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Um Conto da Velha Tübingen (Hermann Hesse)

Corria o ano vinte do século passado e se os destinos do mundo pareciam, nessa época, diferentes dos de hoje, o fulgor do sol era idêntico e o vento não soprava então de maneira diversa da de agora sobre o verde e tranqüilo vale do Neckar. Um bonito e alegre dia do começo de verão amanhecera sobre os terraços em socalco das colinas circunjacentes e viera abraçar festivamente a cidade do Tübingen, envolvendo em sua luz o castelo e os vinhedos, o Neckar e o Ammer, a universidade e a igreja do seminário, m i rando-se nas águas frescas e cristalinas do rio e pousando, de quando em vez, uma sombra suave de nuvem na calçada reluzente da Praça do Mercado, batida pelo sol. No instituto teológico, os jovens e turbulentos seminaristas t i nham acabado de levantar-se da mesa do almoço. Saindo de roldão do refeitório, conversavam, riam e discutiam pelos velhos e ressoantes corredores de pedra ou no espaçoso claustro, onde se projetavam as longas e recortadas sombras do edifício. Alguns seminaristas deixaram-se ficar junto das portas abertas dos quartos, formando animados grupos; outros preferiram ir desfrutar sozinhos essas horas quietas da matina que antecedem o início dos deveres estudantis. Uns, alegres e efusivos, outros, mais graves ou sonhadores, todos eles refletiam no rosto adolescente o belo dia de verão; e muitos dos sonhos que ardiam na mente de alguns desses jovens, cujos nomes ainda hoje são respeitados por outros jovens agradecidos e apaixonados, resplandeciam — sem que eles o suspeitassem — na fronte pueril e generosa de cada um deles. Numa das janelas que dava para o Neckar encontrava-se o estudante Eduard Morike, contemplando deleitado a verdejante paisagem matinal que se divisava do alto da coluna do seminário; um casal de andorinhas esvoaçava alegremente, em velozes e caprichosas curvas, e o jovem tinha um sorriso distraído com seus lábios finos. Eduard completara há pouco vinte anos e, pelo seu inesgotável e efervescente bom humor, era muito estimado pelos colegas. Não raras vezes lhe acontecia, porém, em meio aos mais agradáveis momentos, ficar subitamente tenso, o olhar surpreso e comovido, como se tivesse sido empurrado de repente para diante de uma obra-prima, um quadro de inacreditável beleza, despertando nele ignoradas emoções; e como, nesses instantes, pressentia que toda a beleza do mundo nada mais era do que pálida sugestão de algo que somente seus olhos percebiam, despertava em sua alma uma secreta e fina dor. Tal como a solução de sal ou a fria água invernal precisam tão-só de mais um leve toque para se transformarem em puros cristais, assim no espírito poético do jovem Eduard a visão do Neckar, correndo entre renques de árvores, com suas copas verdejantes e alinhadas ao longo das margens silenciosas, do buliçoso casal de andorinhas e da paisagem levemente enevoada das montanhas transfigurou-se num quadro imóvel, cristalizado por seus delicados sentidos numa realidade poética infinitamente superior à que a natureza lhe oferecia. Mais quente era a luz que brincava na densa folhagem do arvoredo, mais etérea a cordilheira que deslizava para o horizonte distante e quase translúcido, mais ridentes os gramados que atapetavam o vale, mais forte era a voz do rio, confidenciando-lhe estranhos sonhos de primitivos deuses — como se o verde das árvores, o cavalgar das nuvens, o vozear do rio, a claridade do sol implorassem a salvação e vida eterna na alma do Poeta. O comovido jovem não compreendia ainda o significado dessas vozes suplicantes, pois em seu intimo ainda não despertara completamente a vocação para refletir, transfigurada, como num espelho mágico, a beleza do mundo. Em sua mente pensativa refletiam-se apenas as intimas suspeitas, as sugestões semiconscientes, porquanto em sua alma ainda não penetrara o conhecimento de sua solitária e sofrida distinção entre o que os olhos vêem e o espírito sublima. É certo que, por causa de seu alegre temperamento, Eduard procurava esquivar-se muitas vezes ao fascínio desses momentos que o torturavam e sentia a repentina necessidade de procurar consolo, como uma criança assustada, junto de seus amigos, aturdindo-se de música, joviais conversas, risos, que sufocassem os doloridos transes da sua solidão, dissipassem entre m i l vozes os seus acessos e de melancolia e sede insatisfeita. Seus olhos, sua boca riam, ébrios de vida; aqueles indícios secretos de uma outra existência — aquela que um estimado Poeta definiu como a comunhão transcedente do mundo e da alma — ainda não transparecia no rosto puro de Eduard ou, quando muito, reduzia-se a uma tímida e passageira sombra. Assim estava ele parado à janela, sorvendo com os olhos a deslumbrante paisagem estivai, por instantes alheios ao mundo e ao tempo, quando um estudante veio ruidosamente descendo as escadas. Notando a presença do absorto Eduard, acercou-se dele, com grande estrépito, e colocou-lhe vigorosamente as mãos sobre os ombros estreitos. Sobressaltado, como se despertasse bruscamente de um profundo sono, Mõrike voltou-se, com uma sombra de irritação nos grandes e suaves olhos violentamente arrancados à contemplação. Mas logo se recompôs, sorriu e agarrou as mãos que o seguravam de um a outro lado do pescoço. — Waiblinger! Devia ter pensado que eras tu! Para onde vais correndo outra vez? Wilhelm Waiblinger olhava o amigo com seus fascinantes olhos azuis-claros. Sua boca era cheia, carnuda e sensual, e ao falar tinha um jeito peculiar de franzir os cantos da boca que lhe davam uma expressão de petulância feminina. — Para onde? — gritou ele, com modos agitados. — Onde poderei encontrar refúgio, bem longe de vossas predestinadas barrigas de abade, senão em alguma taberna e afogar minha alma imortal em cerveja e vinho, até que somente os picos mais altos sobrenadem o mar de lodo? Tu, ouriço do mar, bem que poderias ser ainda o meu melhor amigo e companheiro mas ando muito desconfiado de que afinal também és um pérfido e corrupto filisteu! Não, já não posso contar com ninguém neste lúgubre inferno, não tenho um amigo que goste de me acompanhar! Não sou eu o truão da corte, o bêbedo inveterado? O traidor que vende a alma dos seus amigos por um ducado cada ao editor Franckh de Stuttgart? Mòrike sorria e observava o rosto agitado que lhe era tão familiar, na estranha mistura de brutal sinceridade e representação patética. Os compridos cabelos em louros cachos flutuantes, com que Waiblinger chegara a Tübingen e lhe deram tanta fama e comentários trocistas, já tinham caido havia algum tempo. Num momento de fraqueza, deixara que a mulher de um conhecido cidadão os cortasse como lembrança. — Sim, Waiblinger — disse Eduard pausadamente. — Isso, em parte, é verdade. Mas também pouco fazes para cooperar. Lembras-te de quando sacrificaste os teus cabelos? Havias decidido também que não beberias mais cerveja antes do almoço. Mas assim como os cabelos voltaram a crescer, a tua promessa não resistiu ao crescente desejo de beberes e foi esquecida. És muito volúvel. Com um exagerado gesto do desafio, Waiblinger jogou para trás a cabeça e encarou o amigo com expressão desdenhosa. — A h ! Agora também tu começas com sermões! — disse ele. — Era só o que me faltava! Mas que tristeza. Isto está ficando cada vez mais insuportável! Porém uma coisa te digo, ó ungido de Deus! Um dia ficarás apodrecendo numa fedorenta paróquia, e servirte-ás da filha solteirona e beata do teu sacristão, e criarás barriga, e venderás os dias mais inspirados de teu espírito por um prato de lentilhas, e renegarás teus amigos