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Ruivo (Maksim Górki)

Não há muito tempo, um homem de uns quarenta anos, chamado Vaska e apelidado “Ruivo”, era empregado numa casa de prostitutas de uma cidade do Volga. Devia o apelido ao seu cabelo, que era de um vermelho brilhante e ao seu rosto gordo, que tinha a cor de carne crua.
Com lábios muito grossos e orelhas que se destacavam da cabeça como as asas de um grande vaso, o que nele mais chamava a atenção era a expressão cruel de seus olhos pequenos e incolores. Afundados nas órbitas, brilhavam como dois pedaços de gelo e, apesar da aparência robusta e bem alimentada de seu possuidor, tinham sempre expressão faminta, de uma fome voraz e desesperada.
Baixo e troncudo, usava eternamente uma blusa cossaca, azul, largas calças de lã e botas altas de couro pregueado, sempre bem engraxadas. Seus cabelos encaracolados, quando ele punha seu elegante gorro de peles, formavam uma franja e davam a impressão de que uma grinalda vermelha lhe coroava a cabeça.
Era chamado ruivo por seus camaradas; as mulheres chamavam-no Carrasco, porque ele gostava de torturá-las.
Havia na cidade muitos institutos de ensino superior, e muita gente moça; por isso, a zona de prostituição era todo um bairro, incluindo uma longa avenida e ruas transversais. Vaska era conhecido em todas as casas. Só o seu nome bastava para aterrorizar as mulheres, e quando elas brigavam entre si, ou discutiam com a patroa, esta ameaçava:
– Cuidado! Não me aborreçam, senão eu chamo o Ruivo!
Geralmente esta ameaça era suficiente para acalmar as mulheres e fazê-las esquecer suas queixas, que eram às vezes perfeitamente justas e razoáveis, como, por exemplo, as que se referiam à comida que lhes serviam, ou à proibição de deixar a casa, para dar um passeio.
Mas se a ameaça não fosse suficiente, a patroa mandava chamar Vaska.
Ele vinha, no passo calmo de um homem despreocupado, fechava-se na sala com a patroa, sem fazer comentários, ouvia a narração do crime e o nome da culpada. No fim, dizia simplesmente:
– Está bem…
E punha-se em campo. As mulheres ficavam pálidas e tremiam à sua vista. Ele notava isso, e saboreava-lhes o medo. Se a cena ocorria na cozinha, onde geralmente as mulheres almoçavam ou tomavam chá, ele ficava muito tempo na porta, de pé, olhando para elas, silencioso e imóvel como uma estátua – e elas sofriam tanto naqueles instantes como durante as torturas físicas que ele lhes infligia.
Quando se cansava de contemplá-las, dizia, num tom indiferente, seco:
– Machka, venha cá…
– Vassili Mironich! – a indicada às vezes dizia, numa voz dolorida mas firme — Não me toque! Se você me bater, se você me bater… eu me enforco!
– Venha cá, sua boba, eu te darei a corda… — respondia Vaska, descuidadamente, sem sequer dar à voz um tom de desprezo.
Ele preferia sempre que as culpadas viessem até ele voluntariamente, por si mesmas.
– Eu pedirei socorro!… Eu quebrarei a vidraça!… – desfalecendo de medo, a mulher enumerava tudo o que faria.
– Quebra a vidraça… Eu te farei engolir o vidro. — respondia Vaska.
E na maioria das vezes a recalcitrante desanimava, e caminhava até ele. Se isso demorava muito, Vaska aproximava-se dela, agarrava-a pelos cabelos, e atirava-a ao chão. Eram as próprias amigas da vítima, sofrendo às vezes tanto como esta, que lhe amarravam os pés e as mãos, amordaçavam-na, e a abandonavam ao Carrasco. E ali mesmo, sobre o chão da cozinha, diante de todos, ele executava o castigo.
Se se tratava de uma moça corajosa, capaz de se apresentar na polícia, ele cobria-lhe as costas com um lençol úmido, o que impedia a formação de vergões, e a espancava com uma pesada cinta de couro, que não cortava a pele. Longos cilindros de panos, cheios de areia e pedregulho bem moído, podiam também ser usados. Um golpe nos quadris com semelhante instrumento causa uma dor profunda, que custa a passar…
Contudo, a crueldade da punição dependia mais do tamanho da culpa e da disposição do Ruivo do que do caráter da vítima. Às vezes, mesmo as temerárias ele espancava impiedosamente, sem tomar nenhuma precaução.
