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Archive for fevereiro \22\UTC 2008

Falamos de carambolas (Rubem Braga)

Falamos sobre sorvetes, eu disse que tinha tomado um ótimo, de carambola.

– Não sei que graça você acha em carambola.

Falamos sobre carambola, discutimos sobre carambola; passamos a romã e finalmente a jambo; sim, há o jambo moreno e o jambo cor-de-rosa, este é muito sem gosto; aliás, a mais bonita de todas as mangas, a manga-rosa, não tem nem de longe o gosto de uma espada, de uma carlotinha.

Lembrei a história contada por um amigo. Mais de uma vez insistira com certa moça para que fosse ao seu apatamento. Ela não queria ir. Ele um dia telefonou: “Vem almoçar comigo, mando matar uma galinha, fazer molho pardo…” achou que a recusa da moça era menos dura. E insistiu mais:

– Vem… tem manga carlotinha…
– Manga carlotinha? Mentira!

E a moça foi. Refugaria talvez a promessa de casamento, se irritaria com um presente de jóia, mas como resistir a um homem que tem galinha ao molho pardo com angu e manga carlotinha, e faz um convite tão familiar? Ela não achou muita graça na história. Aliás não simpatizava com aquele amigo meu.

Ficamos um instante em silêncio. Comecei a mexer com o dedo o gelo dentro do copo. É um hábito brasileiro, mas até que não é meu uso; para falara verdade, acho pouco limpo; entretanto eu mexia com o indicador o gelo que boiava no uísque, e como seria insuportável não fazer a pergunta, ergui os olhos e fiz:

– Mas afinal o que foi que o médico disse?

E ela encolheu os ombros. Repetiu algumas palavras do médico, principalmente uma: Sindroma… teve uma dúvida:

– É síndroma ou sindroma?

Eu disse que francamente não sabia; apenas tinha a impressão de que a palavra era feminina; mas também podia ser masculina; era paroxítona ou átona, mas também podia ser proparoxítona ou esdrúxula; e, ainda por cima, tanto se podia dizer sindroma como síndrome, e até mesmo sindromo.

Em todo caso – juntei – não era bem uma doença; era um conjunto de sintomas… eu falava assim não para mostrar sabença, mas para mostrar a incerteza, e ignorância da verdade verdadeira – ou até uma certa indiferença por essas coisas de palavras. Confessei-lhe que há muitas palavras que evito dizer porque nunca estou seguro da maneira de pronunciar. Por outro lado há palavras que a gente só conhece porque são usadas em palavras cruzadas. Até existe uma cidade assim, uma cidade de que ninguém se lembraria jamais se não tivesse apenas duas letras e não fosse terra de Abrão ou cidade da Caldéia: UR. Se os charadistas do mundo inteiro formassem uma pátria, a capital teria de ser UR. Eu falava essas bobagens com volubilidade. Ela disse:

– Todo mundo, quando tem uma doença como esta minha, procura se enganar. Eu não.

Chamei-a de pessimista, aliás ela sempre fora pessimista.

– Não é pessimismo não. É…

Ela ia dizer o nome da doença, e tudo estaria perdido se ela pronunciasse aquele nome; seria intolerável.

– Você sabe muito bem o que é.

Chamei o garçom, pedi mais um uísque e mais um Alexander’s.

– Sabe quem eu vi hoje?

Era ela que mudava de conversa; senti um alívio. E falamos, e falamos… Eu admirava mais uma vez sua cabeça, os olhos claros, a testa, sua graça tocante. Era insuportável pensar que pudesse estar condenada. Dentro de mim eu sabia, mas não acreditava. Tive a impressão de que sua cabeça estremecia como uma flor. Um anjo se movera junto de nós, na penumbra do bar, era o anjo da morte; e a flor estremecera.

– Acho que o balé russo precisa se renovar…

Ela achava que não era justo falar em virtuosidade acrobática; o que havia era uma renúncia a todo expressionismo e a toda pantomima, a beleza do balé puro… E no meio da discussão me chamou de literato; mas juntou logo um sorriso tão amigo. Eu disse o que talvez já tivesse dito uma vez:

– Foi uma pena você não ter estudado balé.

Pensava no seu corpo de pernas longas na linha dura das ancas, nos seios pequenos, e a revia por um instante, toda casta, nua. Ela me censurou por beber tão depressa, e de repente:

– E esse seu bigode está horrível.

Por que você não toma conta de mim, não dirige meus uísques e meus bigodes?

