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O Aleijado (Maksim Górki)

Foi numa escura e abafada noite de verão que encontrei, numa viela de arrabalde, um estranho quadro: no meio de grande poça lamacenta uma estranha mulher chapinhava na água suja como crianças gostam de fazer. Cantava, ao mesmo tempo, com voz fanhosa, uma canção indecente.
No dia anterior houvera forte trovoada e a pesada chuva tinha dissolvido o barro, a poça estava funda, a água lodosa chegava quase aos joelhos da criatura; a julgar por sua voz ela devia estar embriagada. Achei que se ela escorregasse poderia afogar-se e resolvi tirá-la de lá.
Puxei os canos das botas, entrei na poça e, agarrando um braço da mulher, tratei de puxá-la para um lugar seco. De início, aparentemente assustada, acompanhou-me docilmente. Mas, quando eu menos esperava uma reação, safou o braço direito, bateu-me no peito e berrou:
— Acuuudam!
Em seguida, tratou de voltar para a poça, arrastando-me com ela.
— Diabo! — murmurava ela — Não vou! Posso viver sem você… quero ver você viver sem mim… Socooorro!
O guarda-noturno apareceu da escuridão e, parando a uns cinco passos de nós, perguntou:
– Quem está fazendo escândalo aqui?
Expliquei-lhe que receava que a mulher se afogasse na lama e que tentara tirá-la de lá; o guarda olhou-a atentamente, escarrou com gosto e mandou:
– Saia daí, Mariana!
– Não quero.
– Estou mandando — Saia!
– Eu não.
– Vai apanhar, peste — avisou-a o guarda com toda a calma e, em seguida, informou-me bonachão: — É moradora daqui, cordoeira, chama-se Maria Froliha. Tem um cigarro?
Fumamos. A mulher andava dentro d’água exclamando:
– Autoridades! Sou eu, a minha autoridade… Se eu quiser, tomo banho e acabou-se!
– Toma banho coisa nenhuma! — advertiu-a o guarda, velho forte e barbudo. — São raras as noites em que ela não faz semelhante escândalo. E tem um filho aleijado em casa…
– É longe a casa dela?
– Merece morrer — afirmou o guarda sem responder à minha pergunta.
– Convém levá-la para a casa dela — sugeri.
O guarda riu-se, iluminou-me o rosto com a brasa do cigarro e afastou-se, ruidosamente, pisando o barro molhado.
– Pode levar… mas, olhe a cara dela primeiro.
A mulher sentou-se no meio da lama e, fazendo gestos como se estivesse remando, cantou com voz esganiçada:
— No mar, no vasto mar…
Perto dela brilhava o reflexo de uma estrela; quando seus movimentos encresparam a água, o brilho desapareceu. Entrei novamente na poça, peguei-a por baixo dos braços, soergui-a e empurrando a cantora com os joelhos fui levando-a para a cerca; a mulher resistia, e desafiava-me:
— Bata-me, pode bater! Bata, não faz mal… seu animal, bata!
Encostei-a à cerca, finalmente, e perguntei-lhe onde morava. Ela ergueu a cabeça olhando-me com olhos que antes pareciam manchas escuras e pude ver então que o nariz havia afundado, motivo por que a ponta ficou erguida e, o lábio superior repuxado pela cicatriz, descobria os dentes miúdos e brancos. Parecia que o rosto pequeno e rechonchudo estivesse sorrindo continuamente, de maneira repelente.
– EStá bem, vamos — concordou a mulher.
Partimos, esbarrando na cerca. A saia molhada chicoteava minhas pernas.
— Vamos, meu bem — murmurava a mulher aparentemente voltando a si. — vou agasalhá-lo… posso consolá-lo.
Levou-me ao quintal de um casarão de dois pavimentos. Cautelosamente, como se fosse cega, procurou caminho entre carroças estacionadas desordenadamente, pilhas de caixas, barris e lenha. Parando diante de um buraco nos alicerces, convidou-me a entrar.
Apoiando-me na parede escorregadia, amparando com a destra o corpo mole da minha protegida, desci a custo uns degraus traiçoeiros, chegando diante de uma porta; apalpando, encontrei o trinco, abri a porta e parei, hesitando em prosseguir.
– Mãe, é você? — indagou na escuridão uma voz mansa.
