangalha explodiam os morteiros e os fogos de artifício expeliam fulgores criando um clarão que iluminava até onde a vista podia alcançar. Fabiana voltou para o carro e sentou-se no banco de trás, em silêncio. Eu e o Cão continuamos olhando o balão até ele ficar do tamanho de uma estrela no céu. Não consegui, mais uma vez, fazer contato pelo rádio do carro com a tropa de choque que estava em Caxias se ferrando e ferrando os outros. Senti fome. Perguntei se alguém mais queria comer alguma coisa. Somente o Cão respondeu. Paramos numa lanchonete. Fabiana tomou uma água mineral. Todas as minhas tentativas de fazê-la dizer alguma coisa foram inúteis. O Cão falava do balão. Dava palpites sobre a altura, o diâmetro, quantas dezenas de milhares de metros cúbicos de ar quente haveria dentro dele, que ele ia cair em Minas Gerais, ou no Espírito Santo, ou São Paulo, e que não era um gringo de merda comedor de mulatas inocentes, farsante do Cabo Canaveral, que tinha calculado a trajetória dele. Voltamos pela Linha Vermelha. O que é aquilo? O que é aquilo?, gritou o Cão. A Linha Vermelha tem uma topografia plana e um largo horizonte e trafegando-se por ela dava para ver toda a abóbada celeste. Ou quase toda. O que é aquilo? O que é aquilo?, disse o Cão, excitado. O balão, disse Fabiana. A segunda vez que ela abria a boca naquela noite. Era mesmo. Como é possível? Impossível, gritou o detetive. É ele, o Fodão. Alguma coisa aconteceu com a bucha, eu disse. Podíamos ver o balão voando lentamente. Fomos atrás. O carro andava a vinte por hora. Um patrulheiro de motocicleta parou ao lado. Qual é o problema?, perguntou. Mostrei a ele minha carteira, estou seguindo aquele balão. Ele está indo para a Penha, disse o patrulheiro, e arrancou com a motocicleta. Seguimos o balão. A toda hora parávamos o carro. Ele vai cair no aeroporto, dizia o Cão, não, ele está mudando de lado, está indo para Ramos, não, está indo para São Cristóvão. Demoramos um tempo enorme sem saber para onde ir. Até que decidimos que ele estava indo para o centro da cidade. Tomamos a saída da Cidade Nova e paramos no canal do Mangue para observar o bicho. O balão tinha perdido muita altura, sua energia acabara, ele caía muito depressa. Deslocava-se para a Zona Sul, ia cair dentro de alguns minutos e para chegar antes varamos a Rio Branco furando todos os sinais, pegamos o aterro a duzentos por hora, atravessamos o túnel de Copacabana, saímos na Atlântica, sempre a mais de cento e cinqüenta, de madrugada é fácil. Quando chegamos na Vieira Souto vimos que o balão estava caindo no mar, em frente às ilhas Cagarras, a uns dois mil metros da praia. O Caveirinha já estava lá, na praia do Leblon, numa pick-up japonesa novinha em folha. A turma dele sabia calcular os ventos. Ele e o pessoal da captura e mais o Zé de Souza e mais um sujeito de barba branca que devia ser o bucheiro Silva Mattoso contemplavam em silêncio a queda do balão no mar. O sol raiava à esquerda, na altura do Arpoador, e fazia brilhar o papel laminado que revestia o balão. Havia mais dois carros, distantes um do outro, de baloeiros rivais, e os homens dentro dos carros estavam imóveis contemplando o espetáculo em silêncio. Um massacre teria ocorrido se o maior balão do mundo caísse em terra. Nosso carro parou atrás da pick-up do Caveirinha. Alguns dos homens da captura, o volume das armas de fogo aparecendo sob as camisas, entraram na praia e sentaram-se na areia, olhando. Um deles deitou desanimado a cabeça sobre os joelhos. Aquele balão não fora feito para voar apenas cinqüenta quilômetros e cair no lugar errado. O balão parecia maior do que o morro de pedra da ilhota Cagarra, que fica à esquerda do conjunto de ilhas. Caiu lentamente e tocou no mar, primeiro a armação de flâmulas, depois a fieira de lanternas já apagadas, depois a cangalha de fogos, até que a imensa boca de ferro pousou no oceano e o balão ficou imóvel, uma caravela fantástica na calmaria. Manteve-se enfunado muito tempo, antes de sumir nas águas. Fabiana assistiu a tudo, o rosto muito pálido. Zé, gritou o Cão. Zé de Souza se aproximou do nosso carro, o binóculo dependurado no peito. Você por aqui, Cão? Zé, o barbicha é o Silva Mattoso? O velho vai morrer de tristeza, a bucha pifou. Nós também queríamos o balão, Zé. Ele não foi criado para ser preso, nem para morrer no mar como se fosse marinheiro. Era melhor que tivesse estourado e caído na terra como uma bola de fogo, incendiando o mundo. Dá vontade de chorar, disse o Zé de Souza. Fodam-se as florestas, disse o Cão. Fodam-se as florestas, repetiu o rastreador. Vamos embora, Diogo Cão, eu disse. Doutor, se o senhor não se importa, eu vou ficar por aqui. Está bem, eu disse, e o detetive foi com o rastreador para junto dos baloeiros. Quando dei partida no carro o Cão estava abraçando o velho Silva Mattoso. Quer que eu te leve para casa? Sim, por favor. Estou cansada. Fabiana morava na rua das Laranjeiras. Quando entramos no túnel Rebouças ela me disse, eu te amo. Não falamos do balão. Nem no túnel, nem na cama, nem depois tomando café-com-leite, nem naquele dia todo, nem nunca mais.