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Boa Viagem, Senhor Presidente (G. G. Márquez)

Estava sentado no banco de madeira debaixo das folhas amarelas do parque solitário, contemplando os cisnes empoeirados com as mãos apoiadas no pomo de prata da bengala, e pensando na morte. Quando veio a Genebra pela primeira vez o lago era sereno e diáfano, e havia gaivotas mansas que se aproximavam para comer nas mãos, e mulheres de aluguel que pareciam fantasmas das seis da tarde, com véus de organdi e sombrinhas de seda. Agora a única mulher possível, até onde a vista alcançava, era uma vendedora de flores no embarcadouro deserto. Ele custava a crer que o tempo tivesse podido fazer semelhantes estragos não apenas em sua vida, mas no mundo. Era um desconhecido a mais na cidade de desconhecidos ilustres. Estava de terno azul-escuro com listras brancas, colete de brocado e o chapéu duro dos magistrados aposentados. Tinha um bigode altivo de mosqueteiro, o cabelo azulado e abundante com ondulações românticas, as mãos de harpista com a aliança de viúvo no anular esquerdo, os olhos alegres. A única coisa que delatava o estado de sua saúde era o cansaço da pele. E ainda assim, aos 73 anos, continuava sendo de uma elegância clássica. Naquela manhã, no entanto, sentia-se a salvo de toda vaidade. Os anos de glória e poder haviam ficado para trás sem remédio, e agora só permaneciam os da morte.
Havia voltado a Genebra depois de duas guerras mundiais, em busca de uma resposta terminante para uma dor que os médicos da Martinica não conseguiram identificar. Havia previsto não mais do que quinze dias, mas já haviam-se passado seis semanas de exames extenuantes e resultados incertos, e ainda não se vislumbrava o final. Buscavam a dor no fígado, nos rins, no pâncreas, na próstata, onde menos estava. Isso, até aquela quinta-feira indesejável, na qual o médico menos notório dos muitos que o haviam visto chamou-o às nove da manhã no pavilhão de neurologia.
O escritório parecia uma cela de monges, e o médico era pequeno e lúgubre, e tinha a mão direita engessada por causa de uma fratura no polegar. Quando apagou a luz, apareceu na tela a radiografia iluminada de uma espinha dorsal que ele não reconheceu como sua até que o médico apontou com uma varinha, debaixo de sua cintura, a união de duas vértebras.
– Sua dor está aqui – disse a ele.
Para ele, não era tão fácil. Sua dor era improvável e escorregadia, e às vezes parecia estar nas costelas direitas e às vezes no baixo-ventre, e muitas vezes o surpreendia com uma agulhada instantânea na virilha. O médico escutou-o em suspenso e com a varinha imóvel na tela. “Por isso nos despistou durante tanto tempo”, disse. “Mas agora sabemos que está aqui.” Depois colocou o indicador na fronte e precisou:
– Embora, a rigor senhor presidente, sua dor esteja aqui.
Seu estilo clínico era tão dramático que a sentença final pareceu benévola: o presidente tinha que se submeter a uma operação arriscada e inevitável. Perguntou qual era a margem de risco, e o velho doutor envolveu-o numa luz de incerteza.
– Não podemos dizer com segurança – disse.
Até pouco tempo atrás, explicou, os riscos de acidentes fatais eram grandes, e mais ainda os de diferentes paralisias em diversos graus. Mas com os avanços médicos das duas guerras esses temores eram coisas do passado.
– Vá tranqüilo – concluiu. – Prepare bem suas coisas e nos avise. Mas não se esqueça que quanto antes, melhor.
Não era uma boa manhã para digerir essa má notícia, e menos ainda à intempérie. Havia saído muito cedo do hotel, sem abrigo, porque viu um sol radiante pela janela, e havia ido com seus passos contados do Chemin du Beau Soleil, onde estava o hospital, até o refúgio dos namorados furtivos do parque Inglês. Estava ali fazia mais de uma hora, sempre pensando na morte, quando começou o outono. O lago encrespou-se como um oceano embravecido, e um vento de desordem espantou as gaivotas e arrasou com as últimas folhas. O presidente se levantou e, em vez de comprar da florista, arrancou uma margarida dos canteiros públicos e colocou-a na lapela. A florista o surpreendeu.
– Estas flores não são de Deus, senhor – disse, contrariada. – São da prefeitura.
Ele não deu atenção. Afastou-se com passos ligeiros, empunhando a bengala pelo meio, e fazendo-a girar de vez em quando, com um ar um tanto libertino. Na ponte do Mont Blanc estavam, a toda pressa, tirando as bandeiras da Confederação enlouquecidas pela ventania, e o esbelto chafariz coberto de espuma apagou-se antes do tempo. O presidente não reconheceu sua cafeteria de sempre sobre o embarcadouro, porque haviam retirado o toldo verde do terraço e as varandas floridas do verão acabavam de ser fechadas. No salão, os lustres estavam acesos em pleno dia, e o quarteto de cordas tocava um Mozart premonitório. O presidente apanhou no balcão um jornal da pilha reservada aos clientes, pendurou o chapéu e a bengala no cabide, pôs os óculos com armação de ouro para ler na mesa mais afastada, e só então tomou consciência de que havia chegado o outono. Começou a ler pela página internacional, onde encontrava muito de vez em quando alguma notícia das Américas, e continuou lendo de trás para diante até que a garçonete levou sua garrafa diária de água de Evian. Há mais de trinta anos havia renunciado ao hábito do café por imposição de seus médicos. Mas dissera: “Se alguma vez tiver a certeza de que vou morrer, tornarei a tomar café.” Talvez a hora tivesse chegado.
