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Bob Dylan – It’s Alright, Ma (I’m Only Bleeding)

Traduzi mais uma do Dylan… e a culpa não é inteiramente minha. Cometi o erro de baixar a discografia completa, e já vou completar três semanas sem ouvir nada diferente (por sorte a discografia é estupidamente grande).

Bizarrices à parte, essa é uma das minhas músicas favoritas, e já faz um tempinho que eu planejava postar a tradução por aqui — não fosse o tamanho, eu provavelmente teria feito antes.

Também vale comentar o clipe amador (mas ainda assim interessante) que eu coloquei junto com a letra. O dono do clipe, é uma história a parte. O cara é um diretor/escritor/mendigo, e essa montagem sobre “It’s All Right, Ma” é uma das muitas partes da sua auto-biografia(!) “Sketches of Nothing by A Complete Nobody”, que em uma tradução tosca, seria algo como “Esboços de nada por um completo ninguém”.

O sujeito atende pela alcunha de BumDog; e ele colocou alguns trechos da sua biografia em um canal do MySpace, e apesar de ele não atualizar desde 2006, de cara posso dizer que a vida de um mendigo pode ser mais interessante e inusitada do que se pode imaginar.

Pra ver a letra original da música no site oficial do Dylan, é só clicar no título abaixo.


Tudo bem, Mãe (só estou sangrando)

Escuridão no cair da tarde
sombras igualam a colher prateada
a lâmina feita a mão, o balão da criança
Criam um eclipse em ambos sol e lua
Pra entender que você sabe cedo demais
Não tem sentido em tentar.

Ameaças dirigidas, blefam com escárnio
Observações suicidas são rasgadas
do bocal dourado de um tolo
o chifre vazio toca palavras gastas
Provam avisar
Que aquele que não está ocupado nascendo
está ocupado morrendo.

A página da tentação voa pela porta
Você continua, e se encontra em guerra
Assiste cascatas de piedade rugir
Você sente um lamento mas diferente de antes
Você descobre
Que você é apenas
Mais uma pessoa chorando

Então não tema, se você ouvir
um som estranho aos seus ouvidos
Está tudo bem, Mãe, estou só suspirando

Enquanto alguns avisam da vitória, outros perdem
Razões particulares, grandes ou pequenas
Podem ser vistas nos olhos daqueles que chamam
tudo que deveria ser morto à rastejar
Enquanto outros dizem “não odeie absolutamente nada
Exceto o ódio”

Palavras de desilusão latem como balas
Enquanto deuses humanos miram seus alvos
Fazendo tudo desde armas de brinquedo que brilham
à Cristos cor de pele que brilham no escuro
É fácil perceber sem olhar muito longe
que pouca coisa
é realmente sagrada

Enquanto pregadores pregam sobre destinos maléficos
Professores ensinam que a espera por conhecimento
Pode levar à pratos de cem dólares
Bondade se esconde atrás dos portões
Mas até o presidente dos Estados Unidos
Às vezes tem que
ficar nu.

E apesar das regras da estrada já estarem alojadas
É apenas do jogo das pessoas que você tem de esquivar
E está tudo bem, Mãe, eu consigo.

Cartazes publicitários que te enganam
a pensar que você é aquele
que pode fazer o que nunca foi feito
Que pode vencer o que nunca foi vencido
Enquanto a vida lá fora continua
Ao seu redor.

Você se perde, você reaparece
Subitamente descobre que não tem nada a temer
sozinho você fica em pé, com ninguém perto
Quando uma voz distante tremendo, vaga
Aguçam seus ouvidos adormecidos à ouvir
Que alguém acha
Que realmente te encontrou.

Uma questão é acendida no seus nervos,
Entretanto você sabe que não há resposta feita pra satisfazer
Garantir que você não desista
Para manter em sua mente e não esquecer
que não é ele ou ela, eles ou aquilo
Que lhe pertencem.

Apesar dos mestres criarem as regras
Para os sábios e para os tolos
Eu não tenho nada, Mãe, para continuar vivendo.

Para eles que precisam obedecer as autoridades
que não respeitam em grau algum
Que desprezam seus empregos, seus destinos
Falam com inveja daqueles que são livres
Cultivam flores para se tornarem
nada mais do que algo em que
investiram.

Enquanto alguns batizados por princípio
à rígidas políticas partidárias amarram
clubes sociais à reboque disfarçam
Intrusos que eles podem criticar livremente
Dizendo nada exceto quem idolatrar
E depois dizer Deus abençoe ele.

Enquanto um canta com a língua em chamas
vomita no coro da raça de ratos
Entortado além do formato do fórceps da sociedade (*)
Não se importando em se erguer nem um pouco
Mas sim lhe trazer para dentro do buraco
onde ele está.

Mas eu não tenho más intenções, nem quero colocar culpas
em ninguém que viva dentro de um cofre
Mas está tudo bem, Mãe, se eu não posso agradá-lo.

