A Cigarra e a Formiga (W. Somerset Maugham)

fevereiro 10, 2012 1 comentário
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A Cigarra e a Formiga de La Fontaine (Gustave Doré)
Quando eu era ainda muito pequeno, obrigaram-me a decorar algumas das fábulas de La Fontaine, e explicaram-me cuidadosamente a moral de cada uma. Entre elas, aprendi a da cigarra e da formiga, que pretende incutir nos jovens a útil lição de que num mundo imperfeito o trabalho é recompensado e a leviandade castigada. Nesta fábula admirável (peço desculpa por ir contar qualquer coisa que, por delicadeza, mas erradamente, se supõe que toda a gente sabe) a formiga passa o verão a trabalhar afanosamente para guarnecer a despensa, enquanto a cigarra se senta na relva a cantar ao sol.

O inverno chega, e a formiga está confortavelmente fornecida, mas a cigarra tem a despensa vazia: dirige-se à formiga e pede-lhe alguma comida. Então, a formiga dá-lhe a resposta clássica:

“O que é que andaste a fazer durante o verão?”
“Com o devido respeito, cantei, cantei dia e noite.”
“Ai cantaste? Então agora, dança.”Não atribuo o fato a perversidade da minha parte, mas antes à inconsequência da infância, a que falta sentido moral, mas realmente nunca aceitei bem esta lição. As minhas simpatias iam para a cigarra, e durante algum tempo nunca via uma formiga que não lhe pusesse um pé em cima. Desta maneira sumária (e, como tenho vindo a descobrir desde então, inteiramente humana) procurava exprimir o meu repúdio da sisudez e do senso-comum.
Não pude deixar de pensar nesta fábula quando outro dia encontrei George Ramsay a almoçar sozinho num restaurante. Nunca vi ninguém com uma expressão tão profundamente sombria. Olhava fixamente o espaço. Dava a impressão de que carregava o mundo inteiro sobre os ombros. Tive pena dele: desconfiei logo de que o infeliz irmão lhe tinha dado problemas outra vez. Dirigi-me a ele e estendi-lhe a mão.
“Como estás?” perguntei.
“Não estou muito bem disposto,” respondeu ele.
“Foi o Tom outra vez?”
Ele suspirou.
“Foi. Foi o Tom outra vez.”
“Por que é que não te vês livre dele? Já fizeste por ele tudo o que podias. Já devias saber que é um caso perdido.”
Parece-me que em todas as famílias há uma ovelha ranhosa. Tom fora uma dura provação para a sua, durante vinte anos. Começara a vida bastante bem: meteu-se no negócio, casou, e teve dois filhos. Os Ramsay eram pessoas perfeitamente respeitáveis, e tudo levava a crer que Tom Ramsay iria ter uma carreira útil e meritória. Mas um dia, sem aviso prévio, anunciou que não gostava do trabalho e que não estava talhado para o casamento. Queria gozar a vida. E não quis ouvir mais nada. Deixou a mulher e o escritório. Tinha algum dinheiro e passou dois anos felizes em várias capitais da Europa. Aos ouvidos dos familiares chegavam de vez em quando rumores do que ele andava a fazer, o que os chocava profundamente. Fartou-se de gozar, com certeza. Eles abanavam a cabeça e interrogavam-se sobre o que aconteceria quando se lhe acabasse o dinheiro. Em breve o ficaram a saber: pedia emprestado. Ele era encantador e não tinha escrúpulos. Nunca conheci ninguém a quem fosse tão difícil recusar um empréstimo. Conseguiu, dos amigos, uma receita certa, e ele fazia amigos muito facilmente. Mas sempre dizia que o dinheiro que se gastava para satisfazer as necessidades era enfadonho; o dinheiro que dava gozo gastar era aquele que se despendia em coisas supérfluas que dão prazer. Em relação a este, dependia do irmão George. Mas não desperdiçava com ele os seus encantos. George era um homem sério e insensível a tal tipo de sedução. Era um homem respeitável. Por uma ou duas vezes deixou-se levar pelas promessas de emenda de Tom e deu-lhe quantias consideráveis para que ele pudesse começar tudo de novo. Com esse dinheiro, Tom comprou um carro e algumas jóias lindíssimas. Mas quando as circunstâncias levaram George a aperceber-se de que o irmão nunca assentaria, e a lavar daí as mãos, Tom começou, sem o mínimo receio, a fazer chantagem com ele. Para um advogado tão respeitável, não era muito agradável encontrar o irmão atrás do balcão do bar do seu restaurante favorito a preparar cocktails, ou vê-lo ao volante de um taxi à saída do seu clube. Tom dizia que trabalhar num bar ou conduzir um taxi era um emprego perfeitamente decente, mas se George o obsequiasse com algumas centenas de libras não se importaria, por uma questão de honra da família, de desistir da idéia. E George pagou.
Uma vez aconteceu que Tom quase foi parar na cadeia. George ficou perturbadíssimo. Tomou todo aquele incômodo assunto em suas mãos. Realmente o Tom tinha ido longe demais. Já fora insensato, irrefletido e egoísta, mas até agora não fizera ainda nada de desonesto, isto é, ilegal, no dizer de George; e se fosse acusado seria, com toda a certeza, condenado. Mas não se pode permitir que o nosso único irmão vá para a prisão. O homem que Tom enganou, de nome Cranshaw, era vingativo. Estava decidido a levar a questão ao tribunal; dizia que Tom era um canalha e que devia ser punido. A resolução da questão custou a George quinhentas libras e um enormíssimo monte de trabalho. E nunca o vi tão furioso como quando soube que, mal levantaram o cheque, Tom e Cranshaw partiram juntos para Monte Carlo. Passaram lá um mês delicioso.
Durante vinte anos Tom apostou em corridas e jogou, flertou com as mais bonitas mulheres, dançou, comeu nos restaurantes mais caros e vestiu elegantemente. Tinha sempre o ar aprumado de quem tinha acabado de se arranjar para uma festa. Embora tivesse já quarenta e seis anos, ninguém lhe daria mais de trinta e cinco. Era um companheiro extremamente divertido e, embora sabendo-o um perfeito inútil, ninguém podia deixar de gostar da sua companhia. Era bem humorado, de uma alegria inabalável, e de um encanto incrível. Nunca regateei as contribuições que ele regularmente me pedia para satisfação das suas necessidades básicas. Nunca lhe emprestei cinquenta libras que fossem sem ficar com a sensação de que eu é que lhe ficava a dever. Tom Ramsay conhecia toda a gente, e toda a gente conhecia o Tom Ramsay. Ninguém podia concordar com o seu comportamento, mas também ninguém podia deixar de gostar dele.
O pobre George, um ano apenas mais velho do que o estouvado do irmão, parecia ter já sessenta anos. Durante um quarto de século, nunca tinha tirado mais do que quinze dias de férias por ano. Chegava ao escritório todas as manhãs às nove e meia e nunca saía antes das seis. Era honesto, trabalhador e digno. Tinha uma boa esposa, a quem nunca fora infiel, nem em pensamento, e quatro filhas para quem era o melhor dos pais. Fazia questão de poupar um terço do seu rendimento, e a sua idéia era aposentar-se aos cinqüenta e cinco anos e retirar-se para uma casinha no campo onde tencionava dedicar-se à jardinagem e ao golfe. A sua vida era irrepreensível. Sentia-se contente por estar envelhecendo, porque afinal com o Tom acontecia o mesmo. Esfregava as mãos e dizia:
“Quando Tom era jovem e bem parecido, ainda enfim, mas ele é apenas um ano mais novo do que eu. Daqui a quatro anos ele faz cinqüenta. Nessa altura não vai achar a vida assim tão fácil. Quando eu fizer cinqüenta já terei trinta mil libras. Há vinte e cinco anos que ando a dizer que o Tom vai acabar na sarjeta. E vamos ver como é que ele vai se dar nessa situação. E vamos ver então o que é que compensa mais, se trabalhar ou preguiçar.”
Coitado do George! Ofereci-lhe a minha solidariedade. Agora, ali sentado a seu lado, perguntava-me que coisa terrível não teria feito o Tom. George estava visivelmente muitíssimo perturbado.
“Sabe o que é que aconteceu agora?” perguntou-me.
Eu estava preparado para o pior. Perguntava-me se o Tom não teria finalmente caído nas mãos da polícia. Com alguma dificuldade George decidiu-se a começar:
“Você não pode negar que eu tenho sido trabalhador, honesto, respeitável e reto durante toda a minha vida. Depois de uma vida trabalhando e poupando, posso pensar numa aposentadoria com um pequeno rendimento de títulos de toda a confiança. Sempre cumpri com o meu dever na vida que a Providência me reservou.”
“É verdade.”
“E também não se pode negar que o Tom tem sido um patife preguiçoso, indigno, dissoluto, sem princípios. Se houvesse justiça, ele estaria num reformatório.”
“É verdade.”
George corou.
“Há poucas semanas ficou noivo de uma mulher com idade para ser mãe dele. E agora ela morreu e deixou-lhe tudo o que tinha. Meio milhão de libras, um iate, uma casa em Londres e uma casa no campo.”
George Ramsay deu um murro na mesa.
“Não é justo, digo, não é justo. Que diabo, não é justo.”
Não pude evitá-lo. Desatei à gargalhada quando vi o olhar irado do George, rebolei na cadeira, quase caí ao chão. O George nunca me perdoou. Mas o Tom convida-me muitas vezes para jantares excelentes na sua encantadora casa em Mayfair, e se ocasionalmente me pede um dinheirinho insignificante é apenas a força do hábito. Nunca mais do que uma libra.
* Texto extraído da “Página de Beatrix
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O Tygre (William Blake)

Tyger – William Blake

Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?

Em que céu se foi forjar
o fogo do teu olhar?
Em que asas veio a chamma?
Que mão colheu esta flamma?

Que força fez retorcer
em nervos todo o teu ser?
E o som do teu coração
de aço, que cor, que ação?

Teu cérebro, quem o malha?
Que martelo? Que fornalha
o moldou? Que mão, que garra
seu terror mortal amarra?

Quando as lanças das estrelas
cortaram os céus, ao vê-las,
quem as fez sorriu talvez?
Quem fez a ovelha te fez?

Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?

* Tradução: Augusto de Campos

Guts (Chuck Palahniuk)

Chuck Palahniuk

Inspire.

Inspire o máximo de ar que conseguir. Essa estória deve durar aproximadamente o tempo que você consegue segurar sua respiração, e um pouco mais. Então escute o mais rápido que puder.

Um amigo meu aos 13 anos ouviu falar sobre “fio-terra”. Isso é quando alguém enfia um consolo na bunda. Estimule a próstata o suficiente, e os rumores dizem que você pode ter orgasmos explosivos sem usar as mãos. Nessa idade, esse amigo é um pequeno maníaco sexual. Ele está sempre buscando uma melhor forma de gozar. Ele sai para comprar uma cenoura e lubrificante. Para conduzir uma pesquisa particular. Ele então imagina como seria a cena no caixa do supermercado, a solitária cenoura e o lubrificante percorrendo pela esteira o caminho até o atendente no caixa. Todos os clientes esperando na fila, observando. Todos vendo a grande noite que ele preparou.

