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O Anão (Hermann Hesse)

Assim começou Cecco, o velho contador de histórias, certa noite no cais: — Com a vossa permissão, meus senhores, vou contar-lhes hoje uma história muito antiga, sobre uma formosa dama, um anão e um filtro de amor, de que também tratam, aliás, todas as antigas e modernas histórias e aventuras. “A senhorita Margherita Cadorin, filha do nobre Battista Cadorin, era em sua época a mais bela entre as mulheres de Veneza, e os poemas e canções compostos em sua homenagem eram mais numerosos do que os arcos do Palácio dos Duques, no Grande Canal, ou as gôndolas que trafegam entre a Ponte dei Vin e a da Dogana, numa noite de primavera. Pelo menos uma centena de moços e velhos fidalgos, tanto de Veneza como de Murano e até de Pádua, não era capaz de fechar os olhos nenhuma noite sem que sonhasse logo com ela, nem despertar de manhã sem ficar ardendo na ânsia de contemplá-la. Em toda a cidade poucos seriam os jovens fidalgos que não tivessem ainda sentido ciúmes de Margherita Cadorin. Não tenho competência bastante para descrevê-la e contentar-me-ei em dizer que era loura, alta, esbelta de corpo como um cipreste novo, que a brisa acariciava delicadamente sua cabeleira e o chão se fazia macio para que ela o pisasse, e que Ticiano, quando a viu, teria expressado o desejo de, durante um ano inteiro, a mais ninguém pintar senão aquela bela mulher. “De vestidos, rendas e bordados, pedrarias e jóias, brocados bizantinos, à formosa dama nada faltava; era opulenta e faustosa a vida que se levava em seu palácio. Só se pisavam espessos e coloridos tapetes da Ásia Menor, os armários guardavam copiosas baixelas de prata, as mesas resplandeciam de finos damascos e belíssimas porcelanas, os pisos eram de mosaico maravilhosamente trabalhado, os tetos e paredes revestidos de gobelinos sobre seda e brocado, ou de belas pinturas e quadros dos melhores artistas da época. Tampouco havia falta de criadagem, nem de gôndolas com remadores. “Todas essas agradáveis e deliciosas coisas havia também em outras casas, certamente; maiores e mais ricos palácios do que o dela, armários mais cheios ainda, baixelas, tapetes e jóias mais numerosos e de maior valia. Veneza, nessa época, era muito farta e abastada. Entretanto, a preciosidade que somente Margherita possuía e que provocava a inveja de famílias muito mais ricas era um anão chamado Filippo, que não chegava a ter sequer dois côvados de altura e era dotado de duas pequenas gibas, enfim, um fantástico homúnculo. Filippo era natural de Chipre e quando o senhor Vittorio Battista o trouxe de uma de suas viagens, apenas sabia falar o grego e o sírio; mas, agora, falava um veneziano tão purO como se nascido na Riviera ou na paróquia de San Giobbe. Tanto quanto sua ama era bonita e esbelta, assim era feio e disforme o anão; ao lado do corpo aleijado de Filippo, ela parecia duplamente bela, duplamente alta e atraente, como a torre da igreja de uma das ilhas ao lado dos casebres dos pescadores. O anão tinha as mãos enrugadas, morenas e disformes nas juntas; seu andar era indescritivelmente ridículo, o nariz grande demais, os pés muito largos e com as pontas para dentro. Contudo, trajava como um príncipe as roupas talhadas exclusivamente em seda e tecidos dourados. “Só esse aparato já era o suficiente para fazer de Filippo uma preciosidade; talvez não existisse, não apenas em Veneza mas em toda a Itália, incluindo Milão, uma figura mais exótica e burlesca; e muitas majestades, altezas e senhorias teriam pago a peso de ouro, com o maior prazer, se porventura estivesse à venda o homúnculo cipriota. “Mas se em outras cidades e cortes existiam também anões capazes de rivalizar com Filippo no tocante à pequenez e fealdade, todos ficavam muito abaixo dele no que se referia às aptidões e vivacidade de espírito. Se dependesse apenas da argúcia e inteligência, o anão podia muito bem ter assento no Conselho dos Dez ou chefiar uma embaixada. Não só falava três idiomas com perfeição como tinha vastos conhecimentos de História, de Jurisprudência e de inventos científicos, sabia contar histórias antigas e outras, de sua própria imaginação, dar bons conselhos ou maquinar ardilosos planos e, se quisesse, podia facilmente levar qualquer pessoa ao riso mais estrepitoso ou ao desespero mais profundo. “Nos dias bonitos, quando a donna ia sentar-se na varanda para aclarar ao sol sua cabeleira, como estava em moda nessa época, fazia-se sempre acompanhar de duas aias, do papagaio africano e do anão Filippo. As aias umedeciam e penteavam os longos cabelos de Margherita, estendiam-no solto para que corasse, molhavamno com orvalho colhido no roseiral e águas gregas, ao mesmo tempo que a punham a par de tudo o que acontecia ou estava para acontecer na cidade: casos de morte, festejos, casamentos, nascimentos, roubos e episódios engraçados. O papagaio batia as asas policromas e mostrava suas habilidades: assobiar uma canção em voga, berrar como uma cabra e gritar ‘boa noite’. Filippo agachava-se ao lado de sua ama, muito quieto ao sol, e lia alfarrábios e rolos antigos, prestando tão pouca atenção ao palavratório das moças quanto aos mosquitos’que enxameavam a varanda. E todas as vezes acontecia que, passado algum tempo, o papagaio baixava a cabeça, bocejava e adormecia; as aias abrandavam o ritmo da conversa e acabavam por emudecer, fazendo seu serviço em silencio e com gestos cansados. Pois haverá no mundo lugar onde o sol do meio-dia seja mais quente e amodorrante do que na açotéia de um palácio veneziano? Por essa altura, a senhora já estava mal-humorada e impaciente, brigando impetuosamente com as aias porque haviam deixado