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Archive for outubro \25\UTC 2008

Quem conta um conto… (Machado de Assis)

I

Eu compreendo que um homem goste de ver brigar galos ou de tomar rapé. O rapé dizem os tomistas que alivia o cérebro. A briga de galos é o Jockey Club dos pobres. O que eu não compreendo é o gosto de dar notícias.

E todavia quantas pessoas não conhecerá o leitor com essa singular vocação? O noveleiro não é tipo muito vulgar, mas também não é muito raro. Há família numerosa deles. Alguns são mais peritos e originais que outros. Não é noveleiro quem quer. É ofício que exige certas qualidades de bom cunho, quero dizer as mesmas que se exigem do homem de Estado. O noveleiro deve saber quando lhe convém dar uma notícia abruptamente, ou quando o efeito lhe pede certos preparativos: deve esperar a ocasião e adaptar-lhe os meios.

Não compreendo, como disse, o ofício de noveleiro. É coisa muito natural que um homem diga o que sabe a respeito de algum objeto; mas que tire satisfação disso, lá me custa a entender. Mais de uma vez tenho querido fazer indagações a este respeito; mas a certeza de que nenhum noveleiro confessa que o é tem impedido a realização deste meu desejo. Não é só desejo, é também necessidade; ganha-se sempre em conhecer os caprichos do espírito humano.

O caso de que vou falar aos leitores tem por origem um noveleiro. Lê-se depressa, porque não é grande.

II

Há coisa de sete anos vivia nesta boa cidade um homem de seus trinta anos, bem apessoado e bem falante, amigo de conversar, extremamente polido, mas extremamente amigo de espalhar novas.

Era um modelo do gênero.

Sabia como ninguém escolher o auditório, a ocasião e a maneira de dar a notícia. Não sacava a notícia da algibeira como quem tira uma moeda de vintém para dar a um mendigo.

Não, senhor.

Atendia mais que tudo às circunstâncias. Por exemplo: ouvira dizer, ou sabia positivamente que o ministério pedira a demissão ou ia pedi-la. Qualquer noveleiro diria simplesmente a coisa sem rodeios. Luís da Costa, ou dizia a coisa simplesmente, ou adicionava-lhe certo molho para torná-la mais picante.

Às vezes entrava, cumprimentava as pessoas presentes, e se entre elas alguma havia metida em política, aproveitava o silêncio causado pela sua entrada, para fazer-lhe uma pergunta deste gênero:

— Então, parece que os homens…

Os circunstantes perguntavam logo:

— Que é? que há?

Luís da Costa, sem perder o seu ar sério, dizia singelamente:

— É o ministério que pediu demissão.

— Ah! sim? quando?

— Hoje.

— Sabe quem foi chamado?

— Foi chamado o Zózimo.

— Mas por que caiu o ministério?

— Ora, estava podre.

Etc., etc.

Ou então:

— Morreram como viveram.

— Quem? quem? quem?

Luís da Costa puxava os punhos e dizia negligentemente:

— Os ministros.

Suponhamos agora que se tratava de uma pessoa qualificada que devia vir no paquete: Adolfo Thiers ou o príncipe de Bismarck.

Luís da Costa entrava, cumprimentava silenciosamente a todos, e em vez de dizer com simplicidade:

— Veio no paquete de hoje o príncipe de Bismarck.

Ou então:

— O Thiers chegou no paquete.

Voltava-se para um dos circunstantes:

— Chegaria o paquete?

— Chegou, dizia o circunstante.

— O Thiers veio?

Aqui entrava a admiração dos ouvintes, com que se deliciava Luís da Costa, razão principalmente do seu ofício.

III
Não se pode negar que este prazer era inocente e quando muito singular.

Infelizmente não há bonito sem senão, nem prazer sem amargura. Que mel não deixa um travo de veneno? perguntava o poeta da Jovem Cativa, e eu creio que nenhum, nem sequer o de alvissareiro.

Luís da Costa experimentou um dia as asperezas do seu ofício.

Eram duas horas da tarde. Havia pouca gente na loja do Paula Brito, cinco pessoas apenas. Luís da Costa entrou com o rosto fechado como homem que vem pejado de alguma notícia.

Apertou a mão a quatro das pessoas presentes; a quinta apenas recebeu um cumprimento, porque não se conheciam. Houve um rápido instante de silêncio, que Luís da Costa aproveitou para tirar o lenço da algibeira e enxugar o rosto. Depois olhou para todos, e soltou secamente estas palavras:

— Então fugiu a sobrinha do Gouveia? disse ele rindo.

— Que Gouveia? disse um dos presentes.

— O major Gouveia, explicou Luís da Costa.

Os circunstantes ficaram muito calados e olharam de esguelha para o quinto personagem, que por sua parte olhava para Luís da Costa.

— O major Gouveia da Cidade Nova? perguntou o desconhecido ao noveleiro.

— Sim, senhor.

Novo e mais profundo silêncio.

Luís da Costa, imaginando que o silêncio era efeito da bomba que acabava de queimar, entrou a referir os pormenores da fuga da moça em questão. Falou de um namoro com um alferes, da oposição do major ao casamento, do desespero dos pobres namorados, cujo coração, mais eloqüente que a honra, adotara o alvitre de saltar por cima dos moinhos.

O silêncio era sepulcral.

O desconhecido ouvia atentamente a narrativa de Luís da Costa, meneando com muita placidez uma grossa bengala que tinha na mão.

Quando o alvissareiro acabou, perguntou-lhe o desconhecido:

— E quando foi esse rapto?

— Hoje de manhã.

— Oh!

— Das 8 para as 9 horas.

— Conhece o major Gouveia?

— De nome.

— Que idéia forma dele?

— Não formo idéia nenhuma. Menciono o fato por duas circunstâncias. A primeira é que a rapariga é muito bonita…

— Conhece-a?

— Ainda ontem a vi.

— Ah! A segunda circunstância…

— A segunda circunstância é a crueldade de certos homens em tolher os movimentos do coração da mocidade. O alferes de que se trata dizem-me que é um moço honesto, e o casamento seria, creio eu, excelente. Por que razão queria o major impedi-lo?

— O major tinha razões fortes, observou o desconhecido.

— Ah! conhece-o?

— Sou eu.

Luís da Costa ficou petrificado. A cara não se distinguia da de um defunto, tão imóvel e pálida ficou. As outras pessoas olhavam para os dois sem saber o que ira sair dali. Deste modo correram cinco minutos.

IV
No fim de cinco minutos, o major Gouveia continuou:

— Ouvi toda a sua narração e diverti-me com ela. Minha sobrinha não podia fugir hoje de minha casa, visto que há quinze dias se acha em Juiz de Fora.

Luís da Costa ficou amarelo.

— Por essa razão ouvi tranqüilamente a história que o senhor acaba de contar com todas as suas peripécias. O fato, se fosse verdadeiro, devia causar naturalmente espanto, porque, além do mais, Lúcia é muito bonita, e o senhor o sabe porque a viu ontem…

Luís da Costa tornou-se verde.

— A notícia, entretanto, pode ter-se espalhado, continuou o major Gouveia, e eu desejo liquidar o negócio pedindo-lhe que me diga de quem a ouviu…

Luís da Costa ostentou todas as cores do íris.

— Então? disse o major passados alguns instantes de silêncio.

— Sr. major, disse com voz trêmula Luís da Costa, eu não podia inventar semelhante notícia. Nenhum interesse tenho nela. Evidentemente alguém ma contou.

— É justamente o que eu desejo saber.

— Não me lembro…

— Veja se se lembra, disse o major com doçura.

Luís da Costa consultou sua memória; mas tantas coisas ouvia e tantas repetia, que já não podia atinar com a pessoa que lhe contara a história do rapto.

As outras pessoas presentes, vendo o caminho desagradável que as coisas podiam ter, trataram de meter o caso à bulha; mas o major, que não era homem de graças, insistiu com o alvissareiro para que o esclarecesse a respeito do inventor da balela.

— Ah! agora me lembra, disse de repente Luís da Costa, foi o Pires.

— Que Pires?

— Um Pires que eu conheço muito superficialmente.

— Bem, vamos ter com o Pires.

— Mas, Sr. major…

O major já estava de pé, apoiado na grossa bengala, e com ar de quem estava pouco disposto a discussões. Esperou que Luís da Costa se levantasse também. O alvissareiro não teve remédio senão imitar o gesto do major, não sem tentar ainda um:

— Mas, Sr. major…

— Não há mas, nem meio mas. Venha comigo; porque é necessário deslindar o negócio hoje mesmo. Sabe onde mora esse tal Pires?

— Mora na Praia Grande, mas tem escritório na Rua dos Pescadores.

— Vamos ao escritório.

Luís da Costa cortejou os outros e saiu ao lado do major Gouveia, a quem deu respeitosamente a calçada e ofereceu um charuto. O major recusou o charuto, dobrou o passo e os dois seguiram na direção da Rua dos Pescadores.

V
— O Sr. Pires?

— Foi à secretaria da Justiça.

— Demora-se?

— Não sei.

Luís da Costa olhou para o major ao ouvir estas palavras do criado do Sr. Pires. O major disse fleugmaticamente:

— Vamos à secretaria da Justiça.

E ambos foram a trote largo na direção da Rua do Passeio. Iam-se aproximando as três horas, e Luís da Costa, que jantava cedo, começava a ouvir do estômago uma lastimosa petição. Era-lhe, porém, impossível fugir às garras do major. Se o Pires tivesse embarcado para Santos, é provável que o major o levasse até lá antes de jantar.

Tudo estava perdido.

Chegaram enfim à secretaria, bufando como dois touros.

Os empregados vinham saindo, e um deles deu notícia certa do esquivo Pires; disse-lhes que saíra dali, dez minutos antes, num tílburi.

— Voltemos à Rua dos Pescadores, disse pacificamente o major.

— Mas, senhor…

A única resposta do major foi dar-lhe o braço e arrastá-lo na direção da Rua dos Pescadores.

Luís da Costa ia furioso. Começava a compreender a plausibilidade e até a legitimidade de um crime. O desejo de estrangular o major pareceu-lhe um sentimento natural. Lembrou-se de ter condenado, oito dias antes, como jurado, um criminoso de morte, e teve horror de si mesmo.

O major, porém, continuava a andar com aquele passo rápido dos majores que andam depressa. Luís da Costa ia rebocado. Era-lhe literalmente impossível apostar carreira com ele.

Eram três e cinco minutos quando chegaram defronte do escritório do Sr. Pires. Tiveram o gosto de dar com o nariz na porta.

O major Gouveia mostrou-se aborrecido com o fato; como era homem resoluto, depressa se consolou do incidente.

— Não há dúvida, disse ele, iremos à Praia Grande.

— Isso é impossível! clamou Luís da Costa.

— Não é tal, respondeu tranqüilamente o major, temos barca e custa-nos um cruzado a cada um: eu pago a sua passagem.

— Mas, senhor, a esta hora…

— Que tem?

— São horas de jantar, suspirou o estômago de Luís da Costa.

— Pois jantaremos antes.

Foram dali a um hotel e jantaram. A companhia do major era extremamente aborrecida para o desastrado alvissareiro. Era impossível livrar-se dela; Luís da Costa portou-se o melhor que pôde. Demais, a sopa e o primeiro prato foi o começo da reconciliação. Quando veio o café e um bom charuto, Luís da Costa estava resolvido a satisfazer o seu anfitrião em tudo o que lhe aprouvesse.

O major pagou a conta e saíram ambos do hotel. Foram direitos à estação das barcas de Niterói; meteram-se na primeira que saiu e transportaram-se à imperial cidade.

No trajeto, o major Gouveia conservou-se tão taciturno como até então. Luís da Costa, que já estava mais alegre, cinco ou seis vezes tentou atar conversa com o major; mas foram esforços inúteis. Ardia entretanto por levá-lo até a casa do Sr. Pires, que explicaria as coisas como as soubesse.

VI
O Sr. Pires morava na Rua da Praia. Foram direitinhos à casa dele. Mas se os viajantes haviam jantado, também o Sr. Pires fizera o mesmo; e como tinha por costume ir jogar o voltarete em casa do Dr. Oliveira, em S. Domingos, para lá seguira vinte minutos antes.

O major ouviu esta notícia com a resignação filosófica de que estava dando provas desde as duas horas da tarde. Inclinou o chapéu mais à banda e olhando de esguelha para Luís da Costa, disse:

— Vamos a S. Domingos.

— Vamos a S. Domingos, suspirou Luís da Costa.

A viagem foi de carro, o que de algum modo consolou o noveleiro.

Na casa do Dr. Oliveira passaram pelo dissabor de bater cinco vezes, antes que viessem abrir.

Enfim vieram.

— Está cá o Sr. Pires?

— Está, sim, senhor, disse o moleque.

Os dois respiraram.

O moleque abriu-lhes a porta da sala, onde não tardou que aparecesse o famoso Pires, l’introuvable.

Era um sujeitinho baixinho e alegrinho. Entrou na ponta dos pés, apertou a mão a Luís da Costa e cumprimentou cerimoniosamente ao major Gouveia.

— Queiram sentar-se.

— Perdão, disse o major, não é preciso que nos sentemos; desejamos pouca coisa.

O Sr. Pires curvou a cabeça e esperou.

O major voltou-se então para Luís da Costa e disse:

— Fale.

Luís da Costa fez das tripas coração e exprimiu-se nestes termos:

— Estando eu hoje na loja do Paula Brito contei a história do rapto de uma sobrinha do Sr. major Gouveia, que o senhor me referiu pouco antes do meio-dia. O major Gouveia é este cavalheiro que me acompanha, e declarou que o fato era uma calúnia, visto sua sobrinha estar em Juiz de Fora, há quinze dias. Intenta contudo chegar à fonte da notícia e perguntou-me quem me havia contado a história; não hesitei em dizer que fora o senhor. Resolveu então procurá-lo, e não temos feito outra coisa desde as duas horas e meia. Enfim, encontramo-lo.

Durante este discurso, o rosto do Sr. Pires apresentou todas as modificações do espanto e do medo. Um ator, um pintor, ou um estatuário teria ali um livro inteiro para folhear e estudar. Acabado o discurso, era necessário responder-lhe, e o Sr. Pires o faria de boa vontade, se se lembrasse do uso da língua. Mas não; ou não se lembrava, ou não sabia que uso faria dela. Assim correram uns três a quatro minutos.

— Espero as suas ordens, disse o major, vendo que o homem não falava.

— Mas, que quer o senhor? balbuciou o Sr. Pires.

— Quero que me diga de quem ouviu a notícia transmitida a este senhor. Foi o senhor quem lhe disse que minha sobrinha era bonita?

— Não lhe disse tal, acudiu o Sr. Pires; o que eu disse foi que me constava ser bonita.

— Vê? disse o major voltando-se para Luís da Costa.

Luís da Costa começou a contar as tábuas do teto.

O major dirigiu-se depois ao Sr. Pires:

— Mas vamos lá, disse; de quem ouviu a notícia?

