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Posts Tagged ‘Mestres do Terror’

O Sonho de Harvey (Stephen King)

Junto da pia, Janet se vira e subitamente vê seu marido, com quem se casou há quase 30 anos, sentado à mesa da cozinha, de camiseta e cueca branca, olhando para ela. Com uma freqüência cada vez maior ela encontra esse prócer de Wall Street nesse mesmo lugar, vestido dessa mesma maneira, nas manhãs de sábado: com os ombros caídos e o olhar vago, pêlos brancos nas bochechas, tetas masculinas estufando a frente da camiseta, cabelo eriçado feito uma versão envelhecida e emburrecida do Alfafa de “Os Batutinhas” (seriado norte-americano criado em 1922 por Hal Roach que fez sucesso entre as décadas de 20 e 40 nos EUA e se tornou filme em 1994. Alfafa, uma criança com cabelo espetado, é um dos personagens).
Na verdade, porém, ela não acredita que essas aparições silenciosas nas manhãs de sábado se devam a sintomas prematuros da doença, pois em todos os dias da semana, Harvey Stevens está pronto para sair e enfrentar o mundo às 6h45. É um homem de 60 anos que parece ter 50 (bem, 54) quando veste um dos seus ternos mais elegantes e que ainda domina como poucos a arte de armar uma transação, vender com lucro ou comprar barato.
Não, ele está só treinando para envelhecer, pensa ela, detestando a idéia. Tem medo de que ele fique assim toda manhã depois que se aposentar, pelo menos até que ela lhe dê um copo de suco de laranja e lhe pergunte (com uma impaciência crescente e impossível de evitar) se ele quer cereais ou apenas torradas. Tem medo de — ao interromper qualquer coisa que estiver fazendo — encontra-lo sempre sentado ali, sob um raio de sol brilhante demais, Harvey pela manhã, Harvey de camiseta e cueca, com as pernas abertas de modo que ela veja seus parcos dotes físicos (caso ela se preocupe com isso) e aqueles calos amarelados nos dedões de seus pés, que sempre a fazem pensar em Wallace Stevens e o Imperador do Sorvete.
Sentado ali, silencioso e amalucadamente contemplativo, em vez de se aprontar para sair, e se preparar psicologicamente para enfrentar o dia. Deus, tomara que esteja errada. Aquilo faz a vida parecer tão esquálida, tão estúpida de certa forma. Ela fica se perguntando se foi para isso que eles lutaram, criaram três filhas, separaram o inevitável caso extraconjugal dele durante a meia-idade, trabalharam e às vezes (encaremos a realidade) até foram um pouco inescrupulosos? Se é para isso que a gente enfrenta a selva da vida, pensa Janet, para acabar nesse… nesse estacionamento… para que se esforçar?
Mas a resposta é fácil. Ela não sabia. Ela descartava maioria das mentiras ao longo do caminho, mas se aferrara aquela que dizia que a vida era importante. Criara um álbum dedicado às mentiras, e ali elas ainda eram jovens, com possibilidades interessantes: Trisha, a mais velha, usando uma cartola e agitando uma vara de condão feita de papel-alumínio sobre Tim, o cocker spaniel. Jenna, congelada no meio de um salto por cima do chafariz do gramado, com seu fraco por drogas, cartões de crédito e homens mais velhos ainda muito além do horizonte. Stephanie, a mais nova, durante aquele concurso municipal de ortografia, em que a palavra “auspicioso” se revelara a sua Waterloo. Na maioria daqueles retratos (geralmente ao fundo), viam-se também Janet e o homem com quem ela se casara, sempre sorrindo como se fosse contra a lei fazer outra coisa.
Então um dia ela cometera o erro de olhar para trás e descobrira que as mentiras haviam crescido e que aquele homem — que só continuara sendo seu marido por que ela batalhara por isso — estava sentado ali de pernas abertas, umas pernas brancas feito carne de peixe, olhando fixamente para um raio de sol. Deus, talvez ele parecesse ter 54 num terno elegante, mas sentado à mesa da cozinha daquele jeito, parecia ter 70. Setenta e cinco, que diabo. Ele parecia aquilo que “Os Sopranos” chamavam de pateta.
Ela se volta para a pia e espirra delicadamente, uma, duas, três vezes.
— Como elas estão hoje? — pergunta ele, falando das cavidades nasais, das suas alergias. A resposta é que elas não estão muito bem, mas, como um surpreendente numero de coisas ruins, as alergias de verão também têm um lado positivo. Janet não precisa mais dormir com Harvey e brigar por sua cota de cobertores no meio da noite; não precisa mais escutar um ou outro peido abafado enquanto o marido se precipita no sono. Durante o verão ele consegue dormir seis ou até sete horas na maioria das noites, e isso é mais do que suficiente. Quando o outono chegar e Harvey voltar do quarto de hóspedes, o número de horas cairá para quatro, e grande parte disso será um sono perturbado.
Janet sabe que chegará um ano em que o marido não voltará. É, apesar de ela não lhe dizer isso — pois o deixaria magoado, e ela continua a não gostar de magoá-lo; o amor entre os dois se transformou nisso, ao menos da parte dela com relação a ele —, ela ficará feliz.
Ela suspira e enfia a mão numa caçarola com água dentro da pia, apalpando e dizendo: — Até que não estão tão mal assim.
E então, enquanto Janet pensa (não pela primeira vez) que a vida já não esconde nenhuma surpresa ou profundeza marital insondável, Harvey diz com uma voz estranhamente displicente: — Foi bom você não ter dormido comigo ontem à noite, Jax. Tive um sonho ruim. Na realidade, acordei de tanto gritar.
Ela se espanta. Há quanto tempo ele não a chamava de Jax, em vez de Janet ou Jan? Este último apelido secretamente ela detesta. Faz com que ela pense naquela atriz melosa de “Lassie”, que ela via quando criança. O garotinho (Timmy, seu nome era Timmy) sempre caía num poço, era mordido por uma cobra ou ficava preso sobe uma rocha. Que pais eram aqueles, que colocavam a vida de um filho nas mãos de uma porra de uma collie?
Ela se vira para ele novamente, esquecendo a caçarola com o último ovo lá dentro, a água já fora da fervura há tempo suficiente para estar morna. Ele teve um sonho ruim? Harvey? Janet tenta se lembrar de quando foi a última vez em que Harvey mencionou ter tido qualquer tipo de sonho, mas não consegue. A única coisa que lhe vem à memória é uma vaga lembrança dos tempos de namoro dos dois: Harvey dizendo algo como “eu sonho com você”, ela própria jovem o suficiente para achar aquilo meigo, em vez de bobo.
— Você o quê?
— Acordei de tanto gritar, diz ele. Você não ouviu?
— Não, ela responde ainda o fitando. Tenta ver se ele está brincando. É como se fosse uma piada matinal bizarra. Mas Harvey não é homem de brincadeiras. Para ele, humor é contar piadas à mesa de jantar sobre seus tempos no Exército. Janet já ouviu todas no mínimo cem vezes.
— Eu estava gritando umas palavras mas na realidade não conseguia dizer nada. Era como se… não sei… eu não conseguisse fechar a boca em torno das palavras. Parecia que eu tinha tido um derrama. E a minha a minha voz estava mais grave. Nem um pouco parecida com a minha voz verdadeira — diz ele, fazendo uma pausa. — Eu conseguia me ouvir e me obriguei a parar. Mas estava tremendo e tive de acender a luz por um tempo. Tentei mijar mas não consegui. Ultimamente parece que eu sempre consigo mijar, pelo menos um pouquinho, mas hoje, às 2h47 da madrugada, não consegui.
Ele faz uma pausa e fica sentado ali, sob o raio do sol. Janet vê os ciscos de poeira dançando na luz; aquilo parece envolve-lo numa auréola luminosa.
— Que sonho foi esse? — pergunta ela. Uma coisa estranha — essa é a primeira vez em cerca de cinco anos, desde que eles ficaram até tarde da noite discutindo se deveriam vender ou reter as ações da Motorola (acabaram vendendo), em que ela se interessa por algo que ele tem a dizer.
— Nem sei se quero contar a você — diz ele, exibindo uma timidez nada característica. Em seguida se vira, pega o moedor de pimenta e começa a joga-lo de uma ponta para a outra.
— Dizem que, se contamos nossos sonhos, eles não se realizam — diz ela, e surge a “coisa estranha número dois”: subitamente, Harvey parece estar presente ali de uma forma que não lhe parecia havia anos. Até sua sombra, na parede acima da torradeira, parece misteriosamente estar mais presente ali. Ela pensa: “Ele parece ter importância, e qual é o porquê disso? Exatamente quando eu acabo de pensar que a vida é esquálida, por que deveria achar que é consistente? É uma manhã de verão ao final de junho. Estamos em Connecticut. Sempre passamos os meses de junho em Connecticut. Logo um de nós irá pegar o jornal, que será dividido em três partes, tal como a Gália”.
— Dizem mesmo? — pergunta ele, contemplando as idéias com as sobrancelhas erguidas (Janet precisa apará-las novamente, pois já estão com aquela aparência selvagem, e Harvey nunca percebe), jogando o moedor de pimenta de uma mão para outra. Ela gostaria de manda-lo parar. Aquilo já a está deixando nervosa (tal como o negrume exclamatório da sombra dele na parede, tal como as batidas do seu próprio coração, que subitamente, sem razão nenhuma, começou a disparar), mas prefere não perturbar seus pensamentos nesta manhã de sábado.
Harvey larga o moedor de pimenta, e isso não deveria ser problema, mas de certa forma o é, pois o objeto tem uma sombra própria, que se projeta ao longo da mesa feito a sombra de uma peça de xadrez exageradamente aumentada. Até as migalhas das torradas que jazem ali têm sombra, e Janet não entende por que isso deveria assusta-la, mas fica assustada. Ela pensa no gato dizendo a Alice “todos nós somos loucos aqui” e subitamente não quer ouvir o sonho idiota de Harvey, do qual ele despertou aos gritos, parecendo um sujeito com um derrame. Subitamente, ela quer que a vida seja esquálida. A esqualidez é legal, a esqualidez é boa, quem duvida que olhe para as atrizes do cinema. Nada deve ser anunciado, pensa ela febrilmente. Sim, febrilmente; é como se estivesse tendo um daqueles acessos de calor típicos da menopausa, embora ela pudesse ter jurado que aquela bobajada terminara dois ou três anos antes. Nada deve ser anunciado, é sábado de manhã e nada deve ser anunciado.
Janet abre a boca para falar que entendeu a coisa ao contrário, na verdade dizem que, se contamos nossos sonhos, eles se realizam, mas é tarde demais, ele já está falando, e ela pensa que aquilo é o seu castigo por achar que a vida é esquálida. Na realidade, a vida é uma canção de Jethro Tull, espessa como um tijolo. Como ela pode ter pensado outra coisa?
— Sonhei que amanhecia e eu descia para a cozinha — diz ele. — Era sábado de manhã, tal como agora, só que você ainda não tinha acordado.
— Sempre me levanto antes de você nas manhãs de sábado — diz ela.
— Eu sei, mas era um sonho — diz ele pacientemente. Janet olha os pêlos brancos na parte interna das suas coxas, onde os músculos parecem moles, raquíticos. Antigamente, ele jogava tênis, mas foi a muito tempo. Ela pensa, com uma violência nada característica: “Você vai ter um enfarte, meu chapa, é isso que vai acabar com você, e talvez eles pensem em publicar um obituário seu no “Times”; mas, se alguma atriz de filme B da década de 50 ou uma bailarina semifamosa da década de 40 houverem morrido nesse dia, nem isso você vai ter”.
— Mas foi assim mesmo… Quer dizer, o sol estava brilhando aqui dentro — diz ele, erguendo a mão e agitando um turbilhão de ciscos de poeira em torno da cabeça. Janet sente vontade de gritar para que ele não faça aquilo, não perturbe o universo daquela maneira.
— Dava para ver minha sombra no chão.  Ela nunca me pareceu tão brilhante, ou tão espessa — diz ele, fazendo uma pausa e sorrindo. Ela vê que os lábios dele estão muito rachados. — “Brilhante” é uma palavra engraçada para usar em relação a uma sombra, não é? “Espessa” também.
— Harvey…
— Eu fui até a janela e olhei para fora. Vi que havia um amassado na lateral do Volvo do Frank e… não sei como… pressenti que Frank tinha saído para beber e que o carro tinha sido amassado no caminho para casa.
Subitamente, Janet sente que vai desmaiar. Ela própria vira o amassado na lateral do Volvo de Frank Friedman ao ir até a porta para ver se o jornal já chegara (ainda não) e pensara o mesmo, que Frank fora beber no Gourd e batera em alguma coisa no estacionamento. O que teria acontecido com o outro sujeito? Fora exatamente o que ela pensara.
Ela pensa que Harvey também já viu aquilo, que ele está brincando Poe alguma razão insondável. Isso é possível, certamente; o quarto de hóspedes em que ele dorme durante o verão tem vista para a rua. Só que Harvey não faz esse gênero. “Brincar” não é a “praia” de Harvey Stevens.
Ela sente o suor nas faces, na testa e na nuca, e seu coração nunca bateu tão rápido. Realmente parece que algo está se avizinhando, mas por que aquilo deveria estar acontecendo agora? Agora que o mundo está calmo e as perspectivas parecem tranqüilas? Se eu pedi isso, lamento, pensa ela. Ou talvez ela esteja rezando na realidade: Leve isso de volta, por favor, leve isso de volta.
— Eu fui até a geladeira e dei uma olhada lá dentro. Vi uma travessa de ovos cozidos coberta por plástico. Adorei ver aquilo… Eu já queria almoçar às sete da manhã — diz Harvey, rindo. Janet… ou melhor, Jax… baixa o olhar para a caçarola dentro da pia e examina o último ovo que resta ali. Os outros já foram descascados e fatiados em dois, com as gemas retiradas. Estão numa tigela ao lado do secador. Ao lado da tigela há uma jarra de maionese. Ela planejava servir os ovos cozidos no almoço junto com uma salada verde.
— Não quero ouvir o resto — diz Janet, mas numa voz tão baixa que ela mesma quase não se escuta. Antigamente, ela pertencia ao Clube de Drama; agora já nem consegue projetar a voz pela cozinha. Os músculos do seu peito parecem estar todos frouxos, como as pernas de Harvey estariam se tentasse jogar tênis.
— Pensei em comer um só — diz Harvey. — Mas depois pensei: “não”, se eu fizer isso, ela vai berrar comigo. E então o telefone tocou. Corri até lá, porque não queria que você acordasse. Agora vem a parte assustadora. Quer ouvir?

Soluços Sussurrados

Não, pensa ela, perto da pia. Não quero ouvir a parte assustadora. Ao mesmo tempo, porém, ela quer ouvir a parte assustadora, todo mundo quer ouvir a parte assustadora, todos nós somos loucos aqui, e sua mãe realmente dissera que, se contamos nossos sonhos, eles não se realizam. Isso significava que devíamos contar nossos pesadelos e guardar os sonhos bons para nós mesmos, escondê-los como um dente sob o travesseiro.
Eles têm três filhas. Uma delas mora na mesma rua: Jenna, uma divorciada animada, tem o mesmo nome de uma das gêmeas Bush, coisa que detesta. Passou até a exigir que as pessoas a chamem de Jen. Três meninas, coisa que significou muitos dentes sob os travesseiros, muitas preocupações com estranhos que oferecessem balas e caronas em carros, muitos cuidados. Ah, Janet torce para que sua mãe tenha razão, para que contar um sonho ruim seja como enfiar uma estaca no coração de um vampiro.
— Eu atendi o telefone e era Trisha — diz Harvey. Trisha é a filha mais velha, que idolatrava Houdini e Blackstone antes de descobrir os rapazes. — Ela só disse uma palavra a princípio, só “papai”, mas eu sabia que era Trisha. Sabe como nós sempre sabemos?
Sim. Janet sabe como n´s sempre sabemos. Nós sempre sabemos que são nossos filhos, desde sua primeira palavra. Pelo menos até eles crescerem a passarem a pertencerem a outras pessoas.
— Eu disse “oi, Trisha, por que você está ligando tão cedo, meu bem? Sua mãe ainda está dormindo”. A principio não houve resposta. Achei que a ligação tinha caído, mas depois, ouvi uns soluços sussurrados. Não chegavam a ser palavra, só meias palavras. Como se ela estivesse tentando falar, mas sem conseguir emitir nenhum som, porque estava sem forças ou sem fôlego. E foi então que comecei a ficar assustado.

Mal de Alzheimer

Bom, então ele é bem lento, não é? Pois Janet — que era a Jax na Sarah Lawrence, a Jax no Clube de Drama, a Jax que dava beijos de língua incríveis, a Jax que fumava Gitanes e fingia gostar de tragos de tequila —, Janet já está assustada há bastante tempo, já estava assustada entes de Harvey mencionar o amassado na lateral do Volvo de Frank Friedman.
E pensar nisso faz com que ela se lembre da conversa telefônica que teve com sua amiga Hannah há menos de uma semana, a conversa que acabou desembocando em aterrorizantes histórias sobre o mal de Alzheimer. Hannah estava na cidade. Janet enroscara-se junto à janela da sala e ficara olhando para aquele pedaço de terra que eles têm em Westport.
Olhando para todas aquelas belas coisas verdejantes que fazem com que ela espirre e fique com os olhos marejados. Antes que a conversa se desviasse para os casos de Alzheimer, elas haviam falado de Lucy Friedman e depois de Frank. Qual das duas dissera aquilo? Qual das duas dissera “se ele não tomar cuidado com esse negócio de beber e dirigir, vai acabar matando alguém”?
— Então Trisha disse algo que parecia ser “lixa” ou “Lícia”, mas no sonho eu sabia que ela estava… elidindo… essa é a palavra? Elidindo a primeira sílaba, e que na verdade dizia “polícia”. Eu perguntei o que tinha a polícia, o que ela estava tentando dizer a cerca da polícia, e me sentei. Bem ali — diz ele, apontando para uma cadeira no que eles chamam de cantinho do telefone.
— Houve outro silêncio, e depois outras daquelas meias palavras, aquelas palavras sussurradas. Ela estava me irritando tanto com aquilo, que eu pensei, “rainha do drama, sempre foi assim”, mas então ela disse “número”, claro como água. E eu pressenti — da mesma forma quando ela tentava falar “polícia” — que ela tentava me dizer que algum policial havia ligado para ela por não saber o nosso número.

Número Fora do Catálogo

Janet, amortecida, balança a cabeça. Eles haviam decidido retirar o número do catálogo porque os repórteres viviam ligando para Har4vey a respeito da confusão da Enron (uma das maiores empresas de energia dos EUA, que entrou em concordata em 2001 devido a fraudes financeiras).
Não Poe ele próprio ter algo a ver com a Enron, mas porque era uma espécie de perito em grandes companhias de energia. Chegara até a participar de um comitê presidencial alguns anos antes, na época em que Clinton era o manda-chuva e o mundo (ao menos na humilde opinião dela) era um lugar um pouco melhor, um pouco mais seguro.
E embora haja muitas coisas a respeito de Harvey das quais ela já não gosta, Janet sabe perfeitamente bem que ele tem mais integridade que todos aqueles canalhas da Enron juntos. Ela até pode se entediar com a integridade, às vezes, mas sabe muito bem o que é isso. Mas a polícia não tem um jeito de conseguir os números fora do catálogo? Bom, talvez não, quando há pressa em descobrir algo ou avisar alguém. Além disso, os sonhos não têm de ser lógicos, têm? Os sonhos são os poemas do subconsciente.
E agora, como ela já não agüenta mais ficar parada, Janet vai até a porta da cozinha e lança o olhar para aquele dia ensolarado de junho. Vê Sewing Lane, que é a pequena versão deles daquilo que ela supõe ser o sonho americano. Como esta manhã está calma, com um trilhão de gotas de orvalho ainda cintilando sobre a grama! Mas seu coração ainda martela dentro do peito, o suor rola pelo rosto e ela quer dizer a Harvey que ele precisa parar, que não pode contar esse sonho, esse sonho terrível. Precisa lembrar a ele que Jen mora bem ali na rua… Jen, isto é, Jen que trabalha na videolocadora da cidade e que nos finais de semana passa noites demais bebendo no Gourd com gente como Frank Friedman, que tem idade para ser seu pai. Coisa que indubitavelmente, é parte da atração.
— Todas aquelas meias palavrinhas sussurradas, e ela não falava — diz Harvey. — Então ouvi “morta” e pressenti que uma das meninas tinha morrido. Simplesmente pressenti. Não a Trisha, porque ela estava ao telefone, mas Jenna ou Stephanie. E fiquei tão assustado. Na realidade, fiquei sentado ali me perguntado qual delas eu queria que fosse, como a porra da escolha de Sofia. Comecei a gritar com Trisha. “Diga qual foi! Diga qual foi! Pelo amor de Deus, Trish, diga qual foi!” Só depois é que o mundo real começou a fluir novamente… presumindo que existia tal coisa.
Harvey dá uma risadinha e, na luz forte da manhã, Janet vê que há uma mancha avermelhada no meio do amassado no Volvo de Frank Friedman e que no meio da mancha há um trecho escuro que pode ser sujeira ou então cabelo. Ela pode imaginar Frank largando o carro todo torto junto do meio-fio às duas da madrugada, bêbado demais para tentar entrar na alameda, muito menos na garagem… reto é o portão e tudo mais. Ela pode vê-lo cambaleando até a casa com a cabeça baixa, respirando fundo pelo nariz. Viva o touro!
— Nesse ponto eu já sabia que estava na cama, mas ainda escutava aquela voz grava, que não se parecia nem um pouco com a minha; era como a voz de um estranho, que não conseguia terminar as palavras que pronunciava. “Diii-quaaa-fooo, diii-quaaa-fooo.” Era assim que ela soava. “Diii-quaaa-fooo,ish!” Diga qual foi. Diga qual foi, Trish.
Harvey silencia, pensando. Refletindo. Os ciscos de poeira dançam em torno do seu rosto. O sol faz a sua camiseta brilhar tanto que é até difícil fitá-la; é a camiseta de um comercial de sabão em pó.
— Fiquei deitado, esperando que você corresse até lá para ver qual era o problema — diz ele por fim. — Fiquei deitado ali todo arrepiado, tremendo, dizendo a mim mesmo que aquilo era só um sonho, como a gente sempre afaz, é claro, mas também pensando em como a coisa parecia real. E até maravilhosa, de uma forma terrível.

O Sonho de Um Poeta

Ele pára novamente, pensando em como dizer o que vem a seguir, sem perceber que a mulher já parou de lhe dar atenção. A ex-Jax está empregando toda sua mente, todos os seus consideráveis poderes mentais, para se forçar a acreditar que aquilo que ela está vendo não é sangue, e sim a camada de revestimento do Volvo, sob a tinta que foi arrancada. “Revestimento” é uma palavra que o subconsciente dela está ávido por oferecer.
— É incrível, não é, a profundidade da nossa imaginação? — diz ele por fim. — Um sonho como esse é como um poeta… um dos poetas verdadeiramente grandes… deve ver o seu poema. Com cada detalhe nítido e vívido
Ela silencia; a cozinha pertence de novo ao sol e aos ciscos dançantes. Lá fora, o mundo está à espera. Janet olha para o Volvo no outro lado da rua; o carro parece pulsar diante dos seus olhos, espesso feito um tijolo. Quando o telefone toca, ela gritaria se conseguisse ter fôlego, cobriria os ouvidos se conseguisse erguer as mãos. Ela ouve Harvey se levantar e ir até o cantinho. O aparelho toca novamente, e depois uma terceira vez.
É engano, pensa ela. Só pode ser, pois quando contamos nossos sonhos, eles não se realizam.
Harvey diz: — Alô?

O Fantasma Inexperiente (H. G. Wells)

Meu pensamento volta-se, constantemente, para a derradeira história que Clayton contou, relembrando-a em todos os seus pormenores. Ele passara a maior parte do tempo no sofá, junto à lareira, estando a seu lado Sanderson, fumando um daqueles cachimbos especiais, que trazem seu nome gravado. Evans e Wish, este o famoso e tão modesto ator, faziam parte do reduzido grupo.

Era um sábado de manhã, e havíamos chegado ao clube todos juntos, exceto Clayton, que ali pernoitara, o que motivou esta história. jogáramos golfe até ao escurecer e, depois de cear, caíramos naquele estado de bem aventurança, quando se fica em condições de ouvir qualquer fantasia que nos contem. E assim que Clayton iniciou sua extraordinária narrativa, quisemos tachá-lo de mentiroso. A princípio, julgamos que se tratasse, apenas, de uma de suas anedotas reais, no que ele era mestre.

– Lá sabem que passei a noite sozinho, aqui? interrogou ele, depois de ter ficado muito tempo fitando as faúlhas que saiam das brasas, reanimadas por Sanderson. Com os criados… – emendou Wish.
Sim, mas que dormem na outra ala – retrucou Clayton, que, antes de prosseguir, soltou mais algumas baforadas do charuto. E, sem perder sua habitual fleuma, declarou, calmamente:
– Apanhei um fantasma.
– Um fantasma! – exclamou Sanderson. – E onde está ele?
Evans, que passara quatro semanas na América e era grande admirador de Clayton, gritou com sua voz anasalada:
– Você agarrou mesmo um fantasma, Clayton? Extraordinário! Vamos, conte, logo, como tal aconteceu!
Clayton pediu que fechássemos a porta e, olhando para mim, à guisa de desculpa, disse:
– Não quero chamar ninguém de bisbilhoteiro, mas não desejo divulgar a história e assustar nossos excelentes servidores. Os cantos escuros e os estranhos adornos da arquitetura do prédio dão margem à imaginação… E o fantasma a que me refiro, quero que saibam, era um fantasma incomum. E talvez nunca mais volte…
– Mas… você não o prendeu? – perguntou Sanderson.
– Faltou-me ânimo para tanto – respondeu Clayton.
Enquanto nós desatamos a rir, Sanderson dava mostras de surpresa e Clayton parecia perturbado.
– Parece mesmo singular, – disse, sorrindo contra- feito – mas a verdade é que lidei realmente com um fantasma, tão certo quanto estar aqui conversando com vocês. Nada de gracejos, sei bem o que falo.’
Sanderson mamava seu cachimbo, com mais vigor, concentrando seus olhos congestionados em Clayton e, após expelir uma espessa coluna de fumaça, resmungou algo a que Clayton não prestou atenção.
– Nunca me ocorrera uma aventura tão singular. Os amigos já conhecem minha descrença a esse respeito, mas, quando menos pensava nisso, apanho um fantasma, num dos cantos do prédio. Mergulhou de novo em reflexões e puxou do bolso outro charuto.
– Conversou com ele? – perguntou Wish, curioso.
– Uma hora, mais ou menos.
– E que lhe contou? – indaguei, chegando mais perto dos incrédulos.
0 coitado pareceu-me encabulado…
– Ele chorou? – perguntou outro.
Clayton suspirou, ao pensar nessa circunstância.
– Sim, coitadinho, chorava que dava dó.
– E onde o apanhou? – quis saber Evans, com seu sotaque americano.
– jamais poderia ter imaginado que um fantasma fosse uma coisa tão lamentável, – prosseguiu Clayton, ignorando a pergunta.
E, após essas palavras, deixou-nos de novo em suspenso, fingindo que declarava em encontrar os fósforos e acendia, depois, o charuto.
– Apenas, consegui aproveitar uma oportunidade disse, afinal, como que respondendo à pergunta anterior.
E, como ninguém o – interrompesse, prosseguiu:
– Posso afirmar que, mesmo sem o seu corpo, o caráter de uma pessoa permanece invariável, embora constantemente nos olvidemos disso. Indivíduos de vontade firme e forte dão espectros de firme e forte vontade. A maioria desses fantasmas obsedados que andam por aí deve ter uma idéia fixa qualquer, como qualquer maníaco, e se demonstram mais obstinados que um burrico. 0 meu pobre fantasma, porém, era diferente.