– Sou-u-u…
Forte odor de matéria decomposta de mistura com cheiro de alcatrão estonteou-me momentaneamente. Um fósforo ardeu, sua luz iluminou por instantes um pálido rosto infantil e apagou-se.
— Quem haveria de ser, senão eu?… — disse a mulher pendendo do meu braço.
Novamente, ardeu um fósforo e, desta vez, fina e estranha mão de criança acendeu pequeno lampião a querosene.
— Meu consolador, querido… — exclamou a mulher no instante em que seu corpo tombava sobre uma baixa e larga cama armada num canto do cubículo.
A criança cuidava do lampião e reduzia a torcida, quando ela começava a soltar fuligem. Seu rostinho compenetrado caracterizava-se por um narizinho pontudo e lábios cheios, de menina. O rosto delicado apresentava feições que pareciam desenhadas com fino pincel de grande mestre e parecia deslocado no úmido e escuro cômodo daquele porão. Conseguindo uma chama boa, encarou-me com estranhos olhos peludos e perguntou:
— Embriagada?
A mãe, largada através da cama, soluçava e ressonava.
– Precisa despi-la — falei.
– Então, dispa-a — respondeu o menino baixando os olhos.
Quando comecei a tirar as saias molhadas”, o menino perguntou:
– Apago a luz?
– Para quê?
A criança nada respondeu e lidando com o corpo inerte da mãe, observei o menino: estava sentado dentro de um caixão colocado embaixo da única janela; o lado do caixão trazia em grandes letras a inscrição:
CUIDADO
N. R. & Cia. Ltda.
A parte inferior da janela achava-se à altura dos ombros do menino; ao longo da parede, havia diversas prateleiras estreitas e nestas enfileiravam-se pilhas de caixas de fósforos e caixinhas de papelão. Ao lado do caixão, que abrigava o menino, havia outro de boca para baixo, coberto com papel amarelo, servindo de mesa. O menino cruzara os bracinhos esquálidos atrás da nuca e fixara a vista nas escuras vidraças.
Terminei de despir a mulher, joguei suas roupas molhadas em cima do fogão, lavei as mãos numa bacia de barro que achei no canto e, enxugando-as no lenço, disse ao menino:
– Então, adeus!
Olhou-me e perguntou ciciando um pouco:
– Apago a luz agora?
– Como quiser.
– Vai embora mesmo, não vai deitar?
Esticou a mão apontando a mãe:
– Com ela?
– Para quê? — indaguei, sem propósito.
– Você há de saber — disse o menino numa simplicidade terrível e, esticando-se, acrescentou:
– Todos deitam.
Fiquei confuso e olhei em redor: à direita vi um fogão disforme, louça suja pendurada numa armação, num canto um rolo de cabo alcatroado e um monte de estopa, lenha e um pau de carregar baldes.
A meus pés o corpo amarelo, adormecido da mulher.
– Dá para ficar um pouco com você? — perguntei
O menino olhou-me de esguelha, ao responder:
– Ela só vai acordar quando for dia.
– Não me importa.
Acomodei-me de cócoras ao lado do caixão e contei-lhe como havia encontrado a mãe dele, tratando de dar um cunho humorístico à narrativa:
— …Sentou-se na lama, ficou a remar com as mãos, cantando sempre…
O menino esboçou um gesto concordando, sorriu mansamente e, coçando o peitinho mirrado, disse:
— É que estava embriagada. Mesmo sóbria ela gosta de brincar. Parece criança.
Pude então observar bem seus olhos. Realmente davam a impressão de estarem cobertos de pêlos; as sobrancelhas muito compridas e pestanas longas e arcadas davam essa impressão. Olheiras azuladas destacavam-se no rosto pálido. Acima da ampla testa branca e lisa aparecia a vasta cabeleira quase ruiva e encaracolada Impossível descrever a expressão de seus olhos. Pude suportar com dificuldade a intensidade daquele olhar que, embora calmamente compenetrado, tinha algo de sobre-humano.
— Que há com as suas pernas?
O menino remexeu no monte de trapos, que lhe serviam de cobertas, e levantando-a com a mão ergueu uma perninha seca, mais parecida com uma raiz ressequida. Pondo-a no bordo do caixão explicou:
– Minhas pernas são assim, as duas. De nascimento. Não andam, não vivem…
– E nas caixinhas, o que há?