— Foi de um empregado do Tesouro.

— Onde mora?

— Em Catumbi.

O major voltou-se para Luís da Costa, cujos olhos, tendo já contado as tábuas do teto, que eram vinte e duas, começavam a examinar detidamente os botões do punho da camisa.

— Pode retirar-se, disse o major; não é mais preciso aqui.

Luís da Costa não esperou mais; apertou a mão do Sr. Pires, balbuciou um pedido de desculpa, e saiu. Já estava a trinta passos, e ainda lhe parecia estar colado ao terrível major. Ia justamente a sair uma barca; Luís da Costa deitou a correr, e ainda a alcançou, perdendo apenas o chapéu, cujo herdeiro foi um cocheiro necessitado.

Estava livre.

VII

Ficaram sós o major e o Sr. Pires.

— Agora, disse o primeiro, há de ter a bondade de me acompanhar à casa desse empregado do Tesouro… Como se chama?

— O bacharel Plácido.

— Estou às suas ordens; tem passagem e carro pago.

O Sr. Pires fez um gesto de aborrecimento, e murmurou:

— Mas eu não sei… se…

— Se?

— Não sei se me é possível nesta ocasião…

— Há de ser. Penso que é um homem honrado. Não tem idade para ter filhas moças, mas pode vir a tê-las, e saberá se é agradável que tais invenções andem na rua.

— Confesso que as circunstâncias são melindrosas; mas não poderíamos…

— O quê?

— Adiar?

— Impossível.

O Sr. Pires mordeu o lábio inferior; meditou alguns instantes, e afinal declarou que estava disposto a acompanhá-lo.

— Acredite, Sr. major, disse ele concluindo, que só as circunstâncias especiais deste caso me obrigariam a ir à cidade.

O major inclinou-se.

O Sr. Pires foi despedir-se do dono da casa, e voltou para acompanhar o implacável major, em cujo rosto se lia a mais franca resolução.

A viagem foi tão silenciosa como a primeira. O major parecia uma estátua; não falava e raras vezes olhava para o seu companheiro.

A razão foi compreendida pelo Sr. Pires, que matou as saudades do voltarete, fumando sete cigarros por hora.

Enfim chegaram a Catumbi.

Desta vez foi o major Gouveia mais feliz que da outra: achou o bacharel Plácido em casa.

O bacharel Plácido era o seu próprio nome feito homem. Nunca a pachorra tivera mais fervoroso culto. Era gordo, corado, lento e frio. Recebeu os dois visitantes com a benevolência de um Plácido verdadeiramente plácido.

O Sr. Pires explicou o objeto da visita.

— É verdade que eu lhe falei de um rapto, disse o bacharel, mas não foi nos termos em que o senhor o repetiu. O que eu disse foi que o namoro da sobrinha do major Gouveia com um alferes era tal que até já se sabia do projeto de rapto.

— E quem lhe disse isso, Sr. bacharel? perguntou o major.

— Foi o capitão de artilharia Soares.

— Onde mora?

— Ali em Mata-porcos.

— Bem, disse o major.

E voltando-se para o Sr. Pires:

— Agradeço-lhe o incômodo, disse; não lhe agradeço, porém, o acréscimo. Pode ir embora; o carro tem ordem de o acompanhar até à estação das barcas.

O Sr. Pires não esperou novo discurso; despediu-se e saiu. Apenas entrou no carro deu dois ou três socos em si mesmo e fez um solilóquio extremamente desfavorável à sua pessoa.

— É bem feito, dizia o Sr. Pires; quem me manda ser abelhudo? Se só me ocupasse com o que me diz respeito, estaria a esta hora muito descansado e não passaria por semelhante dissabor. É bem feito!

VIII

O bacharel Plácido encarou o major, sem compreender a razão por que ficara ali, quando o outro fora embora. Não tardou que o major o esclarecesse. Logo que o Sr. Pires saiu da sala, disse ele:

— Queira agora acompanhar-me à casa do capitão Soares.

— Acompanhá-lo! exclamou o bacharel mais surpreendido do que se lhe caísse o nariz no lenço de tabaco.

— Sim, senhor.

— Que pretende fazer?

— Oh! nada que o deva assustar. Compreende que se trata de uma sobrinha, e que um tio tem necessidade de chegar à origem de semelhante boato. Não crimino os que o repetiram, mas quero haver-me com o que o inventou.

O bacharel recalcitrou: a sua pachorra dava mil razões para demonstrar que sair de casa às ave-marias para ir a Mata-porcos era um absurdo. A nada atendia o major Gouveia, e com o tom intimador que lhe era peculiar, antes intimava do que persuadia o gordo bacharel.

— Mas há de confessar que é longe, observou este.

— Não seja essa a dúvida, acudiu o outro; mande chamar um carro que eu pago.

O bacharel Plácido coçou a orelha, deu três passos na sala, suspendeu a barriga e sentou-se.

— Então? disse o major ao cabo de algum tempo de silêncio.

— Refleti, disse o bacharel; é melhor irmos a pé; eu jantei há pouco e preciso digerir. Vamos a pé…

— Bem, estou às suas ordens.

O bacharel arrastou a sua pessoa até a alcova, enquanto o major, com as mãos nas costas, passeava na sala meditando e fazendo, a espaços, um gesto de impaciência.

Gastou o bacharel cerca de vinte e cinco minutos em preparar a sua pessoa, e saiu enfim à sala, quando o major ia já tocar a campainha para chamar alguém.

— Pronto?

— Pronto.

— Vamos!

— Deus vá conosco.

Saíram os dois na direção de Mata-porcos.

Se uma pipa andasse seria o bacharel Plácido; já porque a gordura não lho consentia, já porque desejara pregar uma peça ao importuno, o bacharel não ia sequer com passo de gente. Não andava… arrastava-se. De quando em quando parava, respirava e bufava; depois seguia vagarosamente o caminho.

Com este era impossível o major empregar o sistema de reboque que tão bom efeito teve com Luís da Costa. Ainda que o quisesse obrigar a andar era impossível, porque ninguém arrasta oito arrobas com a simples força do braço.

Tudo isto punha o major em apuros. Se visse passar um carro, tudo estava acabado, porque o bacharel não resistiria ao seu convite intimativo; mas os carros tinham-se apostado para não passar ali, ao menos vazios, e só de longe em longe um tílburi vago convidava, a passo lento, os fregueses.

O resultado de tudo isto foi que, só às oito horas, chegaram os dois à casa do capitão Soares. O bacharel respirou à larga, enquanto o major batia palmas na escada.

— Quem é? perguntou uma voz açucarada.

— O Sr. capitão? disse o major Gouveia.

— Eu não sei se já saiu, respondeu a voz; vou ver.

Foi ver, enquanto o major limpava a testa e se preparava para tudo o que pudesse sair de semelhante embrulhada. A voz não voltou senão dali a oito minutos, para perguntar com toda a singeleza:

— O senhor quem é?

— Diga que é o bacharel Plácido, acudiu o indivíduo deste nome, que ansiava por arrumar a católica pessoa em cima de algum sofá.

A voz foi dar a resposta e daí a dois minutos voltou a dizer que o bacharel Plácido podia subir.

Subiram os dois.

O capitão estava na sala e veio receber à porta o bacharel e o major. A este conhecia também, mas eram apenas cumprimentos de chapéu.

— Queiram sentar-se.

Sentaram-se.

IX

— Que mandam nesta sua casa? perguntou o capitão Soares.

O bacharel usou da palavra:

— Capitão, eu tive a infelicidade de repetir aquilo que você me contou a respeito da sobrinha do Sr. major Gouveia.

— Não me lembra; que foi? disse o capitão com uma cara tão alegre como a de homem a quem estivessem torcendo um pé.

— Disse-me você, continuou o bacharel Plácido, que o namoro da sobrinha do Sr. major Gouveia era tão sabido que até já se falava de um projeto de rapto…

— Perdão! interrompeu o capitão. Agora me lembro que alguma coisa lhe disse, mas não foi tanto como você acaba de repetir.

— Não foi?

— Não.

— Então que foi?

— O que eu disse foi que havia notícia vaga de um namoro da sobrinha de V. S. com um alferes. Nada mais disse. Houve equívoco da parte do meu amigo Plácido.

— Sim, há alguma diferença, concordou o bacharel.

— Há, disse o major deitando-lhe os olhos por cima do ombro.

Seguiu-se um silêncio.

Foi o major Gouveia o primeiro que falou.

— Enfim, senhores, disse ele, ando desde as duas horas da tarde na indagação da fonte da notícia que me deram a respeito de minha sobrinha. A notícia tem diminuído muito, mas ainda há aí um namoro de alferes que incomoda. Quer o Sr. capitão dizer-me a quem ouviu isso?

— Pois não, disse o capitão; ouvi-o ao desembargador Lucas.

— É meu amigo!

— Tanto melhor.

— Acho impossível que ele dissesse isso, disse o major levantando-se.

— Senhor! exclamou o capitão.

— Perdoe-me, capitão, disse o major caindo em si. Há de concordar que ouvir a gente o seu nome assim maltratado por culpa de um amigo…

— Nem ele disse por mal, observou o capitão Soares. Parecia até lamentar o fato, visto que sua sobrinha está para casar com outra pessoa…

— É verdade, concordou o major. O desembargador não era capaz de injuriar-me; naturalmente ouviu isso a alguém.

— É provável.

— Tenho interesse em saber a fonte de semelhante boato. Acompanhe-me à casa dele.

— Agora!

— É indispensável.

— Mas sabe que ele mora no Rio Comprido?

— Sei; iremos de carro.

O bacharel Plácido aprovou esta resolução e despediu-se dos dois militares.

— Não podíamos adiar isso para depois? perguntou o capitão logo que o bacharel saiu.

— Não, senhor.

O capitão estava em sua casa; mas o major tinha tal império na voz ou no gesto quando exprimia a sua vontade, que era impossível resistir-lhe. O capitão não teve remédio senão ceder.

Preparou-se, meteram-se num carro e foram na direção do Rio Comprido, onde morava o desembargador.

O desembargador era um homem alto e magro, dotado de excelente coração, mas implacável contra quem quer que lhe interrompesse uma partida de gamão.

Ora, justamente na ocasião em que os dois lhe bateram à porta, jogava ele o gamão com o coadjutor da freguesia, cujo dado era tão feliz que em menos de uma hora lhe dera já cinco gangas. O desembargador fumava… figuradamente falando, e o coadjutor sorria, quando o moleque foi dar parte de que duas pessoas estavam na sala e queriam falar com o desembargador.

O digno sacerdote da justiça teve ímpetos de atirar o copo à cara do moleque; conteve-se, ou antes traduziu o seu furor num discurso furibundo contra os importunos e maçantes.

— Há de ver que é algum procurador à procura de autos, ou à cata de autos, ou à cata de informações. Que os leve o diabo a todos eles.

— Vamos, tenha paciência, dizia-lhe o coadjutor. Vá, vá ver o que é, que eu o espero. Talvez que esta interrupção corrija a sorte dos dados.

— Tem razão, é possível, concordou o desembargador, levantando-se e dirigindo-se para a sala.

X

Na sala teve a surpresa de achar dois conhecidos.

O capitão levantou-se sorrindo e pediu-lhe desculpa do incômodo que lhe vinha dar. O major levantou-se também, mas não sorria.

Feitos os cumprimentos foi exposta a questão. O capitão Soares apelou para a memória do desembargador a quem dizia ter ouvido a notícia do namoro da sobrinha do major Gouveia.

— Recordo-me ter-lhe dito, respondeu o desembargador, que a sobrinha de meu amigo Gouveia piscara o olho a um alferes, o que lamentei do fundo d’alma, visto estar para casar. Não lhe disse, porém, que havia namoro…

O major não pôde disfarçar um sorriso, vendo que o boato ia a diminuir à proporção que se aproximava da fonte. Estava disposto a não dormir sem dar com ela.

— Muito bem, disse ele; a mim não basta esse dito; desejo saber a quem o ouviu, a fim de chegar ao primeiro culpado de semelhante boato.

— A quem o ouvi?

— Sim.

— Foi ao senhor.

— A mim!

— Sim, senhor; sábado passado.

— Não é possível!

— Não se lembra que me disse na Rua do Ouvidor, quando falávamos das proezas da…

— Ah! mas não foi isso! exclamou o major. O que eu lhe disse foi outra coisa. Disse-lhe que era capaz de castigar minha sobrinha se ela, estando agora para casar, deitasse os olhos a algum alferes que passasse.

— Nada mais? perguntou o capitão.

— Mais nada.

— Realmente é curioso.

O major despediu-se do desembargador, levou o capitão até Mata-porcos e foi direito para casa praguejando contra si e todo o mundo.

Ao entrar em casa estava já mais aplacado. O que o consolou foi a idéia de que o boato podia ser mais prejudicial do que fora. Na cama ainda pensou no acontecimento, mas já se ria da maçada que dera aos noveleiros. Suas últimas palavras antes de dormir foram:

— Quem conta um conto…

Publicado originalmente em Jornal das Famílias, fevereiro, 1873.

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Diário de um Louco (Nikolai Gogol)

3 de outubro.

Aconteceu-me hoje uma aventura insólita. Levantei-me bastante tarde e, quando Mavra me trouxe as botas limpas, perguntei-lhe que horas eram. Ao ouvir que já passava muito das dez, comecei a vestir-me com mais pressa. Confesso que não tinha a menor vontade de ir à repartição, pois já sabia com que cara feia o nosso chefe de seção me receberia. Há muito tempo que ele vive dizendo-me: – “Então, irmão, que tens? Que confusão é essa na tua cabeça? De vez em quando te agitas como quem ficou asfixiado pelo vapor da estufa, e atrapalhas o serviço de tal maneira que nem o próprio Satanás o desembaralharia, pões minúscula no título, não colocas nem data nem número!” Maldito palerma! Decerto está com inveja de mim, porque o meu lugar é no gabinete do diretor, onde aparo as penas de S. Exª. Numa palavra, eu não teria ido à repartição se não fosse a esperança de lá encontrar o caixa e, talvez, extorquir daquele judeu alguma coisa por conta do próximo ordenado. Mas que homem! Para ele fazer um adiantamento sobre o mês que vem – Deus do Céu! – mais depressa virá o juízo final. Pode a gente pedir, estar em extrema necessidade, rebentar, que o diabo do velho não adianta nada. Entretanto em casa – todo o mundo sabe – leva bofetões até da cozinheira. Não vejo, aliás, a utilidade de trabalhar na repartição. Não dá vantagem alguma. Já na administração estadual, nos tribunais e nas recebedorias o caso é outro. Lá, cada funcionário se encolhe no seu cantinho e vai escrevinhando, metido num fraque sujo, com uma cara de se escarrar nela; mas veja-se a casa de campo que ele aluga. Ninguém lhe ofereça de presente uma taça de porcelana, pois dirá logo: – “Isso é presente para um doutor”; mas aceitará uma parelha de cavalos, um carro ou uma peliça de castor de trezentos rublos. De aparência tão delicada, fala baixinho: – “Empreste-me, por favor, o canivetezinho para fazer ponta na peninha” – mas depois limpa o requerente de tal forma que mal lhe deixa a camisa do corpo. É verdade que o serviço da repartição é diferente: há uma limpeza como nunca se vê numa repartição estadual; as mesas são de madeira vermelha e,os chefes nos tratam por “o senhor”. Com efeito, se o serviço não tivesse este caráter honroso, confesso que há muito teria deixado a repartição. Vesti um velho capote e apanhei o guarda-chuva, pois chovia torrencialmente. Nas ruas não se via ninguém. a não ser umas camponesas que cobriam a cabeça com as saias, uns comerciantes russos sob guarda-chuvas, e alguns cocheiros.