de infância por um aumento de prebendas! E certamente será um pecado mortal, uma vergonha inominável, ter por amigo um Waiblinger, cujo nome deveria ser extirpado da memória dos justos e devotos! Reverendo Mbrike, cônego Mòrike, bispo Morike, sua eminência sabe o que é? Um ouriço do mar! Fechado e enigmático. E a minha maldição é que tenho de ser teu amigo e picar-me nos teus espinhos, porque estou convencido de que também me consideras um corrupto. Quando te procuro de coração aflito, em busca de refrigério para minhas angústias, o que escuto? Uma descompostura por ter bebido cerveja! Não, só tenho um único e sincero amigo, e é esse que eu vou agora mesmo procurar. É meu semelhante, usa a camisa pendurada fora das calças e está há vinte anos tão louco quanto eu estarei em breve. Interrompeu-se remexendo nervosamente as pontas do lenço que enfiara na manga da batina. E, de chofre, num tom de voz mais moderado, quase implorante: — Ouviste? Eu quero ir visitar Holderlin. Tu vens comigo, não é? Mürike, um gesto largo das mãos pela janela aberta, exclamou: — Olha lá fora! Vê como tudo é belo, repousante, respirando paz e uma tão luminosa alegria. Assim terá Hòlderhn visto também o que estamos agora contemplando, quando compôs a sua ode sobre o vale do Neckar. Sim, é claro que vou contigo. Mõrike afastou-se da janela e Waiblinger ainda ficou imóvel por alguns instantes, olhando para fora, como se realmente o amigo lhe tivesse feito ver, pela primeira vez, a beleza de um quadro que, afinal de contas, era tão familiar a um quanto a outro. Depois, deu uma corrida para alcançar Morike, enfiou seu braço no dele e, enquanto caminhavam, Waiblinger abanou repetidamente a cabeça, pensativo. Sua expressão irrequieta e zom-beteira deu lugar a um semblante grave e concentrado. — Estás zangado comigo? — perguntou bruscamente. Mõrike riu, sem abrandar o passo, e encolheu os ombros. — Sim, lá fora é tudo muito belo — prosseguiu Waibhnger. — Talvez Holderlin tenha composto seus melhores poemas quando descobriu aqui, em sua terra natal, as paisagens da Grécia de sua alma. Tu deves entender essas coisas melhor do que eu, pois também sabes captar um pedaço de beleza, guardá-lo e refleti-lo de novo. Eu não sou capaz disso e tampouco sei ficar muito tempo quieto e com essa tua maldita paciência. É possível que eu o consiga mais tarde, quando me tornar mais velho e frio. Atravessaram o claustro pela sombra e saíram do seminário. Waiblinger tirou o chapéu e respirou fundo o ar quente. Seguiram pelas antigas e estreitas ruas de casas silenciosas, com suas gelosias verdes fechadas para o lado sul por causa do calor, rumo à casa do mestre-carpinteiro Zimmer, situada no final da calçada. Diante da porta havia uma pilha de tábuas de pinho bem arrumadas, ainda cheirando a seiva e brilhando sob a luz do sol. A porta da casa estava aberta e tudo era silêncio. O mestre-carpinteiro ainda fazia a sesta. Os dois jovens entraram discretamente e dirigiram-se para a escada que levava ao quarto de sacada do poeta alienado quando, no escuro corredor, abriu-se uma porta e de uma sala assoalhada saiu uma bonita moça, a filha do carpinteiro, emoldurada pelo feixe de luz tênue que vinha de dentro. — Bons olhos a vejam, Srta. Lotte! — disse Mòrike, gentilmente. Ela fixou por instantes o olhar, tentando perceber os vultos na penumbra do corredor, e aproximou-se. — Bom dia, meus senhores! A h , sois vós? Bom dia, Sr. Waiblinger! Sim, ele está lá em cima. — Queremos levá-lo a passear, se nos permite — disse Waiblinger, com o tom lisonjeador que usava com todas as moças bonitas. — Claro, com este tempo tão bonito. Vão até ao Pavilhão de Pressel? — É essa a nossa idéia, Srta. Lotte. Será que alguém poderia ir buscá-lo mais tarde? É apenas uma pergunta. Se for muito incômodo, nós próprios o traremos de volta. É sempre um prazer vir à sua casa, senhorita. — Não, não. Eu irei depois apanhá-lo. Que não fique muito tempo ao sol. Isso faz-lhe mal. — Não esquecerei a recomendação. Até logo, então! Lotte desapareceu de novo e, com ela, a réstia de luz que vinha da sala. Os dois estudantes subiram a escada e encontraram a porta do quarto de Hòlderlin semi-aberta. Com o acanhamento que, apesar de suas freqüentes visitas, sentia cada vez que se enco/itrava diante daquela soleira, Waiblinger adiantou-se um pouco e bateu. Como não recebesse resposta, empurrou de mansinho a porta, que gemeu nos gonzos, e os dois entraram. A figura esguia do infeliz debruçava-se na sacada do seu modesto mas bonito e arrumado quarto, a contemplar o Neckar, que corria sob a janela. Hblderlin estava em mangas de camisa, a gola aberta, o pescoço fino, a cabeça imóvel e levemente inclinada para o rio de seus antigos e inspirados sonhos. Perto do balcão estava a escrivaninha, um molho de penas de ganso enfiadas no tinteiro e uma outra atravessada sobre algumas folhas de papel já escritas. Uma leve aragem rumorejava nas árvores e penetrava no quarto. O poeta virou-se para dentro ao ouvir ruido, encarou os dois rapazes com os olhos puros, que caíram primeiro em Mòrike, a quem não deu mostras de reconhecer. Eduard fez uma breve reverência e disse, algo embaraçado: — Bom dia, senhor bibliotecário! Como está o senhor? O poeta pousara os olhos no chão e descreveu uma reverência exageradamente profunda, ao mesmo tempo que murmurava algumas palavras incompreensíveis. Depois, outra e outra reverência, com uma horrível e mecânica humildade, a cabeça levemente grisalha descendo até quase ao nível da cintura e as mãos cruzadas sobre o peito, como se pretendesse fazer uma imitação burlesca da saudação tradicional dos orientais. Waiblinger adiantou-se, colocou uma mão sobre o braço do poeta e disse: — Por quem é, estimado senhor bibliotecário! Hòlderlin inclinou-se outra vez e murmurou: — Sim, Majestade. Como Vossa Majestade ordenar. Quando encontrou os olhos de Waiblinger, reconheceu o seu jovem amigo e assíduo visitante. Parou de fazer reverências, deixou que ele lhe apertasse a mão e pareceu mais calmo. — Viemos buscá-lo para dar um pas.seio — disse Waiblinger, que, no seu trato com o doente, perdia o ar petulante e estouvado que os colegas lhe conheciam. Eduard notou, surpreendido, como o seu amigo parecia outro ao falar com aquela tão querida sombra humana, dedicando-lhe palavras bondosas que não usava com mais ninguém. Tampouco sabia de uma ligação tão constante como a que mantinha com o poeta alienado, trinta anos mais velho do que ele, e a quem tratava ora carinhosamente, como se convence uma criança ingênua, ora respeitosamente, como se trata um nobre e respeitado amigo. O seminarista Mòrike observava, com certa emoção, a habilidade e paciência do tão rebelde e temperamental colega. Waiblinger parecia conhecer bem o quarto de Hõlderlin. De um cabide atrás da porta retirou o jaquetão do poeta, de uma gaveta o seu cachecol de lã, e ajudou-o a vestir-se, como uma mãe ajuda seu filho. Com o próprio lenço sacudiu a poeira dos joelhos das calças de Hòlderlin, procurou-lhe o chapéu de grandes abas descaídas e escovou-o meticulosamente, enquanto falava e o animava constantemente: — Muito bem, senhor bibliotecário. Agora já estamos prontos para sair. Hoje faz um tempo esplêndido. É uma boa ocasião de irmos todos respirar um pouco de ar fresco, entre as árvores e as flores. Assim… excelente, senhor bibliotecário… Agora só falta o chapéu, s’il vous plaít… Ao que o velho poeta, que durante todo esse tempo não proferira palavra, respondeu em tom gentil mas distante: — Vossa Excelência manda. Je vous remercie mi/ig fois Sr. von Waiblinger. Deixou-se cuidar docilmente e seu rosto, de nobres