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A Morte de Frei Antônio (Hermann Hesse)

Digníssima senhora e cara irmã em Jesus: Conforme vosso pedido, por mim recebido, conto-vos nesta carta aquelas coisas de que gostareis de ter notícia, sem que por isso tenhais de considerar-vos devedora de tal serviço. Sois-me completamente desconhecida, porém, creio que éreis pessoa intima do falecido, em tempos idos, e assim vos rogo que leiais com indulgência as palavras que, num momento de fraqueza, decidi enviar-vos. Muitas pessoas há a quem a morte, que o nosso saudoso Poverello chamava de doce irmã, arrebata como dócil e fácil presa. Outras, entre as quais há muitas criaturas devotas e corajosas, só se lhe entregam após dura luta, a contragosto e como se defrontasssem um inimigo odiado. Entre estas se encontrava o meu estimado Irmão Antônio, cujo passamento me encheu de tanto assombro e profundo pavor que não logro esquecer uma só de suas palavras, nem uma só ruga de seu rosto, nem um só movimento de suas mãos.

Não assisti ao derradeiro momento de sua vida mas permaneci junto dele até momentos antes de entregar a alma ao seu Criador. Quero contar-vos minuciosamente tudo aquilo que sei desse transe. A minha sincera admiração pelo saudoso irmão não me impediu, entretanto, de meditar muito e chegar à convicção de que Antônio teve uma santa morte e foi por Deus acolhido com misericórdia, como fiel servo que fora. Aconteceu numa fria manhã e já decorreram quatro meses desde que um mensageiro de Antônio me procurou e disse: — Levanta-te depressa e corre, pois o nosso Padre Antônio aguarda a morte e não lhe sobram mais que poucas horas! Fiquei muito consternado, apanhei meu bordão c segui às pressas o mensageiro, atravessando a serra. O caminho era longo, Íngreme e deveras penoso. Andamos seis horas até fazermos uma pausa para descansar e mais duas horas, enquanto uma grande e dolorosa inquietação nos afligia a alma, a tal ponto que nem eu nem o mensageiro tínhamos de.sejo de falar, trocando apenas algumas palavras insignificantes. E o mensageiro, que já caminhara metade da noite para me avisar, ficou tão exausto que tive de abandoná-lo e chegar sozinho ao meu destino. Galguei célere a cojina, como se os anos tivessem deixado de pesar em meus pés, e encontrei nosso irmão dormindo em seu leito, na sua humilde choupana. Estava muito quieto, respirando debilmente, o rosto já marcado pela vizinhança da morte. Sentei-me à sua cabeceira, tomei cuidadosamente sua mão nas minhas e fiquei velando. Ora, aconteceu que, idoso e com o corpo fatigado pela jornada, adormeci ali mesmo e deve ter decorrido uma hora antes que despertasse de novo. E, pasmai, era o enfermo que segurava carinhosamente a minha mão, os olhos atentos para o meu lado e sem dizer palavra! Senti-me envergonhado e muito consternado por ter adormecido. — Irmão Antônio — disse eu — aqui estou. Vim dcspcdir-me de vós, que estais tão perto do trono de Deus. Bem-aventurado scjais! Antônio silenciava e sorria de um modo estranho, como se não acreditasse nas minhas palavras. Pensei que estivesse zombando do meu cochilo e humilhei-me, contrito, rogando o seu perdão e indagando que serviço poderia fazer por ele. — Abre bem aquela porta! — disse Antônio. Fiz como ele me mandava c um j o r r o de claridade inundou a choupana. Tendo silenciado de novo, voltei a perguntar se queria mais alguma coisa. — Abre também o teto! — disse ele, apontando para cima. Sai da choupana e levantei duas tábulas do telhado, cheio de perplexidade por não entender o significado daquelas ordens. Quando voltei para junto de seu leito, ele tinha os olhos voltados para a abertura do teto e sorria de novo, com aquele seu estranho sorriso. — Já não via o céu há seis dias! — exclamou ele, pedindo que me sentasse outra vez á sua cabeceira. Atendi imediatamente a seu desejo e, de súbito, começou falando alto e em tom enérgico. Os olhos brilhavam como velas e as mãos descreviam os movimentos de um tribuno falando ás multidões. Foram estas as suas palavras:

— Vós que falais da vida e da morte, que sabeis delas afinal? Qual de vós já morreu a amarga morte para que possa falar dela ou explicar como é? Mas também pouco sabeis da vida, pois vossos olhos são turvos e a mente fraca. Eu sei, eu sei o que é a vida, pois meu olhar está desperto e atento, e hoje a morte ronda meu leito. Eu sei quão grande e maravilhoso é o mundo, quão belo e terrível é o mar. E em verdade vos digo, irmão: o delgado raio de luz que o sol manda à minha choupana me alegra mais do que tudo o que recebi dos homens. ” O h , maravilhoso sol! Oh, belos horizontes infinitos! E vós, montanhas que eu percorri, ébrio de vossa grandeza agreste e solitária! E vós, doces riachos onde me dessedentei! Oh, minha pátria distante, oh, minha juventude! “Vós, desditosas criaturas humanas, cuja vida decorre sem prazeres, qual turvo riacho que termina o curso nas areias, antes de seu tempo e destino! Oh, descerrai vossos olhos e vede como é fascinante o mundo em que viveis! Olhai o suave e misterioso vale que o luar ilumina, o fulgor do oceano quando, sobre as ondas, o sol se levanta! Deveras estranha me pareceu esta oração e fiquei muito preocupado, porquanto o meu santo irmão poderia subitamente fechar os olhos para sempre sem ler nos lábios o nome do Senhor. Por isso o sacudi levemente. Ele esboçou um aceno de mão e manteve-se silencioso, por momentos, sorrindo para mim. Depois, voltou a falar em surdina, como se me confiasse um segredo: — Irmão Januário, hoje, em vossa caminhada, haveis passado pela encosta da coluna, de cujo cimo se pode ver o mar e as grandes montanhas nevadas. Nesse lugar existe um espinheiro-bravo com a imagem de Nossa Senhora das Dores. Porventura já estivestes nesse lugar? Como eu confirmasse, Antônio prosseguiu: — Bom, assim o conheceis. Tereis provavelmente observado que, dessa cumeada, podemos ver os lagos ora serenos, ora encrespados pela brisa e as longínquas montanhas coroadas de neve tocando as nuvens brancas na pureza do espaço. E contemplastes, por certo, aquele espinheiro, repousastes à sua sombra, aspirastes o aroma de suas folhas, e a aragem que corria do mar, e vosso olhar espraiou-se pelos belos e verdejantes prados. — Sim — dizia eu — sim, é tudo como dizeis e eu tantas vezes contemplei, enlevado nas maravilhas do Criador. — Pois bem — cortou Antônio. — Pensai agora que nunca mais vereis tais coisas, nem as montanhas, nem o espinheiro-bravo, nem o mar, nem o lago e os luminosos prados. — Assim será, caríssimo irmão — disse eu — não mais vereis esses lugares, senão quando fores levado pelos anjos à presença do Senhor. — E a cidade onde nasci, e o grande rio que nela passa, tudo isso não verei mais? — Não mais, não mais — falei de novo — pois essa é a vontade de Deus. — Oh, meu irmão! — gritou ele, com grande exaltação. — Pois sabei que amo infinitamente esse rio, e esse céu azul, e todas as coisas maravilhosas deste mundo mais do que a vós, a todos os homens e aos anjos do Senhor! Neste ponto, meu coração teve um sobressalto e cmpalideci. Cai de joelhos à beira do leito e orei a Deus Todo-Podcroso. Depois, soergui-me e falei-lhe: — Creio não ter ouvido bem o que dissestes. Mas vos imploro, amado irmão, dizei-me que amais a Deus sobre todas as coisas, mais que às montanhas, aos prados e aos mares deste mundo! Ele recostou-se um pouco e vi que seus olhos estavam marejados de lágrimas.