secar demais seus cabelos ou o haviam penteado desajeitadamente. E, então, chegava infalivelmente o momento em que gritava para as moças: ‘— Tirem-lhe o livro! ” A s aias retiravam o livro dos joelhos de Filippo e este erguia os olhos, irritado, mas dominava-se e perguntava à sua ama o que queria dele. ‘— Conta-me uma história! — ordenava ela. ‘— Tenho de pensar! — respondia o anão. E pensava. “Ora, acontecia que, por vezes, o tempo que Filippo levava em sua meditação era longo demais para Margherita, que se zangava e o repreendia. Mas ele balouçava a cabeçorra pesada, grande demais para a sua estatura, e respondia, impassível: ‘— Vossa Senhoria deve ter um pouco mais de paciência. Uma boa história é como uma boa montaria. A caça brava vive escondida e é preciso armar emboscadas e ficar de tocaia horas e horas a fio, na boca dos precipícios e florestas. Os caçadores mais apressados e impetuosos afugentam a caça e nunca obtêm os melhores exemplares. Deixai-me, pois, pensar! “Mas, desde que tivesse meditado o tempo bastante e começasse a falar, não mais parava enquanto não tivesse contado a história completa, que corria ininterrupta e fluente como um rio descendo montanhas abaixo e em cujas águas tudo se reflete — desde a pequena folha de grama até o azul da abóbada celeste. O papagaio cochilava, às vezes rangendo o bico recurvo durante o sono; a água dos canais imóvel, de modo que o reflexo das casas era nitido e constante, como se existissem autênticas fachadas submarinas, o sol ardia sobre o terraço plano e as jovens aias lutavam desespcradamente contra a modorra. O anão, porém, jamais ficava sonolento e convertia-se num mágico, num deus ou num imperador todo-poderoso, assim que iniciava mais uma demonstração de sua arte. Apagava o brilho e o calor do sol e arrebatava sua ama, que o ouvia em religioso silêncio, ora por sombrios e pavorosos bosques, ora até o fundo azul e frio do mar, ora por ruas de exóticas e maravilhosas cidades, pois Filippo aprendera a arte de narrar no Oriente, onde essa função é altamente apreciada e seus praticantes são considerados uma espécre de magos, capazes de brincar com a alma dos ouvintes como uma criança brinca com a bola. “Filippo jamais começava suas histórias em países estranhos, para onde o espirito do ouvinte não podia voar com força própria. Principiava sempre com algo que os olhos pudessem ver, fosse uma fivela de ouro ou um lenço de seda, sempre alguma coisa presente e ao alcance da vista; depois, imperceptivelmente, levava a imaginação do ouvinte para onde ele muito bem queria, contando quem tinham sido os antigos donos desta ou daquela jóia, seus artífices ou mercadores, de modo que a narrativa corria lentamente e com naturalidade da açotéia do palácio para o barco do mercador, do barco para o porto, do porto para o galeão que balouçava suavemente ao largo e do galeão para as mais longínquas e exóticas paragens do mundo. Quem o escutava, absorto em suas palavras, julgava estar fazendo a viagem e, embora continuasse tranqüilamente sentado em Veneza, o espírito já vagava, alegre ou receoso, pelos mares distantes e as regiões mais fascinantes. Assim era a maneira de Filippo contar suas histórias. ” A l é m dessas maravilhosas invenções que quase sempre eram inspiradas em contos orientais, Filippo também era mestre nas narrativas que diziam respeito a aventuras e acontecimentos extraordinários da história antiga e moderna, mormente as peregrinações e sofrimentos do Rei Enéias, os terríveis mistérios de Creta, as proezas do Rei João em Chipre, as kndas do mago Virgílio e as inúmeras viagens de Américo Vespúcio por novas terras. Finalmente, ele próprio sabia inventar e contar de improviso as mais estranhas histórias. Um dia, estando sua ama a olhar o^papagaio adormecido, voltou-se de chofre para Filippo e perguntou: ^ ‘— Oh, ser onisciente, o que é que o meu papagaio está sonhando agora? “O anão pensou por instantes e contou, a seguir, um longo sonho, como se ele próprio fosse a exótica ave. Quando concluiu, o papagaio acordou, bateu as asas, berrou como uma cabra e gritou ‘boa noite’. Outra vez, a senhorita apanhou uma pedrinha e atiroy-a por cima do parapeito do terraço na água quieta do canal. Quando a ouviu bater embaixo, perguntou: ‘— E agora, Filippo, para onde vai a minha pedrinha? “E o anão logo contou como a pedra, ao sabor das águas, encontrou medusas, peixes, caranguejos, ostras, marinheiros afogados, espíritos do mar, sereias e tritões, cuja vida e ações ele bem conhecia, podendo descrever tudo com a maior exatidão e pormenores sem conta. “Apesar da senhorita Margherita, como tantas outras donzelas ricas e formosas, ter um coração duro e cruel, ser caprichosa e altiva, para o querido anão era toda simpatia e atenções, zelando para que fosse bem e honrosamente tratado. Só a si mesma às vezes consentia divertir-se atormentando-o, o que não era nada demais, pois Fiiippo era propriedade sua. Por isso, de súbito, tirava-lhe todos os livros, encerrava-o na gaiola do papagaio ou fazia-o tropeçar no piso reluzente dos salões. Mas nada disso era feito com más intenções e Fiiippo jamais se queixava, embora nunca esquecesse as diabruras de que era vítima e amiúde incluísse em suas fábulas e contos breves insinuações e advertências. A ama aceitava-as serenamente, com o semblante muito compenetrado. A preocupação dela, porém, era irritá-lo excessivamente, pois todos acreditavam ser o anão possuidor de segredos e manhas aprendidos no estudo das ciências ocultas. De fonte segura sabia-se que Fiiippo conhecia a arte de falar com diversos animais e era infalível na previsão de tempestades e cheias. Mas, em geral, calava-se quando alguém insistia