e finos traços que a idade e a doença tinham parcialmente deteriorado, parecia observar o afã de Waiblinger ora com distraída indiferença, ora com íntima superioridade. Mòrike, entrementes, acercara-se da escrivaninha e, em pé, leu a folha manuscrita sobre a qual estava pousada a pena de pato. Era um poema. Seus versos estavam impecavelmente medidos e neles se refletiam os sombrios pensamentos que turbilhonavam na destroçada mente do Poeta: imagens fulminantes que eram bruscamente interrompidas por lamentações sem nexo; quadros da mais pura e irretocável plasticidade, numa linguagem sensível e musical, cuidadosamente tratada, logo truncados por frases de um maçante e pomposo estilo de púlpito. — Bom, vamos — disse Waiblinger. Hòlderlin seguiu-os, obediente, sem deixar de repetir duas ou três vezes, quando chegou à porta: — O senhor barão manda. Às ordens de Vossa Senhoria A l t o e magro, Friedrich Hòlderlin desceu a escada, atravessou o pátio interno e começou caminhando lentamente pela rua afora o grande chapéu puxado para os olhos, murmurando coisas indistintas, aparentemente alheio ao mundo que o cercava. Na ponte sobre o Neckar, onde estavam acocorados dois guris descalços, brincando com uma lagartixa morta, o Poeta parou e, com um gesto solene, tirou o chapéu — respeitosamente — diante das duas crianças. Mõrike caminhava a seu lado e numa ou noutra janela, num ou noutro portal, as pessoas seguiam algum tempo com os olhos o bizarro grupo, sem que manifestassem, entretanto, grande curiosidade ou excitação, pois todo mundo já conhecia o Poeta louco e seu destino. Subiram a ladeira do ensolarado Oesterberg, ladeando floridos jardins e muros sobre os quais espreitavam latadas de parreiras. Na frente ia agora Waiblinger, com sua figura desempenada e robusta. Ele já sabia, por experiência, que Hòlderlin jamais tomava a dianteira e precisava ser sempre guiado, por mais que percorresse o mesmo caminho anos e anos à fio. O Poeta caminhava devagar e de semblante grave, cabisbaixo, e a seu lado ia Morike, solicito trajando o mesmo uniforme negro do seu colega. Ao longo do caminho, pelas frestas dos muros pendiam, sobre a ladeira, gerânios arroxeados e milefólios brancos, e Hòlderlin cortava, ocasionalmente, uma haste florida e guardava-a consigo. O calor não parecia incomodá-lo e, quando chegaram ao alto da colina, olhou satisfeito à sua volta. A l i estava situado o “pavilhão chinês” do Assistente Pressel, que no verão ficava sempre à disposição dos estudantes e do qual Waiblinger fizera sua residência, sempre que o tempo o permitia. Tirando do bolso uma pesada chave de ferro, ele subiu os três degraus que levavam à entrada, abriu a porta e, com gesto efusivo, convidou o Poeta: — Entre, senhor bibliotecário, e seja bem-vindo! HòlderHn tirou o chapéu e entrou no gracioso pavilhão, que já conhecia e muito amava. Assim que, por sua vez, Waiblinger entrou, o Poeta dirigiu-se-lhe imediatamente, fez uma reverência profunda e disse, com mais vivacidade do que antes: — Às ordens de Vossa Senhoria. Os meus respeitos ao Senhor Barão. A vossa magnanimidade me proteja. Votre três humble serviteur. Encaminharam-se todos para o pequeno gabinete de estudos e Hòlderhn aproximou-se da escrivaninha, sobre a qual estava pendurado um quadro, na parede, que continha apenas, em grandes caracteres gregos, esta misteriosa frase: ” D o Todo o Uno e do Uno o T o d o . ” O Poeta ficou alguns instantes em concentrada meditação, defronte do quadro. Com a tênue esperança de encontrá-lo mais acessível a uma conversa, Mòrike chegou-se a ele e perguntou, afavelmente: — Creio que está reconhecendo essa frase, não é verdade, senhor bibliotecário? Hòlderlin afastou-se incontinenti, entrincheirado em seu impenetrável cerimonial de corte, dizendo: — Majestade, a isso não posso nem devo responder. Segurava ainda na mão o ramo de flores colhidas pelo caminho e começou a desfolhá-lo, metendo as pétalas desfeitas no bolso. Aproximou-se depois da ampla janela que, para além da colina coberta de vinhedos, oferecia um vasto panorama de jardins descendo até o vale do Neckar e, em frente, as encostas iluminadas do A l b . Embebido na tranqüila paisagem, ali ficou o Poeta sorvendo a grandes haustos o ar impregnado de luz e aromas; e sua expressão descontraída e feliz denunciava que sua alma em trevas ainda era capaz de abrir-se e reagir ao fascínio do maravilhoso quadro ante seus olhos. Waiblinger tirou-lhe discretamente o chapéu da mão e animou-o a sentar-se no largo parapeito da janela, o que Holderlin fez sem demora. Depois, o anfitrião ofereceu primeiro ao Poeta, depois a Mòrike, bem preparados cachimbos. A expressão do estimado velho abriu-se num sorriso e, fumando contente, silencioso, olhava tranqüilamente o festival de luz e cores ao longo do majestoso vale. O incansável murmúrio que escorria de seus lábios cessara e talvez a sua mente cansada tivesse encontrado o caminho para as altas constelações de sua memória, onde outrora tinham brotado as maravilhosas flores de seu gênio poético. Pobre Holderlin, de quem já nem o nome era lembrado há duas dezenas de anos… Silenciosamente tinham os dois estudantes ficado, por algum tempo, a observar o desditoso homem à janela enquanto puxavam seu cachimbo. Então Waiblinger ergueu-se, pegou num caderno que estava sobre a escrivaninha e dirigiu-se ao visitante. — Estimado amigo — disse, em tom solene — como é de seu conhecimento, nós três formamos um collegium de poetas, embora nem eu nem o meu jovem colega possamos nos comparar ao imortal poeta de Hyperion. Que melhor oportunidade do que esta para cada um de nós apresentar alguns de seus pensamentos e divagações poéticas? Aqui, neste caderno, reuni alguns de seus recentes escritos, senhor bibliotecário, e rogo-lhe encarecidamente que os leia para nós. Entregou o caderno a Holderlin, que imediatamente pareceu reconhecê-lo. Levantou-se da janela e caminhou a largos passos pela sala. De súbito, estacou e, tocado por uma estranha e veemente paixão, em voz alta, leu o seguinte:

“Quando um homem se contempla em um espelho, vê sua própria imagem como que pintada: parece-se com um homem. O homem do quadro tem olhos, mas a Lua tem luz. O Rei Édipo tinha, talvez, um olho a mais. Os seus sofrimentos foram indiziveis, inexprimíveis e indescritíveis. Se o espetáculo apresenta uma tal coisa, isso provém dai. Que sinto eu, pensando em ti agora? Um rio caudaloso que irá terminar algures, um algures que se estende para o infinito, imenso como a Ásia. Naturalmente, essa mesma doença tinha Édipo. A ânsia de sair daqui para um outro mundo de estar em outro mundo e querer vir para este. Sim, naturalmente” foi por isso. E Hércules? Hércules também sofreu? Claro que sim. Se lutou com Deus, também sofreu. Mas também é sofrimento ter o corpo coberto de feridas. Os sofrimentos de Édipo equiparam-se aos de um pobre homem caído à beira do caminho, em terras estranhas, exausto e cheio de chagas Ah filho de Laio, pobre estrangeiro na Grécia! A vida é morte è a morte é vida…”