Então, esse amigo compra leite, ovos, açúcar e uma cenoura, todos os ingredientes para um bolo de cenoura. E vaselina.

Como se ele fosse para casa enfiar um bolo de cenoura no rabo.

Em casa, ele corta a ponta da cenoura com um alicate. Ele a lubrifica e desce seu traseiro por ela. Então, nada. Nenhum orgasmo. Nada acontece, exceto pela dor.

Então, esse garoto, a mãe dele grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para descer, naquele momento.

Ele remove a cenoura e coloca a coisa pegajosa e imunda no meio das roupas sujas debaixo da cama.

Depois do jantar, ele procura pela cenoura, e não está mais lá. Todas as suas roupas sujas, enquanto ele jantava, foram recolhidas por sua mãe para lavá-las. Não havia como ela não encontrar a cenoura, cuidadosamente esculpida com uma faca da cozinha, ainda lustrosa de lubrificante e fedorenta.

Esse amigo meu, ele espera por meses na surdina, esperando que seus pais o confrontem. E eles nunca fazem isso. Nunca. Mesmo agora que ele cresceu, aquela cenoura invisível aparece em toda ceia de Natal, em toda festa de aniversário. Em toda caça de ovos de páscoa com seus filhos, os netos de seus pais, aquela cenoura fantasma paira por sobre todos eles. Isso é algo vergonhoso demais para dar um nome.

As pessoas na França possuem uma expressão: “sagacidade de escadas.” Em francês:esprit de l’escalier. Representa aquele momento em que você encontra a resposta, mas é tarde demais. Digamos que você está numa festa e alguém o insulta. Você precisa dizer algo. Então sob pressão, com todos olhando, você diz algo estúpido. Mas no momento em que sai da festa….

Enquanto você desce as escadas, então – mágica. Você pensa na coisa mais perfeita que poderia ter dito. A réplica mais avassaladora.

Esse é o espírito da escada.

O problema é que até mesmo os franceses não possuem uma expressão para as coisas estúpidas que você diz sob pressão. Essas coisas estúpidas e desesperadas que você pensa ou faz.

Alguns atos são baixos demais para receberem um nome. Baixos demais para serem discutidos.

Agora que me recordo, os especialistas em psicologia dos jovens, os conselheiros escolares, dizem que a maioria dos casos de suicídio adolescente eram garotos se estrangulando enquanto se masturbavam. Seus pais o encontravam, uma toalha enrolada em volta do pescoço, a toalha amarrada no suporte de cabides do armário, o garoto morto. Esperma por toda a parte. É claro que os pais limpavam tudo. Colocavam calças no garoto. Faziam parecer… melhor. Ao menos, intencional. Um caso comum de triste suicídio adolescente.

Outro amigo meu, um garoto da escola, seu irmão mais velho na Marinha dizia como os caras do Oriente Médio se masturbavam de forma diferente do que fazemos por aqui. Esse irmão tinha desembarcado num desses países cheios de camelos, na qual o mercado público vendia o que pareciam abridores de carta chiques. Cada uma dessas coisas é apenas um fino cabo de latão ou prata polida, do comprimento aproximado de sua mão, com uma grande ponta numa das extremidades, ou uma esfera de metal ou uma dessas empunhaduras como as de espadas. Esse irmão da Marinha dizia que os árabes ficavam de pau duro e inseriam esse cabo de metal dentro e por toda a extremidade de seus paus. Eles então batiam punheta com o cabo dentro, e isso os faziam gozar melhor. De forma mais intensa.

Esse irmão mais velho viajava pelo mundo, mandando frases em francês. Frases em russo. Dicas de punhetagem.

Depois disso, o irmão mais novo, um dia ele não aparece na escola. Naquela noite, ele liga pedindo para eu pegar seus deveres de casa pelas próximas semanas. Porque ele está no hospital.

Ele tem que compartilhar um quarto com velhos que estiveram operando as entranhas. Ele diz que todos compartilham a mesma televisão. Que a única coisa para dar privacidade é uma cortina. Seus pais não o vem visitar. No telefone, ele diz como os pais dele queriam matar o irmão mais velho da Marinha.

Pelo telefone, o garoto diz que, no dia anterior, ele estava meio chapado. Em casa, no seu quarto, ele deitou-se na cama. Ele estava acendendo uma vela e folheando algumas revistas pornográficas antigas, preparando-se para bater uma. Isso foi depois que ele recebeu as notícias de seu irmão marinheiro. Aquela dica de como os árabes se masturbam. O garoto olha ao redor procurando por algo que possa servir. Uma caneta é grande demais. Um lápis, grande demais e áspero. Mas escorrendo pelo canto da vela havia um fino filete de vela derretida que poderia servir. Com as pontas dos dedos, o garoto descola o filete da vela. Ele o enrola na palma de suas mãos. Longo, e liso, e fino.

Chapado e com tesão, ele enfia lá dentro, mais e mais fundo por dentro do canal urinário de seu pau. Com uma boa parte da cera ainda para fora, ele começa o trabalho.

Até mesmo nesse momento ele reconhece que esses árabes eram caras muito espertos. Eles reinventaram totalmente a punheta. Deitado totalmente na cama, as coisas estão ficando tão boas que o garoto nem observa a filete de cera. Ele está quase gozando quando percebe que a cera não está mais lá.

O fino filete de cera entrou. Bem lá no fundo. Tão fundo que ele nem consegue sentir a cera dentro de seu pau.

Das escadas, sua mãe grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para ele descer naquele momento. O garoto da cenoura e o garoto da cera eram pessoas diferentes, mas viviam basicamente a mesma vida.

Depois do jantar, as entranhas do garoto começam a doer. É cera, então ele imagina que ela vá derreter dentro dele e ele poderá mijar para fora. Agora suas costas doem. Seus rins. Ele não consegue ficar ereto corretamente.

O garoto falando pelo telefone do seu quarto de hospital, no fundo pode-se ouvir campainhas, pessoas gritando. Game shows.

Os raios-X mostram a verdade, algo longo e fino, dobrado dentro de sua bexiga. Esse longo e fino V dentro dele está coletando todos os minerais no seu mijo. Está ficando maior e mais expesso, coletando cristais de cálcio, está batendo lá dentro, rasgando a frágil parede interna de sua bexiga, bloqueando a urina. Seus rins estão cheios. O pouco que sai de seu pau é vermelho de sangue.

O garoto e seus pais, a família inteira, olhando aquela chapa de raio-X com o médico e as enfermeiras ali, um grande V de cera brilhando na chapa para todos verem, ele deve falar a verdade. Sobre o jeito que os árabes se masturbam. Sobre o que o seu irmãos mais velho da Marinha escreveu.

No telefone, nesse momento, ele começa a chorar.

Eles pagam pela operação na bexiga com o dinheiro da poupança para sua faculdade. Um erro estúpido, e agora ele nunca mais será um advogado.

Enfiando coisas dentro de você. Enfiando-se dentro de coisas. Uma vela no seu pau ou seu pescoço num nó, sabíamos que não poderia acabar em problemas.

O que me fez ter problemas, eu chamava de Pesca Submarina. Isso era bater punheta embaixo d’água, sentando no fundo da piscina dos meus pais. Pegando fôlego, eu afundava até o fundo da piscina e tirava meu calção. Eu sentava no fundo por dois, três, quatro minutos.

Só de bater punheta eu tinha conseguido uma enorme capacidade pulmonar. Se eu tivesse a casa só para mim, eu faria isso a tarde toda. Depois que eu gozava, meu esperma ficava boiando em grandes e gordas gotas.

Depois disso eram mais alguns mergulhos, para apanhar todas. Para pegar todas e colocá-las em uma toalha. Por isso chamava de Pesca Submarina. Mesmo com o cloro, havia a minha irmã para se preocupar. Ou, Cristo, minha mãe.

Esse era meu maior medo: minha irmã adolescente e virgem, pensando que estava ficando gorda e dando a luz a um bebê retardado de duas cabeças. As duas parecendo-se comigo. Eu, o pai e o tio. No fim, são as coisas nais quais você não se preocupa que te pegam.

A melhor parte da Pesca Submarina era o duto da bomba do filtro. A melhor parte era ficar pelado e sentar nela.

Como os franceses dizem, Quem não gosta de ter seu cú chupado? Mesmo assim, num minuto você é só um garoto batendo uma, e no outro nunca mais será um advogado.

Num minuto eu estou no fundo da piscina e o céu é um azul claro e ondulado, aparecendo através de dois metros e meio de água sobre minha cabeça. Silêncio total exceto pelas batidas do coração que escuto em meu ouvido. Meu calção amarelo-listrado preso em volta do meu pescoço por segurança, só em caso de algum amigo, um vizinho, alguém que apareça e pergunte porque faltei aos treinos de futebol. O constante chupar da saída de água me envolve enquanto delicio minha bunda magra e branquela naquela sensação.

Num momento eu tenho ar o suficiente e meu pau está na minha mão. Meus pais estão no trabalho e minha irmão no balé. Ninguém estará em casa por horas.

Minhas mãos começam a punhetar, e eu paro. Eu subo para pegar mais ar. Afundo e sento no fundo.

Faço isso de novo, e de novo.

Deve ser por isso que garotas querem sentar na sua cara. A sucção é como dar uma cagada que nunca acaba. Meu pau duro e meu cú sendo chupado, eu não preciso de mais ar. O bater do meu coração nos ouvidos, eu fico no fundo até as brilhantes estrelas de luz começarem a surgir nos meus olhos. Minhas pernas esticadas, a batata das pernas esfregando-se contra o fundo. Meus dedos do pé ficando azul, meus dedos ficando enrugados por estar tanto tempo na água.

E então acontece. As gotas gordas de gozo aparecem. É nesse momento que preciso de mais ar. Mas quando tento sair do fundo, não consigo. Não consigo colocar meus pés abaixo de mim. Minha bunda está presa.

Médicos de plantão de emergência podem confirmar que todo ano cerca de 150 pessoas ficam presas dessa forma, sugadas pelo duto do filtro de piscina. Fique com o cabelo preso, ou o traseiro, e você vai se afogar. Todo o ano, muita gente fica. A maioria na Flórida.

As pessoas simplesmente não falam sobre isso. Nem mesmo os franceses falam sobre tudo. Colocando um joelho no fundo, colocando um pé abaixo de mim, eu empurro contra o fundo. Estou saindo, não mais sentado no fundo da piscina, mas não estou chegando para fora da água também.

Ainda nadando, mexendo meus dois braços, eu devo estar na metade do caminho para a superfície mas não estou indo mais longe que isso. O bater do meu coração no meu ouvido fica mais alto e mais forte.