– Jardim zoológico — respondeu o menino. Pegou em seguida, a perninha, recolocou-a no fundo do caixote, cobriu-a e sorrindo amistosamente indagou:
– Quer que lhe mostre? Então, sente-se direito; você nunca viu coisa semelhante.
Seus braços compridos e as mãos delgadas moviam-se com surpreendente agilidade enquanto tirava as caixinhas das prateleiras, uma por uma, e as apresentava.
– Não abra, senão fogem! Encosta ao ouvido e escute — que tal?
– Alguma coisa se mexe.
– Isso, é uma aranha safada. O nome dela é Tambor, êeta bicho ladino!
Os maravilhosos olhos do menino brilhavam animados. Os dedos ágeis tiravam as caixinhas, encostavam-nas no ouvido dele, em seguida no meu, enquanto ele explicava:
— Aqui mora uma barata, o nome dela é Anissim. Gosta de contar vantagens, que nem os soldados. Aqui é a casa da mosca. Chama-se Funcionária, é uma peste! Ronca o dia inteiro, xinga a todo o mundo, chegou até a puxar a mãe pelos cabelos. Nem parece mosca — é funcionária, tal e qual, que passa o dia falando mal de todos, mexericando. Aqui está um besouro preto, enorme, é o Patrão; não é mau camarada, só que pau d’água e muito dissoluto. Quando bêbedo fica engatinhando no pátio, pelado, cabeludo, parece um cão preto. Aqui é um besouro, Tio Nicodim, agarrei-o no pátio; é um andarilho malandro, daqueles que pedem esmola dizendo que fazem coleta para a igreja. Mamãe o chama O Barato — também é amante dela. Ela tem amantes à vontade, embora não tenha nariz.
– Ela não bate em você?
– Qual nada! Ela não pode viver longe de mim. Ela é boa, só que bebe, mas na nossa rua todos bebem… Ela é bonita e alegre, o diabo é que bebe muito! Eu peço sempre “deixe, boba, de beber vodca, você pode até ficar rica se deixar”. Ela ri apenas. É mulher — e mulher boba ainda por cima… Mas é boazinha; quando ela acordar você vai ver!
Seu sorriso cativante era tão encantador que senti vontade de chorar, de berrar, de fazer alguma loucura, tal foi a pena e compaixão que senti por ele.
A linda cabecinha balançava no pescocinho magro, parecendo estranha flor tangida pelo vento; o brilho de seus olhos maravilhosos prendia-me mais e mais.
Ao ouvir sua conversa infantil, mas assustadora, eu esquecia por vezes onde me achava, para depois, de repente, voltar à realidade, quando avistava a janela com grades cheias de barro, a bocarra negra do fogão, o monte de estopa e o corpo amarelo da mulher-mãe.
– Gostou do jardim zoológico? — perguntou o menino, orgulhoso.
– Muito.
– Só não tenho borboletas…
– Como se chama?
– Leonhka!
– É meu chará.
– Não diga! E você, que espécie de homem é?
– Nada de especial… como outro qualquer.
– Essa não! Todos os homens são diferentes — são alguma coisa, eu sei. Você é bom.
– Talvez.
– É sim. E acanhado também.
– Essa, por quê?
– Sei que é!
O menino sorriu e piscou-me o olho.
– Mas, por que acha que sou acanhado?
– Está fazendo horas comigo, quer dizer que receia partir de noite!
– Mas, já está amanhecendo.
– Pois é, quando amanhecer irá embora.
– Voltarei para estar com você.
O menino não acreditou, cobriu os maravilhosos olhos com as pestanas e refletindo um pouco perguntou:
– Para quê?
– Para ficar com você. Acho você muito interessante. Posso vir?
– Pode. Muita gente vem aqui…
Suspirou e disse:
– Não acredito que volte…
– Por Deus do céu! Volto, sim!
– Então venha. Venha ver-me, não a mãe, ela que vá lamber sabão! Seremos amigos, nós dois, tá?
– Tá.
– Isso sim. Não faz mal que você é grande. – Que idade tem?
– Vinte e um.
– Eu vou fazer doze. Não tenho amigos, só Katya, filha do aguadeiro, mas a mãe bate nela quando ela vem me ver… Você é gatuno?
– Não. Por que?