Levantou subitamente os olhos, de maneira estranha, e seu olhar pesquisou todos os cantos do recinto.
– Afirmo-o com a minha melhor boa-fé, pois é a pura verdade. Logo de início, percebi que se tratava de um débil mental. – Soltou umas baforadas e continuou. – Agarrei-o no fim do longo corredor. Ele me dava as costas e, por isso, eu o vi antes que me percebesse. Certifiquei-me imediatamente de que era um espectro, tanto era transparente e esbranquiçado. Através de seu tórax, eu distinguia o reflexo dos vidros da janelinha. Pelo seu físico e atitudes, deduzi-lhe a fraqueza. Ele não sabia, absolutamente, o que iria fazer. Segurava um dos adornos da janela, com uma das mãos, e a outra passava-a constantemente pela boca. Desta maneira…
– Qual seu aspecto?
– Muito magro. Seu pescoço parecia formar duas calhas, nas costas, aqui e aqui. Cabeça pequena, cabelos despenteados, orelhas disformes. Ombros imperfeitos e mais estreitos que os quadris. Usava um colarinho caído, casaco curto, calças remendadas, à altura dos joelhos, e mais alguns rasgões, logo abaixo. Tal seu aspecto. Eu ia subindo sossegadamente as escadas, sem levar luz, já que as velas costumam ficar cá embaixo, e ali existe uma lâmpada. Ao subir, vi-lhe os chinelos. Estaquei de súbito, ao notá-lo. . . e examinei-o. Não me incutiu medo algum.
Creio que, na maior parte de casos assim, o indivíduo não se assusta tanto como se poderia supor. Somente fiquei intrigado e surpreso. “Meu Deus!” exclamei, entre mim. “Finalmente, veio um fantasma! E justamente eu, que nunca acreditei nisso!”
– Hum! – rosnou Wish.

– Ao chegar ao patamar, o fantasma deu pela minha presença. Virou de novo a cabeça e dei com a cara de um jovem, nariz fino, bigode ralo e um esboço de barbicha. Ficamos alguns instantes a olhar um para outro. Olhava- me por cima do ombro. Afinal, pareceu recordar-se de suas altas funções. Esticou-se, virou-se de completo, espichou o rosto, estendeu a mão, no clássico estilo dos espectros, e veio para meu lado. Deixou cair seu pequeno queixo e emitiu um prolongado, mas fraco “Bu! No…” Como veem, nada de apavorante. Eu havia ceado muito bem e esvaziado uma garrafa de champanha, e, depois de ter ficado sozinho, tomara mais alguns copinhos de uísque, por isso me encontrava mais firme que uma rocha e não mais amedrontado do que se tivesse visto uma rã.

– Bu! – retribuí-lhe eu. – Deixe de ser bobo. Você não tem nada que fazer aqui. – Notei que ele estremecia.
– Buuu! – repetiu.
– Bu! Vá para o diabo! Você é sócio cá do clube? – Mexeu-se algo, como que querendo sair do caminho, mas seu aspecto parecia abatido.
– Não… não sou sócio do clube, – respondeu o espectro, ante a insistente interrogação de meus olhos. – Sou um fantasma.
– Muito bem, mas isso não o autoriza a frequentar o Clube Mermaid. Está procurando alguém por aqui? -Dito isto, acendi logo minha vela, para que ele não julgasse que meu tremor era de medo e não por causa do uísque que eu ingerira. Perguntei-lhe:
– Que está fazendo aqui? – 0 espectro deixou pender os braços, parando de rosnar, e ali se ficou, meio sem jeito, acabrunhado, nítida imagem de um fantasma frouxo, inocente, – sem vontade de ação.
– Estou dando uma voltinha… – respondeu, afinal. Seu lugar não é aqui, procure outras paragens.
– Eu sou um fantasma… – murmurou, como desculpa.
– Pode ser, mas aqui não é seu lugar. Este é um clube particular, bastante respeitável. Aqui, vêm, com frequência, pessoas com crianças, pajens, e, se algumas delas o encontrar por aí, pode ficar louca de susto. Não pensou ainda nisso?
– Não me havia ocorrido ainda essa hipótese, senhor.
– Pois devia ter pensado. Creio que não possui nenhum motivo ponderável para vir aqui, pois não? Suponho que não morreu assassinado nem sofreu morte violenta.
– Oh, não, meu senhor… mas, como esta casa é velha, possui seus enfeites de madeira, julguei. . .
– 0 pretexto é demasiado pueril – interrompi-o, fitando-o firme. – Foi um erro, sua vinda aqui – ajuntei, com amistosa superioridade. – Disfarcei, procurando fósforos nos bolsos, e olhei francamente para ele.
– Sabe que faria eu, em seu lugar? Procuraria evaporar-me, sumir daqui, antes do galo cantar. -Tais palavras deixaram-no perturbado.
– Na verdade, meu senhor… – Eu me evaporaria – repeti, com insistência.
– Mas, então… eu não posso…

– Não pode, não?
– Não, porque me esqueci de algo. Tenho andado vagando por aqui, desde a última meia-noite, escondendo-me nos armários dos quartos desocupados… e já meio desorientado, tonto. Fiquei desconcertado, pois nunca rondara, antes.
– Ficou desconcertado?
– Sim, senhor, não me saio nunca bem. Parece que olvidei alguma coisa… e não consigo lembrar-me de quê… – Essa circunstância impressionou-me bastante – afirmou Clayton. – Ele olhava para mim, tão desanimado, que me deixou incapaz de continuar mantendo aquele tom altivo e fanfarrão que adotara.
– Isso é muito singular – disse-lhe. – Nesse instante, julguei ouvir rumor, no andar inferior.
– Vamos para meu quarto e conte-me tudo, porque, até agora, nada compreendi .- convidei-o… Procurei puxá-lo por um braço, mas, está claro, foi como se tentasse segurar uma nuvem de fumaça. Penso que até me esquecera o número do quarto. Assim, entrei em vários aposentos, antes de descobrir o meu, e foi sorte estar ali sozinho, naquela parte do prédio.
– Bem, agora, sente-se e conte-me sua história – disse-lhe, sentando-me também. – Pelo que vejo, meu amigo, meteu-se numa enrascada. O fantasma declarou não desejar sentar-se e que preferia ficar andando pelo quarto. Não me opus e, dali a instantes, estávamos numa prosa animada. Assim que me libertei dos vapores do uísque, comecei a ter noção do caso absurdo, fantástico, em que me enredara. A minha frente, se encontrava, meio transparente, o tradicional fantasma, sem outro ruído a não ser o de sua voz sideral, e seu nervoso vaivém pelo quarto, recoberto de tapetes. Através do seu corpo, eu podia vislumbrar o reluzir dos candelabros de cobre, o resplendor dos abajures e os quadros nas paredes, ao passo que ele me ia narrando sua desditosa e breve odisséia. Sua feição não era lá muito honrada, mas podem crer que falava a verdade, tanto era transparente.
– Como? – interrogou Wish, levantando-se de pronto.
– Que quer saber? – perguntou, por sua vez, Clayton.
– Porque era transparente… não podia deixar de dizer a verdade?… Não estou entendendo nada – explicou Wish.
– Muito menos eu – ajuntou Clayton, com incrível seriedade. – Contudo, era essa minhá impressão. juro, até que não se afastou por nada da pura verdade. Contoume como morrera – descera a um porão londrino, para verificar um escapamento de gás, com uma vela na mão. E, quando isso ocorreu, exercia as funções de professor, numa escola particular de Londres.
– Pobre homem… – lamentei eu.
– Também fiquei com pena dele, e mais ele falava mais me comovia. Não tinha objetivo algum na vida e ficara fora dela. Falou-me, com desprezo, sobre seu pai, sua mãe, a respeito de seu professor, na escola, e de todos quantos conhecera no mundo. Tinha sido exageradamente impressionável e nervoso. Ninguém o havia apreciado verdadeiramente e muito menos o compreenderam, conforme contou. Penso que não chegou a ter nenhum amigo sincero nem jamais obtivera êxito algum. Mantivera-se alheio das diversões e fracassara em vários exames. Alegou que esquecia tudo, quando entrava na sala de exames. Estava noivo, naquela época, prestes a casar-se, com outra pessoa igualmente impressionável, quando o escapamento de gás pós termo aos seus amores.
– E onde foi você parar, depois da morte? – perguntei-lhe. – Não será em… A respeito disto, foi algo confuso. Parecia encontrar-se numa espécie de estado impreciso, intermediário, num lugar reservado às almas demasiado inexistentes para coisas tão positivas como o pecado e a virtude. Não soube explicar direito. Era bastante egoísta e indiferente para fornecer-me uma idéia clara quanto ao lugar ou região em que se encontrava. Muito além das coisas, estivesse onde estivesse, ele caíra, suponho, no meio de uma série de espíritos da mesma natureza; fantasmas de jovens londrinos, fracos, com os mesmos prenomes, entre os quais se devia falar muito em rondar. Sim, sair e rondar. Parece que, para esses fantasmas, o “rondar” fosse uma grande aventura e a maior parte deles não parava de falar nisso. Instigado, curioso, meu fantasma resolvera sair e… rondar.
– Ora, será isso possível? – perguntou, descrente, Wish.
– São as conclusões que tirei – respondeu Clayton, modestamente. – É bem possível que eu também me encontrasse num estado d’alma pouco favorável para discernir, mas essa impressão foi ele que ma deu. Não cessava de andar de um lado para outro, falando com voz fininha do seu mísero ego, porém sem nunca emitir uma declaração nítida e firme, do princípio até ao fim. Era bem mais minucioso, ingênuo e monótono do que se estivesse vivo e real. Se estivesse vivo, aliás, não o teria deixado em meu quarto. Teria saído dali a pontapés!
– Sim, – concordou Evans – há tipos dessa espécie.
– Mas que possuem tantas propriedades de ser fantasmas como os demais.

O que lhe dava algum interesse era sua convicção de lhe ser impossível desaparecer. A confusão que resultara de sua aventura deprimira-o de maneira incrível. Disseram-lhe que aquilo seria um mero passeio, e viera para cá esperando que assim fosse, mas encontrou apenas mais um fracasso a ajuntar aos de seu longo rol. Confessou-me, e acreditei, que jamais tentara coisa alguma, na vida, que não houvesse resultado num desastre e que isso continuaria acontecendo, pela eternidade afora. Caso tivesse encontrado simpatias, talvez… Não terminou e ficou a olhar para mim. Disse-me, ainda, que, por mais incrível que pareça, ninguém lhe havia dispensado nunca a dose de simpatia que eu lhe demonstrava. Adivinhei logo aonde queria chegar e decidi libertar-me dele, no mesmo instante. Pode ser que isso seja brutalidade de minha parte, mas, ser o único amigo sincero, o confidente de um desses débeis egoístas, seja ele homem ou fantasma, era algo superior à minha resistência física. Levantei-me de supetão.
– Não se iluda – disse-lhe. – 0 melhor que lhe resta a fazer é ir-se embora, sair imediatamente. Reúna suas forças e experimente.
– Não consigo… – murmurou.
– Experimente! – intimei-o. E ele experimentou.
– Experimentou?! – exclamou Sanderson. – E de que modo?
– Com passes – respondeu Clayton.
– Com passes?
– Sim, uma série de complicados movimentos, executados com as mãos. Fora assim que viera, e, assim, devia ir-se embora. Meu Deus! Que trabalho lhe custou!
– Mas, com uma série de passes. .. – comecei.
– Meu amigo, – interrompeu Clayton, voltando-se para mim e dando uma entonação especial às palavras – você quer que tudo seja bem explicado. Sei, apenas que ele executou esses passes. Após muitos esforços, conseguiu realizá-los perfeitamente, sumiu.
– Você prestou atenção nos passes? , indagou Sanderson, lentamente.
– Sim, – respondeu Clayton, que parecia refletir.
Foi uma coisa extraordinariamente inédita. Estávamos ali, ambos, o vago e transparente fantasma e eu, naquele silencioso quarto, naquela casa silente e vazia, numa silenciosa noite de sexta-feira, na pequena cidade. Não se ouvia o menor ruído, exceto nossas próprias vozes e um ligeiro arfar, que produzia o espectro ao executar seus gestos. Estávamos iluminados pela vela do quarto e por outra, que havia no aparador. Nada mais. Uma ou outra vez, as velas produziam, durante alguns segundos, uma chama alta e esquia. E, então, se passaram coisas estranhas.
– Não, não posso… – gemia o fantasma. – Nunca mais.
Sentou-se subitamente numa cadeira e começou a soluçar. Deus meu! Que modo horrível de chorar!
– Reúna suas forças! – disse-lhe. Tentei dar-lhe umas palmadinhas nas costas, porém, minha maldita mão atravessou por ele. Nesse instante, devem compreender, já não me sentia tão… firme como quando chegara à escada. Notava perfeitamente tudo quanto ocorria de incomum. Recordo-me de que retirei a mão dele, com um leve estremecimento, e que fui até à mesa do aparador.
– Reúna suas forças, – repeti – e experimente. E, no intuito de animá-lo e auxiliá-lo, procurei experimentar, também.
– Como! – exclamou Sanderson. – Os passes?
– Exatamente, os passes.
– Mas – disse eu, levado por uma idéia que não sabia traduzir.
– Muito interessante – comentou Sanderson, batendo a cinza do cachimbo. – Quer dizer que esse fantasma lhe revelou…
– Sim, fez tudo quanto pode para revelar o segredo da maldita barreira.
– Mas não o conseguiu, – interveio Wish, – nem poderia fazê-lo, pois, do contrário, você também teria sumido.
– Essa é precisamente a questão – concordou Clayton, olhando, pensativamente, para as chamas.
Houve um breve silêncio.
– E, afinal, conseguiu? – perguntou Sanderson.
– Finalmente, conseguiu-o. Envidei enormes esforços para que não desanimasse, mas, enfim, conseguiu-o. .. e bastante bruscamente. Estava já desesperado, tivemos uma cena, todavia, de súbito se levantou e pediu-me que fizesse todos os movimentos lentamente, para que os pudesse ver. Creio, confiou-me, que, se pudesse ver bem, descobriria o que não estava certo. E tal ocorreu.
– Agora já sei! – exclamou enquanto me observava os movimentos.
– Sabe o quê? – perguntei-lhe.
– Sim, já sei – repetiu, ajuntando, a seguir, mal-humorado. – Se fica assim a olhar para mim, nada posso fazer. Na verdade, não posso. E é por isso que até agora nada fiz. Sou de tal modo nervoso que o senhor me desconcerta. Entabulamos uma discussão. Certamente, eu queria ver como fazia, mas ele era mais teimoso que um burro, e eu me senti, de súbito, exausto, sem forças. Virei-me para o espelho do armário próximo da cama. Iniciou uma série de movimentos, muito rápidos. Procurei acompanhá-lo pelo espelho, para ver qual deles tinha esquecido. Seus braços e mãos rodopiavam, assim e assim, e depois veio, precipitadamente, o gesto final, – o corpo erguido e os braços abertos – e nesta atitude ficou. E, de repente, não mais o vi! já ali não se encontrava! Rodei sobre meus calcanhares e olhei. Nada! Eu estava so, diante da chama das velas, e com o espírito vacilante. Que teria acontecido? Tudo teria sido um sonho?. . . E aí, num tom absurdo de remate final, o relógio do patamar julgou chegado o momento de dar UMA hora. Assim: Ping! E eu me encontrava tão sério e tão atento quanto um juiz, sem vestígios de minha champanha nem de meu uísque. Mas, presa de estranha sensação, compreendem? Horrivelmente estranha! Singular! Santo Deus!
Olhou um momento para a fumaça do charuto e acrescentou:
– E foi tudo quanto aconteceu.
– E, depois, foi deitar-se? – indagou Evans.
– Que mais poderia fazer?
Olhei Wish, bem dentro dos olhos. Queríamos gracejar, mas havia algo na voz e nos gestos de Clayton que se opunha ao nosso desejo.
– E os passes? – perguntou Sanderson.
– Creio que seria capaz de executá-los, neste momento.
– Oh! – exclamou Sanderson, puxando um canivete e raspando a cinza do cachimbo. – Por que não os faz, agora?
– Vou fazê-los já! – disse Clayton.
– Nada conseguirá – profetizou Evans.
– Mas, se conseguir. . . – observei.
– Ouça, eu preferiria que o não fizesse – disse Wish.
– Por quê? – interveio Evans.
– Eu preferiria que o não fizesse, repetiu Wish.
– Mas, se já aprendemos bem … volveu Sanderson, enchendo de fumo o cachimbo.
– De qualquer modo, eu preferiria que não o fizesse! insistiu Wish.
Discutimos com Wish, o qual afirmava que, permitir a Clayton executar tais gestos, era como que brincar com algo de sério, de misterioso.
– Mas você não vai acreditar nisso, vai? – disse eu.
Wish lançou um olhar de esguelha a Clayton que, com os olhos presos ao fogo, refletia sobre qualquer determinação de seu espírito.
– Eu creio… pelo menos, mais da metade, sim, acredito… – respondeu Wish, em tom sério.
– Clayton, – falei – você é um inventor de histórias bom demais, para nós todos. Quase tudo quanto você contou estava certo. Mas… essa coisa de desaparecer… não me convenceu muito. Vamos, fale, trata- e de um conto terrorífico?
Clayton ficou de pé, sem prestar atenção às minhas palavras, pondo-se ao centro do tapete, bem na frente de mim. Por alguns minutos, olhou pensativamente para os próprios pés e passou, depois, a fitar intensamente a parede oposta, com expressão decidida. Ergueu lentamente ambas as mãos à altura dos olhos e, assim, começou…
Agora, muito bem, Sanderson era maçom e pertencia à loja dos Quatro Reis, que, com tanta pericia, se dedica ao estudo e esclarecimento de todos os mistérios da maçonaria passada e presente. E, entre os pesquisadores dessa loja, Sanderson não era de maneira alguma dos mais insignificantes. Acompanhava os movimentos de Clayton, com invulgar interesse, refletido em seus olhos avermelhados.
– Não vai indo mal – observou, quando Clayton terminou. – Na verdade, você consegue fazer isso de maneira assombrosa. Falta, todavia, um pequeno detalhe.
– já sei! – respondeu Clayton. – E penso que lhe poderei dizer qual.
– Sim?
– Veja, este – disse Clayton, fazendo um movimento, que consistia em retorcer as mãos e atirá-las para a frente.
– Exatamente.
– Quero que saibam que este era o que ele não conseguia executar bem, mas, como VOCÊ …
– Eu não entendo quase nada desse negócio e, principalmente, como. pode você inventá-lo – retrucou Sanderson – esse gesto, porém, eu o conheço, está claro. – Refletiu um instante e continuou: – Em resumo, trata-se de uma série de sinais relativos a certo ramo de maçonaria esotérica … Com certeza, você os conhece… pois, do contrário … como?
Tornou a refletir mais ainda, e prosseguiu:
– Não penso que haja mal algum em revelar-me o sinal exato. Além disso, se você já o conhece, melhor para si, mas, se o não conhece, fica tudo na mesma.
– Eu nada sei, além do que me ensinou o pobre, naquela noite – declarou Clayton.
– Então, tanto faz – murmurou Sanderson, pousando o cachimbo, cuidadosamente, no modilhão. Em seguida, passou a executar rápidos movimentos, com as mãos.
– É assim? – perguntou Clayton, imitando-o.
– Isso mesmo! – certificou Sanderson. voltando a pegar o cachimbo.
– AGORA, – disse Clayton – sou capaz de executar a série toda… bem.
Encontrava-se de pé, diante do fogo, que ia morrendo, e sorria para nós. Contudo, pareceu-me haver certa hesitação naquele sorriso.
– Vou começar… – preveniu-nos.
– Em seu lugar, eu não começaria, – observou Wish.
– Nada poderá acontecer – afirmou Evans. – A matéria é indestrutível. Você não irá pensar que uma invenção dessas seja capaz de lançar Clayton para o mundo das sombras. Teria graça! Quanto a mim, Clayton, pode bracejar à vontade, até que seus braços se separem dos punhos.
– Não concordo com isso – atalhou Wish, que se levantou e pôs a mão no ombro de Clayton. – Saiba que quase me fez acreditar em sua história, por isso, não quero que faça tal coisa.
– Valha-me Deus! – exclamei – Parece que Wish está assustado!
– Sim, estou – confessou Wish, com veemência real, ou notavelmente fingida. – Penso que, se fizer tais gestos esotéricos, acabará desaparecendo.
– Nada disso acontecerá! – exclamei. – Os homens somente podem sair deste mundo por um caminho, e Clayton ainda tem mais de trinta anos à sua frente. Você não julga que…
Wish interrompeu-me, todo agitado. Saiu de entre nossas poltronas e, parando junto à mesa, gritou:
– Clayton, você está maluco! Clayton voltou-se sorrindo, com um brilho humorístico no olhar.
– Wish tem razão – disse – e vocês; todos estão equivocados. Desaparecerei. Levarei até ao fim estes passes, e, quando o derradeiro movimento rasgar o ar … pronto! Este tapete ficará vazio, a sala ficará inundada de mudo assombro, e um cavalheiro de noventa e cinco quilos, decentemente trajado, mergulhará em cheio no mundo das sombras! Tenho certeza disso, e vocês também não tardarão em tê-la. Desisto de continuar a discussão por mais tempo. Que se faça a prova!
– NAO! – intimou Wish, dando mais–um passo à frente.
Mas estacou, e Clayton ergueu as mãos, mais uma vez, para repetir os passes do fantasma.
Naquele instante, nos encontrávamos numa deplorável tensão de espírito, principalmente por causa da atitude de Wish. Permanecíamos imóveis, olhares fixos em Clayton, e eu, pelo menos, experimentava uma estranha sensação de tensão e rigidez, como se, desde a nuca aos músculos, meu corpo fosse de aço. Nesse ínterim, com uma gravidade imperturbável e serena, Clayton se inclinava, movimentava-se e agitava as mãos e braços, à nossa frente. Ao aproximar-se o fim, nossa tensão nervosa se tornou insustentável e percebi que rangiam os dentes. 0 derradeiro movimento, como já disse, consistia em abrir completa- mente os braços, com o rosto voltado para cima. Quando, finalmente, iniciou esse gesto, chequei a conter a respiração. Podia ser uma coisa ridícula, evidentemente, mas vocês já irão conhecer a impressão que causam essas histórias de fantasmas. E notem, ainda, que isso acontecia numa casa fora de comum, escura e antiga. Chegaria, depois de tudo, a … ?
Durante um estarrecedor momento, Clayton permaneceu naquela posição, de braços abertos e cara virada para o alto, firme e resplandecente, sob o fulgor da lâmpada. Todos nós nos quedamos em suspenso durante aquele lapso de tempo, que nos pareceu um século, e, depois, brotou de nossas gargantas um som que era, ao mesmo tempo, um suspiro de infinito alivio e um NÃO! tranqüilizador, pois, que, visivelmente… Clayton… não desaparecia. Tildo aquilo não passara de uma mentira. Clayton nos contara uma história banal, infantil, e quase nos fizera acreditar nela. Nada mais que isso! … Mas, exatamente naquele momento a fisionomia de Clayton se transformava.
Mudou-se completamente. Tal como se transforma uma casa iluminada, quando se lhe apagam subitamente as luzes, assim se transformou seu semblante. Seus olhos se vidraram bruscamente, o sorriso se lhe gelou nos lábios, subitamente exangues, e ele continuou de pé, imóvel. E assim se conservou, balançando-se suavemente.
Mas, aquele momento valeu, também, por um século. E, pouco depois, as cadeiras bailavam, objetos caíam ao chão, e todos nós nos sentíamos em movimento. Os joelhos de Clayton deram a impressão de que iam dobrar-se e ele tombou para a frente, ao passo que Evans dava um pulo e o amparava nos braços…
Isso nos deixou atônitos. Durante o espaço de um minuto, creio que nenhum de nós disse nada coerente. Estávamos vendo; no entanto, custávamos a acreditar… Sai de minha estupefata admiração para me encontrar ajoelhado junto ao corpo estendido. Seu casaco e sua camisa estavam rasgados, e Sanderson lhe auscultava o coração.
Esse gesto, tão simples, podia ter sido deixado para mais tarde, para quando estivéssemos menos emocionados, pois não tínhamos pressa alguma em compreender. 0 cadáver permaneceu ali cerca de uma hora, rias ainda se conserva em minha memória, negro e desconcertante como então. Clayton passara, efetivamente, para aquele mundo que se encontra tão perto, e, ao mesmo tempo, tão distante de nós. Clayton fora para lã, realmente, pelo único caminho que pode seguir um mortal. Mas, que para lá seguiu unicamente graças aos conjuros daquele inexperiente fantasma ou repentinamente atacado de apoplexia, no decorrer de uma história banal, – como o médico-legista nos deu a entender – é o que não posso precisar. De qualquer maneira, trata-se de um dos muitos enigmas que hão de permanecer sem explicação até que estejamos em condições de compreender todas as coisas misteriosas que nos cercam. Tudo quanto posso garantir, porém, é que, no próprio momento, no instante exato em que Clayton acabava de executar aqueles passes esotéricos, transfigurou-se, cambaleou e tombou no chão, bem diante de nós… morto!