– Traga também um café – pediu num francês perfeito. E explicou, sem reparar no duplo sentido: – À italiana, desses que levantam um morto. Tomou-o sem açúcar, devagar, e depois colocou a xícara de boca para baixo, para que o sedimento do café, após tantos anos, tivesse tempo de escrever seu destino. O sabor recuperado redimiu-o por um instante de seu mau pensamento. Um instante depois, como parte do mesmo sortilégio, sentiu que alguém olhava para ele. Então passou as páginas com um gesto casual, olhou por cima dos óculos, e viu o homem pálido e com a barba por fazer, com um boné esportivo e uma jaqueta de couro com forro de ovelha, que afastou o olhar no mesmo instante para não tropeçar com o dele. Sua cara era familiar. Haviam se cruzado várias vezes no vestíbulo do hospital, havia tornado a vê-lo num dia qualquer numa motoneta pela Promenade du Lac enquanto contemplava os cisnes, mas nunca sentiu-se reconhecido. Não descartou, em todo caso, a possibilidade de ser outra das tantas fantasias persecutórias do exílio.
Terminou o jornal sem pressa, flutuando nos seios suntuosos de Brahms, até que a dor foi mais forte que a analgesia da música. Então olhou o reloginho de ouro que usava pendurado numa corrente no bolso do colete, e tomou as duas pílulas calmantes do meio-dia com o último gole da água de Evian. Antes de tirar os óculos decifrou seu destino no assentamento do café, e sentiu um estremecimento glacial: ali estava a incerteza. Finalmente pagou a conta com uma gorjeta estreita, apanhou o chapéu e a bengala no cabide, e saiu para a rua sem olhar o homem que olhava para ele. Afastou-se com seu andar festivo, beirando os canteiros de flores despedaçadas pelo vento, e acreditou-se liberado do feitiço.
Mas de repente sentiu passos atrás dos seus, deteve-se ao dobrar uma esquina e deu meia-volta. O homem que o seguia teve que parar em seco para não tropeçar com ele, e olhou-o assustado, a menos de dois palmos de seus olhos.
– Senhor presidente – murmurou.
– Diga a quem estiver pagando a você que não tenha ilusões – disse o presidente, sem perder o sorriso ou o encanto da voz. – Minha saúde está perfeita.
– Ninguém melhor que eu para saber disso – disse o homem, humilhado pela carga de dignidade que lhe caiu em cima. – Trabalho no hospital.
A dicção e a cadência, e ainda sua timidez, eram as de um caribenho puro.
– Não me diga que é médico – disse o presidente.
– Quem me dera, senhor – disse o homem. – Sou chofer de ambulância.
– Sinto muito – disse o presidente, convencido de seu erro. – É um trabalho duro.
– Não tanto como o seu, senhor.
Ele olhou-o sem reservas, apoiou-se na bengala com as duas mãos, e perguntou-lhe com um interesse real:
– De onde o senhor é?
– Do Caribe.
– Já percebi – disse o presidente. – Mas de que país?
– Do mesmo que o senhor, presidente – disse o homem, e estendeu-lhe a mão. – Meu nome é Homero Rey.
O presidente interrompeu-o surpreso, sem soltar a sua mão.
– Caramba! – disse. – Que bom nome!
Homero relaxou.
– E tem mais – disse. – Homero Rey de la Casa.
Uma punhalada invernal surpreendeu-os indefesos na metade da rua. O presidente estremeceu até os ossos e compreendeu que não poderia caminhar sem abrigo os dois quarteirões que faltavam até a pensão de pobres onde costumava comer.
– Já almoçou? – perguntou a Homero.
– Não almoço nunca – disse Homero. – Como uma vez só de noite, na minha casa.
– Faça uma exceção hoje – disse com todos os seus encantos à flor da pele. – Eu convido.
Pegou-o pelo braço e levou-o até o restaurante em frente, com o nome dourado no toldo: Le Boeuf Couronné. O interior era estreito e cálido, e não parecia haver nenhum lugar livre. Homero Rey, surpreso por ninguém conhecer o presidente, continuou até o fundo do salão para pedir ajuda.
– É presidente em exercício? – perguntou o dono.
– Não – disse Homero. – Derrubado.
O dono soltou um sorriso de aprovação.
– Para esses – disse – tenho sempre uma mesa especial.
Levou-os a um lugar afastado no fundo do salão, onde podiam falar à vontade. O presidente agradeceu.
– Nem todos reconhecem como o senhor a dignidade do exílio – disse.
A especialidade da casa eram costelas de boi na brasa. O presidente e seu convidado olharam em volta, e viram nas outras mesas os grandes pedaços assados com uma beirada de gordura tenra. “É uma carne magnífica”, murmurou o presidente. “Mas para mim é proibida.” Fixou em Homero um olhar travesso e mudou de tom.
– Na verdade, me proibiram tudo.
– O café também – disse Homero -, e mesmo assim tomou.
– Você notou? – disse o presidente. – Mas hoje foi só uma exceção num dia excepcional.
A exceção daquele dia não foi só o café. Também encomendou uma costela de boi na brasa e uma salada de legumes frescos sem outro tempero além de um jorro de azeite de oliva. Seu convidado pediu a mesma coisa, mais meia garrafa de vinho tinto. Enquanto esperavam a carne, Homero tirou do bolso da jaqueta uma carteira sem dinheiro e com muitos papéis, e mostrou ao presidente uma foto desbotada. Ele se reconheceu em mangas de camisa, com vários quilos a menos e o cabelo e o bigode de um negro intenso, no meio de um tumulto de jovens que haviam se empinado para sobressair. De um só olhar reconheceu o lugar, reconheceu os emblemas de uma campanha eleitoral maçante, reconheceu a data ingrata. “Que barbaridade!” murmurou. “Sempre disse que a gente envelhece mais rápido nos retratos que na vida real”. E devolveu a foto com um gesto de último ato.
– Lembro-me muito bem – disse. – Foi há milhares de anos na arena de galos de briga de San Cristóbal de las Casas.
– É a minha cidade – disse Homero, e apontou a si mesmo no grupo: – Este sou eu.
O presidente reconheceu-o.
– Você era uma criança!
– Quase – disse Homero. – Estive com o senhor em toda a campanha do sul como dirigente das brigadas universitárias.
O presidente antecipou-se à recriminação.
– Eu, é claro, nem ao menos reparava no senhor – disse.
– Ao contrário, era muito gentil conosco disse Homero. – Mas éramos tantos que não é possível que o senhor se lembre.
– E depois?
– Quem melhor que o senhor para saber? – disse Homero. – Depois do golpe militar, o milagre é estarmos nós dois aqui, prontos para comer meio boi. Não foram muitos os que tiveram a mesma sorte.