Enquanto lia, sua voz ganhara uma intensidade patética cada vez maior e os dois estudantes acompanhavam, não sem angústia, as estranhas, às vezes profundas e sempre terrivelmente significativas palavras de Hdlderlin. — Estamo-lhe muito gratos, senhor bibliotecário — disse Mõrike. — Quando foi que o senhor escreveu isso? O doente, porém, não gostava de ser interrogado e não respondeu. Segurou o caderno diante dos olhos do rapaz e disse— Veja, Alteza, aqui tem uma cesura. O desejo de Vossa A l teza é uma ordem para mim. Mais non, Altesse, todos os poemas necessitam de cesuras. Vossa Mercê ordene que me retire Dizendo isto foi novamente sentar-se na janela e começou a puxar o cachimbo apagado. Dirigiu o olhar para o longínquo Rossberg, sobre cujo pico se via uma longa e delgada nuvem, imóvel e de contornos dourados. — Também tens algo para ler? – perguntou Waiblinger ao seu colega. Mòrike sacudiu a cabeça e passou os dedos pelos finos cabelos louros. Na pequena estante do seu quarto, no seminário, guardava escondidos dois novos poemas que tinham por título A Peregrina e de cuja existência nenhum de seus amigos suspeitava. Alguns estavam a par de sua extravagante e romântica paixão, de que esses poemas eram o único testemunho. Mas nunca os mencionara diante de Waiblinger. — És um ca.smurro! — disse Waiblinger decepcionado — Por que te conservas sempre tão discreto comigo? Nunca mais ouvi teus poemas e há quantas semanas sua excelência não se digna visitar-me aqui em cima? Com o Louis Bauer está se passando a mesma coisa. Vocês são uns covardes, vocês, modelos de virtudes! Mòrike abanava a cabeça, inquieto. — Eu preferia que não brigássemos diante dele — disse M ò rike em voz baixa, com um leve gesto na direção da janela. — E quanto ao modelo de virtudes, serias muito capaz de ter uma decepção. Meu caro, a semana passada estive outra vez oito horas no calabouço. Isso talvez me reabilite a teus olhos. E brevemente poderei ler-te alguma coisa, prometo. Waiblinger desapertara o colarinho e tirara a batina. Seu atlético peito parecia querer estourar da camisa, por cuja abertura se lhe viam os pêlos escuros e densos. — Es um diplomata! — resmungou ele, hostil, e tudo o que sofrerá durante semanas e com o que não se conformava veio à superfície com súbita violência. — Nunca se sabe onde encontrar-te! Mas agora quero saber de uma vez por todas! Por que é que vocês me evitam? Por que nenhum me visita aqui em cima? Por que o Efrorer se retira quando me dirijo a ele? A h , eu sei! Vocês têm medo vocês, desgraçados seminaristas medricas! São como os ratos que abandonam o navio quando naufraga! Vocês sabem melhor .do que eu que qualquer dia serei expulso do seminário. Estou marcado como uma árvore que vai ser derrubada, e vocês encolhem-se e assistem, curiosos, de mãos nos bolsos, perguntando uns aos outros: quando será? E quando eles me serrarem, vocês serão os meninos espertos e podem dizer: não o tínhamos previsto há tanto tempo” Se o governador precisar de diversão, tem de se arranjar alguém para a forca. E desta vez serei eu. E tu! Tu também estás do outro lado e acho que, no teu caso, é um absurdo. Por Deus, tens mais valor e talento que o bando todo junto. Não precisas adulá-lo. Mas tens o teu Bauer e o teu Hartlaub, que se julgam uma espécie de gênios só porque correm atrás de ti e se aquecem no teu fogo. Eu posso andar sozinho e sufocar em minha própria angústia, até acabar Ainda bem que tenho Hòlderlin. Creio que, no tempo dele, também lhe vergaram a espinha no mui douto seminário de Tübingen. — Já desabafaste? — perguntou Mòrike, serenamente. — Pois digo-te que quase me fizeste rir. Queixas-te de que ninguém te visita no pavilhão. Mas onde é que nos encontramos agora? Eu também já subi várias vezes o Oesterberg e nunca lá encontrei um moço chamado Waiblinger. A h , sim, ele estava muito ocupado na Beckei, na Lammwirt e outras afamadas tavernas locais. Talvez estivesse algumas vezes aqui mas não quisesse abrir quando eu batia, como tenho a certeza que aconteceu daquela vez que vim com o Ludwig Uhland. — Estendeu a mão ao companheiro. — Vamos, Wilhelm, sabes que não posso estar sempre de acordo contigo… tu próprio nem sempre estás! Mas se julgas que não gosto mais de t i , que tenho mais apreço pelo meu lugarzinho no seminário e receio que me tomem por teu amigo, então, W i l , serei francamente obrigado a rir. Prefiro que me metam mais oito dias no calabouço a servir de Judas de um amigo. Está claro, agora? Waiblinger apertou com tanta força a mão que se lhe oferecia que Mòrike contorceu a boca de dor. Abraçaram-se efusivamente. Waiblinger sentiu a garganta seca e, de súbito, percebeu que tinha os olhos marejados de lágrimas. A voz saiu-lhe esganiçada: — Eu sei — disse ele — que não sou digno de t i . As bebedeiras me arruinam. Não podes imaginar como me sinto miserável. Ignoras a profundidade do sofrimento que me mata, Eduard. Não conheces a mulher, essa maravilhosa e misteriosa mulher que aos poucos me liquida. — Eu já a conheço — respondeu M ò r i k e . Sentiu-se possuído de uma certa amargura, não pelo sofrimento do amigo mas porque este lhe avivara suas próprias dores a respeito de Peregrina. — Não a conheces, não, embora saibas o seu nome e já a tenhas visto. Não é terrivelmente bela, Eduard? Terá ela alguma culpa de ser judia, e poderia ser tão terrivelmente bela se não pertencesse a essa raça? A h , eu me consumo, não mais consigo ler, nem compor, nem dormir! Desde o momento em que beijei o seu colo e repousei meu rosto em seu regaço, fiquei sabendo o que significa o destino. — Destino significa sempre amor — murmurou Mòrike, pensando mais em Peregrina do que no amigo cujo desabafo tormentoso o embaraçava. — Tu és puro — disse Waiblinger, recostado em sua cadeira. — A tudo assistes como um espectador e só tomas parte no que for belo e refinado, não no que é feio e pernicioso. És a estrela serena e boa mas eu sou o archote violento que arde durante a noite e logo se extingue com um sopro. E assim quero que seja, quero flamejar e queimar e não é por isso que me compadeço de mim próprio. Mas, se ao menos, antes de se consumir pudesse criar algo de belo e grandioso, deixar atrás de mim o fulgor de uma só obra nobre e madura! Tudo o que fiz até hoje é medíocre, petulante! Aquele sim, aquele ali na janela soube, antes de morrer em vida, fazer do Hyperion uma constelação eterna e um monumento a sua grande alma! E tu também sabes, tu criarás grandes e belas obras imperecíveis! Tu, a quem não consigo perscrutar os segredos do coração! A h , como conheço bem todos eles, o Pfizer, de Stuttgart, e o Bauer, e todos, todos eles, a quem esvaziei os corações como se quebra e consome o recheio de uma noz! Só tu lograste conservar teus segredos. Ainda não te conheço, Mòrike, não te consigo quebrar e esvaziar. Já estou no declínio e tu mal começas a tua ascensão. Vai-me acontecer o mesmo que a Hòlderlin e as crianças rirão de mim nas ruas. Mas não compus Hyperion algum. — Compuseste o Phaethon — disse Morike, gravemente. — A h , o Phaethon] Quis imitar os gregos e vê a coisa monstruosa e falsa que saiu. Não me fales do Phaethon. Recuso-me a acreditar em teus elogios, poií bem sei quanto estás acima dessa criação ridícula e pueril. Não, o Phaethon nada vale e eu sou um ignorante, um miserável ignorante. Sempre me acontece o mesmo: começo um poema ardendo de entusiasmo, tudo refulge e vibra dentro de mim, e não paro mais, dia e noite, enquanto não fizer um traço sob o derradeiro verso. Então acho maravilhoso o que criei, julgo-me guindado ao nível dos eleitos. Passado algum tempo, releio tudo e acho-o insípido, falso, empolado. Eu sei que contigo é completamente diferente. Realizas pouco e laboriosamente, sem pressas, mas o que resulta é definitivo e pode-se ler hoje, amanhã, sempre. Eu não. A minha inspiração tem de converter-se logo em livro, num só e contínuo impulso, e devo confessar que não conheço nada mais maravilhoso do que arrojar-me ao sabor do delírio e do fogo da criação. Mas depois! Eis que Satanás insinua-se em mim, sorri, mostra a pata de cavalo, e todo o entusiasmo era mentira, todo o nobre delírio não era sentimento mas fantasia. Maldição! — Não devias falar desse modo — interrompeu Mõrike, reconfortante. — Ainda somos quase crianças e podemos dar-nos ao luxo de jogar fora tudo o que fizemos ontem e julgávamos perfeito. Ainda nos falta experiência, maturidade e, sobretudo, ainda não aprendemos a esperar. Gocthe também escreveu em sua juventude muita coisa de que depois nem queria ouvir falar. — Ora, Goethe! — exclamou Waiblinger. — Esse também era um dos tais, um sujeito de paciência, de esperar, de juntar! Não gosto dele! Calaram-se de súbito. Os dois jovens ergueram os olhos, surpreendidos: Hòlderlin abandonara seu lugar na janela, intrigado pela conversa em voz alta, e viera postar-se, de pé, diante de M ò rike; seu rosto agitava-se, inquieto, e sua figura magra e esguia parecia mais desamparada e doente que nunca. No silêncio embaraçado, HÒlderlin inclinou-se sobre a cadeira de Mòrike, tocou-lhe levemente o ombro e disse, com voz neutra e vazia: — Não, Alteza, não. Quanto ao Sr. von Goethe de Weimar, o Sr. von Goethe… não posso e não devo opinar sobre isso. A interrupção do Poeta louco e o fato de, aparentemente, ter acompanhado o diálogo, o que nele era extremamente raro, deixou os dois amigos muito impressionados, quase assustados. Hòlderlin pôs-se a caminhar na pequena sala, uma expressão triste e aflita, como um grande pássaro colhido numa traiçoeira armadilha, e murmurando palavras ininteligíveis. — Tinhamo-lo esquecido por completo! — disse Waiblinger, cheio de remorsos. Levantou-se e foi para junto do Poeta, cuidando dele como um enfermeiro dedicado. Encaminhou-o de novo até a janela, exaltando a paisagem e o ar tonificante da colina, voltou a arranjar o cachimbo que Hòlderlin deixara cair no chão, dirigiu-lhe palavras de consolo e acalmou-o como faria uma mãe a um filho assustado com o bicho-papão de seus pesadelos noturnos. E M ò rike sentia nesses momentos redobrada simpatia pelo seu indômito e rebelde amigo, ao vê-lo tão carinhosamente preocupado com o bem-estar do Poeta louco, e fazia-se íntimas recriminações por tê-lo abandonado por tanto tempo. Conhecia o temperamento arrebatado e os incríveis altos e baixos do humor de Waiblinger e, pelo que ouvira dizer, o caso entre a tão perniciosa judia e seu amigo era realmente uma coisa que dava muito que pensar. O delicado e sensível Mòrike sempre vira em Waiblinger o ideal da indestrutível alegria de viver da mocidade, com sua exuberante energia, suas gostosas travessuras e irreverências. Agora, porém, a bebida e a autodestruição espiritual, que tanto haviam desfigurado o homem, causavam-lhe uma impressão angustiante, como se o amigo rolasse desesperadamente pela vertente de um abismo, ao encontro de um destino fatal. Também aquela estranha amizade de Waiblinger pelo Poeta louco lhe parecia revestir-se de um significado tenebroso. Entrementes, o amigo sentara-se tranqüilamente ao lado de Hiiklerlin no parapeito da janela, o jovem exuberante e o encanecido e desmantelado Poeta, em cujos olhos se apagava a chama da vida. O sol, em sua curva descendente, banhava as montanhas de um colorido mais forte. Uma jangada feita de toros de pinho descia rio abaixo. Ia ocupada por um grupo de estudantes, que cantavam e bebiam; de vez em quando, um raio de sol, batendo no cristal dos copos, desferia lampejos reluzentes e o alegre bando entoava tão alto suas canções acadêmicas que o eco das vibrantes vozes chegava nítido, ao pavilhão. Mòrike aproximou-se dos dois e também ficou olhando para fora. Como era suave a paisagem de sua tão amada região, como era belo e sereno o Neckar, aqui de um verde profundo do arvoredo refletido nas águas cristalinas, além salpicado de uma poalha dourada do sol da tarde, o ar saturado de cálidos aromas que a brisa trazia misturados às vozes juvenis dos estudantes, como um hálito morno de vida estuante. Por que estavam ali sentados, tão míseros e fracassados, aqueles dois poetas da alienação, o velho alienado, tranqüilo e inofensivo, o jovem alienado, rebelde e exaltado? E por que estava ali ele próprio, o coração oscilando entre amizades transitórias e uma desesperada paixão? Sentia-se tão deprimido e insatisfeito ao lado deles! Seria tudo isso apenas um reflexo de sua extrema sensibilidade, que tantas vezes o fazia fraquejar diante de emoções dramáticas? Ou seria realmente o destino de todos os poetas — que o sol jamais brilhasse para eles e vivessem condenados a devassar as sombras da própria alma? Compassivo, meditava sobre a vida de Hòlderlin, que fora não só um dos maiores poetas de seu tempo como um erudito filólogo, um crítico clarividente, um educador, correspondendo-se com os mais altos espíritos, amigo de Schiller, respeitado por Hegel, preccpior da família von Kalb. Hòlderlin, tal como Mòrike, também fora aluno do instituto teológico e deveria tornar-se padre, mas rebelara-se contra isso, justamente o que Mòrike também pensava fazer. O Poeta impusera a sua vontade mas a vitória gastara-lhe as forças e aniquilara-lhe o espírito. O mundo não perdoara ao seminarista desleal, ao sensível e tímido Poeta! Pagara-lhe em humilhações, pobreza, fome, obrigando-o a abandonar sua pátria, até que, exausto, contraiu a terrível doença, que parecia menos loucura do que um profundo cansaço, uma desesperada resignação, a apatia resultante de um espirito e de um coração gastos e desmantelados. A l i estava ele sentado agora, a privilegiada cabeça que abrigara tão grande inteligência, e os olhos ainda tocantemente puros, qual um fantasma de si mesmo, afundado numa surda infância sem esperanças de crescimento. E enchia folhas e mais folhas de papel, nas quais um ou outro poema realmente belo ainda resplandecia como uma jóia engastada em pedras toscas e informes. No todo, os manuscritos do infeliz poeta lembravam um jogo de crianças com coloridas pedras, sendo preciso encaixá-las para que do amontoado brotasse algo com harmonia e nexo. Enquanto Mòrike se mantinha imóvel atrás dos dois, emocionado e pensativo, Hòlderlin virou-se e encarou-o por instantes, como se procurasse no rosto meigo do jovem, de traços finos e delicados, alguma reminiscência que teimosamente lhe fugia. Talvez o Poeta visse em Mòrike uma imagem de sua própria mocidade, talvez em seus belos olhos, tocados de funda espiritualidade, visse refletidos os generosos sonhos juvenis que outrora lhe haviam abrasado a mente. Não, era muito duvidoso que essa seqüência de pensamentos se desenrolasse no cérebro de Hòlderlin; o mais certo era que seus olhos impenetravelmente sérios tivessem pousado no rosto do estudante por um mero prazer sensorial. Estavam os três em silêncio, sentindo cada um vibrar ainda em seu íntimo os ecos da anterior e veemente conversa, quando viram a Srta. Lotte Zimmer subindo a colina pelo atalho dos vinhedos. Waiblinger foi quem primeiro a viu ao longe e ficou observando a moça aproximar-se, admirando-lhe a figura robusta mas esbelta com evidente prazer. Quando Lotte já estava perto, acenou para a janela, sorridente, e Waiblinger saudou-a em voz alta, saltou sobre o parapeito para o lado de fora e saiu ao seu encontro, acompanhando-a no último trecho da ladeira. — É uma grande honra para mim — declamou ele, teatralmente — poder receber e saudar nesta casa uma tão formosa donzela! Entre, querida Srta. Lotte, entre… e três poetas se ajoelharão a seus pés! A moça riu. Tinha o rosto afogueado da rápida escalada da colina. Parou nos degraus da porta e ouviu, divertida, o palavreado do estudante. Depois abanou a cabeça loura e disse: — Fique de pé, Sr. Waiblinger, não estou habituada a que se ajoelhem diante de mim. E entregue-me o meu poeta. A mim esse basta. — Mas entrará por alguns momentos, não? Isto