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O Contador de Histórias (Hermann Hesse)

Num convento da região toscana, empoleirado nas alturas dos Apeninos, um santo e idoso varão estava sentado à janela de sua estreita e aconchegante cela. Lá fora, o sol ardente de um verão prematuro banhava os muros, o amplo adro que lembrava a praçad’armas de uma fortaleza, a escadaria de pedra e a íngreme ladeira que conduziam, penosamente, do vale adormecido sob o impacto do calor até o convento. Mais abaixo, os férteis e verdes prados, os olivais, os vinhedos, os milharais, os coloridos pomares, e os povoados alvinitentes, com seus muros caiados e esguios campanários. E, ao fundo, as imensas montanhas escalvadas e avermelhadas, aqui e ali salpicadas, em seus socalcos, por minúsculas cercas brancas onde se recolhia o gado leiteiro. Sobre o largo parapeito, o venerando frade colocara, frente, um pequeno livro. Era um volume em pergaminho dernado e, na capa, reluziam as iniciais cor de cinabre. Já o lido e agora passava sua mão pálida, distraidamente, sobre queno volume, sorrindo pensativo e balançando levemente à sua encatinha o pea cabeca. O livro não fora retirado da biblioteca do convento nem poderia pertencer-lhe, pois não continha orações nem meditações, não era um Vitae Patrum nem um missal. Era uma coleção de novelas em italiano, um novellino publicado há bem pouco tempo, e em suas páginas finamente impressas podiam ser lidas coisas delicadas e grosseiras, requintadas histórias de cavaleiros e seus amores, ao lado de narrativas picarescas, travessuras de aventureiros sagazes e desventuras mordazes de maridos traídos. Apesar de seu aspecto piedoso e da dignidade de sua condição eclesiástica, Dom Piero não tinha motivos para se escandalizar com os temas dessas histórias frívolas e contos burlescos. Ele próprio presenciara e gozara desse mundo animado, e fora autor de numerosas novelas em que a delicadeza do tema competia com o sabor da narrativa. Em seus verdes anos de juventude, tanto soubera cortejar bem as donzelas e, furtivamente, galgar balcões proibidos, como aprendera a contar, mais tarde, as próprias aventuras e também as alheias. Se bem que nunca tivesse publicado qualquer livro, ele e suas histórias eram conhecidas por toda a Itália. Preferia adotar um tipo mais requintado de apresentação: mandava copiar seus opúsculos em folhas separadas, com delicadas iluminuras, e enviava-os em volantes a este ou aquele amigo, como presentes, de modo que cada um recebia uma história diferente, ora lisonjeadora, ora edificante, ora burlesca. Esses preciosos pergaminhos circulavam de mão em mão, desde os palácios reais aos paços episcopais; .suas histórias eram recontadas e copiadas inúmeras vezes, e não tardou que fossem conhecidas nos mais longínquos castelos, lidas nos galeões em alto-mar e nas berlindas que corriam pelas estradas, chegando finalmente às oficinas dos artesãos, aos conventos, aos tranqüilos recantos dos passais das abadias e até às lojas maçônicas. Mas tudo isso acontecera já há algum tempo. Muitos anos tinham decorrido desde que a última novela falante saíra de sua pena. Ele sabia, sim, que em muitas cidades havia tipógrafos aguardando sua morte, como lobos esfaimados, para então fazerem coleções de suas histórias e noveletas e com isso ganharem bom dinheiro. Dom Picro envelhecera e há muito perdera o gozo por escrever. Com a idade, o ânimo divorciara-se dos temas galantes e burlescos e, apesar de não ser propenso à ascese, dedicava-se à profunda contemplação dos seres e das coisas. Uma vida feliz e repleta de eventos saciara por muitos anos seu espírito mas, depois, chegou a ocasião de trocar esse pequeno e colorido mundo dos prazeres terrenos por vastos, insondáveis horizontes eternos; e mergulhara numa silenciosa meditação sobre o estranho e insolúvel mistério que entrelaça as coisas finitas com o Infinito. Contudo, o seu alegre modo de pensar de outrora não fora abatido pela vida austera de contemplação a que se dedicava; D o m Piero via alegremente chegar a sua hora dé repouso como se fosse o prenúncio da chegada natural do outono, quando os frutos maduros, saturados de exuberância e viço, inclinam-se, exaustos, para a terra-mãe. Assim desviou ele o olhar do livro para contemplar, deliciado, a alegre paisagem estivai que se desfrutava da janela. V i u os camponeses trabalhando a terra, as parelhas de cavalos puxando carroças carregadas até o meio e que iam parando nos portões das fazen_das para recolher mais cargas; um grupo de crianças brincando junto de um açude; até o mendigo andrajoso que subia, amparado a um bordão, pela comprida ladeira. Sorrindo, Dom Piero pensou em dar alguma coisa ao mendigo, se ele viesse até ao convento; levantando-se, passeou uma vez mais os olhos pela paisagem, como se quisesse fixar com todos os pormenores a íngreme ladeira, com a grande curva empedrada diante do portão, onde uma galinha solitária esgravatava, inquieta e vigilante; o riacho prateado, onde se espelhava o reflexo do moinho; os muros cálidos, onde corriam lagartixas ágeis, agitando as caudas, erguendo os pescoços esguios para o sol, e os olhinhos escuros e inexpressivos em busca de insetos incautos, parando, de repente, ofegante, como se aspirassem com prazer o ar vibrante de calor, para logo correrem de novo, impelidas por ignoradas decisões, sumindo como flechas nos interstícios das pedras. Dom Piero saiu da cela, caminhou ao longo do extenso corredor ladeado de dormitórios e desceu para o claustro sonolento. O irmão jardineiro atarefava-se içando o balde pesado de dentro da fria profundidade da cisterna e os espirros de água iam cair ruidosamente de volta à toalha líquida e invisível. Encheu um copo, colheu um dourado fruto dos berh tratados limoeiros e espremeulhe o suco na água. Depois, bebeu-a em goles vagarosos. Voltou para a cela e, à janela, silenciosamente, deixou vagar os olhos pelas hortas, prados e montanhas. Fixou os muros de uma quinta que estava situada à margem da ladeira, numa suave colina, e imaginou um portão ensolarado, por onde saíam criados com cestas carregadas, cavalos e bois puxando carroças, suados e pacientes; crianças gritando, galinhas espavoridas, gansos atrevidos.

