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As Três Tílias (Hermann Hesse)

Há mais de cem anos, existiam no verde cemitério do Hospital do Espírito Santo, em Berlim, três antigas e belíssimas tílias, tão altas e copadas que cobriam todo o cemitério, como uma abóbada, com seus ramos, galhos e folhas entrelaçados. A origem dessas três admiradas tílias remontava, porém, a vários séculos atrás e é contada da seguinte maneira: Viviam em Berlim três irmãos que cultivavam entre si uma amizade tão profunda, uma confiança tão sólida, como só muito raramente se vê. Certa noite, o mais novo deles saiu sozinho, sem dizer coisa alguma aos irmãos, pois pretendia ir encontrar-se com uma moça, numa ruela afastada, para passearem juntos. Mas, antes de chegar ao loca! do encontro, quando caminhava alegremente e entregue a seus devaneios amorosos, ouviu um gemido abafado e agonizante, que lhe pareceu vir de um recanto sombrio e solitário entre duas casas; dirigiu-se para lá, supondo tratar-se de algum animal ferido, ou mesmo de uma criança a quem acontecera alguma desgraça e esperava por ajuda. Porém, quando chegou ao lugar escuro de onde partiam os gemidos v i u , apavorado, um homem estendido numa poça de sangue; abaixou-se e perguntou, compadecido, o que lhe acontecera e o que poderia fazer pelo infeliz, mas só teve como única resposta um débil sussurro e um arfar entrecortado, de quem já está nos estertores agônicos; o desgraçado recebera uma facada em pleno coração e, pouco depois, morria nos braços de quem intentara acudi-lo. O jovem não sabia o que fazer. Consternado e perplexo, decidiu prosseguir com passos vacilantes em seu caminho pela rua, o assassinado já não dava mais sinal de vida e já nada adiantava ele continuar ali de braços cruzados. Porém, ao entrar na ruela encontrou-se com dois policiais de ronda. O jovem pensou se deveria solicitar a ajuda deles ou afastar-se silenciosamente, já que o problema, afinal de contas, não lhe dizia respeito. Os guardas, entretanto, notaram o ar assustado do moço e, acercando-se viramlhe os sapatos e as mangas da camisa manchados de sangue. Ora, não hesitaram em prendê-lo imediatamente, arrastando-o à força. Ele lhes contou, suplicante, o que acontecera, mas os guardas nem lhe davam ouvidos. Encontraram o cadáver, já quase frio, e levaram o suposto .assassino para o cárcere, amarrando-o com grilhões e mantendo-o sob severa vigilância. No dia seguinte, foi ouvido pelo juiz. O cadáver foi trazido e só então, à luz do dia, o jovem reconheceu no assassinado um aprendiz de ferreiro com quem fizera, tempos atrás, alguma camaradagem. Mas, antes, já declarara não conhecer o assassinado e nada saber sobre ele. Com isso ficou mais reforçada a suspeita de que o tivesse esfaqueado e depois a situação agravou-se quando começaram desfilando as testemunhas que conheciam o morto; uma delas declarou que o jovem, tempos atrás, tivera ligações com a vitima, que tinham sido até bons amigos mas sobreviera uma disputa entre eles, por causa de uma moça, e dai em diante não mais se deram. Havia nisso alguma verdade, mas só uma pequena parcela, que o inocente admitiu, reiterando sua completa inocência e implorando não só justiça mas clemência. O juiz não duvidou que ele fosse o assassino e conseguiu dispor de suficientes provas para condená-lo e entregá-lo ao carrasco. Quanto mais o acusado insistia em sua inocência, mais culpado parecia aos olhos do tribunal. Entrementes, um de seus irmãos — o mais velho fora ao campo para tratar de negócios — esperava em casa pelo caçula inútilmente e, já alarmado, saiu em sua busca. Quando o informaram de que o irmão fora levado a tribunal e acusado de homicídio, embora o negasse tenazmente, ele correu logo à presença do juiz. — Meritíssimo Juiz — disse ele — tendes preso e condenado um jovem inocente! Soltai-o! Fui eu o assassino e não quero que um inocente sofra por m i m . Tive uma séria desavença com o ferreiro e o segui ontem à noite. Quando o vi encostar-se naquele recanto escuro para satisfazer uma necessidade, saltei sobre ele e cravei-lhe uma faca no coração. Surpreendido, o juiz ouviu a insólita confissão e ordenou que o algemassem e vigiassem até ser esclarecido o caso. Assim os dois irmãos ficaram acorrentados no mesmo cárcere, porém o mais novo ignorava o que o outro fizera por ele para salvá-lo e continuou insistindo em sua inocência. Decorreram dois dias sem que o juiz pudesse apurar algum fato novo para elucidar aquele