aqui é um templo, Srta. Lotte, não um covil de ladrões. Não sente curiosidade? — Sei dominá-la quando é preciso, Sr. Waiblinger. E sempre imaginei que os templos fossem diferentes. — A h , sim? Como? — Bom, isso não sei ao certo. Mas supunha que fossem mais solenes e com menos cheiro de tabaco. Não, por favor não insista. Não vou entrar. Tenho de voltar já, já, pois ainda tenho muitas coisas a fazer hoje. Agradeço que me traga o Sr. Holderlin. V i m aqui apenas com o propósito de acompanhá-lo à casa. Foi o combinado, não foi? Depois de mais algumas trocas de palavras, em tom de gracejo, Waiblinger entrou e fez sinal a Holderlin que era hora de partir. Apanhou-lhe o chapéu e acompanhou-o até a porta. O Poeta parecia levemente contrariado por ter de ir embora; notava-se-lhe no olhar e nos movimentos hesitantes. Mas não disse palavra. Com a perfeita submissão em que se entrincheirava e escondia de todo mundo, fez uma reverência diante de Mòrike, depois de Waiblinger, e caminhou obediente até a porta, voltando-se para uma última saudação: — Despeço-me humildemente de Vossas Altezas. As ordens de Vossas Altezas. Um vosso criado… Amavelmente, Lotte tomou-lhe a mão e guiou-o de volta. Os dois estudantes ficaram parados nos degraus, olhando o par que se afastava pela colina abaixo, entre vinhedos, o homem alto e solene, caminhando com uma postura rígida e hierática, pela mão da Srta. Zimmer, cujo vestido azul e chapéu de palha branco, de largas abas, ainda foram vistos por muito tempo. Mòrike notou o olhar contristado com que o seu amigo acompanhou o infeliz até desaparecer. Sentiu vontade de animar o sensível e temperamental Waiblinger mas preferiu levar a conversa para coisas supérfluas e alegres, pois tinha medo de que, num momento de fraqueza, ali sozinhos no pavilhão, cedesse ao desejo de revelar ao seu companheiro o que lhe ia no intimo. Waiblinger já deixara há meses de ser o seu fiel confidente. Mòrike, que nos dias em que um sentimento de solidão o invadia, era capaz de entregar-se a uma estranha melancolia, evitava sempre revelar aos outros esse lado de seu complexo ser, e muito menos a Waiblinger, que estava sempre disposto a gozar as revelações íntimas dos amigos. Assim, decidido a quebrar o embaraçoso silêncio e a evitar novas discussões em torno do valor da amizade, bateu ruidosamente num joelho, fez uma careta humorística e disse, num tom de mal disfarçada indiferença: — Sabes de uma coisa? Encontrei um dia desses um velho conhecido. Waiblinger encarou-o e julgou perceber na expressão do amigo um breve lampejo da antiga e jovial camaradagem. — Quem foi? — perguntou ele, animado, numa alegre expectativa. — Vem, Eduard, entremos. De novo na pequena sala, depois que Mòrike fechou pela metade as gelosias, os dois se sentaram numa aconchegante penumbra. — Pois imagina quem foi. Vogeldunst, o diretor do Museu Joachim Andreas Vogeldunst, que acabava de chegar de Samarcanda e afirmava encontrar-se aqui numa viagem de negócios extremamente urgente e lucrativa. Passara por Stuttgart, onde arranjara credenciais de Schwab e Matthisson… não era possível ignorá-lo, com tais recomendações!… e queria, na mesma noite, seguir viagem pela mala-posta de Zurique, onde era esperado, dizia ele, com a maior impaciência, por importantes patrocinadores. Somente viera a esta maravilhosa Tübingen atraído pela fama do instituto teológico e por ser lugar favorito de excelsas musas. Eis um motivo suficiente para interromper sua urgente viagem por algumas horas e não se arrependia, não; realmente jamais se arrependeria, apesar dos seus amigos em Zurique, Milão, Paris e não sei onde mais nunca lhe perdoarem uma hora de atraso. Na verdade, Tübingen, berço de tão excelsos espíritos, tinha seu encanto especial, seu charme, como ele disse, sobretudo ao anoitecer, quando reinava nas alamedas do Neckar um chiaroscuro delicioso, muito romântico. O emir de Beluquistão encomendara-lhe uma coleção de gravuras de todas as cidades mais bonitas da Europa. Sua Alteza ficaria encantado. Onde poderia encontrar um bom gravador, un bon graveur sur cuivre, mas, entenda-se, um verdadeiro mestre, um artista de espírito e imaginação. A h , existem aqui fontes de águas quentes? Não? Pois ele estava certo de ter ouvido falar nisso… Talvez fosse em Baden-Baden, que não deve ser longe. O Poeta Schubart ainda estava vivo? Vogeldunst referia-se àquele infeliz que foi vendido por Frederico, o Bom, aos hotentotes, para compor o hino nacional da África, lembras-te? A h , já falecera? Coitado. Eu já estava f i cando meio esquisito com a eloqüência barata do sujeito, que enquanto falava não parou de remexer entre os dedos os botões de prata da sobrecasaca. Eu tinha a impressão de já conhecer de algum lado o diretor Vogeldunst, com suas termas e seus longos dedos de aranha. Depois, o homem sacou da sobrecasaca, que lhe chegava quase aos pés, uma caixinha de madeira lavrada, abriu-a com os dedos de fantasma e retirou uma pitada, que dividiu entre as duas narinas, e começou espirrando tão alto e com gritinhos tão esganiçados que por pouco não estourei de rir. Depois, sorriu beatamente e ficou tamborilando na tampa da caixa uma marcha parisiense. Tudo aquilo me parecia absurdo e já me sentia torturado como um estudante durante as provas, quando a coisa aperta, o suor começa escorrendo pela testa e os óculos ficam embaciados. O Sr. Vogeldunst de Samarcanda não me dava um momento de folga para raciocinar. Falou-me de Stuttgart e dos graciosos poemas do Matthisson, que recitara pessoalmente para ele. Calcula, os versinhos do Matthisson, que qualquer pessoa medianamente entendida sabe distinguir como bastante fracos. Logo me perguntou se a malaposta de Zurique passava por.Blaubeuren, pois ouvira falar de uma pedra de chumbo que existia por aquelas paragens e que muito valorizaria sua coleção de admiráveis raridades. Pensara também visitar o Lago Boden e, de passagem, faria um oração no túmulo do Dr. Mesmer. AUás, o Sr. Vogeldunst era um antigo e fiel adepto das teorias do magnetismo animal, como também devia ao eminente Prof. Schelling os seus conhecimentos do espírito universal e, aliás, podia afirmar com muita honra que era um sincero amigo da Cultura. Pelo menos, já traduzira os contos fantásticos de Hoffmann para o persa, mandava fazer todo o seu guarda-roupa em Paris e já recebera do saudoso paxá de Assuan uma honrosa condecoração, que era uma estrela cujas pontas eram de dentes de crocodilo. Antigamente usava-a sempre sobre o peito mas, certa vez, quando dançava com uma nobre dama de Berlim, ferira-a no pescoço e, desde então, desistira de ostentar essa valiosa mas agressiva honraria. Enquanto dizia estas coisas, o diretor do museu passava a mão pelos cabelos num gesto tão melífluo que por um triz não caí na gargalhada. Pois agora o reconhecia! Sabes quem era? — Wispel! — exclamou Waiblinger, divertido. — Acertaste. Era Wispel. Mas devo reconhecer que estava muito mudado. Bom, então comecei insinuando cautelosamente a minha descoberta. Primeiro, disse ter a impressão de que já o vira alguma vez. Ele sorriu. A f i r m o u encontrar-se pela primeira vez nesta maravilhosa região e em tão fascinante cidade, cuja gravura em cobre não poderia esquecer de levar consigo para supremo deleite do emir. Sentia profundamente não se lembrar mas era possível que nos tivéssemos visto alguma vez. Em Berlim? Talvez em São Petersburgo? Não? Possivelmente em Veneza? Seria em Corfu? Também não? Bom, sentia muito, mas certamente devia ser um equívoco do Sr. Magister. ” A h ” , disse eu, “agora me recordo. Foi em O r p l i d . ” O homem hesitou um