E saudáveis moças, coradas e robustas, entregues às tarefas domésticas. Desviou lentamente os olhos para um renque de ciprestes e imaginou-se então deitado à sua sombra, descansando como um viandante chegado de longínquas terras, uma pena de perdiz no chapéu, um livro picaresco no bolso e uma canção nos lábios. E, na orla do bosque, onde as sombras intermitentes das árvores se projetavam na vasta clareira do prado, sua visão imaginava agora um piquenique ao ar livre: via jovens sentados sobre as margaridas ou passeando aos pares, trocando carinhosas palavras e gestos amorosos, e grandes cestas com iguarias e frutas; e, quase enterradas na terra fria, ânforas de gargalo estreito em que flutuavam pedrinhas de gelo trazidas de casa. D o m Piero estava habituado a deleitar-se na observação do mundo visível, e, quando lhe faltava outro motivo de recreação, cada pedaço de terra, visto de sua janela ou de uma berlinda, servia-lhe de distração. As ocupações, as lutas, as intrigas dos homens faziam-no, como a um espectador em posição privilegiada, sorrir com indulgência. Regozijava-se por tudo o que seus semelhantes valessem ou possuíssem mas também tinha bons motivos para crer que, como humilde frade que efa, aos olhos do Senhor representava pouco mais do que o pobre servo da fazenda, o mendigo andrajoso ou a criança campesina brincando à beira do açude. E enquanto deleitava os olhos livremente nas verdejantes paisagens, seu espírito ágil voltava, em rápidos vôos, aos cenários alegres de sua própria juventude, como se essa deliciosa visão retrospectiva se sobrepusesse ao luminoso quadro que contemplava da janela. E recordava as animadas caçadas, quando ainda não sonhava sequer em usar um hábito, as cavalgadas vertiginosas, as noites cheias de serenatas e sussurrantes diálogos, o tilintar de taças, e D. Maria, a vaidosa, e Marietta, a gentil moleira, e as noites de outono em que ia visitar em Prato a loura Julieta. Sentado, conservava o olhar nos píncaros das montanhas ametistas, como se naquelas alturas permanecessem ainda o fulgor e o aroma dos tempos idos, como se brilhasse ainda um sol que há muito já se pusera nas paisagens mentalmente revividas. À sua memória voltavam os anos da adolescência. A h , isso sim, fora irrecuperavelmente perdido e nem a lembrança lograva evocar com nitidez fiel! Aqueles sentimentos primaveris e ansiosos de um corpo e de uma alma em evolução, aquela sede de saber, de ter informações seguras sobre o mundo c a vida dos homens, de entender os mistérios do amor! E como fora inconscientemente feliz naqueles anos de dolorosa inquietação, de ansiosas interrogações! Tudo o que ele mais tarde viu, entendeu e sentiu foi belo e doce; porém muito mais belos e doces tinham sido aqueles anos de sonhos, ânsias e suspeitas maravilhosas de sua feliz adolescência. Por vezes, uma nostalgia pungente assaltava o ancião. E, nesses instantes, surpreendia-se desejando voltar mais uma vez, uma única e fugidia vez, àqueles inefáveis momentos em que parava, hesitante, diante da cortina da vida e do amor, ignorando se o que suas mãos procuravam desvendar, tateando, era algo maravilhosamente desejável ou tenebrosamente execrável! Mais de r m a vez escutara, sentindo o rubor subir-lhe às faces, as conversas dos amigos mais velhos e experientes. E mais de uma vez a graciosa vênia de uma mulher, de cuja vida amorosa se sabia ou supunha algo, fizera-lhe o coração pulsar descompassado.

Dom Piero, entretanto, não era homem de se afligir por meras lembranças nem sacrificar o seu bem-estar atual por causa de nostálgicos sonhos. Fez, de súbito, uma careta bem-humorada e pôs-se a assobiar entre dentes uma velha e alegre canção. Depois, pegou novamente no livro e divertiu-se passeando no poético jardim policromo das palavras que lhe falavam de aventuras deliciosas, enquanto a água jorrando das fontes se misturava ao murmúrio das moças e às melodiosas caricias dos pares apaixonados, ocultos na folhagem dos bosques. A q u i e ali, saudava um bom jogo de palavras, ou uma acertada imagem, uma pequena e lasciva frase subordinada, que o autor soubera engenhosamente pôr em relevo, apesar de, na aparência, pretender escondê-la, ou até um palavrão bem empregado, no momento certo. E, do mesmo modo, também franzia o cenho ocasionalmente e pensava que, nesta ou naquela passagem, teria escrito diferente. Algumas frases recitava a meia voz, como se pela entonação pudesse sentir melhor o ritmo dos fatos que os olhos liam. Pelo rosto inteligente perpassava, às vezes, uma expressão hilare que acendia minúsculos lampejos em seus olhos. Assim como pode acontecer que, sem que o queiramos, o nosso espirito vagueie por recônditas paragens e se demore em divagações que são mais fantasias do que lembranças reais, enquanto nos ocupamos nesta ou naquela tarefa imediata e concreta, também o espírito de Dom Pioro, sem que soubesse explicar bem por que. errava pelos distantes tempos de sua adolescência e revoluteava, inseguro, em redor de adormecidos segredos, tal como as falenas adejam diante de uma janela iluminada mas fechada. Passada uma hora. Dom Piero largou novamente o livro e foi sentar-se em sua cadeira, diante da escrivaninha. Os pensamentos erradios ainda não tinham voltado à austeridade da cela monástica e Dom Piero hesitava entre chamá-los ao presente ou ceder à vontade de permanecer ainda mais algum tempo nesse mundo de lembranças distantes. Tomou a pena entre os dedos finos e começou rabiscando numa tira de papel os contornos de uma figura alta e esbelta de mulher. Com sereno prazer, a mão branca do frade foi acrescentando folhos ao vestido, ensombrando relevos, retocando aqui, esbatendo ali, e apenas o oval do rosto continuava vazio de traços e expressão, que para tanto não bastava a sua habilidade de desenhista. Quando ele, balançando criticamente a cabeça, decidiu traçar as linhas dos olhos e da boca, concluiu que, em vez de ter insuflado vida à figura, a tornara ainda mais inexpressiva e morta, como uma boneca sem alma nem fogo interior. A luz do dia extinguia-se aos poucos.e Dom Piero ergueu os olhos para a janela. As montanhas passavam por todos os cambiantes de cor, coroadas agora por um céu afogueado em prenúncios de ocaso. Pela ladeira regressavam rebanhos e carroças, grupos de campônios, pisando a poeira cintilante, caminhavam s-ilenciosos na distância, nas aldeias próximas ouvia-se o repicar dos sino^, na hora suave do Angelus, e quando tudo isso esmorecia, finalmente, ficava apenas pairando no ar imóvel o zunzum abafado de alguma cidade distante, talvez Florença. Do vale subia o perfume das rosas