Trazia sempre consigo, no bolso traseiro, um chicote formado por três correias presas a um cabo curto de madeira, já polido pelo uso; enrolada em cada correia havia uma espiral de arame fino, que formava uma bainha na ponta. Esse chicote penetrava até os ossos, e, geralmente, para aumentar a dor, o Ruivo aplicava sobre os cortes um emplastro de mostarda, ou panos embebidos em salmoura.
Durante os espancamentos Vaska não demonstrava nenhuma emoção: era sempre o mesmo homem impassível e taciturno, mas seus olhos nunca perdiam a expressão faminta. Apenas, de vez em quando, ele franzia as sobrancelhas, o que tornava seu olhar ainda mais penetrante.
Seus processos de tortura não se limitavam aos diferentes meios de surrar. A imaginação de Vaska era inexaurível no que se referia à invenção de coisas novas e, sem dúvida, ele atingia de quando em quando a máximos de refinamento em suas criações, como, por exemplo, no caso de Vera Kopteva.
Vera trabalhava em uma das boas casas e foi acusada de ter roubado cinco mil rublos de um freguês. Esse freguês, um negociante siberiano, declarou à polícia que estivera no quarto de Vera com esta e uma outra moça, Sara Sherman. Após uma hora mais ou menos, Sara fora-se e ele passara o resto da noite com Vera, na companhia de quem se embebedara.
O processo seguiu seu curso normal. As investigações arrastaram-se como de direito, ambas as acusadas foram presas, julgadas e, por insuficiência de provas, absolvidas.
Contudo, quando chegaram a casa, de volta do tribunal, foram submetidas a nova investigação: a madame estava convencida de que elas eram culpadas e queria sua parte no roubo.
Sara conseguiu provar que nada tinha a ver com o negócio e a patroa resolveu forçar Vera a indicar-lhe onde escondera o dinheiro. Para tal, trancou-a na casa de banhos e sujeitou-a a uma dieta de caviar salgado. Apesar disso, Vera não confessou. Tornou-se necessário recorrer à intervenção de Vaska. A cafetina prometeu-lhe cem rublos pela descoberta do dinheiro.
No meio da noite, o carrasco apareceu diante de Vera, que jazia encolhida num canto do aposento, atormentada pela sede, pela escuridão e pelo medo. Do peito peludo de Vaska desprendia-se uma fumaça azulada que cheirava a enxofre; no lugar de seus olhos estavam duas brasas fosforescentes. Ele chegou o rosto bem perto da mulher e gritou, numa voz aterrada:
– Você roubou! Confesse!
Ela enlouqueceu de terror.
Era inverno. Na manhã seguinte, descalça, pisando a neve funda do pátio, vestida apenas com uma combinação, Vera foi trazida da casa de banhos para o edifício principal. Ela veio rindo baixinho e repetindo alegremente:
– Amanhã eu irei de novo à missa, com mamãe. Irei de novo à missa!
Quando Sara Sherman a viu nesse estado, disse bem alto, na frente de todos, em tranqüila estupefação:
– Mas fui eu que tirei o dinheiro.
Era difícil saber se as mulheres odiavam Vaska mais do que o temiam.
– Todas entregavam-se a ele, tentando ganhar-lhe a simpatia. Todas ansiavam pela honra de ser sua favorita. Ao mesmo tempo, sem que Vaska soubesse, instigavam os fregueses mais amigos e os colegas de Vaska para que lhe dessem uma sova. Mas ele era incrivelmente forte e nunca se embebedava. Seria difícil vencê-lo. Mais de uma vez colocaram arsênico em sua comida, em seu chá, em sua cerveja, e um dia ele chegou a ser envenenado, mas curou-se. Um certo instinto prevenia-o das ciladas que lhe armavam. Contudo, pelo menos aparentemente, o conhecimento do risco que corria por viver entre incontáveis inimigos não aumentava nem diminuía sua fria crueldade para com as mulheres. Com sua habitual impassibilidade, costumava dizer:
– Eu sei que vocês me reduziriam a cacos, se pudessem… Mas não se preocupem. Nada me acontecerá.
E apertando os lábios grossos, fungava na cara das mulheres. Era seu modo de rir-se delas.
