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À Hetaira (Machado de Assis)

12 de Março de 1867.

Se a opinião domina os costumes políti­cos, a senhora domina os costumes sociais. É rainha por graça do diabo e unânime aclamação da vaidade humana. Governa sem oposição nem contraste; manda o que quer, como quer, quando quer. Tem cavalos para pisar o filósofo pedestre; tem sedas para afrontar a honestidade desvalida. O número dos seus ministros é infinito; a dedicação deles não tem rival nem nos cortesãos da for­tuna. Quando a senhora os quer aumentar conquista-os aos milhares sem a lança de Alexandre nem a espada de Frederico Magno; conquista-os com o olhar, com o pé, com uma palavra alegre, e às vezes menos que tudo isso, com a simples presença da sua pessoa e dos seus arrebiques. A Vênus de Homero denunciava-se apenas pelo andar; a senhora tem a mesma qualidade divina: basta aparecer para revelar-se quem é. E reconheço que não é por falta de esforços seus, por quanto a comparar somente o vestuário, é difícil dis­tinguir hoje uma mulher pública de uma mu­lher honesta. Parece que a senhora tem por timbre imitar a virtude, ao menos por esse lado, e sacrificar à moda as suas pretensões exclusivistas. O que a distingue, porém, é um certoquid”, um ar especial, um tom indígena, que só possui quem foi criada nas terras de Vênus impudica. Nisso é impossível imitá-la.

De ordinário, a senhora tem dois nomes, um recebido na pia, outro que lhe dá o pú­blico: batiza-se por Luíza, Maria ou Mar­garida, e toma o pseudônimo de Nicota, Olhos Verdes, Flor da Noite, e outros menos poéticos. Nasce em qualquer bairro da cidade; cresce, aformoseia-se, abre as suas graças, corrige-as, desenvolve-as, até abrir ten­da bem provida e adornada, aonde convida os passantes para a mercancia do amor.

É provável que a senhora desconheça a designação que lhe dei no cabeçalho desta carta. Hetaira é uma palavra grega que desi­gna as mulheres da sua profissão. A senhora não tem obrigação de saber grego, nem la­tim; ninguém lhe pede mesmo que saiba a sua língua, que nada vale ao pé de uma das línguas universais, como o dinheiro, que a senhora conhece profundamente, como a mú­sica, de que às vezes conhece apenas a gramática, e já é demais. Mas não se iluda com a naturalização helênica, se acaso acre­dita em mim. As hetairas de Atenas eram coisa diversa das de hoje. Primeiramente, a índole do amor pagão, se não estava ainda reabilitada pelo espírito cristão, não havia também assumido o caráter puramente mer­cantil deste tempo. Era uma espécie de vo­luptuosidade misturada ao amor da plástica e à adoração da forma. Os gregos não esque­ciam nunca que a sua Vênus nascera das es­pumas da água marinha para ir direitinho ao Olimpo dos outros deuses. Demais, como a senhora vai saber, algumas das suas colegas da antiguidade recebiam em sua casa, em palestra animada, os primeiros homens da república, os chefes políticos, os generais, os filosóficos. O sábio Sócrates, que a senhora mandaria hoje expelir por dois lacaios, não se pejava de penetrar nesses santuários de Vênus, e conversar com a sacerdotisa, aconse­lhá-la mesmo; e de uma delas, não se envergonha de confessá-lo, aprendeu ele tudo que sabia acerca do amor. Avalie a diferença enorme que vai de um tempo a outro. Da antiga cortesã a senhora apenas herdou a fome de ouro, aura fames, porque ela também amava o precioso metal; mas o resto desvaneceu-se ao sopro dos tempos.

