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Hannes (Hermann Hesse)

Numa pequena cidade vivia um próspero artesão que se casara pela segunda vez. Do seu primeiro matrimônio tinha um filho, um rapagão forte e violento; o segundo filho, Hannes, era um menino delicado e desde pequeno considerado algo tolo. Depois da morte de sua mãe, começaram os tempos difíceis para Hannes: o irmão o desprezava e maltratava, e o pai dava sempre razão ao filho mais velho, pois envergonhava-se de tê-lo como filho. Cada vez era maior a sua fama de menino de pouca inteligência, pois não participava das paixões e prazeres dos outros rapazes da sua idade, falava pouquíssimo e tudo suportava com invulgar estoicismo e paciência. Desde que lhe faltara o amparo materno, adquirira o hábito de passear longas horas pelos campos vizinhos, pois assim podia sair sem necessidade de autorização paterna. Por vezes, passava metade do dia divertindo-se em observar plantas e flores, conhecer e identificar as diferentes categorias de pedras, as várias espécies de aves, insetos e outros animais, e tinha com todas essas criaturas e coisas as mais afetuosas relações. Nesses passatempos ficava, com freqüência, completamente sozinho mas, depois, passou a ser acompanhado por crianças, e percebia-se que Hannes, que nâo conseguia ter algo em comum com os rapazes de sua idade, entendia-se às m i l maravilhas com as crianças. Mostravalhes os lugares onde cresciam as plantas, brincava com elas e contava-lhes fascinantes histórias; levava-as no colo quando se fatigavam e, quando brigavam, restabelecia a paz entre elas. No principio, não se via com bons olhos, quando os pequenos o seguiam confiantes. Depois, acostumaram-se e muitas mães ficavam satisfeitas por poderem confiar os filhos a Hannes para que tomasse conta deles. Passados alguns anos, Hannes sofreu amargas decepções e dissabores por causa de seus protegidos. Logo que se. emanciparam de seus cuidados e deram ouvidos ao que todo mundo dizia sobre ele, os mais delicados passaram a evitá-lo, os mais rudes escarnecerem dele. Quando essas atitudes o magoavam demais, refugiava-se sozinho nos bosques, atraía as cabras com verduras e os pássaros com migalhas, reconfortando-se na companhia da natureza e dos animais, de quem não precisava temer ingratidão nem inimizade. E, durante essas horas de solidão, viu Deus observando o mundo por cima das densas nuvens de trovoada e viu o Salvador caminhando pelos silenciosos atalhos da floresta. Com o coração pulsando forte, Hannes ocultou-se entre os arbustos até que ele passasse. Quando chegou a hora de escolher uma ocupação, uma profissão, não entrou, como seu irmão mais velho, para a oficina paterna; preferiu sair da cidade e ir viver nas fazendas, fazendo serviços de pastoreio. Conduzia os rebanhos de carneiros e cabras, as varas de porcos, as manadas de gado e até, vez por outra, gansos e patos para os campos de pascigo. Tão bem tratados andavam os animais á sua guarda, que já o conheciam e obedeciam-lhe mais docilmente do que a qualquer outro pastor. Os fazendeiros depressa se deram conta disso e não tardou que confiassem ao jovem pastor seus maiores e melhores rebanhos. Mas quando Hannes tinha de ir à feira, na cidade, seu andar era tímido, os gestos humildes, e os operários troçavam dele, os estudantes punham-lhe apelidos e seu irmão, envergonhado, voltava-lhe as costas como se não o conhecesse. Além disso, Hannes fora por ele enganado: o pai morrera, vítima de uma epidemia, e o irmão ficara com a metade da herança a que Hannes tinha direito, sem que este o notasse ou, se acaso o notou, protestasse. O que economizava do salário de pastor entregava-o às crianças ou aos pobres, quando não comprava uma coleira nova para uma cabra ou uma vaca, com um sonoro chocalho que muito lhe agradava ouvir. Assim muitos anos se passaram, e Hannes já não era mais jovem. Pouco sabia da vida das pessoas mas conhecia bem o tempo e os ventos, o crescimento da grama e as colheitas, o gado e os cães; conhecia todos os animais, um por um, pela beleza ou força, pelo temperamento ou idade, e além do gado estava familiarizado com as aves e os pássaros de todos os gêneros, seus costumes e raças, com os lagartos, cobras, abelhas, insetos, com as martas e os esquilos. Era muito versado