Seus companheiros eram empregados nas outras casas, inspetores de polícia, detetives privados – a espécie de gente que vive em redor das prostitutas. Mas, mesmo entre eles, não tinha amigos. Não havia um só de seus conhecidos que gostasse de ver mais do que os outros. Tratava-os a todos com a mais completa indiferença. Bebia com eles, conversava em sua roda sobre os escândalos que todas as noites surgiam na zona. Contudo, nunca deixava a casa em que era empregado; a não ser a serviço, isto é, para administrar uma surra, ou como ele dizia, para infundir o temor de Deus na alma de alguma perdida.
A casa de que tomava conta era de tipo médio. Três rublos para entrar, cinco para passar a noite. A proprietária, Fekla lermolaievna, era uma cinqüentona corpulenta, estúpida mas maliciosa. Considerava muito Vaska, apesar de temê-lo também, e pagava-lhe quinze rublos por mês, dando-lhe ainda casa e comida. Ele morava num pequeno quarto no segundo andar e, graças a ele, reinava na casa a mais perfeita ordem. As onze mulheres que moravam no estabelecimento viviam mansas como cordeiros.
Quando a proprietária estava de bom humor, conversava com os fregueses, e discorria sobre suas mulheres como quem se refere a porcos ou vacas.
– As minhas são de primeira classe – dizia, sorrindo, cheia de orgulho. — São todas novinhas e sadias. A mais velha tem vinte e seis anos. Claro, ela não é uma pessoa com quem se possa ter uma conversa interessante, mas, em compensação, que corpo! Olhem para ela: uma maravilha! Ksiuchka, venha cá…
Ksiuchka vinha, rebolando como um pato. O freguês a examinava, com maior ou menor atenção, e sempre ficava satisfeito com seu corpo.
Ksiuchka era uma moça de altura média, rechonchuda, e dava a impressão de ter sido talhada numa só peça, tão firmes eram as linhas de seu corpo. Tinha seios altos e fartos, rosto redondo, a boca pequena, de lábios grossos, vermelhos e brilhantes. Seus olhos, vazios e absolutamente desprovidos de expressão, pareciam os de uma boneca. O nariz chato e uma franjinha que lhe cobria a testa, tornavam ainda mais acentuada a sua aparência de boneca, e destruíam no menos apressado dos fregueses o desejo de entabular conversação, qualquer que fosse o assunto. Por isso, todos se limitavam a dizer-lhe:
– Venha.
E ela ia, no seu andar bamboleante, sorrindo seu sorriso sem sentido, e rolando os olhos de um lado para o outro. Isto lhe fora ensinado pela madame e se destinava a “seduzir o freguês”. Tinha de tal modo acostumado os olhos a essa operação que a iniciava no momento em que, ao cair da noite, vestida a caráter, entrava no salão ainda vazio. E seus olhos não paravam até à madrugada, não importando que estivesse sozinha, ou apenas com as outras mulheres. Tinha ainda outro hábito curioso: costumava enrolar sua longa trança cor de junco novo em volta do pescoço, deixando cair a ponta entre os seios, onde a segurava com a mão esquerda, como se eternamente usasse um laço ao pescoço.
Sua história, como ela a contava, era curta e sem interesse. Dizia chamar-se Aksinia Kalugina, ter nascido na província de Riasan e ter um dia “pecado” com Fedka, e por isso dado à luz uma criança. Como ama de leite, viera para a cidade com a família de um oficial reformado, mas perdera o emprego porque seu filho morrera. Então, fora “contratada” pela dona do bordel. E ali estava há quatro anos…
– Gosta disso aqui? — perguntavam-lhe.
– Não tenho queixa. Há bastante comida, tenho sapatos, roupa… Pena é que não se tem sossego… E ainda há Vaska… Ele bate na gente, o demônio.
– Mas aqui… é alegre?
– Onde? — indagava — virando a cabeça e correndo os olhos pela sala, como se quisesse saber onde o freguês tinha visto a alegria.
Em torno dela havia ruído e algazarra, e tudo ali lhe era familiar, a madame, as outras mulheres, as tábuas do forro, tudo.
Falava numa voz cheia e grave, e ria só quando lhe faziam cócegas, e o riso fazia tremer-lhe o corpo inteiro, um riso alto e grosseiro, como o de um mujik. A mais estúpida e sadia das mulheres era talvez a menos infeliz.