em abordá-lo com tais perguntas e limitava-se a encolher os ombros tortos, balançando comicamente a cabeçorra. E os curiosos, de tanto rir, esqueciam suas perguntas. “Como todo ser humano tem necessidade de afeiçoar-se a uma alma irmã e demonstrar sua capacidade de amor, também Fiiippo tinha, além da paixão pelos livros, uma estranha amizade por um cachorrinho preto, que lhe pertencia e a quem tratava com a um filho, até dormindo com ele. Fora presente de um admirador malsucedido à senhorita Margherita e por esta dado ao anão, ainda que levada por circunstâncias anormais. Aconteceu que, logo no primeiro dia, o cachorrinho sofreu um acidente: foi atingido por um alçapão, quando este estava sendo fechado. Quiseram matá-lo, por ter fraturado uma pata e por pena do sofrimento do pequeno animal. Então Fiiippo interveio, pedindo o cachorrinho para si. A ama presenteou-o, e o anão tratou-lhe os ferimentos. O cachorrinho sarou e afeiçoou-se a seu salvador, dando-lhe grandes provas de gratidão. Mas a perna curada ficou torta e, por isso, o animal mancava e movia os quartos traseiros de través, fazendo-o combinar ainda mais com o seu aleijado dono. Isso, aliás, deu pretexto a que Fiiippo escutasse muitos gracejos. “Se bem que essa amizade entre o anão e o cachorro pudesse parecer ridícula às pessoas, nem por isso era menos sincera e afetuosa. Creio que muitos dos poderosos e ricos fidalgos de Veneza nem de longe eram tão efusivamente estimados pelos seus melhores amigos quanto o pequeno bassê de pernas tortas por Fiiippo. Este chamava-o de Filipinno — donde saiu o apelido abreviado de Fino — e tratava-o com tanto carinho quanto a uma criança; conversava com eie, arranjava-lhe petiscos, deixava-o dormir em sua pequena cama de anão e brincava com ele horas seguidas, em resumo, transmitia todo o amor de sua i n f e z e errante vida a um animal inteligente e grato. Por esse motivo, Filippo teve de suportar muitas zombadas e sarcasmos da criadagem e até de sua ama. Mas — como veremos — tal afeição entre o anão e seu cachorrinho nada tinha de cômica, pois levaria, pelo contrário, toda a casa às maiores desgraças.

“Enquanto inúmeros fidalgos, ricos e de bela aparência, pousavam os olhos em Margherita e ficavam com sua imagem para sempre gravada no coração apaixonado, ela continuava orgulhosa, distante e fria, como se não existissem homens no mundo. De fato, até a morte de sua mãe, não só fora educada de um modo muito severo por uma certa Donna Maria, da família dos Giustianini, mas também era, por natureza, avessa ao amor e, com razão, considerada a mais bela e mais desumana criatura de Veneza. Por sua causa morrera um jovem fidalgo de Pádua, no decurso de um duelo com um capitão da guarda milanesa; e quando lhe contaram as últimas palavras que o vencido dirigira à mulher de seus sonhos, anfes de soltar o derradeiro suspiro, nem uma tênue sombra de compaixão ou dor foi vista no formoso rosto de Margherita. Escarnecia constantemente dos sonetos que lhe eram dedicados. Quando, quase ao mesmo tempo, dois pretendentes — das mais conceituadas e nobres famílias da cidade — vieram cerimoniosamente pedir a sua mão, ela obrigou o pai, apesar dos insistentes rogos e argumentos persuasivos do velho fidalgo, a rejeitar ambos os pedidos, o que provocou um longo e sério desentendimento entre as famílias. “Porém, o pequeno e endiabrado deus alado não gosta de deixar escapar uma presa, ainda mais quando se trata de uma tão bonita quanto Margherita. Já se viram muitos casos em que as mulheres mais difíceis e inacessíveis foram justamente as que se apaixonaram de maneira mais fulminante e impetuosa, tal como depois de um inverno muito rigoroso vem o degelo e logo se lhe segue a primavera tépida e florida. Ora, durante uma festa nos jardins de Murano, foi isso o que aconteceu: Margherite entregou seu coração a um jovem cavaleiro e navegador que acabara de regressar das terras do Levante. Chamava-se ele Baldassare M o rosini e cumpre dizer que não ficava atrás da jovem dama, que dele não retirava os olhos, nem na esbelteza de seu corpo viril nem na nobreza da linhagem. Se em Margherita tudo era luminoso e frágil, nele tudo era forte e escuro; através do bronzeado da pele percebia-se que andara largo tempo sulcando os mares e percorrendo estranhos países. Pela vivacidade da fisionomia era fácil entender que se tratava de moço audaz e amigo de aventuras; no rosto queimado, os olhos cintilavam como relâmpagos fulminantes; a testa ampla era refúgio certo de pensamentos penetrantes e ardentes. “Assim, era inevitável que Baldassare notasse logo a presença de Margherita e, ao descobrir o seu nome, tratou imediatamente de .ser apresentado a Battista e sua filha, o que aconteceu entre muitas cortesias e palavras lisonjeiras. Até o final da festa, procurou Baldassare manter-se, tanto quanto a etiqueta permitia, próximo a Margherita, que escutava e bebia as palavras dele, como se ouvisse atentamente o evangelho, apesar de dirigidas mais a outras pessoas do que a ela. Como é fácil de imaginar, o senhor Baldassare viu-se freqüentemente obrigado a contar suas viagens, façanhas e perigos passados, e fazia-o com tanta desenvoltura e vivacidade que pão havia quem não se deleitasse ouvindo-o. Na realidade, suas palavras eram dedicadas a uma única ouvinte e essa não deixava escapar nem uma sílaba. Baldassare contava as mais estranhas aventuras com tanta naturalidade como se fossem acontecimentos rotineiros de sua vida e pudessem ocorrer a qualquer dos circunstantes; e nuíica emprestava grande evidência à sua própria pessoa, como os marinheiros e, sobretudo, os jovens costumam fazer. Apenas uma vez, quando descrevia um combate com