Ela riu uma risada tão alegre como antigamente.

Como as pessoas costumam dizer,uma risada de cristal. Clara, alegre, tilintante como o cristal. O cristal, que se parte tão fácil.

Redescobrindo o WordPress

Me arriscando a dar uma dica batida a quem usa o WordPress ou outros serviços conhecidos para blogs como o Blogger ou Live Spaces, descobri recentemente no BlogAjuda, uma ferramenta muito útil para facilitar a vida antes de postar alguma coisa neste humilde periódico.

O Windows Live Writer é um gerenciador de conteúdo feito especialmente para ajudar nos posts de “rich content”, por falta de termo melhor em portugês.

Pra quem usa o Blogger pode até não fazer muita diferença, pelas ótimas opções de edição já disponíveis, mas pra quem está acostumado a sofrer para editar fontes e alinhar tabelas no WordPress, a ferramenta vem a calhar!

O produto é gratuito e muito tranquilo de usar, até por ser uma interface bem comum ao resto do pacote Office da Microsoft. Seguem algumas telas, retiradas também do BlogAjuda:

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Uma questão de gosto

Não são raras as vezes que lendo alguma coisa pela internet, ou simplesmente vendo TV me surpreendo com alguma declaração absurda, ofensiva ou simplesmente idiota. Não é um privilégio só meu pelo que sei. O que já é algum consolo.

Mas imagine o que você faria se pudesse proibir tudo que não lhe agrada. Tudo o que você acha imoral, nocivo e mal intencionado. O mundo poderia se tornar um lugar melhor. Ou não, parafraseando o já tão parafraseado Caetano.

A escola de samba carioca Viradouro, talvez concorde comigo. Como se sabe, finalmente se deu o desfeche do impasse sobre a legalidade do carro alegórico número cinco da escola, que retrataria o holocausto através da imagem de um Adolf Hitler arrependido sobre uma pilha de cadáveres. O carro foi finalmente proibido de sair na avenida após uma liminar concedida à Federação Israelita Fluminense (FIERJ), que declarou considerar a iniciativa inadequada sob a alegação de ser impossível retratar o terror do holocausto através de um carro alegórico. Como afirmou o próprio presidente da FIERJ, Sérgio Niskier: “não seria percebido pela população da forma que o Holocausto precisa ser”.

Mas desta proibição vem a pergunta: Quem define a maneira que algum fato histórico deve ser retratado? Nada contra a versão da FIERJ, que pelo o que me consta tem preocupações e opiniões coerentes com os fatos históricos. Mas tentando racionalizar a questão, mesmo que o carro da Viradouro seja de mal gosto, desde quando o direito de manifestar uma opinião se tornou uma questão de gosto?

Não foi a primeira vez que uma escola de samba teve que modificar um carro alegórico para evitar a ilegalidade. Como alguns devem lembrar não faz tanto tempo que um carro do carnavalesco Joãozinho Trinta representando o Kama Sutra foi proibido por ser considerado excessivamente erótico. Não faltaram razões para a proibição: imoralidade, perversão, a pureza das criancinhas que assistiriam o desfile, e é claro o mal gosto.

Mas o que hoje em dia é mal gosto e o que é ilegal ninguém sabe dizer com certeza. Falar palavrão pode ser mal gosto, mas se você direcionar o xingamento a alguma etnia ou grupo religioso em particular é contra a lei. E me adianto a agradecer que seja assim.

Mas como nem sempre esses limites são tão claros de se identificar, os limites da legalidade e do bom gosto continuam se chocando com certa frequência.

Humor negro é mal gosto? Dependendo do ponto de vista pode ser, mas certamente não é contra a lei. Assim como não considero que seja tentar retratar a morte de cerca de 6 milhões de pessoas ao ritmo de tamborim e cuíca. Talvez essa não seja a coisa mais sensível do mundo de se fazer, talvez nem mesmo seja entretenimento de qualidade.

Mas se fosse considerado ilegal qualquer forma de entretenimento de qualidade duvidosa, sobrariam espaços vazios na programação da nossa gloriosa e amada TV aberta. Eu particularmente, preferiria assistir uns 15 carros da Viradouro desfilando em seguida a ser forçado a assistir o novo BBB ou alguma novela global. Mas esta é só a minha opinião, não quer dizer que seja isso que a maioria prefira. Assim como não quer dizer que eu esteja certo ou errado em relação as minhas preferências televisivas.