William Wilson (Edgar Allan Poe)

IMAGINAI por um Momento que me chamo William Wilson. Meu nome verdadeiro não deve manchar a página virgem que tenho diante dos olhos. Demais, tem ele sido o horror e a abominação do mundo, a vergonha e o opróbrio de minha família. Não terão os ventos indignados levado a sua infâmia incomparável até às regiões mais longínquas do globo?
– Oh! Sou o mais abandonado de todos os proscritos! 0 mundo, as suas honras, as suas flores, as suas aspirações douradas, tudo acabou para mim. E, entre as minhas esperanças e o céu, paira eternamente uma nuvem espessa, lúgubre, ilimitada!
Ainda que pudesse, não quereria encerrar nestas paginas todas as lembranças dos meus últimos anos de miséria e de crime irremissível. Esse período recente da minha vida atingiu, de repente, tais dimensões de torpeza que seria tão horrendo como difícil descrevê-lo. 0 que quero é simplesmente determinar a origem desse súbito desenvolvimento de perversidade. Os homens, em geral, corrompem-se gradualmente; mas, de mim, a virtude desligou-se num momento, de uma vez, como se fora um manto. De uma perversidade relativamente ordinária, passei, com um salto gigantesco, a enormidades mais que heliogabálicas.
Permiti que vos conte do principio ao fim o caso, o acidente fatal, que motivou essa maldição. A morte aproxima-se e a sombra, que a precede, lançou, já, no meu coração, influência benéfica de arrependimento e de paz.
Próximo a atravessar o sombrio vale, suspiro pela piedade (ia dizer pela simpátia) dos meus semelhantes. Quereria convencê-los de que fui arrastado por circunstâncias superiores à resistência humana. Desejaria que descobrisse, na vasta seara de crime que vi desenrolar, algum pequeno oásis de fatalidade para mim. Que concordassem. (e talvez não possam deixar de concordar) que nunca, num mundo cheio de tentações, apareceu alguma coisa igual a esta e que jamais criatura humana sucumbiu vítima de torturas semelhantes.
Em verdade, tudo isto não será um sonho? Acaso não morrerei vitima do horror e do mistério da mais estranha visão de todas as visões sublunares?
Sou o descendente de uma raça conhecida, desde longo tempo, pela força da imaginação e pela extrema irritabilidade de temperamento, e confirmei desde pequeno o caráter tradicional de minha família, caráter que a idade desenvolveu e que veio, mais tarde, prejudicar-me de modo tão terrível como extraordinário.
Meus pais, fracos de espírito e, além disso, sofrendo do mesmo mal, quase nada podiam fazer para modificar os maus instintos que me distinguiam. Ainda assim, fizeram algumas tentativas, mas tão fracas e mal dirigidas, que abortaram inteiramente, convertendo-se em completo triunfo para mim. Desde então, minha voz foi a lei doméstica; e, numa idade em que poucas crianças pensam ainda sair do regaço materno, fui abandonado ao meu livre arbítrio, senhor absoluto de todas minhas ações.
As primeiras lembranças da minha vida de estudante estão ligadas a um casarão exótico, do estilo Isabel, situado numa aldeia tristonha da Inglaterra, semeada de árvores gigantescas, onde as casas eram todas de antiguidade respeitável. Na verdade, era um lugar fantástico, aquela aldeia antiga e venerável, e bem próprio para excitar a imaginação. Mesmo neste momento, sinto no espírito as impressões refrigerantes das suas avenidas, respiro as emanações das suas matas rumorosas, estremeço ainda, com indefinível voluptuosidade, à lembrança das badaladas profundas do sino, atravessando, de hora a hora, com o seu rugido súbito e moroso, a quietação da atmosfera escura. onde mergulhava o campanário gótico da igreja.
A recordação destas lembranças do colégio constitui. hoje, o único prazer que me é dado ainda sentir, imerso na desgraça, como estou (desgraça, ai. demasiado real); perdoar-me-ão procurar consolo bem ligeiro e bem curto nestas minúcias pueris e errantes. Além disso, por vulgares e insignificantes que pareçam, não podem deixar de ter na minha imaginação uma importância circunstancial, por motivo de sua íntima conexão com a época em que distingo agora os primeiros avisos ambíguos do destino, que ( Depois me envolveu tão profundamente na sua sombra. Deixai-me, pois, recordar. )
Como acabo de dizer, a casa era velha e irregular; a propriedade, grande, circundada por um muro de tijolos, alto e sólido, encimado por uma camada de argamassa e vidros quebrados. Aquela muralha, digna de uma prisão, formava os limites do nosso domínio. Não saíamos dali senão três vezes por semana; uma vez aos sábados de tarde, para uns passeios curtos e monótonos pelos campos vizinhos, em companhia dos prefeitos, e duas vezes aos domingos, quando íamos, com a regularidade de um regimento em parada, assistir aos ofícios da manhã e da tarde, na única igreja da aldeia.
0 cura dessa igreja era o reitor do colégio. Com que profundo sentimento de admiração e de dúvida o contemplávamos do nosso banco reservado, quando subia ao púlpito, com passo solene e vagaroso. Aquele personagem venerável, com aspecto tão modesto e tão benigno, vestes tão novas e tão clericalmente ondeantes, cabeleira tão perfeitamente empoada, tão direito e tão importante, podia ser o mesmo homem que, ainda agora, arrenegado e carrancudo, com as roupas todas sujas de tabaco, fazia executar, de palmatória na mão, as leis draconianas do colégio? Oh! gigantesco paradoxo, cuja monstruosidade não tem solução!
Mas, voltemos à descrição do edifício. Num ângulo da parede maciça, havia uma porta ainda mais maciça, solidamente carregada de fechaduras e terminada por um bosque de ferragens denticuladas. Essa porta (que sentimentos profundos ela inspirava) não se abria senão para as três saídas e entradas de que falei. Então, em cada crepitação dos seus gonzos possantes, achávamos uma superabundância de mistério, um mundo completo de observações solenes e de meditações ainda mais solenes.
0 recinto da propriedade era de forma irregular e dividido em muitas partes, das quais três ou quatro das maiores constituíam o pátio do recreio. Esse pátio, situado por detrás da casa, era alisado e coberto de areia, sem árvores nem bancos, nem coisa alguma semelhante: lembro-me perfeitamente. A frente do edifício, havia um pequeno jardim, plantado de buxo e outros arbustos; mas esse oásis sagrado só nos era franqueado em ocasiões solenes, tais como à entrada no colégio, à saída definitiva, ou ainda quando, convidados por algum parente ou amigo, partíamos alegremente para a casa paterna, nas férias do Natal ou de São João.
E a casa? Que curiosa construção apresentava! Para mim, que verdadeiro palácio mágico! Era um nunca acabar de recantos, de subdivisões incompreensíveis. Em qualquer parte que nos . achássemos, era difícil dizer ao certo se estávamos no primeiro ou no segundo andar. De sala para sala, havia sempre três ou quatro degraus a subir ou a descer. Depois, as subdivisões laterais eram incompreensíveis, inumeráveis, com tantas voltas e reviravoltas, que as nossas idéias mais exatas, relativamente ao conjunto da edificação, não eram mais aproximadas do que as que tínhamos do infinito. Durante cinco anos que ali residi, nunca me foi possível determinar exatamente a situação do
* dormitório que eu ocupava, em comunidade com pequeno mais dezoito ou vinte escolares.
A sala do estudo era a maior de todas da casa (e até de todo o mundo, pelo menos me parecia). Era muito comprida, muito estreita, com os tetos baixos e as janelas ogivais. Num canto afastado, de onde emanava o terror, havia um recinto quadrado de cito ou dez pés, que representava o “Sanctum” do nosso reitor, o Rev. Dr. Bransby, durante as horas de estudo.
Noutros dois cantos, viam-se outros compartimentos análogos, objetos de muito menos veneração: contudo, ainda era alvo de terror assaz considerável: um era a cadeira do mestre de belas letras; o outro a do mestre de inglês e de matemática. Espalhados pelo meio da casa, cruzavam-se, numa irregularidade completa, inumeráveis bancos e estantes carregadas de livros velhos e sujos; estas últimas, negras e antigas, estragadas pelo tempo, cobertas de cicatrizes, de letras e de nomes, de figuras grotescas e de outras numerosas obras-primas de canivete, conservavam apenas uns restos do pouco feitio original que noutros tempos haviam tido.
A uma extremidade da sala, estava um enorme balde cheio d’água e, na outra, o relógio de tamanho prodigioso.
Encerrado nos muros daquele colégio venerável, passei, todavia, sem aborrecimento nem mágoas, os anos do terceiro lustro de minha vida. 0 cérebro fecundo da infância não exige um mundo inferior acidentado para se entreter ou divertir; por isso, na monotonia aparente da escola, encontrei impressões mais vivas e mais intensas que todas as que a minha virilidade procurou depois, na devassidão e no crime.
0 meu primeiro desenvolvimento intelectual foi extraordinário, desregrado até. Em geral, os acontecimentos da vida infantil não deixam sobre a humanidade senão impressões mal definidas. Tudo são sombras, lembranças fracas e irregulares, confusão vaga de prazeres ligeiros e de penas fantasmagóricas. Comigo não acontece assim. É necessário que tenha sentido minha infância com a energia de homem feito; tudo o que encontro ainda hoje me está gravado na memória, com traços tão vivos, tão profundos e tão duradouros como as faces das medalhas cartaginesas.
E no entanto, debaixo do ponto de vista ordinário, esses dias mereciam pouca recordação. 0 levantar, o deitar, o estudo das lições, as recitações, os feriados periódicos e os passeios, o pátio do recreio, com suas lutas, os seus passatempos as suas intrigas, e nada mais; mas, tudo isso, por uma magia física que passou, continha uma superabundância de sensações, um mundo rico de incidentes, um universo de emoções variadas e de excitações inebriantes. Oh! bom tempo foi o desse século de ferro!
A minha natureza ardente, entusiasta e imperiosa, deu-me um lugar distinto entre os outros rapazes e pouco a pouco, como era natural, adquiri um poderoso ascendente sobre todos * os que não eram mais velhos do que eu; sobre todos, exceto sobre um. Este um era o aluno que, sem ter comigo parentesco algum, tinha o mesmo nome de batismo e o mesmo nome de família (circunstância pouco notável em si, porque o meu nome, não obstante a nobreza da origem, era um destes apelidos vulgares, que parece ter sido, desde tempo imemorial, por direito de prescrição,
propriedade comum do povo). Nesta narrativa, o nome de Wilson (nome fictício, mas que não está muito afastado do verdadeiro) : só o meu homônimo, entre todos os que, segundo a linguagem do colégio, compunham a nossa classe, ousava rivalizar comigo nos estudos das aulas, nos jogos e nas disputas do recreio, recusar fé absoluta às minhas asserções e submissão completa à minha vontade; em suma, contrariava minha ditadura em todos os casos possíveis. Se jamais houve no mundo despotismo supremo e sem restrição, é o que uma criança de gênio exerce sobre as almas menos enérgicas dos seus camaradas.
A rebelião de William era para mim fonte perene de desgostos, tanto mais que, não obstante a bravata com que afetava tratá-lo, e as suas pretensões, no fundo, temia-o. Não podia deixar de encarar a igualdade que mantinha tão facilmente comigo, como uma prova de verdadeira superioridade, porque, pela minha parte, não era sem grandes e contínuos esforços que conseguia conservar-me à sua altura. Contudo, essa igualdade, ou, antes, essa superioridade, não era reconhecida senão por mim; os outros rapazes, com uma cegueira inexplicável, pareciam não dar por isso.
Wilson parecia igualmente destituído da ambição que me impelia a dominar, e da energia que me dava autoridade. Dir-se-ia que o único móvel da sua rivalidade era o desejo caprichoso de me contradizer, de me assustar, de me atormentar, posto que muitas vezes não pudesse deixar de notar, com sentimento confuso de espanto, de cólera e de humilhação, que o meu rival misturava às impertinentes contradições certos ares de afetuosidade, os mais intempestivos e os mais desagradáveis do mundo. Não podia explicar a mim próprio semelhante conduta, senão supondo-a o resultado de uma presunção insolente, permitindo-se o tom da superioridade e da proteção.
A nossa homonímia, junto ao Fato, puramente acidental, de termos entrado ao mesmo tempo no colégio, espalhara, entre os nossos condiscípulos das classes superiores, a idéia de que éramos irmãos. Ordinariamente, os rapazes grandes não indagam com muita exatidão da vida dos menores. Já disse que William não era, nem no grau mais remoto, aparentado com minha família. Mas, se fôssemos irmãos, teríamos sido gêmeos, porque, depois de ter deixado a casa do Doutor Bransby, soube, por acaso, que o meu homônimo nascera no dia 19 de janeiro de 1813, sendo precisamente esse dia (coincidência notável) o do meu natalício.
Parece incrível que, não obstante a rivalidade de Wilson e o seu insuportável espírito de contradição, não tivéssemos chegado a odiar-nos absolutamente. É verdade que tínhamos todos os dias uma questão, na qual, concedendo-me publicamente a palma da vitória, Wilson não deixava de me fazer sentir, por qualquer forma, que era ele que a tinha merecido. Contudo, um sentimento de orgulho da minha parte, e da sua, uma verdadeira dignidade, mantinha-nos sempre nos termos da estrita conveniência. Ao mesmo tempo, a quase igualdade dos nossos caracteres havia despertado em mim um sentimento que, sem aquela situação hostil, teria progredido em amizade. Realmente, é-me difícil definir os verdadeiros sentimentos que nutria. por ele. Era uma mistura variegada e heterogênea: animosidade petulante, que não chegava a ser ódio; estima, respeito, muito receio e uma curiosidade imensa e inquieta. Para o moralista, é escusado acrescentar que William e eu éramos camaradas inseparãveis.
Em conseqüência dessa ambigüidade de relações, todos os meus ataques contra ele (e, francos ou dissimulados, esses ataques eram numerosos) tinham mais a forma da ironia e da brincadeira, que a da hostilidade séria e determinada. Mas, os meus esforços neste sentido não obtinham grande triunfo, por mais engenhosamente que os planasse – porque o meu homônimo tinha no caráter muita dessa austeridade plácida e reservada que dá aos que a possuem o privilégio de ferir os outros, sem mostrarem nunca o calcanhar de Aquiles. Nunca pude achar nele senão um ponto vulnerável; e isso mesmo era um pormenor físico que, procedendo talvez de uma enfermidade de construção, teria sido respeitado por qualquer antagonista menos encarniçado do que eu. 0 meu homônimo tinha fraqueza do aparelho vocal, que o impedia de levantar a voz acima de um murmúrio muito baixo. Era dessa imperfeição que eu tirava as minhas pequenas desforras.
Wilson tinha diferentes espécies de represálias, mas havia particularmente uma que me fazia ir aos ares. Não sei como chegou a perceber que semelhante futilidade produzia em mim tão grande efeito. Mas, desde que o descobriu, foi o seu gênero de tortura predileto.
0 meu nome de família, tão desengraçado e deselegante, e o meu nome próprio, tão trivial senão tão completamente plebeu, eram para mim, e toda a vida tinham sido, assuntos de grande desgosto. Ora, quando se apresentou no colégio, no mesmo dia da minha chegada, um segundo William Wilson, senti-me logo disposto contra ele, unicamente por se chamar assim, porque seria causa de eu ouvir pronunciar o dobro das vezes essas sílabas que me torturavam os ouvidos, porque a sua vida, no ram-ram das funções ,do colégio, seria, muitas vezes e imitavelmente, confundida com a minha. E, por todas essas razões, desgostei-me ainda mais do nome.
Este sentimento de irritação aumentava em cada circunstância, que tendia a pôr em evidência qualquer semelhança física ou moral entre mim e o meu homônimo. Nesse tempo, ainda eu não tinha descoberto o fato muito notável da paridade das nossas idades; mas via que éramos da mesma altura e achava até certa semelhança nas nossas fisionomias, o que me contrariava solenemente. A fama que corria, e que era geralmente acreditada, nas classes superiores, de que éramos parentes, exasperava-me do mesmo modo. Numa palavra, não havia nada que me encolerizasse mais (bem que eu me contrafizesse o mais possível para não dar a conhecer) do que uma alusão qualquer à nossa semelhança, quer física, quer moral, ou ao suposto parentesco. Todavia, nada me levava a crer que essas analogias tivessem dado lugar a comentários ou houvessem sequer sido percebidas pelos nossos camaradas de classe. Que Wilson as observasse com tanta atenção como eu, era natural; mas o que não era natural era ter descoberto em semelhantes circunstâncias mina tão rica de contrariedades para mim.
Tendo, pois, percebido quanto essas semelhanças me desagradavam, o meu homônimo aumentava-as ainda, arremedando-me com habilidade verdadeiramente prodigiosa.
Copiava-me o gesto, as minhas palavras; adotava o meu vestuário, o meu andar, as minhas maneiras, enfim, nem mesmo a minha voz lhe havia escapado, não obstante o seu defeito constitucional. Não me podia imitar as notas altas, mas o timbre e a entonação eram idênticos. Quando falava baixo, a sua voz era perfeitamente o eco da minha.
Não tentarei dizer-vos até que ponto aquele retrato curioso me apoquentava (porque não posso chamar-lhe. propriamente uma caricatura). A minha única consolação era que só eu notava essa perfeitíssima cópia; assim, não tinha a suportar senão os sorrisos misteriosos e singularmente sarcásticos de Wilson que, satisfeito de produzir no meu coração o efeito desejado, parecia deleitar-se, em segredo, na punhalada que me infligia, sem curar dos aplausos públicos, que o seu engenho lhe teria facilmente conquistado. Como é que os nossos camaradas não compreendiam, não se percebiam as manobras, não tomavam parte naquela maliciosa zombaria? Durante meses de inquietação, foi isto um enigma insolúvel para mim. Talvez que a lentidão graduada da imitação a tornasse menos notável; ou talvez devesse eu, antes, a minha salvação à perfeita mestria do copista que, desprezando a letra” (coisa única que os espíritos broncos podem apreciar na pintura), não se ocupava senão do espírito original. para maior admiração e desgosto da minha pessoa.
Já falei muitas vezes dos cruciantes ares de proteção que ele tomava para comigo e da sua intervenção oficiosa em quase todas as minhas vontades. Essa intervenção vinha, muitas vezes, sob a forma de conselho, conselho que não era dado francamente, mas sugerido, insinuado, 1 e que eu recebia com má vontade, a qual aumentava, à medida que me ia tornando mais velho. Contudo, nesta época longínqua, quero fazer-lhe a estrita justiça de confessar que tôdas as sugestões do meu rival eram ajuizadas e superiores à sua idade, ordinariamente destituída de reflexão e de experiência; que o seu bom-senso, os seus talentos e o seu conhecimento do mundo estavam muito acima dos meus; e que eu seria, hoje, melhor, e, por conseguinte, mais feliz, se não tivesse rejeitado tantas vezes os conselhos encerrados nessas assisadas sugestões, que então me inspiravam tamanho ódio e desprezo.
Por fim, revoltei-me inteiramente contra a sua odiosa vigilância. detestando cada vez mais o que eu considerava insolência intolerável. Disse que, nos primeiros anos da nossa camaradagem, os meus sentimentos para com ele poderiam, noutras circunstâncias, ter-se convertido em amizade; mas, durante os últimos meses que passei no colégio, não obstante a importunidade das suas maneiras habituais ter diminuído consideravelmente, esses sentimentos, numa proporção quase semelhante, tinham propendido para o ódio positivo. Uma vez, presumo que patenteei isto muito claramente, e, desde então, Wilson evitou-me ou simulou evitar-me.
Foi pouco mais ou menos nessa época (se a memória não me engana), numa altercação que tivemos, durante a qual ele perdeu a reserva ordinária, falando e portando-se com negligência quase estranha à sua natureza, que descobri ou imaginei descobrir na sua voz, nos seus modos e na sua fisionomia, geral, alguma coisa que me era muito familiar. Essa descoberta, primeiro, fiz-me estremecer, depois, interessou-me vivamente, trazendo ao espírito visões obscuras da minha primeira infância, recordações confusas, estranhas, resumidas, de um tempo que a memória não podia alcançar. Era como uma idéia extravagante e pertinaz de já ter visto o ser que me falava, em época muito antiga, em.período extremamente remoto, Essa ilusão, todavia, desvaneceu-se tão rapidamente como tinha vindo; não a menciono senão para determinar o dia da última altercação, que tive com o meu singular homônimo.
– 0 velho casarão do colégio, nas suas inumeráveis subdivisões, compreendia muitos quartos grandes, que comunicavam entre si e serviam de dormitório à maior parte dos alunos. Além disso, havia (como não podia deixar de ser numa edificação tão desastrada) uma quantidade de cantos e recantos, (sobras e remates da construção) que o talento econômico do Doutor Bransby tinha igualmente transformado em dormitórios; mas, como eram gabinetes pequenos, não podiam comportar mais de um indivíduo. Um destes quartos era ocupado por Wilson.
Uma noite, ‘ no fim do meu quinto ano de colégio, depois da alteração de que falei, levantei-me, enquanto todos dormiam, peguei num candeeiro e dirigi-me furtivamente, através de um labirinto de corredores estreitos, ao quarto do meu rival. Havia muito que projetava pregar-lhe uma.
partida, uma das tais troças que eu lhe fazia muitas vezes mas das quais, é preciso confessá-lo, nunca colhera grande resultado. Nessa noite, tinha resolvido pôr o meu plano em execução, disposto a fazer-lhe sentir toda a força da acrimônia que me animava contra ele. Quando chequei ao seu quarto, entrei, sem fazer bulha, deixando o candeeiro à porta, coberto com um guarda-luz, e avancei até sentir o ruído da sua respiração tranqüila. Tendo adquirido a certeza de que dormia profundamente, voltei à porta, pequei no candeeiro e aproximei-me novamente do leito.
As cortinas estavam fechadas. Ao abri-Ias, com todo ocuidado, para executar o meu projeto, a luz bateu em chapa no rosto do dormente; ao mesmo tempo o meu olhar caiu sobre a sua fisionomia… Penetrou-me instântanea mente uma sensação de gelo; o coração pulou-me no peito, vacilaram-me os joelhos; apoderou-se de toda a minha alma um horror espantoso, inexplicável! Respirei convulsivamente, aproximando ainda mais o candeeiro. Aquelas feições eram realmente as de Wilson? Sim, eram! eram! Que havia pois de extraordinário no seu semblante para
produzir em mim tal impressão? Contemplei-o durante alguns momentos, trèmulo, convulso; o meu cérebro girava sob a ação de mil pensamentos incoerentes. Êle não era assim, não! nunca chegara a ser assim nas horas ativas em que contrafazia a minha pessoa! Estaria verdadeiramente nos juizes da possibilidade humana, que o que eu via agora fosse unicamente , resultado dessa hábil imitação sarcástica? Gelado de espanto, apaguei o candeeiro, saí silenciosamente do quarto, e deixei para sempre o recinto daquela escola velha e extraordinária.
Depois de um lapso de alguns meses, que passei em casa de meus pais, na completa ociosidade, entrei para o Colégio de Eton. Esse pequeno intervalo bastara para dissipar as lembranças do Colégio Bransby, ou pelo menos para mudar consideravelmente a qualidade dos sentimentos que essas lembranças me inspiravam. 0 acontecimento, que me induzira a deixar o colégio, parecia-me agora efeito de pura imaginação. A realidade, o lado trágico do drama tinha desaparecido completamente. Quando me lembrava de semelhante aventura, admirava até onde pode chegar a credulidade humana, e ria-me da prodigiosa força de imaginação que havia herdado de minha família.
Ora, a minha vida em Eton não era nada própria para diminuir aquela espécie de ceticismo. 0 turbilhão de loucura em que mergulhei imediatamente varreu tudo, absorvendo de uma vez e inteiramente as impressões sólidas e sérias do passado.
Não pretendo, todavia, traçar aqui o curso dos meus miseráveis desregramentos, que nenhuma lei ou vigilância podia deter. Três anos eram passados; três anos perdidos em loucuras, durante os quais a minha alma se habituou ao vicio e o meu corpo adquiriu desenvolvimento quase anormal. Um dia, depois de uma semana inteira de dissipação brutal, convidei alguns estudantes dos mais dissolutos para uma orgia secreta no meu quarto. Reunimo-nos a altas horas da noite, devendo o deboche prolongar-se religiosamente até a manhã do dia seguinte. 0 vinho corria livremente, e outras seduções, talvez ainda mais perigosas, não tinham sido esquecidas. Quando a aurora despontava no oriente, o delírio e a extravagância tinham chegado ao apogeu.
Furiosamente inflamado pela embriaguez e pelas cartas, obstinava-me a propor um “toast” de todo indecente, quando a minha atenção foi subitamente distraída pela entrada precipitada de um criado, anunciando-me que alguém, que parecia estar com muita pressa, pedia para me falar no vestíbulo.
Excitado como estava pelo vinho, aquela interrupção inesperada causou-me mais prazer do que surpresa. Saí do quarto cambaleando, e em poucos segundos achei-me no vestíbulo da casa, uma sala baixa, estreita, alumiada apenas pela fraca luz da aurora, que penetrava através das janelas arqueadas. A pessoa que me esperava era um rapaz pouco mais ou menos da minha altura, vestido com uma roupa de casimira branca, exatamente irmã da que eu trazia nesse momento. Apenas me viu, avançou para mim, agarrou-me pelo braço com um gesto imperativo de impaciência, e murmurou-me ao ouvido: William Wilson. Aquelas palavras a minha embriaguez dissipou-se como por encanto. Havia nos modos do estrangeiro, no tremor nervoso do seu dedo erguido diante dos meus olhos, o que quer que seja sobrenatural. A importância, a solenidade da repreensão contida nas suas palavras baixas e sibilantes, o caráter, o tom, a chave dessas sílabas, simples, familiares, contudo misteriosamente segredadas, fizeram-me estremecer como se na minha alma se houvesse produzido a descarga de uma pilha voltaica.
Durante alguns segundos, o espanto e o terror aniquilaram-me o entendimento; quando voltei a mim, o rapaz tinha desaparecido.
Aquele acontecimento produziu um efeito poderosíssimo sobre minha imaginação desregrada. Contudo, esse efeito foi-se desvanecendo pouco a pouco. Pensei nisso, é verdade, durante muitas semanas, ora entregando-me a sérias investigações, ora permanecendo dias e dias engolfado em mórbidos pensamentos. A identidade do indivíduo, que se intrometia tão obstinadamente nos atos da minha vida, não me deixava dúvidas. Mas, quem era? Quem era William Wilson, de onde vinha e quais os seus fins? Esses pontos ficaram sempre obscuros para mim. De todas as indagações que fiz a seu respeito, só pude saber que um acontecimento súbito o obrigara a deixar o colégio na mesma tarde do dia em que eu fugira. Entretanto, passado certo tempo, deixei de pensar nisso, para me entregar inteiramente aos projetos da minha partida para Oxford.
Apenas chequei àquela cidade (permitindo-me a gene- rosidade pródiga de meus pais o luxo e a opulência tão caros ao meu coração) comecei a rivalizar em prodigalidades com os primeiros herdeiros dos condados mais ricos da Grã-Bretanha.
Incitado ao vicio por semelhantes meios, dei largas à natural propensão, calcando, na embriaguez louca dos meus desregramentos, os obstáculos vulgares da honra e da decência. Mas, seria absurdo demorar-me nos debates de tais extravagâncias. Basta dizer que as minhas dissipações ultrapassaram as de Herodes. Inventando uma multidão de loucuras novas, ajuntei copioso apêndice ao longo catálogo dos vícios que reinavam então na universidade mais devassa da Europa.
Enfim, arrastado pela corrente impetuosa da libertinagem e da cobiça, rebaixei-me ao ponto de adquirir as manhas mais vis dos jogadores de profissão, praticando habitualmente essa ciência desprezível como meio de aumentar a minha fortuna, já avultada, à custa da dos meus camaradas. A enormidade do 4tentado, incompatível com todos os sentimentos de honra e de dignidade, era por isso mesmo a minha salvaguarda. Qual dos meus camaradas, mesmo dentre os mais depravados, teria ousado conceber tal suspeita, do alegre, do franco, do generoso Willíam Wilson, do rapaz mais nobre e mais liberal de Oxford, aquele cujas loucuras, diziam os seus parasitas, não eram senão expansões da mocidade desenfreada, cujos erros não eram senão inimitáveis caprichos, e cujos vícios tenebrosos não passavam de ligeiras extravagâncias!
Deste modo alegre, tinha eu passado dois anos, quando chegou à universidade um rapaz de nobreza recente, chamado Glendinning, rico, diziam, como Herodes Attico, e que não punha muita dúvida em gastar a sua fortuna. Tratei de travar conhecimento com ele, e, vendo que era fraco de inteligência, assinalei-o desde logo para vítima dos meus talentos. Convidei-o a jogar muitas vezes, deixando-o ganhar a princípio, somas consideráveis (conforme a manha habitual dos jogadores). Por fim, o meu plano estando bem pensado, encontramo-nos (eu com a intenção bem firme de fazer das minhas) em casa de um dos nossos camaradas, M. Preston, igualmente conhecido de ambos, mas que, devo dizê-lo, não tinha a menor tenção de fazer jogo em sua casa. Para dar a tudo aquilo melhor aparência, trouxe comigo uma sociedade de oito a dez rapazes, preparando as coisas de modo quê a introdução das cartas parecesse perfeitamente acidental e que a idéia do jogo partisse da própria vítima. Em resumo (para abreviar assunto tão vil), não esqueci nenhuma das espertezas empregadas em casos idênticos, espertezas tão estúpidas e tão sabidas que, custa a crer, haja sempre pessoas assaz simples que se deixem enganar por elas. 0 jogo meu favorito foi o “écarté”.
A noite ia já em mais de meio, quando operei enfim de maneira a ficar com Giendinning por único adversário. As outras pessoas, interessadas pelas proporções grandiosas que ia tomando o nosso combate, tinham largado as cartas e faziam galeria à roda de nós. Glendinning baralhava, dava as cartas e jogava de modo singularmente nervoso; mas, como eu o fizera beber copiosamente durante a primeira parte da noite, imaginei que aquele estado era só efeito da embriaguez. Em pouco tempo, devia-me soma considerável. Então, depois de ter bebido mais um copo de Porto, fez exatamente o que eu tinha previsto: quis dobrar a parada, já muito extravagante. Com uma feliz afetação de resistência e só depois da minha recusa reiterada lhe ter provocado palavras azedas e duras, que deram ao meu consentimento a forma de vingança, cedi. 0 resultado foi o que devia ser. A presa caíra perfeitamente no laço; em menos de uma hora, a sua dívida tinha quadruplicado. Então, notei, com espanto, a palidez terrível ,que substituíra, quase repentinamente, na fisionomia do meu adversário, a vermelhidão do vinho. Digo com espanto,, porque, segundo as informações cuidadosas que tomara sobre Glendinning, imaginava-o prodigiosamente rico, e as somas que ele tinha perdido até ali, se bem que realmente fortes, não podiam (pelo menos assim o supunha eu) embaraçá-lo àquele ponto. Imaginei, ainda, que toda a sua perturbação era produzida pelo vinho e não por qualquer motivo de desinteresse; mas, unicamente para salvaguardar perante os outros rapazes a reputação do meu caráter, ia insistir peremptoriamente para acabar o jogo, quando algumas palavras pronunciadas ao meu lado e uma exclamação de Glendinning, exprimindo o mais completo desespero, me fizeram compreender que o tinha totalmente arruinado. Ser-me-ia difícil dizer a conduta que teria adotado em semelhante circunstância. A situação deplorável da minha vitima sensibilizava e entristecia a todos. Durante alguns minutos de profundo silêncio, senti, a meu pesar, ruborizarem-se-me as faces sob os olhos ardentes de repreensão que me dirigiam os menos endurecidos da sociedade. Confessarei, mesmo, que senti o coração aliviado dum peso intolerável à interrupção extraordinária que se seguiu. De repente, abriram-se de par em par as portas pesadas do aposento com uma impetuosidade tão vigorosa, que toda, as velas se apagaram como por encanto. Mas, antes de se extinguir, a luz deixou-nos ver alguém que entrava, u homem proximamente da minha estatura, embuçado nu capote. Não obstante, as trevas sendo agora completas, só o podíamos sentir no meio de nós. Antes de alguém ter voltado a si do espanto excessivo que produzira em todos aquela violência, ouvimos a voz do intruso:
– Meus senhores, – disse ele “com voz muito baixa”, mas distinta, uma voz inolvidável, que me gelou até à medula dos ossos, – meus senhores, não peço desculpa da minha conduta, porque, procedendo assim, não fiz mais que cumprir um dever. Não conheceis decerto o caráter da pessoa que acaba de ganhar no “écarté” uma soma enorme a Lorde Glendinning. Vou, pois, propor-vos um meio rápido de chegardes a esse importantíssimo conhecimento. Peço-vos, examinai bem o forro do canhão da sua manga esquerda e algumas cartas que achareis nas algibeiras assaz vastas do seu casaco.
0 silêncio em que o escutavam era tão profundo, que teria ouvido o ruído de um alfinete caindo ao chão. 0 desconhecido, mal acabou de falar, partiu tão bruscamente como havia entrado. Quanto a mim, não posso descrever, nem mesmo sei quais foram as minhas impressões! Senti-me agarrado por muitos braços, depois vieram luzes; seguiu-se uma pesquisa na minha pessoa. No forro da manga, acharam-me todas as figuras essenciais do “écarté” e, nas algibeiras do casaco, certo número de baralhos de cartas exatamente iguais aos que usávamos nas nossas reuniões, com a diferença de que as minhas eram daquelas chamadas propriamente boleadas. As cartas principais, sendo ligeiramente convexas do lado Pequeno, e as ordinárias imper- ceptivelmenté convexas do lado grande. Graças a esta disposição, o “ingênuo”, que corta o baralho (como se faz habitualmente) no sentido do cumprimento, corta, invariavelmente, de forma a dar ao parceiro uma carta principal, enquanto que o “esperto”, cortando no sentido da largura, não dará à sua vítima nada que possa levar-lhe vantagem.
Uma tempestade de indignação ter-me-ia feito sofrer menos que o silêncio desdenhoso e os sorrisos sarcásticos que acolheram aquela descoberta.
– Sr. Wilson, – disse o dono da casa, apanhando do chão uma capa magnífica forrada de peles preciosas, – Sr. Wilson, isto é seu (como o tempo estava frio, eu tinha efetivamente trazido uma capa, que tirara ao entrar na sala do jogo); creio – acrescentou, mirando as pregas da capa, com um sorriso amargo – creio que será escusado procurar aqui mais provas da sua arte: bastam-nos as que temos. Espero que compreenderá a necessidade de deixar Oxford; em todo o caso, sairá imediatamente de minha casa.
Aviltado, humilhado até a lama, é provável que tivesse castigado imediatamente aquela linguagem insultante: com alguma violência pessoal, se a minha atenção não estivesse, naquele momento, toda absorvida por um fato verdadeiramente pasmoso. A minha capa era um traste riqussimo, forrada de peles esplêndidas, duma variedade e dum preço extravagante (é inútil dizê-lo). 0 feitio era de fantasia, inventado por mim, porque me ocupava muito de todas essas futilidades luxuosas, levando o furor do dandismo até ao absurdo. Por isso, quando M. Preston me entregou a capa, que apanhara do chão, vi, com espanto vizinho do terror, que já trazia a minha no braço e que aquela, até nos pormenores minuciosos, era perfeitamente semelhante. Não perdi, contudo, a presença de espírito; pequei-a, coloquei-a sobre a minha, sem que os outros dessem por isso, e sai da sala com um olhar ameaçador. Na madrugada seguinte, deixei precipitadamente Oxford e fugi para o continente, coberto de vergonha e de terror.
Fugia em vão! 0 meu destino maldito perseguiu-me triunfante, provando-me que o seu poder misterioso tinha apenas começado. Mal pus os pés em Paris, tive logo uma prova da jurisdição de Wilson. Decorreram anos sem tréguas para mim. Miserável! Em Roma, com que desvê-lo importuno, com que ternura de espectro, veio interpor-se entre mim e a minha ambição! E em Vienal E em Berlim! E em Moscou! Aonde podia eu ir, que não achasse logo uma razão amarga para o amaldiçoar do fundo do coração? Atacado por um pânico indescritível, fugia diante da sua tirania como diante da peste. Fugi até ao fim do mundo, mas fugi em vão!
E sempre, sempre interrogando secretamente: a alma, repetia as minhas perguntas: Quem é? De onde vem?
Que quer? E analisava, então, com minucioso cuidado, as formas, o método, as feições características da sua insolente vigilância. Mas, nem nesse ponto achava nada que pudesse servir de base a uma conjetura. Era uma coisa verdadeiramente notável, que nos casos numerosos em que Wilson tinha recentemente, atravessado o meu caminho, todos os planos derrotados por ele eram loucuras que, se tivessem progredido, teriam fatalmente rematado por uma desgraça. Triste justificação, na verdade, de uma autoridade tão imperiosamente usurpada! Triste indenização dos direitos naturais do livre arbítrio, tão teimosa e insolentemente denegados!
Havia muito tempo que o meu carrasco, posto que exerceu sempre escrupulosamente e com destreza milagrosa a sua mania de “toilette” idêntica à minha, se apresentava em todas as suas intervenções, de maneira a não me mostrar o rosto. Quem quer que fosse esse danado Wilson, por certo semelhante mistério era o cúmulo da afetação e da toleima. Podia, acaso, supor que no meu conselheiro de Eton, no destruidor da minha honra em Oxford, naquele que tinha contrariado a minha ambição em Roma, a minha vingança em Paris, os meus amores em Nápoles e no Egito a minha cobiça, que nesse ente, meu grande inimigo e meu gênio mau. eu não reconhecia o William Wilson do colégio, o homônimo, o camarada, o rival temido e execrado da casa Bransby? Era impossível! Mas, deixai-me chegar à terrível cena que fechou o drama.
Até então, havia-me submetido covardemente ao seu domínio imperioso. 0 profundo sentimento de respeito com que me habituara a considerar o caráter elevado, a majestosa sabedoria, a onipresença e onipotência aparentes de Wilson, misturando com não sei quê de sensação e de terror, que inspiravam as outras feições da sua natureza e certos privilégios, tinham-me incutido a idéia da minha completa fraqueza e impotência, aconselhando-me, humildemente, sem restrição, posto que cheia de tristeza e de repugnância, submissão à sua arbitrária ditadura. Mas, ultimamente, tinha-me abandonado de todo ao vinho, e a sua influência irritante sobre o meu temperamento hereditário tornava-me cada vez mais rebelde a toda qualidade de censura. Entrei a murmurar, a hesitar, a resistir. Depois, pouco a pouco, comecei a sentir a inspiração de uma esperança ardente. Por fim, alimentei, em segredo, no pensamento, a resolução desesperada daquela escravidão.
Era em Roma, durante o carnaval de 18 … ; achava-me num baile de máscaras, no palácio do Duque Di Broglio, de Nápoles. Nessa noite, tinha abusado do vinha ainda mais do que o costume, e a atmosfera sufocante das salas cheias de gente irritava-me de modo insuportável. A difculdade de abrir caminho através da multidão não contribuiu pouco para me exasperar, porque procurava com ansiedade
(não direi com que indigno fim) a jovem, a alegre e bela li uma confiança assaz imprudente, me havia confiado o segredo do “costume” que ela devia trazer ao baile. Tendo-a avistado, finalmente, ao longe, apressava-me a chegar até ela, quando senti alguém que, ao de leve, me tocava o ombro, e depois o tom meu ouvido!
Do lho e extravagante Di Brog o que, com inolvidável, profundo, maldito murmúrio. Voltei-me furioso para aquele que assim me interrompia e agarrei-o violentamente pela gola. Trazia, já se vê, costume igual ao meu; manto espanhol de veludo azul e espada suspensa à cintura por um boldrié carmesim; a cara inteiramente coberta com uma máscara de seda preta.
– Miserável! – exclamei, com a voz enrouquecida pela cólera, que me aumentava a cada sílaba que proferia, – miserável! impostor! Celerado não voltarás mais a perseguir-me, a atormentar-me! Vem comigo ou mato-te aqui mesmo!
Dizendo aquelas palavras, abria caminho da sala do baile para uma pequena antecâmara contígua, arrastando-o irresistivelmente atrás de mim.
Apenas entrei, atirei com ele para longe, de encontro a uma parede; depois, fechei a porta, com uma praga tremenda, e mandei-o desembainhar a espada. Hesitou um segundo; por fim, suspirando ligeiramente, pôs-se em guarda, com silêncio e tranqüilidade extraordinárias.
0 combate não foi longo. Exasperado como estava, por ardentes excitações de toda espécie, sentia no braço a energia e o poder de um exército. Dentro em poucos segundos, levei-o contra a parede e ali, tendo-o à discrição, cravei-lhe repetidas vezes a espada no peito, com a ferocidade de um bruto.
Nesse momento, mexeram na fechadura da porta. Apressei-me a prevenir alguma invasão e voltei imediata- mente para junto do meu adversário agonizante. Mas que linguagem humana pode traduzir o espanto e o horror que se apoderaram de mim, ao espetáculo que, se me deparou!
Durante o curto instante que me afastara, produzira-se nas disposições locais do aposento uma mudança material.
No lugar onde me recordava de não ter visto – nada, estava agora um espelho enorme (no estado de perturbação em que me achava, assim se me afigurou) e, como eu caminhasse para ele, cheio de terror, a minha própria imagem, mas com a cara horrivelmente pálida e toda salpicada de sangue, avançou para mim a passos lentos e vacilantes.
Tal se me afigurava, digo, mas realmente não era assim. Era o meu adversário, era Wilson moribundo, que se erguia diante de mim. A sua máscara e o seu manto estavam no chão. Não havia um fio no seu vestuário, nem uma linha em toda a sua figura (tão caracterizada e tãcr singular) que não fosse meu, que não fosse minha; era o absoluto na identidade!
Era Wilson, mas Wilson sem murmurar já as suas palavras! Falando alto, e de modo que me pareceu que era a minha própria voz, que dizia:
– Venceste e eu sucumbo. Mas, doravante também estás morto, morto para o mundo, para o céu e para a esperança! Em mim existias; e, agora, olha para a minha morte, vê nesta imagem, que é a tua, como te assassinaste a ti próprio!