dilema e já se encontrava propenso a dar crédito ao homem que se confessara assassino. Nesse ínterim, regressou o irmão mais velho que estivera a negócio fora de Berlim. Não encontrou ninguém em casa e soube pelos vizinhos o que acontecera ao irmão caçula e como o outro se entregara ao juiz. Nessa mesma noite, dirigiu-se à casa do magistrado, fez com que o despertassem e arrojou-se a seus pés, com as seguintes palavras: — Nobre Senhor Juiz! Vossa Senhoria tem dois inocentes a ferros que sofrem por minha culpa. O aprendiz de ferreiro não foi assassinado nem pelo meu irmão caçula nem pelo outro, pois fui eu o autor do crime. Não posso suportar por mais tempo o remorso de vê-los sofrer sem culpa e rogo a Vossa Senhoria que os mandeis soltar. Prendei a m i m , que estou pronto a pagar o meu crime com a vida. O magistrado estava agora mais perplexo do que nunca e não viu outra solução para o caso senão mandar prender também o irirlão mais velho. Na manhã seguinte, quando o carceteiro foi levar ao irmão mais novo sua ração de pão, entregou-a pelo postigo da cela, dizendo: — Bem que eu gostaria de saber qual de vocês três f o i , afinal, o celerado. Por mais que o jovem o interrogasse e pedisse uma explicação para aquelas palavras, o carcereiro nada mais quis adiantar, porém o infeliz concluiu que seus irmãos tinham vindo apresentar-se à justiça para salvarem sua vida à custa da deles. Rompeu então em altos gritos e pediu que o levassem de novo à presença do juiz. Foi levado, arrastando os grilhões, e disse, com a voz entrecortada de soluços: — Oh, digno Juiz, perdoai tê-lo feito esperar tanto pela verdade! Mas eu supunha não ter sido visto quando perpetrava o crime e, assim, não haver quem provasse minha culpa. Mas agora reconheço que tudo tem de seguir seu caminho reto e não posso nem quero continuar negando que fui eu quem, realmente, assassinou o ferreiro. Sou eu que tenho de expiar com a minha pobre vida esse crime sem perdão. O juiz arregalou os olhos de espanto e já nem queria acreditar no que ouvia. Sua surpresa era indescritível e, no íntimo, começava a se arrepender por ter de cuidar de tão estranho caso, em que para um único crime apareciam mais autores do que era preciso. Fez o preso voltar a sua enxovia e mandou vigiar igualmente os outros dois irmãos. Meditou longamente sobre o assunto, pois bem via que só um deles podia ser o assassino e os outros dois se entregavam ao carrasco por generosidade de alma e puro amor fraterno. Suas cogitações não tinham fim e o juiz apercebeu-se de que, em semelhantes situações, os raciocínios humanos comuns não levavam a uma conclusão definitiva. Teria de recorrer ao discernimento de uma autoridade superior à sua e por isso mandou que os presos ficassem bem guardados enquanto ele solicitaria uma audiência ao príncipe eleitor, a quem relatou minuciosamente o caso. O príncipe ouviu com a maior admiração e, no final, disse: — Raro e curioso caso me contais! Pressinto, em meu coração, que nenhum dos três cometeu o assassinato, nem mesmo o mais novo que vossos guardas prenderam, e que a verdade é aquela declarada no começo pelo mais moço. Porém, como se trata de um assassinato, não podereis soltar o suspeito sem razão plausível. Por isso, vou apelar a Deus Nosso Senhor para que seja Ele próprio o juiz desses três fiéis irmãos e que fiquem entregues ao Seu julgamento. Assim foi feito. Chegara a primavera e, num dia quente e l u minoso, os três irmãos foram levados para fora da cidade, a um lugar verdejante onde teriam de plantar cada um deles uma nova e viçosa tilia. Mas foi-lhes ordenado que plantassem as tílias não com as raízes para baixo mas com as verdes e tenras copas metidas na terra e as raízes voltadas para o céu. A árvore que morresse ou secasse primeiro, essa teria sido plantada pelo assassino. Seria esse o irmão sentenciado. Assim cada um dos três irmãos plantou sua árvore, com o maior desvelo, os galhos enterrados na terra, as raízes apontadas para o alto. Não tardou muito, porém, que nas três pequenas árvores começassem a romper novos brotos, dos brotos surgissem novas folhas e, dentro em breve, as raizes fossem encobertas por novas copas verdejantes, como sinal de que os três irmãos estavam inocentes. E as tílias cresceram, floresceram, tornaram-se grandes e robustas árvores, e durante muitas centenas de anos foram vistas e admiradas no cemitério do Hospital do Espírito Santo, em Berlim.

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