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O Cerco à Cidade de Cremna (Hermann Hesse)

Na época dos imperadores Aureliano, Tácito e Probo, nas províncias de Isáuria, Pisidia e Lícia, na Ásia Menor, famosas há séculos como esconderijos de salteadores, vivia um certo Lidio, que era de todos o mais famigerado e temido. Era natural de Isáuria c nascera no tempo de Felipe, o Árabe. Todos os seus antepassados tinham sido também salteadores. Seu pai perdera a vida durante uma pilhagem na Licia, seu avô e dois tios morreram enforcados à mesma época. Desconhece-se seu nome de batismo; desde os vinte anos que era chamado de Lidio e com este nome ficaria famoso por aquelas paragens. Lidio era, por natureza, inteligente, astuto e corajoso mas ponderado em seus empreendimentos. Sabia tirar partido das pessoas c servir-se do amor ou medo que nelas despertava para conseguir seus intentos. Assim foi ascendendo, de triunfo cm triunfo, e ainda jovem já conhecia o sabor da fama e do poder, sem que por isso os anos lhe trouxessem cansaço ou tédio. Só depois de ter completado trinta anos, o êxito fácil e contínuo das arriscadas façanhas o convenceram, movido por sentimentos de júbilo e êxtase, de sua invencibilidade. Assim foi que decidiu exceder os limites estabelecidos pelas leis divinas para, afinal, sofrer uma queda brusca e fatal. Durante sua passagem e de seu numeroso bando pela Cilícia, juntou-se-lhes um grego jônico, de nome Hefaisto, que até então estivera a serviço de piratas cilicinos mas preferira alistar-se agora no famigerado bando de Lídio. Dai em diante, suas façanhas foram cada vez mais retumbantes, pois esse Hefaisto era homem hábil e astucioso, fértil em ardis, planos e maquinações. Dominava bem cinco idiomas, sabia desenhar mapas e entendia de espionagem, conhecia a estratégia militar e a arte de sitiar mas distinguia-se, sobretudo, como atirador exímio e construtor de engenhos bélicos. Inventara e construirá catapultas, com a ajuda das quais era capaz de alvejar, com impressionante precisão, quer usasse flechas, quer arremessasse pedras, o inimigo previamente visado. No combate à distância, sabia como aproveitar qualquer terreno e, durante os cercos, dirigia pessoalmente a edificação de paliçadas, a abertura das trincheiras e a escavação de minas. Lídio apercebia-se claramente do valor desse homem. Tratava-o com afabilidade, concedia-lhe o direito de arrecadar o dobro da presa dos demais homens e honrava-o com o posto de comando imediatamente inferior ao dele. No começo, observara-o com certo receio e inveja, pois temia que esse grego de mil talentos se convertesse num perigo.so rival, capaz de derrubá-lo mais dia menos dia. Mas depressa concluiu que Hefaisto o superava, certamente, em muitos talentos e ardis, porém não tinha nascido para governar. E, de fato, o grego não teria servido — apesar de sua inteligência — para liderar aqueles homens. Faltava-lhe, para tanto, o olhar dominante, os gestos imperiosos e violentos, a intrepidez pessoal, ,sem o que nenhum homem pode manter o controle de qualquer grupo, por menor que seja, impondo-lhe obediência e fidelidade submissa. Lídio viu seus temores dissiparem-se e o grego, por seu turno, contentava-se em ser o conselheiro dileto e o chefe imediato de Lídio, em vez de aspirar ao supremo comando. Por algum tempo esse bando de centenas de homens mantevese operando na pequena província de Pisídia e em parte da Panfília. Os camponeses eram despojados de seus rebanhos, trigo, frutas e vinho; as cidades e os comerciantes perdiam dinheiro, mercadoria e equipamentos, c ninguém se atrevia a opor resistência ao poderoso cabccilha. Anpustiosos pedidos de socorro e reclamações desesperadas eram dirigidos ao governador da província, ao imperador