Nesse momento chegaram os pratos. O presidente pôs o guardanapo no pescoço, como um babador de criança, e não foi insensível à calada surpresa do convidado. “Se não fizer isto perco uma gravata por refeição”, disse. Antes de começar provou o ponto da carne, aprovou-o com um gesto satisfeito, e voltou ao tema.
– O que não entendo – disse – é por que não me procurou antes de maneira aberta, em vez de me seguir feito um sabujo.
Então Homero contou-lhe que o havia reconhecido desde que o viu entrar no hospital por uma porta reservada para casos muito especiais. Era pleno verão, e ele estava com um terno completo de linho branco das Antilhas, com sapatos combinados em branco e negro, a margarida na lapela, e a formosa cabeleira alvoroçada pelo vento. Homero verificou que ele estava sozinho em Genebra, sem a ajuda de ninguém, pois conhecia de cor a cidade onde havia terminado seus estudos de Direito. A direção do hospital, por solicitação sua, tomou as determinações internas para assegurar o sigilo absoluto. Naquela mesma noite, Homero combinou com sua mulher fazer contato com ele. No entanto, o havia seguido por cinco semanas buscando uma ocasião propícia, e talvez não tivesse sido capaz de cumprimentá-lo se ele não o tivesse enfrentado.
– Fico feliz de ter feito isso – disse o presidente -, embora na verdade não me incomode nem um pouco estar sozinho.
– Não é justo.
– Por que? – perguntou-lhe o presidente com sinceridade. – A maior vitória da minha vida foi conseguir que me esqueçam.
– Nós lembramos do senhor mais do que o senhor imagina – disse Homero sem dissimular sua emoção. – É uma alegria vê-lo assim, saudável e jovem.
– No entanto – disse ele sem dramatismo -, tudo indica que morrerei em pouco tempo.
– Suas possibilidades de se recuperar são muito altas – disse Homero.
O presidente deu um salto de surpresa, mas não perdeu a graça.
– Opa! – exclamou. – Será que na bela Suíça foi abolido o sigilo médico?
– Em nenhum hospital do mundo existem segredos para um chofer de ambulância – disse Homero.
– Pois o que sei fiquei sabendo há apenas duas horas e pela boca do único que deveria estar sabendo.
– Seja como for, o senhor não morrerá em vão – disse Homero. – Alguém irá colocá-lo no lugar que lhe corresponde como grande exemplo de dignidade.
O presidente fingiu um assombro cômico.
– Obrigado por me prevenir – disse.
Comia como fazia tudo: devagar e com um grande esmero. Enquanto isso, olhava para Homero direto nos olhos, de maneira que este tinha a impressão de ver o que ele pensava. Após uma longa conversa de evocações nostálgicas, deu um sorriso maligno.
– Havia decidido não me preocupar com o meu cadáver – disse -, mas agora vejo que devo tomar certas precauções de romance policial para que ninguém o encontre.
– Vai ser inútil – brincou Homero. – No hospital não existem mistérios que durem mais que uma hora.
Quando terminaram o café, o presidente leu o fundo de sua xícara, e tornou a estremecer: a mensagem era a mesma. No entanto, sua expressão não se alterou. Pagou a conta em dinheiro, mas antes verificou a soma várias vezes, contou várias vezes o dinheiro com um cuidado excessivo, e deixou uma gorjeta que só mereceu um resmungo do garçom.
– Foi um prazer – concluiu, ao se despedir de Homero. – Não tenho data para a operação, e nem mesmo decidi se vou ou não me operar. Mas se tudo der certo, tornaremos a nos encontrar.
– E por que não antes? – disse Homero. – Lázara, minha mulher, é cozinheira de ricos. Ninguém prepara o arroz com camarões melhor que ela, e gostaríamos de tê-lo em casa uma noite dessas.
– Fui proibido de comer mariscos, mas vou com muito prazer – disse. – É só dizer quando.
– Quinta-feira é meu dia de folga – disse Homero.
– Perfeito – disse o presidente. – Quinta às sete da noite estou em sua casa. Será um prazer.
– Passarei para buscá-lo – disse Homero. – Hotelerie Dames, 14 rue de l’Industrie. Atrás da estação. Certo?
– Certo – disse o presidente, e levantou-se mais encantador que nunca. – Pelo que estou vendo, sabe até o número do meu sapato.
– Claro, senhor – disse Homero, divertido. – Quarenta e um.

O que Homero Rey não contou ao presidente, mas continuou contando durante anos para quem quisesse ouvir, foi que seu propósito inicial não era tão inocente. Como outros choferes de ambulância, tinha acordos com empresas funerárias e companhias de seguro para vender serviços dentro do próprio hospital, sobretudo a pacientes estrangeiros de escassos recursos. Eram lucros mínimos, e além disso era preciso reparti-los com outros empregados que passavam de mão em mão os relatórios secretos sobre os doentes graves. Mas era um bom consolo para um desterrado sem porvir que subsistia a duras penas com sua mulher e seus dois filhos com um salário ridículo.
Lázara Davis, sua mulher, foi mais realista. Era uma mulata fina de San Juan de Puerto Rico, miúda e maciça, da cor do caramelo em repouso e com uns olhos de cadela brava que combinavam muito bem com sua maneira de ser. Haviam se conhecido nos serviços de caridade do hospital, onde ela trabalhava como ajudante de tudo depois que um agiota de seu país, que a havia levado como babá, deixou-a à deriva em Genebra. Haviam se casado pelo ritual católico, embora ela fosse princesa ioruba, e viviam num sala e dois quartos no oitavo andar sem elevador de um edifício de imigrantes africanos. Tinham uma menina de nove anos, Bárbara, e um menino de sete, Lázaro, com alguns indícios menores de retardamento mental. Lázara Davis era inteligente e de mau humor, mas de entranhas ternas. Considerava-se a si mesma como uma Touro pura, e tinha uma fé cega em seus augúrios astrais. No entanto, nunca pôde cumprir o sonho de ganhar a vida como astróloga de milionários. Em compensação, contribuía em casa com recursos ocasionais, e às vezes importantes, preparando jantares para senhoras ricas que se exibiam a seus convidados fazendo crer que eram elas as autoras dos excitantes pratos antilhanos.