Naturalmente, era na casa onde trabalhava que Vaska era mais temido e mais odiado. Quando bêbadas, as mulheres não escondiam seus sentimentos, e abertamente queixavam-se de Vaska aos seus fregueses. Mas, como afinal os fregueses não tinham vindo ali para defendê-las, essas queixas não tinham sentido nem resultado. Às vezes uma das moças levava suas lamúrias até ao histerismo, com gritos e choro. Se Vaska a ouvia, sua cabeça vermelha aparecia na porta, e ele dizia na sua voz oca e indiferente:
— Ei!… Você aí, não seja criança.
— Carrasco! Monstro! – gritava a mulher. – Você me desfigurou! Olhe, moço, olhe como ele deixou as minhas costas! — e a mulher tentava rasgar a combinação para mostrar as cicatrizes.
Nessa altura Vaska aproximava-se, tomava a mão da moça, e sem mudar de voz — o que era particularmente terrível —• repreendia-a:
– Não faça barulho! Vamos! Veja o que está dizendo! Cuidado!
As mulheres nunca tinham ouvido de Vaska uma palavra amável, se bem tivesse dormido com quase todas elas. Ele as tomava sem a menor cerimônia. Se uma o agradava, dizia:
– Hoje, vou ficar com você.
E dormia com ela durante alguns dias, semanas, até que, sem explicações, deixava de procurá-la.
— Que demônio! – diziam dele as mulheres. – Parece feito de pedra!
Na casa em que vivia fizera isso com quase todas as mulheres, inclusive com Aksinia. E foi numa das ocasiões em que Aksinia era a favorita que ele lhe deu uma surra impiedosa.
Sadia e preguiçosa, ela gostava muito de dormir, e às vezes adormecia na sala, apesar de todo o barulho. Sentada num dos cantos cessava bruscamente de “seduzir o freguês” com seus estúpidos olhos, que, de repente, se fixavam em alguma coisa; logo suas sobrancelhas desciam vagarosamente, enquanto seu lábio inferior caía um pouco, descobrindo-lhe os dentes grandes e brancos. E, tranqüilamente, começava a roncar, o que provocava verdadeiros acessos de riso entre os fregueses e as outras mulheres. Mas esse riso não acordava Aksinia.
Isso acontecia freqüentemente. Madame gritava com ela e a esbofeteava, mas isso não afugentava seu sono. Aksinia chorava de novo um pouco, e adormecia.
E assim foi, até o Ruivo entender que era tempo de tomar providências.
Uma noite, quando a moça adormeceu num sofá, ao lado de um freguês bêbado que também cochilava, Vaska puxou-a pela mão, acordou-a e, sem dizer nada, levou-a com ele.
– Você vai me bater, de verdade? – perguntou Aksinia.
– É preciso – disse Vaska.
Quando chegaram à cozinha, ele lhe ordenou que se despisse.
– Ao menos não me machuque muito – pediu ela.
— Vamos com isso, vamos…
Antes de tirar a camisa, ela deteve-se.
– Isso também – ordenou Vaska.
– Como você é ruim — suspirou a rapariga, pondo-se nua.
Com a correia, Vaska deu-lhe o primeiro golpe, nas espáduas.
– Vamos para o quintal!
– Vaska, por favor! Estamos no inverno! Vou gelar!
Ele empurrou-a porta a fora, batendo-lhe até chegarem ao quintal. Lá, ordenou-lhe que se deitasse sobre um monte de neve.
– Vaska… como é que você pode fazer isso?
– Vamos, vamos!
Para que seus gritos não pudessem ser ouvidos, ele empurrou-lhe a cabeça, afundando-a na neve, e surrou-a por muito tempo, repetindo a cada golpe:
– Não durma, não durma, não durma…
Quando ele a soltou, entre soluços e lágrimas a rapariga exclamou:
– Você não perde por esperar, Vaska! Há de chegar o seu dia!… Você há de chorar, também! Há um Deus, Vaska!
— Não resmungue — respondeu ele, calmamente. – Durma de novo na sala que eu faço o que fiz hoje e depois derramo água em cima de você…
A vida tem sua sabedoria, que se chama acaso. O acaso às vezes nos premia, mas é mais comum que ele nos castigue e, assim como o sol dá a cada objeto uma sombra, assim a sabedoria da vida dá a cada homem a paga de seus atos. Isto é verdadeiro, é inevitável, e nunca o devemos esquecer…
O dia do acerto de contas chegou também para Vaska.