e ao Senado, em Roma; a toda hora eram despachadas centúrias romanas ao encontro dos salteadores, mas estas ou sofriam derrotas fragorosas, ou tinham de regressar sem pôr a vista no bando, que era exímio na arte de sumir na intransitável e acidentada cordilheira de Tauro. Lídio, possuído de uma vaidade ofuscante por tantos êxitos obtidos, já dava a entender que, em caso de necessidade, poderia até defrontar o Império, cujo poderio se revelara tão fraco em todos os recontros com a sua gente. Passou então a provocar as autoridades, não poupando funcionários e soldados, e anunciando ocasionalmente que pretendia disputar ao imperador a posse daquelas províncias, tornando-as propriedades suas. Na realidade, não faltava muito para isso, pois Lídio incendiava e saqueava impunemente povoados, aldeias e vilas inteiras, apoderando-se do que queria a seu bel-prazer, e não só dispunha de centenas de combatentes bem adestrados e intrépidos mas, além disso, tinha por toda a parte espiões, olheiros, receptadores e aliados secretos. Entrementes, em Roma, o valente e justiceiro Imperador Probo sucedera a um governo fraco e pusilânime. As queixas e pedidos de socorro que chegavam insistentemente daquelas mal-afamadas paragens da Ásia Menor obrigaram o novo imperador a promulgar severos editos e a enviar aos governadores das províncias flageladas pelo bando de Lídio instruções rigorosas para que desencadeassem uma verdadeira guerra contra os salteadores. Lídio logo que teve conhecimento dessas determinações de Roma exultou, pois lhe pareceu que chegara a hora de mostrar seu poderio e de zombar abertamente do Império. Como começasse a ser acossado e molestado por sucessivas patrulhas de centúrias romanas, decidiu, obstinado, possuído de grande fúria, arriscar tudo num ato de inaudita violência que servisse de lição a seus inimigos. Edificada nas culminâncias rochosas e alcantiladas de uma das montanhas de Tauro, na província de Pisídia, erguia-se a cidade de Cremna, tida como inexpugnável por natureza e engenho humano. Fora construída de modo que três dos seus lados estavam protegidos por um abismo profundo e inacessível, e o quarto lado era protegido por uma formidável muralha. Foi essa cidade que Lídio resolveu conquistar e daí desafiar o mundo inteiro. Consultou Hefaísto e alguns de seus companheiros diletos, que aprovaram o audacioso plano, logo posto em prática na semana seguinte.

Numa manhã do mês de abril, apareceram nas portas da cidade de Cremna dez homens que, sem serem vistos, tinham subido a única e Íngreme estrada que conduzia até ela. Silenciosamente tomaram de surpresa as portas, sem encontrar oposição séria dos guardas, e hastearam uma bandeira vermelha, deixando as sentinelas fugirem apavoradas enquanto eles riam com gosto. Já nessa altura o bando de Lídio vinha escalando a íngreme estrada. O cabecilha, um homem moreno e bonito, de rasgados olhos pretos e maldosos, vinha na frente, montado numa mula. Não falava e limitava-se a acenar aos seus homens — que caminhavam cantando e folgando — para que se calassem e não abandonassem a ordem de marcha. Atento, vigiava todos os detalhes do percurso e a disposição da cidade alcandorada, como um ninho de águias, nos imensos penedos à sua frente. Lídio sabia que estava cavalgando ao encontro de sua maior aventura e que daquelas muralhas ele só poderia sair de novo coroado ou morto. Observava, pensativo, as ameias audaciosamente debruçadas sobre o abismo, talvez pressentindo, no íntimo do coração, uma guinada decisiva em sua estrela, mas, como sempre, frio e firme, pois o temor era-lhe desconhecido. E, intimamente, emocionava-o pensar que, daí a pouco, o aventureiro sem pátria entraria triunfalmente como senhor numa cidade romana fortificada. A