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A Má Acolhida (Hermann Hesse)

A maneira de ser dos homens varia, mas a Verdade é uma só, e não é raro encontrar pessoas de diferentes índoles reunidas como irmãs sob o mesmo estandarte. M a l Sao Francisco de Assis baixara à terra, livre das desilusões a que, como mortais, nem os santos são poupados, jà de todos os lados afluíam fervorosos discípulos de sua doutrina de humildade e renúncia, e pela cristandade inteira se espalhavam seus ensinamentos, as palavras cândidas do mestre e o doce encanto, quase infantil, de sua mensagem de amor. Até a distante e fria Inglaterra tinham aportado alguns irmãos franciscanos e dois deles, Egidio e Gottlieb, peregrinaram fraternalmente, no ano de 1224, quando reinava Henrique I I I , pela sombria nação anglo-saxônica. Dos dois, Egidio era o mais velho. Era também o mais devoto, pois já desfrutara de muitas dezenas de anos para se arrepender de sua pregressa vida profana e purificar a alma nos ensinamentos salvadores da Misericórdia Divina, como um náufrago se apega, sôfrego, à última tábua que ainda flutua, como derradeira promessa de salvação. Por isso, os cristalinos ensinamentos do santo da Úmbria tinham formado em sua mente uma triste e quase sombria imagem de si próprio, e os cilícios sob o hábito eram-lhe mais preciosos do que o olhar claro, e o voto de pobreza não era, para ele, um triunfo secreto mas um recurso para atormentar, teimosa e encarniçadamente, sua carne. Gottlieb, pelo contrário, seguia seu mestre como uma criança feliz e descuidada, sem sentir assim estar cumprindo alguma tarefa especial. Não precisava redimir-se de pecados anteriores, visto que, após uma vida pacifica e trabalhosa como jardineiro, quando moço,fora convertido pelas limpidas e consoladoras narrativas da vida do santo, que tinham soado a seus ouvidos como música celestial, e também porque lhe parecia fácil imitar o frade de Assis, vivendo do que lhe dava a mão de Deus, qual passarinho na ramagem. Aspirava à Graça de Deus do mesmo modo que uma pessoa sadia aspira pelo sol, e seu semblante alegre provocava, amiúde, uma repreensão (e também a secreta inveja) do amargurado peregrino Egídio, que se sentia ao lado do exuberante jovem como um inválido de guerra ao lado de um recruta. Os dois romeiros caminhavam pelos arredores de Oxford havia nove horas. O agreste e toldado dia outonal iniciava seu precoce crepúsculo sobre a floresta e eles ainda não haviam encontrado teto’ ou muro, cabana de caçador ou fumaça de chaminé que denunciasse a presença de gente. O tempo estava triste e deprimente, a luz do dia era pálida e agonizante, uma chuva fina e fria tombava a caprichosos intervalos e, de quando em vez, uma rajada violenta vergastava as urzes e as árvores da floresta, que gemiam sob o açoite do venlo, inquieto e melancólico como um rei neurótico que não sabe onde descarregar a sua raiva nem se realmente vale a pena continuar governando e por isso quer fazer saber ao mundo sua regia disposição. — Tu verás — queixava-se exausto o irmão Egídio. — Teremos de passar a noite na floresta! — Acho que isso bem pode acontecer — confirmava Gottlieb. — Doem-me todos os ossos — gemia o mais velho — e apostaria a minha cabeça como esta região está infestada de lobos. — Não du\ido — disse Gottlieb. Tivera de consolar o companheiro o dia todo, esperá-lo quando se atrasava, ouvir seus lamentos e queixumes, mas agora começava a ficar cansado e pensava que o ditoso santo de Assis também passara, com certeza, por iguais ou ainda piores transes, em suas peregrinações. — Respondes a tudo com tanta calma — resmungou Egídio. — Creio que te rejubilarias se eu tivesse de ficar por aqui. — Em absoluto, irmão. Ficarei contigo, assim te prometi e assim será. Vamos entoar junto um salmo? — Cantar? Nem penses nisso! Estou disposto a morrer, se for preciso, mas entoar salmos agora nem a própria Mãe de Deus poderia exigir isso de mim! — Bom, era