Uma tarde, quando as mulheres estavam jantando, antes de se arrumarem para ir para a sala, uma delas, Lina Chernogorova, uma moça viva e inteligente, dona de uma linda cabeleira castanha, olhou pela janela e informou:
– Vaska chegou.
As moças resmungaram, aborrecidas.
– E vejam só! – gritou Lina. — Ele está bêbado! Vem uma polícia com ele… Vejam!
Todas correram para a janela:
– Ele veio de carro e está sendo carregado… não pode andar. Meninas! – Lina afinou a voz, tal era sua alegria – Ele sofreu algum desastre!
A cozinha encheu-se de exclamações e risos maldosos — o alegre riso da vingança. As moças foram até a porta, empurrando-se, correndo, para receber o inimigo tombado.
Vaska entrou, nos braços do policial e do cocheiro. Muito pálido, com grandes gotas de suor escorrendo-lhe pela testa, ele vinha arrastando penosamente a perna esquerda.
– Vassili Mironich! O que foi isso? — gritou a madame.
Desencorajado, Vaska sacudiu a cabeça e respondeu numa voz rouca, irreconhecível:
– Eu caí.
– Ele caiu do bonde – explicou o policial. – Caiu, e ficou com a perna debaixo da roda. Está com a perna quebrada.
As moças estavam imóveis, mas seus olhos brilhavam como brasas.
Acomodaram Vaska em seu quarto, puseram-no na cama, e mandaram chamar um médico. Todas em redor do leito, as raparigas trocavam olhares ardentes, mas continuavam em silêncio.
– Saiam! — gritou Vaska. Nenhuma se mexeu.
– Ah! Estão contentes!…
– Não, estamos tristes – respondeu Lina, com um sorriso hipócrita.
– Fekla Iermolaievna, mande-as embora… o que querem elas?… ver?
– Com medo? – perguntou Lina, curvando-se sobre ele.
– Vamos, meninas, vamos… – ordenou a madame.
Elas obedeceram, mas, enquanto se retiravam, cada uma delas o olhava significativamente, e Lina resmungou, agourentamente:
– Nós voltaremos!
Quanto a Aksinia, ela o ameaçou com o punho, e gritou:
– Ó seu demônio! Então está aleijado? Bem feito…
Tamanha audácia surpreendeu suas companheiras.
Longe do quarto, elas foram tomadas por um verdadeiro êxtase de maldade, de vingança, cuja doçura cruel haviam experimentado. Loucas de alegria, escarneceram de Vaska todo o tempo em termos que assustaram a dona da casa. Ela também estava satisfeita de ver o Ruivo punido pelo destino, porque também tinha suas queixas contra ele, principalmente porque ele a tratava como se fosse o patrão e ela a empregada; mas sabia muito bem que sem ele não conseguiria dominar as mulheres e por isso solidarizava-se de um modo um tanto prudente à alegria geral.
O médico veio, enfaixou a perna do acidentado, receitou, e foi-se embora, dizendo à dona da casa que seria bom mandar Vaska para um hospital.
– E então, meninas, devemos estar ao lado do nosso querido doentinho! – exclamou Lina, num tom de decisão desesperada.
Puseram-se a caminho, com risos e gritinhos.
Vaska estava com os olhos fechados. Sem abri-los, ele disse:
– Vocês voltaram…
– Como temos pena de você, Vassili Mironich!
– Como nós gostamos de você!
– Lembra-se você de quando?…
Falavam baixo mas firmemente e, de novo em redor do leito, contemplavam o rosto pálido do Ruivo com olhos alegres mas ameaçadores. Ele também as contemplava, e nunca brilhou tanto em seus olhos a insatisfeita, a insaciável e incompreensível fome que eles sempre exprimiam.
–  Meninas… Cuidado! Eu me levantarei um dia… Lina interrompeu-o:
–  Ora, talvez, com a graça de Deus, você nunca se levante…
Vaska apertou os lábios, e não respondeu.
–  Qual das suas pernas é que dói, querido? – perguntou uma das moças, aproximando-se dos pés da cama, muito pálida, e com a boca entre aberta, mostrando os dentes. – É esta?
Agarrou a perna enfaixada e puxou-a.
Vaska cerrou os dentes e gritou. Seu braço esquerdo também está ferido; levantou o braço direito e, tentando atingir a moça, deu um soco no próprio estômago.