tropa seguia-o a pé, em razoável formação. Eram mais ou menos cem homens de armas, escolhidos entre os melhores de seu bando. Depois deles, vinham as carroças com mantimentos e, finalmente, uma manada de gado roubado. O cortejo era fechado por Hefaísto, montado num pequeno cavalo pigarço; além do chefe, era o único homem que cavalgava; de baixa estatura, poucas falas e um rosto aparentemente vulgar e inofensivo, só os olhos vivos e as rugas finas denunciavam um homem capaz de mil astúcias. A entrada realizou-se em silêncio e boa ordem. Os cidadãos entreolhavam-se, surpresos e preocupados, ninguém pensando em opor-se aos salteadores. Os vadios, que passavam os dias acocorados à sombra do lado oeste da rua, dirigiram gracejos aos homens de Lídio, que lhes retorquiam na mesma moeda. De uma pequena casa, em cujo térreo um entalhador tinha sua oficina, saiu, quando o bando acabara de desfilar, uma jovem alta e bela que levava uma ânfora ao ombro. Hefaísto, que cavalgava por último, notou o olhar surpreendido da formosa donzela, que logo lhe agradou muito, e dirigiu-lhe uma vênia cortês, acompanhada de um sorriso tranqüilizador, a que juntou os versos finais de um antigo madrigal jônico. Lídio, entrementes, assumia a administração da cidade e fazia anunciar, por meio de arautos, que era o novo senhor de Cremna. Como seus homens respeitassem a disciplina e não pusessem em perigo a vida, bens ou liberdade dos habitantes, ninguém pôs objeções aos conquistadores. Comentava-se que ele era o famoso Lídio e muitos se alegraram de poder ver com os próprios olhos esse temido e estranho herói. Lídio mostrava-se indiferente a tudo, providenciava alojamentos para seus homens com os cidadãos mais prestimosos, cuidava da defesa, distribuía guardas pelos postos e recolhia-se a seus aposentos. A cidade tornara-se alegre e ruidosa; à maioria dos soldados era concedida hospitalidade, de boa vontade, e pelas ruas só se ouviam cantos, gargalhadas e danças. Hefaísto, porém, alojara-se na casa daquele entalhador, logrando a simpatia dessa humilde família com algumas moedas de prata. Fechado o trato, dirigiu-se animadamente e sem pressa ao encontro de seu chefe, passando a tarde sozinho com ele a discutir planos e estudar deliberações. À noite, ofereceu vinho aos anfitriões, tocou lira e entoou canções alegres, falou de outros países por onde andara e teve, sentada a seus pés, a moça esbelta de olhos castanhos, cuja cabeça repousava em seu colo, enquanto ele corria os dedos pela sua longa e sedosa cabeleira. Seu nome era Febe, e recusou-se a acompanhá-lo à alcova mas prometeu que o faria no dia seguinte, com o que Hefaísto se conformou. No dia seguinte, Lídio recebeu a noticia de que uma legião romana fora mobilizada e se aproximava de Cremna, como ele já esperava. Dirigiu-se à praça do mercado da cidade e, tendo mandado reunir sua gente, ali fez com que toda a tropa lhe prestasse juramento de fidelidade até à morte. Imediatamente começaram os preparativos da cidade apavorada para sustentar o cerco. Duzentos cidadãos com suas famílias abandonaram nesse mesmo dia a cidade, sendo-lhes permitido levarem tudo que fosse transportável mas nada de mantimentos. Em todas as casas se ouviam lamentações mas ninguém se atrevia a contrariar abertamente as decisões de Lídio. De noite, todos os descontentes tinham abandonado a cidade e ainda no dia seguinte foram expulsas muitas centenas de pessoas, enquanto outras debandavam, tomadas de pavor. Uma semana mais tarde surgiu na extensa planície o exército romano e, no mesmo dia em que as primeiras colunas foram divisadas, regressaram a Cremna alguns cidadãos que Lídio mandara expulsar, acompanhados de um emissário do governador da província, intimando o salteador a abandonar a