Alegará a senhora que também imita as damas de Atenas em franquear as suas portas aos generais e aos políticos, e não sei se aos filósofos também. Acredito que sim, mas franqueia-as aos outros políticos e generais que eles trazem nas algibeiras, aos bilhetes do tesouro, às libras esterlinas, aos soberanos, aos thalers, aos contos de réis que a senhora prefere aos contos de Perrault ou aos da carochinha. Na velha Atenas as hetairas formavam, por assim dizer, a socie­dade; eram um centro natural, onde se tra­tava de tudo; da última comédia de Aristófanes, da recente resolução de Cleon, de uma vitória na Ásia, de um cometa, de uma novidade filosófica, tudo isso de envolta com as coisas do amor.

Poupo-lhe uma investigação através dos tempos, e dispense-me de escrever-lhe a ge­nealogia. Importa-nos pouco saber que transformação sofreu o tipo que a senhora re­presenta. Resta-nos aceitá-la como hoje é, definir a sua incontestável realeza no domínio dos costumes. Para contentar a sua vai­dade e a dos seus numerosos vassalos, não pre­cisa mais.

Mas a singularidade da sua realeza está em que todos, mesmo aqueles que nunca foram seus vassalos confessados, os mais se­veros, os mais Catões, não deixam de tribu­tar-lhe embora indiretamente uma homena­gem desonrosa. Olhe o que acaba de acon­tecer na capital da França, donde imitamos tudo. Ali estreou a senhora, no mês passa­do, num teatro de Bufos, com o nome de Cora Pearl, nome célebre nos anais de Pa­fos. Cora Pearl é uma Vênus eqüestre que, segundo dizem os que de lá vêm, reina sem contraste no bosque de Bolonha, onde não passam melhores cavalos nem rodam mais elegantes faetons que os dela. É uma ver­dadeira rainha das Amazonas, com um seio de mais e a consciência de menos. Os jornais chamam-lhe centaureza.

Pois estreou a senhora debaixo daquele nome: lembrou-se de ter talento para a ce­na. Para ir admirar os alexandrinos de Corneille ou a prosa lírica de V. Hugo, na boca dos consumados atores da Comédia Francesa, paga-se o preço comum; para ouvi-la a coisa foi diversa: os camarotes orçaram por cem mil réis, as cadeiras por cinqüenta. E que auditório! Os príncipes, os marqueses, os embaixadores, um filho de Murat, um descendente de Turenne, um primo de Bona­parte, um paxá, todas as religiões, todas as famílias.

Se amanhã, a senhora, cansada mas não saciada de trunfos, se lembrar de ter um aqui no nosso Rio de Janeiro, nesta capital que é sua pelo dom de ubiqüidade que a se­nhora partilha com a opinião publica, há de tê-lo, se não tão luzido como lá, onde há mais gente, ao menos quanto basta para provar que a realeza do mundo atual lhe pertence e que a espada dos generais e o gabinete dos estadistas valem menos que o seu braço tor­neado e a sua perfumada alcova.

Se valem! A senhora tem. a seu favor uma arma poderosa, entre outras, que é o luxo; a senhora vingou-se; teve o seu 89, o seu 22, e, mais feliz que  Tiradentes, não morreu no cadafalso, subiu ao Capitólio, on­de é coroada de brilhantes e pérolas, e até pelas musas que lhe fazem versos e comédias. Os dominadores é que passaram a ser trastes de luxo, e a senhora domina-os, move-os, eleva-os, abate-os, como se foram uns títeres, ao simples capricho da sua vontade. O luxo firma o seu trono; essa peste, que veio da Ásia para acabar com os restos da severida­de romana, é a condição essencial do ponti­ficado que a senhora exerce na igreja do dia­bo, que Santo Agostinho diz imitar a igreja de Deus — e eu peço licença para desmentir o padre ao menos neste assunto.