As brilhantes fagulhas de luz passam pelos meus olhos, e eu olho para trás… mas não faz sentido. Uma corda espessa, algum tipo de cobra, branco-azulada e cheia de veias, saiu do duto da piscina e está segurando minha bunda. Algumas das veias estão sangrando, sangue vermelho que aparenta ser preto debaixo da água, que sai por pequenos cortes na pálida pele da cobra. O sangue começa a sumir na água, e dentro da pele fina e branco-azulada da cobra é possível ver pedaços de alguma refeição semi-digerida.

Só há uma explicação. Algum horrível monstro marinho, uma serpente do mar, algo que nunca viu a luz do dia, estava se escondendo no fundo escuro do duto da piscina, só esperando para me comer.

Então… eu chuto a coisa, chuto a pele enrugada e escorregadia cheia de veias, e parece que mais está saindo do duto. Deve ser do tamanho da minha perna nesse momento, mas ainda segurando firme no meu cú. Com outro chute, estou a centímetros de conseguir respirar. Ainda sentido a cobra presa no meu traseiro, estou bem próximo de escapar.

Dentro da cobra, é possível ver milho e amendoins. E dá pra ver uma brilhante esfera laranja. É um daqueles tipos de vitamina que meu pai me força a tomar, para poder ganhar massa. Para conseguir a bolsa como jogador de futebol. Com ferro e ácidos graxos Ômega 3.

Ver essa pílula foi o que me salvou a vida.

Não é uma cobra. É meu intestino grosso e meu cólon sendo puxados para fora de mim. O que os médicos chamam de prolapso de reto. São minhas entranhas sendo sugadas pelo duto.

Os médicos de plantão de emergência podem confirmar que uma bomba de piscina pode puxar 300 litros de água por minuto. Isso corresponde a 180 quilos de pressão. O grande problema é que somos todos interconectados por dentro. Seu traseiro é apenas o término da sua boca. Se eu deixasse, a bomba continuaria a puxar minhas entranhas até que chegasse na minha língua. Imagine dar uma cagada de 180 quilos e você vai perceber como isso pode acontecer.

O que eu posso dizer é que suas entranhas não sentem tanta dor. Não da forma que sua pele sente dor. As coisas que você digere, os médicos chamam de matéria fecal. No meio disso tudo está o suco gástrico, com pedaços de milho, amendoins e ervilhas.

Essa sopa de sangue, milho, merda, esperma e amendoim flutua ao meu redor. Mesmo com minhas entranhas saindo pelo meu traseiro, eu tentando segurar o que restou, mesmo assim, minha vontade é de colocar meu calção de alguma forma.

Deus proíba que meus pais vejam meu pau.

Com uma mão seguro a saída do meu rabo, com a outra mão puxo o calção amarelo-listrado do meu pescoço. Mesmo assim, é impossível puxar de volta.

Se você quer sentir como seria tocar seus intestinos, compre um camisinha feita com intestino de carneiro. Pegue uma e desenrole. Encha de manteiga de amendoim. Lubrifique e coloque debaixo d’água. Então tente rasgá-la. Tente partir em duas. É firme e ao mesmo tempo macia. É tão escorregadia que não dá para segurar.

Uma camisinha dessas é feita do bom e velho intestino.

Você então vê contra o que eu lutava.

Se eu largo, sai tudo.

Se eu nado para a superfície, sai tudo.

Se eu não nadar, me afogo.

É escolher entre morrer agora, e morrer em um minuto.

O que meus pais vão encontrar depois do trabalho é um feto grande e pelado, todo curvado. Mergulhado na árgua turva da piscina de casa. Preso ao fundo por uma larga corda de veias e entranhas retorcidas. O oposto do garoto que se estrangula enquanto bate uma. Esse é o bebê que trouxeram para casa do hospital há 13 anos. Esse é o garoto que esperavam conseguir uma bolsa de jogador de futebol e eventualmente um mestrado. Que cuidaria deles quando estivessem velhinhos. Seus sonhos e esperanças. Flutuando aqui, pelado e morto. Em volta dele, gotas gordas de esperma.

Ou isso, ou meus pais me encontrariam enrolado numa toalha encharcada de sangue, morto entre a piscina e o telefone da cozinha, os restos destroçados das minhas entranhas para fora do meu calção amarelo-listrado.

Algo sobre o qual nem os franceses falam.

Aquele irmão mais velho na Marinha, ele ensinou uma outra expressão bacana. Uma expressão russa. Do jeito que nós falamos “Preciso disso como preciso de um buraco na cabeça…,” os russos dizem, “Preciso disso como preciso de dentes no meu cú……

Mne eto nado kak zuby v zadnitse.

Essas histórias de como animais presos em armadilhas roem a própria perna fora, bem, qualquer coiote poderá te confirmar que algumas mordidas são melhores que morrer.

Droga… mesmo se você for russo, um dia vai querer esses dentes.

Senão, o que você pode fazer é se curvar todo. Você coloca um cotovelo por baixo do joelho e puxa essa perna para o seu rosto. Você morde e rói seu próprio cú. Se você ficar sem ar você consegue roer qualquer coisa para poder respirar de novo.

Não é algo que seja bom contar a uma garota no primeiro encontro. Não se você espera por um beijinho de despedida. Se eu contasse como é o gosto, vocês não comeriam mais frutos do mar.

É difícil dizer o que enojaria mais meus pais: como entrei nessa situação, ou como me salvei. Depois do hospital, minha mãe dizia, “Você não sabia o que estava fazendo, querido. Você estava em choque.” E ela teve que aprender a cozinhar ovos pochê.

Todas aquelas pessoas enojadas ou sentindo pena de mim….

Precisava disso como precisaria de dentes no cú.

Hoje em dia, as pessoas sempre me dizem que eu sou magrinho demais. As pessoas em jantares ficam quietas ou bravas quando não como o cozido que fizeram. Cozidos podem me matar. Presuntadas. Qualquer coisa que fique mais que algumas horas dentro de mim, sai ainda como comida. Feijões caseiros ou atum, eu levanto e encontro aquilo intacto na privada.

Depois que você passa por uma lavagem estomacal super-radical como essa, você não digere carne tão bem. A maioria das pessoas tem um metro e meio de intestino grosso. Eu tenho sorte de ainda ter meus quinze centímetros. Então nunca consegui minha bolsa de jogador de futebol. Nunca consegui meu mestrado. Meus dois amigos, o da cera e o da cenoura, eles cresceram, ficaram grandes, mas eu nunca pesei mais do que pesava aos 13 anos.

Outro problema foi que meus pais pagaram muita grana naquela piscina. No fim meu pai teve que falar para o cara da limpeza da piscina que era um cachorro. O cachorro da família caiu e se afogou. O corpo sugado pelo duto. Mesmo depois que o cara da limpeza abriu o filtro e removeu um tubo pegajoso, um pedaço molhado de intestino com uma grande vitamina laranja dentro, mesmo assim meu pai dizia, “Aquela porra daquele cachorro era maluco.”

Mesmo do meu quarto no segundo andar, podia ouvir meu pai falar, “Não dava para deixar aquele cachorro sozinho por um segundo….”

E então a menstruação da minha irmã atrasou.

Mesmo depois que trocaram a água da piscina, depois que vendemos a casa e mudamos para outro estado, depois do aborto da minha irmã, mesmo depois de tudo isso meus pais nunca mencionaram mais isso novamente.

Nunca.

Essa é a nossa cenoura invisível.

Você. Agora você pode respirar.

Eu ainda não.

* Retirado do blog Lendas Urbanas

A Rua (João do Rio)


Rua do Ouvidor — 1890

Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado épartilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia,mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma,tudo varia — o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste efica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.

A rua! Que é a rua? Um cançonetista de Montmartre fá-la dizer:
Je suís la rue, femme êternellement verte,
Je n’ai jamais trouvé d’autre carrière ouverte
Sinon d’être la rue, et, de tout temps, depuis
Que ce pénible monde est monde, je la suis…

A verdade e o trocadilho! Os dicionários dizem: “Rua, do latim ruga, sulco. Espaço entre as casas e as povoações por onde se anda e passeia”. E Domingos Vieira, citando asOrdenações: “Estradas e rua pruvicas antiguamente usadas e os rios navegantes se som cabedaes que correm continuamente e de todo o tempo pero que o uso assy das estradas e ruas pruvicas”.A obscuridade da gramática e da lei! Os dicionários só são considerados fontes fáceis de completo saber pelos que nunca os folhearam. Abri o primeiro, abri o segundo, abri dez, vinteenciclopédias, manuseei in-folios especiais de curiosidade. A rua era para eles apenas um alinhado de fachadas por onde se anda nas povoações. Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! Em Benares ou em Amsterdão, em Londres ou Buenos Aires, sob os céus mais diversos, nos maisvariados climas, a rua é a agasalhadora da miséria. Os desgraçados não se sentem de todo sem o auxílio dos deuses enquanto diante dos seus olhos uma rua abre para outra rua. A rua é o aplausodos medíocres, dos infelizes, dos miseráveis da arte. Não paga ao Tamagno para ouvir berros atenorados de leão avaro, nem à velha Patti para admitir um fio de voz velho, fraco e legendário.Bate, em compensação, palmas aos saltimbancos que, sem voz, rouquejam com fome para alegrá-la e para comer. A rua é generosa. O crime, o delírio, a miséria não os denuncia ela. A ruaé a transformadora das línguas. Os Cândido de Figueiredo do universo estafam-se em juntar regrinhas para enclausurar expressões; os prosadores bradam contra os Cândido. A rua continua,matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons futuros. A ruaresume para o animal civilizado todo o conforto humano. Dá-lhe luz, luxo, bem-estar, comodidade e até impressões selvagens no adejar das árvores e no trinar dos pássaros.

A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis deter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopéia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essamiséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas. A rua criou todas as blagues todos os lugares-comuns. Foi ela que fez a majestade dosrifões, dos brocardos, dos anexins, e foi também ela que batizou o imortal Calino. Sem o consentimento da rua não passam os sábios, e os charlatães, que a lisonjeiam lhe resumem abanalidade, são da primeira ocasião desfeitos e soprados como bolas de sabão. A rua é a eterna imagem da ingenuidade. Comete crimes, desvaria à noite, treme com a febre dos delírios, paraela como para as crianças a aurora é sempre formosa, para ela não há o despertar triste, quando o sol desponta e ela abre os olhos esquecida das próprias ações, é, no encanto da vida renovada, nochilrear do passaredo, no embalo nostálgico dos pregões — tão modesta, tão lavada, tão risonha, que parece papaguear com o céu e com os anjos…

A rua faz as celebridades e as revoltas, a rua criou um tipo universal, tipo que vive em cada aspecto urbano, em cada detalhe, em cada praça, tipo diabólico que tem dos gnomos e dossilfos das florestas, tipo proteiforme, feito de risos e de lágrimas, de patifarias e de crimes irresponsáveis, de abandono e de inédita filosofia, tipo esquisito e ambíguo com saltos de felinoe risos de navalha, o prodígio de uma criança mais sabida e cética que os velhos de setenta invernos, mas cuja ingenuidade é perpétua, voz que dá o apelido fatal aos potentados e nuncateve preocupações, criatura que pede como se fosse natural pedir, aclama sem interesse, e pode rir, francamente, depois de ter conhecido todos os males da cidade, poeira d’ouro que se fazlama e torna a ser poeira — a rua criou o garoto!