cidade. Silenciosamente, os cidadãos puderam franquear as portas, escoltados por homens de Lídio, mas o emissário romano ficou sem resposta. No dia seguinte, Cremna estava cercada por numeroso exército e o sítio foi proclamado. Lídio mostrava uma expressão animada, seu plano fora meticulosamente elaborado e ele estava decidido a afundar junto com a cidade inteira antes de ceder um palmo ao sitiante. Começou por condenar os desterrados que tinham regressado na véspera com o emissário de Roma a serem lançados do mais alto e mais visível rochedo para exemplo geral. Ameaças e maldições ecoavam pelo abismo; alguns dos condenados choravam e defendiam-se com bravura, antes de serem empurrados para o precipício, outros pulavam voluntariamente. Na cidade, espalharase um terror silencioso. Todo mundo se apercebia das providências desesperadas que estavam sendo tomadas e não poucos passaram a temer pela vida. Quem podia planejava fugir da cidade, agora clandestinamente; os que ficavam recolhiam-se em casa, amedrontados, ou procuravam refúgio em porões e outros esconderijos, Lídio decretou que daquele dia em diante não haveria mais propriedades particulares e mandou confiscar todos os víveres e mantimentos. Ele próprio saia à rua para distribuir ordens, louvar ou repreender quem, em sua opinião, merecia uma ou outra coisa. A guarnição foi encarregada de executar trabalhos pesados. Para aumentar as reservas de mantimentos, Lídio mandou derrubar numerosas casas a fim de lavrar a terra e semear cereais. Os poucos habitantes que continuavam residindo na cidade, apenas um terço da antiga população, em breve se viram reduzidos à extrema penúria. Pois todo o gado, as provisões de trigo, farinha, frutas, vinho e outros mantimentos foram recolhidos por L í dio e guardados em entrepostos. Era distribuída uma ração diária de carne, pão e vinho, com imparcialidade, sem atender a considerações pessoais, mas só aos que participavam nas construções da defesa e nos trabalhos do campo. Os outros ficavam à mercê da fome e da compaixão dos salteadores, que só se manifestava, geralmente, em proveito das mulheres. Hefaísto acobertara a fuga de seu anfitrião, o entalhador, e sua mulher, tendo-lhes dado algum dinheiro para a viagem, mas conservara a filha com ele. Viviam agora juntos e a bela moça aceitara ser sua serva e amante. Hefaisto, porém, não abandonava os seus afazeres por ela e era visto intensamente ocupado em desenhar mapas, observar os dispositivos inimigos e maquinar planos. Por vezes, quando alguns romanos se aventuravam a chegar perto demais, Hefaisto assestava neles seus terríveis canhões e destruia-os com tiros certeiros. Do lado dos sitiantes, só ocasionalmente alguns tiros de flecha e pedradas logravam chegar à cidade. Mas também era verdade que pouco se esforçavam, pois estavam decididos a deixar os sitiados morrerem de fome. Por isso, Lídio, com a ajuda do expedito Hefaisto, tudo fazia para evitar uma futura escassez de víveres. Mandaram salgar e defumar carne, o grão de trigo e a farinha continuavam rigorosamente guardados, qualquer leira de terra era lavrada e semeada sem perda de tempo e, finalmente, Hefaisto teve a idéia de construir uma galeria subterrânea que l i gasse a cidade aos campos adjacentes. Lídio imediatamente mandou pôr mãos à obra. As cavernas naturais e as fendas rochosas facilitavam o ousado intento e em poucos meses estava concluída a passagem. Entrementes, a população ficara substancialmente reduzida. Antes de iniciado o trabalho de abertura da galeria, Lídio mandara que o portão da cidade ficasse aberto por um dia e uma multidão de bocas desnecessárias abandonara a cidade. Desde então, ninguém mais pôde sair, para que a passagem secreta não fosse descoberta pelo inimigo. E quem