A Mão do Hindu (Arthur Conan Doyle)

TODA a gente Sabe que Sir Dominick Holden, o faraoso cirurgião da Índia, fêz-me seu herdeiro, e, desse modo, transformou um médico pobre num opulento proprietário. Muitos, também, sabem que, pelo menos, cinco pessoas se atravessaram em meu caminho, por julgarem a escolha de Sir Holden arbitrária ou caprichosa. A estas, posso assegurar que estão redondamente enganadas e que, embora eu conhecesse Sir Holden apenas nos últimos tempos de sua vida, ninguém fez mais por lhe merecer a estima. Posso, mesmo, afirmar que, em toda sua vida, ninguém fez mais por ele. Não pretendo que aceitem a minha afirmativa. nem que creiam no que vou contar; parece obra de pura imaginação; mas, como me sinto no dever de contá-la, aqui a ponho, quer me creiam, quer não.
Sir Dominick Holden foi o mais notável cirurgião da Índia, no seu tempo. Começou no Exército mas, depcis, estabeleceu-se, como particular, em Bombaim, donde era clamado para todos os pontos da Índia. Seu nome está muito liqado ao Hospital Oriental, por ele fundado e mantido. Tempo veio, entretanto, em que a sua constituição de ferro começou a dar sinais de cansaço, fazendo com que seus colegas (talvez não desinteressadamente) f- unânimes em aconselhá-lo a voltar para a Inglaterra.
Sir Holden resistiu quanto pôde, até que seu estado se agravou e ele ressurgiu em Londres, alquebrado, em busca de Wiltshíre, sua terra de nascimento. Lá, adquiriu uma grande propriedade, na fímbria da Alisbury Plain, e consagrou seus últimos anos ao estudo da Anatomia Comparada. que era sua vocação e na qual se tornara autoridade Mundial..
Nós, da família, ficamos muito excitados com a volta Já esperada de tio tão rico e sem filhos. Sir Holden, embora nada exuberante na hospitalidade, mostrou que tomava os parentes em linha de conta, a cada um de nós mandando, alternativamente, convite para uma estada lá. Desejava conhecer-nos. Por um primo, tive informação de que essas estadas eram bem melancólicas, e, em vista disso, foi com idéias mal definidas que me dirigi para lá, quando minha vez chegou. Minha mulher fora tão deliberada- mente excluída do convite, que o meu primeiro ímpeto foi recusá-lo; mas, havia interesses em jogo – interesses dos filhos – e, movido pela insistência de todos, pus de lado o ressentimento e, numa tarde de outubro, parti para
Sem, nem por sombras, imaginar o que iria suceder.
A propriedade de meu tio estava situada na planície de terras aráveis, alternadas com morretes de grés, caraterísticas do condado de Wiltshire. Quando desci na estação de Dinton, ao apagar-se daquele dia de outono, senti-me impressionado pelo tom de magia da paisagem. Os escassos cottages de camponeses ficavam tão minúsculos diante dos restos da vida pré-histórica, que o presente se me afigurava um simples sonho e, o passado, uma realidade esmagadora. 0 caminho coleava ao sabor de vales rasgados entre morros, em cujos topos se erguiam fortificações, redondas umas, outras quadradas, desafiadoras da ação dos ventos e das chuvas através dos séculos. Uns as atribuem aos romanos; outros, aos bretões; mas, a sua verdadeira origem está muito entrelaçada de possibilidades para que possa ser tirada a limpo. A espaços, nas encostas escarpadas, emergem restos de túmulos. Neles subsistem as cinzas dos cadáveres cremados, da raça que esburacou daquela maneira a montanha. Uma urna de barro em cada túmulo conta que ali se dissolveu um homem que já viveu sob o sol.
Foi através dessa impressionante paisagem que me aproximei da residência de meu tio, em Rodenhurst, solar que se casava harmoniosamente com o meio. Dois pilares, corroídos pelo tempo e encimados de, emblemas heráldicos, flanqueavam o portão de entrada. Um renque de olmos seguia-se, agitado pelo vento gelado e a desfazer-se das folhas amarelecidas. Ao fim desse túnel vegetal, uma lâmpada. Era já quase noite, mas pude apanhar a vivenda
em osso. Suas roupas penduram pelos ombros,
em visão de conjunto – uma casa baixa, que se estirava em duas alas desiguais, bem no estilo dos Tudors. Certa janela, com persianas, mostrava luz dentro – era o gabinete de meu tio, para onde me levou um criado.
Encontrei-o junto à lareira, tiritando ao áspero frio do outono inglês. Não estava acesa a lâmpada, de modo que vi Sir Holden à luz do braseiro – cabeça grande, nariz de índio, rosto sulcado de rugas, como marcas sinistras de oculto fogo vulcânico. Sir Holden ergueu-se para receberme, num gesto de cortesia grata às tradições do velho solar. Um criado veio acender as lâmpadas e pude ver que um par de olhos, penetrantes como o das águias, escondidos debaixo do espesso das sobrancelhas – scouts atrás das moitas – estavam lendo o meu caráter e os meus pensa- mentos, com a facilidade dum mestre nos segredos da vida.
Eu não Podia despegar dele os meus olhos, porque jamais vira diante de mim uma criatura mais digna de nota. Um verdadeiro gigante, mas despido de carnes e só pareciam vazias, como as que se num cabide de quarda-roupa. As mãos eram só nós; as pernas, magríssimas. Os olhos, porém, aqueles perscrutadores olhos azuis, impressionavam mais que tudo. Não pela cor, apenas, nem pelo fato de estarem emboscados sob as sobrancelhas espessas – mas pela expressão. Do seu todo agigantado e senhoril, era de esperar-se, naqueles olhos, uma expressão de arrogância; ao invés disso, tinha a que emana de um espírito acovardado e agachado, com o furtivo e expectante do olhar do cachorro que vê o senhor levantar o chicote. Mentalmente, murmurei o meu diagnóstico, com base naquela expressão. Vi que meu tio estava em luta com alguma doença mortal, dessas que extinguem uma vida repentinamente – e percebi que isso o aterrorizava. Era o chicote erguido. Tal foi o meu diagnóstico – mas errado, como os acontecimentos o provaram. Menciono-o para que o leitor acompanhe a marcha das minhas impressões.
A recepção de meu tio foi, como já disse, cortês, e. uma hora depois, vi-me sentado entre ele e sua esposa, à mesa de jantar, diante de iguarias requintadas, e servido por criados do Oriente. 0 velho casal voltava, tragicamente, ao viver antigo dos começos do casamento, agora que se viam no fim da vida, sozinhos, – sem amigos íntimos, já com a missão cumprida e à espera apenas do ponto final. Os que chegam a essa estação, com suavidade e amor, os que transformam o seu inverno em outono, saem da vida como vencedores. Lady Holden era uma criatura franzina e viva, com olhares para o marido, que eram certificados do nobre caráter do velho companheiro. Entretanto, embora eu lesse amor mútuo naqueles olhos, também lia um mútuo terror, que interpretei como o medo do fim. A conversa de um ou de outro era, às vezes, alegre, às vezes, triste – mas percebi esforço na nota alegre e muita naturalidade na nota triste – o que me esclareceu sob o estado real dos corações que lhes palpitavam no peito.
Estávamos no primeiro copo de vinho, e os criados já haviam deixado a sala, quando a conversa tomou rumo imprevisto. Não me lembro o que nos pós naquele caminho, a debater o sobrenatural, assunto que me levou a discorrer sobre estudos psíquicos, aos quais me tenho devotado, como muitos outros neurologistas. Expus a experiência feita com membro da Psychical Research Society, quando, com mais três colegas, passara uma noite num prédio assombrado. Era um caso de nenhum modo excitante, ou convincente; mesmo assim, interessou meus tios no mais alto grau. Ouviram-me em completo silêncio, trocando, a espaços, olhares que não pude compreender. Logo depois, Lady Holden ergueu-se da mesa e saiu da sala.
Sir Holden ofereceu-me charutos e pusemo-nos a fumar em silêncio. Notei que sua mão, toda ossos, estremecia ao levar o charuto à boca, e por esse detalhe conheci que seus nervos vibravam como cordas de violino. Pressenti que estava na iminência duma confissão e calei-me, para melhor precipitá-la. Por fim, voltou-se na cadeira e teve um gesto de quem lança de si os últimos escrúpulos.
– Do pouco que sei, vi e ouvi do senhor, Dr. Haracre, disse-me e, verifico que é exatamente o homem que procuro.
– Encanta-me muito ouvir isso, Sir.
– Sua cabeça me parece firme e fria. Não suponha que eu esteja a lisonjeá-lo. As circunstâncias são por demais sérias para que eu perca tempo com insinceridades. 0 senhor tem conhecimentos especiais destes assuntos e os vê de um ponto de vista filosófico, que lhes tira toda a vulgaridade. Diga-me: acha que poderia assistir a uma aparição, sem impressionar-se de maneira desastrosa?
– Perfeitamente, Sir.
– E interessa-se por isso?
– Profundamente.
– Como observador psíquico, pode o senhor ponderar sobre o fato, de um modo impessoal, como o astrônomo pondera sobre um cometa que surge?
– Exatamente, Sir.
0 velho deu um prolongado suspiro.
– Creia-me, Dr. Hardacre, que houve tempo em que eu não podia falar como estou agora falando. Minha calma ficara famosa, na Índia. Ainda durante os dias trágicos da insurreição dos cipaios, essa calma não me abandonara por um só instante. E, no momento, veja ao que me acho reduzido. Sou a mais apavorada criatura de todo o condado de Wiltshire. Não fale muito arrogantemente dessa matéria, que se arrisca a um terrível teste como o que tive – um teste que poderá levá-lo ao hospício ou ao túmulo.
Esperei pacientemente que Sir Holden entrasse no âmago da sua confidência. Aquele prefácio enchera-me de curiosidade.
– De alguns anos a esta parte, – começou ele a minha vida, e a de minha mulher, tornou-se profundamente miserável, por um motivo que parece grotesco. E a familiaridade com esse motivo, ao invés de tudo atenuar, como faz toda familiaridade, mais e mais me destrói os nervos pelo atrito constante. Se o senhor não sente o medo físico, Dr. Hardacre, eu terei muito gosto em ouvir sua opinião sobre o fenômeno que tanto nos perturba.
– Embora pouco valha minha opinião, estará ela in- teiramente ao seu serviço, Sir. Poderei saber a natureza êsse enõmeno?
– Creio que sua opinião terá maior valor se de nada for informado antecipadamente. 0 senhor sabe muito bem a ação das impressões subjetivas sobre o objetivo, e deve guardar-se de tê-las a prejudicar a experiência.
– Que devo fazer, então?
– Vou dizer. Quer ter a bondade de acompanhar-me?
e, assim dizendo, Sir Holden levou-me para fora da sala, rumo a um grande laboratório, cheio de instrumentos ‘científicos. Uma prateleira corria pela parede, com dezenas de vidros contendo preparações anatômicas.
– 0 senhor vê que eu ainda insisto nos meus velhos estudos, – disse o famoso cirurgião. – Estes frascos constituem os remanescentes da preciosíssima coleção que perdi no incêndio de minha casa, em Bombaim, no ano de 1892. Foi um grande desastre na minha vida, sob vários aspectos. Eu possuía exemplares únicos, em matéria de desvios anatômicos. Restam-me estes sobejos.
Corri os olhos pela coleção, e notei que eram realmente objetos de grande valor, pela raridade do ponto de vista patológico – órgãos anormais, ossos mal formados, distúrbios parasitários, uma singular exibição de transtornos orgânicos, coletados na Índia.
– Temos, aqui, um divã – disse o velho sábio. – Nunca foi minha intenção oferecer a um meu hóspede tão incomodo leito; mas, já que as coisas chegaram a este ponto, seria interessante que o senhor consentisse em passar a noite neste laboratório. Isso, caso não lhe repugne faze-lo. Decida com toda a sinceridade.
– Bem pelo contrário, Sir. Será com grande prazer que me submeterei à experiência.
– Meu quarto é o segundo à esquerda e, se necessitar de mim, para o que quer que seja, não tenha escrúpulos em chamar-me.
– Espero não ser forçado a perturbar o seu repouso, Sir.
– Não receie acordar-me. Raro durmo. Estarei sempre alerta, e às suas ordens.
Não foi afetação ou exagero de minha parte dizer que sentiria prazer em passar a noite ali. De nenhum modo pretendo ter mais coragem física do que qualquer outro; mas a familiaridade com um assunto atenua a sua
impressão sobre nós. 0 cérebro humano é capaz duma só emoção forte cada vez, mas, se está tomado de curiosidade, ou entusiasmo científico, não cabe nele o medo. É verdade que eu ouvira de meu tio o contrário disto – atribuí o fato à fraqueza e decadência dos seus nervos. Eu, pelo contrário, estava perfeito de saúde e nervos, e, por isso, ansioso como o caçador pela caça. Fechei a porta do laboratório e deitei-me no divã.
Não era o ambiente ideal para um quarto de dormir. Ar pesado e impregnado de cheiros de drogas, entre os quais predominava o do álcool metílico. As decorações, igualmente, eram nada sedativas. Havia a odiosa prateleira de relíquias de doenças horrorosas a tomar-me os olhos para onde quer que os voltasse. As janelas não tinham cortinas, de modo que a lua, em minguante, punha na parede fronteira um quadrilátero de prata. Quando apaguei a lâmpada, essa claridade assumiu singular importância. Silêncio absoluto pela casa inteira, e tal que o rumor das brisas nas árvores, lá fora, chegava até mim. E, ou fosse o embalo hipnótico desses sussurros externos ou o cansaço dum dia de viagem, cheio de emoções, breve me senti imerso em sono profundo.
Fui despertado por um rumor qualquer, que imediatamente me fez sentar no divã. Algumas horas já” se haviam passado, de modo que o quadrilátero de luar mudara de posição, aproximando-se de mim. 0 resto da sala desaparecia, imerso na escuridão. A princípio, nada vi; depois, à medida que meus olhos se iam afazendo à penumbra, verifiquei, com um arrepio pelo corpo, que qualquer coisa movia ao longo da prateleira. Um som macio, como de sandálias, chegou-me aos ouvidos, e, vagamente discerni um vulto humano, que caminhava cauteloso. Ao cruzar pela faixa de luz, pude distingui-lo com precisão. Era um homem atarracado, vestido duma espécie de burel escuro, que lhe caía, liso, dos ombros aos pés. Tinha a cor do chocolate e, na cabeça, uma massa de cabelos negros enrodilhada atrás, como certas mulheres usam. Caminhava lentamente, com os olhos fixos na direção dos frascos cheios dos horríveis resíduos humanos.
0 vulto ergueu as mãos. Não foi bem isso. Ergueu os braços, em gesto de desespero, e percebi que tinha nó uma das mãos. 0 braço direito terminava em um coto. Em tudo mais, era um homem qualquer, podendo passar por um dos criados de Sir Holden que ali houvesse entrado em busca de qualquer coisa. Unicamente a sua súbita aparição e que me sugeriu algo de sinistro. Levantei-me, acendi a lâmpada e examinei cuidadosamente a sala. Não havia sinal do meu visitante e tive de concluir que sua aparição representava algo fora das leis naturais que conhecemos. Fiquei acordado pelo resto da noite, porém, nada mais aconteceu.
Sou madrugador, mas o meu tio o era ainda mais. Quando deixei o laboratório, já o encontrei medindo passos, à frente da casa. Ao ver-me, precipitou-se ao meu encontro.
– Então?! – exclamou. – Viu-o?
– Um indiano sem uma das mãos?
– Sim.
– Vi-o, sim.
Contei-lhe tudo quanto ocorrera. Ao concluir, Sir Holden encaminhou-se para o seu gabinete.
– Temos algum tempo antes do breakfast, – disse ele. – Bastará para que eu lhe dê uma explicação deste mistério – se é que posso explicar o inexplicável. Em primeiro lugar, se eu lhe disser que, de quatro anos para cá, tanto em Bombaim como a bordo ou aqui, ainda não se passou uma só noite sem que o meu sono fosse perturbado por essa aparição, o senhor compreenderá o motivo deste meu miserável estado. 0 programa é sempre o mesmo. Surge à beira do meu leito, sacode-me rudemente pelos ombros, seque para o laboratório, caminha lento na direção da prateleira e desaparece. Por mais de mil vezes, já fez isso.
Que é que ele quer?
Quer a sua mão.
Sua mão …
Sim, só quer isso. Vou contar. Fui, uma vez, chamado, o Peshawer, para uma consulta, dez anos atrás, e, nessa ocasião, tive ensejo de examinar um hindu, que passava numa caravana afegã. Esse: hindu das montanhas, lá do outro lado de Kaffrístã, falava um dialeto pushtoo. Foi tudo quanto pude saber. Sofria duma inchação sar-
comatosa, na junta de um dos metacarpos, e verifiquei que somente lhe amputando a mão poderia salvar-lhe a vida. Após muita luta, o homem consentiu em ser operado – e, depois da operação, pediu-me a conta. 0 pobre homem não passava dum quase mendigo, de modo que a idéia de conta soava absurda – e respondi, brincando, que aceitava, como pagamento, o membro amputado, para o ter na minha coleção.
“Com surpresa minha, o hindu resistiu à proposta, explicando que, de acordo com as suas crenças, era matéria muito importante que o corpo se apresentasse inteiro, depois da morte. Esta crença é muito espalhada, e encontrei-a também no Egito. Lembrei-me que a mão já estava cortada e que ele não tinha meios de conservá-la para reuni-la ao corpo, depois que morresse.
., Respondeu-me que a conservaria em sal, trazendo-a sempre consigo, o que me fez alegar que estaria mais segura comigo, pois possuía melhor meio de conservá-la do que o sal. 0 homem compreendeu minha alegação e cedeu, dizendo: “Sim, Sahib, mas lembre-se de que quero que ma devolva, depois que eu morrer”. Ri-me dessa exigência e o caso ficou por aí. Voltei à minha vida habitual, enquanto o operado, já de vida salva, pode pensar na sua viagem para o Afeganistão.
“Mas, como lhe contei ontem, fui vítima daquele incêndio, em Bombaim. Metade de minha casa foi destruída e, com ela, quase toda a minha coleção. 0 que salvei foi quase nada. A mão do hindu perdeu-se no incêndio.
“Dois anos depois, fui, certa noite, despertado por um vigoroso puxão na manga. Sentei-me na cama, certo e que meu cachorro entrara no quarto. Em vez do cachorro, vi diante de mim o hindu operado, vestido no burel que lá usam, a olhar-me com expressão de censura, enquanto estendia o braço sem mão. Em seguida, caminhou ao longo da prateleira de frascos, que nessa época eu conservava em meu quarto. Examinou-os todos e, com um gesto de cólera, desapareceu. Compreendi que acabara de falecer e que, tal como prometera, tinha vindo buscar a mão que me dera para guardar.
“Eis aí o caso, Dr. Hardacre. Todas as noites, desde essa época, e à mesma hora, o fato se repete. Isso há já quatro anos. 0 efeito causado em mim pode equiparar-se ao do suplício do pingo d’água. Trouxe-me a insônia, porque não há dormir possível com o pensamento no que a horas tantas vai fatalmente suceder. Isso envenena-me os últimos anos de vida, e também os de minha mulher, que é companheira em tudo.
Nesse momento, soou a campainha, anunciando o breakjast.
– Vamos para a sala de jantar. Minha mulher deve estar ansiosíssima por saber como o senhor passou a noite. Estou muito grato pela coragem com que nos assistiu. porque o fato de uma terceira pessoa haver testemunhado a aparição tira-nos um peso da alma – a hipótese de ser loucura nossa – minha e de minha mulher.
Foi essa a história que Sir Holden me narrou – uma história que para muitos parecerá da mais grotesca impossibilidade mas que, depois da minha experiência daquela noite, e também por causa das minhas experiências anteriores sobre a matéria, fui forçado a admitir como verdade pura. Após o breakjast, surpreendi meus hospedeiros com à notícia de que ia regressar a Londres pelo primeiro trem.
– Meu caro doutor, – disse Sir Holden tomado de surpresa, – o senhor faz-me crer que errei em perturtar a sua estada aqui, pondo-o no conhecimento da minha estranha história.
– É justamente esse assunto que me leva a Londres, respondi, mas de nenhum modo suponha que a minha experiência desta noite me fosse desagradável. Ao contrário, tanto que peço permissão para voltar à tarde, a fim de passar mais uma noite naquele divã.
Meu tio sossegou, e eu parti. Fui reler, em meu consultório, a passagem dum livro recente sobre ocultismo, que não me estava clara na memória. Essa passagem dizia assim:
“Quando uma idéia muito forte obseda uma criatura no momento de morrer, basta isso para mantê-la presa a este mundo material. Tornam-se quais verdadeiros anfíbios desta vida e da outra, e capazes de passar de uma para outra como a tartaruga passa da água para a terra. As causas que tão fortemente podem amarrar uma alma à vida que 0 corpo abandonou as emoções violentas. Avareza, vingança, ansiedade, amor e piedade, têm efeitos bastante conhecidos, neste pormenor. Em regra, tudo Provém dum desejo violento, e só quando esse desejo se satisfaz o espírito se acalma. Há muitos casos que mostram a estranha insistência desses visitantes, ou o seu desaparecimento, depois que o desejo que os move é satisfeito ou quando um pacto se realiza”.