De nobres, apenas um funcionário trocava pernas. Avistei-o numa encruzilhada e logo disse com os meus botões: – “Bonito, meu caro: em vez de ir à repartição, ficas a andar atrás da pessoa que vai à tua frente, olhando-lhe as perninhas finas.” Belo patife o nosso irmão funcionário! Palavra de honra, um oficial não lhe leva vantagem: basta passar uma mulher de chapéu, e ele a aborda inevitavelmente. Enquanto meditava assim, vi um carro aproximar-se da loja perto da qual me encontrava. Reconheci-o logo: era a caleça do nosso diretor. – “Mas ele nada tem que fazer nesta loja – pensei. – Realmente: é a filha dele.” Encolhi-me rente à parede. Um lacaio abriu a portinhola, e ela saltou do carro feito um passarinho. Como olhava à direita e à esquerda, como levantava as sobrancelhas e as pálpebras… Deus do Céu! senti-me perdido, sim, inteiramente perdido. Foi então para isso que ela resolveu sair em dia tão chuvoso? Digam-me agora que as mulheres não são loucas por todos aqueles trapos. Ela não me reconheceu, pois eu mesmo fiz tudo para esconder o rosto; estava com um capote bastante surrado e, além disso, de feição antiga. Usam-se hoje capotes de gola comprida, e o meu era de gola curta e sem lustre. A cachorrinha dela, como não teve tempo de acompanhá-la até à loja, ficou na rua. Conheço essa cachorra. Chamam-na Medji. Nem decorreu um minuto, e de repente ouvi uma vozinha fina: – Bom dia, Medji. Vejam só! Quem será mesmo? Olhei em redor, e vi aproximarem-se duas damas sob o mesmo guarda-chuva, uma velhinha, a outra moça. Mal haviam passado, ouvi perto de mim a mesma voz: – Que modos feios, Medji! Que diabo! Vi que Medji e outro cachorro, vindo atrás das senhoras, se andavam farejando um ao outro. – “Estarei completamente bêbado? – perguntei a mim mesmo. – Mas isto me acontece raras vezes.” Então vi a própria Medji pronunciar estas palavras: – Não, Fidel, estás enganado. Au, au! Eu tenho estado – au, au! – muito doente. Que cachorra esquisita! Fiquei bastante surpreendido, devo confessá-lo, ao ouvi-la exprimir-se em linguagem humana. Mas depois, ao refletir direitinho no caso, deixei de estranhá-lo. Com efeito, já se deram no mundo muitos fatos parecidos. Dizem que na Grã-Bretanha um peixe veio a terra e pronunciou duas palavras numa língua tão estranha que os sábios, por muito que a procurem determinar, há três anos, ainda não chegaram a nenhum resultado. Li também nos jornais acerca de duas vacas que entraram numa loja e pediram para si uma libra de chá. Mas surpreendi-me outra vez ao ouvir Medji acrescentar: – Eu te escrevi, Fidel. Provavelmente Polkan não te entregou a minha carta.

Assim receba eu o meu ordenado! Nunca em minha vida tinha ouvido dizer que os cachorros sabiam escrever. Só mesmo um fidalgo pode escrever direito. Sem dúvida, há também uns caixeiros e até uns servos que assinam o nome de vez em quando, mas na maioria dos casos aquilo é puramente mecânico; eles não têm nem pontuação nem estilo. Fiquei bastante admirado desse caso. É verdade que de algum tempo para cá tenho ouvido e visto coisas que nunca ninguém ouviu nem viu. – “Bem – disse comigo mesmo – vamos atrás dessa cachorra para saber o que ela é, e o que pensa.” Abri o guarda-chuva e pus-me a seguir as duas damas. Elas atravessaram a Rua da Ervilha, entraram na dos Burgueses, dali passaram à dos Marinheiros, e finalmente se detiveram diante de um casarão junto à ponte Kokuchkin. – “Conheço esta casa – disse comigo mesmo. – É a casa de Zverkof.” Que coincidência! Quanta gente não mora ali: quantos cozinheiros, quantos hóspedes e quantos irmãos funcionários vivendo uns em cima dos outros como cachorros! Ali mora também um amigo meu que sabe tocar trombeta. As senhoras subiram ao quinto andar. – “Está certo – pensei – desta vez não subo, mas anoto o endereço e não deixarei de utilizá-lo na primeira ocasião.”

4 de outubro.

Hoje é quarta-feira, e por isso estive no gabinete do diretor. De propósito cheguei mais cedo, e, sentado à vontade, fiz ponta em todas as penas. O nosso diretor deve ser um homem inteligentíssimo. Seu gabinete está cheio de armários com livros. Já espiei os títulos de alguns: são todos livros de erudição, de tamanha erudição que estão fora do alcance de um homem como eu, pois são escritos em francês ou em alemão. Mas vejam só a cara dele: Oh! que gravidade se irradia daqueles olhos! Nunca o ouvi dizer uma palavra supérflua, salvo talvez quando lhe entregam os papéis e ele pergunta: – “Que tempo faz lá fora?” – “Úmido, Excelência.” Não, ele não pode ser comparado aos outros mortais. É um homem de Estado. No entanto, devo dizer que de mim ele gosta de maneira especial. Se a filhinha também… Alto, canalha, psiu!… Li a Abelha. Que tolos esses franceses! Que pretendem eles? Por Deus, gostaria de pegá-los todos e dar-lhes uma boa chicotada. No mesmo jornal vi uma excelente descrição de um baile, feita por um fazendeiro de Kursk, Os fazendeiros de Kursk escrevem bem. Depois disso, notei que já era mais de meio-dia e meia, e o nosso homem ainda não tinha saído de seu quarto de dormir. Por volta da uma e meia verificou-se um acontecimento que nenhuma pena saberia descrever. Abriu-se a porta. Pensando que fosse o diretor, levantei-me de um pulo com toda a papelada. Mas não; foi ela, ela mesma!

Santos do Céu, como estava vestida, toda de branco feita um cisne! Oh, que esplendor! E que olhares! Só mesmo o Sol, por Deus, só mesmo o Sol! Cumprimentou-me e perguntou: – Papai ainda não esteve aqui? Ai de mim, que voz! Um canário, sem tirar nem pôr! – “Excelência – ia dizer-lhe – não ordene a minha execução, mas se fizer questão da minha morte, mate-me logo com sua mãozinha de filha de general.” Mas, com os diabos, a minha língua não se desemperrava e eu disse apenas: – Ainda não. Ela olhou para mim, para os livros, e deixou cair o lenço. Ergui-me de um salto. O maldito soalho fez-me escorregar, e quase descolei o nariz, mas acabei por me equilibrar, apanhando o lenço. Deus do Céu, que lenço! finíssimo, de batista, âmbar, âmbar de verdade! Exalava-se dele um legítimo perfume de general. Agradeceu-me, sorriu com um movimento imperceptível de seus doces labiozinhos, e saiu. Fiquei sentado mais uma hora, quando de repente apareceu um criado e me disse: – Aksenti Ivanovitch, pode ir embora, o patrão já saiu. Não posso tolerar esta súcia de lacaios. Refestelam-se o dia inteiro na antecâmara e mal se dão ao trabalho de cumprimentar com um aceno de cabeça. Mas isso ainda é o menos. Outro dia um desses idiotas lembrou-se de me oferecer rapé sem se levantar. Pois fica sabendo, criado besta, que eu sou funcionário de origem nobre. De qualquer maneira, tornei o chapéu e vesti eu mesmo o capote, pois esses tais senhores nunca auxiliam a gente a se vestir. Em casa, passei a maior parte do tempo deitado na cama. Depois copiei uns versinhos bonitos:

Uma hora sem a querida Foi um ano a padecer:

– Agora que odeio a vida – Disse – como hei de viver?

– Devem ser de Puchkin.

À noitinha, enrolando-me no capote, postei-me à porta de S. Ex.ª e esperei bastante, a ver se não saía para tomar o carro, na esperança de avistá-la mais uma vez. Mas não, não saiu.

6 de novembro.

O chefe de seção deixou-me louco de raiva. Quando cheguei à repartição, mandou-me chamar ao seu gabinete e disse-me: – Explica-me, por favor, o que estás fazendo. – O que estou fazendo? Mas não estou fazendo coisa alguma – respondi. – Ora essa! Reflete bem. Vê lá, já passaste dos quarenta, é tempo de criares juízo. Que é que estás pensando?

Imaginas que não sei das tuas tratantadas? Então estás fazendo a corte à filha do diretor? Vamos, enxerga-te, vê bem o que és. Um zero, nada mais. Não tens nem meio copeque de teu! Ainda por cima, olha a tua cara no espelho, para ver se acabas com essas idéias. Com os diabos! por ter um rosto meio parecido com uma redoma de farmácia, na cabeça um punhado de cabelos frisados em crista, penteados para cima e fixados com pomada numa espécie de roseta, ele pensa que pode fazer tudo o que lhe vem às ventas? Mas compreendo, sim, compreendo muito bem o motivo por que está irritado comigo. Inveja-me talvez por ter percebido algum sinal de simpatia dirigido a mim e não a ele. Pois eu cuspo-lhe na cara! Grande coisa um conselheiro da corte! Ostenta uma corrente de ouro no relógio, manda fazer botas de trinta rublos – pois bem, o Diabo o leve! Serei eu, porventura, da arraia-miúda, algum filho de alfaiate ou de suboficial? Sou nobre, e posso também ser promovido. Tenho apenas quarenta e dois anos – a idade com que, hoje em dia, se entra em serviço. Deixa estar, amigo! Eu também posso chegar a coronel e, se Deus quiser, a um pouco mais. Posso ter também um dia a minha reputaçãozinha, maior que a tua. Que é que te faz imaginar que não há, além de ti, nenhuma pessoa decente? Dá-me um fraque de Rutch talhado na moda, deixa-me amarrar a gravata como a tua está amarrada – e nem me chegarás aos pés. Falta-me dinheiro, eis a minha infelicidade.

8 de novembro.

Estive no teatro. Representaram uma peça russa, O Bobo Filatka. Houve também uma espécie de vaudeville com versos jocosos sobre os homens da lei, particularmente sobre um escrivão, em estilo bastante livre, de forma que estranhei como a censura deixara passá-los. A respeito dos comerciantes diziam abertamente que enganam o povo, que seus filhos vivem na pândega e procuram introduzir-se na nobreza. No tocante aos jornalistas, houve também um couplet muito engraçado, onde se dizia que estes gostavam de criticar tudo e por isso o autor pedia a proteção do público. Os autores de hoje escrevem peças muito divertidas. Gosto de ir ao teatro. Logo que me aparece um tostão no bolso, não posso afixar de assistir a uma representação, ao contrário de muitos de meus colegas funcionários que vivem como porcos. Um mujique não vai ao teatro a não ser quando lhe dão o ingresso de graça. Também houve uma atriz que cantava muito bem. Lembrei-me dela… alto, canalha… psiu!

9 de novembro.

Cheguei à repartição às oito horas. O chefe de seção fez como se não tivesse notado a minha chegada. Por minha parte, também fiz como se nada houvesse acontecido entre nós. Revi e cotejei alguns papéis. Às quatro horas saí, passei pelo gabinete do diretor, mas não vi ninguém. Depois do jantar, levei a maior parte do tempo na cama.

11 de novembro.

Ontem, sentado no gabinete do diretor, aparei para ele vinte e três penas, e para ela… ai de mim!… para S. Ex.ª, quatro. O diretor gosta de ter na mesa grande número de penas. Ih! deve ser um homem inteligente! Está sempre calado, mas dentro daquela cabeça, penso eu, há um mundo de meditações. Gostaria de saber sobre que coisa ele medita de preferência, o que é que projeta naquela cabeça. Gostaria também de ver mais de perto a vida desses senhores, todas essas complicações e truques da gente da corte, tudo o que fazem na sua roda… tudo isso eu teria vontade de saber. Por várias vezes tentei entabular conversação com S. Ex.ª, mas, com os diabos, a língua sempre se recusa a obedecer; chego apenas a dizer que faz frio ou faz calor, e decididamente não consigo articular nada além disso. Gostaria de dar uma olhada no salão, cuja porta de vez em quando vejo aberta, e ainda mais a um quarto atrás do salão. Ui! que linda decoração, que espelhos e porcelanas! Sim, gostaria de dar uma olhada no aposento em que vive S. Ex.ª. Eis o que eu gostaria de ver: o toucador, com todos os seus frasquinhos e potezinhos, todas aquelas flores que a gente chega a ter medo de cheirar, e todas as suas vestes espalhadas, mais semelhantes ao ar do que a vestidos. Teria vontade de ver um instante o seu quarto de dormir. Aquilo, penso eu, deve ser uma maravilha; aquilo deve ser um paraíso que nem no Céu. E olhar o escabelo sobre o qual ela costuma pôr os pezinhos ao se levantar da cama, e ver como os calça de meias brancas como a neve… ai de mim, ai de mim!… mas basta… psiu! Ontem, de repente fui como que iluminado por um clarão: lembrei-me da conversa dos dois cães que eu surpreendera no Nevski Prospekt. – “Muito bem – disse eu comigo – agora vou saber tudo. É preciso apoderar-me da correspondência trocada entre esses dois cachorros ordinários. Por ela provavelmente ficarei sabendo alguma coisa.” Confesso que já cheguei a chamar Medji e falar-lhe assim: – Olha, Medji, nós agora estamos aqui a sós; se quiseres, vou até fechar a porta para que ninguém nos possa ver. Conta-me tudo o que sabes a respeito de tua senhora, dize-me como ela é. Juro-te que não o revelarei a ninguém.

Mas a esperta cachorrinha encolheu o rabo, contraiu-se toda e saiu do quarto caladinha, como se nada tivesse ouvido. Suspeito há muito tempo que o cachorro é mais inteligente do que o homem. Estou até convencido de que sabe falar, apenas tem uma espécie de teimosia. É um político extraordinário: observa tudo, todos os passos do homem. Não, custe o que custar, hei de ir amanhã à casa de Zverkof, interrogarei Fidel, e, se for possível, interceptarei todas as cartas que Medji lhe escreveu.

12 de novembro.

