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Uma questão de gosto

Não são raras as vezes que lendo alguma coisa pela internet, ou simplesmente vendo TV me surpreendo com alguma declaração absurda, ofensiva ou simplesmente idiota. Não é um privilégio só meu pelo que sei. O que já é algum consolo.

Mas imagine o que você faria se pudesse proibir tudo que não lhe agrada. Tudo o que você acha imoral, nocivo e mal intencionado. O mundo poderia se tornar um lugar melhor. Ou não, parafraseando o já tão parafraseado Caetano.

A escola de samba carioca Viradouro, talvez concorde comigo. Como se sabe, finalmente se deu o desfeche do impasse sobre a legalidade do carro alegórico número cinco da escola, que retrataria o holocausto através da imagem de um Adolf Hitler arrependido sobre uma pilha de cadáveres. O carro foi finalmente proibido de sair na avenida após uma liminar concedida à Federação Israelita Fluminense (FIERJ), que declarou considerar a iniciativa inadequada sob a alegação de ser impossível retratar o terror do holocausto através de um carro alegórico. Como afirmou o próprio presidente da FIERJ, Sérgio Niskier: “não seria percebido pela população da forma que o Holocausto precisa ser”.

Mas desta proibição vem a pergunta: Quem define a maneira que algum fato histórico deve ser retratado? Nada contra a versão da FIERJ, que pelo o que me consta tem preocupações e opiniões coerentes com os fatos históricos. Mas tentando racionalizar a questão, mesmo que o carro da Viradouro seja de mal gosto, desde quando o direito de manifestar uma opinião se tornou uma questão de gosto?

Não foi a primeira vez que uma escola de samba teve que modificar um carro alegórico para evitar a ilegalidade. Como alguns devem lembrar não faz tanto tempo que um carro do carnavalesco Joãozinho Trinta representando o Kama Sutra foi proibido por ser considerado excessivamente erótico. Não faltaram razões para a proibição: imoralidade, perversão, a pureza das criancinhas que assistiriam o desfile, e é claro o mal gosto.

Mas o que hoje em dia é mal gosto e o que é ilegal ninguém sabe dizer com certeza. Falar palavrão pode ser mal gosto, mas se você direcionar o xingamento a alguma etnia ou grupo religioso em particular é contra a lei. E me adianto a agradecer que seja assim.

Mas como nem sempre esses limites são tão claros de se identificar, os limites da legalidade e do bom gosto continuam se chocando com certa frequência.

Humor negro é mal gosto? Dependendo do ponto de vista pode ser, mas certamente não é contra a lei. Assim como não considero que seja tentar retratar a morte de cerca de 6 milhões de pessoas ao ritmo de tamborim e cuíca. Talvez essa não seja a coisa mais sensível do mundo de se fazer, talvez nem mesmo seja entretenimento de qualidade.

Mas se fosse considerado ilegal qualquer forma de entretenimento de qualidade duvidosa, sobrariam espaços vazios na programação da nossa gloriosa e amada TV aberta. Eu particularmente, preferiria assistir uns 15 carros da Viradouro desfilando em seguida a ser forçado a assistir o novo BBB ou alguma novela global. Mas esta é só a minha opinião, não quer dizer que seja isso que a maioria prefira. Assim como não quer dizer que eu esteja certo ou errado em relação as minhas preferências televisivas.

A dúvida fundamental nesse caso e em outros do tipo talvez devesse ser o quanto da nossa própria capacidade de julgamento do que é moral ou não podemos ser capazes de sacrificar em troca da comodidade de permitir que alguém tome decisões em nosso lugar por uma simples liminar.

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