– Quando um pacto se realiza – esta era a frase sobre a qual eu estava incerto e queria firmar-me. No caso de Sir Holden, só um pacto poderia atender à situação. Quem sabe se não estava ali o remédio que ele tanto procurava? Tomei o primeiro trem para o Shadwell Seamen’s Hospital, onde o meu velho amigo Hewett era cirurgião. Sem entrar em explicações, fi-lo compreender exatamente o que eu queria.
– Uma mão morena! – exclamou Hewett, atônito.
Que raio quer fazer com ela?
– Não se preocupe com as minhas razões. Depois contarei tudo. Neste momento, preciso duma mão hindu e sei que há, aqui, muitas.
– Isso lá é, mas. . . – e o meu amigo, depois de refletir uns segundos, tocou a campainha.
– Travers, – disse ao auxiliar que apareceu, – que fim levaram as mãos daquele lascar operado ontem? Aquele camarada da East India Dock, que foi colhido numa engrenagem?
– Estão no necrotério Sir.
– Embrulhe-me uma delas e traga-ma.
Foi assim que regressei a Rodenhurst, com aquele. estranho embrulho, a tempo de alcançar o jantar. Nada contei a Sir Holden e, à noite, antes de deitar-me no divã, coloquei a mão morena num dos frascos de conserva, a certa distância de mim.
Tão interessado fiquei pelos resultados da minha experiência, que nem pensei em dormir. Sentei-me, com a lâmpada bem sombreada pelo shade, e pus-me a esperar, com toda a paciência. Dessa vez, vi tudo claramente, desde o começo. 0 hindu apareceu na direção da porta, como na véspera, mas apareceu nebuloso; depois, fixou-se nas formas humanas. Trazia sandálias vermelhas, sem salto, o que explicava o macio do andar. Corporificou-se, e fez tudo como fazia sempre, caminhou na direção da prateleira de frascos e deteve-se diante do que continha a mão amputada. Agarrou o frasco, examinou-o, mas, com todos os sinais da fúria no rosto, arremessou-o por terra. 0 barulho inundou a casa – e o hindu desapareceu imediatamente. Um momento depois, a porta abriu-se e Sir Holden entrava.
– Não está ferido? Que houve?
– Ferido, não. Apenas desapontado.
Sir Holden olhou com espanto para os destroços do frasco e para a mão morena, que jazia sobre o assoalho.
– Meu Deus! Que é isto?
Contei-lhe, então, tudo. Sir Holden ouviu-me atento e meneou a cabeça.
– Foi bem pensado, – disse ele, – mas receio que não seja fácil põr termo aos meus sofrimentos. Numa coisa, porém, insisto. É que nunca mais durma aqui, nem se preocupe por mais tempo com este caso. Meu pavor de que alguma coisa lhe houvesse acontecido, quando ouvi o barulho, foi maior que todas as agonias lentas que ando sofrendo. Não quero expor-me a ver a repetição disso.
Sir Holden, entretanto, permitiu-me passar o resto da noite ali, onde fiquei a lamentar o desastre da minha experiência. A luz da manhã veio iluminar a mão do lascar ainda no chão. Pus-me a mirá-la, e de súbito uma idéia me fuzilou no cérebro, que me fez saltar do divã, tremulo de emoção. De fato, a mão do lascar era a esquerda!
Pelo primeiro trem, corri ao Seamen’s Hospital, terrivelmente apavorado com a hipótese de que a mão direita do hindu já houvesse ido para o forno crematório. Meu susto não durou muito tempo. Ainda lá estava o precioso objeto, que iria salvar a vida de um homem de ciência. E voltei para Rodenhurst, com a mão direita do lascar.
Sir Holden, entretanto, não quis, nem por nada, que eu dormisse de novo no laboratório. Foram inúteis todas as minhas tentativas. Achava que isso ia de encontro a todas as regras da hospitalidade. Tive de colocar a mão direita do lascar no laboratório e ir acomodar-me num quarto próximo.
Mas, a despeito disso meu sono foi do mesmo modo interrompido. Altas horas da noite, meu tio apareceu-me no quarto, de lâmpada em punho. Seu vulto agigantado vinha envolto num enorme pijama, e sua aparição seria mais terrível para um espírito desprevenido do que a do próprio hindu sem mão. Todavia, não foi a sua entrada o que me espantou e sim a expressão do seu rosto. Parecia remoçado vinte anos. Os olhos brilhavam, todo seu rosto irradiava e sua mão erguia-se no ar, em gesto de triunfo.
Sentei-me na cama e arregalei os olhos.
– Deu certo! Deu certo! – gritava ele. – Meu caro Hardacre, como poderei pagá-lo do benefício que me fez?
– Explique-me isso. Que é que deu certo. Sir Holden?
– Creio que o meu amigo não ficará aborrecido de ser arrancado ao sono, para ouvir a grande nova.
– Mas, que é?
– Não tenho mais dúvida nenhuma – e tudo o devo ao meu querido sobrinho. Nunca esperei isto de homem nenhum. Que poderei fazer que pague tão enorme beneficio? Foi a Providência que o mandou aqui para me salvar. Salvou-me a vida e a razão, porque eu não suportava mais este inferno em vida. 0 manicômio ou o túmulo já estavam à minha espera. E minha pobre mulher, a coitada! Nunca, nunca imaginei que essa carga pudesse ser arredada dos nossos ombros – e, dizendo isto, abraçava-me com alegria infantil.
– Foi apenas uma experiência, uma tentativa, e estou encantado que desse resultado. Mas, como sabe que está tudo bem? Viu alguma coisa?
Sir Holden sentou-se à beira da minha cama.
– Vi tudo, – disse ele. – 0 senhor sabe que, a horas certas, a criatura aparecia infalivelmente em meu quarto. Hoje veio, como de costume, e despertou-me, ou antes, puxou-me pela manga ainda mais violentamente que das outras. Parece que a decepção da véspera o irritara ao extremo. Olhou-me cheio de cólera e afastou-se, rumo ao laboratório. Poucos instantes após, vi-o de volta – e, desde o inicio da sua perseguição, era a primeira vez que voltava ao meu quarto. Vinha sorrindo. Vi-lhe os dentes alvíssimos de fora. Parou na minha frente e por três vezes curvou-se, no clássico salaam, que é o modo solene de despedir-se dos orientais. Na terceira curvatura, seus braços ergueram-se à altura da cabeça e eu vi – vi duas mãos desenharem-se no ar. Depois, esvaiu-se – e creio que para sempre.
Eis narrada a curiosa experiência que me conquistou a afeição e gratidão desse meu famoso tio. Suas suposições realizaram-se, porque, desde essa noite, nunca mais foi perturbado pelas visitas do hindu maneta. Sir Dominic- Holden e Lady Holden tiveram uma velhice muito feliz, sem nuvens, vindo a morrer por ocasião da grande epidemia de gripe, com diferença de semanas um do outro. Pelo resto de sua vida, nunca mais o bom velho deixou de consultar-me sobre tudo quanto dizia respeito à vida inglesa, da qual se afastara por muitos anos. Também o auxiliei na compra de outras propriedades, que lhe aumentaram os domínios. Não foi, portanto, nenhuma surpresa para mim quando o seu testamento me colocou na frente de cinco furiosos sobrinhos e me transformou de modesto médico de província em chefe de uma importante família de Wiltshire. Graças ao hindu de mão cortada, meu destino mudou-se completamente.

Ratos do Cemitério (Henry Kuttner)

O Velho Masson, zelador de um dos mais antigos e relaxados cemitérios da cidade de Salem, vivia eternamente às voltas com os ratos. Há gerações atrás, tinham vindo eles dos molhes, dos cais, e se instalaram no cemitério, uma verdadeira colônia de enormes ratos. Quando Masson passou a ocupar o atual cargo, após o desaparecimento inexplicável do outro zelador, decidira dar-lhes caça. A principio, deitara-lhes armadilhas, envenenara comida, que largava pelos buracos, e, mais tarde, experimentara matá-los com uma espingarda, mas nada conseguiu. Os ratos continuavam, multiplicavam-se, infestando o cemitério, com suas hordas inextinguíveis.
Eram enormes, mesmo para o “mus decumanus”, que as vezes chega a medir quinze polegadas, excluindo-se o rabo cinza e rosa. Masson entrevira alguns tão grandes quanto gatos e, quando, certa vez, os coveiros remexeram em suas tocas, os mal odorosos túneis eram tão largos, que permitiriam a passagem de um homem agachado.
Vieram de distantes portos Salem, trouxeram consigo. Os navios, que gerações atrás para os cais arrebentados de estranhas cargas.
Masson frequentemente se admirava do tamanho desses túneis. Lembrava-se vagamente de lendas perturbadoras, que ouvira ao chegar àquela Salem, antiga e povoada de contos de feitiçaria – narrativas de uma vida inumana, moribunda, que se dizia ter existido em tocas esquecidas, nas profundezas da terra. Os velhos dias em que Cotton Mather perseguira os cultos diabólicos, que veneravam Hécate e a Magna Mater, orgias infernais, tinham passado. Mas, escuras e tétricas casas de torres pontiagudas ainda se inclinavam perigosamente umas para as outras em ruelas estranhas. E segredos blasfemos atestavam que, nas suas cavernas e adegas subterrâneas, celebravam-se ainda os ritos negros, que desafiam a sanidade mental. Meneando gravemente a cabeça branca, os mais velhos afirmavam que havia. Poucas cousa piores que ratos infestando a terra esburacad dos antigos cemitérios de Salem.
E, aqui, voltamos à curiosa questão dos ratos. Masson odiava e respeitava os ferozes roedores, pois conhecia o perigo que se desprendia de seu pêlo luzidio e caninos aguçados. Não entendia, porém, o horror que os mais velhos ressentiam pelas casas abandonadas de viventes e infestadas de ratos. Ouvira vagos rumores sobre – espectrais, que perambulam pelos subterrâneos e cujo poder se exerce sobre ratos, a organizá-los como um verdadeiro exército. Os ratos, murmuravam os mais velhos, são os mensageiros entre este mundo e o outro, que se oculta sob a terra de Salem. Cadáveres tinham sido roubados de seus túmulos, para os festins subterrâneos, assim diziam.
Masson não cuidava muito dessas histórias. Não confraternizava com seus vizinhos e tudo fazia, na verdade, para ocultar a existência dos ratos aos intrusos. Investigações, pensava ele, não sem razão, significariam a abertura de inúmeros túmulos. E, conquanto alguns caixões e corroídos, esvaziados mesmo, pudessem ser atribuídos à ação dos ratos, Masson achava difícil explicar os corpos atirados, que jaziam em algumas das tumbas.
0 ouro, o mais puro, é usado na obturação de dentes, o esse ouro não é removido por ocasião do sepultamento. Roupas, está claro, são outro assunto, pois o agente funerário se encarrega de que seu cliente vista as mais baratas possíveis. Mas o ouro não. E, mais ainda: estudantes de Medicina e médicos de reputação duvidosa estão sempre à cata de cadáveres e não se incomodam absolutamente em conhecer a origem desse fornecimento.
Por isso, Masson, até agora, conseguira impedir as investigações. Negara firmemente a existência dos ratos, embora estes lhe roubassem freqüentemente a presa. Masson pouco se incomodava com o que acontecesse aos corpos, depois que neles tivesse exercido sua operação, e os ratos, exoravelnente, arrastavam, o cadáver, através do buraco, roíam na parede do caixão.
0 tamanho desses buracos, às vezes, preocupava Masson. Acrescia, ainda, a estranha circunstância dos sarcófagos serem sempre abertos na parte correspondente às extremidades, nunca no cimo ou nos lados. Poder-se-ia crer que trabalhavam sob as ordens de algum líder impassível e extraordinariamente inteligente.
Neste momento, Masson achava-se de pé, em uma cova descoberta, atirando para o lado os últimos montes de terra. Chovia, uma garoa miúda e fria, que, por se- manas a fio, castigava a terra. 0 cemitério parecia um lamaçal amarelo, de que se destacavam as tumbas, como monstros desordenados.
Os ratos haviam-se retirado para suas tocas e fazia dias que Masson não punha o os sequer num. Seu rosto barbudo e de expressão dura estava totalmente enrugado. 0 caixão que pisava era de madeira.
0 corpo tinha sido sepultado dias antes, mas Masson ainda não ousara desenterrá-lo. Um parente do morto viera ao cemitério, por diversas vezes, arrostando o mau tempo. Confiava, porém, agora, em que não apareceria a horas tão tardias, por maior que fosse a sua dor, pensava Masson, a fazer caretas das mais horríveis. Descansou por instantes.
Da colina, em que estava situado o velho cemitério, divisava as luzes de Salem, tremeluzindo, através da neblina. Tirou uma lanterna do bolso. Precisaria de luz, agora. Empunhou a pá, inclinou-se e examinou a fechadura do caixão.
Parou abruptamente. Sua atenção foi despertada por um leve mexer, sob seus pés, como se algo se movesse dentro do caixão. Um medo supersticioso tomou conta dele, detendo-lhe a respiração, até que percebeu o significado daqueles ruídos. Os ratos tinham-no precedido, despojando-o de sua presa.
Num paroxismo de ódio, Masson arrebentou as ligaduras do caixão, enfiando a ponta da pá entre a tampa e o esquife: propriamente dito. Iluminou-o com a lanterna.
A chuva caiu de encontro ao cetim branco, do forro. 0 caixão estava vazio. Masson percebeu movimento na extremidade do sarcófago e dirigiu a lanterna para ela. Um buraco enorme deixava entrever um sapato preto, que se arrastava vagarosamente, e o homem compreendeu que os ratos o haviam precedido de apenas alguns minutos.
Caiu sobre os joelhos e tentou agarrar o sapato, deixando tombar a lanterna dentro do caixão. 0 sapato não foi, alcançado e ele ouviu um guincho agudo, excitado. Tomou novamente a lanterna, iluminando o buraco.
Era bem grande. Tinha que ser, ou o cadáver não poderia ter sido arrastado por ali. Masson espantou-se ainda uma vez ante o tamanho de ratos, que podiam agúentar com o cadáver de um homem, mas a certeza do remover, que carregava no bolso, confortou-o. Provavelmente, se o cadáver fosse de uma pessoa comum, Masson o deixaria entregue aos raptores e jamais se aventuraria naquela toca, mas estava bem lembrado de que o cadáver vestia uma camisa de linho finíssimo e que seu alfinete de gravata era de pérola. Sem quase refletir, pendurou a lanterna na cinta e engatinhou no buraco.
Era apertado. mas conseguiu passar. Bem à sua frente, podia ver os sapatos que andavam por sobre a terra úmida das profundezas do túnel. Engatinhou o mais rapidamente que pode, às vezes tendo que se arrastar de barriga, por falta de altura.
0 ar era irrespirável. Se não alcançasse o corpo em um minuto, decidiu Masson, voltaria. Terrores subconscientes começavam a fazer-lhe companhia, sem que pudesse evitar, mas o ódio impelia-o para a frente. Arrastou-se, atravessando túneis, que se entroncavam. As paredes eram limosas e por duas vezes bolas de lama caíram sobre e atrás dele. Da segunda vez, parou. Não enxergava. Desatou a lanterna da cinta e iluminou a escuridão.
Torres de terra amontoavam-se atrás dele e o perigo sua posição, de repente, tornou-se real, pavoroso. Com medo de ficar sepultado vivo, resolveu abandonar a perseguição, embora quase alcançado o cadáver e o ser invisível, que o arrastava. Mas, não pensara em uma cousa. 0 túnel era muito estreito, para permitir que ele se virasse. 0 pânico assaltou-o, mas lembrou-se: de um túnel que atravessara havia instantes e de costas; entrou nele girando aos poucos, até poder prosseguir de frente. Rápido tentou encontrar o caminho de volta. conquanto ” Joelhos estivessem machucados e trêmulos.
Uma dor aguda paralisou-lhe a perna. Um dente agudo se enterrara em sua carne. Masson se bateu freneticamente. Ouviu guinchos excitados e o mover de muitos pés. Iluminando com a lanterna, Masson prendeu a respiração, num choque causado pelo susto, ao perceber uma dúzia de enormes ratos, que* o contemplavam firmemente, seus olhos rasgados, brilhando àquela luz. Eram enormes, tão grandes como gatos, e atrás deles entreviu uma sombra negra, que deslizou suavemente. Masson estremeceu ante o descomunal daquela cousa invisível.
A luz os detivera momentaneamente, mas, agora, se aproximavam, os dentes alaranjados devido à iluminação. Masson conseguiu sacar a pistola do bolso e mirou cuidadosamente. Sua posição era péssima. Firmou os pés nas paredes limosas, para não desperdiçar o tiro.
0 ruído espantoso da explosão ensurdeceu-o por instantes e a fumaça provocou-lhe tosse. Quando pode ver e ouvir novamente, os ratos tinham desapareci o. Recolocou a pistola no lugar e quis prosseguir a caminhada de volta, mas, entre guinchos e arrastar de pés, já estavam de novo em cima dele.
Treparam em suas pernas, mordendo e guinchando loucamente. Masson estremeceu, ao procurar o revólver. Atirou sem mirar e unicamente a sorte o livrou de arrancar o próprio pé. Desta vez, os ratos não foram longe, mas Masson corria o melhor que podia, pronto para atirar ao primeiro ruído suspeito.
Novo ruído de pés e o homem iluminou, com a lanterna, atrás de si. Um enorme rato cinzento parou e vigiou-o. Seus longos bigodes moviam-se e o rabo, escabroso e sem pêlos, balançava de um lado para outro. Masson gritou, e o rato afastou-se.
Prosseguiu, detendo-se ante um túnel negro, bem à altura de seu cotovelo, bloqueado por uma massa, que julgou, por instantes, ser terra, desmoronada do teto, para logo verificar, horrorizado, que se tratara de um corpo humano.
Era uma múmia marrom, enrugada, e, por pior que aquilo lhe parecesse, a cousa se movia.
Arrastava-se na sua direção e, à luz da lanterna, a cara horrenda mergulhou na sua. Era um esqueleto de muitos anos, a viver uma vida diabólica. Não tinha olhos, mas buracos, que. inexplicavelmente, brilhavam, através de sua cegueira. E aquilo gritava à medida que avançava para Masson, a boca entreaberta e retorcida. Masson enregelou de pavor e nojo.
Antes que aquele horror o tocasse, Masson enterrou-se no túnel ao lado. Ouviu um arranhar de garras atrás dele, olhando de esguelha, gritou, gritou, enquanto mais enterrava no buraco estreito. Arrastou-se desajeitadamente, sentindo que pedrinhas agudíssimas lhe dilaceravam as mãos e os joelhos. A sujeira penetrara-lhe os olhos, mas não ousava parar. Engatinhava, blasfemando, respirando com dificuldade e rezando histericamente.
Guinchando triunfalmente, os ratos chegaram-se a ele, a fome horrenda escrita nos olhos. Masson quase sucumbiu ante os dentes agudos, mas conseguiu afastá-los. A passagem estreitava-se cada vez mais. No paroxismo do terror, Masson deu pontapés, gritou.
Achou-se, engatinhando, sob enorme pedra, incrustada no teto, que pesava cruelmente nas suas costas. Moveu-se Um pouco, quando foi atingido por seu corpo. Uma idéia atravessou a mente quase enlouquecida do homem. Se pudesse arrancar a pedra e bloquear o túnel!
A terra estava úmida, devido às chuvas e, de cócoras, Masson começou a escavar em torno da pedra. Os ratos se aproximavam cada vez mais. Via-lhes os olhos que brilhavam, a cada tremeluzir da lanterna. A pedra começava a ceder.
Um rato se aproximou – o monstro, que já entrevira. Cinzento e leproso, avançava, com os dentes alaranjados à mostra, rebocando aquela cousa morta; que guinchava à medida que se arrastava. Masson esforçou-se, trabalhando, desesperado, e sentiu que a pedra ia cair. Rápido, continuou a arrastar-se pelo túnel.
Atrás, a pedra ruiu fragorosa, e ouviu-se súbito guinchar de agonia. Torrões de pedra caíam sobre as pernas de Masson, que custava a livrar-se deles. Todo o túnel ia desmoronando!
Respirando com dificuldade, amedrontado, Masson impeliu-se para a frente, percebendo que a terra úmida queria engoli-lo. 0 túnel estava-se estreitando de tal maneira que já não podia usar mais as mãos e pernas para se mover.
Deitou-se de barriga no chão, coleando como uma enguia, mas de repente, quando experimentou erguer-se, descobriu que o teto se achava apenas a centímetros de suas costas. 0 pânico assaltou-o.
Quando o horror cego lhe bloqueara o caminho, atirara-se desesperado para um túnel lateral, túnel que parecia não ter saída! Só agora entendia. Estava num caixão, um caixão vazio, cuja extremidade, como de costume, tinha sido roída pelos ratos.
Experimentou voltar-se de costas, mas não pôde. Se ao menos pudesse levantar a tampa do caixão! Impossível. E, se pudesse escapar do sarcófago, como faria para remover a cinco pés de terra?
Masson arfava. 0 ar irrespirável, fétido, era de um calor infernal. Num paroxismo de terror, arranhou, raspou o cetim do forro, até que este se despedaçou. Com os pés, tentava cavar o monte de terra desmoronada, que lhe bloqueava a saída. Se ao menos pudesse mudar de posição, se pudesse encontrar um pouco de ar… ar…
Agonia amarela, morna, espalhou-se por seu rosto e turvou-lhe os olhos. Sua cabeça parecia intumescer, crescendo, aumentando, sempre mais.
E, de repente, ouviu o guinchar triunfal dos ratos. Pôs-se a gritar feito louco, mas já não conseguia afastá-los. Por momentos, buscou histericamente um refúgio dentro de sua estreita e estranha prisão, e depois aquietou-se, tentando respirar.
Seus cílios desceram sobre os olhos, a língua preta lançou-se fora da boca e ele mergulhou na escuridão da morte, enquanto os ratos, desatinados, banqueteavam-se em suas orelhas.