em plantas e ervas, entendia de terra e água, de estações e fases da lua. Apaziguava as brigas entre os animais no cio, tratava e curava os feridos e doentes, criava filhotes órfãos e jamais imaginou que pudesse fazer outro trabalho senão o de pastor e vaqueiro. Certo dia, quando estava deitado na orla do bosque, à sombra de um frondoso pinheiro manso, e vigiava o gado, veio correndo da cidade uma mulher que penetrou no bosque, passando por ele, sem o notar. Como parecesse muito agitada, Hannes seguiu-a com os olhos e logo percebeu que a intenção da mulher era cometer algum dano a si própria, pois atara uma corda ao galho de uma árvore e ocupava-se agora em colocar um laço em torno do pescoço. Hannes correu para junto dela, colocando-lhe a mão no ombro e impedindo-a de levar avante sua intenção. A mulher deteve-se assustada, e encarou-o com hostilidade. Então, Hannes, com voz tranqüilizadora, supHcou-lhe que se sentasse e, falando-lhe como se o fizesse a uma criança desamparada, conseguiu que a infeliz lhe confessasse os motivos de sua aflição. Disse ela que não podia viver mais com o marido e, apesar disso, Hannes pressentia que ela ainda o amava. Deixou-a desfiar suas queixas até vê-la um pouco mais calma. Depois, tentou consolá-la o melhor que sabia, falando-lhe de outras coisas: de seus trabalhos no campo, dos rebanhos, de sua amizade com os animais do bosque e, finalmente, pediu-lhe que voltasse ao lar e tentasse fazer as pazes com o marido. A mulher retirou-se, chorando baixinho, e, por algum tempo, Hannes não a viu nem ouviu falar dela. Mas, no princípio do outono, a mesma mulher aproximou-se do bosque, na companhia do marido e do cunhado. Estava alegre e agradecida; contou ao pastor a história de sua reconciliação com o marido e suplicou-lhe que desse seus conselhos e conforto ao cunhado, que ali estava com eles. O homem contou a Hannes os motivos de sua aflição, fruto de uma série de adversidades: era moleiro e seu moinho pegara fogo; pouco depois, perdera um filho; e tinha agora a mulher muito doente. Na maneira como o pastor o escutava e olhava, nas palavras com que lhe oferecia consolo, havia uma estranha e indescritível força. Sem dar-se conta, Hannes fazia um inefável bem ao infeliz e dava-lhe novo ânimo para enfrentar a vida. Agradecidos, despediram-se dele. Não passou muito tempo e o cunhado daquela mulher apareceu de novo, trazendo agora um amigo precisado de conselhos. O amigo voltou em outra ocasião, acompanhado de outro homem, e este viria pouco depois com outro amigo. Logo correu pela cidade que o pastor Hannes sabia curar depressões, apaziguar brigas e ajudar com prudentes conselhos os indecisos e os desesperados. Muitos ainda escarneciam dele mas quase todos os dias era procurado por alguém em busca de ajuda. A um jovem perdulário e patife levou ao bom caminho; aos sofredores insuflava paciência e esperança, e houve grande sensação quando, por seu intermédio, chjas famílias inimigas e ricas fizeram as pazes. Alguns falavam de feitiço mas, como o pastor não aceitava de ninguém, em agradecimento, recompensa de espécie alguma, as censuras dos incrédulos e as suspeitas dos supersticiosos caíam por terra e o humilde Hannes era cada vez mais procurado como se fosse um virtuoso eremita. Histórias e lendas sobre a sua vida e pessoa eram ouvidas e benquistas por toda a parte; dizia-se que os animais do bosque o seguiam, que ele entendia a voz dos pássaros, que era capaz de fazer chover e de afastar os raios. Entre os que ainda falavam de Hannes com desprezo e inveja estava seu irmão mais velho. Chamava-o de tolo e bobo, e numa noite de bebedeira j u r o u , em altos gritos, que iria pôr fim àquela história. Dito e feito. No dia seguinte, pôs-se a caminho com dois companheiros, em busca do irmão. Encontraram o pastor num urzal, guardando o gado. Vendo-os chegar, Hannes saiu ao encontro deles, recebeu-os afavelmente, ofereceu-lhes pão e leite, perguntando pela saúde de todos e de seus familiares. Antes que o irmão pudesse proferir as feias palavras que trazia em mente, os modos do pastor tinham-no emocionado tanto que lhe suplicou perdão, banhado em pranto, e voltou arrependido à cidade. Este último incidente acabou por fazer calarem os maledicentcs e a história passou a circular com detalhes cada