Às duas da tarde pus-me a caminho com a intenção de visitar Fidel e de interrogá-la. Não posso suportar o cheiro de repolho que se exala de todos os armazéns da Rua dos Burgueses; além deste, da porta de todas as casas vieram fedores tão infernais que passei por elas correndo e tapando o nariz. Demais, os diabos daqueles operários deixam sair tanta fuligem e fumaça de suas oficinas, que não é absolutamente possível passear por ali. Chegando ao sexto andar, toquei a campainha. Apareceu uma criadinha de aparência não de todo má, de rosto sardento. Reconheci-a: era a mocinha que tinha estado com a velha. Corou ao ver-me, e eu compreendi de que se tratava. – Tu precisas, pombinha, é de um marido. – Que é que o senhor deseja? – perguntou-me. – Preciso falar com a vossa cachorrinha. Mas que criada tola! Logo vi como era estúpida. Ao mesmo tempo a cachorra acorreu latindo. Fiz menção de agarrá-la, mas o bicho ordinário quase que me abocanhou o nariz. Nesse meio tempo, percebi a um dos cantos uma cesta de esparto. Pois é disso justamente que eu preciso! Aproximei-me dela, revolvi a palha na caixa de madeira e com extraordinário prazer retirei da mesma um pacote de papeizinhos. Vendo isto, a danada da cachorra mordeu-me primeiro a barriga da perna; depois, ao farejar que eu levava os papéis, pôs-se a ganir, a fazer-me festa, mas eu lhe disse: – Não, minha pombinha, até logo. E fui-me embora correndo. A criadinha deve ter-me tomado por maluco, tal o medo que lhe causei. Chegando a casa, quis-me entregar imediatamente ao trabalho de decifrar as cartas, pois à luz das velas vejo bastante mal. Mavra, porém, tinha-se lembrado de lavar o soalho. Essas finlandesas idiotas lembram-se de limpeza sempre no pior momento. Diante disso fui dar uma voltinha a meditar o acontecido. Agora, de vez, acabarei por saber tudo; todos os pensamentos, todas as molas, tudo hei de descobrir. Essas cartas hão de me revelar tudo. Os cachorros são uma raça inteligente, conhecem todas as relações políticas, e, assim, sem dúvida tudo estará aqui dentro, o retrato e todos os negócios do homem.

Deverá também haver algo a respeito daquela que… mas – psiu!… À noitinha cheguei a casa. Passei a maior parte do tempo deitado na cama.

13 de novembro.

Pois bem, vejamos. A carta é bastante legível. Embora escrita em letra humana, tem algo de canino. Leiamos:

“Querida Fidel, não posso absolutamente acostumar-me ao teu nome burguês. Não podiam dar-te um nome melhor? Fidel, Rosa – soam tão vulgarmente! Mas deixemos isso de lado. Estou bem contente de havermos resolvido escrever-nos.”

A carta está escrita com muita correção. A pontuação, e até a letra iat, estão sempre bem empregadas. Nem o nosso chefe de seção escreve tão bem, embora afirme haver cursado a Universidade. Mas vamos adiante:

“Parece-me que partilhar com outrem os pensamentos, sentimentos e impressões é uma das maiores felicidades do mundo.” Hum! este pensamento é tirado de uma obra traduzida do alemão. Do título é que não me lembro. “Eu digo isto por experiência, embora não tenha corrido mundo além do portão de nossa casa. Será que a minha vida não é feliz? Minha senhorinha, a quem seu papai chama Sophie, ama-me loucamente.” Ai de mim! mas – psiu!… “O paizinho dela acaricia-me também freqüentemente. Bebo chá e café com creme. Ah, ma chère, devo dizer-te que não acho absolutamente nenhum gosto nos grandes ossos roídos que o nosso Polkan devora na cozinha. A mim só me interessam ossos de passarinhos de caça, e estes mesmos só quando ninguém lhes chupou o tutano. Gosto também de molhos misturados, contanto que não lhes ponham alcaparra nem legumes. Em compensação, para mim não há nada pior do que as bolinhas de pão amassado que se dão habitualmente aos cachorros. Um senhor qualquer, sentado à mesa, depois de pegar com as mãos qualquer porcaria, começa a amassar pão com essas mesmas mãos, chama a gente e põe-nos entre os dentes a bolinha. Recusar seria uma falta de consideração, e a gente engole, embora com nojo…” O Diabo que entenda isso! Que tolice! Falar em tal coisa como se não houvesse assunto mais interessante! Vamos ver na outra página. Talvez lá se encontre algo de mais sensato: “É com o maior prazer que te informarei de tudo o que acontecer em nossa casa. Já te falei da personagem principal da casa, a quem Sophie chama papai. É um homem muito estranho.” Até que enfim!

Aqui está: eu sabia que eles têm um olhar de político para tudo. Vejamos, pois, o que diz a respeito do papai: “É um homem muito estranho. Geralmente, mantém-se calado. Fala muito pouco. No entanto, há uma semana, falava sozinho sem parar, dizendo: – “Hei de ganhá-la ou não?” Pegava com uma das mãos um papel, fechava a mão vazia e perguntava: – “Hei de ganhá-la ou não?” Uma vez, até se dirigiu a mim com esta pergunta: – “Que pensas tu, Medji: hei de ganhá-la ou não?” Não podendo compreender absolutamente nada, cheirei-lhe as botas e fui-me embora. Depois, ma chère, ao cabo de uma semana papai apareceu em casa muito alegre. Durante toda a manhã vieram vê-lo senhores uniformizados e deram-lhe parabéns. À mesa ele estava tão contente como nunca o vi, chegou a contar anedotas. Depois do jantar, pôs-me no colo e disse: – “Olha, Medji, eis a tal coisa.” Vi uma espécie de fita. Cheirei-a, mas decididamente não lhe encontrei nenhum perfume. Depois, lambi-a devagar: tinha um gosto meio salgado.” Hum! essa cachorrinha me parece até de mais… Queira Deus não apanhe! Então ele é ambicioso? Devo tomar nota disso para meu governo. “Até logo, ma chère! Vou correndo, etc., etc.. Acabarei esta carta amanhã.” “Bom dia. Eis-me outra vez contigo. Ontem a minha senhora Sophie…” Ah! Vejamos o que faz Sophie. Alto, canalha… Psiu! Deixemo-la continuar: “Minha senhorinha Sophie passou o dia num alvoroço extraordinário. Preparava-se para ir ao baile, e eu, por minha vez, estava contente, porque na ausência dela posso escrever-te. Minha Sophie está sempre contentíssima quando pode ir ao baile, embora quase sempre se aborreça no momento de se vestir. Não posso compreender, ma chère, que prazer se pode sentir em ir ao baile. Sophie chega de lá às seis horas da manhã, e pelo seu ar pálido e exausto quase sempre concluo que não lhe deram de comer, coitadinha. Por mim, confesso, nunca poderia viver assim. Se não me dessem molho com perdiz ou asa de galinha assada… não sei o que seria de mim. Molho com mingau de aveia também é bom. O que, porém, nunca tolerarei, é cenoura, nabo e alcachofra.” É exatamente desigual esse estilo. Vê-se logo que o autor não é homem. Começa de um modo razoável e acaba caninamente. Vamos ver mais uma cartinha. Que compridas! Hum! nem põe data: “Ah, minha querida, como é evidente a aproximação da primavera! Bate-me o coração, como se esperasse alguma coisa. Nos meus ouvidos há como que um ruído perpétuo, a tal ponto que muitas vezes, levantando uma perna, fico parada à porta alguns minutos, atenta. Posso revelar-te que tenho muitos apaixonados. Muitas vezes, sentada à janela, observo-os. Se soubesses que monstros há entre eles!

Há um, de cara feia, um gozo idiota cuja estupidez está gravada no focinho, que passeia pela rua com ar importante e se crê uma personagem para quem se voltam todos os olhares. Pois está enganado. Eu não lhe dei atenção, fiz que não o via. Outro, um buldogue horrível, costuma parar diante da minha janela. Se se erguesse nas patas traseiras, coisa de que um vilão como ele provavelmente é incapaz, superaria de uma cabeça inteira o pai de nossa Sophie, que no entanto é de estatura elevada e corpulento. Esse bobalhão deve ser de uma impertinência insuportável. Rosnei um pouco para ele, mas ele fingiu não perceber. Se pelo menos soubesse fazer caretas… mas só sabe pôr a língua de fora e deixar cair as orelhas enormes, olhando para a janela que nem um mujique. Mas não penses, ma chère, que o meu coração é indiferente a todas as solicitações… ah, não… Se tu visses um cavalheiro que trepou na cerca da casa vizinha, chamado Tresor! Que focinho, ma chère!”

Ó diabo! Que porcaria! Como é possível encher páginas com semelhantes bobagens? Dai-me um homem! Quero ver um homem, preciso de um alimento que nutra e deleite a minha alma; em vez disso, vêm estas bobagens… Viremos a página, talvez o avesso tenha mais nexo:

“Sophie estava sentada à sua mesinha e cosia alguma coisa. Eu estava olhando pela janela, pois gosto de examinar os transeuntes. De repente entra o criado e anuncia o Sr. Teplof. – “Mande-o entrar” – exclamou Sophie. E correu a abraçar-me: – “Ah, Medji, Medji! se soubesses quem é! Um rapaz moreno, um fidalgo da corte. E que olhos! Pretos e luminosos como o fogo.” Nisto, correu para o seu quarto. Um minuto depois entrou o fidalgo da corte, de suíças negras; foi ao espelho, ajeitou os cabelos e girou o olhar pelo quarto. Rosnei um pouco e fui sentar-me no meu lugar. Sophie voltou depressa e curvou-se alegremente, batendo os saltos; mas eu, como se não tivesse visto nada, continuei a olhar pela janela, embora inclinasse a cabeça de lado e procurasse ouvir de que falavam eles. Ah, ma chère, que tolices conversavam! Comentaram, por exemplo, que uma das damas, em vez de executar determinadas figuras na dança, executara outras; que certo Bovof, com seus bofes de camisa, parecia uma cegonha, e quase caíra; que certa Lidina imaginava ter olhos azuis, quando na realidade os tinha verdes – e outras coisas parecidas. Como seria interessante – pensei – comparar esse gentil-homem com Tresor! Que diferença, meu Deus! Antes de tudo, o gentil-homem da Corte tem o rosto largo, completamente liso, e com suíças em redor, como se estivesse cercado de um lenço preto, ao passo que Tresor tem um focinho fino e, no meio da testa, uma mancha sem pêlo. A cintura de Tresor nem se compara com a do fidalgo. Quanto aos olhos, aos gestos, às maneiras, nada têm de comum. Que diferença!

Não sei, ma chère, o que ela encontra no seu Teplof, que está assim tão enlevada por ele…” A mim me parece que a coisa não deve ser tanto assim. Não é possível que ela esteja tão enlevada por Teplof. Mas vejamos:

“Se esse fidalgo lhe agradou, daqui a pouco a veremos gostar até daquele funcionário que está sentado no gabinete de papai. Ah, ma chère, se soubesses que cara horrorosa! Direitinho uma tartaruga num saco…”

Quem será esse funcionário? “Ele tem um nome muito esquisito. Está sempre sentado, aparando as penas. Os cabelos que tem na cabeça parecem palha. Papai o manda a toda parte como a um criado…”

Dir-se-ia que a ordinária da cadela se refere a mim. Mas onde é que eu tenho cabelos como palha?

“Ao olhar para ele, Sophie não pode absolutamente conter o riso.”

Estás mentindo, cadela danada! Que língua infame! Como se eu não soubesse de onde provêm todos esses truques: provêm do chefe de seção. Vê-se que o homem me votou um ódio de morte e agora me prejudica no que pode. Vejamos, no entanto, mais uma carta; talvez lá a coisa se explique por si mesma:

“Ma chère Fidel, perdoa-me haver passado tanto tempo sem te escrever. Estava completamente apaixonada. Teve plena razão o autor que escreveu que o amor é uma segunda vida. Além disso, há aqui em casa atualmente grandes transformações. O fidalgo vem agora todos os dias. Sophie está apaixonada por ele até à loucura. Papai anda muito contente. Já ouvi dizer ao nosso Gregório, que varre o chão e quase sempre conversa com os seus botões, que daqui a pouco haverá casamento, pois papai quer ver Sophie casada quanto antes com um general, um fidalgo da corte ou um coronel do exército…”

Com os diabos! Não posso ler mais… Por toda parte aparece um homem da corte ou um general. Por toda parte, tudo o que há de melhor no mundo é para fidalgos da corte ou generais. Encontra-se um pequeno tesouro, pensa-se atingi-lo com a mão – mas vem um general, e o arrebata. O Diabo os leve. Eu também desejaria tornar-me um general. Não era para obter a mão dela e o resto, não: queria ser general apenas para ver como eles me cortejariam, como me fariam toda espécie de cerimônias e salamaleques, e para depois lhes dizer que escarro em ambos. O Diabo os leve, a esses idiotas. Fiz em pedaços as cartas da cadela tola.

3 de dezembro.

Não pode ser! É mentira!

Esse casamento não se deve realizar. Que importa que ele seja um fidalgo da corte? Isto é apenas uma dignidade, não é nenhum sinal visível que se possa tocar com o dedo. O fato de ele ser fidalgo da corte não lhe acrescenta mais um olho à fronte. Também o nariz dele não é de ouro, é como o meu nariz ou como o de qualquer outra pessoa. Serve para cheirar e não para comer, para espirrar e não para tossir. Mais de uma vez procurei já elucidar de onde provêm todas essas diferenças. Por que eu sou conselheiro-titular? Que quer dizer ser eu conselheiro-titular? Talvez eu seja algum conde ou general, parecendo apenas conselheiro-titular. Talvez eu mesmo ignore quem sou. Veja-se quantos exemplos disso temos em toda a história: aparece um homem simples, nem sequer um nobre, mas um burguês qualquer ou até um camponês, e de um momento para outro se descobre que ele é algum magnata ou barão, ou coisa parecida. Quando de um simples mujique pode sair alguma coisa dessa espécie, o que não poderá sair de um nobre? De repente, por exemplo, eu apareço em uniforme de general, com dragonas no ombro esquerdo, dragonas no ombro direito, uma fita azul de um ombro ao outro – pois então? Em que tom me falará a minha bela senhorinha? Que dirá o pai dela, nosso diretor? Oh, ele é ambiciosíssimo; sem a menor dúvida, é maçom, por mais que procure fingir isto ou aquilo; percebi rapidamente que ele é maçom, porque, ao dar a mão a alguém, estende apenas dois dedos. Será que eu não posso neste mesmo instante ser nomeado general-governador ou intendente, ou algo de parecido? Gostaria de saber por que sou conselheiro-titular. Por que justamente conselheiro-titular?

5 de dezembro.