Essas qualidades nós as conhecemos vagamente. Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso terespírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dosesportes — a arte de flanar. É fatigante o exercício?

Para os iniciados sempre foi grande regalo. A musa de Horácio, a pé, não fez outra coisanos quarteirões de Roma. Sterne e Hoffmann proclamavam-lhe a profunda virtude, e Balzac fez todos os seus preciosos achados flanando. Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nosdicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é irpor aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças osajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti de casaca aplaudirem o maior tenor do Lírico numaópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem fazer nada e acharabsolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amorcausa inveja.

É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisasnecessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à porta do café,como Poe no Homem da Multidões, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões, as preocupações e até os crimes dos transeuntes. É uma espécie de secreta à maneira de SherlockHolmes, sem os inconvenientes dos secretas nacionais. Haveis de encontrá-lo numa bela noite numa noite muito feia. Não vos saberá dizer donde vem, que está a fazer, para onde vai.Pensareis decerto estar diante de um sujeito fatal? Coitado! O flâneur é o bonhomme possuidor de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura, porque deambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence da inutilidade da cólera e da necessidade do perdão.

O flâneur é ingênuo quase sempre. Pára diante dos rolos, é o eterno “convidado dosereno” de todos os bailes, quer saber a história dos boleiros, admira-se simplesmente, e conhecendo cada rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe ahistória dos amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga idéia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio. O balão que sobe ao meio-dia no Castelo,sobe para seu prazer; as bandas de música tocam nas praças para alegrá-lo; se num beco perdido há uma serenata com violões chorosos, a serenata e os violões estão ali para diverti-lo. E de tantover que os outros quase não podem entrever, o flâneur reflete. As observaçõs foram guardadas na placa sensível do cérebro; as frases, os ditos, as cenas vibram-lhe no cortical. Quando oflâneur deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia, a alma das ruas. E é então que haveis depasmar da futilidade do mundo e da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de observação…

Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo e imóvel.

Balzac dizia que as ruas de Paris nos dão impressões humanas.São assim as ruas de todasas cidades, com vida e destinos iguais aos do homem.

Por que nascem elas? Da necessidade de alargamento das grandes colmeias sociais, deinteresses comerciais, dizem. Mas ninguém o sabe. Um belo dia, alinha-se um tarrascal, corta-se um trecho de chácara, aterra-se lameiro, e aí está: nasceu mais uma rua. Nasceu para evoluir,para ensaiar primeiros passos, para balbuciar, crescer, criar uma individualidade. Os homens têm no cérebro a sensação dessa semelhança, e assim como dizem de um rapagão:

— Quem há de pensar que vi este menino a engatinhar!
Murmuram:
— Quem há de dizer que esta rua há dez anos só tinha uma casa!

Um cavalheiro notável, ao entrar comigo certa vez na Rua Senador Dantas, não se conteve:

— É impossível passar por aqui sem lembrar que a velhice começa a chegar. Quando vim da província esta rua tinha apenas duas casas no antigo jardim do Convento, e eu tomava choppsno Guarda Velha a três vinténs!

Eu sorria, mas o pobre sujeito importante dizia isso como se recordasse os dois primeiros dentes de um homenzarrão, com uma dentadura capaz atualmente de morder as algibeiras de uma sociedade inteira. Era arecordação, a saudade do passado começo. Há nada mais enternecedor que o princípio de uma rua? É ir vê-lo nos arrabaldes. A princípio capim, um braço a ligar duas artérias. Percorre-o sem pensar meia dúzia de criaturas. Um diacercam à beira um lote de terreno. Surgem em seguida os alicerces de uma casa. Depois de outra e mais outra. Um combustor tremeluz indicando que ela já se não deita com as primeiras sombras. Três ou quatro habitantesproclamam a sua salubridade ou o seu sossego. Os vendedores ambulantes entram por ali como por terreno novo a conquistar. Aparece a primeira reclamação nos jornais contra a lama ou o capim. É o batismo. As notas policiaiscontam que os gatunos deram num dos seus quintais. É a estréia na celebridade, que exige o calçamento ou o prolongamento da linha de bondes. E insensivelmente, há na memória da produção, bem nítida, bem pessoal, umaindividualidade topográfica a mais, uma individualidade que tem fisionomia e alma.
Algumas dão para malandras, outras para austeras; umas são pretensiosas, outras riem aos transeuntes e o destino as conduz como conduz o homem, misteriosamente, fazendo-asnascer sob uma boa estrela ou sob um signo mau, dando-lhes glórias e sofrimentos, matando-as ao cabo de um certo tempo.

Oh! sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres,delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastampara contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, spleenéticas,snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue…

Vede a Rua do Ouvidor. É a fanfarronada em pessoa, exagerando, mentindo, tomandoparte em tudo, mas desertando, correndo os taipais das montras1 à mais leve sombra de perigo.Esse beco inferno de pose, de vaidade, de inveja, tem a especialidade da bravata. E fatalmenteoposicionista, criou o boato, o “diz-se…“ aterrador e o “fecha-fecha” prudente. Começou porchamar-se Desvio do Mar. Por ela continua a passar para todos os desvios muita gente boa. Notempo em que os seus melhores prédios se alugavam modestamente por dez mil réis, era a Ruado Gadelha. Podia ser ainda hoje a Rua dos Gadelhas, atendendo ao número prodigioso depoetas nefelibatas que a infestam de cabelos e de versos. Um dia resolveu chamar-se do Ouvidorsem que o senado da câmara fosse ouvido. Chamou-se como calunia, e elogia, como insulta eaplaude, porque era preciso denominar o lugar em que todos falam de lugar do que ouve; eparece que cada nome usado foi como a antecipação moral de um dos aspectos atuais dessairresponsável artéria da futilidade.

A Rua da Misericórdia, ao contrário, com as suas hospedarias lôbregas, a miséria, adesgraça das casas velhas e a cair, os corredores bafientos, é perpetuamente lamentável. Foi aprimeira rua do Rio. Dela partimos todos nós, nela passaram os vice-reis malandros, osgananciosos, os escravos nus, os senhores em redes; nela vicejou a imundície, nela desabotoou aflor da influência jesuítica. Índios batidos, negros presos a ferros, domínio ignorante e bestial, oprimeiro balbucio da cidade foi um grito de misericórdia, foi um estertor, um ai! tremendoatirado aos céus. Dela brotou a cidade no antigo esplendor do Largo do Paço, dela decorreram,como de um corpo que sangra, os becos humildes e os coalhos de sangue, que são as praças,ribeirinhas do mar. Mas, soluço de espancado, primeiro esforço de uma porção de infelizes, elacontinuou pelos séculos afora sempre lamentável, e tão augustiosa e franca e verdadeira na suador que os patriotas lisonjeiros e os governos, ninguém, ninguém se lembrou nunca de lhe tirardas esquinas aquela muda prece, aquele grito de mendiga velha: — Misericórdia!

Há ruas que mudam de lugar, cortam morros, vão acabar em certos pontos que ninguémdantes imaginara — a Rua dos Ourives; há ruas que, pouco honestas no passado, acabaramtomando vergonha — a da Quitanda. Essa tinha mesmo a mania de mudar de nome. Chamou-sedo Açougue Velho, do lnácio Castanheira, do Sucusarrará, do Tomé da Silva, que sei eu? Atémesmo Canto do Tabaqueiro. Acabou Quitanda do Marisco, mas, como certos indivíduos queorganizam o nome conforme a posição que ocupam, cortou o marisco e ficou só Quitanda. Háruas, guardas tradicionais da fidalguia, que deslizam como matronas conservadoras — a dasLaranjeiras; há ruas lúgubres, por onde passais com um arrepio, sentindo o perigo da morte — oLargo do Moura por exemplo. Foi sempre assim. Lá existiu o Necrotério e antes do Necrotério láse erguia a Forca. Antes da autópsia, o enforcamento. O velho largo macabro, com a alma deTropmann e de Jack, depois de matar, avaramente guardou anos e anos, para escalpelá-los, parachamá-los, para gozá-los, todos os corpos dos desgraçados que se suicidam ou morremassassinados. Tresanda a crime, assusta. A Prainha também. Mesmo hoje, aberta, alargada com prédios novos e a trepidação contínua do comércio, há de vos dar uma impressão de vago horror.À noite são mais densas as sombras, as luzes mais vermelhas, as figuras maiores. Por que teráessa rua um aspecto assim? Oh! Porque foi sempre má, porque foi sempre ali o Aljube, alipadeceram os negros dos três primeiros trapiches do sal, porque também ali a forca espalhou amorte!

Há entretanto outras ruas, que nascem íntimas, familiares, incapazes de dar um passo semque todas as vizinhas não saibam. As ruas de Santa Teresa estão nestas condições. Umcavalheiro salta no Curvelo, vai a pé até o França, e quando volta já todas as ruas perguntam quedeseja ele, se as suas tenções são puras e outras impertinências íntimas. Em geral, procura-se omistério da montanha para esconder um passeio mais ou menos amoroso. As ruas de SantaTeresa, é descobrir o par e é deitar a rir proclamando aos quatro ventos o acontecimento. Umadas ruas, mesmo, mais leviana e tagarela do que as outras, resolveu chamar-se logo Rua doAmor, e a Rua do Amor lá está na freguesia de S. José. Será exatamente um lugar escolhido peloAmor, deus decadente? Talvez não. Há também na freguesia do Engenho Velho uma ruaintitulada Feliz Lembrança e parece que não a teve, segundo a opinião respeitável da poesiaanônima:

Na Rua Feliz Lembrança
Eu escapei por um triz
De ser mandado à tábua.
Ai! que lembrança infeliz
Tal nome pôr nesta rua!

Há ruas que têm as blandícias de Goriot e de Shylock para vos emprestar a juro, paraesconder quem pede e paga o explorador com ar humilde. Não vos lembrais da Rua doSacramento, da rua dos penhores? Uma aragem fina e suave encantava sempre o ar. Defronte àigreja, casas velhas guardavam pessoas tradicionais. No Tesouro, por entre as grades de ferro,uma ou outra cara desocupada. E era ali que se empenhavam as jóias, que pobres entesangustiados iam levar os derradeiros valores com a alma estrangulada de soluços; era ali querefluíam todas as paixões e todas as tristezas, cujo lenitivo dependesse de dinheiro…

Há ruas oradoras, ruas de meeting — o Largo do Capim que assim foi sempre, o Largode S. Francisco; ruas de calma alegria burguesa, que parecem sorrir com honestidade — a Ruade Haddock Lobo; ruas em que não se arrisca a gente sem volver os olhos para trás a ver se nosvêem —a Travessa da Barreira; ruas melancólicas, da tristeza dos poetas; ruas de prazer suspeitopróximo do centro urbano e como que dele muito afastadas; ruas de paixão romântica, quepedem virgens loiras e luar.