Homero, por sua vez, era tímido de solenidade, e não dava para nada além do pouco que fazia, mas Lázara não concebia a vida sem ele pela inocência de seu coração e o calibre da sua arma. Tinham dado certo, mas os anos vinham cada vez mais duros e as crianças residente chegou, haviam começado a bicar suas economias de cinco anos. De maneira que quando Homero Rey o descobriu entre os doentes incógnitos do hospital, mergulharam em ilusões. Não sabiam direito o que iriam pedir, nem com que direito. No primeiro momento haviam pensado em vender-lhe um funeral completo, inclusive a embalsamação e a repatriação. Mas pouco a pouco foram percebendo que a morte não parecia tão iminente quanto a princípio. No dia do almoço já estavam atordoados pelas dúvidas. Na verdade, Homero não tinha sido dirigente das brigadas universitárias, nem nada parecido, e a única vez em que participou da campanha eleitoral foi quando fizeram a foto que haviam encontrado por milagre no murundu do guarda-roupa. Mas seu fervor era verdadeiro. Era verdade também que precisou fugir do país por sua participação de resistência nas ruas contra o golpe militar, embora a única razão para continuar vivendo em Genebra depois de tantos anos fosse a sua pobreza de espírito. Portanto, uma mentira a mais ou a menos não devia ser um obstáculo para ganhar o favor do presidente.
A primeira surpresa de ambos foi que o desterrado ilustre morasse num hotel de quarta categoria no bairro triste de la Grotte, entre imigrantes asiáticos e mariposas da noite, e que comesse sozinho nas pensões de pobres, quando Genebra estava cheia de residências dignas para políticos em desgraça. Homero o havia visto repetir dia após dia os atos daquele dia. Havia acompanhado-o de vista, e às vezes numa distância menos que prudente, em seus passeios noturnos entre os muros lúgubres e os lampiões amarelos da cidade velha. Havia visto o presidente absorto durante horas diante da estátua de Calvino. Havia subido atrás dele passo a passo a escadaria de pedra, sufocado pelo perfume ardente dos jasmins, para contemplar os lentos entardeceres do verão do alto do Bourg-le-Four. Certa noite, viu-o debaixo da primeira garoa, sem abrigo ou guarda-chuva, fazendo fila com os estudantes para um concerto de Rubinstein. “Não sei como não pegou uma pneumonia”, disse depois para a mulher. No sábado anterior, quando o tempo começou a mudar, o havia visto comprando um abrigo de outono com uma gola de falso visom, mas não nas lojas luminosas da rue du Rhône, onde compravam os emires fugitivos, e sim no Mercado de Pulgas.
– Então, não há nada a ser feito! – exclamou Lázara quando Homero contou tudo isso. – É um avarento de merda, capaz de se fazer enterrar pela beneficência na vala comum. Nunca vamos tirar nada dele.
– Vai ver é pobre de verdade – disse Homero -, depois de tantos anos sem emprego.
– Ai, moreno, uma coisa é ser Peixes com ascendente em Peixes e outra coisa é ser idiota – disse Lázara. – Todo mundo sabe que se mandou com o ouro do governo e que é o exilado mais rico da Martinica.
Homero, que era dez anos mais velho, havia crescido impressionado com a notícia de que o presidente estudara em Genebra, trabalhando como pedreiro. Lázara, porém, havia sido criada entre os escândalos da imprensa inimiga, magnificados numa casa de inimigos, onde foi babá desde menina. Portanto, na noite em que Homero chegou sufocado de júbilo porque havia almoçado com o presidente, para ela não foi suficiente o argumento de que havia sido convidado para um restaurante caro. Aborreceu-se com Homero por ele não ter pedido nada do muito que haviam sonhado, de bolsas de estudo para as crianças até um emprego melhor no hospital. Pareceu-lhe uma confirmação de suas suspeitas a decisão de que jogassem o seu cadáver aos urubus em vez de gastar seus francos num enterro digno e numa repatriação gloriosa. Mas a gota que transbordou o copo foi a notícia que Homero reservou para o final, de que havia convidado o presidente para comer arroz de camarões na quinta-feira à noite.
– Só faltava essa – gritou Lázara -, que ele morra aqui, envenenado com camarões de lata, e a gente acabe tendo de enterrá-lo com as economias das crianças.
O que enfim determinou sua conduta foi o peso de sua lealdade conjugal. Teve que pedir emprestados a uma vizinha três jogos de talheres de alpaca e uma saladeira de vidro, e a outra uma cafeteira elétrica, e a outra uma toalha bordada e um jogo chinês para o café. Trocou as cortinas velhas pelas novas, que eles só usavam em dias de festa, e tirou o forro dos móveis. Passou um dia inteiro esfregando o chão, sacudindo o pó, mudando coisas de lugar, até que conseguiu o contrário do que para eles teria sido mais conveniente, que era comover o convidado com o decoro de sua pobreza.
Na quinta-feira à noite, depois que se repôs do sufoco dos oito andares, o presidente apareceu na porta com o novo abrigo velho e o chapéu melão de outro tempo, e com uma única rosa para Lázara. Ela se impressionou com sua formosura viril e suas maneiras de príncipe, mas acima de tudo viu-o como esperava: falso e rapinante. Pareceu-lhe impertinente, porque ela havia cozinhado com todas as janelas abertas para evitar que o vapor dos camarões impregnasse a casa, e a primeira coisa que ele fez ao entrar foi respirar fundo, como num êxtase súbito, e exclamar com os olhos fechados e os braços abertos: “Ah, o cheiro do nosso mar!”. Pareceu-lhe mais avarento que nunca por levar uma única rosa, sem dúvida roubada nos jardins públicos. Pareceu-lhe insolente, pelo desdém com que olhou os recortes de jornais sobre suas glórias presidenciais, e os galhardetes e bandeirolas da campanha, que Homero havia pregado com tanto candor na parede da sala. Achou-o duro de coração, porque nem cumprimentou Bárbara e Lázaro, que tinham feito um presente para ele, e durante o jantar mencionou duas coisas que não conseguia suportar: os cães e as crianças. No entanto, seu sentido caribenho da hospitalidade se impôs sobre seus preconceitos. Havia vestido a túnica africana de suas noites de festa e seus colares e pulseiras de candomblé, e não fez durante o jantar um único gesto nem disse uma palavra de sobra. Foi mais que impecável: perfeita.