Uma gargalhada geral sacudiu  as paredes.
– Vacas! – gritou ele, com os olhos injetados. — Eu matarei vocês todas!
Mas elas dançavam em redor da cama, beliscavam-no, agarravam-lhe os cabelos, cuspiam-lhe no rosto, puxavam-lhe a perna quebrada. Seus olhos lançavam chispas, e elas riam, xingavam-no, uivavam como cães. A brincadeira estava tomando um caráter incrivelmente cínico. Estavam de vingança, quase delirantes de amarga satisfação.
Todas de branco, seminuas, encorajando-se umas às outras, eram monstruosas e terríveis.
Vaska rugia de impotência, agitando no ar seu braço direito, enquanto a dona da casa, aterrorizada, gritava da porta:
–  Chega! Chega! Eu chamarei a polícia! Vocês o estão matando… o estão matando!
Não a ouviam. O Ruivo as atormentara por anos e anos e elas tinham apenas minutos para se vingar. Tinham pressa…
De repente a algazarra da estranha orgia foi cortada por uma voz cheia e grave, que implorava:
– Chega! É bastante… Tenham piedade, ele também é… ele também… ele também sente dor! Sejam boas, pelo amor de Deus, sejam boas…
Essa voz agiu como uma ducha sobre as raparigas; assustadas, apressadamente afastaram-se do enfermo.
Aksinia é que falara; estava junto à janela, tremendo dos pés à cabeça, e curvava-se suplicantemente em direção às amigas, ora apertando o estômago com as mãos, ora estendendo-as absurdamente para a frente.
Vaska estava imóvel, estirado na cama. Sua camisa estava rasgada, deixando à mostra seu largo peito coberto de pêlo vermelho, que agora se levantava e abaixava rapidamente, como se alguma coisa estivesse batendo dentro dele, tentando desesperadamente escapar. Um ruído esquisito saía-lhe da garganta, e seus olhos estavam fechados.
Reunidas junto à porta, parecendo formar um só e enorme corpo, as mulheres ouviam em silêncio o soluçar indistinto de Aksinia e os estertores de Vaska. Lina, na frente de todas, estava limpando nervosamente a mão direita dos cabelos vermelhos que lhe tinham ficado entre os dedos.
–  E se ele morrer? – cochichou alguém, sem que ninguém se atrevesse a responder.
Uma atrás da outra, evitando fazer barulho, as mulheres saíram vagarosamente do quarto, deixando-o cheio de farrapos espalhados no chão…
Apenas Aksinia ficou.
Respirando agitadamente, ela aproximava-se de Vaska e perguntou-lhe, com sua voz profunda:
– E agora? Que é que eu posso fazer por você?
Ele abriu os olhos, contemplou-a, mas não respondeu.
– Pode falar, agora… Quer que eu vá embora? Eu irei. Talvez você queira água. Quer água?
Vaska sacudiu a cabeça, silenciosamente, e moveu os lábios, mas não falou.
– Então é isso: você não pode nem falar! – disse Aksinia, enrolando a trança no pescoço. — Nós não fomos muito amáveis, está certo… E doeu, Vaska? Tenha paciência, isso passa… é fé no princípio que dói… Eu sei.
Um nervo tremeu no rosto de Vaska, e ele disse, roucamente:
— Água.
E a inexplicável fome sumiu de seus olhos.
Aksinia permaneceu ao lado de Vaska, aparecendo na cozinha apenas para comer, tomar chá, ou buscar qualquer coisa para o doente. As outras mulheres não falavam com ela, não faziam perguntas, e a proprietária não fazia objeções a seu papel de enfermeira, nem a chamava à noite, para atender os fregueses.
Aksinia acostumou-se a sentar junto da janela, no quarto de Vaska, e olhar para fora, para os tetos cobertos de neve, para as árvores brancas de geada, para a fumaça que subia em nuvens negras para o céu. Quando se cansava de olhar, adormecia ali mesmo na cadeira, com os cotovelos apoiados na mesa. À noite, dormia no chão, junto da cama de Vaska.
Os dois quase não conversavam. Vaska pedia água, ou outra qualquer coisa; ela trazia o que ele queria, olhava-o, suspirava, e voltava para a janela.
Assim se passaram quatro dias. A dona da casa ainda não tinha conseguido arranjar lugar para Vaska em nenhum hospital.