— Senhor Deus — disse ele — eu vos amo mais do que à minha própria vida. Tende piedade de minha alma. Depois emudeceu e eu sentei-me à sua cabeceira, e juntos choramos e suspiramos, até que o sol desapareceu da choupana. Quando a escuridão sobreveio, ele começou de novo gritando, e estendendo os braços para o alto. Pensei que seu fim estava chegando e administrei-lhe os últimos sacramentos. Permaneceu silencioso, com grande humildade, agradecendo-me depois com palavras carinhosas e fraternas. Em seguida pediu-me para ficar sozinho. — Agora ide em paz, bom irmão — disse ele. — Sentirão vossa falta se vos atardares demais. Deixai-me morrer sozinho, pois sei que doravante temereis a morte como o fogo. Permiti que vos abençoe! Abençoou-me com grande fervor e beijou-me como um pai a um filho querido, se bem que tivesse poucos anos mais do que eu. E o deixei, pois ele assim queria, tomando o caminho de volta. Minha alma, porém, ia repleta de desânimo, meu coração partido de tanta dor e angústia. Rezando e suspirando seguia eu pela colina quando cheguei perto do espinheiro-bravo e vi a lua nascente refletindo sua imagem no mar prateado. A tristeza apoderou-se de mim, lancei-me ao chão e assim fiquei por longas horas, como um homem morto de pancada. Quando me levantei de novo, vi os extensos vales e o céu coalhado de estrelas. Desde aquela hora nunca mais esqueci as palavras do querido Irmão Antônio; nelas medito com freqüência e em tudo o que conheci de seu caráter e conduta. E compreendi então a inesgotável força de seu amor a Deus que fez de Antônio um ser feliz e bemaventurado. Pois, em sua mocidade, ele fora não só um nobre rico que gozara a vida, mas também um trovador e um homem dado ao estudo das ciências do mundo, versado em grego e outras artes de que a nossa pobre alma não precisa para ganhar a eterna glória. Diz-se até que vivera em pecado com uma nobre dama, a quem dedicara poemas em versos latinos. Mesmo na época em que o conheci e já o estimava pela sua devoção e sabedoria, Antônio ainda usava expressões semelhantes às dos poetas, falando extasiado das montanhas e dos ventos como se possuíssem alma. Certa vez, chamei-lhe a atenção para o que eu julgava ser uma reminiscência profana. Em tom despreocupado, replicou: — Por acaso não sabeis que o Poverello chama a todas essas coisas seus irmãos, e picgou às aves e a outros animais? Em boa verdade sei que a erva do campo é sagrada e cara aos olhos do Senhor. E também os peixes, que são mudos e vivem debaixo d’água, são caros a Deus, e dignos de que lhes preguemos o Evangelho. Assim era o seu coração, que por vezes se mostrava intransigente para com seus semelhantes, e outras tratava as coisas naturais como seres santificados, mesmo os animais, os mosquitos e outros insetos. Certa vez me disse: — Irmão Januário, quando maltratares uma pessoa, ela poderá vingar-se ou perdoar. As inocentes plantas e animais, porém, estão entregues aos cuidados dos homens, para que os amemos e convivamos com eles como nossos irmãos mais fracos e indefesos. Quando sois caritativo com um homem, este vos retribuirá com gratidão e afeto. Mas quando poupais a vida de um inseto, de um peixe ou de uma ave, de um modesto arbusto ou de uma simples flor, o vosso gesto de amor só receberá a gratidão de Deus. E quando subires à presença d’Ele, como cristão que morreu devotamente e como pregador do Seu Evangelho, talvez o Senhor vos pergunte: “Por que pisaste naquele verme? Por que quebraste aquela flor e a jogaste fora? Por que vergaste o galho daquela árvore? Por que Me fizeste tanto dano?” Há dez anos atrás, Antônio escreveu um longo e belo poema sobre as abelhas, seu modo de vida, como estão organizadas à semelhança