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PC (Antônio Prata)

3/8/09

O politicamente incorreto está na moda nos meios de comunicação. (Fora deles, não, pois não pode estar na moda o que nunca caiu em desuso). Colunistas, jornalistas e blogueiros enchem o peito e, como se fossem os paladinos da liberdade de expressão, desancam os movimentos sociais, o feminismo, maio de 68, os quilombolas, os índios e tudo mais que tiver um ar de correção política ou cheire a idéias de esquerda. Tá legal, eu aceito os argumentos, mas não levantem as vozes tanto assim: não há ousadia nenhuma em ser politicamente incorreto no Brasil; aqui, a realidade já o é.

Imagine uma escola religiosa na Dinamarca. Flores nas janelas, cheiro de lavanda no ar, vinte alunos loiros, com cristo no coração e leite A correndo pelas veias, respondendo a uma chamada oral sobre o Pequeno Príncipe. Ali, o garoto que se levantar e cuspir no chão será ousado. Mostrará que a despeito do aroma de lavanda, o ser humano é áspero, é contraditório, é violento. Quando a realidade fica muito Saint-Exupéry, é importante que surjam uns Sex Pistols para equilibrar. Agora, cuspir no chão de uma escola municipal em São Paulo, diante da professora assustada que não consegue fazer com que os alunos, analfabetos aos dez anos, fiquem quietos, não tem nenhuma valentia. Quando a realidade da polis é o caos, o som e a fúria são a correção política.

O sarcasmo dirigido aos intelectuais de esquerda seria audaz e iconoclasta caso o Brasil tivesse vivido de 37 a 45 e de 64 a 85 sob as ditaduras de Antonio Candido e Paulo Freire. Se antropólogos de pochete e índios com camisa do Flamengo estivessem ameaçando o agronegócio, devastando lavouras de soja para plantar urucum e cabaça para fazer berimbau. Se durante o carnaval as feministas pusessem no lugar da Globeleza drops de filosofia com Marilena Chauí e Susan Sontag. Se a guitarra elétrica fosse banida da MPB pela banda de pífanos de Caruaru. Do jeito que as coisas são, contudo, o neoconservadorismo faz sucesso não porque choca a burguesia, ao cuspir no solo de onde brotam seus nobres valores, mas porque assina embaixo da barbárie vigente – e ri dela.

Nos EUA, o politicamente correto está tão entranhado nas relações que eles até o chamam pelo apelido: PC. Aqui, as duas letras ainda nos remetem ao tesoureiro do Collor, o ex-presidente que caiu após escândalos de corrupção e apareceu na capa dos jornais essa semana depois de ser eleito para chefiar uma comissão no senado. Enquanto não substituirmos um PC pelo outro, em nosso imaginário e nas manchetes, quem quiser cuspir no chão pode continuar cuspindo, mas deixe de lado esse tom varonil de quem está pegando touro à unha, quando não faz mais do que chutar cachorro morto.

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  1. fevereiro 20, 2010 às 7:07 pm

    Excelente! Disse tudo. Esses pretensos “livres pensadores” enchem o saco. Parecem contestadores, mas só fazem impedir verdadeiras contestações. Dizem ser amantes da liberdade, mas adoram a prisão do conformismo.

  2. fevereiro 20, 2010 às 11:50 pm

    Acho “verdadeiras contestações” um termo amplo demais. Eu por exemplo, prefiro guitarras elétricas aos pífanos de Caruaru.

    Criticar o que é obviamente criticável é lugar comum, como bem colocou o Prata. Mas isso não quer dizer que as alternativas sejam perfeitas ou mais ou menos verdadeiras que as outras.

    Se os drops de filosofia da Marilena Chauí e Susan Sontag não substituíram a Globeleza, não é por culpa da Globeleza.

  3. maio 24, 2011 às 7:09 pm

    Excelente.
    Eu também falei sobre politicamente incorreto, lê aí: http://www.suza.com.br/?p=2319

    • maio 25, 2011 às 10:24 am

      Suza, interessante o seu artigo, mas discordo de algumas partes. Postei resposta lá no seu blog.

      Abraços!

  4. maio 28, 2011 às 11:35 am

    Antonio, que lucidez, cara! Valeu, valeu, valeu, mais uma bola dentro, dentríssimo! Um abração, querido.

    Adriano de Almeida

  5. novembro 2, 2012 às 11:25 pm

    Minha educação politica e intelectual veio tarde e um das consequências disso é não saber me expressar em textos ou afins o que gostaria. Fico extremante feliz em ler artigos como esse que contém idéias que parecem ter saído de minha mente. Viva a internet.

  1. junho 3, 2011 às 7:21 pm

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