e, com o entardecer, as encostas das montanhas adquiriam um tom azul-escuro e aveludado, recortando-se num céu opalino. D o m Piero, com um gesto largo, acenou para as montanhas como se quisesse varrê-las, nesse instante, de seus olhos, e considerou prosaicamente que já era hora de jantar. A passos largos, dirigiu-se ao refeitório do convento. Ao aproximar-se, escutou vozes animadas de estranhos, o que indicava a presença de visitantes. Estugou o passo, curioso, e dois forasteiros se ergueram de seus cadeirões quando D o m Piero entrou no refeitório, logo imitados pelo abade. — Estais chegando atrasado, Piero — disse o abade. — Meus senhores, eis o homem por quem esperáveis! Por favor. D o m Piero, quero apresentar-vos ao Sr. Luigi Giustiniani, cavalheiro de Veneza, e seu primo, o jovem Giambattista. Estes senhores vêm em longa jornada de Roma e Florença e dificilmente teriam sabido da existência deste ninho das montanhas se não fossem atraídos pela vossa presença aqui, que lhes foi revelada em Florença. — Realmente? — retorquiu Piero, sorridente. — Talvez não seja bem assim e os senhores tenham, antes, obedecido à voz do seu sangue, que certamente não os deixaria passar por convento algum sem entrar. — Como assim? — perguntou o abade, surpreendido, enquanto Luigi sorria. — Dom Piero — disse ele alegremente — parece ser homem dotado de poderes oniscientes, para recordar tão inesperadamente antigos casos familiares. E Luigi relatou ao abade, em poucas palavras, a história invulgar de seus antepassados. Um jovem que muito cedo envergara o hábito descobriu, certo dia, ser o único herdeiro varão do seu nome, pois toda a estirpe masculina dos Giustiniani de Bizâncio parecera em curto período. Para que a família não se extinguisse, o papa desobrigara-o de seus votos e casara-o com a filha do doge. Desse matrimônio houve três filhos. Mas logo que eles cresceram, o pai casou-os com mulheres de poderosas famílias e voltou ao mosteiro, onde ainda hoje vive em severa penitência. Luigi era um dos filhos desse frade. Dom Pieroocupou seu lugar na mesa e respondia urbanamente às amabilidades que fluíam da boca dos venezianos, em seu modo brando de falar. Estava um pouco cansado mas não o deixou transparecer e quando aos pratos de peixe se seguiram as aves, ao branco e seco Bolognesi se seguiu o vigoroso Chianti envelhecido na adega do convento, os olhos do frade se animaram e sua fisionomia adquiriu maior vivacidade.

Retiradas as travessas de iguarias, ficaram apenas sobre a mesa as taças de vinho, os gomis e as bandejas de frutas. O refeitório estava imerso numa penumbra difusa. Pelas estreitas janelas ogivadas, abertas nas grossas paredes forradas interiormente de azulejos, filtrava-se a luz tênue do entardecer e, mesmo quando foram acesos os candelabros, a claridade agonizante ainda foi visível por algum tempo nas vidraças. Do lado de fora das janelas chegavam, de quando em vez, os ruídos que subiam da profundidade do vale, o trilo de uma cigarra na serenidade da noite de verão, o latido de um cão, o ranger incansável de um moinho, os risos e descantes de um alaúde. A brisa lépida e perfumada chegava-lhes às narinas e pequenos insetos noturnos, de asas iridescentes, como que banhadas numa poalha de prata, esvoaçavam em torno das velas, donde a cera escorria em grossos pingos. À mesa, os convivas mantinham uma conversa espirituosa, onde não faltavam os episódios alegres, os casos amorosos e as anedotas picantes. Tinham começado pelas novidades políticas e os mexericos do Palácio Vaticano, depois discutiram questões literárias e, finalmente, vieram à baila questões amorosas, quando os jovens hóspedes principiaram a narrar certas aventuras galantes, pedindo conselhos aos seus anfitriões. O abade limitava-se a escutálos em silêncio, acenando lentamente a cabeça. Mas D o m Piero fazia comentários e apartes que surpreendiam os demais convivas, quer pela competência dos juízos como pela exatidão da forma. Entretanto, o ânimo jovial do velho frade era mais propenso a levar tais assuntos para as observações jocosas do que para os ensinamentos graves e, por isso, depois de ter afirmado que um homem experiente era capaz de descobrir, na mais completa escuridão e por indícios infalíveis, se uma mulher era loura ou morena, logo sentenciou — contrariando aparentemente as palavras que acabara de proferir — que tudo era incerto e contraditório nas mulheres, que de três elas conseguiam fazer um par e ao branco chamavam preto. Os venezianos estavam ansiosos por arrancar-lhe alguma de suas famosas histórias e recorreram disfarçadamente a m i l ardis para tentá-lo. O velho, porém, mantinha-se reservado e limitava-se a interrompê-los com breves sentenças e teorias, e, em tom de brincadeira, era ele quem, astutamente, provocava os outros para contarem suas próprias aventuras, que incorporava divertido ao tesouro de sua incrível e rica memória. Escutava também alguns casos já seus conhecidos de longa data, agora apresentados em novas roupagens fantasiosas, mas evitava desmascarar o plagiador; tinha bastante idade e senso para saber que as boas e antigas histórias só são bonitas e alegres quando um jovem acredita ter ele próprio passado por aquelas experiências e as narra como coisa pessoal. Por f i m , o jovem Giambattista impacientou-se. Bebendo um gole de vinho tinto, empurrou a taça para longe e dirigiu-se a D o m Piero. — Venerável senhor — disse ele — sabeis tão bem quanto eu que estamos morrendo de ansiedade por escutar uma história de vossa boca. Já nos arrancastes pelo menos uma dúzia de histórias, que de bom grado contamos na esperança de ouvir-vos uma melhor, nem que fosse, tão-só, para nos envergonharmos de nossas veleidades. Por favor, alegrai-nos com uma de vossas tão afamadas novelas! Piero trincava, em silêncio, um figo molhado em vinho e, enquanto o saboreava, seu semblante estava pensaíivo, como se uma secreta amargura o toldasse. — Esqueceis, nobre moço, que já não sou mais o cronista leviano de outros tempos, mas um velho dedicado à perfeição de sua alma e a quem só resta, agora, escrever a epígrafe para a própria sepultura? — Perdão — interrompeu vivamente Giambattista. — Vós dizíeis há pouco palavras sobre o amor que poderiam envaidecer qualquer jovem que as proferisse. Luigi juntou-se ao pedido. Piero sorria enigmaíicamente. T i nha resolvido ceder às súplicas. Porém, decidira contar uma história que, assim esperava, decepcionaria de uma vez por todas a curiosidade dos jovens. Afastou calmamente o candelabro de três braços, meditou por instantes e aguardou que todos emudecessem para começar a falar.