Qual de vós já passou a noite em claro ouvindo o segredo de cada rua? Qual de vós jásentiu o mistério, o sono, o vício, as idéias de cada bairro?

A alma da rua só é inteiramente sensível a horas tardias. Há trechos em que a gente passacomo se fosse empurrada, perseguida, corrida — são as ruas em que os passos reboam,repercutem, parecem crescer, clamam, ecoam e, em breve, são outros tantos passos ao nossoencalço. Outras que se envolvem no mistério logo que as sombras descem — o Largo de Paço.Foi esse largo o primeiro esplendor da cidade. Por ali passaram, na pompa dos pálios e dosbaldaquins d’ouro e púrpura, as procissões do Enterro, do Triunfo, do Senhor dos Passos; por ali,ao lado da Praia do Peixe, simples vegetação de palhoças, o comércio agitava as suas primeiraselegâncias e as suas ambições mais fortes. O largo, apesar das reformas, parece guardar atradição de dormir cedo. À noite, nada o reanima, nada o levanta. Uma grande revolução morreno seu bojo como um suspiro; a luz leva a lutar com a treva; os próprios revérberos parecedormitarem, e as sombras que por ali deslizam são trapos da existência almejando o fimpróximo, ladrões sem pousada, imigrantes esfaimados… Deixai esse largo, ide às ruelas daMisericórdia, trechos da cidade que lembram o Amsterdão sombrio de Rembrandt. Há homensem esteiras, dormindo na rua como se estivessem em casa. Não nos admiremos. Somos reflexos.O Beco da Música ou o Beco da Fidalga reproduzem a alma das ruas de Nápoles, de Florença,das ruas de Portugal, das ruas da África, e até, se acreditarmos na fantasia de Heródoto, das ruasdo antigo Egito. E por quê? Porque são ruas da proximidade do mar, ruas viajadas, com a visãode outros horizontes. Abri uma dessas pocilgas que são a parte do seu organismo. Haveis de verchineses bêbados de ópio, marinheiros embrutecidos pelo álcool, feiticeiras ululando cançõessinistras, toda a estranha vida dos portos de mar. E esses becos, essas betesgas têm a perfídia dosoceanos, a miséria das imigrações, e o vício, o grande vício do mar e das colônias…

Se as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm idéias, filosofia e religião. Há ruasinteiramente católicas, ruas protestantes, ruas livres-pensadoras e até ruas sem religião.Trafalgar Square, dizia o mestre humorista Jerome, não tem uma opinião teológica definitiva. Omesmo se pode dizer da Praça da Concórdia de Paris ou da Praça Tiradentes. Há criatura maissem miolos que o Largo do Rocio? Devia ser respeitável e austero. Lá, Pedro I, trepado numbelo cavalo e com um belo gesto, mostra aos povos a carta da independência, fingindo dar umgrito que nunca deu. Pois bem: não há sujeito mais pândego e menos sério do que o velho ex-Largo do Rocio. Os seus sentimentos religiosos oscilam entre a depravação e a roleta.Felizmente, outras redimem a sociedade de pedra e cal, pelo seu culto e o seu fervor. A RuaBenjamin Constant está neste caso, é entre nós um tremendo exemplo de confusão religiosa.Solene, grave, guarda três templos, e parece dizer com circunspecção e o ar compenetrado decertos senhores de todos nós conhecidos:

— Faço as obras do Coração de Jesus, creio em Deus, nas orações, nos bentinhos e sónão sou positivista porque é tarde para mudar de crença. Mas respeito muito e admiro TeixeiraMendes…

Nós, os homens nervosos, temos de quando em vez alucinações parciais da pele, doresfulgurantes, a sensação de um contacto que não existe, a certeza de que chamam por nós. As ruastêm os rolos, as casas mal assombradas, e há até ruas possessas, com o diabo no corpo. Em S.Luís do Maranhão há uma rua sonâmbula muito menos cacete que a ópera célebre do mesmonome. Essa rua é a Rua de Santa Ana, a lady Macbeth da topografia. Deu-se lá um crimehorrível. Às dez horas, a rua cai em estado sonambúlico e é só gritos, clamores: sangue! sangue!

Ruas assim ainda mostram o que pensam. Talvez as outras tenham maiores delírios, massão como os homens normais — guardam dentro do cérebro todos os pensamentosextravagantes. Quem se atreveria a resumir o que num minuto pensa de mal, de inconfessável, omais honesto cidadão? Entre as ruas existem também as falsas, as hipócritas, com a alma deTartufo e de Iago. Por isso os grandes mágicos do interior da África Central, que dos sertõesadustos levavam às cidades inglesas do litoral sacos d’ouro em pó e grandes macacos tremendos,têm uma cantiga estranha que vale por uma sentença breve de Catão:

O di ti a uê, chê
F’u, a uá ny
Odé, odá, bi ejô
Sa lo dê

Sentença que em eubá (dialeto do reino iorubá Egbá, língua geral dos negros oriundos da atual Nigéria), o esperanto das hordas selvagens, quer dizer apenas isto: rua foifeita para ajuntamentos. Rua é como cobra. Tem veneno. Foge da rua!

Mas o importante, o grave, é ser a rua a causa fundamental da diversidade dos tiposurbanos. Não sei se lestes um curioso livro de E. Demolins, Comment la route crée le typesocial. É uma revolução no ensino da Geografia. “A causa primeira e decisiva da diversidade dasraças, diz ele, é a estrada, o caminho que os homens seguirem. Foi a estrada que criou a raça e otipo social. Os grandes caminhos do globo foram, de qualquer forma, os alambiques poderosos.que transformaram os povos. Os caminhos das grandes estepes asiáticas, das tundras siberianas,das savanas da América ou das florestas africanas insensivelmente e fatalmente criaram o tipotártaro-mongol, o lapão-esquimó, o pele-vermelha, o índio, o negro”.

A rua é a civilização da estrada. Onde morre o grande caminho começa a rua, e, por isso,ela está para a grande cidade como a estrada está para o mundo. Em embrião, é o princípio, acausa dos pequenos agrupamentos de uma raça idêntica. Daí, em muitos sítios da terra as aldeiasterem o único nome de rua. Quando aumentam e crescem depois, ou pela devoção da maioriados habitantes ou por uma impressão de local, acrescentam ao substantivo rua o complementoque das outras as deve diferençar. Em Portugal esse fato é comum. Há uma aldeia de 700habitantes no Minho que se chama modestamente Rua de S. Jorge, uma outra no Douro que é aRua da Lapela, e existem até uma Rua de Cima e uma Rua de Baixo.

Nas grandes cidades a rua passa a criar o seu tipo, a plasmar o moral dos seus habitantes,a inocular-lhes misteriosamente gostos, costumes, hábitos, modos, opiniões políticas. Vós todosdeveis ter ouvido ou dito aquela frase:

— Como estas meninas cheiram a Cidade Nova!

Não é só a Cidade Nova, sejam louvados os deuses! Há meninas que cheiram a Botafogo,a Haddock Lobo, a Vila Isabel, como há velhas em idênticas condições, como há homenstambém. A rua fatalmente cria o seu tipo urbano como a estrada criou o tipo social. Todos nósconhecemos o tipo do rapaz do Largo do Machado: cabelo à americana, roupas amplas à inglesa,lencinho minúsculo no punho largo, bengala de volta, pretensões às línguas estrangeiras, calçasdobradas como Eduardo VII e toda a snobopolis do universo. Esse mesmo rapaz, dadas idênticasposições, é no Largo do Estácio inteiramente diverso. As botas são de bico fino, os fatos emgeral justos, o lenço no bolso de dentro do casaco, o cabelo à meia cabeleira com muito óleo. Seformos ao Largo do Depósito, esse mesmo rapaz usará lenço de seda preta, forro na gola dopaletot, casaquinho curto e calças obedecendo ao molde corrente na navegação aérea — calças àbalão.

Esses três rapazes da mesma idade, filhos da mesma gente honrada, às vezes até parentes,não há escolas, não há contactos passageiros, não há academias que lhes tranformem o gosto porcerta cor de gravatas, a maneira de comer, as expressões, as idéias — porque cada rua tem umstock especial de expressões, de idéias e de gostos. A gente de Botafogo vai às “primeiras” doLírico, mesmo sem ter dinheiro. A gente de Haddock Lobo tem dinheiro mas raramente vai aoLírico. Os moradores da Tijuca aplaudem Sarah Bernhardt como um prodígio. Os moradores daSaúde amam enternecidamente o Dias Braga. As meninas das Laranjeiras valsam ao som dasvalsas de Strauss e de Berger, que lembram os cassinos da Riviera e o esplendor dos kursaals3.As meninas dos bailes de Catumbi só conhecem as novidades do senhor Aurélio Cavalcante. Asconversas variam, o amor varia, os ideais são inteiramente outros, e até o namoro, essaencantadora primeira fase do eclipse do casamento, essa meia ação da simpatia que se funde emdesejo, é abolutamente diverso. Em Botafogo, à sombra das árvores do parque ou no grandeportão, Julieta espera Romeu, elegante e solitária; em Haddock Lobo, Julieta garruleia embandos pela calçada; e nas casas humildes da Cidade Nova, Julieta, que trabalhou todo o diapensando nessa hora fugace, pende à janela o seu busto formoso…

Oh! sim, a rua faz o indivíduo, nós bem o sentimos. Um cidadão que tenha passadometade da existência na Rua do Pau Ferro não se habitua jamais à Rua Marquês de Abrantes! Osintelectuais sentem esse tremendo efeito do ambiente, menos violentamente, mas sentem. Euconheci um elegante barão da monarquia, diplomata em perpétua disponibilidade, que anecessidade forçara a aceitar de certo proprietário o quarto de um cortiço da Rua Bom Jardim. Opobre homem, com as suas poses à Brummell, sempre de monóculo entalado, era o escândalo darua. Por mais que saudasse as damas e cumprimentasse os homens, nunca ninguém se lembravade o tratar senão com desconfiança assustada. O barão sentia-se desesperado e resumira a vida3 Cassino.num gozo único: sempre que podia, tomava o bonde de Botafogo, acendia um charuto, e ia porali altivo, airoso, com a velha redingote4 abotoada, a “caramela” de cristal cintilante… Estava noseu bairro. Até parece, dizia ele, que as pedras me conhecem!

As pedras! As pedras são a couraça da rua, a resistência que elas apresentam ao novotranseunte. Refleti que nunca pisastes pela primeira vez uma rua de arrabalde sem que o vossopasso fosse hesitante como que, inconscientemente, se habituando ao terreno; refleti nessascoisas sutis que a vida cria, e haveis de compreender então a razão por que os humildes limitamtodo o seu mundo à rua onde moram, e por que certos tipos, os tipos populares, só o sãorealmente em determinados quarteirões.