Seu rosto é muito feio, tão magro e tem um nariz como os gatunos têm. Dois gatunos costumam vir aqui: um é Sachka, é bobo e mau; o outro é Joãozinho; esse é bem, tão bonzinho como um cachorro. Você tem caixinhas?
– Trarei algumas.
– Traga, sim. Eu não direi a mamãe que você vem…
– Por que não?
– Porque sempre fica contente quando os homens voltam. Gosta tanto de homens — é uma vergonha! Ela é engraçada — minha mãe. Estava com quinze anos quando me deu à luz — e nem sabe como foi! Quando você volta?
– Amanhã, à noite.
– À noite, ela já estará bêbada de novo. Que você faz para ganhar a vida, já que não é ladrão?
– Vendo cidra bávara.
– Não diga? Traga uma garrafa, sim?
– Claro. Bem, tenho que ir indo.
– Então vá. Mas, volta mesmo?
– Sem falta!
O menino estendeu-me ambas as mãozinhas magras e peguei-as com ambas as minhas apertando aqueles ossinhos finos e frios; tratei de sair sem olhar para ele.
Amanhecia. Vênus, o astro da madrugada, brilhava acima das úmidas e dilapidadas casas. Numa carroça próxima do portão dormia um camponês; seus enormes pés descalços sobravam para fora do veículo, a barba dura, aparada em ponta, espetava o céu, os dentes brancos que apareciam através dos fios da barba davam a impressão de que o homem estivesse rindo fazendo pouco caso de tudo e de todos. Um velho cachorro, em cujo lombo aparecia um lugar depilado, onde ele havia levado um jato de água fervente, aproximou-se de mim, cheirou minhas calças e soltou um lamento obrigando-me a sentir pena dele.
As poças d’água nas ruas que, durante a noite foram apenas repugnantes, refletiam o azul do céu e brilhavam sob os raios do sol nascente — esse embelezamento parecia deslocado, desnecessário e portanto ofensivo.
No dia seguinte falei com as crianças que moravam na minha rua e pedi-lhes que apanhassem besouros e borboletas, fui à farmácia e comprei umas caixinhas bonitas, arranjei duas garrafas de cidra, bolachas, balas, uns pães doces — e assim armado fui visitar o meu chará.
O menino recebeu os presentes maravilhado, abrindo desmesuradamente os olhos que, à luz do dia, eram mais encantadores ainda que de noite.
— Oo — ho! — ho! — exclamou com voz baixa que não parecia a de uma criança, — quanta coisa trouxe! Então você é rico? Mas como pode ser isso? — é mal vestido, mas é rico — e diz que não é ladrão? Mas que caixinhas lindas! Meu Deus, nem quero tocar nelas com as mãos sujas… Que é isso? Um besouro, mas que lindo! Parece de bronze, é esverdeado até! ó diabo, quer fugir? Deixe disso!
De repente, gritou todo alegre:
– Mãe! Venha cá, lave-me as mãos! Venha ver só o que ele trouxe! É aquele mesmo, de ontem, o que trouxe você para casa como se fosse um guarda — tudo é dele! É meu chará também…
– Precisa agradecê-lo — ouvi às costas uma estranha voz.
O menino abanou a cabeça diversas vezes, concordando :
— Obrigado, muito obrigado!
O porão estava cheio de estranha poeira cabeluda e através dela tive pena ao entrever em cima do fogão a cabeça despenteada e o rosto disforme da mulher, o
brilho de seus dentes num eterno sorrir que ela nunca podia apagar em seu rosto aleijado.
– Boa tarde!
– Boa tarde! — respondeu a mulher; sua voz rouca era baixa mas animada, quase alegre. Olhava-me de olhos apertados; pareceu-me perceber certa ironia.
O menino esqueceu minha presença; mastigava uma bolacha, cantarolava de boca cheia e cuidadosamente abria as caixinhas — as compridas pestanas lançavam sombras nas faces realçando o azul das olheiras. Através das vidraças sujas, aparecia um sol baço e apagado como o rosto de homem velho iluminando os cabelos encaracolados do garoto. Sua camisa estava desabotoada e pude ver as pulsações de seu coração que, a cada batida, agitava a pele fina do aleijadinho.
A mãe desceu do fogão, molhou a ponta de uma toalha e, pegando a mão esquerda do garoto, quis lavá-la.