Na verdade o arroz de camarões não estava entre as virtudes da sua cozinha, mas foi feito com os melhores desejos, e saiu muito bom. O presidente serviu-se duas vezes sem medir elogios, e encantou-se com as fatias fritas de banana madura e a salada de abacate, embora não tenha compartilhado as nostalgias. Lázara conformou-se com escutar até a sobremesa, quando Homero encalhou sem nenhum motivo no beco sem saída da existência de Deus.
– Eu sim, acredito que existe – disse o presidente -, mas não tem nada a ver com os seres humanos. Cuida de coisas muito maiores.
– Eu só acredito nos astros – disse Lázara, e sondou a reação do presidente. – Que dia o senhor nasceu?
– Onze de março.
– Tinha que ser – disse Lázara, com um sobressalto triunfal, e perguntou com bons modos: – Não é demais dois Peixes numa mesma mesa?
Os homens continuavam falando de Deus quando ela foi para a cozinha preparar o café. Havia recolhido os pratos e travessas e ansiava no fundo da alma que a noite acabasse bem. De regresso à sala com o café, deu de encontro com uma frase solta pelo presidente e que a deixou atônita:
– Não tenha dúvida, meu querido amigo: a pior coisa que aconteceu a nosso pobre país é que eu tenha sido presidente.
Homero viu Lázara na porta com as xícaras chinesas e a cafeteira emprestada, e achou que ela ia desmaiar. Também o presidente reparou nela. “Não me olhe assim, senhora”, disse de modo afável. “Estou falando com o coração.” E depois, voltando-se para Homero, terminou:
– Pelo menos estou pagando caro pela minha insensatez.
Lázara serviu o café, apagou o lustre que estava bem em cima da mesa e cuja luz inclemente estorvava a conversa, e a sala ficou numa penumbra íntima. Pela primeira vez se interessou pelo convidado, cuja graça não conseguia dissimular sua tristeza. A curiosidade de Lázara aumentou quando ele terminou o café e virou a xícara de boca para baixo para que a borra repousasse.
O presidente contou a eles, depois da sobremesa, que havia escolhido a ilha de Martinica para seu desterro, pela amizade com o poeta Aimé Césaire, que naquela época acabava de publicar seu Cahier d’un retour au pays natal, e prestou-lhe ajuda para começar uma nova vida. Com o que lhes restava da herança da esposa compraram uma casa de madeiras nobres nas colinas de Fort de France, com telas de arame nas janelas e uma varanda de mar cheia de flores primitivas, onde era um gozo dormir com o alvoroço dos grilos e a brisa de melado e rum de cana dos trapiches. Ficou ali com a esposa, catorze anos mais velha que ele e doente desde seu parto único, entrincheirado contra o destino na releitura viciosa de seus clássicos latinos, em latim, e com a convicção de que aquele era o ato final de sua vida. Durante anos precisou resistir às tentações de todo tipo de aventura que seus partidários derrotados lhe propunham.
– Mas nunca tornei a abrir uma carta – disse. – Nunca, desde que descobri que até as mais urgentes eram menos urgentes uma semana depois, e que dois meses depois não se lembrava delas nem mesmo quem as havia escrito.
Olhou para Lázara à meia-luz quando ela acendeu um cigarro, e tirou-o da mulher com um movimento ávido dos dedos. Deu uma tragada profunda, e reteve a fumaça na garganta. Lázara, surpreendida, apanhou o maço e os fósforos para acender outro, mas ele devolveu-lhe o cigarro aceso. “A senhora fuma com tanto gosto que não pude resistir à tentação”, disse ele. Mas teve que soltar a fumaça porque sofreu um princípio de tosse.
– Abandonei o vício há muitos anos, mas ele não me abandonou – disse. – Algumas vezes, consegue me vencer. Como agora.
A tosse deu-lhe duas outras sacudidas. A dor voltou. O presidente olhou as horas no reloginho de bolso, e tomou as duas pílulas da noite. Depois, sondou o fundo da xícara: nada havia mudado, mas daquela vez não estremeceu.
– Alguns de meus antigos partidários foram presidentes depois de mim – disse.
– Sáyago – disse Homero.
– Sáyago e outros – disse ele. – Todos como eu: usurpando uma honra que não merecíamos com um ofício que não sabíamos fazer. Alguns perseguem só o poder, mas a maioria busca ainda menos que isso: o emprego.
Lázara se encrespou.
– O senhor sabe o que dizem do senhor? – perguntou.
Homero, alarmado, interveio:
– Tudo mentira.
– Tem mentira e não tem – disse o presidente com uma calma celestial. – Tratando-se de um presidente, as piores ignomínias podem ser as duas coisas ao mesmo tempo: verdade e mentira.
Havia vivido na Martinica todos os dias do exílio, sem outro contato com o exterior que as poucas notícias do jornal oficial, sustentando-se com as aulas de espanhol e latim num liceu oficial e com as traduções que às vezes Aimé Césaire encomendava.
O calor era insuportável em agosto, e ele ficava na rede até o meio-dia, lendo ao arrulho do ventilador no teto do dormitório. Sua mulher cuidava dos pássaros que criava soltos, mesmo nas horas de mais calor, protegendo-se do sol com um chapéu de palha de abas grandes, adornado de morangos artificiais e flores de organdi. Mas quando o calor diminuía era bom tomar a fresca na varanda, ele com a vista fixa no mar até que chegavam as trevas, e ela em sua cadeira de balanço de vime, com o chapéu de aba quebrada e as bijuterias em todos os dedos, vendo passar os navios do mundo. “Esse vai para Puerto Santo”, dizia ela. “Esse quase nem pode andar com a carga de banana-ouro de Puerto Santo”, dizia. Pois achava impossível que passasse um barco que não fosse de sua terra. Ele bancava o surdo, embora no fim ela tenha conseguido esquecer melhor que ele, porque ficou sem memória. Permaneciam assim até que terminavam os crepúsculos fragorosos, e tinham que se refugiar na casa derrotados pelos mosquitos. Num daqueles tantos agostos, enquanto lia o jornal na varanda, o presidente deu um salto de assombro.