As chamas das velas projetavam sombras longilíneas na toalha, sobre a qual se espalhavam alguns figos e limões verdes e amarelos. Pelas ogivas das janelas espiava a noite estrelada. Os três ouvintes recostaram-se em seus cadeirões e baixaram os olhos para o chão de ladrilho vermelho, onde a sombra da mesa se alongava até morrer suavemente na escuridão do refeitório. No vale, tudo já emudecera e tal era o silêncio que foi possível escutar, ao longe, os cascos de um cavalo atravessando, a passo lento e cansado, um caminho difícil — tão lento que era impossível dizer se o cavaleiro se afastava ou se aproximava. E Piero contou: — Esta noite, falamos várias vezes sobre o beijo e discutimos que espécie de beijo poderá causar mais felicidade. É um assunto que aos jovens cabe responder. Nós, velhos, já lhe perdemos o sabor e vencemos há muito a tentação. Sobre questões de tanta importância para os moços podemos responder apenas com o que nos oferece a turva memória. É recorrendo à minha modesta memória que vos quero contar, pois, a historia de dois beijos que me pareceram, ao mesmo tempo, os mais doces e mais amargos de toda a minha vida. “Contava eu, nessa época, dezesseis ou dezessete estouvados anos. Meu pai ainda possuía uma casa de campo vizinha de Bolonha, nas faldas dos Apeninos, onde eu passara a maior parte da infância e adolescência. Foi essa a época, quer acrediteis ou não, que me parece ainda hoje a mais bela de minha vida. Há muito já teria visitado essa casa ou mesmo a adquirido para retiro se ela não tivesse caído, por questões de herança, nas mãos de um de meus primos, com quem nunca me entendi bem, desde criança, e que, aliás, representa o papel principal na minha história. ” E r a um belo verão, não muito quente, e eu morava com meu pai e aquele primo na pequena casa de campo, para onde ele fora convidado como hóspede e meu companheiro. Meu pai ainda era relativamente moço, um nobre abastado e de digno caráter, que a todos nós, rapazes, servia de modelo nas artes de montar e caçar, na esgrima e nos jogos de destreza, enfim, em artibus vivendi et amandi. Ainda era ágil, de bela presença e havia bem pouco tempo casara-se outra vez. ” M e u primo, que se chamava Alvise, tinha por essa época vinte e três anos e, devo admitir, era um jovem de bonita aparência e grande desenvoltura. Não só esguio e bem proporcionado de corpo, como de belos e longos cabelos que caíam em cachos, um rosto saudável e corado, movimentos graciosos e elegantes. E, além desses predicados físicos, era um conversador e cantor aceitável, dançava razoavelmente e tinha a fama de ser um dos mais requestados entre as mulheres da região. Que nos detestássemos mutuamente era compreensível, por muitas e boas razões. Ele tratava-me com intolerável presunção e irônica benevolência e, como eu tinha uma mentalidade bastante desenvolvida para a minha idade, aquele tratamento depreciativo me molestava e ofendia. Sendo eu já, também, um bom observador, descobrira alguns de seus segredos e intrigas, o que Alvise sabia, é claro, e muito lhe desagradava. Por vezes, tentava cativar-me com modos amáveis e fingidos, mas eu entendia seu intuito e não me impressionava. Fosse eu um pouco mais velho e experiente, teria sabido explorar tal situação e obtido dele quantos favores quisesse, esperando o momento propício para derrubá-lo do pedestal da vaidade! Apesar de já ,ser bastante crescido para detestá-lo, desconhecia outras armas, além da aspereza e teimosia, para. lidar com o meu primo e, em vez de devolver-lhe suas flechas envenenadas, deixava que elas se enterrassem ainda mais na minha carne, com indignação impotente. Meu pai, a quem essa mútua aversão não passara despercebida, ria-se dela e ainda zombava de nós por isso. Ele gostava do belo e elegante Alvise e não seria o meu comportamento hostil que impediria de convidá-lo amiúde para o nosso convívio. “Assim estávamos morando juntos nesse verão. A nossa casa de campo situava-se numa colina e, sobre os extensos vinhedos, podíamos abranger com a vista as longínquas planícies. Fora construída, pelo que sei, no tempo dos Albizzi, os nobres gibelinos banidos de Florença. Era cercada por um belo jardim que meu pai mandara proteger com um muro novo. Sobre o portão tinham sido esculpidas em pedra as armas da nossa família, ao passo que, na porta da casa, ainda se via o brasão dos antigos proprietários, quase irreconhecível, pois fora gravado em pedra frágil e quebradiça. No mato que cobria o resto da colina havia excelente caça, onde eu cavalgava todos os dias, umas vezes sozinho, outras acompanhado de meu pai, que se empenhara nesse verão em ensinar-me a arte da falcoaria. ” C o m o já disse, eu era então um adolescente, vivendo