Toda a manhã de hoje li jornais. Na Espanha estão acontecendo coisas estranhas. Nem consegui analisá-las bem. Escreve-se que o trono está vago e os graúdos se encontram em grande embaraço quanto à eleição de um sucessor; daí provém grande indignação. Acho isso extremamente esquisito. Como pode um trono estar vago? Diz-se que ele deverá ser ocupado por certa doña. Mas uma dona não pode ocupar um trono, de maneira nenhuma. Um trono deve ser ocupado por um rei. Sim, diz-se – mas não há rei. É impossível que não haja rei. Não pode haver Estado sem rei. Há um rei; apenas, ele se encontra em lugar desconhecido. Talvez se encontre lá mesmo, mas algum motivo de família, ou o medo de qualquer potência vizinha, como a França ou outros países, ou algum outro motivo, o obrigue a se esconder.

8 de dezembro.

Pretendia ir hoje à repartição, mas diversos motivos e considerações me impediram de fazê-lo.

Aquele negócio da Espanha não me quer sair da cabeça. Como é possível que eles lá pretendam proclamar rainha a uma doña? Não se há de permitir isto. Antes de tudo, a Inglaterra não consentirá; depois, há a situação política de toda a Europa, o imperador da Áustria, o nosso czar… Confesso que estes acontecimentos me abateram e abalaram de tal forma que decididamente me foi impossível fazer qualquer coisa durante o dia ínterim. Mavra até observou que à mesa eu estava extremamente distraído. De fato, por distração deixei cair dois pratos, que se despedaçaram. Após o jantar fui passear ao pé das montanhas, porém nada consegui apurar durante o passeio. Depois passei a maior parte do tempo na cama a refletir sobre os negócios da Espanha.

Ano 2000, 43 de abril.

O dia de hoje é particularmente solene. A Espanha já tem rei. Ele foi encontrado, afinal. Este rei sou eu. Somente hoje é que o soube. Confesso, foi como se de repente um relâmpago me houvesse iluminado. Não compreendo como pude pensar e crer que era conselheiro-título. Como me pôde entrar na cabeça idéia tão extravagante? Felizmente ninguém se lembrou de me pôr numa casa de loucos. Tudo se esclareceu aos meus olhos. Agora vejo tudo claramente, como na palma da mão. Até hoje, não sei como, tudo diante de mim estava como que envolvido em uma espécie de névoa. E tudo isto, penso eu, vem do fato de que a gente imagina que o cérebro humano se encontra na cabeça. Pois absolutamente não: ele é trazido pelo vento do lado do Mar Cáspio. Para começar, anunciei a Mavra quem eu sou. Ao ouvir que tinha diante de si o rei da Espanha, bateu com uma das mãos na outra e por um triz não morreu de susto. Tolinha! nunca tinha visto o rei da Espanha. Mas eu procurei tranqüilizá-la e com palavras bondosas assegurei-a do meu favor, acrescentando que não estava nada aborrecido por ela às vezes me haver limpado mal as botas. Mas como essa gente é inculta! É impossível falar-lhe em assuntos elevados. Afavra espantou-se, porque está convencida de que todos os reis da Espanha sé parecem com Filipe II. Mas expliquei-lhe que entre mim e este último não há nenhuma semelhança.

Não fui à repartição. Diabo leve a repartição! Não, amigos, não me pegareis mais: não copiarei mais os vossos papéis sujos!

86 de martoubro, entre dia e noite.

Apareceu hoje aqui o executor para me dizer que eu devia voltar à repartição, aonde não comparecia havia três semanas.

Fui, pois,” à repartição, por brincadeira.

O chefe de seção pensava que eu ia cumprimentá-lo e pedir-lhe desculpa, mas encarei-o com indiferença, nem muito aborrecido nem muito benévolo. Sentei-me à minha mesa como se não tivesse visto ninguém. Olhei para toda aquela canalha administrativa e pensei: – “Se soubessem quem está sentado entre vocês! Deus do Céu! Seria uma confusão! O próprio chefe de seção se inclinaria tão profundamente como se inclina agora perante o diretor. Foram colocados diante de mim alguns papéis, para que eu fizesse um extrato deles. Ao fim de poucos minutos, houve um alvoroço geral. Disseram que vinha o diretor. Muitos funcionários correram à porfia para se apresentarem ante ele. Mas eu não me levantei do meu lugar. Quando o diretor passou pela nossa seção, todos abotoaram o casaco, menos eu. Quem é esse diretor para eu me levantar na frente dele? Nunca! Que diretor é ele? É uma rolha e não um diretor, uma simples rolha dessas que servem para tapar garrafas. O que me pareceu mais engraçado que tudo foi eles me empurrarem uns papéis para eu assiná-los. Pensavam que eu ia pôr o nome ao pé da folha: Fulano de Tal, chefe de mesa… Que esperança! Lancei no lugar principal, lá onde o diretor da repartição costuma pôr a sua firma: Fernando VIII. Era de ver que silêncio reverente se fez no mesmo instante. Fiz apenas um sinal com a mão, dizendo: – Dispenso qualquer homenagem de meus súditos! E saí. Fui direito ao gabinete do diretor. Ele não estava. No primeiro momento o lacaio não me quis deixar entrar, mas eu lhe disse umas coisas que o deixaram desarmado. Dirigi-me de chofre ao toucador. Ela estava sentada diante do espelho. Ergueu-se de um salto e fitou-me com espanto. Eu, porém, não lhe disse que era o rei da Espanha; limitei-me a comunicar-lhe que a esperava uma felicidade tão grande que ela nem podia imaginar, e que, apesar das intrigas dos inimigos, acabaríamos por nos unir. Foi tudo o que eu disse, e saí. Como é insidiosa a natureza feminina! Só agora cheguei a compreendê-la. Até agora ninguém tinha adivinhado de quem é que a mulher gosta; fui eu quem o descobriu. Não estou brincando. Os homens de ciência escrevem bobagens, afirmando que ela gosta disto ou daquilo. Pois bem, ela gosta unicamente do Diabo. Senão, vejam sobre quem assenta o binóculo, sentada num camarote de primeira fila. Pensam que é sobre aquele rapaz atarracado, de estrelas? Nada disso. Ela está olhando é paz: ao Diabo que fica atrás das costas ou se esconde no casaco dele. Ainda agora o Diabo lhe fez um sinal com os dedos. Ela vai casar com ele, vai mesmo. Vêem todos esses pais de alta categoria a insinuarem-se em toda parte, a treparem até à Corte, a proclamarem que são patriotas e mais isto e mais aquilo? Pois o que esses patriotas querem são rendas e nada mais!

Vendem a mãe, o pai, o próprio Deus, por dinheiro; são uns ambiciosos, uns vendilhões de Cristo! Tudo isso é ambição e provém do fato de haver debaixo da úvula uma vesícula e, dentro desta, um vermezinho do tamanho de um alfinete. Tudo isso é obra de um barbeiro que mora na Rua da Ervilha. Não lhe sei o nome, mas é sabido que ele com uma parteira procuram espalhar o maometismo por toda parte. Dizem que na França a maioria do povo já professa a fé maometana.

Data nenhuma. Foi um dia sem data.

Fui passear incógnito pelo Nevski Prospekt. Por ali passou o czar, de carruagem. Toda a gente tirou o chapéu, e eu também; não dei o menor sinal de que sou o rei da Espanha. Julguei inconveniente descobrir assim do pé para a mão a minha identidade a todos, pois convém que me apresente em primeiro lugar à Corte. O que me impediu de fazê-lo foi o não possuir um traje nacional espanhol. Se pelo menos pudesse arranjar algum manto! Primeiro quis encomendar um a um alfaiate, mas todos eles são burros, descuram de seu trabalho, atiram-se à especulação e ocupam-se com o calçamento das ruas. Tinha decidido transformar em um manto o novo uniforme de gala que só usara duas vezes ao todo. Mas para que esses tratantes não me estragassem a obra, resolvi eu mesmo cosê-lo e fechei a porta, que ninguém me visse. Talhei-o todo em pedaços com a tesoura, porque o corte deve ser totalmente diverso.

Não me lembro da data. Também mês não houve. Sabe o Diabo o que foi.

O manto está pronto. Ao ver-me vesti-lo, Mavra soltou um grito. Mas não quis ainda apresentar-me à Corte, porque até agora não vieram os emissários da Espanha. Sem emissários, o meu mérito não teria nenhum peso. Aguardo-os de uma hora para outra.

Dia 1.

Espanta-me a demora dos emissários. Que será que os detém? Será a França? Sim, é ela a potência mais desfavorável. Fui ao Correio saber se os emissários espanhóis já chegaram. Mas o chefe do Correio é de uma estupidez extraordinária, não sabe coisa alguma. – Não – disse-me – aqui não há emissários espanhóis de espécie alguma, mas se o senhor quiser escrever cartas, aceitá-las-emos pela tarifa oficial. Diabos te levem! Cartas, para quê? Escrever cartas uma tolice. Só os farmacêuticos é que escrevem cartas…

Madrid, 30 de fevereiro.

Eis-me, afinal, na Espanha. Tudo aconteceu tão depressa que mal pude voltar a mim. Hoje de manhã apareceram lá em casa os emissários espanhóis e me fizeram subir a um carro. A rapidez com que isto se verificou foi extraordinária. Andamos tão depressa que dentro de meia hora chegamos à fronteira espanhola. É verdade que agora em toda a Europa as estradas são de ferro e os vapores viajam a grande velocidade. Estranho país a Espanha: ao entrarmos na primeira sala, encontrei uma multidão de pessoas de cabeça rapada. Adivinhei logo que deviam ser os grandes de Espanha, ou então soldados, pois são estes que usam cabeça rapada. Pareceram-me sumamente estranhas as maneiras do chanceler do governo, o qual me pegou pela mão, arrastou-me a um pequeno quarto e disse: – Senta-te aqui, e se te tratares de rei Fernando, hei de tirar-te essa idéia da cabeça cem pancadas. Sabendo que aquilo era apenas uma provocação, respondi negativamente, ao que o chanceler me deu duas bastonadas nas costas, tão dolorosas que eu quase gritei. Mas contive-me, lembrado de que se tratava de uma cerimônia de cavalaria, um ato de investidura. Com efeito, na Espanha conservam-se até hoje as tradições da cavalaria. Deixado sozinho, resolvi consagrar-me a assuntos do governo. Descobri que a China e a Espanha formam um único país e só por ignorância são consideradas dois Estados diferentes. Aconselho a todos que escrevam num papel Espanha; sairá China.

Estou, porém, preocupadíssimo com um acontecimento que deverá verificar-se amanhã. Às sete horas da manhã produzir-se-á um fenômeno dos mais singulares: a Terra há de sentar-se na Lua. O famoso químico inglês Wellington trata disso. Confesso que sinto profunda inquietação ao imaginar a excessiva maciez e a fragilidade da Lua. Ela é feita regularmente em Hamburgo, e fazem-na muito mal. É estranho que a Inglaterra não tenha reparado neste fato. Quem a faz é um tanoeiro coxo e, ao que parece, louco, que não tem a menor idéia do que seja a Lua. Assim, põe-lhe uma corda com piche e óleo vegetal, e eis por que há em toda a Terra um tal fedor que a gente tem de tapar o nariz. Pela mesma razão a Lua é um globo tão pouco sólido que nela não pode viver gente de maneira alguma; quem vive lá são apenas os narizes. Nós justamente não vemos os próprios narizes porque eles se encontram todos na Lua. Ao refletir que a substância da Terra é muito pesada e pode reduzir os nossos narizes a farinha, fui presa de tamanha inquietação que, calçando meias e sapatos, me dirigi sem demora à sala do Conselho de Estado para mandar a polícia proibir que a Terra se sentasse na Lua.

Os grandes de cabeça rapada, convocados por mim em grande número à Sala do Conselho de Estado, mostraram-se muito inteligentes, e quando eu lhes disse: – “Meus senhores, salvemos a Lua, pois a Terra quer sentar-se nela!” – imediatamente correram a executar minha real vontade. Muitos deles treparam à parede para apanhar a Lua, quando entrou o grande-chanceler. Ao vê-lo, todos deitaram a correr e se dispersaram. Só eu fiquei ali, como rei. Mas, com viva surpresa minha, o chanceler esbordoou-me e mandou-me voltar ao meu quarto. Tamanha influência conservam na Espanha as tradições nacionais.

Janeiro do mesmo ano, mês que chegou depois de fevereiro.

Não posso compreender até agora que terra é a Espanha. Os hábitos nacionais e a etiqueta da Corte são sobremodo esquisitos. Não compreendo, não compreendo, decididamente não compreendo nada. Hoje raparam-me a cabeça, apesar de eu ter gritado com todas as forças que não me queria tornar monge. Nem me lembro mais do que fiz quando começaram a gotejar-me água fria na cabeça. Nunca tinha sentido dor tão infernal. Estava na iminência de enlouquecer, a tal ponto que só a custo me dominaram. Não posso absolutamente compreender o que significa essa estranha cerimônia. É uma cerimônia estúpida, absurda, e não compreendo a estupidez dos reis que não a aboliram. Considerando bem as coisas, pergunto a mim mesmo se não caí nas garras da Inquisição e se o homem que eu tornei por grande-chanceler não é o próprio Grande Inquisidor. Mas não entendo absolutamente como possa um rei ser submetido à Inquisição.

Tudo isso deve ser obra da França, sobretudo de Polignac! Que velhaco esse Polignac! Ele jurou-me ódio mortal. Ei-la a perseguir-me sem tréguas. Mas eu bem sei, meu amigo, quem te inspira: é o inglês. O inglês é um grande político. Insinua-se por toda parte. Todos já sabem que, quando a Inglaterra toma uma pitada, é a França quem espirra.

Dia 25.

Hoje o Grande Inquisidor entrou no meu quarto, mas eu, ouvindo-lhe de longe os passos, escondi-me debaixo de uma cadeira. Não me encontrando, ele começou a chamar-me. Primeiro gritou: – Poprichin! Porém eu não me mexi. Depois: Axenti Ivanof! Conselheiro-titular! Fidalgo! Continuei calado. – Fernando VIII, rei da Espanha! Quis pôr a cabeça de fora, mas depois refleti: – “Não, meu caro, não contes comigo. Já te conheço bem. O que tu queres é derramar-me de novo água fria na cabeça.” Mas ele acabou por me descobrir e fez-me sair do meu esconderijo a bengaladas. As pancadas daquela maldita bengala doem-me extraordinariamente. Tudo isso, porém, é compensado pela descoberta que fiz, a saber, que todos os galos têm uma Espanha, que guardam debaixo da asa. O Grande Inquisidor saiu furioso do meu quarto e ameaçou-me de novos castigos. Mas eu não me importo com a sua fúria impotente. Sei que ele age como máquina, como arma da Inglaterra.