– Porra! – disse. – Morri no Estoril!
Sua esposa, levitando no torpor, espantou-se com a notícia. Eram seis linhas na quinta página do jornal que era impresso na virada da esquina, onde publicavam suas traduções ocasionais, e cujo diretor passava para visitá-lo de vez em quando. E agora dizia que tinha morrido no Estoril de Lisboa, balneário e abrigo da decadência européia, onde nunca havia estado, e talvez o único lugar do mundo onde não teria querido morrer. A esposa morreu de verdade um ano depois, atormentada pela última lembrança que lhe restava para aquele instante: a do filho único, que havia participado na derrubada do pai, e foi fuzilado mais tarde por seus próprios cúmplices.
O presidente suspirou. “Somos assim, e nada poderá redimir-nos”, disse. “Um continente concebido pela merda do mundo inteiro sem um instante de amor: filhos de raptos, violações, de tratos infames, de enganos, de inimigos com inimigos.” Enfrentou os olhos africanos de Lázara, que o examinavam sem piedade, e tentou amansá-la com sua lábia de velho professor.
– A palavra mestiçagem significa misturar as lágrimas com o sangue que corre. O que se pode esperar de semelhante beberagem?
Lázara cravou-o em seu lugar com um silêncio de morte. Mas conseguiu superar-se, pouco antes da meia-noite, e despediu-se dele com um beijo formal. O presidente se opôs a que Homero o acompanhasse ao hotel, mas não pôde impedir que o ajudasse a conseguir um táxi. De volta para casa, Homero encontrou a mulher desfeita em fúria.
– Esse é o presidente mais bem derrubado do mundo – disse ela. – Um tremendo filho da puta.
Apesar dos esforços que Homero fez para tranqüilizá-la, passaram em claro uma noite terrível. Lazara reconhecia que era um dos homens mais belos que havia visto, com um poder de sedução devastador e uma virilidade de reprodutor. “Do jeito que está, velho e fodido, ainda deve ser um tigre na cama”, disse. Mas achava que havia desperdiçado esses dons de Deus a serviço do fingimento. Não podia suportar seus alardes por ter sido o pior presidente de seu país. Nem seu jeito de asceta, pois estava convencida de que era dono de metade das usinas de açúcar da Martinica. Nem a hipocrisia de seu desdém pelo poder, se era evidente que daria tudo para voltar nem que fosse por um minuto à presidência para mandar seus inimigos comer pó.
– E tudo isso – concluiu – só para nos ter rendidos aos seus pés.
– O que ele pode ganhar com isso? – perguntou Homero.
– Nada – disse ela. – Acontece que a vaidade é um vício que não se sacia com nada.
Era tanta a sua fúria que Homero não conseguiu agüentá-la na cama, e foi terminar a noite enrolado num cobertor no divã da sala. Lazara levantou-se também de madrugada, nua de corpo inteiro, como costumava dormir e ficar em casa, e falando sozinha num monólogo de uma corda só. Num instante apagou da memória da humanidade qualquer rastro do jantar indesejável. Devolveu ao amanhecer as coisas emprestadas, mudou as cortinas novas pelas velhas e pôs os móveis em seu lugar, até que a casa voltou a ser tão pobre e decente como havia sido até a noite anterior. Finalmente arrancou os recortes de jornal, os retratos, as bandeirolas e galhardetes da campanha abominável, e jogou tudo na lata de lixo com um grito final.
– Vai pro caralho!
Uma semana depois do jantar, Homero encontrou o presidente esperando por ele na saída do hospital, com a súplica de que o acompanhasse até seu hotel. Subiram os três andares empinados até uma água-furtada com uma única clarabóia que dava para um céu de cinzas, e atravessada por uma corda com roupa para secar. Havia além disso uma cama de casal que ocupava a metade do espaço, uma cadeira simples, uma bacia e um bidê portátil, e um guarda-roupa de pobre com um espelho nublado. O presidente reparou na impressão de Homero.
– É o mesmo cubículo onde vivi meus anos de estudante – disse, como que se desculpando. – Reservei-o de Fort de France.
Tirou de um pequeno saco de veludo e espalhou sobre a cama o saldo final de seus recursos: várias pulseiras de ouro com diferentes adornos de pedras preciosas, um colar de pérolas de três voltas e outros dois de ouro e pedras preciosas; três correntes de ouro com medalhas de santos e um par de brincos de ouro com esmeraldas, outro com diamantes e outro com rubis; três relicários, onze anéis com todo tipo de pedras preciosas e um diadema de brilhantes que podia ter sido de uma rainha. Depois tirou de um estojo diferente três pares de abotoaduras de prata e duas de ouro com seus correspondentes prendedores de gravata, e um relógio de bolso folheado em ouro branco. Finalmente tirou de uma caixa de sapatos suas seis condecorações: duas de ouro, uma de prata, e o resto de pura sucata.
– É tudo o que me resta na vida – disse.
Não tinha outra alternativa a não ser vender tudo para completar os gastos médicos, e desejava que Homero fizesse o favor com o maior sigilo. No entanto, Homero não se sentiu capaz de ajudá-lo se não tivesse as notas fiscais em regra. O presidente lhe explicou que eram prendas de sua esposa herdadas de uma avó colonial que por sua vez havia herdado um pacote de ações de minas de ouro da Colômbia. O relógio, as abotoaduras e os prendedores de gravata eram dele. As condecorações, claro, não tinham sido de ninguém antes.
– Não acredito que alguém tenha notas fiscais de coisas como essas – disse.
Homero foi inflexível.
– Nesse caso – refletiu o presidente -, não tenho outro remédio a não ser mostrar minha cara.
Começou a recolher as jóias com uma calma calculada. “Peço que me perdoe, meu querido Homero, mas é que não há pior pobreza que a de um presidente pobre”, disse. “Até sobreviver parece indigno.”
Nesse instante, Homero viu-o com o coração, e se rendeu.