aquela breve e estranha fase em que já perdemos a alegria e espontaneidade da infância mas ainda não atingimos a segurança e a audácia da virilidade. Idade em que os jovens caminham na vida como se percorressem uma estrada quente que não sabem ao certo onde vai dar, entre jardins fechados por altos muros, curiosos de saber o que acontece atrás deles, lascivos sem objetivo certo, melancólicos sem razão plausível. Naturalmente, escrevi uma porção de éclogas e outros poemas semelhantes, mas não me apaixonara ainda senão pelas minhas próprias visões poéticas, apesar de crer que estava morrendo de melancolia por uma paixão verdadeira. Assim andava eu numa febre constante, procurava a solidão e achava-me a criatura mais irremediavelmente infeliz. Meu sofrimento foi dobrado pelo fato de mantê-lo ciosamente oculto. Pois estava certo que nem meu pai nem o detestado Alvise me teriam poupado ao seu escárnio. Também escondia os meus belos poemetos, como um avarento guarda seus ducados de ouro. Tinha um pequeno cofre mas não o julgava bastante seguro em casa e, por isso, levava-o furtivamente para o campo e aí o cntcrravn com meus papéis. E todos os diascão, o ranger incansável de um moinho, os risos e descantes de um alaúde. A brisa tépida e perfumada chegava-lhes às narinas e pequenos insetos noturnos, de asas iridescentes, como que banhadas numa poalha de prata, esvoaçavam em torno das velas, donde a cera escorria em grossos pingos. À mesa, os convivas mantinham uma conversa espirituosa, onde não faltavam os episódios alegres, os casos amorosos e as anedotas picantes. Tinham começado pelas novidades políticas e os mexericos do Palácio Vaticano, depois discutiram questões literárias e, finalmente, vieram à baila questões amorosas, quando os jovens hóspedes principiaram a narrar certas aventuras galantes, pedindo conselhos aos seus anfitriões. O abade hmitava-se a escutálos em silêncio, acenando lentamente a cabeça. Mas D o m Piero fazia comentários e apartes que surpreendiam os demais convivas, quer pela competência dos juízos como pela exatidão da forma. Entretanto, o ânimo jovial do velho frade era mais propenso a levar tais assuntos para as observações jocosas do que para os ensinamentos graves e, por isso, depois de ter afirmado que um homem experiente era capaz de descobrir, na mais completa escuridão e por indícios infalíveis, se uma mulher era loura ou morena, logo sentenciou — contrariando aparentemente as palavras que acabara de proferir — que tudo era incerto e contraditório nas mulheres, que de três elas conseguiam fazer um par e ao branco chamavam preto. Os venezianos estavam ansiosos por arrancar-lhe alguma de suas famosas histórias e recorreram disfarçadamente a m i l ardis para tentá-lo. O velho, porém, mantinha-se reservado e limitava-se a interrompê-los com breves sentenças e teorias, e, em tom de brincadeira, era ele quem, astutamente, provocava os outros para contarem suas próprias aventuras, que incorporava divertido ao tesouro de sua incrível e rica memória. Escutava também alguns casos já seus conhecidos de longa data, agora apresentados em novas roupagens fantasiosas, mas evitava desmascarar o plagiador; tinha bastante idade e senso para saber que as boas e antigas histórias só são bonitas e alegres quando um jovem acredita ter ele próprio passado por aquelas experiências e as narra como coisa pessoal. Por fim, o jovem Giambattista impacientou-se. Bebendo um gole de vinho tinto, empurrou a taça para longe e dirigiu-se a Dom Piero. — Venerável senhor — disse ele — sabeis tão bem quanto eu que estamos morrendo de ansiedade por escutar uma história de vossa boca. Já nos arrancastes pelo menos uma dúzia de histórias, que de bom grado contamos na esperança de ouvir-vos uma melhor, nem que fosse, tão-só, para nos envergonharmos de nossas veleidades. Por favor, alegrai-nos com uma de vossas tão afamadas novelas! Piero trincava, em silêncio, um figo molhado em vinho e, enquanto o saboreava, seu semblante estava pensativo, como se uma secreta amargura o toldasse. — Esqueceis, nobre moço, que já não sou mais o cronista leviano de outros tempos, mas um velho dedicado à perfeição de sua alma e a quem só resta, agora, escrever a epígrafe para a própria sepultura? — Perdão — interrompeu vivamente Giambattista. — Vós dizíeis há pouco palavras sobre o amor que poderiam envaidecer qualquer jovem que as proferisse. Luigi juntou-se ao pedido. Piero sorria enigmaticamente. T i nha resolvido ceder às súplicas. Porém, decidira contar uma história que, assim esperava, decepcionaria de uma vez por todas a curiosidade dos jovens. Afastou calmamente o candelabro de três braços, meditou por instantes e aguardou que todos emudecessem para começar a falar.