As ruas são tão humanas, vivem tanto e formam de tal maneira os seus habitantes, que háaté ruas em conflito com outras. Os malandros e os garotos de uma olham para os de outra comopara inimigos. Em 1805, há um século, era assim: os capoeiras da Praia não podiam passar porSanta Luzia. No tempo das eleições mais à navalha que à pena, o Largo do Machadinho e a RuaPedro Américo eram inimigos irreconciliáveis. Atualmente a sugestão é tal que eles se intitulampovo. Há o povo da Rua do Senado, o povo da Travessa do mesmo nome, o povo de Catumbi.Haveis de ouvir, à noite, um grupo de pequenos valentes armados de vara:

— Vamos embora! O povo da Travessa está conosco.

É a Rua do Senado que, aliada à Travessa, vai sovar a Rua Frei Caneca…

Como outrora os homens, mais ou menos notáveis, tomavam o nome da cidade ondetinham nascido — Tales de Mileto, Luciano de Samosata, Epicarmo de Alexandria — os chefesda capadoçagem5 juntam hoje ao nome de batismo o nome da sua rua. Há o José do Senado, oJuca da Harmonia, o Lindinho do Castelo, e ultimamente, nos fatos do crime, tornaram-secélebres dois homens, Carlito e Cardosinho, só temidos em toda a cidade, cheia de Cardosinhose de Carlitos, porque eram o Carlito e o Cardosinho da Saúde. Direis que é uma observaçãopuramente local? Não, cem vezes não! Em Paris, a Ville-Lumière, os bandos de assassinostomam freqüentemente o nome da rua onde se organizaram; em Londres há ruas dos bairrostrágicos com esse predomínio, e na própria história de Bizâncio haveis de encontrar ruas tãoguerreiras que os seus habitantes as juntavam ao nome como um distintivo.

E assim os tipos populares.

Tive o prazer de conhecer dois desses tipos, em que mais vivamente se exteriorizava ainfluência psicológica da rua: o Pai da Criança e a Perereca.

O Pai da Criança estava deslocado, na decadência. Esse ser repugnante nascera comouma depravação da Rua do Ouvidor. Quando o vi doente, nas tascas da Rua Frei Caneca, comojá não estava na sua rua, não era mais notável. Os garotos já não riam dele, ninguém o seguia, eo nojento sujeito conversava nas bodegas, como qualquer mortal, da gatunice dos governos. Sófui descobrir a sua celebridade quando o vi em plena Ouvidor, cheio de fitas, vaiado, cuspindoinsolências, inconcebível de descaro e de náusea. A Perereca, ao contrário. Na Rua do Ouvidorseria apenas uma preta velha. Na Rua Frei Caneca era o regalo, o delírio, a extravagância. Osmalandrins corriam-lhe ao encalço atirando-lhe pedras, os negociantes chegavam às portas, todasas janelas iluminavam-se de gargalhadas. E por quê? Porque esses tipos são o riso das ruas eassim como não há duas pessoas que riam do mesmo modo não há duas ruas cujo riso seja omesmo.

Se a rua é para o homem urbano o que a estrada foi para o homem social, é claro que apreocupação maior, a associada a todas as outras idéias do ser das cidades, é a rua. Nóspensamos sempre na rua. Desde os mais tenros anos ela resume para o homem todos os ideais,os mais confusos, os mais antagônicos, os mais estranhos, desde a noção de liberdade e dedifamação — idéias gerais — até a aspiração de dinheiro, de alegria e de amor, idéiasparticulares. Instintivamente, quando a criança começa a engatinhar, só tem um desejo: ir para arua! Ainda não fala e já a assustam: se você for para a rua encontra o bicho! Se você sair apanha palmadas! Qual! Não há nada! É pilhar um portão aberto que o petiz não se lembra mais debichos nem de pancadas!

Sair só é a única preocupação das crianças até uma certa idade. Depois continuar a sairsó. E quando já para nós esse prazer se usou, a rua é a nossa própria existência. Nela se fazemnegócios, nela se fala mal do próximo, nela mudam as idéias e as convicções, nela surgem asdores e os desgostos, nela sente o homem a maior emoção.

Quando se encontra o amor
Na rua, sem o saber…

— Ponho-o no olho da rua! brada o pai ao filho no auge da fúria.
Aí está a rua como expressão da maior calamidade.

— Você está em casa, venha para a rua se é gente!
Aí temos a rua indicando sítio livre para a valentia a substituir o campo de torneiomedieval.

— É mais deslavado que as pedras da rua!Frase em que se exprime uma sem-vergonhice inconcebível.

— É mais velho que uma rua!Conceito talvez errado porque há ruas que morrem moças.
Às vezes até a rua é a arma que fere e serve de elogio conforme a opinião que dela setem.

— Ah! minha amiga! Meu filho é muito comportado. Já vai à rua sozinho…

— Ah! meninas, o filho de d. Alice está perdido! Pois se até anda sozinho na rua!
E a rua, impassível, é o mistério, o escândalo, o terror…

Os políticos vivem no meio da rua aqui, na China, em Tombuctu, na França; ospresidentes de república, os reis, os papas, no pavor de uma surpresa da rua — a bomba, arevolta; os chefes de polícia são os alucinados permanentes das ruas; todos quantos queremsubir, galgar a inútil e movediça montanha da glória, anseiam pelo juízo da rua, pela aprovaçãoda via pública, e há na patologia nervosa uma vasta parte em que se trata apenas das moléstiasproduzidas pela rua, desde a neurastenia até à loucura furiosa. E que a rua chega a ser a obsessãoem que se condensam todas as nossas ambições. O homem, no desejo de ganhar a vida com maisabundância ou maior celebridade, precisava interessar à rua. Começou pois fazendo discursosem plena ágora (Praça central das cidades da antiga Grécia, em torno da qual se fazia a vida urbana), discursos que, desde os tempos mais remotos aos meetings contemporâneos daestátua de José Bonifácio, falam sempre de coisas altivas, generosas e nobres. Um belo dia, a ruaproclamou a excelente verdade: que as palavras leva-as o vento. Logo, nós assustados,imaginamos o homem-sandwich, o cartaz ambulante; mandamos pregar-lhe, enquanto dorme,com muita goma e muita ingenuidade, os cartazes proclamando a melhor conserva, o doce maisgostoso, o ideal político mais austero, o vinho mais generoso, não só em letras impressas mascom figuras alegóricas, para poupar-lhe o trabalho de ler, para acariciar-lhe a ignorância, paraalegrá-la. Como se não bastassem o cartaz, a lanterna mágica, o homem-sandwich,desveladamente, aos poucos, resolvemos compor-lhe a história e fizemos o jornal — esseformidável folhetim-romance permanente, composto de verdades, mentiras, lisonjas, insultos eda fantasia dos Gaboriau (Émile Gaboriau, escritor francês do século XIX, tido como o criador do romance policial.) que somos todos nós…

Há uma estética da rua, afirmou Bulls. Sim. Há. Porque as atrizes de fama, os oradoresmais populares, os hércules mais cheios de força, os produtos mais evidentes dos blocoscomerciais, vivem de procurar agradá-la. Desse orgulho transitório surgiu para a rua a glóriapolicroma da arte. O temor de serem esquecidos criou para cada uma a roupagem variada,encheu-as como Melusinas de pedra, como fadas cruéis que se teme e se satisfaz, de vestidos múltiplos, de cores variegadas, de fanfreluches 8de papel, da ardência fulgurante das montras decambiantes luzentes; deu-lhes uma perpétua apoteose de sacrifício à espera do milagre do lucroou da popularidade. A estética, a ornamentação das ruas, é o resultado do respeito e do medo quelhes temos…

No espírito humano a rua chega a ser uma imagem que se liga a todos os sentimentos eserve para todas as comparações. Basta percorrer a poesia anônima para constatar a flagranteverdade. É quase sempre na rua que se fala mal do próximo. Folheemos uma coleção de fados.Lá está a idéia:

Adeus, ó Rua Direita
Ó Rua da Murmuração.
Onde se faz audiência
Sem juiz nem escrivão.

Aliás muito tímida, como devendo ser cantada por quem tem culpa no cartório. Mas, seum apaixonado quer descrever o seu peito, só encontra uma comparação perfeita.

O meu peito é uma rua
Onde o meu bem nunca passa,
É a rua da amargura
Onde passeia a desgraça.

Se sente o apetite de descrever, os espécimens são sem conta.

Na rua do meu amor
Não se pode namorar:
De dia, velhas à porta,
De noite, cães a ladrar.

E é suave lembrar aquele sonhador que, defronte da janela da amada e desejando realizaro impossível para lhe ser agradável, só pôde sussurrar esta vontade meiga:

Se esta rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar
De pedrinhas de brilhante
Para meu bem passar.

O povo observa também, e diz mais numa quadra do que todos nós a armar o efeito deperíodos brilhantes. Sempre recordarei um tocador de violão a cantar com lágrimas na voz comodiante do inexorável destino:

Vista Alegre é rua morta
A Formosa é feia e brava
A Rua Direita é torta
A do Sabão não se lava…

Toda a psicologia das construções e do alinhamento em quatro versos! A rua chega apreocupar os loucos. Nos hospícios, onde esses cavalheiros andam doidos por se ver cá fora,8 Ornamento de pouco valor.encontrei planos de ruas ideais, cantores de rua, e um deles mesmo chegou a entregar-me umlongo poema que começava assim:

A rua…
Cumprida, cumprida, atua…
Olê! complicada, complicada, alua
A rua
Nua!

Essa idéia reflete-se nas religiões, nos livros sagrados, na arte de todos os tempos, cadavez mais afiada, cada vez mais sensível. Na literatura atual a rua é a inspiração dos grandesartistas, desde Victor Hugo, Balzac e Dickens, até às epopéias de Zola, desde o funambulismo deBanville até o humorismo de Mark Twain. Não há um escritor moderno que não tenha cantado arua. Os sonhadores levam mesmo a exagerá-la, e hoje, devido certamente à corrente socialista,há toda uma literatura em que a alma das ruas soluça. Os poetas refinados levam a mórbidainspiração a cantar os aspectos parciais da rua. Como os românticos cantavam os pés, os olhos, aboca e outras partes do corpo das apaixonadas, eles cantam o semblante das casas vazias, osrevérberos de gás como Rodenbach:

Le dimanche, en semaine, et par tous les temps
L’un est debout, un autre, il semble, s’agenouille.
Et chacun se sent seul comme dans une foule.
Les revérbéres des banlieues
Sont des cages oú des oiseaux déplient leurs queues.

Os pregões, as calçadas, e houve até um — Mário Pederneiras —que nos deu asutilíssima e admirável psicologia das árvores urbanas:

Com que magoado encanto
Com que triste saudade
Sobre mim atua
Esta estranha feição das árvores da rua.
E elas são, entretanto,
A única ilusão rural de uma cidade!

As árvores urbanas
São, em geral, conselheiras e frias
Sem as grandes expansões e as grandes alegrias
Das provincianas.

Não têm sequer os plácidos carinhos
Dessas largas manhãs provinciais e enxutas.
Nem a orquestra dos ninhos
Nem a graça vegetal das frutas.