se recusasse a executar trabalhos pesados, queixando-se de fome, era atirado incontinenti para o fundo do abismo, onde abutres e lobos tinham lautas refeições. A galeria subterrânea, construída sob a direção de Hefaisto, terminava num pequeno vale, cortado por um riacho, bem na retaguarda do acampamento romano. No dia em que ela pôde ser u t i l i zada pela primeira vez, Lídio abraçou em público o grego e presenteou-o com um magnífico colar de ouro. Começava agora na cidade sitiada uma nova fase de existência alegre e confiante. Pela galeria, a cada quatro ou cinco dias, eram trazidas grandes quantidades de gado roubado ou comprado, trigo, pão, caça e muitas outras provisões. Tampouco faltavam os tonéis de vinho, e os sitiados, descansando dos pesados trabalhos do subterrâneo, recebiam rações dobradas. Ouviam-se flautas, cantos alegres, a algazarra dos jogadores de dados. As moças da cidade eram obrigadas a sair de casa para dançar nas ruas e Lídio, em pessoa, participava das orgias que tinham lugar na praça do mercado, apresentando-se com a cabeça engrinaldada de louros. Assim foi até o verão; e os romanos continuavam acampados, exaustos e mal-humorados, à vista da alegre cidade dos salteadores. Galgando caminhos arriscados, tentaram algumas vezes tomar de assalto a cidade, em ataques noturnos. Mas Lídio vigiava dia e noite. Quando alguma cabeça inimiga surgia nas ameias denteadas ou se ouviam passos furtivos rondando as muralhas escuras, uma saraivada de flechas, pedras e outros projéteis descia na mesma hora sobre os intrusos. Aconteceu, porém, que numa noite estivai uma pobre camponesa pôs-se a procurar pelos campos a sua vaca, que se perdera. Num pequeno vale, cortado por um riacho, entre pedras e salgueiros, ela ia^ndando de um lado para outro, chamando por sua vaca quando, de súbito, escutou vozes de homens. Assustada, ocultou-se entre as pedras. De ouvido à escuta, viu estarrecida que os homens saíam do chão e desapareciam, subindo o vale na direção das colinas. Na esperança de receber uma boa recompensa, a mulher correu açodada ao acampamento e pediu para falar com um general romano. Contou.-lhe tudo o que vira e recebeu uma moeda de ouro com a efígie do antigo imperador. Depois, o general dirigiu-se corn seus homens ao local denunciado e preparou uma emboscada. Quando os salteadores regressavam com provisões, foram atacados de surpresa e todos eles aprisionados. A entrada da galeria foi trancada e posta sob a guarda permanente dos centuriões. A partir desse dia, a existência despreocupada de Cremna ficou com seus dias contados. Acabou o vinho, as rações de farinha e carne foram reduzidas à metade. Lídio estava agora convencido de que a sua linica saída consistia em morrer invicto, de arma na mão. Lídio passava as noites em claro cogitando na maneira de manter a cidade em seu poder o maior tempo possível. Seu rosto andava sombrio como uma nuvem de tormenta. De espada na mão, entrava nas casas e onde quer que encontrasse alguém que ele reputasse desnecessário ou i n ú t i l , matava-o a estocadas. Somente estavam a salvo de tais crueldades os homens necessários para a guarnição militar e algumas mulheres que os salteadores possuíam em comum. Hefaísto, que se sabia imprescindível e conservava bem escondida sua amante, era o único que conservava o bom humor e via, impassível, aproximar-se a tempestade. Os demais estavam tomados de pavor, pois sabiam ter a vida ameaçada e as rações diminuídas diariamenie, colocando-os nn terrível contingência de morrerem assassinados ou — ahernativa horrenda — de fome. Lídio deixara de dormir e, a qualquer hora do dia ou da noite, era visto sempre empunhando sua refulgente e sinistra espada. Era capaz de ficar dias a fio enclausurado em sua