Velhas juízas vêem pessoas em pares
Limitadas no sexo, elas se atrevem
a empurrar falsas morais, insultar e encarar
enquanto o dinheiro não fala, ele xinga
Propaganda, é tudo falso.

Enquanto aqueles que defendem o que não podem ver
com um orgulho assassino, segurança
lhes enche a cabeça da forma mais amarga
Para quem acha que a honestidade da morte
não lhes cairá naturalmente
A vida às vezes
deve se tornar solitária.

Meus olhos colidem direto com cemitérios recheados
Deuses falsos, eu me arrasto
à insignificância que joga tão duro
anda de cabeça pra baixo de algemas
Bica minhas pernas para quebrá-las
Tudo bem, eu já aguentei demais
O que mais você pode me mostrar?

E se meus pensamentos/sonhos pudessem ser vistos
Eles provavelmente colocariam minha cabeça em uma guilhotina
Mas está tudo bem, Mãe, é a vida, e apenas a vida.

(*) No original: “Bent out of shape from society’s pliers“. Sobre a palavra “fórceps”, usada aqui para traduzir “pliers“, segundo definição do Aurélio quer dizer: “Instrumento que se usa para, a partir de indicação adequada, extrair uma criança do útero”.
Em inglês a frase tem um duplo sentido mais óbvio (e bem mais forte), pois ao mesmo tempo que faz referência ao ato de entortar um instrumento metálico usado para realizar abortos, sugere também – pelo o que se pode interpretar no resto da estrofe – a idéia de alguém que se coloca propositalmente em uma posição grotesca em relação à sociedade para lhe devolver o mesmo mal que ela lhe traz, rejeitando a possibilidade de se tornar algo melhor; como mencionado no final da estrofe: “Cares not to come up any higher”/But rather get you down in the hole/That he’s in“.
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Categorias:Bob Dylan, Músicos Tags:,
  1. Popp
    maio 29, 2009 às 1:37 pm

    Fico ótimo, e atual, obrigado pela tradução.
    Seria pedir demais que colocasse a legenda no video rsrs. De qualquer forma valeu!

    • junho 1, 2009 às 12:15 am

      Opa, realmente seria uma boa! Você tem alguma sugestão de programas interessantes (e sem custos) para fazer isso?

      Abraços!

  2. Tiago
    junho 5, 2009 às 10:25 am

    Boa, tava procurando na net a tradução, e é melhor doque eu imaginava.

  3. Ricardo
    junho 23, 2009 às 1:42 pm

    Ficou legal, li apenas de relance e uma correcaozinha nao mto profunda mas que notei que precisa ser feita é aqui:

    “Mas eu não tenho más intenções, nem quero colocar culpas
    em ninguém que viva dentro de um cofre
    Mas está tudo bem, Mãe, <>.”

    do original :

    “But I mean no harm nor put fault
    On anyone that lives in a vault
    But it’s alright, Ma, <>”

    Acho que seria : Mas está tudo bem, Mae, se eu nao posso agradá-lo.

    Bom, fica a sugestao. Mas parabéns de qq forma.
    Ricardo

    • junho 24, 2009 às 1:52 am

      Olá Ricardo, eu realmente cometi um erro na hora de traduzir — aparentemente eu troquei “can” por “can’t” por alguma desatenção, e acabei mudando o sentido da frase. Obrigado por apontar o erro!

      Abraços,
      Conselheiro Acácio

  4. marcelo
    março 14, 2010 às 10:32 am

    Ô meu nego, traduzir assim é facil… Quero ver você manter as rimas e a métrica, que são o grande lance dessa musica!

    Uma canção do Caetano que parece ter uma influência direta da estrutura dessa do Dylan: “Ele me deu um beijo na boca”
    Alias, o Dylan é citado.

    • março 15, 2010 às 12:04 am

      Opa Marcelo, acho que existem diversas maneiras de abordar uma tradução e no caso da poesia, para mim como leitor, prefiro sacrificar a métrica ou mesmo a sonoridade para manter a originalidade e o sentido que o autor colocou nos versos originais. O problema de versões ou de músicas inspiradas na original é que se tornam algo totalmente diferente do traduzido, e eu não tenho pretensão de fazer isso de jeito algum. Não sou poeta e acho que a letra do Dylan já está bem boa como está.

      Concordo com o Ruy Ventura quando diz: “Somente a tradução literal é genuína, uma vez que apenas ela transmite rigorosamente o significado contextual do original”.

      Quanto a canção do Caetano, não conheço.

      Abraços!

    • junho 13, 2010 às 2:46 am

      Marcelo, pra facilitar as coisas o Ivan Justen Santana postou nos comentários abaixo uma versão bem interessante da música, vale a pena dar uma conferida.