Os artistas modernos já não se limitam a exprimir os aspectos proteiformes da rua, aanalisar traço por traço o perfil físico e moral de cada rua. Vão mais longe, sonham a rua ideal,como sonharam um mundo melhor. Williams Morris, por exemplo, imaginou nas Novelas departe alguma a rua socialista e rara, com edifícios magníficos, sem mendigos e sem dinheiro.Rimbaud, nas Illuminations, teve a idéia da rua babélica, reproduzindo nos edifícios, sob o céucinzento, todas as maravilhas clássicas da arquitetura. Bellamy, no Locking Bockward, jásonhava o agrupamento dos grandes armazéns; e hoje, entre essas ruas de sonho, que GustavoKhan considera as ruas utópicas e que talvez se tornem realidade um dia, é o estranho e infernalsulco descrito por Wells na História dos tempos futuros, rua em que tudo dependerá desindicatos formidáveis, em que tudo será elétrico, em que os homens, escravos de meia dúzia,serão como os elos de uma mesma corrente arrastados pelo trabalho através dos casarões.

Mas, a quem não fará sonhar a rua? A sua influência é fatal na palheta dos pintores, naalma dos poetas, no cérebro das multidões. Quem criou o reclamo? A rua! Quem inventou acaricatura! A rua! Onde a expansão de todos os sentimentos da cidade? Na rua! Por isso para dara expressão da dor funda, o grande poeta Bilac fez um dia:

A Avenida assombrada e triste da saudade
Onde vem passear a procissão chorosa
Dos órfãos do carinho e da felicidade.

E certo poeta árabe, reconhecendo com a presciência dos vates que só a rua nos pode dara expressão do sofrimento absoluto como da alegria completa, escreveu a celebrada Praça doriso ao nascer da aurora; o riso de cristal das crianças, o riso perlado das mulheres, o riso gravedos homens a formar um conjunto de tanta harmonia que as árvores também riam no canto dospássaros, e a própria umbela azul do céu se estriava d’ouro no imenso riso do sol..

Neste elogio, talvez fútil, considerei a rua um ser vivo, tão poderoso que conseguemodificar o homem insensivelmente e fazê-lo o seu perpétuo escravo delirante, e mostrei mesmoque a rua é o motivo emocional da arte urbana mais forte e mais intenso. A rua tem ainda umvalor de sangue e de sofrimento: criou um símbolo universal. Há ainda uma rua, construída naimaginação e na dor, rua abjeta e má, detestável e detestada, cuja travessia se faz contra a nossavontade, cujo trânsito é um doloroso arrastar pelo enxurro de uma cidade e de um povo. Todosacotovelam-se e vociferam aí, todos, vindos da Rua da Alegria ou da Rua da Paz, atravessandoas betesgas (Viela, rua estreita.) do Saco do Alferes ou descendo de automóvel dos bairros civilizados, encontram-seaí e aí se arrastam, em lamentações, em soluços, em ódio à vida e ao Mundo. No traçado dascidades ela não se ostenta com as suas imprecações e os seus rancores. É uma rua esconsa enegra, perdida na treva, com palácios de dor e choupanas de pranto, cuja existência se conhecenão por um letreiro à esquina, mas por uma vaga apreensão, um irredutível sentimento deangústia, cuja travessia não se pode jamais evitar. Correi os mapas de Atenas, de Roma, deNínive ou de Babilônia, o mapa das cidades mortas. Termas, canais, fontes, jardins suspensos,lugares onde se fez negócio, onde se amou, lugares onde se se cultuaram os deuses — tudo desapareceu.Olhai o mapa das cidades modernas. De século em século a transformação é quaseradical. As ruas são perecíveis como os homens. A outra, porém, essa horrível rua de todosconhecida e odiada, pela qual diariamente passamos, essa é eterna como o medo, a infâmia, ainveja. Quando Jerusalém fulgia no seu máximo esplendor, já ela lá existia. Enquanto em Atenasartistas e guerreiros recebiam ovações, enquanto em Roma a multidão aplaudia os gladiadorestriunfais e os césares devassos, na rua aflitiva cuspinhava o opróbrio e chorava a inocência.Cartago tinha uma rua assim, e ainda hoje Paris, New York, Berlim a têm, cortando a suaalegria, empanando o seu brilho, enegrecendo todos os triunfos e todas as belezas. Qual de vósnão quebrou, inesperadamente, o ângulo em arestas dessa rua? Se chorastes, se sofrestes acalúnia, se vos sentistes ferido pela maledicência, podereis ter a certeza de que entrastes naobscura via! Ah! Não procureis evita-la! Jamais o conseguireis. Quanto mais se procura dela sairmais dentro dela se sofre. E não espereis nunca que o mundo melhore enquanto ela existir.

Não éuma rua onde sofrem apenas alguns entes, é a rua interminável, que atravessa cidades, países,continentes, vai de pólo a pólo; em que se alanceiam todos os ideais, em que se insultam todas asverdades, onde sofreu Epaminondas e pela qual Jesus passou. Talvez que extinto o mundo, apagados todos os astros, feito o universo treva, talvez ela ainda exista, e os seus soluçossinistramente ecoem na total ruína, rua das lágrimas, rua do desespero — interminável rua da amargura.

O Aumento (Dino Buzzati)

Quando ficou sabendo que seu jovem colega Bossi, a mais recente admissão da firma, ganhava mais de vinte mil liras por mês do que ele, Giovanni Battistela viu-se tomado de uma raiva espantosa. E teve uma coragem do que em condições normais lhe pareceria uma loucura: de fazer-se receber pelo diretor e dizer-lhe poucas e boas. E ei-lo que se apresenta no solene escritório em cujo fundo estava sentado o chefe.
– Por favor, por favor. Pode se aproximar…
– Queria me desculpar, senhor comendador, mas…
– Desculpar por quê? Não me fale em se desculpar. Não faltava mais nada, meu caro Battistela. Eu é que devo lhe agradecer por ter vindo.
– O senhor!?
– Eu, sim. E estou contente, contentíssimo em revê-lo. Mas por favor, sente-se, sim, porque as pessoas que nos são caras, em quem temos mais confiança, são precisamente aquelas que mais negligenciamos. Esta é a cruel lei da vida, não é mesmo? Diga, diga, meu caro Battistela, há quanto tempo não trocamos duas palavras em santa paz? Semanas, não é mesmo? Semanas o quê! Meses, talvez. Muitos meses. Eu mesmo não me surpreenderia se, em vez de meses, fossem anos…
– Faz exatamente dois anos e meio…
– Dois anos e meio! Mas acredite, meu caro Battistela, que durante esses dois anos e meio, todas as noites – sabe disso? -, na hora em que fazemos nosso exame de consciência, eu pensava sempre no senhor. Todas as noites antes de dormir, dizia comigo mesmo: “E Battistela? E o excelente Battistela? Não estás te esquecendo dele?” Era o que eu mesmo me dizia: “Quando irás te decidir a lhe dar o cargo que ele merece?
Um trabalhador como ele, uma coluna mestra da administração, um homem desses, hoje cada vez mais raros…” Assim falava eu, e todas as noites sentia remorsos, pode acreditar.
– Pois então, senhor comendador…
– Estou disposto a ajudá-lo, não era isso que ia me perguntar? Ah, não fale, não me diga nada. Acha que eu não tenho o condão de captar o seu pensamento? Palavra por palavra, poderei lhe repetir tudo quanto tinha a intenção de me dizer… Que existe quem, com muito menos títulos, está ganhando mais do que o senhor, que isso é uma injustiça, que o senhor perdeu a paciência etc. etc. Não é isso mesmo?
– É, realmente.
– E o senhor, meu caro Battistela, teve um ímpeto de exasperação, não é verdade? Quem não teria tido, não é mesmo? A injustiça consegue transformar criaturas mansas e humildes em verdadeiros tigres, não é mesmo?
– Bem, em suma…
– Está vendo? E o senhor pensava que eu não compreenderia, que eu não sabia, que eu não me interessava. Homem de pouquíssima fé!… Bem, este deve ser um belo dia para nós. Esta noite ambos estaremos satisfeitos um com o outro. Que me diz de 150?
– Como?
– Creio que agora o senhor ganha entre 95 e 98, se não me engano, não é isso?
– 97.
– Bem. Podemos dar um passo adiante. Um pequeno passo. Cento e cinqüenta. Não chega?
– Bem, confesso que não esperava…
– Está vendo? Não sou mais aquele dragão, aquele carniceiro, aquele devorador de cristãos, aquele lobo esfomeado – não é isso que dizem de mim?
– Eu…eu lhe agradeço.
– Não tem nada que me agradecer. Eu é que lhe agradeço pelo seu trabalho… Um cigarro?
– Obrigado, não fumo…
– Bravo, é mais uma virtude… Quanto a mim, fumo como um desesperado… Bem, bem, quer me parecer que ficou tudo resolvido…
– Bem, quer dizer, não quero mais tirar o seu tempo…
– Não sou eu que vou retê-lo, meu caro Battistela. E faço os melhores votos para que… – suspirou. – É pena!
– “É pena”, por quê?
– Nada, nada… Eu… para você… eu tinha outros projetos. Mas agora é inútil… O que está feito, está feito.
– Outros projetos?
– Sim, projetos, que eu fazia… Mas, agora…
– Comendador, não quer fazer a gentileza de me dizer…?
– Não, eu te conheço. Aquilo que se faz para o seu bem, o senhor leva a mal…
– Isso não é verdade…
– Seria como lhe dar uma prova de confiança, uma demonstração de amizade. Seria. Mas compreendo que poderia lhe dar uma impressão esquisita…
– Esquisita como?
– Além do mais é um assunto… é um assunto extremamente reservado…
– Não confia em mim?