As chamas das velas projetavam sombras longilineas na toalha, sobre a qual se espalhavam alguns figos e limões verdes e amarelos. Pelas ogivas das janelas espiava a noite estrelada. Os três ouvintes recostaram-se em seus cadeirões e baixaram os olhos para o chão de ladrilho vermelho, onde a sombra da mesa se alongava até morrer suavemente na escuridão do refeitório. No vale, tudo já emudecera e tal era o silêncio que foi possível escutar, ao longe, os cascos de um cavalo atravessando, a passo lento e cansado, um caminho difícil — tão lento que era impossível dizer se o cavaleiro se afastava ou se aproximava. E Piero contou: — Esta noite, falamos várias vezes sobre o beijo e discutimos que espécie de beijo poderá causar mais felicidade. É um assunto que aos jovens cabe responder. Nós, velhos, já lhe perdemos o sabor e vencemos há muito a tentação. Sobre questões de tanta importância para os moços podemos responder apenas com o que nos oferece a turva memória. É recorrendo à minha modesta memória que vos quero contar, pois, a historia de dois beijos que me pareceram, ao mesmo tempo, os mais doces e mais amargos de toda a minha vida. “Contava eu, nessa época, dezesseis ou dezessete estouvados anos. Meu pai ainda possuía uma casa de campo vizinha de Bolonha, nas faldas dos Apeninos, onde eu passara a maior parte da infância e adolescência. Foi essa a época, quer acrediteis ou não, que me parece ainda hoje a mais bela de minha vida. Há muito já teria visitado essa casa ou mesmo a adquirido para retiro se ela não tivesse caído, por questões de herança, nas mãos de um de meus primos, com quem nunca me entendi bem, desde criança, e que, aliás, representa o papel principal na minha história. “Era um belo verão, não muito quente, e eu morava com meu pai e aquele primo na pequena casa de campo, para onde ele fora convidado como hóspede e meu companheiro. Meu pai ainda era relativamente moço, um nobre abastado e de digno caráter, que a todos nós, rapazes, servia de modelo nas artes de montar e caçar, na esgrima e nos jogos de destreza, enfim, em artibus vivendi et amandi. Ainda era ágil, de bela presença e havia bem pouco tempo casara-se outra vez. ” M e u primo, que se chamava Alvise, tinha por essa época vinte e três anos e, devo admitir, era um jovem de bonita aparência e grande desenvoltura. Não só esguio e bem proporcionado de corpo, como de belos e longos cabelos que caíam em cachos, um rosto saudável e corado, movimentos graciosos e elegantes. E, além desses predicados físicos, era um conversador e cantor aceitável, dançava razoavelmente e tinha a fama de ser um dos mais requestados entre as mulheres da região. Que nos detestássemos mutuamente era compreensível, por muitas e boas razões. Ele tratava-me com intolerável presunção e irônica benevolência e, como eu tinha uma mentalidade bastante desenvolvida para a minha idade, aquele tratamento depreciativo me molestava e ofendia. Sendo eu já, também, um bom observador, descobrira alguns de seus segredos e intrigas, o que Alvise sabia, é claro, e muito lhe desagradava. Por vezes, tentava cativar-me com modos amáveis e fingidos, mas eu entendia seu intuito e não me impressionava. Fosse eu um pouco mais velho e experiente, teria sabido explorar tal situação e obtido dele quantos favores quisesse, esperando o momento propício para derrubá-lo do pedestal da vaidade! Apesar de já ser bastante crescido para detestá-lo, desconhecia outras armas, além da aspereza e teimosia, para. lidar com o meu primo e, em vez de devolver-lhe suas flechas envenenadas, deixava que elas se enterrassem ainda mais na minha carne, com indignação impotente. Meu pai, a quem essa mútua aversão não passara despercebida, ria-se dela e ainda zombava de nós por isso. Ele gostava do belo e elegante Alvise e não seria o meu comportamento hostil que impediria de convidá-lo amiúde para o nosso convívio. “Assim estávamos morando juntos nesse verão. A nossa casa de campo situava-se numa colina e, sobre os extensos vinhedos, podíamos abranger com a vista as longínquas planícies. Fora construída, pelo que sei, no tempo dos Albizzi, os nobres gibelinos banidos de Florença. Era cercada por um belo jardim que meu pai mandara proteger com um muro novo. Sobre o portão tinham sido esculpidas em pedra as armas da nossa família, ao passo que, na porta da casa, ainda se via o brasão dos antigos proprietários, quase irreconhecível, pois fora gravado em pedra frágil e quebradiça. No mato que cobria o resto da colina havia excelente caça, onde eu cavalgava todos os dias, umas vezes sozinho, outras acompanhado de meu pai, que se empenhara nesse verão em ensinar-me a arte da falcoaria. ” C o m o já disse, eu era então um adolescente, vivendo aquela breve e estranha fase em que já perdemos a alegria e espontaneidade da infância mas ainda não atingimos a segurança e a audácia da virilidade. Idade em que os jovens caminham na vida como se percorressem uma estrada quente que não sabem ao certo onde vai dar, entre jardins fechados por altos muros, curiosos de saber o que acontece atrás deles, lascivos sem objetivo certo, melancólicos sem razão plausível. Naturalmente, escrevi uma porção de éclogas e outros poemas semelhantes, mas não me apaixonara ainda senão pelas minhas próprias visões poéticas, apesar de crer que estava morrendo de melancolia por uma paixão verdadeira. Assim andava eu numa febre constante, procurava a solidão e achava-me a criatura mais irremediavelmente infeliz. Meu sofrimento foi dobrado pelo fato de mantê-lo ciosamente oculto. Pois estava certo que nem meu pai nem o detestado Alvise me teriam poupado ao seu escárnio. Também escondia os meus belos poemetos, como um avarento guarda seus ducados de ouro. Tinha um pequeno cofre mas não o julgava bastante seguro em casa e, por isso, levava-o furtivamente para o campo c aí o enterrava com meus papéis. F todos os dias passava pelo esconderijo para certificar-me de que o meu tesouro ainda lá estava. “Durante uma dessas excursões de cavador de tesouros, vi meu primo parado na orla do bosque me observando. Imediatamente mudei de rumo, como se não o tivesse visto mas conservando-o, de soslaio, sob olhares cautelosos. Na verdade, acostumara-me, por curiosidade e antipatia, a vigiá-lo constantemente. Instantes depois, vi surgir no campo uma jovem e bonita criadinha que servia em nossa casa aproximar-se de Alvise, que a esperava. Abraçou a moça pela cintura