Uma tarde, quando a sombra já tinha invadido o quarto do Ruivo, este levantou a cabeça e chamou:
– Aksinia, você está aí?
Ela estava cochilando, mas acordou.
– Onde havia eu de estar? — replicou.
– Venha cá…
Ela aproximou-se do leito, e deteve-se, como de costume, com a trança em redor do pescoço, e a mão esquerda dobrada, segurando-a.
– O que é que você quer?
– Traga a cadeira e sente aqui perto…
Suspirando, ela foi até a janela, trouxe a cadeira e sentou-se junto à cabeceira da cama.
– Que é?
— Nada, eu… Sente-se um pouco…
Na parede em frente estava suspenso o grande relógio de prata de Vaska, que batia rapidamente. Um trenó passou pela rua, e eles ouviram o deslizar das sapatas. Na casa, as moças estavam rindo, e uma delas cantava em voz muito fina:
– “Um estudante faminto tem meu coração…”
– Aksinia! — disse Vaska.
– O que?
– Ouça… Se nós vivêssemos juntos?
– Já não estamos vivendo juntos? — perguntou ela, preguiçosamente.
– Não, não assim. Eu digo, viver direito…
– Está bem.
– Muito bem…
Ele calou-se e ficou muito tempo com os olhos fechados.
– Sim… Saíremos daqui, iremos para bem longe… começaremos tudo de novo.
– Iremos para onde?
– Para qualquer lugar… Eu vou acionar a companhia de bondes por causa do desastre… Eles têm de pagar, é a lei. Além disso, eu tenho algum dinheiro meu, uns seiscentos rublos.
– Quanto? – perguntou ela.
– Seiscentos rublos.
– Tanto assim?! – comentou a rapariga, bocejando.
– Sim… Só com esse dinheiro eu já posso abrir uma casa, por minha conta… e se eu fizer a companhia pagar alguma coisa… Iremos para Simbirsk, ou para Samara… e lá abriremos uma casa… Será a melhor da cidade… Teremos as melhores mulheres… Cobraremos de entrada cinco rublos.
– Você não quer nada! – disse Aksinia, sorrindo.
– Por que não? É assim que vai ser…
— Não diga!…
– É assim que vai ser… Se você quiser, poderemos casar.
– O quê?! — exclamou Aksinia, pestanejando ridiculamente.
– Poderemos casar. — repetiu Vaska, um pouco perturbado.
– Você e eu?
– Sim. É claro.
Aksinia começou a rir. Na cadeira, com as mãos nos quadris, balançando o busto para a frente e para trás, ela alternava sua conhecida risada, cheia e grave, com um risinho estridente, que nunca ninguém ouvira.
– Que é isso? Que é que você tem? — perguntou Vaska, e de novo surgiu em seus olhos o olhar de fome. Ela continuava gargalhando.
– Por que você ri?
Afinal, do meio de seu riso e seus soluços ela conseguiu dizer:
– Estou rindo do nosso casamento. Você acha que essas coisas são para nós? Há três anos ou mais que eu não entro numa igreja! Que engraçado que você é! Eu, sua mulher… Você decerto quer também que eu lhe dê filhos, não? Ah! Ah! Ah!
A idéia de filhos fez-lhe voltar a vontade de rir. Vaska olhava-a em silêncio.
– E você julga que eu iria a algum lugar com você? Que idéia! Você me levaria para longe, e me mataria. Todo mundo sabe como você gosta de maltratar os outros.
– Ora, cale a boca. – disse Vaska, brandamente.
Mas ela continuou falando de sua crueldade lembrando-lhe incidentes passados.
– Fique quieta — pediu ele. E como ela ainda continuasse falando, ele gritou rudemente: — Fique quieta!
Durante aquela tarde não se falaram mais. À noite, Vaska teve febre e delirou; um ronco, um estertor vinha de seu peito. Trincava os dentes, e agitava o braço direito no ar, às vezes batendo no próprio peito.
Aksinia acordou, e por muito tempo ficou ao lado da cama, contemplando o rosto de Vaska, assustada. Depois, acordou-o.
– Que é que você tem? O fantasma da casa estava te estrangulando, ou o que?
– Nada, eu estava sonhando… — respondeu Vaska, fracamente. — Dê-me um pouco de água.
Depois de beber, ele sacudiu a cabeça e declarou: — Não, não abrirei uma casa. Seria melhor uma loja… É melhor. Não quero uma casa.