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Não, não tenho forças para agüentar mais! Meu Deus, que fazem eles comigo! Derramam-me na cabeça água fria. Não me dão a menor importância, não me vêem, não me escutam. Que mal lhes fiz? Por que me estão atormentando? Que é que eles querem desta pobre criatura? Que lhes posso dar? Não tenho nada. As minhas forças estão-se acabando, não suporto mais as torturas que me infligem, arde-me a cabeça. Tudo está rodando em torno de mim. Salvem-me! Tirem-me daqui! Dêem-me uma troika com cavalos tão velozes como a tempestade. Senta-te, meu cocheiro, repicai, meus guizos, arrebatai-me, meus cavalos, levai-me para longe desta terra, mais longe, mais longe ainda, para que eu não veja nada mais. Eis que o céu se desdobra ante os meus olhos, com uma estrelinha brilhando ao longe. Eis a floresta com árvores escuras sob o luar. Uma névoa cor de pomba flutua-me em volta dos pés; uma corda ressoa na névoa. De um lado vejo o mar, do outro a Itália; vejo também as choupanas russas. Não é a minha casa que azuleja ali? Não é minha mãe que está sentada à janela? Mãezinha, salva o teu pobre filho! Derrama-lhe lágrimas sobre a cabecinha doente. Olha como o torturam! Aperta ao peito o teu pobre órfão! Ele não tem mais lugar na Terra! Perseguem-no! Mamãe, tem piedade do teu filhinho doente! Vocês já sabem que o rei de Argel tem um tumor exatamente debaixo do nariz?

Extraído do blog Garganta da Serpente

Datilografia (Fernando Pessoa)

Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

Outrora.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra…

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Extraído do ótimo blog: Fernando Pessoa

O guinéu da órfã (Charles Dickens)

I

O céu estava sombrio – céu de dezembro – e o calçamento das ruas desaparecia sob a neve, neve de Londres, meio derretida e lamacenta. Nunca se me varrera da memória a recordação dessa neve, apesar de terem passado quinze anos desde a última vez que vira a sua triste cor. Ali a tinha, diante de mim, com os mesmos sulcos e ocultando os mesmos perigos para os transeuntes. Havia apenas uma hora que eu tinha chegado da América do Sul a bordo do vapor-correio de Southampton, e ora estava encostado à janela do meu quarto no Hotel Morley, Charing Cross, contemplando com ar sombrio os jogos de água da Praça de Trafalgar, ora passeava agitadamente de um extremo ao outro do aposento, fazendo esforços para me distrair e pensando que não era um vagabundo desterrado, mas um homem que regressava ao seu país.

Aproximei a cadeira da chaminé e, enquanto atiçava o lume, evoquei através da chama o quadro da minha vida passada. Recordei-me da infância que tornou extremamente desgraçada a dependência de um tio velho e rico que me olhava como a um obstáculo porque não acreditava que eu viesse um dia a honrar o seu nome e os seus benefícios. Esta excelente pessoa tinha quase tanto de avaro como de vaidoso. Eu sentia a necessidade do estímulo e se me tivessem obrigado com algumas palavras ternas a abrir o meu coração juvenil, teriam descoberto o reconhecimento mais sincero, a ânsia de carinho, o instinto e o amor por tudo quanto é bom e belo. Mas, ah! todos estes honrados sentimentos estavam reconcentrados na minha alma pela ironia de quantos me rodeavam. Que contente ficou meu tio quando lhe disse que estava disposto a ir procurar a fortuna do outro lado dos mares! Com que frieza se despediu de mim o meu único primo! Como compreendi que havia chegado por fim a hora de me separar de um país onde, na opinião da minha própria família, era incapaz de usar honradamente o meu nome e de conquistar uma posição social! Parti com a triste convicção de que estava só no mundo e com a impaciência de demonstrar aos meus desdenhosos parentes que não merecia tão depreciativo conceito.

Quando regressei, depois de quinze anos, ignorava tudo o que se passara na minha família, que talvez me tivesse esquecido ao perder-me de vista.

Chamei e entrou no quarto um criado velho de cuja fisionomia me recordava. Conhecia meu primo Jorge que, antigamente, sempre que vinha a Londres se hospedava no Hotel Morley, como nosso tio. Mas, agora, Jorge chegara a posição demasiado alta para se permitir freqüentar um hotel de segunda ordem, quando, pela primavera, ia passar na capital um ou dois meses. Nesta época do ano Jorge Rutland não abandonava o seu castelo solarengo e eu tinha certeza de o encontrar em Rutland-Hall, condado de Kent.

Apressei-me a escrever-lhe a seguinte carta:

Querido Jorge:

Estou convencido de que te causará tanto espanto reconhecer a minha letra como se o meu espectro te surgisse. Tranqüiliza-te quanto à aparição do espectro. Como sabes, eu estou há muito convencido de que não sirvo para nada, e deves saber também que o céu não me concedeu a felicidade de morrer. Sinto certa vergonha ao confessar-te que não cheguei do outro mundo com a minha fortuna feita. Asseguro-te, contudo, que trabalhei para fazê-la; mas no mundo não basta querer; necessita-se, também, sorte para poder.
Felizmente ainda tenho tempo para reparar a perda dos quinze melhores anos da minha vida, e estou disposto a lançar mão de tudo, sempre que a ocupação seja digna de um cavalheiro. Entretanto, ardo em desejos de ver-te e aos teus. Uma longa ausência da pátria e da família é o que mais nos faz compreender quanto vale o aperto de uma mão amiga. Não espero, pois, que me respondas. Depois de amanhã seguirei para Kent e julgo que estarei aí à hora do jantar. Já vês que confio no teu bom acolhimento e hospitalidade durante algumas semanas, até que me resolva a tomar uma determinação.
Agora e sempre, meu querido Jorge, é teu velho amigo e primo

Guy Rutland

Dobrei a carta e coloquei-a no envelope.

– Breve saberei o que são realmente os meus queridos parentes, pensei alegremente enquanto escrevia o endereço:

Jorge Rutland, esquire
Rutland-Hall
(Kent).

Seriam aproximadamente sete da tarde quando cheguei ao imponente vestíbulo de Rutland-Hall. O primo Jorge não veio receber-me. Sem dúvida, esqueci-me dos costumes do país. Provavelmente o primo Jorge espera-me no alto da escada.

Avancemos.

Junto da escada recebeu-me um criado tão grave e tão automático como se o meu regresso para junto dos parentes fosse um fato que ele presenciasse todos os dias. Introduziu-me numa sala, mas tampouco ali pisavam o tapete os pés impacientes do cerimonioso dono da casa.

– Ah! pensei, talvez haja alguma outra regra de etiqueta que eu tenha esquecido. Sem dúvida, meu primo espera-me no salão a fim de me dar o tempo necessário para que me lave e escove e esteja apresentável à hora do jantar.

– Acompanhe-me ao quarto que me destinam, disse a outro criado que tomou conta da minha manta de viagem.

Segui este novo guia resignadamente, observando que me hospedavam um pouco alto; mas quando me encontrei só pensei que talvez tivesse sido precedido por alguns outros hóspedes que ocupassem quartos mais ricamente mobiliados que o meu.

Quando terminei apressadamente a minha toilette, toquei a campainha, apareceu novamente o criado e pedi-lhe que me acompanhasse ao salão. Pelo caminho, fui construindo algumas frases discretas para entabular conversação com os diferentes membros da minha parentela. Eu não sou fluente, mas quando quero ser agradável consigo-o algumas vezes e naquele dia estou bem certo de que não teria representado mal o meu papel.

O criado abriu a porta e retirou-se ato contínuo, fechando-a. Em vez de fazer surpresa, fiquei eu próprio surpreendido ao encontrar-me só numa enorme sala, mal-iluminada, se é que não estava completamente às escuras.

Mas não, não me encontrava só, porque numa poltrona, junto do fogão, estava preguiçosamente reclinada uma menina em cujo rosto se refletiam as labaredas vermelhas da chaminé. Era uma rapariga de quinze ou dezesseis anos, modestissimamente vestida com uma bata de lã escura, que estava estropiando a vista lendo à luz do fogão. Tinha a cabeça encostada ao espaldar da poltrona, coberta com as madeixas de abundante cabeleira loira, e sustentava o livro aberto à altura dos olhos.

A jovem estava tão absorvida com a leitura, a porta tinha sido aberta tão de mansinho e a sala era tão grande, que me vi obrigado a tossir uma ou duas vezes para chamar a sua atenção. A princípio assustou-se; depois, deixando cair o livro, endireitou-se na cadeira, estendeu a mão e pegou num objeto que eu não tinha visto ainda e estava junto da poltrona: uma muleta. Apoiando-se nesta muleta, levantou-se, e ficou de pé diante de mim…

A pobre menina era coxa.

Apresentei-me eu próprio e o meu nome tranqüilizou-a. Convidou-me a sentar-me dando-se ares de pessoa da casa. Levantou o livro, pô-lo sobre os joelhos, e depois, metendo a mão num dos ângulos da poltrona, tirou uma rede em cujas malhas aprisionou os seus abundantes cabelos.

Terminada esta operação ficou com as mãos apoiadas nas muletas (porque tinha duas) como se se preparasse para me deixar só logo que eu lhe dissesse que ela era ali de mais.

– Tompson, disse-me como quem se desculpa, julgou sem dúvida que não estava aqui ninguém. Eu estou sempre nos aposentos dos meninos, salvo quando os senhores saem. Então desço ao salão para me entreter um pouco lendo.

– O sr. Rutland não está em casa? perguntei.

– Não; foram jantar fora.

– Deveras? Então seu pai não recebeu a minha carta!…

Ouvindo estas palavras, ruborizou-se.

– Eu não sou filha de Rutland. Chamo-me Teresa Ray, e sou órfã. Meu pai, que era parente afastado e amigo do sr. Rutland, recomendou-me a este à hora da morte… e o sr. Rutland trouxe-me para sua casa… por caridade.

Pronunciou esta última frase com amargura; mas, depois de morder os lábios, continuou:

– Nada sei relativamente à carta de que me fala; mas parece-me ter ouvido dizer que esperavam alguém… Sem dúvida não julgavam que o senhor chegasse esta noite, visto que toda a família foi jantar na casa de uns vizinhos.

– Bonita conclusão! disse eu com os meus botões. E pus-me a refletir na afetuosa recepção que me fizera meu primo Jorge. Se era eu que ele esperava, não havia dúvida de que a carta tinha chegado ao seu destino, e portanto sabia, não só o dia, mas também a hora da minha chegada.

– Oh Jorge, meu bom primo, tu não mudaste!

Enquanto assim pensava, notei que a jovem tinha fixos em mim os seus grandes olhos observadores, cuja curiosa expressão podia facilmente traduzir. A ter coragem para tanto, ter-me-ia dito:

– Também eu leio claramente no seu pensamento, senhor viajante, e tenho pena do senhor. Veio aqui com uma esperança que verá frustrada. Melhor teria feito demorando a sua visita até que o convidassem. Que vem o senhor fazer aqui? Se eu pudesse sair desta casa nunca mais tornaria a pôr os pés aqui. Se nesse mundo donde o senhor vem eu visse qualquer caminho aberto, tenha a certeza de que iria por ele com decisão, apoiando-me nas minhas muletas. Juro que não tornaria a ter o gosto de ver-me aqui, nem sequer para roubar uma hora ao aborrecimento nesta magnífica poltrona estofada.

Como pode dizer tanto um olhar? Eis um enigma; mas o fato é que o olhar de Teresa Ray me dizia tudo isso, palavra por palavra. Um laço de simpatia unia-nos rapidamente.

– Miss Ray, disse-lhe, que pensará de um homem que depois de passar quinze anos da sua vida no estrangeiro, tem o descaramento de voltar à pátria sem um xelim no bolso? Não lhe parece que merece ser apedrejado?

– Eu supunha isso mesmo, respondeu ela movendo a cabeça e dirigindo-me outro dos seus penetrantes olhares. Eu supus isso mesmo quando vi que lhe destinavam um dos piores quartos, reservando os melhores para as visitas que são esperadas na semana próxima. No dia de Natal a casa estará cheia… Eu não posso admitir o que o senhor me disse.

– Que é que não pode admitir? perguntei.

– Que não tenha um xelim no bolso. Rir-se-iam todos à sua custa e os criados sabê-lo-iam logo. Eu tenho um guinéu que a boa lady Thornton me deu no dia do meu aniversário e se me permite que lhe empreste, dar-me-á com isso muito prazer. Não me faz falta e o senhor restituir-me-á quando for rico.

Fez-me este oferecimento com tanta gravidade, que tive de fazer um esforço para não desatar a rir. A pequena tomava-me evidentemente sob a sua proteção e, adivinhando para mim afrontas que se considerava no dever de evitar, amparava-me com a sua experiência e com a sua superior perspicácia.

Pareceu-me muito divertido o deixar-me proteger por ela e entregar-me àquele amável interesse que lhe despertava a minha situação financeira.

Pelo que, deixando-me arrebatar por uma intimidade espontânea, lhe respondi com a maior gravidade:

– Agradeço o seu oferecimento e aceito-o. Tem aí o guinéu?

– Não, mas vou buscá-lo. E apoiando-se nas muletas saiu para voltar poucos minutos depois com uma bolsinha que me entregou. Abri-a e encontrei um guinéu cuidadosamente envolvido em papel prateado.

– Sinto não ter mais, disse-me ao ver que eu metia a bolsinha na algibeira, mas recebo tão poucos presentes deste gênero!

Nesse momento, o orgulhoso criado que me tinha acompanhado até à porta do salão, veio anunciar-me que tinha o jantar na mesa.

Quando acabei de jantar tive o desgosto de saber que a minha pequena benfeitora estava junto dos meninos. Não a tornei a ver naquela noite e dormi até o dia seguinte pela manhã.

II

No dia seguinte, ao almoço, apresentaram-me a toda a parentela. Encontrei primos e primas tal como os havia imaginado. O primo Jorge convertera-se num grave chefe de família.

– Alegra-me muito tornar a ver-te, disse apertando-me a mão; mas compreendi que não se alegrava em demasia. A mamã Rutland fez-me também o mais cortês acolhimento… de palavras. Os jovens priminhos trataram-me com certo desdém do melhor tom. Era preciso ser mais cândido do que me havia julgado na véspera a minha protetora para não perceber o lugar que me reservavam… debaixo da mesa.

Eu estava condenado a esse papel que só se aceita no caso de uma extrema necessidade: o papel de uma personagem sem importância.

Jorge entreteve-se alguns dias mostrando-me as suas extensas propriedades; mas quando chegaram hóspedes de mais consideração fiquei abandonado aos meus próprios recursos para passar o tempo. As filhas de Rutland tinham-me dispensado a honra de aceitar a minha escolta quando passeavam a cavalo; mas desde que tiveram outros cavaleiros mais distintos à sua disposição já não houve cavalo para mim. Quanto à castelã, minha nobre prima, dissimulava mal o aborrecimento que lhe causava a minha importuna visita, se bem que nem Jorge nem sua mulher ocupassem a alta situação que a herança de meu tio lhes conferia no condado. Não eram, precisamente, nobres de fresca data, mas eram de uma grande mesquinhez. Por isso sentiam-se humilhados tendo na sua nobre companhia um parente pobre que se roçava por eles e lhes chamava primos. Confesso que experimentava um prazer maligno em fingir que não percebia o papel que desempenhava em Rutland-Hall. Tudo me parecia bem, inclusive as chufas que me dirigiam, e em vez de me incomodar, esforçava-me por parecer cada vez mais amável, agradecendo todas as atenções de que não era objeto. Bem sabia eu que não era este o melhor meio para me tornar simpático aos olhos de meus primos. Mais lhes teria agradado um pouco de suscetibilidade da minha parte; mas eu era tão feliz desfrutando a hospitalidade daquele suntuoso castelo! Ele era como que o porto de salvação após uma viagem tormentosa… E vendo-me tão bem acolhido por tão carinhosos parentes, como não havia de sentir-me de bom-humor!