Naquela noite, Lázara voltou tarde para casa. Da porta viu as jóias radiantes debaixo da luz de mercúrio da sala, e foi como se tivesse visto um escorpião em sua cama.
– Não seja imbecil, moreno – disse assustada. – O que estas coisas estão fazendo aqui?
A explicação de Homero deixou-a ainda mais inquieta. Sentou-se para examinar as jóias, uma por uma, com uma meticulosidade de ourives. Num certo momento suspirou: “Deve valer uma fortuna.” No final, ficou olhando Homero sem encontrar uma saída para seu ofuscamento. – Caralho – disse. – Como é que a gente faz para saber se o que esse homem falou é verdade?
– E por que não? – disse Homero. – Acabo de ver que ele mesmo lava sua roupa, e a seca no quarto igualzinho a nós, pendurada num arame.
– Porque é avarento – disse Lázara. – Ou porque é pobre – disse Homero.
Lázara tornou a examinar as jóias, mas agora com menos atenção, porque ela também estava vencida.
Assim, na manhã seguinte vestiu-se com o que tinha de melhor, enfeitou-se com as jóias que lhe pareceram as mais caras, pôs quantos anéis pôde em cada dedo, até no polegar, e quantas pulseiras conseguiu em cada braço, e foi vendê-las. “Vamos ver quem pede nota fiscal a Lázara Davis”, disse ao sair, empavonando-se de riso. Escolheu a joalheria exata, com mais ares de prestígio, onde sabia que vendia-se e comprava-se sem muitas perguntas, e entrou apavorada mas pisando firme.
Um vendedor vestido a rigor, enxuto e pálido, fez para ela uma vênia teatral ao beijar sua mão, e colocou-se às suas ordens. O interior era mais claro que o dia, pelos espelhos e as luzes intensas, e a loja inteira parecia um diamante. Lázara, olhando pouco para o funcionário com temor que ele percebesse a farsa, continuou até o fundo. O funcionário convidou-a a sentar-se diante de uma das três escrivaninhas Luis XV que serviam de vitrines individuais, e estendeu em cima um lenço imaculado. Depois sentou-se na frente de Lázara e esperou.
– Em que posso servi-la?
Ela tirou os anéis, as pulseiras, os colares, os brincos, tudo que estava à vista, e foi colocando sobre a escrivaninha numa ordem de tabuleiro de xadrez. A única coisa que queria, disse, era conhecer seu verdadeiro valor.
O joalheiro pôs o monóculo no olho esquerdo, e começou a examinar as jóias com um silêncio clínico. Após um longo tempo, sem interromper o exame, perguntou:
– De onde a senhora é?
Lázara não havia previsto esta pergunta.
– Ai, meu senhor – suspirou. – De muito longe.
– Imagino – disse ele.
Voltou ao silêncio, enquanto Lázara examinava-o sem misericórdia com seus terríveis olhos de ouro. O joalheiro consagrou uma atenção especial ao diadema de diamantes, e colocou-o separado das outras jóias. Lázara suspirou.
– O senhor é um Virgem perfeito – disse.
O joalheiro não interrompeu o exame.
– Como sabe?
– Pelo seu modo de ser – disse Lázara.
Ele não fez nenhum comentário até que terminou, e dirigiu-se a ela com a mesma parcimônia do princípio.
– De onde vem tudo isso?
– Herança da minha avó – disse Lázara com voz tensa. – Morreu o ano passado em Paramaribo, aos noventa e sete anos.
O joalheiro olhou-a então nos olhos. “Sinto muito”, disse. “Mas o único valor destas coisas é o peso do ouro.” Pegou o diadema com a ponta dos dedos e fez com que brilhasse debaixo da luz deslumbrante.
– Menos esta – disse. – É muito antiga, egípcia talvez, e teria um valor incalculável se não fosse pelo estado dos brilhantes. Mas de todo modo, tem um certo valor histórico.
Em troca, as pedras das outras jóias, as ametistas, as esmeraldas, os rubis, os opalas, todas, sem exceção, eram falsas. “Sem dúvida, as originais foram boas”, disse o joalheiro, enquanto recolhia as peças para devolvê-las. “Mas de tanto passar de uma geração a outra as pedras legítimas foram ficando no caminho, substituídas por cacos de garrafa.” Lazara sentiu uma náusea verde, respirou fundo e dominou o pânico. O vendedor a consolou:
– É comum acontecer, senhora.
– Já sei – disse Lázara, aliviada. – Por isso quero me livrar delas.
Então sentiu que estava além da farsa, e tornou a ser ela mesma. Sem mais rodeios tirou da bolsa as abotoaduras, o relógio de bolso, os prendedores de gravata, as condecorações de ouro e prata, e o resto das jóias pessoais do presidente, e pôs tudo em cima da mesa.
– Isto também? – perguntou o joalheiro.
– Tudo – disse Lázara.
Os francos suíços com que lhe pagaram eram tão novos que teve medo de manchar os dedos com a tinta fresca. Recebeu-os sem contar, e o joalheiro despediu-se na porta com a mesma cerimônia da recepção.
Já de saída, segurando a porta de vidro para ela, atrasou-a um instante.
– Uma última coisa, senhora – disse -, sou Aquário.
No começo da noite Homero e Lázara levaram o dinheiro ao hotel. Feitas todas as contas, faltava um pouco. De maneira que o presidente tirou e foi pondo sobre a cama a aliança de casamento, o relógio com a corrente e as abotoaduras e o prendedor de gravatas que estava usando.
Lázara devolveu-lhe a aliança.
– Isto não – disse. – Uma lembrança destas não se pode vender.
O presidente admitiu e tornou a pôr a aliança. Lázara devolveu-lhe também o relógio do colete. “Isto também não”, disse. O presidente não concordou mas ela o colocou em seu lugar.
– Quem pode querer vender relógios na Suíça?
– Já vendemos um – disse o presidente.
– Sim, mas não porque era relógio, porque era de ouro.
– Este também é de ouro – disse o presidente.
– Sim – disse Lázara. – Só que o senhor pode até ficar sem se operar, mas não pode ficar sem saber as horas.