momento. Orplid? Orplid? A h , sim, também já estivera uma vez, no séquito do velho Rei Ulmon, já falecido. Então, continuei eu, talvez o senhor diretor conhecesse o nosso amigo Wispel? Enquanto lhe fazia a pergunta não tirei os olhos dos dele. Eu juraria que ele era Wispel mas crês que sequer pestanejou? Nada disso. W i . . . Wips… Wipf… dizia ele cogitativamente, fingindo não ser capaz de pronunciar direito esse nome que lhe era totalmente desconhecido. — Formidável! — disse Waiblinger, radiante. — Tenho a certeza de que era ele. Mas o que queria de ti esse danado Vogeldunst? — A h , nada de especial — riu Morike. — Logo te conto. Agora vou sair por um instante. A b r i u novamente as gelosias. O poente estendera seu manto dourado sobre a paisagem perfumada, as montanhas recortavam-se no horizonte como gigantescos dedos azuis apontados para o róseo firmamento. M o r i k e saltou pela janela baixa e entrou em seguida pela porta, o semblante mudado, com uma expressão alterada, os olhos mortiços e os cabelos caídos na testa. Movia os braços como um pássaro batendo as asas para alçar vôo, os pés com as pontas viradas para fora, e aproximou-se de Waiblinger aos saltinhos. Era a imagem fiel e burlesca de Wispel. Começou falando numa voz esganiçada: — Muito boa noite, Sr. Magister] — disse Morike, fazendo uma rasgada reverência de homem de sociedade, o chapéu seguro na ponta dos dedos da mão esquerda. — Tenho a honra e o prazer de me apresentar a Vossa Senhoria como o Diretor do Museu Vogeldunst, de Samarcanda. Permite-me que faça uma pequena inspeção do local? Lugar muito agradável, aqui em cima, muito aprazível en effeí- Felicito Vossa Senhoria por este delicioso tusculanum. — O que o trouxe por aqui, Wispel? — perguntou Waiblinger, com ar trocista. — Vogeldunst, por favor. Diretor Vogeldunst. E devo respeitosamente solicitar que não me trate por Excelência, não apenas por ser distinção incompatível com minha modesta pessoa mas também por respeito aos vários e eminentíssimos senhores a quem tenho a honra de servir. — Então seja, Sr. Diretor. Em quem posso servi-lo? — Estou falando com o Sr. Magister Waiblinger? — Exatamente. — A h , muito honrado! Vossa Senhoria é um gênio da poesia. Por favor, nada de exageradas modéstias. Estou perfeitamente a par de vossos excelsos méritos. Conheço vossas obras imortais, senhor—Três dias me deliciei na leitura de Phaethon, esses maravilhosos cantos gregos que nos transportam às subterrâneas paragens onde caiu fulminado o condutor da Luz. Como? Não, não vos incomodeis! Estou inteiramente informado! — Bom, então ao diabo, Sr. Diretor das terras do Oriente, ,e desembuche! — O Sr. Magister pertence ao seminário de Tübingen? Quero respeitosamente saber se vos encontrais satisfeito em tão douta instituição. — Satisfeito? No seminário? Homem, para estar satisfeito seria preciso que eu fosse um perfeito animal, Mas todas as questões têm duas faces: o seminário também não está satisfeito comigo. — Muito bem, três bien, estimado senhor! Exatamente o que eu procurava. Encontro-me na grata posição de poder oferecer a Vossa Senhoria uma assaz agradável melhoria na vossa atual situação. — Oh, muito agradecido. Poderei indagar do que se trata? Mõrike-Wispel deu um passo atrás, colocou seu chapéu sobre uma estante, executou com os braços mais um de seus etéreos movimentos adejantes e, em voz baixa, disse: — Por certo Vossa Senhoria vê em mim um homem modesto e de poucos méritos. Mas podeis estar certo de que sei dar conta dos meus recados e, sem querer gabar-me de meus préstimos, já prestei muitos serviços aos mais importantes senhores, para inteira satisfação deles. Serei muito conciso, como convém a um homem cujo tempo é extremamente valioso. Trago no meu bolso as mais linsonjeiras recomendações dos Srs. Matthisson e Schwab. Trata-se de um assunto de suma importância. Rogo-vos que escuteis atentamente as minhas palavras. Procuro um substituto para Friedrich Schiller! — Para Schiller! Mas, meu caro senhor… — Vossa Senhoria me compreenderá e aprovará, se se dignar ouvir-me com atenção. Entre os vários senhores a quem presto os meus humildes serviços conta-se o excelentíssimo Lorde Fox, de Londres, um dos mais ricos e distintos cavalheiros da Inglaterra, país da Grã-Bretanha, amigo e confidente de sua majestade, cunhado do lorde do selo privado, padrinho do Príncipe James de Cumberland, senhor dos condados de… — Sim, sim, está bem. E o que há com o seu lorde? — O lorde sabe avaliar os meus talentos, sim, posso vangloriar-me de ser seu amigo, Sr. Magister. Durante uma caçada real no País de Gales, ouvi Lorde Fox apresentar-me ao Barão de Castlewood com estas palavras realmente desvanecedoras: “Este homem é um verdadeiro tesouro, meu caro barão!” E uma outra vez, quando a Princesa Vitória acabara de vir ao mundo, estava eu regressando da Espanha, onde… — Sim, sim, mas continue! O Lorde Fox… — A h , o lorde é um homem extraordinário, Sr. Magisterl Eu tinha a honra de acompanhá-lo às caçadas na siia própria carruagem. Era uma caçada às raposas. Na Inglaterra, a raposa é caçada a cavalo e constitui a diversão preferida da nobreza, vous savez. Lorde Chesterfield foi um outro famoso caçador de raposas. E Lorde Bolingbroke também. Morreu de gangrena. — Mas volte ao assunto, meu caro senhor! — Eu nunca saio do assunto, Sr. Magisterl Ora, como dizia, uma caçada às raposas é uma diversão fascinante, embora considere a caça aos búfalos, à maneira russa, ainda mais interessante. Assisti a uma dessas caçadas nos Urais, na companhia do grão-duque. Mas, para ser breve, os grandes senhores ingleses têm singulares e, je vous assure, dispendiosas paixões. Conheci um alto comissário da Companhia das índias Orientais que, por causa de uma simples dor no joelho esquerdo, reuniu em Bombaim duas dúzias de médicos chamados da Europa inteira. Eu lhe recomendara, nessa oportunidade, o médico particular do príncipe eleitor de Braunschweigh… agora esqueci o seu nome… — De quem? Do príncipe eleitor? — Não, do seu médico particular. Estou inconsolável. Nunca supus que isso fosse possível. De fato, é muito raro que a memória me atraiçoe. De qualquer modo, era um homem muito hábil e entendido em seu ofício. É verdade que ainda não conseguiu curar esse senhor inglês, afirmando que as suas dores são incuráveis, pois não resultam de males físicos mas de pura imaginação. Pode Vossa Senhoria acreditar em semelhante coisa, que a imaginação dê dores nos joelhos? Claro que fiquei muito embaraçado, pois o senhor inglês mostrou-se muito descontente com tudo isso. Mas Vossa Senhoria me interrompeu… Estava eu dizendo que procuro um substituto para Fíiedrich Schiller. Lorde Fox deseja possuir em sua coleção um poeta alemão. Eu próprio o animei nesse sentido, e por que não? Já tem um lama tibetano, um samurai japonês que executa uma excitante dança com seu longo sabre, um feiticeiro da Montanha da Lua e duas bruxas legítimas de Salamanca. Vossa Senhoria sabe, eu próprio sou uma espécie de homme de lettres e como faço freqüentes viagens, que me proporcionam numerosos conhecimentos, posso fazer a não de todo desinteressante observação: os poetas alemães, em sua grande maioria, são verdadeiros rouxinóis. E muitos deles pertencem ao instituto teológico de Tübingen, mas não me parecem inteiramente satisfeitos com sua sorte. Eh bien! Então pensei que poderia arranjar para Lorde Fox um autêntico poeta-rouxinol de Tübingen. Pagou-me a viagem e recebo dois mil talentos anuais até conseguir um para a sua coleção. As minhas informações levaram-me a concluir que Friedrich Schiller é, no momento, o mais famoso dos poetas alemães