Além disso, eu desfrutava tanta liberdade como os outros hóspedes de Rutland-Hall, que de moto próprio escolhiam as suas distrações e dispunham do seu tempo. Quando me aborrecia com a palestra do salão, ia para os aposentos dos meninos, onde cresciam cinco rebentos da família. Havia uma hora do dia em que nem o papá, nem a mamã, nem os irmãos mais velhos entravam naquele pequeno reino: às cinco da tarde, quando os meninos tomavam chá. Eu tinha conquistado pouco a pouco a boa vontade de Jenny, a criada particular dos priminhos, muito sensível aos presentinhos que eu lhe fazia intencionalmente, e muito discreta quando sabia que a sua discrição seria recompensada. Até os próprios pequenos me tinham um certo afeto, conquanto não fossem precisamente uns anjos; mas eu tinha encontrado o caminho dos seus corações presenteando-os com livros de estampas, polichinelos, bonecas e guloseimas que adquiria com o guinéu de Teresa Ray. Esta admirava-se das coisas que eu comprava com uma única moeda de ouro e elogiava a minha habilidade para obter tudo tão barato.

Por má que fosse a minha situação em Rutland-Hall a de Teresa Ray era simplesmente intolerável.

Uma alma menos resoluta teria sucumbido, e uma natureza menos delicada teria perdido toda a doçura com que o céu a tivesse dotado. Os criados não tinham com ela a menor atenção, os pequenos achincalhavam-na, sacrificando-a a todos os seus caprichos. Só Jenny tinha certa simpatia pela pobre rapariga, mas apenas a defendia da perseguição dos seus tiranos quando podia fazê-lo sem se expor também à sua tirania.

Infelizmente não estava autorizada a fazê-los entrar na ordem pelo único meio que teria impressionado aqueles meninos mal-educados. Pelo que respeitava às filhas mais velhas de Rutland, a presença momentânea da órfã ou a simples menção do seu nome bastavam para perturbar a paz de suas almas.

– Que havemos de fazer desta rapariga, ouvi dizer um dia à senhora Rutland, falando com uma de suas filhas. Se não fosse coxa poderíamos obrigá-la a ganhar o pão de uma maneira ou de outra; mas necessitando de muletas para andar…

A senhora de Rutland não acabou a frase, mas o seu pensamento ficou clarissimamente expresso com um desdenhoso movimento de ombros e certo trejeito com que os seus lábios supriam perfeitamente as reticências da linguagem.

Como suportava Teresa Ray tudo isto? Sem se queixar nem protestar, sem lágrimas e sem entreabrir os lábios. Sob o seu simples traje negro havia uma verdadeira armadura de resignação angélica. A experiência parecia demasiado amarga, mas ela submetia-se sem humildade degradante, com uma expressão tranqüila no olhar, que parecia dizer:

– Por muitos que sejam os sofrimentos que me imponham saberei calar-me, porque nada me devem e talvez sofresse mais em outra parte. A gratidão impede-me de me queixar.

Casualmente encontrei pela segunda vez a minha pequena benfeitora um dia ou dois depois da nossa primeira entrevista no salão. Nos terrenos anexos ao solar reatamos a conversação do dia anterior, e havia para mim tal doçura na sua simpatia, que acrescentei mais alguns capítulos à novela da minha falta de recursos e de todas as dificuldades que me esperavam no país natal, onde quinze anos de ausência me faziam quase estrangeiro. Com que encantadora credulidade me escutava! Que belos conselhos me deu! Com que amável interesse me ofereceu, ao separarmo-nos, dar-me outros conselhos em melhor ocasião!

Ainda mesmo que meu querido primo e minhas simpáticas primas não me tivessem abandonado tanto, privando-me do prazer de os acompanhar nas suas excursões, eu teria preferido sempre o prazer de procurar Teresa Ray nos seus passeios solitários ou nos aposentos dos pequenos, onde praticava o meu sistema de corrupção com o mesmo cuidado que empregaria se se tratasse de uma intriga eleitoral. A conversação em passeio agradava-me muito mais que na barulhenta sala dos pimpolhos, onde mantinha a minha popularidade e a minha influência com tão pouco dinheiro. Mais de uma vez me esqueci dos rigores da estação escutando Teresa Ray que, coxeando nos atalhados da horta, queria resolver algum novo problema que eu propunha para aprender com ela a arte de conseguir com pouco dinheiro uma existência agradável. Um dia parou subitamente e cravando as muletas na neve endurecida, disse-me:

– O senhor devia deixar Rutland-Hall e procurar trabalho… Oh! se eu pudesse trabalhar…

III

Chegou a Rutland-Hall um tal sir Harry. Como não estou muito certo da ortografia do seu outro apelido, creio que não há necessidade de escrevê-lo. Era um solteirão rico, pertencente a uma família nobre, e a castelã observava com interesse todos os seus atos e movimentos. O tal sir Harry teve o capricho de ir todos os dias até a horta fumar um charuto, e encontrou mais de uma vez a minha pequena benfeitora, a qual notou que ele a olhava com modo muito singular, o que acabou por provocar uma pudica exaltação na cor do seu rosto, tão lindo como fresco. Torceu caminho, como a lebre que espera despistar o caçador; mas sir Harry soube encontrá-la de novo e assediou-a com os seus galanteios, cheios de lugares-comuns. Chegou o caso aos ouvidos da senhora de Rutland, que inventou uma porção de trapalhadas a propósito da pobre órfã. Ignoro as tristes acusações que lhe dirigiu, dando-lhe por fim uma reprimenda que durou uma hora; mas nessa noite, quando entrei nos aposentos dos pequenos com uma bola de borracha para Jack, o mais novo e o menos tirano da família, percebi pelos olhos inchados de Teresa Ray que a pobrezinha chorara uma torrente de lágrimas. Contive-me para não dizer em voz alta o que pensava da senhora Rutland, e quando Jenny interveio para apaziguar o tumulto promovido porque o primo Guy não tinha trazido um presente para cada menino, eu disse a Teresa Ray:

– Então! Para quando guarda a sua filosofia?

Doravante não admitirei nenhuma reconvenção se continuar a dar-me tão mau exemplo.

Teresa não me respondeu uma única palavra nem desviou o olhar do guarda-fogo. O golpe tinha sido rude e a ferida profunda. Ah! sr. Harry e senhora de Rutland, com que prazer eu teria feito rolar as vossas cabeças naquele momento.

– Teresa, disse-lhe, a menina ainda tem um amigo, embora de fraco valimento.

Então dirigiu-me uma dessas respostas mudas que eu estou bem certo de ter traduzido literalmente e que dizia:

– Tem razão; deposito no senhor toda a confiança, mas neste momento não posso falar.

Recobrou, contudo, gradualmente a tranqüilidade e aproximou-se da mesa para tomar a sua xícara de chá com biscoitos, enquanto eu consertava o desmantelado arco de Tommy.

Tommy era o mais turbulento e malicioso daqueles selvagenzinhos, um pequeno chefe bárbaro, a quem, dois dias depois, eu teria dado uma boa surra. Lembrou-se de dizer a Teresa uma das suas graçolas mais pesadas. Tirou-lhe as muletas, e servindo-se delas, imitando a pobre coxa, saiu da sala e só voltou depois de as ter feito em pedaços.

Foram inúteis todas as súplicas de Teresa ao maldoso fedelho. A pobrezinha ficou prisioneira durante as festas do Natal, sem poder fazer outra coisa que contemplar os campos através dos vidros da janela.

Tommy ria-se da sua resignação… mas talvez eu faça mal acusando Tommy.

Suspeitava então e continuo suspeitando que outra cabeça, que não era a daquele diabinho, era a inventora da conspiração contra o pobre pássaro, a fim de que não saísse da sua gaiola.

O pássaro definhava no seu ninho, mas quem se compadecia dele? Talvez Jenny, que por compaixão ou porque participava das generosidades do meu inesgotável guinéu, se atreveu a lamentar em voz alta a situação da prisioneira e a condenar o procedimento de Tommy.

Não quero fazer acreditar ao leitor que o inesgotável guinéu era uma dessas milagrosas moedas de ouro que, nos contos de fada, recheiam a bolsa de Fortunato. Sem explicar ainda todo o mistério, direi contudo que havia, como eu, outra pessoa que se interessava pela órfã, e essa pessoa era a mesma lady Thornton que lhe havia dado o guinéu, a qual era, não só bastante rica, mas também bastante caridosa para, se eu lhe tivesse pedido, me ter emprestado mais alguns guinéus.

Lady Thornton vinha de vez em quando a Rutland-Hall e eu tinha feito todo o possível para conquistar sua simpatia.

Durante a prisão de Teresa Ray teve lugar uma dessas visitas e quis o acaso que eu me encontrasse só no salão quando ela entrou. Vinha convidar toda a família e todos os seus hóspedes, grandes e pequenos, a festejarem a noite de Natal no seu castelo, situado a três ou quatro milhas de Rutland-Hall.

Aproveitei a ocasião para lhe contar a história das muletas de Teresa.

– Que pequeno travesso! Que pequeno travesso! exclamou. É preciso que Teresa tenha outras muletas para a festa do Natal.

A boa lady fixou em mim um olhar perscrutador através das lentes dos seus óculos.

– Que espécie de interesse lhe merece Teresa? perguntou.

– Eu e Teresa somos dois bons amigos.

– O senhor e Teresa! Permita-me que lhe peça explicações, porque ignoro se o senhor sabe que Teresa Ray tem dezoito anos.

– Dezoito anos? Deveras? Pois eu julgava-a ainda uma criança!

– Teresa não é uma criança, sr. Guy Rutland. Teresa é já uma senhora.

Teresa Ray uma senhora! Não pude deixar de rir. Como assim? A minha pequena benfeitora, a minha mamãzinha… O meu riso devia ter escandalizado lady Thornton, mas Christina Rutland, que entrou nesse momento no salão, pôs termo à difícil situação.

No entanto, mais de uma vez durante o dia caí na gargalhada, lembrando-me do caso. Teresa Ray uma senhora! Que idéia!…

IV

Ainda faltavam cinco ou seis dias para a festa a que lady Thornton nos havia convidado, quando ocorreu um incidente curioso, que determinou um conselho dos donos da casa, na biblioteca, antes do almoço.

Chegara de Londres uma grande caixa endereçada a miss Teresa Ray, e quando a abriram encontraram um par de muletas.

E que par de muletas! Uma obra de arte no seu gênero, madeira esculpida, com incrustações de madrepérola, aplicações de prata e almofadinhas de veludo bordado.

Os srs. de Rutland estavam assombrados! Quem teria feito aquele magnífico presente? Quem? E quem, fora de Rutland-Hall, tinha ouvido falar de Teresa Ray? Recaíram suspeitas em sir Harry, e eu esfreguei as mãos de contente, rindo perdidamente, ao ter conhecimento do caso.

Mas o grande conselho ponderou ainda o seguinte:

Entregariam a Teresa Ray aquele rico presente? De modo nenhum; o melhor seria fingir ignorância do caso. Aquelas muletas não estavam em harmonia com a situação da órfã e podiam inspirar-lhe idéias absurdas! Apesar das suas novas muletas, Teresa Ray continuaria prisioneira. Ocultaram a caixa e ninguém disse palavra sobre a existência dela.

Esperei alguns dias para ver se os srs. de Rutland reconsideravam, mas tudo foi inútil. O pássaro continuava definhando na gaiola, sem que nenhuma mão amiga se mostrasse disposta a abri-la, restituindo-lhe a liberdade.

Enquanto toda a gente se movia em volta de Teresa Ray, preparando-se para gozar o convite de lady Thornton, Teresa continuava sentada, costurando aventais para as criadas ou remendando as meias dos pequenos, que a viam impávidos, arrastando-se pela sala ou dirigindo os seus tristes olhares para a janela. Mostravam-lhe as roupas que estreariam na noite da festa e os laços com que adornariam os chapéus. Naquele dia, como nos restantes do ano, Teresa ficaria só em casa com o seu vestidito preto.

Suspirando, Teresa tinha-se despedido daquela festa, para a qual tinha sido inutilmente convidada, assim como os que lhe diziam: i…˜Despacha-te, Teresa, que se vai aproximando o dia; ainda falta pôr estas fivelas nos sapatos ou fazer um laço para o vestido. No entanto, estas palavras eram de todo desnecessárias, porque a pobre mamãzinha trabalhava com a atividade de uma abelha.

A ninguém ocorria dizer a Teresa:

– E tu, que vestido vais usar?

Como imaginar que Teresa podia ir à festa com a sua perna coxa e sem muletas?

Contudo, alguém pensava nisto; alguém que tinha dito: um vestido novo de seda irá divinamente em Teresa, e um laço cor-de-rosa ou azul destacará muito bem entre os seus cabelos louros.

No próprio dia da festa eu tive que tratar de um assunto urgente na cidade mais próxima, e à tarde, antes de regressar a Rutland-Hall, entrei em casa da melhor modista para trazer certa caixa de papelão.

– Quer ver o vestido da senhora?

Abriram a caixa e desdobraram um vestido de seda com aplicações de rendas, que eu não posso descrever em termos técnicos, mas em que pude admirar a elegância do corte e a harmonia das cores.

– Desculpe-me, mas parece-me que a saia está um pouco larga.

– Como o senhor disse que era para uma menina de dezoito anos e elas agora vestem tal qual as mães…

Era já tarde quando voltei a Rutland-Hall e vi partir as carruagens repletas de alegres convidados. Subi rapidamente aos aposentos dos pequenos com a minha caixa debaixo do braço e encontrei Teresa só com Jenny, a fronte apoiada na mão, contemplando melancolicamente a alcatifa cheia de pedacinhos de gaze e seda.

Vendo-me, o seu rosto iluminou-se.

– Ah! disse-me, pensei que tinha ido com os outros.

– Ainda não, mas não tardarei a reunir-me a eles e venho buscá-la.

– Eu! eu! exclamou tristemente; bem sabe que não posso ir, porque ainda mesmo que tivesse muletas não tinha o que vestir.

– Um amigo mandou-lhe um vestido e eu sei, também, que há muletas. Jenny tome conta desta caixa e ajude a vestir a menina Teresa, porque a carruagem espera-nos.

Teresa ruborizou-se e os olhos marejaram-se-lhe de lágrimas; depois empalideceu sufocada pela comoção, enquanto Jenny, a quem eu tinha feito um bom presente de Natal, se extasiava diante do conteúdo da caixa.

– Teresa, disse-lhe pela segunda vez, não há tempo a perder; estarei de volta dentro de dez minutos.