Camarote 105, Beliche Superior (Marion Crawford)

ALGUEM pediu charutos. Instintivamente, olhamos todos para a pessoa que falara. Brisbane era um homem de trinta e cinco anos, notável por aquelas qualidades que geralmente atraem a atenção dos homens. Era forte. As proporções exteriores de sua figura não apresentavam nada de extraordinário apesar de ser de altura acima do vulgar. Tinha mais de seis pés de altura, e era razoavelmente largo de ombros; não parecia gordo mas também não era magro; a cabeça pequena assentava-se sobre um pescoço forte e vigoroso; as mãos grandes e musculosas tinham uma habilidade notável em partir nozes sem o auxilio do respectivo instrumento, e, ao vê-lo de perfil, ninguém podia deixar de notar a extraordinária largura de suas mangas e a grande largura de seu tórax. Era um desses homens de quem vulgarmente se diz que as aparências enganam; quer dizer, apesar de forte, era, na realidade, muito mais forte ainda do que parecia. Com respeito às feições, pouco tenho a dizer. A cabeça era pequena, tinha pouco cabelo, olhos azuis, nariz grande, pequeno bigode e queixo quadrado. Toda gente conhece Brisbane, e, quando pediu um charuto, todos olharam para ele.
– É uma coisa singular – disse Brisbane. Deixaram todos de falar…
Tenho viajado muito, e, como preciso atravessar o Atlântico bastantes vezes, tenho cá minhas preferências. Muita gente as tem. já vi um homem esperar, num bar da Broadway, durante três quartos de hora até que passasse 0 carro que preferia. Creio que o dono do bar fazia um terço de seu rendimento com a preferência daquele homem.
Tenho o hábito de esperar por determinados navios, quando tenho de atravessar aquele tanque de patos. Será uma asneira, mas nunca tive uma travessia tão má, a não ser uma vez. Recordo-me muito bem: foi numa manhã quente de junho, e os empregados da alfândega, que andavam de um lado para outro, à espera de um vapor que já largara da Quarantine (Lazareto), tinham um aspecto notavelmente sombrio e pensativo.
Eu não levava muita bagagem – nunca a tenho muita. Misturei-me com a multidão de passageiros, moços de frete, e daqueles maçadores vestidos de azul, com botões de latão, que parecem nascer como cogumelos do convés dum navio atracado, para impor violentamente os seus serviços desnecessários ao passageiro independente. já tenho muitas vezes observado, com certo interesse, as evoluções espontâneas destes diabos. Quando se chega, ninguém os vê; cinco minutos depois do piloto ter dito: Pra vante! eles, ou, pelo menos, os casacos azuis e os botões de latão desaparecem do convés e do portaló tão subitamente como se tivessem sido tragados pelo inferno. Mas, no momento da partida, lá estão eles, barbeados, vestidos de azul e esfomeados por gorjetas. Apressei-me a ir para bordo. 0 Kamtschatka era um de meus navios favoritos. Digo, era, porque deixou de o ser. Não posso conceber coisa alguma que me obrigue a viajar outra vez nele. Sim, já sei o que vão dizer. Que tem uma marcha muito rápida, que é bastante alto da proa para não se encharcar, e que a maior parte dos beliches de baixo são duplos. Tem muitas vantagens, mas não torno a viajar nele. Desculpem a digressão. Fui para bordo. Chamei por um criado, cujo nariz vermelho e cujas suíças ainda mais vermelhas me eram igualmente familiares.
– Camarote 105, beliche de baixo – disse ele, no tom decidido de um homem que faz tanto caso em atravessar o Atlântico como de beber um coquetel de uísque no Demoníaco.
0 criado pegou-me na mala, no casaco e na manta. Nunca me esquecerei da expressão do seu rosto. Não que ele ficasse pálido. Os teólogos eminentes asseveram que nem os milagres podem alterar o curso da natureza. Não hesito em dizer que não ficou pálido, mas pela
sua expressão pensei que ia chorar ou espirrar ou deixar cair a mala. Coino esta continha duas garrafas de velho Xerez, muito bom, qu Í e me tinham sido dadas pelo meu velho amigo Quigginson Van Pickyns, senti-me sobressaltado. Mas o criado não fez nenhuma dessas coisas.
– Diabo me levem!… – disse ele em voz baixa, e pós-se a caminhar na minha frente.
Supus que o meu Hermes, que assim me conduzia para as regiões inferiores, tivesse tomado a sua pinga, mas nada disse, e segui-o. 0 camarote 105 ficava a bombordo, bastante à popa. Não tinha nada de notável. 0 beliche de baixo, como a maior parte dos do Kamtschatka eram duplos. Havia muito espaço: tinha o lavatório do costume, bom para dar uma idéia de luxo aos índios da América do Norte; havia os inúteis porta-escovas do costume, nos quais é mais fácil pendurar um grande chapéu de chuva do que uma escova de dentes vulgar de Lineu. Sobre os poucos convidativos colchões, estavam cuidadosamente dobrados aqueles lençóis que um grande humorista moderno comparou muito bem a pastéis de massa frios. A questão das toalhas ficava inteiramente a cargo da imaginação. As garrafas de vinho estavam cheias dum líquido transparente e ligeiramente acastanhado, e exalavam um cheiro mais intenso que a cor do líquido, mas muito menos agradável, subindo às narinas como uma longínqua e nauseabunda reminiscência de óleo de máquinas. Cortinas duma cor triste fechavam quase completamente o beliche de cima. A luz baça de junho iluminava fracamente aquela cena desoladora. Puf! Que má impressão tenho daquele camarote!
0 criado pós minha bagagem no chão e olhou para mim como se quisesse ir-se embora – provavelmente à procura de mais passageiros e mais gorjetas. É sempre bom estar em boas relações com esses funcionários, e por isso lhe dei imediatamente algum dinheiro.
– Farei todo o possível para que o senhor seja bem servido – observou ele, metendo o dinheiro na algibeira.
Contudo, havia na sua voz um tom duvidoso que me surpreendeu. Naturalmente, a sua tabela de gorjetas tinha subido e não se contentava. não se considerava satisfeito; apesar disso, quis-me antes parecer que ele talvez tivesse tomado um copinho a mais. Não tinha razão, e fiz àquele homem uma injustiça.
Nada de especial aconteceu, durante aquele dia. Largamos do cais pontualmente e foi muito agradável começar a navegar, porque o dia estava quente e abafado e o movimento do vapor produzia uma brisa muito fresca. Todos sabem o que é o primeiro dia de viagem no mar. Os passageiros passeiam pelo convés, olham uns para os outros e, de vez em quando, encontram-se com gente conhecida cuja presença a bordo não suspeitavam. Há a incerteza do
costume com respeito à excelência da comida, até que as duas primeiras tirem todas as dúvidas; há a incerteza do costume a respeito do tempo, até que o navio dobre a Ilha do Fogo. As mesas, ao principio, estão cheias e, depois, se despovoam subitamente. Pessoas pálidas abandonam repentinamente os seus lugares e precipitam-se para as portas, e os viajantes experimentados respiram mais livre mente, quando o vizinho enjoado lhes foge do lado, deixando-lhes mais lugar para os cotovelos e um direito ilimitado sobre a mostarda.
Todas as travessias do Atlântico se parecem umas com as outras. E nós, que as fazemos muitas vezes, não viajamos em busca de novidades. Baleias são sempre objetos dignos de interesse, não há dúvida, mas, apesar disso, as baleias parecem-se todas entre si e raramente se vê um iceberg suficientemente de perto. Para a maior parte, o momento mais agradável do dia, a bordo dum transatlântico, é quando damos o último passeio no tombadilho, fumamos o nosso último charuto, e, tendo conseguido fatigar-nos, nos sentimos em liberdade de nos irmos sossegadamente deitar. Na primeira noite de viagem, senti-me muito preguiçoso e fui deitar-me no 105, mais cedo do que tenho por costume. Quando entrei, fiquei muito surpreendido ao ver que ia ter um companheiro. Uma mala muito semelhante à minha estava no canto oposto, e, no beliche de cima, tinha sido colocada uma manta, cuidadosamente dobrada, uma bengala e um chapéu de chuva. Esperava ficar só, e estava desapontado, mas desejei ‘saber quem seria o meu companheiro e resolvi espreitá-lo.
Pouco tempo depois de me haver deitado, entrou ele.
Era, pelo que podia ver, um homem muito alto, muito pálido, de cabelo e barbas cor de estopa e com uns olhos de um castanho muito desbotado. Tinha, pensei eu, um ar de elegância duvidosa; como aqueles homens que se encontram em Wall Street, sem que se saiba precisamente o que lá fazem – que freqüentam o Café Anglais, parecem estar sempre sós e que bebem muita champanha; encontram-se também nas corridas de cavalos, sem que pareçam estar ali fazendo alguma coisa. Têm um modo estranho de vestir, bastante afetado, e são um pouco excêntricos. Há sempre três ou quatro dessa espécie a bordo dos transatlânticos. Resolvi-me a não tomar conhecimento com ele e adormeci dizendo comigo que trataria de lhe estudar os
hábitos para me esquivar a quaisquer relações. Se ele se levantasse cedo. eu me levantaria tarde; se deitasse tarde, deitar-me-ia cedo. Não queria conhecê-lo. Se uma vez travamos conhecimento com gente desta espécie, nunca mais nos largam. Pobre diabo! Não era preciso incomodar-me a tomar mais decisões a seu respeito, porque nunca mais o tomei a ver, depois dessa primeira noite no 105.
Estava dormindo profundamente, quando fui acordado por um grande estrondo. A julgar pelo , o meu companheiro devia ter saltado dum pulo do seu beliche para o chão. Senti-o mexer na fechadura da Porta, que se abriu imediatamente. Depois, ouvi os seus Passos correndo a toda pressa pelo corredor, enquanto deixava a porta aberta atrás de si. 0 navio balançava bastante, e esperava ouvi-lo tropeçar ou cair, mas ele corria como se fosse livrar o pai da forca. A porta girou nos gonzos, com o movimento do navio, e o barulho incomodou-me. Levantei-me, fechei-a, e voltei, às apalpadelas, na escuridão, para o meu beliche. Tornei a dormir, mas não tenho a mínima idéia de quanto tempo dormi.
Quando acordei, ainda era completamente escuro, mas senti uma sensação desagradável de frio e pareceu-me que o ar estava úmido. Conhecem o ar particular dum camarote, depois de ter sido molhado com água do mar. Cobri-me melhor que pude e tornei a adormecer, ruminando queixas que havia de fazer no dia seguinte e pensando nas palavras mais violentas que havia de empregar. julguei ouvir o meu companheiro, ao virar-se no beliche de cima. Provavelmente, tinha voltado enquanto eu dormia. Uma vez, pareceu-me ouvi-lo gemer, e julguei que estivesse enjoado. E isso é particularmente desagradável, quando se está por baixo. Apesar disso, continuei a dormir até de madrugada.
0 navio balouçava muito, muito mais que na noite antecedente, e a luz acinzentada que vinha pela vigia mudava de cor conforme o movimento do navio e fazia inclinar para o céu ou para o mar. Estava muito frio – demasiado, para o mês de junho. Voltei a cabeça, olhei para a vigia e vi, com espanto, que estava aberta de par em par e presa atrás. julgo ter praguejado em voz alta. Depois, levantei-me e fechei-a. Quando voltava, olhei para o beliche de cima. As cortinas estavam completamente corridas; com certeza meu companheiro tinha sentido tanto frio como eu. Veio-me a idéia de que já tinha dormido bastante. 0 camarote estava pouco confortável, conquanto, o que era extraordinário, não sentisse a umidade que me tinha acordado durante a noite. 0 meu companheiro dormia ainda – bela ocasião de o evitar, e por isso vesti-me à pressa e fui para o tombadilho.
0 dia estava quente e enevoado, com um cheiro oleoso na água. Eram sete horas, quando saí – muito mais tarde do que tinha imaginado. Encontrei o médico, que estava tomando a sua primeira pitada de ar matutino. Era um rapaz do oeste da Irlanda – um rapagão de cabelo preto e olhos azuis, já começando a engordar; tinha um ar bonacheirão e saudável, que o tornava bastante atraente.
– Bela manhã! – observei eu, para encetar a conversação.
– Sim – disse ele, olhando-me com interesse; é, e não é. Não estou lá muito de acordo.
– Sim… não será lá muito boa – retruquei.
– É o que chamo um dia estúpido – volveu o médico.
– Esteve bastante frio, esta noite – continuei. – Naturalmente, foi por a vigia ter ficado aberta. Não o tinha notado, quando me deitei. 0 camarote também estava úmido.
– Úmido! exclamou ele. – Em qual está o senhor?
– No 105…
Com grande espanto meu, o médico estremeceu visivelmente e olhou para mim admirado.
– 0 que é? perguntei admirado.
– Nada. . . respondeu ele – É que, nestas últimas três viagens, todos se têm queixado desse beliche.
– Também me vou queixar, – respondi – Não foi bem arejado. É uma vergonha!
– Não me parece que isso tenha remédio – respondeu o médico – Tenho idéia de que aí há qualquer coisa, mas não me compete assustar os passageiros.
– Não tenha medo de me assustar. Suporto bem a umidade. Se me constipar, irei ter consigo.
Ofereci um charuto ao doutor, que o examinou demoradamente.
– Não é tanto por causa da umidade – explicou ele
Apesar disso, espero que não se dê mal. Não tem um companheiro?
– Tenho, sim; um diabo que sai a correr no meia da noite e deixa a porta aberta.
0 doutor olhou outra vez para mim, dum modo esquisito. Depois, acendeu o charuto e ficou sério.
– Tornou a voltar? – perguntou, daí a pouco.
– Tornou. Estava dormindo, mas acordei e vi-o mexer-se. Depois, senti frio outra vez. Esta manhã, encontrei a vigia aberta.
– Olhe, – disse o doutor, sossegadamente – não me importo muito com este navio. Não me importo absolutamente nada com sua reputação. Vou dizer-lhe o que vamos fazer. Tenho um bom camarote, lá em cima. Venha partilhá-lo comigo, apesar de nunca o ter visto mais gordo.
Fiquei muito surpreendido com esta proposta. Não podia imaginar donde lhe vinha este súbito interesse pelo meu bem-estar. Contudo, a maneira como falava do navio era singular.
– É muito amável, doutor, – respondi. – Mas continuo a pensar que o camarote se podia arejar ou limpar, ou fazer-se qualquer coisa. Por que é que não gosta do navio?
– Nós, os médicos, não costumamos ser supersticiosos, mas o mar nos faz assim. Não o quero assustar nem sobressaltar, mas, se quiser- seguir o meu conselho, mude-se para o meu camarote. Antes queria vê-lo pela borda afora do que saber que o senhor ou outro qualquer iam dormir no 105.
– Deus do céu! Por quê?
– Porque, nas três últimas viagens, as pessoas que lá dormiram foram pela borda afora – respondeu ele, com modo grave.
Confesso que isto era para espantar e muito desagradável. Olhei fixamente para o médico, para ver se ele estava troçando de mim, mas tinha um ar absolutamente sério. Agradeci-lhe calorosamente a oferta, mas disse-lhe que tencionava ser a exceção à regra pela qual todo o que dormisse naquele camarote iria pela borda afora. Não
respondeu, mas continuou cada vez mais sério e insinuou que, antes de acabarmos a viagem, havia provavelmente de reconsiderar. Entretanto, fomos almoçar; poucos passageiros lá estavam. Notei que um ou dois oficiais que almoçavam conosco estavam preocupados. Depois do almoço, fui ao camarote buscar um livro. As cortinas do beliche de cima continuavam completamente corridas. Não se ouvia uma palavra. Certamente, meu companheiro continuava dormindo.
Quando sai, encontrei o criado ao cargo do qual eu estava. Disse-me em voz baixa que o capitão desejava falar-me. E safou-se pelo corredor, como se desejasse evitar qualquer pergunta. Dirigi-me para o camarote do capitão, onde o encontrei à minha espera.
– Senhor, – disse ele, – quero pedir-lhe um favor.
Respondi que faria tudo para lhe ser agradável.
– 0 seu companheiro desapareceu, – disse ele – Sabe-se que deitou cedo, a noite passada. Notou alguma coisa extraordinária nos seus modos?
Vindo esta pergunta, como veio, confirmar exatamente
os receios que o médico tinha mostrado havia meia hora, ela assustou-me.
– Não quer com isso dizer – que ele foi pela borda
afora? – perguntei.
– Receio que sim – respondeu o capitão.
Isso é a coisa mais extraordinária comecei.
– Por quê? – perguntou ele.
– Então é ele o quarto, – respondi.
Em resposta a outra pergunta do capitão, expliquei, sem mencionar o médico, que já tinha ouvido a história do 105.
Pareceu ficar bastante encabulado ao saber que eu a conhecia. Contei-lhe o que se tinha passado durante a noite.
– 0 que o senhor me diz – respondeu, – coincide quase exatamente com o que me disseram os companheiros de dois dos outros três. Saltam da cama e correm pelo corredor. Dois deles foram vistos ir pela borda afora, pela vigia. Paramos e lançamos os escaleres ao mar, mas não foram encontrados. Ninguém, contudo, viu ou sentiu o homem que se perdeu ontem à noite, se ele está realmente perdido. 0 criado, que é muito supersticioso, talvez esperando que tivesse acontecido qualquer coisa, foi procurá-lo, esta manhã, e encontrou o seu beliche vazio, as roupas espalhadas, como as tinha deixado. 0 criado era a única pessoa a bordo que o conhecia, e tem andado a procurá-lo Por toda a parte. Desapareceu! Agora, quero pedir-lhe o favor de não mencionar nada disto aos outros passageiros; não quero que o navio tome mau nome, e nada se agarra tanto a um navio como histórias de suicídios. Pode escolher qualquer dos camarotes dos oficiais que preferir, incluindo o meu, até o fim da viagem. É isto razoável?
– Bastante, , disse eu. – E estou-lhe muito obrigado. Mas, desde que me encontro só e tenho o camarote somente para mim, prefiro não me mudar. Se o criado tirar as coisas daquele desgraçado, preferirei ficar onde estou. Nada direi a respeito deste assunto, e julgo que lhe posso prometer que não seguirei o exemplo do meu companheiro.
0 capitão procurou dissimular, dissuadir-me do meu propósito, mas eu antes queria ter um camarote só para mim do que ser companheiro de qualquer dos oficiais de bordo. Não sei se procedi com juízo, mas, se tivesse tomado o seu conselho, não teria mais nada a contar. Haveria a desagradável coincidência de se terem dado diversos suicídios dos homens que tinham dormido no mesmo camarote, mas isso teria sido tudo.
Entretanto, não foi este o fim da questão. Tinha-me resolvido obstinadamente a não me deixar intimidar por aquelas histórias, e cheguei, mesmo, a discutir o assunto com o capitão. 0 camarote tinha qualquer coisa. Era bastante úmido. A vigia tinha sido aberta à noite passada. 0 meu companheiro podia ter adoecido, quando veio para bordo e ficado delirante depois de se ter deitado. Podia, mesmo, estar escondido a bordo e ser encontrado mais tarde. 0 camarote precisava ser arejado, e o fecho da vigia consertado. Se o capitão desse licença, eu trataria de mandar fazer já o que julgasse necessário.
– já se sabe que o senhor tem o direito de ficar onde quiser – respondeu ele, um pouco de mau modo. – Mas preferia que o senhor saísse e me deixasse fechar o camarote para acabar com isto.
Eu não via as coisas assim, e deixei o capitão, depois de lhe prometer que não diria nada a respeito do desaparecimento de meu companheiro. Este não tinha conhecidos a bordo, e a sua falta não foi notada durante o dia. A tarde, encontrei o doutor, que me perguntou se já tinha mudado de parecer. Disse-lhe que não.
– Há de fazê-lo muito em breve – observou ele, gravemente – Jogamos o whist durante a noite e fui para a cama tarde. Confesso, agora, que senti uma sensação desagradável ao entrar no camarote. Não podia deixar de pensar no homem alto, que tinha visto na noite antecedente, agora morto, afogado, boiando no mar agitado, 200 ou 300 milhas à popa. 0 seu rosto aparecia-me distintamente, enquanto me despia, e cheguei, mesmo, a afastar as cortinas de cima, como para me persuadir que ele efetivamente não estava lá. Fechei a chave a porta do camarote. De repente, notei que a vigia estava aberta e presa atrás. Era mais do que eu podia suportar! Vesti apressadamente o meu robe-de-chambre, e sai à procura do Roberto, o criado do camarote. Recordo-me que estava deveras zangado, e, quando o encontrei, 1 puxei violentamente até a vigia aberta.
-Para que diabo deixa você a vigia aberta todas as noites, meu patife? Não sabe que, se o navio adernasse e água começasse a entrar, nem dez homens seriam ca- pazes de a fechar? Vou fazer queixa ao capitão, meu patife, por pôr o navio em perigo!
Estava deveras zangado. 0 homem começou a tremer, empalideceu e começou a fechar o grande vidro, com pegados fechos de latão.
Por que não responde? – perguntei, com aspereza.
Não há ninguém a bordo que possa conservar esta vigia fechada, de noite… – gaguejou Roberto – 0 senhor mesmo pode experimentar! Não fico mais a bordo deste navio, isso é que não fico! Mas, se eu fosse o senhor, fria dormir com o cirurgião, lã isso é que igual. Olhe cá, isto *M está bem fechado? Experimente o senhor a vigia, se ela se move sequer uma polegada!