piratas africanos, é que mencionou uma grave cutilada que recebera na refrega e cuja cicatriz cortava o seu ombro esquerdo. Margherita escutava-o ao mesmo tempo fascinada, febril e apavorada. “Quando os convivas começaram a se retirar, Baldassare acompanhou Margherita e seu pai até à gôndola e ainda ficou largo tempo parado no cais, observando o brilho vacilante das tochas da gôndola que se afastava suavemente na laguna escura. Só quando a perdeu completamente de vista voltou para junto de seus amigos da pérgula iluminada por vistosos balões à moda veneziana, onde os jovens fidalgos e algumas bonitas donzelas passaram boa parte da noite cálida e estrelada, bebendo vinho grego e mordiscando passas escuras c doces. Entre eles havia um certo Giambattisla Gentarini, um dos mais abastados e folgazões de Veneza. Giambattista acercou-se de Baldassare e disse, rindo: ‘— Não imaginas como eu gostaria que nos contasse esta noite as aventuras amorosas em que te envolveste durante as tuas viagens! Vejo, agora, que meu pedido será vão pois a bela Cadorin se apossou de teu coração. Mas saberás, porventura, que essa bela moça além de um coração de pedra não tem alma nenhuma? É como uma pintura de Giorgione, cujas mulheres, realmente, estão acima de toda a crítica mas não possuem carne nem sangue, apenas existem para regalo dos nossos olhos. Sinceramente te aconselho, amigo: afasta-te dela, a menos que tenhas vontade de ser o terceiro rejeitado e virares motivo de escárnio da criadagcm dos Cadorin! Baldassare, porém, limitava-se a dar gargalhadas gostosas e não via por que se justificar. Esvaziou alguns canecos do adocicado vinho de Chipre, cor de azeite de oliva, c dirigiu-se para casa mais cedo que os outros. ” L o g o no dia seguinte foi visitar o velho senhor Cadorin, em seu bonito palácio, e esforçou-se por todos os meios em conquistar a sua simpatia. À noite, ofereceu a Margherita uma serenata, com vários trovadores e cantores, e foi bem-sucedido: ela escutava numa das janelas e, por instantes, saiu do balcão e debruçou-se, enlevada pela melodia. Naturalmente, a cidade inteira falou disso no dia seguinte, e os ociosos e mexeriqueiros já começavam a murmurar que havia noivado à vista e qual seria o dia marcado para as núpcias, antes mesmo de Morosini vestir sua roupa de gala para ir fazer o pedido de casamento ao pai de Margherita, pois desprezava o costume da época, segundo o qual não se devia solicitar pessoalmente a mão e sim através de amigos Íntimos. Mas não tardou que os faladores vissem, com satisfação, os seus vaticinios confirmados. “Quando Baldassare expressou ao senhor Cadorin o desejo de tornar-se seu genro, o velho não fez qualquer objeção mas disse, taciturno: ‘— Meu caro e jovem senhor, por Deus vos j u r o que não menosprezo a honra que vosso pedido significa para a minha casa. Rogo-vos, porém, que renuncieis ao vosso intento, assim poupando-vos e a mim muito dissabores e contrariedades. Como tendes viajado muito e por longo tempo estivestes ausente de Veneza, por certo ignorais quantos desgostos essa desventurada menina já me causou. Dois honrosos pedidos foram rejeitados sem motivo algum. Minha filha nada quer saber do amor e dos homens. Reconheço que a tenho mimado demais e talvez não tenha forças bastante para quebrar energicamente sua teimosia. “Baldassare ouviu cortesmente mas não retirou o pedido e, pelo contrário, empenhou-se em encorajar o velho e timorato senhor, reconfortando-lhe o espírito e encorajando-o. Por f i m , Cadorin prometeu falar com a filha. “Pode-se imaginar qual tenha sido a resposta da senhorita. Embora fizesse algumas objeções insignificantes, apenas para manter a habitual aparência altiva e representar ainda, diante do pai, o papel de dama inacessível, seu coração há muito já dissera sim, antes dos lábios proferirem. Logo que recebeu a resposta favorável, Baldassare apresentou-se com um delicado e valioso presente, colocando no dedo de sua prometida uma aliança de ouro e pedrarias, beijando pela primeira vez aquela bela e orgulhosa boca. “Os venezianos tinham agora algo para comentar e invejar. Ninguém se lembrava de ter visto alguma vez um par mais belo. Ambos eram altos e esbeltos, e a dama apenas a grossura de um cal^elo mais baixa do que Morosin. Ela era loura, ele moreno de cabelos escuros, e ambos caminhavam de cabeça erguida, pois um não ficava atrás do outro em nobreza e orgulho. “Só de uma coisa não gostava a noiva: é que seu noivo e senhor declarara ter de voltar em breve a Chipre, a fim de ultimar alguns importantes negócios. Só depois dessa viagem poderiam celebrar-se os esponsais, com os quais a cidade inteira já se regozijava como por uma grande festa pública. Entrementes, os noivos gozavam sem perturbações a sua felicidade; Baldassare não deixava que faltassem as diversões de toda a espécie, as serenatas, os presentes, as surpresas, e reunia-se a Margherita sempre que dispunha de um momento. Burlando um outro costume, também fizeram juntos um passeio secreto pelos canais, em gôndola coberta. “Se, por um lado, Margherita era soberba e até um pouco cruel, o que não surpreende em uma jovem e mimada fidalga, por outro, o seu noivo era, por natureza, impulsivo, prepotente e pouco afeito a levar em conta os sentimentos alheios. Quanto mais se esforçara por representar, antes do noivado, o papel do fidalgo afável, requintado e comedido, mais cedia agora, que alcançara plenamente seu objetivo, aos seus instintos inatos. Além disso, como marinheiro e abastado homem de negócios, era autoritário, rude em suas decisões, e estava acostumado a viver de acordo com os próprios desejos, pouco se preocupando com os interesses alheios. Ora, por mais