só uma idéia — disse Gottlieb, amparando o companheiro, pois parecia-lhe aconselhável estugar o passo. A chuva batia-lhes no rosto e, desde o pôr-do-sol, o vento enraivecido soprava cada vez mais forte, como se o cair da noite lhe tivesse reanimado a coragem e feito desencadear sua força ameaçadora e desastrosa. Percorriam agora a floresta e, por cima deles, escutavam o vento esbravejando nas altas ramarias, flagelando as copas quase esfolhadas. Mas, ao atingirem o urzal úmido e desabrigado, a ventania açoitava a estamenha dos seus hábitos e uivava em seus ouvidos como uma alcatéia de lobos famintos. Frei Egídio assustou-se realmente e começou sussurrando o nome de deuses e demônios dos antigos tempos’do paganismo; Gottlieb, que ignorava essa ciência, deixava-o falar mas escutava meio apavorado. Os rebanhos de nuvens baixas e escuras corriam como cavalos sem freio sobre o urzal empapado de chuva e a terra inteira parecia encolhida de medo, ante a investida de legiões aterradoras que pareciam regozijar-se em sua perversidade e aliviar assim as tenebrosas aflições de consciência. Frei Gottlieb entoava, em voz alta, um salmo reconfortante, dentro da noite inimiga, mas seu companheiro, que se lhe agarrava com unhas e dentes, ma! o escutava, pois a ventania do outono levava para longe o som de sua voz, arrancava da boca de Gottlieb os sagrados versículos e enxotava-os, enfurecida, de roldão com folhas e galhos arrancados, para de novo se abater sobre os pobres forasteiros. Egídio caminhava em silêncio, angustiado e cansado, arrimando-se no companheiro e revolvendo-se, cabisbaixo, em sua invencível tristeza. Atordoados pelo vento, pela chuva e pela fadiga, quase passaram sem ver o único abrigo existente nesse descampado. Só o reconheceram quando se encontraram, de súbito, diante de um muro grosso e de um sólido portão de madeira. Era um mosteiro. Quando pararam, aliviados, encostando-se ofegantes ao portão, pareceu-lhes escutarem do outro lado do muro, como se viesse de muito longe, um barulho extraordinário, que o vento logo se encarregava de expulsar para o descampado, afogando os sons insólitos na noite envolvente. Aguçando o ouvido, reconheceram que se tratava de manifestações de alegria e que, sem dúvida, algo se festejava lá dentro de caneco na mão. — A h , é lamentável que tenhamos de solicitar abrigo a tais irmãos! — disse Egídio, desgostoso. — Não é uma vergonha, ouvir através dos muros de um mosteiro, o som da roda de Satã em vez dos cânticos de louvor a Deus? — Deixa para lá, irmão — aconselhou Gottlieb — por certo eles não nos engolirão. Mas, se preferes, passaremos aqui a noite com os lobos. Nada tenho a objetar. — Não, não! — g r i t o u Egídio. — Mas falarei com eles, despertar-lhes-ei a consciência para que se envergonhem e agradeçam ao Senhor termos sido enviados aqui. — Bem, primeiro devemos entrar — acalmou-o Gottlieb. E erguendo seu bordão de romeiro bateu-o no portão com força, para que o som ecoasse lá dentro. Passou-se um longo tempo antes que aparecesse alguém. Por cima da cabeça deles, abriu-se um postigo enquanto o porteiro observava os inesperados visitantes. Calmamente, dirigiu-se ao abade e avisou-o de que dois forasteiros batiam à porta, indagando se deveria abrir. Entrementes, Gottlieb batia de novo na porta com seu bordão. O abade, que era dado a diversões e há muito não recebia visitantes que o distraíssem, perguntou ansioso: — São menestréis? Certamente serão bufarinheiros ou menestréis ambulantes. Quem, senão gente dessa laia, iria vadiar pelos campos a estas horas? Vai e pergunta-lhes. Se forem menestréis deixa-os entrar e traga-os até aqui, Mas se forem mendigos ou peregrinos, ou outras criaturas enfadonhas, então finge que não escutaste e deixa que fiquem onde estão. O irmão porteiro voltou ao postigo, pôs a cabeça de fora e perguntou: — Ei, quem sois vós? — Bom amigo — disse prontamente Gottlieb, olhando para cima. — Abre que estamos exaustos.