e desapareceu com ela no bosque. ” F u i tomado de uma agitação febril e, ao mesmo tempo, de uma inveja surda daquele primo que eu via colher facilmente frutos que, para mim, ainda estavam altos demais. Durante o jantar, A l vise olhava-me com intensidade, pois supunha que, de alguma forma, eu podia notar nos seus olhos ou em seus lábios, que ele estivera beijando e gozando as delicias do amor. Dai em diante, não pude mais ver aquela criadinha da casa sem sentir arrepios lascivos, que tanto me davam prazer quanto inexplicavelmente me doíam. “Naquele verão, meu primo veio com a notícia de que tinhamos vizinhos. Um homem rico de Bolonha e sua linda e jovem esposa. Alvise já os conhecia havia algum tempo e foi hospedar-se na casa de campo do casal, que não distava muito da nossa, situada um pouco mais abaixo, na encosta da colina. “Este homem também era conhecido de meu pai e, creio eu, parente afastado de minha falecida mãe, que descendia da família dos Pepoli. Mas disso não tenho certeza. Em Bolonha residiam num palácio vizinho de Collègio di Spagna. A casa de campo era, porém, propriedade da esposa, por herança de família. Ambos, assim como os três filhos, que nessa época ainda não haviam nascido, já faleceram; e dos personagens da minha história só eu e meu primo Alvise sobrevivemos até hoje, ambos velhos e cansados, sem que por isso simpatizemos um com o outro. ” L o g o no dia seguinte à chegada de nossos vizinhos, durante um passeio a cavalo, cruzamos com o bolonhês. Cumprimentamonos e meu pai convidou-o e à sua esposa para nos visitarem em breve. Nosso homem aparentava ser da mesma idade de meu pai; mas não era minha intenção compará-los pois enquanto meu pai era de elevada estatura e donairoso, o outro era atarracado e feio. Dirigiu-se a meu pai com muita polidez, dedicou-me algumas palavras afáveis e prometeu visitar-nos no dia seguinte; meu pai convidou-o então para o almoço. O vizinho agradeceu e separamo-nos com muitos cumprimentos recíprocos e satisfação ainda maior. ” N o dia seguinte, meu pai mandou que se preparassem, requintadas iguarias e que a mesa fosse ornamentada, em homenagem à distinta dama, com grinaldas de flores. Aguardávamos os visitantes com grande excitação e expectativa, e quando ouvimos a carruagem aproximar-se de nossa casa meu pai acorreu a esperá-los fora do portão, ajudando a formosa senhora a descer. Sentamo-nos todos à mesa num ambiente de alegria e, durante a refeição, eu não pude deixar de admirar mais Alvise do que meu pai. Ele sabia dizer aos nossos hóspedes tantas coisas divertidas, lisonjeiras e curiosas — sobretudo à senhora — que a animação era constante, os risos e comentários bem-humorados não paravam. Naquele momento, tomei a decisão de aprender também a valiosa arte de conversar. “Mas o que mais me ocupava, entretanto, era observar a j o vem fidalga. Ela era, na verdade, excepcionalmente bela, alta e esbelta, elegantemente vestida, e seus movimentos eram naturais, graciosos, sem afetação. Bem me recordo que usava na mão esquerda, a que estava do meu lado, três anéis de ouro com grandes pedras engastadas, e do pescoço pendia um cordão também de ouro, de três voltas, com pequenas medalhas florentinas. Quando a refeição estava prestes a findar, tendo eu passado mais tempo a contemplar a jovem do que comendo, senti já estar loucamente apaixonado por ela. Pela primeira vez eu conhecia realmente aquela doce e perniciosa paixão com que tanto sonhava e sobre a qual escrevera versos. “Retirada a mesa, encaminhamo-nos todos para o j a r d i m , a fim de repousarmos um pouco nas frescas sombras e deliciarmo-nos com a animada conversa sobre assuntos diversos. Meu pai pediu-me que recitasse uma ode latina e fui muito elogiado pelos nossos hóspedes. A tarde passou espantosamente depressa e ficou decidido jantarmosa todos na loggia. Só quando começou a escurecer, é que nossos vizinhos se levantaram para regressar a casa. Ofereci-me imediatamente para acompanhá-los mas Alvise já se antecipara e tinha seu cavalo preparado. Despediram-se efusivamente de meu pai e a carruagem partiu, escoltada por Alvise, enquanto eu ficava olhando-os desaparecerem na curva da estrada, pálido de inveja e frustração.

“Nesse fim de tarde c na noite que se lhe seguiu tive, então, a primeira oportunidade de saber por experiência própria alguma coisa sobre o amor ou, pelo menos, sobre uma das formas de amar. Tão profundamente feliz estivera durante todo o dia, na mera contemplação da jovem fidalga, tão infeliz e desconsolado fiquei desde o instante em que ela deixou nossa casa. Com que mágoa e despeito ouvi meu primo regressar, uma hora depois, fechando ruidosamente o portão e entrando em seus aposentos. Fiquei o resto da noite revolvendo-me no leito, sem poder dormir, irrequieto, suspirando, esforçando-me por reconstituir, traço por traço, o belo rosto de nossa vizinha, a cor de seus olhos, os contornos das mãos, os gestos e cada uma das palavras que proferiu. Murmurava seu nome, Isabella, repetia-o centenas de vezes, ternamente, e foi um milagre que, no dia seguinte, ninguém tivesse notado minha aparência exausta e perturbada. Não fiz outra coisa o dia inteiro senão arquitetar planos astuciosos que me proporcionassem uma desculpa plausível para rever Isabella e, se possível, receber dela alguma prova de afeição. Era evidente que eu me atormentava em vão, pois não tinha experiência alguma e é sabido que, no amor como na guerra, até os mais felizes começam sempre por provar o sabor da derrota. ” N o dia seguinte, atrevi-me a sair na direção daquela casa de campo, o que facilmente podia fazer sem ser observado, visto que estava situada justamente na orla do bosque. Ocultei-me cuidadosamente no arvoredo e fiquei horas a fio espiando a casa, sem que me fosse dado ver mais do que um indolente e gordo pavão, uma criada cantando e uma revoada de pombos brancos. Passei a correr todos os dias para o meu esconderijo e, por duas ou três vezes, fui recompensado com a visão de Isabella, passeando no jardim ou rccostada numa janela. ” C o m o tempo, fui ganhando audácia e consegui penetrar furtivamente no j a r d i m , cujo portão quase sempre se encontrava aberto e cuja vista estava protegida da casa por um reaque de arbustos. Era sob estes que me escondia, podendo daí observar os vários caminhos serpenteantes do j a r d i m . Ficava bem perto de um pequeno e gracioso pavilhão de recreio onde Isabella