estranho que isso pareça, Baldassare desde o principio discordou de muita coisa que notara no ambiente doméstico de sua noiva. Em particular, sentia repugnância pelo papagaio, pelo cachorrinho Fino e o anão Filippo. Sempre que os via uma surda irritação se apoderava dele e procurava mil maneiras de torturá-los, levar Margherita a desgotar-se de seus habituais companheiros. Toda vez que Baldassere entrava no palácio e sua voz soava na escadaria, o cachorrinho fugia ganindo, o papagaio batia as asas espavorido e berrava como uma cabra, o anão contentava-se em remorder os lábios, refugiando-se num mutismo obstinado. Para ser justo, devo dizer que Margherita, se nada fazia pelos animais, pelo menos intercedia em defesa de Filippo, tentando justificar seus préstimos e virtudes; mas, naturalmente, não se atrevia a irritar o amado e, assim, era-lhe impossível evitar algumas pequenas crueldades. “O papagaio teve rápido f i m . Um dia em que o senhor M o r o sini o torturava novamente, espetando-o com uma varinha afiada, o pássaro enfurecido agarrou-lhe um dedo com seu poderoso bico e fez-lhe um golpe profundo. Com o dedo sangrando, Baldassare ordenou incontincnti que torcessem o pescoço do papagaio. Foi jogado no estreito e escuro canal que passava na parte dos fundos do palácio e ninguém deu importância ao fato. “O cachorrinho não teria melhor.sorte. Um dia em que ouviu o noivo de sua dona subir os degraus da entrada, Fino foi esconder-se num vão escuro da escadaria, pois era seu costume desaparecer sempre que Baldassare se acercava. Desta vez, porém, talvez porque tivesse esquecido na gôndola alguma coisa que não podia ficar confiada à criadagem, Baldassare deu meia volta e desceu, inopinadamente, os degraus da escada. Fino, assustado com a súbita aparição, latiu alto e armou um pulo tão precipitado e sem jeito que foi esbarrar nas pernas do senhor Morosini, que por um triz não caiu. Tropeçando, aproximou-se do portão, para onde Fino, cheio de medo, também corria. A í , já tendo conseguido recquilibrar-se, Baldassare praguejou furiosamente e, vendo o cachorrinho nos degraus que davam para o canal, aplicou-lhe um violento pontapé. O pobre animal foi jogado longe, para o meio da água. “Nesse mesmo instante, atraído pelos latidos e ganidos de Fino, o anão surgiu no portão e foi colocar-se ao lado de Baldassare que observava rindo os esforços do cachorro tentando, mesmo estropiado, nadar para a margem. Ao mesmo tempo, atraída pelo barulho, Margherita assomava ao balcão do primeiro andar. ‘— Por amor de Deus, mandai uma gôndola buscá-lo — implorava Filippo, ofegante. — Ordenai que o recolham, minha ama! Ele está se afogando! Oh, meu Deus, Fino! Fino! “Mas o Senhor Baldassare ria e segurava o remador que já se aprestava para soltar a gôndola e ir em socorro do cachorrinho. De novo Phlippo ergueu o olhar suplicante para o balcão mas Margherita já desaparecera, sem dizer uma palavra. Então, Filippo arrobou-se aos pés do seu carrasco, suplicando-lhe que poupasse a vida do seu cachorrinho. Mal-humorado, Baldassare ordenou-lhe que voltasse para casa e não o importunasse com bobagens. Mas Fihppo, com lágrimas nos olhos, permaneceu imóvel no cais até o pequeno e convulsivo Fino afundar nas águas mansas. ” F i l i p p o dirigiu-se então ao sótão do palácio, próximo às traves escuras e imundas do telhado. Agachou-se a um canto, a grande cabeça apoiada nos joelhos, e o olhar fixo num ponto do espaço à sua frente. Veio uma camareira intimá-lo a comparecer imediatamente à presença de sua ama, depois veio um lacaio, mas Filippo não se moveu. E quando, já de noite, ele continuou imóvel e agachado no vão escuro, foi a sua própria senhora quem subiu, pessoalmente, levando um archote na mão. Parou diante dele e contemplou-o, por instantes. ‘— Por que não te levantas? — perguntou ela. “Filippo nada respondeu. ‘— Por que não te levantas? — repetiu Margherita. O homúnculo ergueu os olhos para a dona e murmurou: ‘— Por que matastes meu cachorrinho? ‘— Não fui eu quem o matou. ‘— Poderieis tê-lo salvo e o deixaste morrer… Oh, meu Fino! “Nesse ponto, Margherita ficou deveras irritada e ordenou ao anão que se levantasse e descesse para o quarto dele e fosse dormir. P h i l i p p o obedeceu-lhe, .sem dizer palavra, e durante três dias vagueou pelo palácio como uma alma penada, mal tocando nos alimentos, não prestando atenção ao que lhe diziam nem ao que se falava à sua volta. “Entrementes, a jovem dama foi acometida de grande inquietação. Chegara aos seus ouvidos, de diversas fontes, uma porção de coisas bastante desagradáveis a respeito de seu noivo e que muito a preocuparam. Dizia-se, por exemplo, que o jovem senhor Morosini era um inveterado galanteador e tanto em Chipre como em muitos outros lugares onde parava, no decorrer de suas viagens, tinha inúmeras amantes. Isso era realmente verdade e Margherita ficou cheia de dúvidas e medo. Pensava, sobretudo, na nova viagem que o noivo anunciara para breve. Durante alguns dias esteve indecisa sobre o que fazei e limitava-se a suspirar amargurada. Mas chegou o momento em que não agüentou mais e, certa manhã, quando Baldassare foi visitá-la, contou-lhe tudo o que sabia e não escondeu nenhum de seus receios. “Baldassare sorriu. ‘— O que te contaram, querida e formosa noiva minha, pode ser em parte mentira mas, asseguro-te, que muito disso é a pura verdade. O amor é como uma onda: ela vem, nos levanta, nos arrasta, sem que possamos resistir-lhe. Mas sei bem o que devo à minha noiva e filha de tão nobre casa. Podes, pois, abandonar todas as preocupações a tal respeito. Conheci, é certo, muitas mulheres lindas e por algumas me apaixonei. Mas nenhuma pode igualar-te, amada