Experimentei a vigia e vi que estava perfeitamente cerrada.
– Pois bem – continuou Roberto, com voz triunfante,
Perca eu minha reputação de criado de primeira classe se em meia hora ela não estiver aberta outra vez. E atada atrás, senhor, isso é que é terrível, atada atrás!…
Examinei o parafuso e a porca.
– Se ela se abrir durante a noite, Roberto, dou-lhe uma libra. Não é possível, pode ir-se embora.
– Uma libra, disse o senhor? Muito bem. Obrigado, senhor. Muito boa noite, estimo que durma bem.
Roberto safou-se, encantado por se ver livre. Já se sabe que pensei que ele procurava desculpar a sua negligência, com uma história tola, para me assustar, e não o acreditei. A conseqüência disto foi que ele apanhou a libra e que passei uma noite muito desagradável.
Meti-me na cama e, cinco minutos depois de me haver enrolado nos lençóis, o inexorável Roberto apagou a luz, que estava acesa por detrás da bandeira, ao pé da porta.
Conservei-me tranqüilo na escuridão. tentando adormecer, mas depressa vi que isso era impossível. Tinha sentido algum prazer em zangar-me com o criado, e isto havia feito desaparecer a sensação desagradável, que sentira a princípio, quando pensava no afogado que tinha sido meu companheiro de quarto, mas já não tinha sono e conservei-me acordado durante algum tempo, olhando, de vez em quando, para a vigia, que podia ver de onde estava, e que, na escuridão, parecia um prato de sopa um pouco luminoso, suspenso nas trevas. julgo que estive assim durante uma hora, e ia adormecer, quando fui despertado por uma corrente de ar frio e por sentir distintamente a espuma do mar bater-me na cara. Pus-me em pé de repente, e, não tendo dado desconto na escuridão, ao balanço do navio, fui violentamente arremessado através do camarote sobre o sofá que estava colocado por baixo da vigia. Levantei-me imediatamente e pus-me de joelhos em cima dele. A vigia estava outra vez aberta, e amarrada atrás.
Ora, isto são fatos! Estava completamente acordado, quando me levantei, e mesmo se o não tivesse teria acordado com a queda que dei. Além disso, esfolei muito os coto- velos e joelhos e, na manhã seguinte, as contusões tê-lo-iam provado, se por acaso eu estivesse em dúvida.
A vigia que estava completamente aberta e presa atrás, coisa tão extraordinária que me lembro muito bem ter sentido mais espanto do que medo quando dei por isso. Fechei imediatamente o vidro e atarrachei o fecho com toda a minha, força. Fazia muito escuro, no camarote. Refleti que a vigia se tinha aberto pouco mais ou menos uma hora depois que Roberto a fechara na minha presença, e resolvi observar se ela se tornava a abrir. Aqueles fechos de latão são muito pesados e nada fáceis de mover; não podia acreditar que o gonzo se tivesse movido com o estremecer do parafuso. Fiquei a olhar através do vidro grosso para as faixas, alternadamente brancas e cinzentas, do mar que espumava ao lado do navio.
Devia estar ali durante um quarto de hora.
De repente, quando me pus em pé, ouvi distintamente alguma coisa mover-se, atrás de mim, num dos beliches, e, um instante depois, quando instintivamente me virava para olhar – apesar de não poder ver na escuridão – senti um gemido muito fraco. Dei um pulo através do camarote, e afastei as cortinas do beliche de cima, metendo as mãos dentro para ver se estaria lá alguém. Estava lã alguém, efetivamente.
Lembro-me que a sensação que tive, quando estendi as mãos, foi a de as ter mergulhado no ar duma cave úmida. E. detrás da cortina, veio uma lufada de vento, que cheirava horrivelmente a água salgada que se tivesse estagnado. Agarrei em qualquer coisa que tinha a forma dum braço humano, mas liso, molhado e frio de gelo. De repente, porém, quando puxava, a criatura saltou violentamente sobre mim, numa massa peganhosa e lamacenta, segundo me pareceu, pesada e úmida, mas dotada duma espécie de força sobrenatural. Cambaleei e, num instante, a porta abriu-se e a coisa saiu. Não tive tempo de me assustar e, levantando-me rapidamente, voltei pela porta e corri atrás daquilo com toda a minha velocidade, mas já era tarde. Dez varas adiante de mim, pude ver – tenho a certeza que vi! – uma sombra escura movendo-se na luz incerta do corredor, tão depressa como a sombra dum cavalo ligeiro projetada numa noite escura pela lanterna. Mas num instante desapareceu e dei comigo agarrado ao corrimão que volta do corredor para a escotilha. Tinha os cabelos em pé e um suor frio corria-me pela cara. Estava muito assustado, do que não me envergonho nada,
Apesar disso, duvidava ainda dos meus sentidos e tentei raciocinar friamente. Era absurdo, pensava eu. 0 Welsh rabbitt, que comera ao jantar, tinha-me feito mal. Tinha sido um pesadelo. Voltei para o camarote e entrei nele com esforço. Cheirava tudo a água salgada que se tivesse estagnado como quando acordara na noite antecedente. Tive que empregar toda a minha força moral para entrar e procurar, às apalpadelas, uma caixa de fósforos de cera. Quando acendi uma lanterna portátil, que ler, depois de se estava outra vez aberta e começou a apoderar-se de mim uma espécie de terror que nunca tive e que não desejo tornar a sentir. Todavia, comecei a examinar o beliche de cima, esperando encontrá-lo cheio de água do mar.
Mas fiquei desapontado. A cama tinha sido ocupada e o cheiro do mar era muito forte; mas as roupas estavam perfeitamente secas. Pensei que Roberto não tivera ânimo para fazer a cama, depois do acidente da noite passada, tudo tinha sido um sonho horroroso! Abri as cortinas o mais possível e examinei tudo cuidadosamente. Estava bem enxuto. Mas a vigia se achava outra vez aberta.
Numa espécie de profundo terror, tornei a fechá-la e, metendo uma bengala muito forte na argola do parafuso, apertei-o com toda a força até que ele começou a entortar. Depois, pendurei a lanterna no veludo encarnado, à cabeceira da cama, e sentei-me para tentar refazer-me do susto, se pudesse. Fiquei ali toda a noite, sem poder pensar em descansar, sem quase poder pensar. Mas a vigia continuou fechada, e eu não cria que agora se pudesse abrir sem uma força extraordinária.
A manhã despontou, por fim, e vesti-me vagarosamente, pensando era tudo o que tinha acontecido durante a noite. Estava um belo dia, e fui para o tombadilho, satisfeito por ir para o sol límpido da manhã e por respirar a brisa que vinha da água azul, tão diferente do cheiro insalubre e estagnado que havia no camarote. Instintivamente, dirigi-me para a popa, ao camarote do médico. Ele lá estava, de cachimbo na boca, gozando o ar da manhã, exatamente como no dia antecedente.
– Bons dias! – cumprimentou, tranqüilamente, mas, olhando para mim com evidente curiosidade.
– Doutor, o senhor tinha razão, – disse eu. – Há, efetivamente, qualquer coisa naquele camarote. –
– Bem me parecia que havia de mudar de opinião! volveu ele, em tom triunfante. – Passou mal a noite, não é verdade? Quer que lhe dê um cordial? Tenho uma receita esplêndida!
– Não, obrigado, – agradeci. – Mas gostaria de lhe contar o que aconteceu.
Tentei, em seguida, explicar, tão claramente quanto possível o que se tinha passado, não escondendo que levara um susto como nunca apanhara na minha vida. Demorei-me mais particulamente no caso da vigia, que era um fato que eu podia afirmar, mesmo que o resto tivesse sido ilusão.
Havia-a fechado duas vezes, durante a noite, e, da segunda vez, tinha até torcido o fecho, ao apertá-lo com a bengala. Tenho idéia de que insisti muito neste ponto.
– 0 senhor parece pensar que duvido da sua história, – disse o doutor, sorrindo-se, ao ouvir a descrição minuciosa do estado da vigia. – Não tenho a menor dúvida. Tomo a fazer-lhe o mesmo convite: traga as suas malas e venha para o meu camarote.
– Venha o doutor para o meu, por uma noite. Ajude-me a investigar o fundo de tudo isto.
– 0 senhor vai investigar, mas é outra qualidade de fundo, se persistir em tentar isso.
– Qual? – perguntei eu.
– 0 fundo do mar. Vou deixar este navio. Não é seguro.
– Então, não me ajuda a procurar?…
– Qual história! – exclamou o doutor vivamente. Tenho obrigação de conservar o juízo e não de me ir meter com fantasmas e coisas do outro mundo!
– Mas pensa que, na realidade, seja um fantasma? perguntei, eu, um pouco desdenhosamente. Mas, de repente, lembrei-me da horrível sensação de qualquer coisa sobrenatural que se apoderara de mim na noite antecedente. 0 doutor voltou-se decidido para mim.
– Acha alguma explicação racional para esses fatos? – perguntou ele. – Não, não acha! Bem, o senhor diz que há de arranjar uma explicação. Eu afirmo que não arranjará, muito simplesmente porque não há explicação alguma.
– Mas, meu caro senhor, – retorqui eu, – então o senhor, um homem de ciência, diz-me que essas coisas não se podem explicar?
– Digo, – respondeu ele, com energia. – E, se o pudessem ser, eu é que não quereria tomar parte na explicação.
Não me agradava nada passar outra noite sozinho no camarote, contudo, estava resolvido a determinar a origem daquilo tudo. Não creio que haja muitos homens que dormissem lá sozinhos, depois de passarem as duas noites que eu passei. Mas resolvi tentá-lo, se não encontrasse alguém que quisesse ficar comigo. Evidentemente, o médico não se sentia inclinado a tentar a experiência. Dizia que era médico, e que, no caso de se dar algum acidente a bordo, precisava estar a postos. Tinha de estar com a cabeça no seu lugar. Talvez tivesse razão, mais inclino-me a pensar que todas estas precauções eram causadas pelo medo. Informou-me que não havia ninguém a bordo que me acompanhasse nas minhas investigações, e, depois de mais algumas palavras, deixei-o. Dai a pouco, encontrei
o capitão e contei-lhe o caso. Disse-lhe que, se ninguém quisesse passar a noite comigo, pedia que deixassem a luz acesa toda a noite e que eu tentaria a experiência sozinho.
– Olhe, – disse ele, – vou lhe dizer o que farei. Ficarei consigo, e veremos o que acontece. Tenho a certeza de que nós ambos havemos de dar com o caso. Talvez haja alguém escondido a bordo, que apanhe uma passagem de graça, assustando os passageiros. Talvez haja mesmo alguma coisa a consertar no beliche.
Observei que seria bom levarmos o carpinteiro, para examinar o beliche; fiquei muito satisfeito com o oferecimento do capitão para passar a noite comigo. Mandou chamar o carpinteiro e disse-lhe que fizesse o que eu ordenasse. Descemos imediatamente. Desmanchei a cama do beliche de cima e examinamos tudo para ver se haveria alguma tábua solta ou algum caixilho que pudesse ser aberto ou empurrado. Experimentamos todas as tábuas, sondamos o chão, desaparafusamos o beliche de baixo e desmanchamo-lo todo; em suma, não houve um centímetro quadrado que não fosse revistado e experimentado. Estava tudo em perfeita ordem e pusemos tudo outra vez no seu lugar. Quando estávamos acabando a nossa tarefa, Roberto chegou à porta e olhou para dentro.
– Então, senhor, o que é que encontrou? – perguntou ele com um sorriso macabro.
– Tinha razão, a respeito da vigia, Roberto,
disse eu, dando-lhe a libra prometida.
0 carpinteiro trabalhava em silêncio e com jeito, seguindo as instruções que lhe dava. Quando acabou, disse-me:
– Eu sou um homem franco, senhor. Tenho a convicção de que o melhor era o senhor tirar daqui as suas
Cousas, e deixar que eu aparafuse a porta do camarote. Este camarote ainda não deu nada de bom. Já, aqui, morreram quatro pessoas, que eu saiba, e isto em quatro viagens. É melhor deixá-lo, meu senhor, é melhor deixá-lo!
– Vou experimentá-lo ainda uma noite, – atalhei.
– É melhor deixá-lo, meu senhor, é melhor deixá-lo! Não sai daqui nada bom, – repetiu o carpinteiro, metendo a ferramenta no saco e indo-se embora.
Todavia, tinha ficado muito animado com a perspectiva de ter a companhia do capitão e formei tenção de não deixar que me impedissem de chegar até o fim daquele estranho caso. Abstive-me, nessa noite do Welsh rabbitt e do grog e nem sequer tomei parte na partida de whist do costume. Queria confiar absolutamente nos meus nervos e a minha vaidade fazia com que desejasse mostrar boa figura aos olhos do capitão.
0 capitão era um daqueles lobos do mar valentes e cuja coragem, presença de espírito e sangue frio, no momento de perigo, fazem com que chequem natural- mente às posições de maior confiança. Não era homem para se deixar levar por histórias e bastava o fato de ele desejar reunir-se a mim nas minhas investigações para provar que ele pensava que havia qualquer cousa séria que não podia ser explicada, pelas teorias vulgares, nem tida como =a superstição ordinária. Aliás, a sua reputação, bem como a do navio, também estava envolvida no caso. Não era brincadeira perder passageiros pela borda afora, e ele bem o sabia.
Pelas oito horas da noite, quando fumava o meu último charuto, ele veio ter comigo e levou-me para um canto, fora do caminho dos outras passageiros, que passeavam no convés.
– Isto é cousa muito séria, Senhor Brisbane! – disse ele. – Temos que nos conformar: ou a não ver nada ou a Passar um mau bocado. Como vê, não posso levar isto a rir e peço-lhe que ponha o seu nome no relatório do que se passar. Se não acontecer nada, esta noite, continuaremos. amanhã e depois. Está pronto?
Seguimos para baixo e entramos no camarote. Quando fomos para dentro, pude ver Roberto, o criado, que estava um pouco para baixo do corredor, observando-nos com o seu sorriso habitual, como se tivesse certeza de que qualquer coisa terrível ia acontecer. 0 capitão fechou a porta a chave.
– Talvez fosse melhor põr a sua mala encostada à porta, – recomendou. – Um de nós podia se sentar nela. Assim, ninguém poderá sair. A vigia está fechada?
Estava como a tinha deixado de manhã. De fato, sem usar uma alavanca, como eu fiz, ninguém a podia abrir. Afastei as cortinas do beliche de cima, para poder olhar bem para dentro. Por conselho do capitão, acendi minha lanterna portátil e coloquei-a de modo a que iluminasse os lençóis de cima. Insistiu em ficar sentado na mala, dizendo que queria poder jurar que tinha estado encostado à porta.
Depois, pediu-me para darmos uma busca ao camarote, operação que se fez depressa, por consistir simplesmente em olhar por baixo do beliche inferior e por baixo do sofá que ficava ao pé da vigia. Estava tudo vazio.
– É impossível que algum ente humano entre aqui.
– Bem, – disse o capitão, sossegadamente. – Se agora virmos alguma coisa, ou é imaginação ou qualquer coisa sobrenatural.
Sentei-me na borda do beliche de baixo.
– A primeira vez que isto aconteceu, – disse o capitão, cruzando as pernas e encostando-se à porta – foi em março. 0 passageiro que dormia aqui, no beliche de cima, averiguou-se que era um doido, pelo menos sabia-se que era fraco da cabeça e tinha tomado a passagem às escondidas dos amigos. Correu para fora, no meio da noite, e deitou-se ao mar antes que o oficial de quarto o pudesse evitar. Paramos e deitamos um escaler; a noite estava serena, mas não foi possível encontrã-lo. 0 seu suicídio foi, mais tarde, atribuído à loucura.
– Acontece isso muito? – perguntei, distraidamente.
– Não… muitas vezes, não – respondeu o capitão.
Nunca me aconteceu, se bem que tenha ouvido dizer que tem acontecido noutros navios. Ora, como estava dizendo, isto teve lugar em março. Na viagem seguinte…
Para onde está o senhor a olhar? – perguntou ele, sus. pendendo repentinamente a sua narração.
Creio que não respondi. Tinha os olhos pregados na vigia. Parecia-me que o parafuso se estava movendo muito devagar, mas tão devagar que não tinha a certeza que se estivesse movendo. Olhei com atenção, procurando fixar na mente a posição e tentando certificar-me se a mudava.
– Mexe-se! – disse ele, num tom de convicção. Não, não se mexe… – acrescentou, daí a pouco.
– Se fosse o parafuso que estivesse solto, – observei
já se teria aberto durante o dia. Mas encontrei-o, esta tarde, tão bem apertado como o deixei esta manhã.
Levantei-me e experimentei o parafuso. Estava de fato lasso, porque, com um certo esforço, podia movê-lo com as mãos.
– 0 que é esquisito, – disse o capitão, – é que a segunda pessoa que desapareceu parece que se atirou por ,aquela vigia. Que noite terrível que passamos! Foi alta noite, e o mar estava encapelado, deu-se um alarma que havia uma vigia aberta e que a água estava a entrar por ela adentro. Desci e encontrei tudo inundado; a água entrava sempre que o navio se inclinava e a vigia estava pendente pelos fechos de cima. Bem, conseguimos fechá-la, mas a água causou algumas avarias. Desde essa noite que este camarote, de tempos a tempos, cheira a água salgada. Supusemos que o passageiro se tivesse atirado pela vigia, mas só Deus sabe como ele o conseguiu fazer. 0 criado dizia-me, sempre, que não podia ter aqui nada fechado. Palavra que me cheira, agora; não lhe cheira? – perguntou ele, aspirando o ar, desconfiado.
– Cheira-me… e muito! – concordei, estremecendo,
medida que aquele cheiro de água estagnada se tornava mais forte no camarote.
– Ora, para cheirar assim é necessário que o camarote seja úmido, – continuei, – e, apesar disso, quando eu e o carpinteiro o examinamos, esta manhã, estava tudo perfeitamente seco. É deveras extraordinário. . . olá!
A minha lanterna portátil, que estava pendurada no beliche de cima, apagou-se de repente. Ainda vinha bastante luz da bandeira de vidro fosco da porta, por detrás da qual brilhava a lâmpada do costume. 0 navio balouçava muito e a cortina do beliche de cima vinha até o meio do camarote e voltava para trás. Levantei-me rapidamente da borda da cama, e, no mesmo instante, o capitão pôs-se também em pé, dando um grito de surpresa. Tinha-me voltado para apanhar a lanterna e examiná-la, quando lhe ouvi a exclamação e em seguida gritar por socorro. Saltei para o seu lado. Lutava com toda a força com o parafuso de latão da vigia. Parecia mover-se-lhe nas mãos, apesar dos seus esforços. Pequei na bengala, um pesado pau de carvalho que costumava trazer sempre comigo, meti-o pela argola e puxei por ele, com toda a força. Mas a forte madeira estalou de repente e eu cai no sofá. Quando me levantei, a vigia estava completamente aberta e o capitão encostado à porta, pálido de morte.
– Há qualquer cousa naquele beliche!. disse ele, numa voz estranha e com os olhos quase a saírem-lhe da cara. – Segura a porta, enquanto eu vejo… desta vez, não há de escapar-nos, seja lá o que for!
Mas, ao invés de ir ocupar o seu lugar, saltei a cama de baixo e agarrei em qualquer cousa. que estava no beliche de cima.
Era qualquer coisa sobrenatural, horrível, indizível, e movia-se nas minhas mãos. Era como o corpo duma pessoa afogada havia muito tempo, contudo, mexia-se e tinha a força de dez homens vivos. Mas agarrei com toda a força, naquela coisa escorregadia, lamacenta, horrível. Os olhos, brancos e mortos, pareciam olhar para mim no meio da escuridão; tinha o cheiro podre de água salgada que se tivesse estagnado e os cabelos luzidios caíam-lhe em ma- deixas molhadas, pela cara cadavérica. Lutei com aquela coisa morta; deitou-se sobre mim fez-me recuar e quase que me quebrou os braços; enrolou os seus braços cadavéricos à roda do meu pescoço, subjugou-me e, por fim, gritei, caí e larguei a presa.
Quando caí, aquela coisa saltou por ciIna de mim e atirou-se ao capitão. A última vez que o vi àc pé, tinha a cara pálida e os lábios cerrados. Pareceu-me que deu uma grande pancada naquela coisa e, depois, também ele caiu para diante, com um grito inarticulado de dor.
A coisa parou um instante pareceu pairar sobre o corpo estendido, e eu teria gritado de terror, se ainda tivesse voz. Aquilo desapareceu de repente, e pareceu-me aos sentidos desordenados que saía pela vigia aberta; como foi isso possível, é que ninguém pode dizer. Fiquei muito tempo no chão e o capitão ao meu lado. Por fim, recobrei os sentidos parcialmente e vi logo que tinha o braço partido: o rádio do antebraço esquerdo ao pé do pulso.
Levantei-me com dificuldade e, com a mão que me restava, tentei levantar o capitão. Gemeu, moveu-se e afinal, voltou a si. Não estava ferido, mas parecia atordoado.
Acabei a viagem no camarote do médico. Tratou-me do braço partido e aconselhou-me a que não me tornasse a meter com fantasmas e com coisas do outro mundo. 0 capitão estava muito calado, e nunca tomou a navegar serviço. E naquele navio, apesar de ele ainda estar de também eu não tenciono tornar a embarcar nele.