costumava pas,sar grande parte da manhã. Oculto sob os arbustos ficava eu metade do dia, sem sentir fome ou cansaço, tremendo de prazer e medo, .sempre que podia vislumbrar a bela mulher. ” U m dia, cruzei com o bolonhês no bosque e com redobrada alegria corri para o meu posto de observação, já que sabia não estar o marido em casa — o que, aliás, era um dos motivos de meus tremores de medo. Por isso me atrevi ainda mais nesse dia, penetrando no jardim e indo ocultar-me, junto de um frondoso loureiro, ao lado do pavilhão de recreio. Escutei ruídos lá dentro, dando-me a certeza de que Isabella, lá se encontrava. Julguei, em dado momento, ter escutado também sua voz, mas tão sussurrada que não pude ter certeza. Pacientemente, aguardei no meu esconderijo que ela surgisse e, ao mesmo tempo, já começava a ficar apavorado com a idéia de que o marido regressasse e casualmente me descobrisse em tão comprometedora situação. A janela do pavilhão que dava para o meu lado estava, infelizmente, fechada por uma cortina azul que me impedia de espiar para dentro. Mas isso me tranqüihzava de algum modo, pois tampouco eu podia ser surpreendido por quem estivesse no pavilhão. “Depois de ter esperado mais de uma hora, pareceu-me que a cortina azul se mexia, como se alguém estivesse parado atrás dela e tentasse espiar discretamente o jardim. Escondi-me o melhor que pude, pois não me encontrava a mais de três passos da janela. O suor começou a escorrer pela minha testa e o coração pulsava tão ruidosamente que temi ser surpreendido. “O que aconteceu em seguida foi mais brutal do que uma punhalada em meu coração inexperiente. A cortina azul foi rapidamente puxada para um lado e um homem pulou pela janela com a agilidade de um gamo. M a l me recuperara de minha consternação quando caí num ainda mais doloroso espanto, pois reconheci naquele homem audacioso o meu inimigo e primo Alvise. A compreensão raiou em mim como um corisco ofuscante. Tremi de raiva e ciúme, pouco faltando para sair do esconderijo e saltar em cima do meu detestado rival. “Alvise erguera-se do chão, sorridente, e olhava cautelosamente em redor. Logo depois, Isabella, que saíra do pavilhão pela porta da frente, contornou-o lépida, sorriu para o amante e murmurou carinhosamente: ‘Vá agora, Alvise, vá! Addio!’ “Inclinou-se para ele, abraçaram-se e trocaram um beijo. Foi um único beijo, mas tão demorado, tão ardente e sôfrego, que o meu coração deve ter ultrapassado, nesse instante, as cem batidas. Jamais presenciara de tão perto uma tal manifestação de amor, que até então só conhecia dos romances e poemas. E a contemplação da minha donna, com os lábios vermelhos e sequiosos colados na boca de meu primo, era uma cena de enlouquecer. “Esse beijo, meus senhores, foi para mim o mais doce e, ao mesmo tempo, o mais amargo de quantos até hoje eu próprio dei ou recebi… excetuando, talvez, um outro de que também vos falarei.

“Nesse mesmo dia, quando minha alma ainda sangrava como passarinho ferido, fomos convidados pelo bolonhês para ir a sua casa, onde retribuiria a hospitalidade que recebera na nossa. A visita seria no dia seguinte. Eu não queria ir mas fui obrigado por meu pai. Assim passei mais uma noite amargurado e sem dormir. Pela manhã, montamos nossos cavalos e fomos descendo lentamente para a casa de nossos vizinhos, entrando pelo portão e atravessando o j a r d i m que eu já tantas vezes pisara furtivamente. Enquanto eu me sentia amedrontado e com o peito cheio de angústia, Alvise, pelo contrário, olhava para o pavilhão de recreio e os loureiros com um sorriso triunfante que me enlouquecia, “Também desta vez meus olhos ficaram pregados o tempo todo em Isabella, mas essa contemplação só servia para aumentar o meu inferno, pois defronte dela sentara-se o odiado Alvise e eu não conseguia encará-los sem recordar, com cruel nitidez, a cena da véspera. Apesar disso, eu não arredava os olhos dos vermelhos e fascinantes lábios dela. A mesa estava posta com pratos e vinhos requintados, a conversa corria alegre e descuidada mas eu não estava gostando e recusava-me a participar na animação geral. De minha boca não saiu palavra nem sorriso e, para m i m , a tarde parecia mais longa e monótona que uma Semana Santa. “Durante o jantar, surgiu na sala um criado para anunciar que estava no pátio um mensageiro que queria falar com o dono da casa. O bolonhês pediu desculpas a seus hóspedes, prometendo voltar num instante e saiu. Meu primo conduzia a conversa, com a sua habitual desenvoltura. Mas, como eu já suspeitava, meu pai descobrira o que se passava entre Alvise e Isabella e divertia-se desfrutando o embaraço de ambos coní insinuações e perguntas indiretas. A certa altura dirigiu-se à dama e, em tom de brincadeira, perguntou: ‘— Dizei-me, donna, a quem de nós três mais gostarícis de dar um beijo?’ ” E l a riu alto e respondeu depressa: ‘— A todos prefiro aquele bonito moço!’ “E levantando-se de sua cadeira, puxou-mc para si e deu-me um beijo… mas não como aquele que eu vira na véspera, demorado e ardente, senão um beijo leve e frio. “Creio que esse foi o beijo que me despertou mais desejo e mágoa, entre todos os que recebi de uma mullier amada. Piero esvaziou seu cálice, levantou-se e retribuiu as gentilezas dos venezianos, acenou uma boa-noite para o abade e, pegando em um dos candelabros, saiu vagarosamente. Já era bastante tarde e ‘os dois hóspedes recolheram-se também a seus aposentos. — Gostaste dele? — perguntou Luigi, já deitado, no escuro. — Oue pena. Acho que Piero está ficando velho — respondeu Giambattista, bocejando. — Estou realmente decepcionado. Em vez de uma boa novela, revolveu antigas recordações de infância. — Com as pessoas idosas é sempre assim — disse Luigi, espreguiçando-se debaixo do lençol. — Mas ele não só fala muito bem, como c assombrosa a boa memória que ele tem. Dom Piero metia-se, naquele momento, em sua cama. Tinha sono. Arrependia-se de não ter contado alguma coisa diferente, em que a sua vaidade não saisse tão ferida, o que poderia ter feito facilmente. Mas uma coisa o alegrava e o fazia sorrir do fundo do coração: seu dom de improvisar não diminuirá com o peso dos anos. Pois toda sua história, incluindo a casa do campo, o primo, a criadinha, a donna, o marido baixo e feio, o loureiro, o pavilhão e os dois beijos, tudo, tudo não passava de uma fábula inventada de momento a momento.

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