O diretor levantou-se devagar, atravessou o escritório com ar circunspecto, fechou a porta com a chave, parou como se escutasse a passagem de alguém lá fora, avizinhou o indicador dos lábios num gesto de silêncio, voltou à escrivaninha e começou a falar em voz baixa:
– Battistela… me escuta… Eu estou ficando velho…
– Não é verdade.
– Velho, sim. O coração às vezes anda falhando. De um dia para o outro…
– Não diga isso nem brincando…
– E onde? Aqui mesmo, nesta escrivaninha? No meu posto, quem sabe? Mas escuta, Battistela…
– Estou ouvindo.
– Recomendo que guarde isso só para você. Porque em você eu confio… De algum tempo para cá fala-se em grandes mudanças…
– Mudanças?
– Com certeza já deve ter ouvido falar, pelo menos por alto: mudança de proprietários, segundo se diz, passando a firma para as mãos de outro grupo financeiro. E sabe o que isso significa?
– Que os chefes atuais vão-se embora e outros virão.
– E isso não lhe diz mais nada? Não compreende o que pode acontecer em tais circunstâncias?
– Não faço a menor idéia…
– Podem vir medidas de contenção de despesas. Porque se esta mudança ocorrer, o motivo é um só: é que as coisas não vão bem, que a crise está sendo sentida também por nós. Razão, portanto, para que a preocupação dos novos donos seja, sem dúvida, a de poupar ao máximo. E de que maneira? É simplicíssimo. Sabe o que se faz, nestes casos?
– Não. O quê?
– Redimensionamento. Bela palavra, não é? Redimensionamento. Sabe o que ela significa? Significa desembaraçar-se do peso excessivo, eis a solução genial. Elimina-se a escória. Aperta-se o cinto. Passa-se uma vista d’olhos na folha de pagamento. E quem tem alta remuneração, zapt! Estes são os primeiros a se fritarem. Como em todos os casos, são só os peixes miúdos que se salvam.
– E então?
– E então, quer que eu fique contente com a idéia de ver liquidado um elemento como o senhor? O meu dever, neste caso, uma vez que tenho um peso na consciência, é o de alertá-lo, meu caro Battistela. Não só o de alertá-lo, como o de ajudá-lo a evitar essa possível ameaça.
– Evitar?
– Claro. Quero subtraí-lo à dizimação, mimetizá-lo, colocá-lo numa posição segura. Mas é inútil. Os senhores, os jovens, não se dão conta de que…
– Ao contrário. Pode dizer, comendador, pode dizer…
– Quer que eu lhe fale com o coração nas mãos? Como se o senhor fosse o meu próprio filho? Bem, se eu fosse o senhor, frente a uma conjectura desta ordem, sabe que coisa…
– Que coisa o senhor faria?
– É fácil compreender. A moral da história é a seguinte: melhorando a sua situação financeira, no fundo eu lhe prestei um péssimo serviço. Foi a mesma coisa que se eu o atirasse na rua para falar tipo pão-pão, queijo-queijo…
– De maneira que eu…
– Caro Battistela, não quero que amanhã venha a ter motivos para me recriminar. Se amanhã o senhor vier a me perguntar: mas, comendador, por que não me avisou antes? Por que não me abriu os olhos? Meu querido, as coisas estão chegando a um ponto tal que, mude-se ou não de patrões, um dia eu me verei constrangido a adotar medidas severas. E por que haverá de ser com o seu sacrifício?
– Mas, eu… Bem, não estou compreendendo… Está me falando de aumento? Acha que é melhor eu esperar?
– Não, nada de esperar! Se prevenir, sim. O que fazem os soldados, quando os inimigos abrem fogo? Abaixam a cabeça, agacham-se no chão para não serem atingidos. Agache-se também, Battistela.
– Agachar-me?
– Em sentido figurado, bem entendido. No momento, convém uma manobra, uma dissimulação, um subterfúgio estratégico. No momento, convém exagerar no seu zelo. Compreendeu, Battistela?
– Realmente…
– E depois, que importância teria para o senhor, que é solteiro, uma pequena redução no salário? Se em vez de 97 fossem apenas 80, isso não causaria a morte de ninguém. Digo-lhe isso porque agora até os ordenados de 90 estão dando na vista! Mas em compensação… considere a segurança, a tranqüilidade, a certeza de não ir de encontro com nenhum desprazer.
– Redução de salário?
– Está vendo como eu não estava enganado? Como era melhor me manter calado? O senhor já está dando às minhas palavras uma interpretação negativa!
– O senhor disse oitenta mil?
– Setenta talvez fosse melhor, mas creio que oitenta será o suficiente…
– Mas comendador…
– Eu sabia. O senhor é um rapaz inteligente, pega as coisas no ar, toma decisões com rapidez… Pense agora se eu, em vez de lhe falar sobre isso, me calasse… O senhor teria lá o seu aumento. De cinqüenta mil por mês. Mas, e depois? Ia se meter em poucas e boas! Seria carregado pela primeira onda. Menos mal, menos mal que existe alguém que lhe quer bem…
– Quer dizer que acha mesmo que o aumento…?
– Não resta a menor dúvida, meu filho: seria o mesmo que estar com uma corda no pescoço.
– Bem, comendador, eu lhe agradeço. O senhor me poupou de um grande aborrecimento.
– Não precisa agradecer… Vá, volte contente, volte tranqüilo para o seu trabalho. E, meu caro Battistela, saiba que o meu desgosto é apenas um: o de não poder fazer pelo senhor – eu lhe juro – um pouco mais do que fiz.

Como a criatividade está sendo estrangulada pela lei (Larry Lessig)

Uma das melhores palestras que vi até hoje no TED. Vale a pena assistir.

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Os idiotas confessos (Nelson Rodrigues)

Antigamente, o idiota era o idiota. Nenhum ser tão sem mistério e repito: — tão cristalino. O sujeito o identificava, a olho nu, no meio de milhões. E mais: — o primeiro a identificar-se como tal era o próprio idiota. Não sei se me entendem. No passado, o marido era o último a saber. Sabiam os vizinhos, os credores, os familiares, os conhecidos e os desconhecidos. Só ele, marido, era obtusamente cego para o óbvio ululante.

Sim, o traído ia para as esquinas, botecos e retretas gabar a infiel: — “Uma santa! Uma santa!”. Mas o tempo passou. Hoje, dá-se o inverso. O primeiro a saber é o marido. Pode fingir-se de cego. Mas sabe, eis a verdade, sabe. Lembro-me de um que sabia endereço, hora, dia etc. etc. solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.

Pois o idiota era o primeiro a saber-se idiota. Não tinha nenhuma ilusão. E uma das cenas mais fortes que vi, em toda a minha infância, foi a de uma autoflagelação. Um vizinho berrava, atirando rútilas patadas: — “Eu sou um quadrúpede!”. Nenhuma objeção. E, então, insistia, heróico: — “Sou um quadrúpede de 28 patas!”. Não precisara beber para essa extroversão triunfal. Era um límpido, translúcido idiota.

E o imbecil como tal se comportava. Nascia numa família também de imbecis. Nem os avós, nem os pais, nem os tios, eram piores ou melhores. E, como todos eram idiotas, ninguém pensava. Tinha-se como certo que só uma pequena e seletíssima elite podia pensar. A vida política estava reservada aos “melho-res”. Só os “melhores”, repito, só os “melhores” ousavam o gesto político, o ato político, o pensamento político, a decisão política, o crime político. Por saber-se idiota, o sujeito babava na gravata de humildade. Na rua, deslizava, rente à parede, envergonhado da própria inépcia e da própria burrice. Não passava do quarto ano primário. E quando cruzava com um dos “melhores”, só faltava lamber-lhe as botas como uma cadelinha amestrada. Nunca, nunca o idiota ousaria ler, aprender, estudar, além de limites ferozes. No romance, ia até ao Maria, a desgraçada.

Vejam bem: — o imbecil não se envergonhava de o ser. Havia plena acomodação entre ele e sua insignificância. E admitia que só os “melhores” podem pensar, agir, decidir. Pois bem. O mundo foi assim, até outro dia. Há coisa de três ou quatro anos, uma telefonista aposentada me dizia: — “Eu não tenho o intelectual muito desenvolvido”. Não era queixa, era uma constatação. Santa senhora! Foi talvez a última idiota confessa do nosso tempo.

De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foram em maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais descobriram: — a vergonhosa inferioridade numérica dos “melhores”. Para um “gênio”, 800 mil, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de cretinos. E, certo dia, um idiota resolveu testar o poder numérico: — trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisou uma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.

Se o orador fosse Cristo, ou Buda, ou Maomé, não teria a audiência de um vira-lata, de um gato vadio. Teríamos de ser cada um de nós um pequeno Cristo, um pequeno Buda, um pequeno Maomé. Outrora, os imbecis faziam platéia para os “superiores”. Hoje, não. Hoje, só há platéia para o idiota. É preciso ser idiota indubitável para se ter emprego, salários, atuação, influência, amantes, carros, jóias etc. etc.

Quanto aos “melhores”, ou mudam, e imitam os cretinos, ou não sobrevivem. O inglês Wells, que tinha, em todos os seus escritos, uma pose profética, só não previu a “invasão dos idiotas”. E, de fato, eles explodem por toda parte: são professores, sociólogos, poetas, magistrados, cineastas, industriais. O dinheiro, a fé, a ciência, as artes, a tecnologia, a moral, tudo, tudo está nas mãos dos patetas.

E, então, os valores da vida começaram a apodrecer. Sim, estão apodrecendo nas nossas barbas espantadíssimas. As hierarquias vão ruindo como cúpulas de pauzinhos de fósforos. E nem precisamos ampliar muito a nossa visão. Vamos fixar apenas o problema religioso. A Igreja tem uma hierarquia de 2 mil anos. Tal hierarquia precisa ser preservada ou a própria Igreja não dura mais quinze minutos. No dia em que um coroinha começar a questionar o papa, ou Jesus, ou Em que pese a Virgem Maria, será exatamente o fim.

É o que está acontecendo. Nem se pense que a “invasão dos idiotas” só ocorreu no Brasil. Se fosse uma crise apenas brasileira, cada um de nós podia resmungar: — “Subdesenvolvimento” — e estaria encerrada a questão. Mas é uma realidade mundial. Em que pese a dessemelhança de idioma e paisagem, nada mais parecido com um idiota do que outro idiota. Todos são gêmeos, estejam uns aqui, outros em Cingapura.

Mas eu falava de que mesmo? Ah, da Igreja. Um dia, ao voltar de Roma, o dr. Alceu falou aos jornalistas. E atira, pela janela, 2 mil anos de fé. É pensador, um alto espírito e, pior, uma grande voz católica. Segundo ele, durante os vinte séculos, a Igreja não foi senão uma lacaia das classes dominantes, uma lacaia dos privilégios mais hediondos. Portanto, a Igreja é o próprio Cinismo, a própria Iniqüidade, a própria Abjeção, a própria Bandalheira (e vai tudo com a inicial maiúscula).

Mas quem diz isso? É o Diabo, em versão do teatro de revista? Não. É uma inteligência, uma cultura, um homem de bem e de fé. De mais a mais, o dr. Alceu tinha acabado de beijar a mão de Sua Santidade. Vinha de Roma, a eterna. E reduz a Igreja a uma vil e gigantesca impostura. Mas se ele o diz, e tem razão, vamos, já, já, fechar a Igreja e confiscar-lhe as pratas.

Cabe então a pergunta: — “O dr. Alceu pensa assim?”. Não. Em outra época, foi um dos “melhores”. Mas agora é preciso adular os idiotas, conquistar-lhes o apoio numérico. Hoje, até o gênio se finge imbecil. Nada de ser gênio, santo, herói ou simplesmente homem de bem. Os idiotas não os toleram. E as freiras põem short, maiô e posam para Manchete como se fossem do teatro rebolado. Por outro lado, d. Hélder quer missa com reco-reco, tamborim, pandeiro e cuíca. É a missa cômica e Jesus fazendo passista de Carlos Machado. Tem mais: — o papa visitará a América Latina. Segundo os jornais, teme-se que o papa seja agredido, assassinado, ultrajado etc. etc. A imprensa dá a notícia com a maior naturalidade, sem acrescentar ao fato um ponto de exclamação. São os idiotas, os idiotas, os idiotas.

[19/8/1968]