Margherita. “E porque sua força e desassombro irradiavam um fascínio irresistível, ela escutava-o em silêncio, sorria e acariciava a mão rija e morena do noivo. Mas, assim que ele se retirou, todos os seus receios voltaram e não a deixaram mais em paz. Por isso a tão orgulhosa donzela sofria agora a secreta e humilhante dor do ciúme. Não conciliava o sono durante a noite, revolvendo-se entre os finos lençóis de seu leito. ” E m sua aflição, recorreu de novo a Filipo que, entrementes, voltara ao seu normal, fingindo ter esquecido completamente a morte infame de seu cachorrinho. Voltara a sentar-se no terraço, lendo seus livros ou contando histórias, enquanto Margherita clareava os cabelos ao sol. Uma só vez aludiu àquele triste caso. Tendo Margherita perguntado em que é que ele pensava, nesse momento, disse Filippo com a voz embargada: ‘— Que Deus abençoe esta casa, minha querida ama, pois em breve a abandonarei, vivo ou morto. ‘— Por quê? — indagou ela, surpreendida. “O anão encolheu os ombros, em seu jeito ridículo: ‘— Eu o sinto, senhora, eu o sinto. O pássaro morreu, o meu fiel cachorrinho está morto, para que servirá o anão? “Margherita proibiu-o severamente de continuar com tal gênero de conversa e o anão emudeceu. A dama pensou que Philippo tivesse esquecido seus sombrios desejos e contou-lhe suas próprias dúvidas e preocupações. O anão pôs-se então a defender Baldassare, de modo nenhum deixando transparecer o rancor que ainda Ihe guardava. Assim procedendo, logrou alcançar de novo a amizade de sua senhora. ” N u m a noite de verão, quando do mar chegava um pouco de brisa fresca, Margherita embarcou com o anão em sua gôndola e deixou-se embalar ao longo dos canais. Quando já estavam perto de Murano e Veneza, flutuando ao longe com uma alucinante visão branca, pairando sobre a laguna prateada, ela ordenou a Filippo que lhe contasse uma história. E estava recostada nos coxins de seda e o anão permanecia agachado a seus pés, as costas voltadas para a alta e recurvada proa da gôndola. Do lado de Murano chegava o eco do repicar de sinos. O gondoleiro remava indolentemente, meio adormecido, e a sua figura curvada, empunhando o comprido remo, refletia-se nas águas manchadas de algas. Vez por outra, passava-lhes perto uma barcaça de carga ou um barco de pesca, com vela latina, cujo triângulo pontiagudo eclipsava por instantes a visão das torres da cidade. ‘— Vá, conta uma história — repetiu Margherita. “Filippo inclinou para a frente a cabeça disforme, brincando com as borlas do gibão, meditou por momentos e contou o seguinte: ‘— Muito antes de eu ter nascido, aconteceu a meu pai uma coisa bem estranha, no tempo em que ele ainda viria em Bizâncio. Exercia então a profissão de físico e conselheiro em certos casos difíceis, pois não só aprendera a arte da medicina mas também a da magia, com um sábio persa que vivia em Esmirna. Seus conhecimentos eram igualmente vastos nas artes de curar o corpo e a alma. Mas, como fosse um homem honesto, alheio a fraudes e adulações, dedicando-se exclusivamente ao seu ofício, sofria a inveja e o despeito dos charlatães e embustciros. Desgostoso com isso, sonhava com o dia em que pudesse regressar à sua pátria. Porém, o meu pobre pai não queria fazê-lo sem conseguir amealhar primeiro um pequeno cabedal nessas terras estranhas, pois sabia que os seus estavam atravessando, em casa, uma situação deveras difícil. Quanto menos a sorte lhe sorria em Bizâncio, vendo os impostores e ignorantes enriquecerem sem esforço algum, mais triste e amargurado meu bom pai ia ficando e, cm seu íntimo, perguntava se não seria possível a um homem probo sair da miséria, sem recorrer aos métodos que faziam a fortuna dos charlatães. Não lhe faltava uma numerosa clientela e já auxiliara centenas de pessoas em transes difíceis, mas eram principalmente os pobres e humildes que a ele acorriam, e meu pai sentia vergonha em aceitar mais do que uma quantia muito modesta pelos seus serviços. ‘ E m situação tão precária, meu pai estava quase decidido a abandonar a cidade a pé e sem dinheiro, ou a procurar trabalho em algum navio. Mas pretendia esperar mais um mês, pois, pelas leis da astrologia, parecia-lhe possível ser favorecido pela sorte nesse período. Mas esse prazo também se venceu sem alteração alguma e meu pai, tristemente, j u n tou seus parcos haveres e decidiu partir na manhã seguinte. ‘Naquela noite, pôs-se a caminhar pela praia, fora da cidade, e não é difícil adivinhar quão sombrios e aflitivos seriam seus pensamentos, a poucas horas de partir para sempre. O sol já mergulhara havia muito no horizonte e as estrelas refletiam sua luz branca nas águas serenas do mar. ‘De súbito, meu pai julgou perceber bem perto dele um suspiro plangente. Olhou em redor e, como nada visse, assustou-se muito, pois considerava aqueles misteriosos lamentos um mau presságio para sua viagem. Como os gemidos e suspiros se repetissem, agora mais altos, animou-se um pouco e indagou: — Quem está aí? — ‘Ouviu então um murmúrio à beira da água e, d i r i gindo-se para lá, enxergou no pálido cintilar das estrelas um vulto claro, estendido na areia. Presumindo ser um náufrago, acercou-se solícito. E eis que, com espanto, viu erguer-se das águas, até meio corpo, a mais bela, a mais esbelta sereia, branca e reluzente como a neve ao sol. Quem poderá descrever a surpresa do meu bom pai quando a nereida se lhe dirigiu em voz suplicante: — Sois o mágico grego que mora na rua amarela? — Sim, sou eu — disse meu pai, solícito. — Que desejais de mim? ‘A bela sereia começou de novo a lamentar-se e, estendendo os braços esculturais, suplicava a meu pai que se compadecesse dela e lhe preparasse um eficaz filtro de amor, pois