E deixei-a trêmula e docemente emocionada entregue a Jenny, que procedeu imediatamente à toilette.

Teresa estava já vestida quando eu entrei com as muletas incrustadas de prata e madrepérola.

Quando digo que Teresa estava vestida não quero significar que encontrei uma menina com o traje próprio das que vão a uma festa de crianças, mas que o vestido tinha transformado a minha mamãzinha, a minha pequena benfeitora numa jovem elegante, que, vendo a sua imagem no espelho, se assombrava da metamorfose.

Da Teresa de há pouco apenas conservava a linda cabecinha de cândida expressão… Quanto ao resto… sim, lady Thornton falara verdade quando me dissera que a órfã era já uma senhora.

Jenny, que até então tinha tratado Teresa como uma criança, não era a menos assombrada dos três, e eu ignoro o indefinível sentimento que sucedeu à minha surpresa, porque tanto tinha de medo como de satisfação.

Quando apresentei as muletas a Teresa, Jenny mirou-me como se eu fosse algum desses príncipes possuidores de talismã das Mil e uma noites.

Teresa experimentou as muletas e imediatamente atravessou a sala com passo seguro e desceu as escadas até ao vestíbulo. As muletas desapareciam entre as pregas da saia e as aplicações de tule que envolviam os seus alvos ombros.

Com que satisfação me lembrei naquele momento de certa bolsinha e de certo guinéu que ainda estavam ocultos na velha mala que eu tinha escolhido para ir passar uns dias em Rutland-Hall.

A carruagem esperava-nos. Era já tarde para eu me arrepender daquele ato preparado tão discretamente, apesar de me sentir muito mais tímido do que tinha previsto, ao ver-me frente a frente com a atriz, a quem até então havia atribuído um papel tão passivo.

Não descreverei o que se passou naquela memorável noite, nem a sensação que produziu a nossa entrada em casa de lady Thornton. Esta, deixando os hóspedes entregues à sua mortificação, aproximou-se de mim e disse-me ao ouvido maliciosamente:

– Estou ansiosa por ver o desenlace de tudo isto.

Teresa, sem refletir no caso, entregara-se desde o primeiro momento ao prazer de proporcionar uma surpresa aos seus amigos; mas não tardou em recear ter ofendido os srs. de Rutland. Mais de uma vez tremeu nos momentos mais alegres da festa, pensando na tempestade que, mais cedo ou mais tarde, se desencadearia sobre a sua cabeça. Meu primo Jorge e sua mulher não dissimulavam o seu desgosto, e quando chegou a hora do regresso a Rutland-Hall, tivemos a sorte de encontrar ainda a carruagem que nos trouxera, porque não nos ofereceram lugar nas da família.

Quando chegamos fomos avisados de que os srs. de Rutland nos esperavam na biblioteca, onde os encontramos com cara de poucos amigos. A senhora de Rutland encarregou-se de Teresa, deixando-me entregue ao seu caro esposo.

Não quero entrar nos detalhes desta explicação.

– Cavalheiro, disse-me ao concluir o meu amável primo, sofremos demasiado tempo a tua insolente intervenção, e peço-te que saias daqui amanhã.

– Primo Jorge, respondi, não tenho inconveniente em partir já amanhã, mas com a condição de Teresa Ray ir comigo se assim o desejar.

Olhou-me estupefato.

– Sabes, disse-me, que é uma órfã sem um pêni, que eu recolhi por caridade?

– Quero fazer dela minha mulher, se tiver a felicidade de Teresa aceitar a minha mão, repliquei solenemente.

– E uma vez casados, disse-me com ironia, com que pensam viver? Do ar ou à custa da família?

– Tem a certeza de que não será à tua custa, respondi-lhe, lançando-lhe um olhar que nada tinha de humilde. Conheço-te bem, Jorge Rutland.

– Palavras, palavras! Pois bem, não te esqueças de que eu lavo as minhas mãos relativamente ao que possa suceder-te e a Teresa Ray.

– Amém, respondi, e dando uma volta sobre os calcanhares, retirei-me para o meu quarto.

No outro dia muito cedo, bati à porta que dava ingresso aos aposentos das crianças e pedi a Jenny

que acordasse miss Ray e lhe dissesse que eu a esperava no jardim.

– Era dia de Natal, dia de paz e de amor, e conquanto não possa dizer que a paz reinava no meu coração quando abracei com o olhar a paisagem branca de neve, devo confessar que não sentia ódio por ninguém.

Teresa não tardou, mas a mesma Teresa de antes, com o seu vestidinho preto e um tanto envergonhada das suas novas muletas. Senti uma grande alegria ao vê-la assim, porque a linda rapariga que eu criara na noite anterior me fazia medo. Contudo, quanto mais a olhava mais obrigado me via a reconhecer que não era já a simples Teresa a quem tinha tratado como criança antes da metamorfose. Mudara muito, ou talvez fosse em mim que a mudança se operara… ou nos

dois… Apesar de tudo, tal mudança nada tinha de desagradável.

Saímos juntos do jardim e tomamos por um dos nossos atalhos favoritos, onde abrimos mutuamente os corações. Quando voltamos à casa, disse a Teresa:

– Em conclusão, Teresa, não tem receio de viver comigo na miséria? Consente em correr esse perigo?

Teresa respondeu meneando a linda cabecinha.

– Prepare-se, pois, para sairmos daqui depois do almoço. Não traga nada, Teresa. Ainda me resta algum dinheiro do troco do guinéu e com ele compraremos tudo o que for necessário.

Teresa foi buscar o chapéu e voltou. Partimos e ao cabo de uma hora estávamos casados. Rezamos juntos na igreja, um ao lado do outro, e depois voltamos a Rutland-Hall para fazermos as nossas despedidas.

Eu creio que nos tomaram a mim por um doido e a ela por uma estouvada, pelo menos até meu primo Jorge receber a carta-ordem, que eu lhe enviei no dia seguinte contra um banqueiro de Londres, para que cobrasse a importância da despesa feita por minha mulher na sua casa.

Então, e pelo que me dizia respeito, começaram a mudar de opinião.

Percorri o continente com minha mulher. A enfermidade dela não era incurável: o tempo e cuidados inteligentes tornaram inúteis as muletas.

Ninguém, pois, estranhará, que ao regressarmos à Inglaterra os nossos parentes tivessem dificuldade em reconhecer Teresa na senhora Guy Rutland, casada com um milionário. Lady Thornton acolheu-nos com a sua graciosa amabilidade… Mostrei-lhe o milagroso guinéu que ainda conservo muito bem guardado e a que chamo o dote de Teresa. Será necessário dizer que as preciosas muletas incrustadas de prata e madrepérola não tinham sido um presente de sir Harry?

Também as conservo como uma relíquia de família.

Extraído do site A Garganta da Serpente.

A fotografia do ódio (Nelson Rodrigues)

É uma fotografia de Manchete, e com a agravante: — colorida. Lá está o sangue coagulado. O olho enorme, que ninguém fechou; e os intestinos escorrendo, no seu puro escarlate; e as mãos entrevadas pela morte. Morreu, não há dúvida, morreu.

E odeia. Morreu com esgar de ódio, com a boca aberta em grito. Nem sei se é de um lado ou de outro; se é guerrilheiro ou não. Morreu, mas o ódio sobrevive. É um cadáver e continua odiando. Olho a fotografia e vejo tudo. Não é americano, não pode ser americano. Tem de ser do outro lado, e explico.

O mistério de Manchete está na impressão, em cores. Seus anúncios são graficamente exemplares. Lembro-me de uma salada de página inteira. A alface, as fatias de tomate, os frios, a maionese, tudo, tudo é perfeito, irretocável. Manchete imprimiu o cadáver vietnamita com o mesmo virtuosismo da salada.

Mas eu digo que devia ser guerrilheiro pela miséria dentária. Eram cacos, não dentes. Dirá alguém que de um lado e do outro há maus dentes. Seja como for, instala-se em mim a certeza, talvez pueril, mas obsessiva: — são dentes de terrorista.

Mas não falemos mais na meia dúzia de cacos pendurados nas feias gengivas. O que realmente apavora é o ódio. Imaginem vocês que acabo de receber a carta de uma leitora. É uma brasileira que me escreve e não assina. A meu ver, não há carta anônima intranscendente. Se não tem assinatura, passa a valer como um documento trágico. Desde os velhos folhetins, a carta anônima é de uma veracidade apavorante.

A leitora fala da moça chamada Gisela, que morreu de gangrena. E morreu porque saiu, de hospital em hospital, e não encontrou um médico, uma enfermeira, um estudante, um porteiro. Teria sido salva, sem maiores problemas, se alguém a atendesse em tempo. Mas vinha um médico, olhava o braço partido e dizia: — “Não é urgente”. E a mandava embora.

Qualquer barbeiro diria: — “É de urgência, sim”. Mas não houve, repito, um médico que reconhecesse o óbvio. Não houve uma enfermeira, nem um funcionário. Há uma escola que se chama, pomposamente, Ana Nery. Pois as enfermeiras, práticas ou formadas, as serventes, ninguém teve pena, simplesmente pena. Temos pena de uma cachorra manca. E ninguém teve pena da gangrena em flor.

No fim, não havia a menor dúvida. Caso tão nítido, tão límpido, tão inequívoco. Qualquer um, a olho nu, veria a cor da gangrena e da orquídea. Mas os médicos, de vários hospitais, de todos os hospitais, continuavam a negar, de pés juntos, a gravidade e a urgência. Até que a menina morreu, apenas morreu, e nada mais.

E, então, a leitora me escreve. O que me impressionou na carta foi o ódio. Um ódio só comparável ao do cadáver que continuava odiando. Sempre digo que o verdadeiro amor continua para além da vida e para além da morte. Mas vejo o cadáver da guerra. E sinto que também o verdadeiro ódio dura mais que a vida e dura mais que a morte. Minha leitora viu a notícia no jornal. E conheceu, não a irritação efêmera, não a raiva que passa, não o protesto que se esquece. Não, não. Ela toma uma posição radical. É uma paixão que não conhecia. E, no seu ódio, pergunta se ninguém vai fazer nada. Nada, nada?

Sim, ninguém fará nada, nada. Exatamente nada. Mas a leitora tem um tesouro de ódio, íntimo tesouro, que não sabe como aplicar ou contra quem aplicar. Odeia, mas a quem? E o pior é que morreu uma só e repito: — uma só Gisela. Se fossem duzentas, trezentas Giselas, talvez tivéssemos, por aí, um surto de piedade convencional e enfática. Mas uma só gangrena é de tal insignificação numérica que comove de uma maneira muito epidérmica e ineficaz.

E me espanta o nosso vão esforço. Pagamos toda uma imensa organização, toda uma estrutura gigantesca. E sabem para quê? Para que um médico olhe uma gangrena inequívoca, óbvia, evidentíssima, e diga: — “Não é de urgência”. Ora, eu sou um obsessivo. E uma das minhas idéias fixas é, justamente, a seguinte: — o médico ou é um santo ou um gângster. Meu Deus, não vejam nas minhas palavras nem exagero, nem caricatura.

Um médico tem responsabilidades que ninguém tem. Estou dizendo o óbvio, mas paciência. O médico só devia ser médico depois de sofrer uma série de provas, de testes vitais crucialíssimos. O sujeito teria de passar três anos nos cafundós da África, tratando de negros leprosos. Como é que se pode passar um atestado de óbito sem tremer? Diz um amigo meu que o sujeito que assina um atestado de óbito substituiu Deus e O antecipa.

Mas não se aflijam. Os médicos que não identificaram a gangrena, que não enxergaram o óbvio e despacharam alegremente a moça continuarão a fazer a barba, a escovar os dentes, a namorar, a assobiar etc. etc. Mas volto ao cadáver que mereceu de Manchete uma impressão de salada. Eu falei de dois ódios e passo a um terceiro. Desta vez é um chofer de praça.

Imaginem um chefe de família, de origem italiana. Mas a origem pouco importa. Era uma criatura doce, cálida, generosa. Um dia foi preso porque não tinha, na hora, a sua identidade. Sua mulher, seus oito filhos, estão em casa, esperando para o jantar. Mas ele não vem porque foi atirado no fundo de um xadrez. Passou lá, entre marginais, 24 horas, e gritando. Digo eu que o verdadeiro grito parece falso. E o motorista gritava como se estivesse imitando, apenas imitando a dor da carne ferida.

Eis o que aconteceu: — fora estuprado por seis ou sete marginais. Saiu do xadrez, foi para casa. Empurrou a mulher, entrou no quarto e trancou-se. Lá, meteu uma bala na cabeça. Morreu de ódio, morreu odiando, como a fotografia de Manchete. E, como a leitora, não sabia a quem odiar. Os marginais eram, decerto, os menos culpados. Episódios assim são uma rotina que jamais variou. Isso pode acontecer com o filho, o pai, o irmão de qualquer um; pode acontecer com qualquer um. A vítima pode uivar três dias e três noites. Ninguém se mexe na delegacia.

A nova peça de Plínio Marcos, Barrela, que o Teatro Jovem ia levar, se passa num xadrez. Seis ou sete marginais estão em cena. E, de repente, entra mais um preso, um adolescente, preso porque brigara num bar do Leblon. Os outros o agarram, e qualquer um pode imaginar o resto. Pergunto: — que faremos nós? Desta vez, foi tomada a providência justa: — interditou-se a peça. Obscena é a denúncia e não a monstruosidade. A moral está salva, porque se emudeceu uma peça. E o ser humano continuará sendo violentado em cada xadrez, eternamente. Porque o nosso sentimento é impotente, como o ódio do chofer.

[20/3/1968]

Este texto foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source.

A Cartomante (Machado de Assis )


Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de Novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: “A senhora gosta de uma pessoa…” Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade…
— Errou! Interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria…
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois…
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe.

Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muito cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se, Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.

Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.

— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor.

Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vente e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.
Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.

Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar comprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam.

Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.

Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.

Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.

— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com a das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a…

Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.

No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: “Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora.” Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.

— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel.

Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando na pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verosímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.

Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda peior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. “Vem já, já à nossa casa; preciso falar-te sem demora.” Ditas, assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéa, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.

— Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim…

Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.
Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar a primeira travessa, e ir por outro caminho; ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa… Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos… Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:

— Anda! agora! empurra! vá! vá!

Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras cousas; mas a voz do marido sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta: “Vem já, já…” E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar… Camilo achou-se diante de um longo véu opaco… pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários; e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: “Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia…” Que perdia ele, se…?

Deu por si na calçada, ao pé da porta; disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para os telhados do fundo. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.

A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:
— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto…
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não…
— A mim e a ela, explicou vivamente ele.
A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.
— As cartas dizem-me…
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável mais cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita… Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.
— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.
Esta levantou-se, rindo.
— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato…
E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.
— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?
— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.
— Vejo bem que o senhor gosta muito dela… E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu…
A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.
— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade… De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?
Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

Extraído do Contos Fantásticos.

4 de outubro, 38 anos sem Janis…