— São menestréis? — continuou o porteiro, quase aos gritos. Mas o vento uivava, furioso, e o porteiro, que era de uma região nórdica, não entendia metade do que Gottlieb dizia lá embaixo, e Gottlieb se esforçava por entendê-lo mais ou menos. — Pergunto se vocês são cantores ambulantes — repetiu o porteiro. Os dois frades não entenderam, pois jamais tinham ouvido falar de menestréis e cantores ambulantes. E para acabar com aquela expectativa, Gottlieb gritou para o postigo: — Sim, sim, é isso mesmo! Somos boa gente, não tem por que se preocupar,. Abra a porta, santo homem! Então o frade veio abrir-lhes o portão e encarou com desdém os pobres peregrinos, desgrenhados, cambaleantes, metidos em seus buréis ensopados, enxugando os olhos com as costas das mãos. Conduziu-os ao refeitório, onde o abade e os demais frades os aguardavam cheios de curiosidade. Tinham passado a noite, até aquele momento, inventando um novo jogo de dados; houvera uma discussão por causa disso e só voltaram a fazer as pazes depois de muita pancadaria; tinham bebido muita cerveja e agradava-lhes a idéia de uma nova distração. — Que Deus os abençoe! — disse o abade, caminhando’ ao encontro dos dois franciscanos. — Vocês são menestréis ou saltimbancos, por certo, e isso mè agrada. Devo dizer que não o parecem. Bebam um caneco de cerveja e encham.a barriga de presunto. Verão como vos,sas habilidades funcionarão de novo. Os dois irmãos ficaram consternados ao ouvir tais palavras, Gottlieb emudeceu e sorria estupidamente para os monges sentados em redor. Egídio, porém, sentiu-se espicaçado pelo espirito evangélico e, dando um passo solene, estendeu o braço contra o abade e gritou, cm voz estridente: — Ai de vós, irmãos! Não somos cantores nem aventureiros mas emissários do Senhor! Somos vossos irmãos e viemos ensinarvos o que o nosso santo mestre Francisco de Assis nos ensinou! Meditai pois, dai-nos uma frugal refeição e deixai que façamos nossas orações… Gottlieb puxava-lhe em vão pela manga do hábito. Ainda Egídio não terminara seu retumbante discurso quando o abade, plantado à sua frente com o rosto congestionado, afastou o braço estendido do franciscano, deu-lhe um murro no peito e cxclamou, colérico;

— o que, seu cachorro vadio, seu bandoleiro de estrada! Queres ser nosso irmão, tu? Queres ensinar-nos? Podes dar-te por muito feliz se não te quebro quantos dentes tens nessa boca faladora, saltimbanco! Fora daqui, vá! Hóspedes dessa laia não nos fazem falta! Cumpriu-se o que o abade ordenara e os dedos enregelados dos peregrinos ainda não tinham amolecido no calor gostoso da lareira do refeitório e já se encontravam de novo empurrados e lançados fora do portão do mosteiro, que se fechou estrondosamente atrás deles. Assim como os homens são diferentes entre si, também diferentemente refletem sobre as coisas e os acontecimentos. Muito tempo depois, quando os irmãos Egidio e Gottlieb já se haviam separado, cada um deles recordava essa má acolhida no mosteiro perto de Oxford, mas as respectivas versões eram diferentes e não era possível saber qual deles contava certo o que acontecera. Frei Gottlieb assim narrava o sucedido: — Uma vez, quando nos encontrávamos na orla do bosque, tremendo de frio, ocorreu-me que o abade, apesar de sua intenção ser diversa, não estava tão errado quanto parecia. Pois o nosso mestre Francisco muitas vezes se fizera passar por mcnestrel de Deus e nossa obrigação era aceitarmos o desafio e dcixarmo-nos tomar por menestréis e, depois, num ambiente alegre e confiante, transmitiríamos aos nossos irmãos os santos ensinamentos. Logo, não agimos com inteligência e merecemos ter de dormir aquela noite na estrebaria. Frei Egidio, porém, contava as coisas de modo diferente e assim foi posteriormente relatado, chegando até nossos dias: — Preferia ter de dormir com os lobos a voltar de novo àquela casa. Esperamos, porém, que o arrependimento chegasse àqueles transviados e, de fato, meia hora depois, apareceu-nos furtivamente um jovem irmão, condoído porque os emissários do Senhor tinham sido tão diabolicamente acolhidos em sua casa. Levou-nos então a um palheiro, junto da estrebaria, e dormimos sobre a palha. Nessa mesma noite, tive um sonho em que Nosso Senhor julgava esses frades, sentenciando-os a serem enforcados, o que foi feito. Quando acordamos, na manhã seguinte, de todos os frades daquele mosteiro só o jovem estava com vida; os outros apareceram mortos em suas camas e, no pescoço, marcas que só é costume vermos nos enforcados.

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