estava se consumindo de paixão não correspondida pelo seu amado. Ao mesmo tempo, pousava os lindos olhos suplicantes com tanta ansiedade nos de meu pai, que tocou seu bondoso coração. Resolveu imediatamente ajudá-la mas, antes, perguntou de que maneira ela poderia recompensá-lo. A sereia prometeu-lhe então um colar de pérolas tão comprido que uma mulher poderia passá-lo oito vezes em torno do pescoço. — Mas — acrescentou ela — nada receberás enquanto eu não me certificar de que o filtro produziu o efeito desejado. ‘Quanto a isso, meu pai não precisava preocupar-se, pois estava certo da eficiência de sua arte. Correu de volta à cidade, abriu de novo sua bagagem e preparou com tanta pressa os amavios solicitados pela sereia apaixonada que pouco depois da meia-noite já estava outra vez na praia, acorrendo ao local do encontro. Entregou à nereida um vidrinho com o precioso filtro e convidou-a a aparecer novamente na noite seguinte, para lhe informar do resultado e entregar-lhe a prometida recompensa. Regressou então a casa e passou o resto dessa noite e o dia seguinte na mais febril expectativa. Embora não duvidasse da eficácia de seu f i l t r o , não sabia ao certo se poderia confiar na palavra da sereia. Possuído dessa dúvida, meu pai, ao cair da noite, encaminhou-se novamente para o local aprazado e não precisou esperar muito para que a sereia emergisse das ondas, bem perto dele. ‘Meu pobre pai ficou deveras apavorado ao ver o que provocara com sua arte! Quando a sereia se aproximou sorridente, estendendo-lhe com a mão direita um pesado colar de pérolas, viu atravessado nos braços dela o cadáver de um jovem extraordinariamente belo que, pelas roupas, reconheceu ser um marinheiro grego. Seu rosto estava pálido e exangue, os cabelos flutuavam ao sabor das ondas, e a sereia apertava-o contra o peito, como a um menino. ‘Quando meu pai se apercebeu da enormidade do crime para que concorrera inadvertidamente, amaldiçoou-se a si próprio e à sua arte; a sereia mergulhou de repente com o seu amado, num breve torvelinho de espuma. Na areia, à beiramar, enconlrava-se o colar de pérolas. Como a desgraça já não podia ser remediada, meu pai apanhou-o e levou-o sob a capa até a casa, onde o desmanchou para vender as pérolas separadamente. Com o dinheiro obtido dirigiu-se a um navio que zarpava para Chipre, crente de que se livrara da miséria de uma vez para sempre. Mas o sangue de um inocente manchava aquele dinheiro e nova desgraça se abateu sobre meu pai. O navio foi atacado por um galeão de corsários. Roubaram-lhe todo o dinheiro das pérolas e, depois, destruíram o navio a tiros de bombarda. Meu pai só conseguiu chegar à sua pátria dois anos depois, como um náufrago andrajoso e faminto. “Durante toda a narrativa, a jovem senhora manteve-se recostada nos coxins, escutando atentamente. Quando, por fim, Filippo se calou, ela tampouco interrompeu o silêncio que caiu sobre a gôndola. Meditava no que acabara de ouvir. Em dado momento, o gondoleiro parou de remar, como se aguardasse a ordem de sua dona para regressar a casa. Margherita sobressaltou-se, como se despertasse de um sonho, acenou ao gondoleiro e correu as cortinas. A gôndola mudou de rumo e, agora, varava apressada as águas, deslizando velozmente, como um cisne negro, na direção da cidade. Filippo olhava, calmo e grave,- para a largura escura, como se estivesse imaginando alguma nova história. Logo chegaram à cidade, cruzando o Rio Panada e vários canais menores, até chegarem ao embarcadouro do palácio. “Nessa noite, Margherita dormiu inquieta. Como o anão previra, a história do filtro mágico fizera passar pela sua mente a idéia de utilizar o mesmo recurso para prender solidamente o coração de seu noivo. No dia seguinte, falou com Filippo sobre o assunto, mas por vergonha, não o abordou diretamente, senão por meio de perguntas indiretas. Com o semblante risonho, mostrou curiosidade em saber de que eram feitos os amavios, se continham sucos venenosos ou letais, se o palàdar não despertava a desconfiança de quem os bebesse e assim por diante. O arguto Filippo respondia impassível a todas as perguntas e fingia não entender os desejos secretos de sua ama, de modo que ela teve de lhe falar cada vez mais claramente. Por fim, Margherita perguntou-lhe, sem rodeios, se havia alguém cm Veneza capaz de preparar tais amavios. “Filippo deu uma risada fanhosa e disse: ‘— Com mui pouca capacidade me julgais, minlia senhora, se porventura supusestes que não aprendi com meu pai, que era tão grande sábio, nem mesmo esses rudimentares princípios da magia. Pois ficai sabendo que estais redondamente enganada a meu respeito.’ ‘— Quer dizer que tu mesmo poderás preparar tais filtros? — disse a dama, exultante. ‘— Ora, nada mais fácil — retorquiu Philippo. — Só não entendo por que precisais de meus serviços, se estais prestes a atingir vossos desejos e tendes como noivo um dos mais belos e ricos homens de Veneza. “Mas a formosa Margherita não desistiu de seus intentos, que Filippo bem sabia quais eram, e ele submeteu-se à vontade de sua dama, embora opondo aparente resistência. O anão recebeu dinheiro para comprar as ervas necessárias e os componentes secretos. Se tudo desse certo, foi-lhe prometida para mais tarde uma considerável recompensa. “Dois dias depois, Filippo dava por terminado o seu trabalho e foi com o filtro mágico aos aposentos de sua senhora, colocando um vidrinho azul sobre o toucador espelhado. Como se aproximava célere o dia da viagem de Baldassare a Chipre não havia tempo a perder. No dia seguinte, convidou a noiva para um novo passeio secreto de gôndola, logo após o almoço, quando ninguém, por causa do forte calor dessa época do ano, se