– Uma loja… — disse Aksinia, pensativa. — Sim, uma loja… É boa coisa, uma loja.
— Você virá comigo? Você virá? — perguntou Vaska, com serena ansiedade.
– Você quer que eu vá, mesmo? — perguntou Aksinia, afastando-se da cama.
– Aksinia Semionovna — disse Vaska, respeitosamente e bem alto, levantando a cabeça do travesseiro — eu juro por…
Acenou com a mão direita, e calou-se.
– Eu não irei a parte alguma com você — respondeu Aksinia sacudindo a cabeça, resolutamente, depois de esperar que ele terminasse a frase. – A parte alguma!
– Se eu quiser, você irá — respondeu Vaska, serenamente.
– Não irei a parte alguma!
– Mas eu não quero assim… Mas se eu quisesse, você iria.
– Não…
– Que diabo! – exclamou Vaska, irritado. — Você anda por aqui o dia inteiro, tratando de mim, e por que não quer?…
– Isso é outra coisa – explicou Aksinia. – Mas, viver com você, não! Tenho medo de você. Você não presta.
– Ora, você!… Que é que você sabe? – exclamou Vaska, amargamente. – “Não presta”! Você é uma boba. “Não presta”, você diz, e pronto. Decerto pensa que é fácil não prestar.
Calou-se, e ficou em silêncio por algum tempo, esfregando o peito com a mão sadia. Depois, ternamente, com a voz cheia de angústia e os olhos cheios de medo, recomeçou:
– Você está vendo só o que está em cima. “Não presta”, bem, tem certeza que é só isso? Ah! Que é que sempre exigiram de mim? Você virá comigo, Aksinia Semionovna?
— Nem mais uma palavra sobre isso! Não irei! – declarou Aksinia teimosamente, afastando-se com um olhar desconfiado.
Não se falaram mais. O luar entrava no quarto, e sob ele o rosto de Vaska parecia cinzento. Por muito tempo ele ficou acordado, ora com os olhos abertos, ora fechando-os. Ouvia os ruídos da casa: dança, cantorias, risos.
Logo ouviu-se o ronco confortável de Aksinia. Cansado, Vaska suspirou.
Dois dias mais, e a dona da casa arranjou um leito num hospital. Uma ambulância veio para buscar Vaska. Os dois enfermeiros o carregaram cuidadosamente, e na cozinha ele viu todas as moças apinhadas no corredor.
Seu rosto tremeu, mas ele nada disse. Elas o encararam severamente, mas era impossível descobrir pelos seus olhos o que pensavam elas à vista de Vaska. Aksinia e madame ajudaram-no a vestir o sobretudo, enquanto reinava na cozinha um silêncio pesado e soturno.
— Adeus — disse Vaska, de repente, de cabeça baixa, sem olhar para as moças. — Adeus!
Algumas acenaram-lhe com a cabeça, em silêncio, mas ele não o percebeu. Lina disse calmamente:
– Adeus, Vassili Mironich.
– Adeus… Sim…
Os dois enfermeiros suspenderam-no pelas axilas e o conduziram do banco até à porta. Aí ele voltou-se para as moças.
– Adeus. Eu sei, eu era…
Duas ou três vozes responderam:
– Adeus, Vassili!
– Para que fingir? – Sacudiu a cabeça e apareceu-lhe no rosto uma expressão estranha, desconhecida nele. -Perdoem-me… Perdão… Pelo amor de Deus… aquelas… que… que eu…
– Eles o estão levando! Eles estão levando embora o meu querido! – gritou Aksinia selvagemente, deixando-se cair no banco.
Vaska assustou-se, e levantou a cabeça. Seus olhos brilhavam raivosamente. Por um momento ouviu atentamente os gritos dela, e depois, com os lábios a tremer, disse gentilmente:
– Que boba! Que grande boba!
– Venha, venha – disseram os enfermeiros, franzindo a testa.
– Adeus, Aksinia, não se esqueça de ir me ver no hospital – exclamou Vaska, bem alto.
Mas Aksinia continuava gemendo:
– Quem me confortará?
Impassíveis, as outras a rodearam, olhando calmamente para as lágrimas que desciam em torrentes de seus olhos.
Lina, curvando-se sobre ela, consolou-a duramente:
– Por que você está chorando, Ksiuchka? Ele não morreu! Você irá vê-lo… você irá vê-lo amanhã…

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