Tampouco aceitou a armação de ouro dos óculos, embora ele tivesse outro par com armação de tartaruga. Calculou na mão o peso das jóias, e pôs um fim às dúvidas.
– Além do mais – disse – isto basta.
Antes de sair, tirou da corda a roupa molhada, sem consultá-lo, e levou-a para secar e passar em casa. Foram embora na motoneta, Homero conduzindo, e Lázara na garupa, abraçada à sua cintura. As luzes dos postes acabavam de ser acesas na tarde malva. O vento havia arrancado as últimas folhas, e as árvores pareciam fósseis depenados. Um rebocador descia pelo Ródano com um rádio a todo volume que ia deixando pelas ruas uma trilha de música. Georges Brassens cantava: Mon amour tiens bien la barre, le temps va passer par lã, et le temps est una barbare dans le genre d’A ttila, par lã oà son cheval passe Pamour ne repousse pas. Homero e Lázara corriam em silêncio embriagados pela canção e o cheiro memorável dos jacintos. Após um tempinho, ela pareceu despertar de um longo sonho.
– Caralho! – disse.
– O que?
– Coitado do velho! – disse Lázara. – Que vida de merda!
Na sexta-feira seguinte, 7 de outubro, o presidente foi operado numa sessão de cinco horas que num primeiro momento deixou as coisas tão obscuras como estavam. A rigor, o único consolo era saber que estava vivo. Depois de dez dias, foi levado para um quarto com outros doentes, e puderam visitá-lo. Era outro: desorientado e macilento, e com um cabelo ralo que se soltava com o puro roçar do travesseiro. De sua antiga altivez só lhe restava a fluidez das mãos. Sua primeira tentativa de caminhar com duas bengalas ortopédicas foi desalentadora. Lázara ficava para dormir ao seu lado para economizar o custo de uma enfermeira noturna. Um dos doentes do quarto passou a primeira noite gritando com pânico da morte. Aquelas vigílias intermináveis acabaram com as últimas resistências de Lázara. Quatro meses depois de ter chegado a Genebra, teve alta. Homero, administrador meticuloso de seus fundos exíguos, pagou as contas do hospital e levou-o em sua ambulância com outros empregados que ajudaram a subi-lo até o oitavo andar. Instalou-se no quarto das crianças, que nunca reconheceu, e pouco a pouco voltou à realidade. Empenhou-se nos exercícios de reabilitação com um rigor militar, e voltou a caminhar com sua bengala solitária. Mas mesmo vestido com a boa roupa de antes estava muito longe de ser o mesmo, tanto por seu aspecto quanto por sua maneira de ser.
Temeroso do inverno que se anunciava muito severo, e que na realidade foi o mais cruel do século até aquela altura, decidiu regressar num barco que zarpava de Marselha no dia 13 de dezembro, contra a opinião dos médicos que queriam vigiá-lo um pouco mais. Na última hora o dinheiro não deu para tudo, e Lázara quis completá-lo escondida de seu marido com um arranhão a mais nas economias das crianças, mas também ali encontrou menos do que esperava. Então Homero confessou que havia pegado escondido dela para completar a conta do hospital.
– Bem – resignou-se Lázara. – Digamos que era o filho mais velho.
No dia 11 de dezembro foi embarcado no trem de Marselha debaixo de uma forte tormenta de neve, e só quando voltaram para casa encontraram uma carta de despedida no criado-mudo das crianças. Deixou lá sua aliança para Bárbara, junto com a da esposa morta, que jamais tentou vender, e o relógio de corrente para Lázaro.
Como era domingo, alguns vizinhos caribenhos que descobriram o segredo haviam acudido à estação de Cornavin com um conjunto de harpas de Veracruz. O presidente estava sem fôlego, com o abrigo de perdulário e um longo cachecol colorido que tinha sido de Lázara, mas ainda assim permaneceu na boléia do último vagão acenando com o chapéu debaixo do açoite do vendaval.
O trem começava a acelerar quando Homero percebeu que tinha ficado com a bengala. Correu até o extremo da plataforma e lançou-a com bastante força para que o presidente a agarrasse no ar, mas ela caiu entre as rodas e foi destroçada. Foi um instante de terror. A última coisa que Lázara viu foi a mão trêmula esticada para agarrar a bengala que nunca alcançou, e o guarda do trem que conseguiu agarrar pelo cachecol o ancião coberto de neve, e salvou-o no vazio. Lázara correu apavorada ao encontro do marido tentando rir entre as lágrimas.
– Deus meu – gritou para ele -, esse homem não morre de jeito nenhum.
Chegou são e salvo, conforme anunciou em seu extenso telegrama de gratidão. Não se voltou a saber nada dele durante mais de um ano. Por fim chegou uma carta de seis folhas manuscritas na qual já era impossível reconhecê-lo. A dor havia voltado, tão intensa e pontual como antes, mas ele decidiu não dar importância e dedicar-se a viver a vida do jeito que fosse. O poeta Aimé Césaire tinha lhe dado outra bengala com incrustações de nácar, mas estava decidido a não usá-la. Fazia seis meses que comia carne com regularidade, e todo tipo de mariscos, e era capaz de beber até vinte xícaras diárias de café da montanha. Mas já não lia o fundo da xícara porque seus prognósticos saíam ao contrário. No dia em que fez setenta e cinco anos havia tomado uns cálices pequenos do esplêndido rum da Martinica, que caíram muito bem, e voltou a fumar. Não se sentia melhor, é claro, nem pior. No entanto, o motivo real da carta era para comunicar-lhes que se sentia tentado a voltar ao seu país para colocar-se à frente de um movimento renovador, por uma causa justa e uma pátria digna, nem que fosse apenas pela glória mesquinha de não morrer de velhice na própria cama. Neste sentido, concluía a carta, a viagem para Genebra tinha sido providencial.

Junho de 1979.

Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source.

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  1. julho 30, 2014 às 9:23 am

    Bem o conto é muito grande por isso que não chega a ser muito chamativo ou até mesmo compreensível mais em fim,é muito bom pelo simples fato que fala de morte o que pelo menos chamou a minha atenção.

  1. maio 13, 2014 às 2:16 pm
  2. outubro 4, 2014 às 9:36 am

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