Quando a senhora passa pelas ruas, de carro ou a pé; quando vai aos teatros, on­de aparece sempre às nove horas, como um entreato inesperado, todos os olhos, todas as atenções, os velhos, os moços, as damas, vol­ta-se tudo para a senhora, quer se chame Fúlvia, Metela ou Otávia. Não é um triunfo isto? Mas ao lado desse, há outro triunfo tão grande e tão singular: é o triunfo pecuniário do autor de tantas obras. Triunfo pede triunfo. Nasce a emulação. A senhora é bela; mas as suas jóias são ricas; possuí-la quer dizer enriquecê-la mais. Es­tabelece-se uma almoeda entre duas consciências — perdão — entre duas algibeiras. Duas? três, quatro, seis. Dentro de um quarto de hora conta a senhora meia dúzia de rivais, boas mães de família, que a essa hora se ocupam talvez em pôr o seio túrgido e casto en­tre os lábios de uma criança, fruto de esque­cidos amores. Que quer? Há em todos os homens um pouco de Narciso; a senhora que é um espelho, está destinada a refletir-lhes o orgulho de possuir. A esposa é apenas uma casaca, traje comum; a hetaira é uma far­da agaloada de ouro.

Agora, as conseqüências. Com esta rea­leza, que ninguém contesta, raros criticam e a maioria aplaude, que é reconhecida e man­tida em todas as latitudes e em todas as línguas, faz a senhora duas funestas destrui­ções: abate a velhice e corrompe a mocida­de; faz da mocidade uma velhice sem vene­ração; faz da velhice uma mocidade sem no­breza. Os arrojos da juventude, as ilusões, os cantos e os sorrisos próprios da alvorada da vida, acaso os tem a falange de velhos prematuros, que contam vinte anos pelo calendário e cinqüenta pela fadiga? E a co­roa da velhice, que é uma coisa augusta, as santas cãs, que a aproximação do túmulo vai transformando em monumento, acaso as encontramos nos anciãos refeitos que enco­brem os setenta anos do calendário com uma primavera artificial e ruidosa? Pois tudo isto é obra da hetaira moderna, e como conseqüência disso, o desprendimento dos laços da família, o abatimento dos costumes, a trans­formação das sociedades despojadas do ideal, que é o farol do futuro, e da tradição que é o do passado.

A senhora há de dizer consigo que eu, valendo menos que Sócrates, sou mais desa­piedado que ele, pois o filósofo não es­crevia destas coisas às suas elegantes contemporâneas. É verdade. Mas todos os ho­mens têm um defeito ao menos; a indulgência de Sócrates e a minha austeridade são o nosso calcanhar de Aquiles. Não me suponha um profeta carrancudo derramando lá­grimas inúteis pelas desgraças de Sião. É certo que já pendurei nos ramos dos salguei­ros a harpa das minhas mais caras ilusões, mas ainda me resta um pouco de fé, assaz robusta, para levantar-me a cabeça e os olhos para Deus. E por falar em Deus, faço-lhe um pedido: é que não procure o caminho da igreja senão quando tiver esquecido o cami­nho do erro. Nesta época de penitência tenho-a visto, desde que me entendo (há vinte anos) trajar de preto e ir ouvir na casa de Deus a palavra do sacerdote. É bom, é necessário, quando se rompe com o passado. Mas transformar a nave sagrada em campo de Fársalia para os incautos Pompeus que lá vão, perdoe-me a senhora, é escrever a ulti­ma palavra do catecismo do mal. Para en­trar na casa de Deus não basta um vestido preto; é preciso uma alma nova, isto é, uma intenção pura. Dirá a senhora que a regra vale para outros pecadores igualmente reincidentes. Tem razão; mais razão terá se disser que esta sociedade não tem o espírito, mas o hábito religioso; — tem as obras, e não tem a fé, que está acima das obras. Mas falar disto agora não seria escrever uma ter­ceira carta?

Deixe-me concluir aqui, e perdoe-me se lhe interrompi o opulento almoço; mas con­sole-se com a idéia de que eu vou tomar ape­nas um pouco de trigo amassado e uma infusão de folha chinesa, — admirável sobriedade que só pode mostrar um homem pobre, como eu.

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