      Abraços

  5. junho 10, 2010 às 11:09 pm

    TÁ TUDO CERTO, MÃE (SÓ ESTOU SANGRANDO)
    (It´s Alright, Ma, I´m Only Bleeding)

    Ao raiar do meio-dia, a escuridão
    Assombra até a lâmina feita à mão,
    A colher de prata, o bebê e o balão,
    Eclipsa a lua e o sol no chão,
    Não adianta nem buscar razão:
    Você sabe que não está entendendo.

    Ameaças agudas lançadas ao ar,
    Declarações suicidas a se rasgar,
    Porta-voz de ouro-de-tolo a cornetar
    Palavras gastas que só vêm provar:
    Quem não está nascendo por lá
    Está ocupado ali morrendo.

    O pajem da tentação sai pela janela,
    Você vai atrás e se acha em guerra,
    A cascata piedosa rosna e berra,
    Você quer gritar, mas não é mais aquela
    Pessoa que achava que você era,
    É só mais um gemendo.

    Então se um ruído esquisito
    Ressoar aí no seu ouvido
    Tá tudo certo, mãe, é só o meu lamento.

    Alguns cantam glória e outros, derrota,
    Grandes ou não, razões sempre próprias
    São vistas nos olhos daqueles que forçam
    E arrastam as pessoas a serem mortas
    Enquanto outros dizem que só o ódio
    Deve ser odiado.

    Palavras cínicas disparam em uivos
    De deuses humanos criando seus mundos
    Com armas de brinquedo feitas pra adultos
    E Cristos coloridos que brilham no escuro,
    É fácil perceber, sem procurar muito:
    Hoje nada mais é sagrado.

    Pregadores pregam um destino infeliz,
    Professores professam o saber da raiz,
    O mapa da mina no quadro de giz,
    A bondade se esconde na própria matriz
    Mas até o presidente dum grande país
    Às vezes precisa andar pelado.

    E se a regra do jogo está fora de alcance
    É só desviar de quem fez o lance
    E tá tudo certo, mãe, dou conta do recado.

    Propagandas que te levam a mal,
    A pensar que só você é mesmo o tal
    Que pode mais que qualquer mortal
    Que vence o que há de mais sensacional
    Enquanto isso a vida segue normal
    E você nem vê.

    Você se perde e se encontra de novo,
    Súbito quer ser mais corajoso
    Sozinho, você vai pra longe do povo
    Quando uma voz em tom cavernoso
    Surpreende o seu ouvido em repouso
    E diz achar mesmo que achou você.

    Uma pergunta bate à sua porta
    Mas você sabe que não tem resposta
    Pra assegurar que algo ainda importa,
    Pra que a verdade seja toda exposta:
    Não existe pessoa viva ou morta
    A quem você deva pertencer.

    E apesar dos senhores fazerem os planos
    Aos homens sábios e aos insanos
    Nada me obriga, mãe, a corresponder.

    Aos que precisam bater continência
    À lei que desprezam em sã consciência
    E odeiam o que fazem, não têm paciência,
    Invejam quem é livre em sua ausência,
    Cultivam as flores dessa experiência
    Somente como algo a investir.

    Enquanto outros, batizados em princípios
    A laços estreitos, ideias e partidos,
    Clubes restritos disfarçam, contidos,
    Aqueles que escondem o senso crítico
    Só falam quais devem ser os ídolos
    E depois “Deus abençoe este aqui”.

    Enquanto quem canta com a língua em chamas
    Gargareja no coral dos falsos dramas,
    Torto pela sociedade e suas tramas
    Não luta pra tirar os pés da lama
    Mas sim pra arrastar à mesma lama
    Todos que passem por ali.

    Mas não quero mal nem aponto defeito
    A qualquer sujeito que viva sujeito
    E tá tudo certo, mãe, se eu fizer ele sorrir.

    Velhas senhoras observam casais,
    Limitadas em sexo, julgam-se as tais,
    Desprezam baseadas em falsas morais
    E a grana não fala, xinga e grita mais,
    Obscenidade em todos os canais,
    Propaganda é isso aí, hipocrisia.

    Enquanto defende-se o que nem se vê
    Com orgulho assassino, e é assim que
    As certezas estupidificam você,
    Aos que não conseguem nem perceber
    A verdade natural de que vão morrer
    Deve ser muito solitária essa vida.

    Meus olhos colidem em cheio, em cheios
    Cemitérios, deuses vazios, não creio
    Na mesquinhez que se impõe no meio,
    Vou de ponta-cabeça, algemado, sem freio,
    Catando cavaco e enfim, já cheio,
    Digo ok, você disse a que veio,
    Tem mais algum lance na partida?

    E se vissem o que minha mente imagina
    Talvez me condenassem à guilhotina
    Mas tá tudo certo, mãe, é a vida, é só a vida.

    Bob Dylan

    versão brasileira: Ivan Justen Santana

    mais aqui: http://ossurtado.blogspot.com/search?q=dylan

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