atrevia a fazer passeios. Pareceu a Margherita e ao anão que essa seria a oportunidade adequada. “Quando, na hora marcada, a gôndola de Baldassare veio atracar junto ao portão dos fundos do palácio, por onde a saída era mais discreta, Margherita já o esperava, com Filippo a seu lado. Depois que os noivos se instalaram no camarim, o anão saltou também para bordo, carregando uma cesta de pêssegos e uma garrafa de vinho em cristal lavrado, e foi sentar-se aos pés do gondoleiro. Ao senhor Morosini desgostava a presença do anão mas evitou fazer comentários, pois achava aconselhável ceder agora, mais do que nunca, aos caprichos da noiva. “O remador zarpou do cais. Baldassare fechara cuidadosamente as cortinas, ficando na discreta intimidade do camarim. Filippo agachara-se tranqüilamente na popa da gôndola e contemplava o casario do Rio dei Barcaroli por onde o remador levara a embarcação até alcançar a laguna á saída do Grande Canal, na altura do velho palácio Giustiniani, que nessa época ainda tinha um pequeno jardim. Hoje, como todo mundo sabe, ergue-se nesse lugar o soberbo Palazzo Barozzi. ” À s vezes, no camarim fechado, ouviam-se risos abafados ou o som de um beijo, entre fragmentos de conversa. Filippo não estava curioso. Olhava, por sobre as águas, para a ensolarada Riva, ou para a esguia torre de San Giorgio Maggiore, ou ainda para as colunas dos leões da Piazzetta, que ficavam ao longe. Vez por outra, piscava o olho para o remador ou entretinha-se agitando a água com uma fina vara de salgueiro, que encontrara no fundo da gôndola. Seu rosto estava tão feio e impassível como de costume, nada refletindo de seus pensamentos íntimos. Estivera recordando seu cachorrinho Fino, afogado, e o alegre e ruidoso papagaio, estrangulado; e ponderava que a depravação e a perversidade vitimam por igual os homens e os animais, que neste mundo nada se pode prever e só a morte é certa. Recordava ainda seu pai, e sua terra natal, sua vida inteira, e uma expressão irônica aflorou a seu rosto quando pensou que, por toda parte, os mais sábios estão sempre a serviço dos tolos e dos néscios, que a vida da maioria das pessoas não passa de uma comédia de mau gosto. E sorriu, contemplando seu rico traje de seda. “Estava Filippo ainda quieto e silencioso, sorrindo de suas próprias meditações, quando aconteceu-aquilo que ele esperava há alguns momentos. De dentro do camarim soou a voz de Baldassare e logo a de Margherita, que chamava: ‘— Onde deixaste o vinho e as taças, Filippo? “O senhor Baldassare estava com sede e era hora de administrar-lhe o f i l t r o , na taça de vinho. “Desarrolhou o vidrinho azul, despejou o liquido numa taça e completou-a com o vinho tinto. Margherita afastou as cortinas e o anão serviu-a, oferecendo-lhe o cesto de pêssegos. Depois estendeu a taça a Baldassare. Ela lançava-lhe olhares interrogativos e parecia inquieta. “O senhor Baldassare k v o u a taça aos lábios mas seu olhar caiu sobre o anão, plantado à sua frente, e a alma encheu-se-lhe de tenebrosas suspeitas. — Em malandrins da tua espécie nunca se pode confiar — disse Baldassare, baixando a taça. — Antes de eu beber, prova tu primeiro este vinho! ” Filippo não pestanejou. — O vinho é bom, senhor. ‘Mas o outro continuava desconfiado. ‘— É bom mas não te atreves a bebê-lo, é isso, canalha? ‘— Perdoai, senhor, mas não estou acostumado a beber vinho. ‘— Pois te ordeno que o faças. É sempre tempo de nos acostumarmos às boas coisas. Vamos! — E acrescentou irritado: — Nem uma só gota passará pelos meus lábios enquanto não beberes p r i meiro! ‘— Não vos amofineis por tão pouco, senhor — replicou Filippo, que se inclinou, tomou a taça das mãos de Baldassare, bebeu um gole e devolveu-a. Baldassare observou-o por instantes e tragou o resto do vinho de um fôlego. “Fazia muito calor e a laguna cintilava com um fulgor ofuscanfe. Os amantes procuraram de novo a sombra do camarim, protegidos pelas cortinas. O anão voltou a sentar-se no chão da gôndola, passou a mão pela testa e contraiu a feia boca num ríctus doloroso. “Ele sabia que dentro de uma hora já não estaria com vida. A taça não continha um filtro de amor mas uma forte dose de veneno. Uma estranha expectativa tomara conta de sua alma, prestes a soltar-se do monstruoso cativeiro daquele corpo às portas da morte. Olhou para trás, para a cidade branca e dourada, e lembrou-se dos pensamentos a que ainda há pouco se entregara. Silencioso, olhou para o espelho lacustre, como se nele visse refletida sua própria vida. Como tinha sido pobre e monótona… um sábio a serviço de tolos, uma tragicomédia insípida. Quando sentiu que as batidas de seu coração se tornavam irregulares e a testa se lhe cobria de suores frios, soltou uma risada amarga e deitou-se no fundo da gôndola. “Ninguém lhe prestou atenção. O remador estava de pé, quase adormecido, eternamente apoiado ao longo remo. Atrás das cortinas, Margherita, assustada, viu seu amado Baldassare contorcer-se de repente, tentar levantar-se para, em seguida, cair arfante no seu regaço e, instantes depois, morrer. Em altos prantos, tresloucada de dor, precipitou-se para fora do camarim. No fundo da gôndola, jazia o seu anão, como que adormecido. ” F o i essa a vingança de Filippo para a morte de seu cachorrinho. O regresso da gôndola com os dois cadáveres encheu Veneza de espanto e horror. ”Donna Margherita enlouqueceu, porém ainda viveria alguns anos mais. Por vezes, sentava-se no seu balcão e gritava, sobre o parapeito, para cada gôndola ou barca que passava: ‘— Salvem-no! Salvem o cachorrinho! Salve o pequeno Fino! “Mas já todos a conheciam e ninguém mais ligava ao que ela dizia.

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