Metempsicose (Walter Poliseno)

Os últimos golpes de picareta ressoaram no silencio do vale. Havia, em todos nós, uma estranha trepidação, porque chegara, finalmente, o momento esperado, havia meses: a porta de mármore do túmulo do Faraó estava aberta.
Voltei-me, durante um momento, a contemplar o vale dourado pelo sol que descia para o ocaso. Ao longe, divisava-se o magnífico templo branco de Der-Al-Barhi, com suas colunatas, que pareciam imitar o estilo dórico. 0 templo, cortado na rocha calcária do vale de Tebas; e, coroado por uma gigantesca ‘cadeia de rochedos, assemelhava-se a um anfiteatro, aberto sobre o deserto. 0 vento soprava através do desfiladeiro do vale, num murmúrio misterioso. 0 deserto imenso, de um lado, e a maciça barreira de rochedos, do outro, faziam com que nos sentíssemos mesquinhos e perdidos, intimidados pela sua grandeza. Não passávamos de minúsculos pontos no deserto e o próprio templo milenar, visto a distância e no conjunto do quadro, parecia pequeníssimo.
0 baque de uma pedra, que se despenhou, acordo num devaneio. A vista e o pensamento voltaram-se para o túmulo de Néfer, cuja abertura negra, na areia dourada, parecia prestes a engolir-nos.
Quer entrar primeiro? – perguntou-me o professor
– Não seria melhor deixar tudo para amanhã? Agora já é tarde.
Clarence mordeu os lábios, com um estranho sorriso.
– Se assim quer, assim seja. Mas, tenho pressa de regressar ao Cairo. Há um mês que estamos neste vale sombrio e silencioso… Podíamos dar-lhe, ao menos, uma olhada.
– Como queira – disse eu, precedendo-o, aborrecido, por ter lido uma nota de ironia no seu olhar. Clarence pensava, provavelmente, que eu tivesse medo e que, como já acontecera a tantos outros, as superstições e as velhas histórias que circundam, com um ar de mistério e terror, as pesquisas arqueológicas no vale do Nilo, me houvessem impressionado também. Descemos por uma estreita passagem, até uma câmara de paredes inclinadas, que se encontravam no alto, para formar o teto. Daí, abriam-se dois corredores, que conduziam, evidentemente, a duas salas, em que estavam dois sarcófagos.
– Vou explorar esta passagem – disse Clarence, enveredando por aquela que ficava à nossa direita, fazendo sinais aos outros que o seguissem.
– Seria incomodo para o Senhor, explorar esse outro corredor? – perguntou-me, a seguir.
Não lhe dei resposta, e entrei pelo corredor à esquerda, com paredes de pedra coberta de hieróglifos. Chequei a uma saleta, e a luz da minha lâmpada destacou um baixo relevo de pedra calcária, que continha algumas passagens do Livro dos Mortos. Ao. longo das paredes, havia místilas e sobre elas estavam dispostos os objetos mais variados: figurinhas de madeira esculpidas, pintadas com cores vivas, porta-perfumes de alabastro, jarras azuis, em forma de flores de lótus, vasos de Cánapo, recipientes de alabastro para cosméticos. Num ângulo, havia um cofre baixo, com entalhes de majólica azul, marfim e ébano. Nele estavam gargantilhas, amuletos, braceletes e anéis, leques de ouro e ébano, espelhos, mancais de bronze e cobre.
Compreendi que havia penetrado no túmulo de uma jovem egípcia, talvez filha de Néfer. Aproximei-me do sarcófago coroado por Bah, a ave-alma, em forma de falcão, com semblante humano, e por uma estátua, de pedra preta, de Anúbis, o deus do mundo subterrâneo. Sobre a tampa, estava esculpido e pintado em cores muito vivas, com raro poder de expressão, o retrato de uma moça. Na imobilidade misteriosa da pedra, ela parecia fitar-me, de modo estranho. Seus olhos, negros e profundos, e os lábios, numa atitude de impenetrável sorriso, davam-lhe uma aparência de vitalidade que me impressionou
Amun-Eti, filha de Néfer II… contemplei o seu simulacro, absorto, como se ela estivesse viva. Era maravilhosamente bela… mas isso não bastava para explicar aquilo que eu sentia. Havia, nos seus olhos, no seu rosto, na sua expressão, qualquer coisa que suscitava misteriosas harmonias na minha alma, e senti como se aquela criatura, que vivera milhares de anos antes de mim, estivesse junto do meu espírito, fosse parte de mim mesmo, mais do que qualquer outra pessoa viva…
Seguiram-se para mim dias de estranha perturbação e abatimento moral. 0 pequeno rosto, encantador e misterioso, do sarcófago, atormentava-me, perseguia-me. Via aqueles olhos em todos os cantos; onde quer que pousasse a vista, descobria aquele sorriso doce e impenetrável.
Estávamos catalogando as peças descobertas no túmulo: trabalho de semanas. Mas aquele trabalho, que sempre me havia apaixonado, até então, encontrava-me, agora, ausente, cansado, abúlico. Tinha guardado para mim, antes que outros entrassem na sala de Amun-Eti, um belíssimo colar de lápis-lazúli, que fazia parte de seu enxoval funerário. Queria àquele objeto como a um penhor de amor. Todas as vezes que podia, sem dar nas vistas, quase escondido de mim mesmo, corria a contemplar a figura do sarcõfago, viva na imperecível vivacidade das côres egípcias.
Que é que me acontecia? Estaria para cair doente? Iria ficar louco? As vezes, pensava naqueles que admiram a Gioconda de Leonardo, em Paris, e dela se enamoram, exaltados. Mas, eu, sempre fora homem prático e atido à realidade, espírito científico, antípoda de semelhantes exaltações românticas.
E então?… Amun-Eti!
Contemplando aquele vulto, procurando penetrar o mistério daquele olhar, o segredo daquela vida, sentia subir em mim uma incomparável paz espiritual. Mas, tinha que lutar, subtrair-me àquela fascinação secreta, antes que meus nervos, por demais tensos, me pregassem qualquer partida perigosa.
Certamente, tudo isso era efeito da solidão e da estranha atmosfera, encantada e quase mórbida, do Vale dos Túmulos dos Reis.
Dei-me pressa em fazer embalar o sarcófago de Amun-Eti, prometendo a mim mesmo não mais pôr-lhe a vista em cima. Mas, estava inquieto, nervoso… E, quando partimos para o Cairo, eu já sabia que não me esqueceria de Amun-Eti, não seria capaz de subtrair-me ao desejo de tornar a vê-la, nem jamais me separaria do colar de lápis-lazúli, símbolo daquela estranha aventura.
0 sarcófago, com seu enxoval funerário, ocupou uma pequena sala do Museu do Cairo. 0 diretor insistiu para que eu dirigisse o arrolamento da sala, mas recusei, alegando um pretexto. Queria evitar tomar a vê-la, lutar contra aquele sentimento impossível, a que não sabia que nome dar, mas que me dominava inteiramente o espírito.
A sala foi aberta ao público e uma semana mais tarde fui lá.
– 0 louco vai ter medo das sombras – dizia eu para mim mesmo. Aqui, numa grande cidade como o Cairo, e coisa ficaria reduzida a suas justas proporções; verificaria que tudo quanto se passara fora efeito dos nervos e da atmosfera do deserto. Riria de mim mesmo.
0 sarcõfago estava exposto dentro de um armário de cristal. Alguns visitantes contemplavam a beleza das figuras esculpidas e das cores resplandecentes. A presença deles, sem motivo algum, irritava-me como se fossem intrusos. Esperei ficar, para aproximar-me. Sentia o coração bater apressado, por mais que dissesse a mim mesmo que era um idiota e um sonhador. Fiquei longo tempo a contemplar Amun-Eti. E, de repente, estremeci. Colheu-me uma sensação de vertigem. Fechei os olhos. Agora, sim, devia ter enlouquecido. Porque, refletido no cristal do armário, tinha visto o rosto de Amun-Et! animar- se e sorrir. Voltei-me, instintivamente, e mal pude reter um grito de pasmo. Perto de mim, estava a encarnação viva de Amun-Eti, não um fantasma, mas a cópia viva e palpitante da figura do sarcófago.
A moça olhou para mim e sorriu-me. Era muito jovem. Tinha olhos pretos, com longos cílios. A sua pele era vagamente de uma cor azeitonada. 0 sangue egípcio revelava-se-lhe nos lábios carnudos e nos zigomas, ligeiramente proeminentes, que davam a seu rosto um acentuado caráter oriental. Trazia um pequeno turbante, de um azul pálido, não diferente do penteado da mesma Amun-Eti. 0 seu vestido de crepe, cor de canela, desenhava-lhe as formas esbeltas, bem torneadas, revelando as curvas sensuais do corpo moço, que encarnava as linhas ideais do velho Oriente. Afastei-me, embaraçado.
– Desculpe-me – disse. – Fiquei a contemplá-la como um louco. Sinto-me verdadeiramente mortificado.
– Compreendo o seu espanto. Pareço-me tanto assim?… Ou melhor: pareço-me realmente com ela?
Concordei, e ela continuou:
– Vim, picada pela curiosidade, pois me disseram justamente… – deteve-se, incerta. Pareceu-me que compreendeu, então, que estava falando a um desconhecido.
– Sou o professor Dyman… Henrique Dyman – disse eu, apresentando-me. – 0 acaso quis que fosse eu o primeiro a penetrar no sepulcro de Amun-Eti.
Ela estendeu-me a mão.
– Chamo-me Henet Scott… Então o senhor fazia parte da missão arqueológica de Tebas?
Começamos a conversar, mas eu não conseguira tirar os olhos do seu rosto. Amun-Eti tinha-se reencarnado. 0 milagre de Pigmalião repetira-se. Parecia-me que aquela mulher houvesse sido criada, naquele momento, pelo meu íntimo desejo, que vivesse somente para mim, emanação e animação dos meus sentimentos. Soube que seu pai era inglês, falecido havia muitos anos, mas sua mãe era egípcia: uma senhora copta, de nobre ascendência, cuja família se gabava de pertencer aos últimos faraõs Saites e que, embora cristã, havia conservado o culto tradicional das antigas divindades locais.
– Amun-Eti seria, em definitivo, uma de suas ante- passadas, não é verdade?
– Se a genealogia, a que minha mãe liga tanta importância, for exata…
Olhou para o sarcófago, enquanto lhe aflorava aos lábios um leve sorriso. Eu vacilei, dominado por um súbito frémito de terror surpersticioso, pois, naquele momento, ela possuía a idêntica complicada expressão do retrato de Amun-Eti…
– Amun-Eti deixa-me curiosa – ‘ disse ela, depois.
Foi um acaso realmente feliz que eu tenha encontrado justamente o senhor, Professor Dyman. Desejava saber algo mais a seu respeito… tudo quanto possa dizer-me.
– Ficarei muito contente em aceder a seu desejo.
– Quer vir tomar chá conosco? Minha mãe ficará muito contente em conhecê-lo. Tudo quanto diga respeito ao antigo Egito provoca o seu mais apaixonado interesse.
Foi assim que comecei a freqüentar a casa dos Scotts. Desde aquela manhã, sabia o que em mim sucedera, mas não me entristecia por isso. . . 0 meu sentimento transpusera-se da fantástica Amun-Eti para Henet. Agora, porém, não havia inquietação, incerteza ou aborrecimento, no meu coração. Eu amava uma mulher muito bela, inteligente, culta, refinada: gozava do seu sorriso, da sua companhia, do seu pensamento. E fugira àquele incubo estranho, àquela obsessão que talvez se viesse a converter em loucura.
Entretanto, o British Museum estava organizando outra missão, ao Vale dos Túmulos dos Reis, e fui convidado a dirigi-la. Era uma proposta tentadora. Mas, teria que renunciar a ver Henet, durante vários meses. . .
Naquela noite, fui convidado a jantar em casa dos Scotts. Henet notou imediatamente que alguma coisa me preocupava. Depois do jantar, saímos juntos para o jardim, onde havia uma fonte de mármore verde, semi-oculta entre os canteiros de plantas tropicais.
Há alguma coisa que o perturba, professor Dyman. Que é? – perguntou, com sua voz quente.
– Fui convidado pelo British Museuni para dirigir as escavações no Vale de Tebas – respondi.
Henet hesitou um instante.
É uma grande oportunidade que se lhe oferece disse, destacando as palavras. – Está contente?
Pequei-lhe na mão.
– Teria ficado contente há um mês, antes de conhecê-la. .. mas, como poderei aceitar ir remexer a poeira do passado e as sombras da morte, quando, aqui, junto de si, encontrei a vida?
Ela voltou para mim, interrogativamente, aqueles seus grandes olhos, semelhantes a gemas luminosas, na alvura de seu rosto que, repentinamente, se tornara pálido. Alguns dias antes, fizera-lhe eu presente do colar de lápis-lazúli de Amun-Eti. E, naquela noite, ela trazia-o. As pedras azuis, betadas de ouro, brilhavam como se fossem mágicos fogos aprisionados.
, Se o senhor se explicasse melhor… eu… murmurou.
– Amo você. já a amava, antes de encontrá-la! Antes de conhecê-la, já estava loucamente apaixonado. Agora, sonho apenas em viver a seu lado, amá-la, torná-la feliz…
Ela continuou a fitar-me e, durante um momento, calou-se. 0 cicio da água da fonte causou-me uma estranha impressão. Os lábios da moça tremiam ligeiramente.
Estreitei-a nos meus braços e beijei-a.
– Henet, Henet! Você é o amor da minha vida. Eu ficaria louco, se pensasse que você não existisse e eu tivesse nascido, tarde demais, para conhecê-la! Quer casar comigo, Henet?
Um mês depois, parti para o Vale dos Reis, como chefe da Missão Arqueológica. Henet tomara-se minha mulher, e acompanhava-me.
Aquele período permanecerá na minha memória como o tempo mais feliz da minha vida, de uma felicidade estática, sem limites. Além de seu apaixonado amor, Henet oferecia-me a sua preciosa colaboração e revelou-se uma
companheira utilíssima, no delicado trabalho da Missão, sobretudo pelo conhecimento da língua egípcia e dos caracteres hieroglíficos das diversas dinastias. Eu amava-a com um amor que, por vezes, me espantava por sua violência, como se pudesse amar uma criatura perdida nos séculos, na noite dos tempos, que, finalmente, se encontrou e se receia perder.
A não ser os componentes da Missão, estávamos sós no Vale dos Reis, sós no deserto imenso, entre os restos de uma civilização milenária, que nós próprios estávamos trazendo a lume. As vezes, parecia-me viver num estranho encantamento, sair da realidade do tempo e estar junto de Amun-Efi, preso a ela por um amor que houvesse desafiado os séculos.
Cada dia se me relevava um aspecto novo da complexa personalidade de Henet; a sua cultura, a sua força de caráter, e sobretudo, a sua ardente e apaixonada vitalidade. A sua ânsia de viver era febril e revelava-se em todo o seu comportamento e quase em cada uma de suas palavras. As vezes, desconcertava-me não descobrir os seus pensamentos e os segredos da sua alma. Uma vez, ouvi-a, num momento de intimidade e euforia, à vista da gigantesca estátua de Ammon-Ra, entre as ruínas do templo de Der-Al-Bahri, desafiar a morte para atingi-la. Não era uma brincadeira, mas sim uma desconcertante manifestação de quanto de oriental havia no seu espírito.
– Ficarei sempre consigo… estarei sempre a seu lado, enquanto você tiver vida – disse-me, depois. – A morte não terá poder sobre mim, porque o amo demais.
– Não fale dessas coisas absurdas, querida.
– Mas eu penso assim… E penso que não poderei morrer, enquanto nos amarmos assim. Sabe o que é a morte? É a fraqueza de vontade de quem não tem força de viver. 0 homem cede inteiramente à morte, unicamente pela fraqueza da sua vontade.
Eu sorri:
– Teoria tipicamente faraônica.
– Não. Foi um escritor seu patricio quem o disse: Glanvill.
Uma vez, quando regressava das escavações, encontrei Henet que brincava com o seu colar de lápis-lazúli.
Estava estendida numa cadeira, com fundo de tela. A expressão abstrata, ausente, do seu rosto, impressionou-me. Assim como me impressionara sempre a predileção que manifestava por aquele colar, se bem que possuísse outros mais belos e mais preciosos. Sentei-me, em silencio, a seu lado.
– Quero dizer-lhe uma coisa curiosa, Meryt… disse ela, em certo momento, chamando-me Meryt, que, em egípcio, quer dizer amado, dileto, – quando você me deu este colar, tive a impressão de havê-lo já possuído, de conhecê-lo em cada veio das suas pedras. É uma impressão bizarra, hipnótica, que se agita no meu espírito e faz surgir imagens que não me atrevo a definir, como fragmentos de um sonho sobre o qual a gente tenta fixar a atenção, mas que se esvai.
Apertei os lábios com ceticismo, e ela continuou:
lá lhe sucedeu andar por um lugar onde nunca e achá-lo estranhamente familiar, como se a ele esteve estivesse ligado uma parte desconhecida da sua vida?
– Uma vez ou duas… mas, deixei de acreditar em certas histórias, quando completei sete anos…
Fingi rir à sua custa, mas fitava-a preocupado, pois me parecia realmente conturbada. Não devia esquecer que ela era metade egípcia, tinha sempre vivido no Egito e não podia subtrair-se inteiramente ao peso de crenças e superstições milenares. ‘
– A atmosfera deste lugar começa a fazer-lhe mal observei. – Ficaria muito mais sossegado se você voltasse ao Cairo, Henet.
– Não. nunca mais o deixarei. Nunca mais.
Mas, ao contrário, deixou-me…
A Missão devia ultimar os seus trabalhos durante o mês de julho, pois, naquela época, começa a inundação do Nilo. As chuvas, porém, começaram a cair, antes do tempo previsto, com inaudita violência. Devíamos notificar dali e dirigir-nos imediatamente para Keneh, o centro mais próximo, onde passa a grande estrada de ferro que, costeanck)o Nilo, atravessa o deserto arábico, até ao Cairo e Alexandria.
Todos os homens da Missão trabalhavam febrilmente, na preparação do comboio. Sabíamos que um grave perigo nos ameaçava, pois Keneh estava sobre a outra margem do Nilo e não poderíamos chegar até lã, se as águas houvessem ultrapassado as eclusas de Del-AI-Bahri.
Quando os quatro jeeps se puseram em movimento, todo o Vale dos Reis estava convertido num lago cinzento, sobre o qual se acumulavam nuvens muito baixas, entre as quais os relâmpagos ziguezagueavam, de improviso. A água escorria dos bancos dos jeeps, dos vidros, dos cofres. As rodas giravam em falso, enterrando-se na lama. Foi preciso que todos os homens os empurrassem, durante muito tempo, a muito custo.
Henet estava no carro da frente do comboio. Com dificuldade, consegui colocar-me a seu lado. 0 vento soprava violento, cortando a respiração, e a água tolhia a vista, invadindo tudo. Em certo momento, tive a impressão de encontrar-me no meio de uma paisagem irreal, apocalíptica, debaixo d’água. Do maciço montanhoso, precipitavam-se torrentes, formando cascatas, arrastando pedras, cascalhos, detritos de toda a espécie. 0 céu tornava-se cada vez mais escuro, embora fosse ainda pleno dia. Cada vez mais freqüentes, os relâmpagos lívidos fuzilavam, por entre as nuvens, iluminando o deserto revolto e os rochedos, dom uma luz sinistra. Eu olhava, com apreensão, para a água que escorria, em catadupas, da montanha para – o Vale. Tínhamos que andar depressa, depressa…
Atingimos a grande ponte de Lameth, lançada sobre o Vale do Der-Ai-Bahri. Por baixo de nós, abria-se um abismo que, em certos pontos, ultrapassava mais de cem metros. Agora, a água corria impetuosa, investindo contra os pilares e fazendo tremer toda a ossatura da ponte. Os carros caminhavam com cautela, enfrentando um vento de: violência extrema. . . Estávamos quase chegando à saída da ponte, quando ouvi um fragor sinistro, e me pareceu que toda a montanha se precipitava em cima de nós. Das alturas, massa enorme de água, de pedras, de troncos de árvores, descia sobre a ponte, com um ruído estranho, ensurdecedor. Um dos lados do carro foi atirado violentamente de encontro ao parapeito, com um fragor de ferragens e vidros quebrados. Por um instante, pareceu que o automóvel fosse alçar vôo: ficou suspenso, com as rodas anteriores no vácuo, capotou e rolou pela escarpa. Eu havia sido atirado fora. A chuva não deixava ver nada, o vento uivava a meus ouvidos. Nas mãos, eu segurava qualquer coisa, que contemplava, atônito: era o colar de Henet que, instintivamente, tinha agarrado, no instante da desgraça, e se havia despedaçado. Os outros carros haviam parado, Os homens da Missão gritavam, agitavam-se. Alguém começava a subir pela escarpa. “Henet!”, gritei, com voz rouca. Aproximei-me dos destroços. Henet estava ali, imóvel, os olhos fechados, o rosto branco, sob um véu de lama. Apoderou-se de mim um terror desesperado, enquanto tentava levantá-la. “Heneti Heneti” – gritava eu.
0 seu rosto contraiu-se num espasmo. Abriu os olhos, onde já pairavam as sombras… – Harry… Meryt. . . – murmurou – Não o deixarei, não posso deixá-lo, Meryt.
Tentou abraçar-me, e eu apertei-a desesperadamente.
– Henet, meu anjo!… minha pequenina…
– Eu voltarei… voltarei a você. Espete-me, Harry Havemos de encontrar-nos ainda.
0 trágico fim de Henet deixou-me estupefato. Nos meses que se seguiram, invadiu-me uma espécie de torpor interno e foi como se me houvesse tornado incapaz de sofrer, fechado e indiferente a tudo que me rodeava. Depois, a pouco e pouco, voltei à realidade, ao encontrar-me num universo novo, esquálido, estranho. Decidi sair do Egito.
Não me era possível permanecer onde cada pedra me recordava Henet, o amor perdido. Por isso, voltei à Inglaterra, deixando ao tempo a missão de sanar-me as feridas do espírito… E assim aconteceu, de fato; de tal modo que, quatro anos depois da tragédia da ponte de Lameth, casei-me com uma senhorita da nobreza provinciana inglesa, Miss Laura Doyle, filha de um baronet, do condado de Sussex.
Não estava propriamente enamorado de Laura; não ais capaz de amar, naquele frio despertar, que se seguira ao sonho maravilhoso que tinha vivido. Mas sentira-me, insensivelmente, atraído para ela, pela sua afetuosa simplicidade, pela sua doce personalidade, confortadora e repousante. Não podia compará-la a Henet. Agora, ao pensar nisso, posso dizer que uma e outra eram duas antípodas, física e espiritualmente. Henet era uma ardente beleza oriental; Laura, tipicamente anglo-saxônia, de olhos azuis luminosos, num rosto um pouco exangue às manifestações mais secretas do seu espírito.
A nossa vida transcorria tranqüila, sem ardor de paixão, fundada apenas na sólida base de uma reciproca estima, em nossa moradia de campo, entre os prados e as colinas do Sussex. Penso que Laura havia adivinhado que houvera um drama terrível em minha vida, embora eu jamais lhe houvesse falado, nem ela me tivesse feito qualquer pergunta a tal respeito. E. às vezes, seus olhos velavam-se de melancolia… Talvez fosse a intuição de não conseguir fazer-me esquecer e tornar-me feliz.
Mas, eu estava convicto de ter esquecido… Tanto era verdade que, mal me chegou às mãos uma carta do British Museum, com a proposta de voltar ao Vale dos Umulos dos Reis, falei nisso, ligeiramente, a Laura.
Seus olhos acenderam-se de entusiasmo.
– Vai ser maravilhoso!… Eu o acompanharei, naturalmente.
– Mas, eu não tenho intenção de voltar mais lá.
A desilusão estampou-se em seu rosto, e eu tornei, persuasivo:
– Veja, querida, a África e o deserto não são semelhantes às nossas campinas do Sussex.
– Seria tão romântico!
– 0 deserto é romAntico somente no cinema e nos
cartões postais ilustrados. Aqui, no Sussex, temos tudo quanto…
– Eu não quero ficar decrépita, entre as comodidades do Sussex.
– Mas, acredite no que lhe digo, Laura. É a sua moldura natural. Na África, você se sentiria como um peixe fora d água.
Era isso Eu exprimira a essência do meu modo de pensar, a respeito de Laura. Os tépidos prados de esmeralda, a caça à raposa, o campo de golfe – isso era o ambiente natural de Laura, assim como um deserto de fogo, as solidões misteriosas, as ruínas milenárias do antigo Egito eram a moldura de Henet. Eu não conseguia imaginar Laura montando um camelo, sob um sol a pino ou entre as ruínas das sepulturas. Ela, porém, tanto insistiu que acabei aceitando o encargo do British Museum.
Nesse ponto, não tive motivos para mudar de decisão. Enquanto fazíamos nossos preparativos, Laura apareceu-me sob uma nova luz, alegre como jamais fora, impaciente por conhecer aquele mundo longínquo, diferente, através do qual esperava talvez conhecer uma parte importante da minha existência, dos meus pensamentos, da minha vida espiritual.
Poucos dias antes da partida, ocorreu um incidente que me perturbou. Entrava eu em casa, e Laura veio ao meu encontro, alegre, sorridente. Trazia no pescoço c, colar de lápis-lazúli, que fora de Amun-Eti e, depois, de Henet. Experimentei um mal-estar indefinível, quase uma obscura sensação de terror. Laura riu-se da minha surpresa.
– Mau! Tinha escondido este belo colar; não quis fazer-me presente dele.
– Eu tinha a certeza de que não estava mais comigo… Onde o encontrou?
– Numa velha roupa colonial. Com o fecho quebrado.
A terrível cena da ponte de Lameth sulcou-me o espírito como o fulgor de um relâmpago. Uma sensação de vertigem apoderou-se de mim e fechei os olhos: pareceu-me afundar num abismo. —Harry!… Merytl… Eu voltarei a você. Encontrar-nos-emos ainda!” Tomei a ouvir a trágica invocação, no fragor da tempestade.
– Que tem você? -. perguntou Laura, admirada. Desconfiou do colar. – Não quer que eu…
Fiz sinal que não.
– É um velho colar egípcio. Pertencia a uma… princesa, morta muito jovem. Não gosto de vê-la tocar esse colar, porque dizem que traz desgraça, como se possuísse um poder maléfico.
Laura olhou fixamente para mim, e depois riu.
– Se é só por isso, desafio todas as maldições.
Algumas semanas mais tarde, estávamos no Cairo. Mas, depois de haver encontrado novamente o colar, eu não me sentia muito seguro de ter feito bem em regressar ao Egito. 0 passado voltava ao assalto, como que em ondas constantes que ameaçassem tragar-me. Antes de partir do Cairo para o Vale de Tebas, Laura quis visitar o museu arqueológico. Assim, contra minha vontade, quase atraído por uma força misteriosa e fatal, encontrei-me em frente da arca de cristal de Amun-Eti. Aproximei-me, sem sentir, como num estado de hipnose e, em dado momento, experimentei uma sensação vertiginosa de extravio. Amun-Eti estava diante de mim, no esplendor policromo do sarcófago, remota, arcana, maravilhosamente bela. Henet fitava-me, através dos olhos de pedra da princesa. Senti-me envolto numa nuvem pesada, que me sufocava. Nela, somente os olhos eram vivos, aqueles olhos escuros e misteriosos, que eu tanto tinha amado.
– Harry… Meryt. . – Eu voltarei a você. Encontrar-nos-emos ainda! tinha dito Henet. -Agarrei-me à balaustrada e senti um arranco dentro de mim. Henet, meu grande amor, não voltaria nunca mais. No passado, no presente, no futuro, em nenhum lugar do universo, jamais poderia encontrá-la novamente.
A voz de Laura chamou-me à realidade.
– É maravilhosamente belo! Tem qualquer coisa de moderno e fascinante… Mas, Harry! Sente-se mal!
exclamou logo, notando minha perturbação.
– Não é nada. Apenas um breve delíquio… Vamo-nos embora daqui.
Iniciamos imediatamente os trabalhos no Vale. Tornou-se evidente, desde logo, que a nossa Missão seria mais afortunada, com a descoberta de documentos de importância.
Fiquei assim absorvido pelas minhas pesquisas e tive pouco tempo para ocupar-me de Laura – Eu percebia que ela era estranha e longínqua àquele mundo, mas não se mostrava, embora fosse certo, menos entusiasta do que quando havíamos partido. Arrependi-me de deixá-la demasiado tempo sozinha e, um dia, quis levá-la a Keneh, o mais próximo centro habitado, na margem do Nilo. Atravessávamos a ponte de Lameth: era a primeira vez que por ali passava, após tantos anos. Ao centro da ponte, o carro parou, sem razão aparente, e eu desci, resmungando, para dar um golpe de vista ao motor. Estava inclinado sobre a caixa, quando ouvi um grito: “Harry”. Era Laura. Desceu do automóvel e correu aos meus braços. Estava mortalmente pálida.
0 corpo inteiro tremia-lhe, Procurei acalmá-los, sem ela recobrou-se, a pouco e pouco, mas não consegui compreender o que a tinha perturbado tão violentamente.
Experimentei de súbito uma sensação de angústia, o pressentimento ou a percepção de uma coisa atroz. Aflorou-me ao rosto qualquer coisa fria, como a asa da morte.
Escutei, inquieto, o que ela dizia; depois, pus o carro em movimento. Ela agarrou-se a meu braço, tremendo.
– Não! Pára!
Parei.
Então, que há?
Peço-lhe, voltemos para trás. Quero voltar para trás. Para trás!
Sua ansiedade era febril.
– Desculpe, querido! Não sei que tenho! Voltemos
Embora, no dia seguinte, Laura tivesse aparentemente quase esquecido aquele estranho episódio, cuja culpa atribuía aos seus nervos, não tornou a ser a mesma. As vezes, parecia absorta, como que escutando alguma misteriosa mensagem a seu ouvido. Outras vezes, a sua linguagem tinha lapsos bizarros, que eu não sabia explicar: no meio de uma conversa, escapavam-lhe algumas palavras que Lauta não podia ter pensado; como se, por um instante fugaz, houvesse deixado de ser a mesma. Assaltou-me uma sensação de pânico. Que é que acontecia? . Estava quase decidido a perder tudo e voltar para a Inglaterra. Mas, como justificar tal decisão a mim mesmo? Sentia-me inquieto, sem saber por quê. Uma noite, acordei tom a impressão de que Laura houvesse murmurado alguma coisa, no sono. Acendi o candeeiro de petróleo e inclinei-me sobre ela, tocando-lhe, quase, a boca com a minha. Percebi efetivamente um murmúrio indistinto, em que me pareceu perceber uma palavra. Uma sensação de gelo apoderou-se de mim e senti os cabelos eriçarem-se-me na cabeça. “Meryt… Meryt, murmurava Laura! Eu devia ter-me enganado. Não era uma alucinação, pois Laura, em estado de vigília, não conhecia uma única palavra de egípcio antigo ou moderno. Invadiu-me um terror obscuro e incoercivel, que me regelou. Naquele momento, Laura acordou, em sobressalto. Olhou para mim, com um olhar espantado, e pareceu não me reconhecer. Depois, um relâmpago de compreensão acendeu-se nas suas pupilas, abandonou-se nos meus ombros e desatou a chorar, sacudida de soluços histéricos. Sonhara, mas não conseguia recordar-se de nada, a não ser da sensação de terror que a dominava.
No dia seguinte, Laura voltou, sozinha, à ponte de Lameth. Fui à sua procura, pois não a enc6ntrara em nossa barraca. Levava-me uma vaga intuição.
Ela estava absorta na contemplação do abismo dos rochedos, as mãos contraídas no parapeito, arquejante. Tive que chamar por ela várias vezes, antes que desse assustado. Um pensamento horrível, uma daquelas idéias horripilantes, que não ouso confessar, com receio de passar por doido varrido, começava a aflorar-me no espírito.
– Por que é que veio aqui, Laura? – perguntei.
Hesitou um pouco, antes de responder, depois disse: Para verificar o que foi que me espantou, outro dia. Por mim… Eu começava a ficar
Que é que foi? – insisti, ansioso.
– Não sei. Há qualquer coisa, nesta ponte. . . qualquer coisa à espera… de mim.
– Não compreendo. Agora, voltemos. Quer?
Ela segurou-se a meu braço e olhou para mim, no fundo dos olhos.
– Harry. . . tenho medo de enlouquecer – disse, em voz baixa e incolor, que me fez estremecer. – As vezes, penso que não sou eu, parece-me conhecer coisas que ignoro… Mas não sou capaz de analisar aquilo que sinto. É como se uma força estranha tentasse arrebatar-me a mim mesma… Olhe, jamais poderei explicar! …
No dia seguinte, escrevi à diretoria do British Museum, pedindo minha substituição. Mas, a catástrofe ocorreu justamente naquele dia, mesmo antes que eu pudesse supor. . .
Era noite alta, e eu estava trabalhando, a catalogar as peças arqueológicas que havíamos encontrado. Em dado momento, ouvi um cicio, como de alguém que viesse de fora. Fiquei a escutar. Tudo estava em silencio. Só de um ponto muito afastado chegava o uivo de um animal noturno. Um grito monótono, incessante, perseguidor, como que o chamado implacável de uma obsessão. Não fiquei tranquilo, e fui ver o que Laura estivesse fazendo. Mas, não a encontrei em nossa barraca!
Procurei por todo o campo, numa inquietação crescente e esmagadora. Não estava…
Recordei-me novamente da ponte de Lameth e um presságio de desgraça atravessou-me a alma, como um relâmpago ofuscante. Resolvi logo tudo, com uma pressa febril. Chamei um chofer do pessoal egípcio. Pusemos um jeep em movimento e corremos, na noite escura. Quem sabe se conseguiria alcançá-la antes que…
Sim, ela estava sobre a ponte. A luz deslumbrante dos faróis destacou-a nitidamente e eu soltei um brado, que se juntou ao seu grito mortal. Pois Laura galgara o parapeito da ponte e precipitara-se no vácuo.
0 jeep, que eu mandara voltar ao campo, regressou com socorros de urgência, passada meia hora. Em lentos passos, Laura foi transportada até à barraca: um silencioso cortejo de lúgubres sombras, no deserto iluminado fantasticamente pelas tochas elétricas. 0 doutor Carson, médico da Missão, excedeu-se imediatamente em cuidados. Laura havia perdido os sentidos. Tinha o rosto ensangüentado, a respiração apressada e curta. 0 médico abanou a cabeça: * seu vulto, à luz dos candeeiros de querosene, parecia extremamente pálido, espectral.
– É grave? – perguntei, em voz baixa.
Ele fez que sim, e compreendi que Laura estava perdida.
– Fratura da base do crânio – murmurou. Deixei-me cair num escabelo. 0 médico estava fazendo tudo quanto estava em seu poder e eu fitava-o, espantado, sem seguir-lhe os movimentos, atormentado pela interrogação: Por que teria ela feito isso? Qual foi a força que a impelira a precipitar-se no abismo?
Via-me na impossibilidade de compreender, com a inteligência e com os sentidos, aquilo que acontecera, ligado ao terror supersticioso das coisas desconhecidas e incognoscíveis… Como se algo a houvesse atraído, como se um destino tremendo tivesse de cumprir-se.
já a palidez da morte começava a espalhar-se pelo seu semblante. Tudo era silente no campo, como se tudo houvesse parado, à espera que a tragédia se cumprisse. Eu estava só com ela e via que a vida lhe fugia, através da respiração ansiosa, enquanto, entre nós, se erguia um muro invisível, que já nos separava: por tras desse muro, tra- vava-se a última luta entre a vida e a morte. Em certo momento, o rosto exangue de Laura coloriu-se levemente de encarnado. Vi-a agitar-se, como num supremo es- forço. Depois, dir-se-ia que as forças da destruição tives- sem levado a melhor. . . Mas não estava tudo acabado, ainda: uma alma queria viver num corpo que estava con- denado a morrer. Certamente, perdi então o controle da minha faculdade de inibição, pois a cena que se seguiu, na sua alucinante irrealidade, não podia ser verdadeira, não podia ser senão o fruto de uma fantástica obsessão. . . Foi seguramente uma alucinação… Laura mexeu-se, e eu ajoe]hei-me a seu lado, beijando-lhe as mãos. Ela abriu os olhos.
– Minha Laura – disse, soluçando. Então estre- meci e senti-me viver num incubo. Qualquer coisa se regelou dentro de mim, ao contemplar aqueles olhos. Porque eu conhecia aquele olhar, conhecia aquela expressão enigmática. E aquele não era o olhar de Laura! “Shewa-n em debat… Nefra-n entot hena-Y” ouvi que ela sussurrava.
Experimentei, então, uma sensação indefinível, semelhante àquela que teria sofrido com o desabar fulminante do mundo que me circundava. Aqueles dizeres eram egípcio antigo, língua inteiramente desconhecida de Laura. Os lábios da moribunda haviam dito: “Seremos felizes, com você junto de mim”.
– Henet, Henet! – gritei, num paroxismo de terror e de exaltação, impossível de exprimir. Mas, subitamente, a respiração arquejante cessou e foi como se em todo o universo, naquele momento em completo silencio, tudo ficasse imóvel ao redor do grande mistério.