e viajei imediatamente para lena. Infelizmente, a minha informação era incompleta e foi-me dito em lena que o pobre Sr. Schiller já falecera. Ora, Lorde Fox quer um poeta vivo, vous comprennez… No meio da frase Mòrike estacou de repente. Da cidade, chegava-lhes o som do relógio da igreja do seminário. O sol já desaparecia no horizonte. Eram sete horas. — Oh, isto vai dar castigo outra vez! — disse Mòrike, um tanto preocupado. — Não vamos chegar a tempo no seminário e aposto como passarei a noite no calabouço. — Não me digas que queres deixar a meio a história de Wispel! — disse Waiblinger, contrariado. — Maldito relógio! Vamos, Eduard, recomecemos! Mòrike abanou a cabeça. O seu entusiasmo-arrefecera. Passou a mão pelos cabelos e fechou os olhos por um momento, com expressão preocupada. — Vens comigo? — perguntou ele. — Se conversarmos bem o porteiro, talvez o homem dê um jeito para entrarmos. Waiblinger ficou indeciso. A bela judia e seu destino ruim esperavam-no com o cair da noite. Esquecera-se dela havia mais de uma hora. Sentia-se tão bem ali. Entretanto, começou fechando as gelosias. Mòrike ajudou-o. Os dois saíram do pavilhão agora mergulhado nas trevas e Waiblinger fechou a porta. — Não — disse ele. — Eu vou ficar fora esta noite. Foi uma bela tarde. Há muito que não me sentia tão calmo e animado. Sabes que tenho andado com o espírito perturbado. Peço-te que não me guardes rancor se, por vezes, grito contigo. Pois quando assim procedo não é tanto a ti que me dirijo mas a mim próprio. Se pensas mal de mim, juro-te que não pensaras pior, certamente, do que eu a meu próprio respeito. Os dois caminhavam à luz do luar na direção da cidade que, com suas chaminés fumegantes, seus telhados oblíquos, parecia agachar-se humildemente em redor da imensa construção do seminário e da igreja. — Acho que seria melhor vires comigo — aconselhou Mòrike, depois de uma longa pausa. — Não é pelo porteiro. Mas poderíamos ler juntos esta noite o Hyperion, ou alguma coisa de Shakespeare. Seria bom. — Sim, seria bom — suspirou Waiblinger. — Mas já tenho um compromisso. Não vai ser possível. Mas voltaremos a encontrar-nos aqui no pavilhão, não é? E tu trarás também as tuas poesias. Bons tempos aqueles, quando ainda vinham o Louis Bauer e o Gfrorer, e fazíamos aqui as nossas farras! Quem sabe quanto tempo ainda continuaremos juntos, Eduard! M u i t o não poderá ser. Para mim já começa a faltar o chão e ar em Tübingen. — Não devias pensar dessa maneira. É certo que estás levando há algum tempo uma vida dissoluta e granjeaste alguns inimigos. Mas tudo poderá ser diferente se tentares outra vez. A voz de Mòrike era suave e reconfortante mas Waiblinger sacudia a cabeça, com uma expressão de amargura no rosto levemente rechonchudo. — Diz-me uma coisa — falou Waiblinger. — Se eles me conservassem no seminário, o que é que fariam de mim? Um padre, um preceptor de alguma família beata. O vigário Waiblinger! O pároco Waiblinger! Ignoro o que possa vir a ser algum dia, mas isso não! Positivamente, não! Aqui não há muito que aprender, tu sabes disso. Os nossos professores são uns meros papagaios, talvez com a única exceção do Haug. Prefiro correr o risco. Tenho de .abrir caminho com os meus próprios pés, como o infeliz Hòlderhn tentou no seu tempo, e eu sou mais forte do que ele. Não serei tão nobre e tão puro quanto ele mas tenho mais força e o sangue mais quente. Por isso acho preferível ir logo saindo, voluntariamente, antes que passe pelo vexame de ser expulso. Nunca é cedo demais para começar conquistando a própria vida. Tu sabes o que me segurou até agora em Tübingen… nesse amor quero triunfar ou perecer! Calou-se de súbito, como se estivesse arrependido de ter falado demais. Na primeira esquina estendeu a mão ao amigo. — Bom, Eduard, boa noite e um abraço para Wispel! — Será entregue — disse Mõrike. Apertaram-se as mãos e Mòrike ainda se voltou uma vez para olhar Waiblinger, que estugara o passo. E, num repentino impulso, elevou a voz e disse, gravemente: — Não deves renunciar aos dons que possuis, Waiblinger! Acredita no que te digo: para nos engrandecermos e criarmos algo realmente digno e duradouro, é preciso renunciar sempre a muita coisa! Dito isto, afastou-se rapidamente na direção da Bursagasse e do seminário. Wablinger estacara, surpreendido, ao ouvir a solene advertência do amigo e voltara-se apenas a tempo de ver seu vulto esguio desaparecer nas sombras da rua. Não era costume de Waiblinger tolerar conselhos e admoestações mas ficou imensamente grato por aquelas palavras, pois nelas pressentira um significado bem mais profundo e consolador: Morike ainda acreditava nele. Para quem tanto duvidava de si próprio, essa revelação foi um delicioso refrigério. Continuou caminhando para a casa de sua bela judia, a sedutora irmã do Prof. Michaelis. A essa mesma hora, Friedrich Hõlderlin caminhava inquieto no seu quarto de sacada. Acabara de comer a sopa do jantar e, como de costume, colocara o prato no chão diante da sua porta. Nada tolerava em seu quarto que não fosse de sua propriedade e na estreiteza de sua reclusa existência não havia prato nem copo, nem livro ou gravura que lhe pertencessem. A tarde ainda ecoava fortemente em seu íntimo: o querido pavilhão, o caminho entre os vinhedos, o vasto panorama saturado de verão, o brilho do Neckar e os cantos estudantis na jangada, o diálogo animado entre os dois jovens, sobretudo aquele, de bonito e delicado rosto, cujo nome ele ignorava. Sentia-se inquieto, apesar de fatigado. Caminhou a grandes passadas no quarto e, por vezes, foi parar na janela, perscrutando a noite com olhar vazio. Mas ele já entendera outrora as vozes da vida, que ainda ecoavam estranhamente no seu mundo de sombras. Juventude e beleza, conversas espirituais e sugestões de um pensamento longínquo t i nham penetrado essa tarde em sua mente destroçada, ele, que já fora hóspede de Schiller e conviva no banquete dos deuses. Mas agora estava cansado, não era capaz de unir de novo os fios dourados da existência nem acompanhar a polifonia da vida. Escutava apenas a débil e hesitante melodia do seu próprio passado, uma abafada e nostálgica ária sem continuidade. Estava velho, velho e muito cansado. Aproximou-se da escrivaninha e, à luz tênue de uma vela, sob os versos confusos com que enchera uma folha de papel grosso, escreveu, em sua bonita e elegante caligrafia, este breve e triste lamento:

As delícias deste mundo aproveitei, Da mocidade os prazeres há quanto! quanto tempo! expiraram. Abril , maio e junho longe estão, Nada mais sou, de viver não gosto mais.

Pouco tempo depois, Wilhelm Waiblinger abandonava o instituto teológico e Tübingen. Estava fadado a beber a felicidade e a miséria em rápidos e sedentos goles de liberdade, até se corromper irremediavelmente. Emigrara para a Itália e não mais tornaria a ver sua terra natal, nem os amigos. Pobre e abandonado, desapareceria em Roma como um aventureiro sem glória. Eduard Morike continuou no seminário mas, no final dos estudos, não conseguiu decidir-se a aceitar as regras do sacerdócio. Depois de uma fracassada tentativa de triunfo no mundo secular deu, finalmente, a mão à palmatória. Mas, como nunca foi um padre completo, tampouco gozou de uma felicidade completa. Seu espírito era freqüentemente assaltado de angustiosas dúvidas mas, de seus sofrimentos e transes, a par de horas serenas e consoladoras, soube extrair inspirados e imorredouros poemas. Friedrich Holderlin continuou em seu quarto de sacada em Tübingen, e ainda vegetaria cerca de vinte anos na penumbra de sua tardia morte.

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