A dúvida fundamental nesse caso e em outros do tipo talvez devesse ser o quanto da nossa própria capacidade de julgamento do que é moral ou não podemos ser capazes de sacrificar em troca da comodidade de permitir que alguém tome decisões em nosso lugar por uma simples liminar.

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A culpa é do sofá!

Vocês lembram daquela velha e infame piadinha do sofá? Aquela onde o marido depois de flagrar a esposa com um amante no belo sofá da sua sala, perdoa a esposa, mas troca o sofá impiedosamente? Por mais estranha que possa parecer essa solução, a ponto de ser tema para uma piada tão batida (e já sem graça), é bem mais comum de se ver em nossa atualidade do que se possa imaginar. Exemplifico:

No Pará medieval, de onde vieram as já quase esquecidas notícias da menina encarcerada na mesma cela de algumas dezenas de homens de monstruosidade comparável apenas à da bela governadora Ana Júlia, do delegado exonerado, dos vizinhos que assistiram as cenas pela janela da cela que despontava pra rua e alguns outros que não menciono por falta de espaço, os últimos acontecimentos ajudam a corroborar o argumento.

Diante de tantos depoimentos emocionados clamando por justiça, contra esta, dita “exceção”. Quase nos esquecemos que o estado violou com grotesca perversidade diversas leis. Prendeu uma menor de idade em uma prisão normal, colocaram a menina em cela masculina, isso tudo obviamente sem julgamento, sem avisar família, sem registrar ocorrência, sem chamar advogados, ignorando qualquer direito humano ou civil.

Diante de tudo isso a governadora do Pará, após uma série de demonstrações de incompetência e imoralidade resolve dar duas soluções geniais e derradeiras ao caso. Primeiro baixa decreto proibindo colocar meninas em celas masculinas, proibindo o já proibido. Como se a inutilidade e demagogia do decreto não fosse suficiente, resolveu anunciar que iria demolir a prisão onde o fato ocorreu! Melhor que trocar o sofá, é sem dúvida trocar a casa inteira.

Um assalto mal sucedido na virada do ano, deixou um conhecido médico carioca marcado pela violência. Os disparos que acertaram o médico e sua esposa foram feitos da garupa de duas motocicletas. O Sr. Governador do Rio de Janeiro, diante da polêmica não hesitou, correu aos jornais pra anunciar que pretendia proibir a viagem na carona de qualquer motocicleta, sem nem mesmo demonstrar preocupação com a inconstitucionalidade do ato. Porque e pra quê se mobilizar para resolver os já conhecidos casos de violência no Alto da Boa Vista onde o caso ocorreu? É muito mais fácil trocar o sofá. Desviar o assunto com polêmica, culpar esse móvel tão incômodo.

E como bem disse o Elio Gaspari em uma das suas colunas “Admitindo-se que cada moto-bandida seja usada em apenas dois roubos num ano, a relação das garupas com a delinqüência fica em 1,4%. É um índice inferior ao dos ministros de Lula que foram indiciados em processos criminais (10%)”. Nem por isso se ouviu falar de algum caso discriminando um deputado ou senador.

Ainda falando dos motoqueiros, podemos lembrar que em cidades como São Paulo, morre por dia pelo menos um motoboy. No entanto, ao invés de se discutir um código de trânsito mais humano, é mais cômodo culpar o próprio motoboy, que trabalha na maioria das vezes na informalidade, em troca de um ou dois salários mínimos para cruzar diariamente em zigue-zague o caos urbano da cidade para garantir o seu suado ganha pão.

Não há dúvida que vivemos em tempos estranhos, e em um país não menos estranho. País este que elegeu a hoje governadora Ana Júlia como a vereadora mais votada de Belém a bem pouco tempo atrás, e fez o mesmo com o hoje também governador, José Roberto Arruda, que também a pouco tempo foi o deputado federal mais votado do DF.

Faço notar que é o mesmo Roberto Arruda que renunciou admitindo participação na fraude do painel eletrônico do conselho de ética e decoro parlamentar. O mesmo que algumas semanas atrás demitiu o “gerúndio” por decreto, o mesmo que figurava na lista dos 100 brasileiros mais influentes de 2007 da Revista ISTOÉ.

E ainda nos surpreendemos quando parlamentares fazem mal uso de um cartão corporativo? Que distribuam dinheiro aos amigos através de uma ONG sem sede?

Assim como nossos austeros governantes, nós também trocamos nossos sofás com freqüência. Toda vez que premiamos a desonestidade com indiferença abrimos precedentes para novas imoralidades e nos tornando parte de uma grande piada pronta.

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