vez mais completos, uns verídicos, outros imaginados, e um jovem compôs até um poema sobre o caso. Quando Hannes atingiu os cinqüenta e cinco anos de idade, começou uma época deveras ruim para a cidade. Tudo nasceu de uma rixa entre cidadãos por motivo fútil mas correu sangue e este gerou, inevitavelmente, inimizades terríveis. Algumas das mortes repentinas foram atribuídas a assassinatos e criminosos envenenamentos e quando as paixões exacerbadas atingiram o auge, surgiu uma epidemia que começou por dizimar as crianças, em quantidade assustadora, depois atacou os adultos e, em poucas semanas, a população ficou reduzida a um quarto. Justamente nessa época morria também o velho governador da cidade e o desânimo e o desprezo tornaram-se insuportáveis na coletividade castigada por dissensões civis e doenças. Bandos de salteadores campeavam à solta nas ruas, pondo em risco a vida e os haveres dos desditosos sobreviventes. Só os bandoleiros conservavam a cabeça fria; o resto da população vivia desvairada — os ricos recebiam cartas ameaçadoras e os pobres já não tinham o que comer. Um dia, Hannes resolveu descer à cidade para visitar alguns de seus protegidos. Encontrou um morto, outro agonizante, um terceiro órfão e na miséria. Casas vazias, ruas cheias de medo, horror e desconfiança. Quando atravessava a praça do mercado, com a alma dolorida à vista de tanta desgraça que vitimava sua terra natal, foi reconhecido por algumas pessoas. Logo grande multidão de desesperados o seguiu, não deixando que Hannes escapasse. Sem saber como, encontrou-.se diante do paço municipal, empurrado para o alto da escadaria, frente a frente com um mar de gente que ansiava por palavras de consolo e esperança. Naquele instante, levado pelo desejo ardente de minorar tanto infortúnio, o pastor estendeu os braços para o alto e falou ao povo emudecido, da doença e da morte, do pecado e da salvação, e terminou com uma extraordinária e consoladora confidência. Ontem, disse Hannes, vira Jesus sobre a colina da cidade, o Redentor que estava a caminho para pôr fim a toda a miséria. E enquanto comunicava tais novas, seu rosto brilhava tão intensamente de compaixão e amor que pareceu a alguns ser ele próprio o Redentor, enviado por Deus para salvá-los.
— Trazei-o aqui! — gritava a multidão. — Trazei-nos o Redentor para que nos ajude! Apavorado, Hannes deu-se conta, subitamente, do potencial de esperanças que evocara naquela gente. Seu espírito toldou-se e, pela primeira vez, compreendeu que a miséria do mundo era bem maior e mais poderosa do que a sua própria confiança. Aos infelizes que se aglomeravam diante dele já não bastava ouvir falar do Salvador, queriam vê-Lo entre eles, tocar Suas mãos, ouvir Sua voz para não desesperarem. — Erguerei minhas preces ao Senhor — prometeu Hannes, com a voz embargada. — Procurá-lo-ei durante três dias e três noites, impiorar-lhe-ei que me acompanhe. Cansado e confuso regressou o profeta ao campo, acompanhado até às portas da cidade pela multidão entusiática. Entrou no bosque, de semblante triste, e pôs-se a procurar aqueles lugares onde pressentira, outrora, a presença de Deus. Rezando, mas sem esperança e com o coração pesado de maus presságios, vagueou às cegas entre árvores indecifráveis. Sem querer, Hannes, do pastor e amigo das crianças, tornara-se para muitos o vigário que lhes incutia fé, que os amparava e a tantos salvara em angustiosos transes. E concluía que tudo fora em vão, afinal; que o Mal era inextinguivel e tinha um lugar vitorioso no mundo. Quando, no quarto dia, regressou à cidade, vergado e caminhando lentamente, o rosto envelhecera e o cabelo embranquecera. Silenciosamente, o povo esperava-o desde as portas e alguns se ajoelharam quando ele passou. Mas ele terminaria a vida com uma mentira que, ao mesmo tempo, era uma verdade pura. — Viste o Senhor? Que foi que ele te disse? — perguntou o povo. E Hannes ergueu os olhos e respondeu: — Assim ele me disse: Vai e morre pela tua cidade, como eu morri pela salvação do mundo. Por um momento, o pavor e a decepção tomaram conta da grande multidão. E, de súbito, um ancião adiantou-se, soltou uma terrível imprccação e cuspiu no rosto do profeta. Hannes caiu e, cm silêncio, enfrentou a ira do povo.

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