de uma nação, como preparam de maneira estranha seus favos de mel. Lera-o para mim e admirei profundamente a verdade e a beleza de suas palavras. Mas, quando de uma outra vez lhe perguntei por que motivo, tendo o Senhor lhe dado o talento de um poeta, ele não preferia exaltar o sofrimento do nosso Salvador ou a vida dos bem-aventurados padres, pôs-se muito sério e não permitiu que eu continuasse. — Mas, como! — exclamou ele. — Como me atreveria a descrever em versos a obra de Deus, se a menor das Suas criações, como a vida dessas humildes abelhas, já é tão maravilhosa c difícil de compreender? Chega de recordações. Quereis, senhora, saber do falecimento do nosso bem-aventurado Antônio? Então registrarei o pouco que ainda chegou ao meu conhecimento após sua morte. Depois que abandonei o moribundo em sua cabana, conforme fora de sua vontade, visitou-O um guardador de cabras que vinha de Torre e que ali permaneceu até a morte do nosso irmão. Encontrou-o muilo debilitado, estendido sobre o leito de olhos abertos para o alto. Quando o pastor lhe perguntou em que lhe poderia ser útil, Antônio agradeceu, numa voz muito fraca, mas disse não precisar de coisa alguma. Depois ficou falando num quase inaudivel murmúrio, completamente consciente de tudo o que o rodeava, parecendo rezar. Então ergueu um pouco a voz e perguntou ao pastor pelo seu rebanho, quantas cabras tinha, que nome lhes pusera para chamá-las e de que raça eram, enfim, as coisas de que os pastores costumam falar entre eles. — Também tens cabritinhos em teu rebanho? — perguntou Antônio. O pastor respondeu que sim e o nosso irmão falou-lhe de várias ervas que eram bons remédios para os animais muito novos, quando adoeciam. Algumas dessas ervas eram conhecidas do pastor, outras não e esjas logo o moribundo descreveu com grande exatidão. — Não esqueças — disse ele — que todos esses animais, até mesmo os mais minúsculos, também foram criados por Deus e são milagres vivos de Sua infinita bondade. Deves dar-lhes o teu amor, não a m i m , pois atenta bem no que te digo: sou um vaso quebrado e minha vida escoa-se por uma fenda incurável. Mas deves pensar em mim todos os dias de tua vida, para te alegrares de vivê-la enquanto ela durar. A vida é o dom supremo que Deus insuflou em todas as criaturas. Pois um’dia chegará em que também tuas forças se esgotarão e sentirás em tua boca o travo da morte, que é mais amargo do que possas imaginar. Por muito árdua e difícil que tua vida seja, amigo, mais difícil e terrível é a morte! Fica sabendo isto para que teus dias sejam alegres e possas gozar a vida! Fechou os olhos e pareceu descansar. As forças diminuíam rapidamente. Mas de novo alteou a voz e disse estas estranhas palavras: — Aquele que deseja e ama uma mulher sofre e passa dias difíceis, l o d o o homem sente isso no coração. Mas chegará o dia em que saberá se o seu amor é retribuído e sentir-se-á então recompensado de todas as antigas dúvidas e tormentos. Mas quem deseja e ama a Deus sofre muito mais e seu sofrimento jamais terminará, pois nunca saberá ao certo se mereceu e obteve o amor de Deus. E nada mais disse. O pastor contou, porém, que o nosso pranteado irmão percorria tudo à sua volta com o olhar iluminado, contemplava as suas próprias mãos, como que surpreendido, e sacudia lentamente a cabeça. Teria então sorrido, com uma expressão inefavelmente bondosa e triste, e dado o último suspiro. Que descanse na eterna Paz do Senhor! Mais não sei informar sobre o infausto acontecimento. Aceitai, senhora, este pouco que vos ofereço com humildade, e que Deus vos abençoe. É o que vos deseja vosso servo e irmão em Jesus, Frei Januário.

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