casa, sobre a qual pesava um silêncio abafado e funéreo, até que, súbito, surgia como uma fera que rebentasse a jaula, e matava alguma sentinela solitária que julgasse inútil, empurrando-a precipício abaixo. Um grupo de seus homens decidiu eliminá-lo. Mas, perante seu olhar ardente e cruel, todos retrocediam acovardados. E esses homens rudes pressentiam com horror que Lídio fora dominado pelo Demônio para cumprir um destino pavoroso. Hefaísto e alguns lugar-tenentes fiéis ajudavam-no a vigiar os depósitos e seguíam-no silenciosamente, de longe, quando o tresloucado Lídio fazia suas incursões homicidas, para eliminar, pelo seu próprio punho, mais um ou dois de seus homens. Começou correndo a lenda de que ele se alimentava do sangue de suas vítimas, bebendo-o enquanto fumava. Não tardou muito para que sua loucura o fizesse suspeitar também dos partidários mais eficientes e leais. Por isso, certa noite, decidiu rondar a casa onde vivia Hefaísto e escutou a conversa do grego com Febe. No dia seguinte, chamou Hefaísto e disse: — Tens uma moça escondida em tua casa. Esta noite, ao escurecer, quero que a tragas aqui. Hefaísto ficou aterrorizado. Não estava disposto a entregar sua pombínha e como soubesse que tampouco poderia conservá-la, esperou que caísse a noite e quando a moça dormia transpassou-lhe o coração com um punhal, enrolou-a num tapete e ordenou que dois homens a levassem a Lídio. Dias depois, estava Hefaísto junto de sua catapulta na muralha da fortaleza, observando o inimigo, quando Lídio se acercou e, sorridente, disse: — Obrigado pela moça que me mandaste a outra noite. Era muito bonita. Já agora, poderias fazer-me um outro favor. Assesta a tua catapulta na direção daquele guarda que está no torreão superior e mata-o. Não preciso mais dele. O grego, que sentia ainda o sangue da sua amada queimandoIhe as mãos, olhou fixamente para Lidio e replicou: — Atira tu mesmo. Eu não tenho flechas para os meus próprios companheiros!

Lídio, enfurecido, chamou três homens que o escoltavam, submissos como cães de fila, e ordenou-lhes que despissem Hefaisto e o açoitassem. E afastou-se, não se preocupando mais com ele. O grego sabia bem que tinha sua vida por um fio. Refugiou-se numa cisterna, esperando pela noite. Com um lençol esticado e duas varas, armou uma espécie de pára-quedas e, subindo à muralha, lançou-se sobre o abismo. Conseguiu pousar sem maiores danos na planície e dirigiu-se, cambaleante, ao acampamento romano. Deixou-se levar à presença do general e solicitou clemência, prometendo que, em troca, faria Lidio cair. E cumpriu a promessa poucos dias depois. Com a ajuda de alguns engenheiros romanos, Hefaisto construiu uma catapulta com a qual poderia arremessar projéteis por cima das muralhas de Cremna. Ora, conhecendo bem o lugar onde Lidio costumava postar-se, nas ameias da fortaleza, observando o inimigo, Hefaisto assestou a catapulta e armou-a com umá grande lança. No momento em que achou mais provável que Lídio lá estivesse, disparou a flecha. Com isso terminou o sítio de Cremna. A flechada perfurou um olho de Lídio e feriu-o mortalmente. Mas era tanta sua energia que ainda conseguiu sobreviver um dia inteiro, matando mais dois de seus homens. Quando sentiu, por fim, que a morte inevitável se avizinhava, quis que seus homens jurassem não entregar a cidade, após sua morte, defendendo-a até à última gota de sangue. Mas quando o viram morto, quando seu temido olhar se apagou no rosto moreno, o bando como que despertou de um misterioso sortilégio, cuspiu no cadáver, insultou-o, profanou-o. E foi entregar-se ao desdéni e à mercê dos sitiantes.

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  1. fevereiro 1, 2009 às 6:40 pm

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