— Fugiu! Pare! Fugiu! — gritou Leonhka e começou a remexer nos panos malcheirosos, descobrindo as pernas azuis, imóveis. A mulher riu-se e aos gritos — Pega o fujão! — ajudou na busca.
Quando pegou o besouro colocou-o na mão espalmada e olhando-o com os olhos cor do céu, disse-me com ar de intimidade como se fôssemos amigos de longa data:
– Desses há muito!
– Não esmague! — advertiu-a o garoto. — Sabe, um dia quando ela estava bêbada, sentou-se em cima do meu zoológico — nem sei quantos bichinhos esmagou!
– Esqueça isso, meu bem!
– Trabalhei tanto para enterrá-los!
– Mas, em compensação, quantos não apanhei e trouxe para você.
– Apanhou! Apanhou, sim, mas acontece que aqueles outros eram ensinados. Os que morrem eu enterro embaixo do fogão, sabe? Lá é meu cemitério… Eu tinha uma aranha, chamava-se Minca — era tão parecida com um dos amantes da mãe, um que está na cadeia agora, gorduchão, alegre…
– Filho meu, querido — disse a mulher acariciando a cabecinha do menino com sua mão pequena de dedos rombudos. Empurrou-me com o cotovelo e sorrindo com os olhos perguntou:
– Não é bonito meu filhinho? Que olhinhos tem, hein?
– Tome um olho e me dê as pernas — propôs o garoto sorrindo sem parar de observar o besouro. — Que bicho! Parece de ferro… gordão… Mãe! É parecido com o monge para quem você fez a escada de cordas, lembra?
– Lembro-me, claro!
Rindo-se começou a me contar:
— Sabe, apareceu um dia um monge, grandalhão, custou a entrar até. Perguntou-me então: “Pode fazer uma escada de cordas para mim?” Eu nem ouvira falar em tais escadas; então, respondi que não, que nunca havia feito. “Eu ensino”, disse ele. Abriu a sotaina e não é que toda a barriga dele estava enleada com uma corda fina, mas forte, forte? Ensinou-me. Fiquei fazendo a tal escada, enquanto pensava: para quê será que ele precisa da escada? Deus o livre que tencione assaltar uma igreja!
A mulher riu-se abraçando o filho e acariciando-o sempre.
— Quando ele veio buscar a escada eu falei: Se for para coisa desonesta não entrego. Ele riu-se, assim com ar de espertalhão e respondeu: “Não, isso é para trepar no muro; o nosso muro é muito alto, somos pobres pecadores e o pecado mora do lado de lá do muro — entendeu?” Entendi e rimo-nos juntos, rimos tanto!
— É, você ri muito, até demais — disse o garoto tal e qual um adulto repreendendo uma criança. — Que tal se você fizesse chá para nós?
– Não temos açúcar…
– Compre então…
– Dinheiro também não temos.
– Gastou tudo em bebida! Peça a ele…
Virando-se para mim, o rapazinho perguntou:
– Você tem dinheiro?
Dei dinheiro à mulher; ela não esperou mais nada — saltou
de pé, agarrou o encardido samovar e desapareceu pela porta afora, cantarolando.
— Mãe! Lave a janela. Está escuro, não enxergo nada! Minha mãe é esperta, só vendo — confiou-me o garoto distribuindo cuidadosamente as caixinhas e colocando-as nas prateleiras de papelão dependuradas com barbantes amarrados a pregos, que haviam sido enfiados nos tijolos úmidos. — É muito trabalhadeira. Quando começa a desmanchar cabos para fazer estopa, fica uma poeira! Peço então que ela me leve para fora para respirar ar fresco e ela diz: “tenha paciência filho, agüente mais um pouco, sem você fico triste! Gosta muito de mim. Trabalha e canta — conhece milhares dê canções,
O menino começou a reproduzir uma das canções que aprendera com a mãe, mas foi interrompido pelos sons de um realejo que começou a gemer no pátio. O menino alvoroçado pediu-me que o erguesse à janela para que pudesse escutar melhor.
Levantei o frágil esqueleto contido no invólucro de pele fina e cinzenta. Leonhka enfiou a cabecinha pela janela aberta e ficou ansiosamente imóvel; só as perninhas impotentes balançavam arranhando a parede. O realejo lançava ao ar farrapos irreconhecíveis de uma melodia qualquer, uma criança gritava deliciada e um cão uivava. O aleijadinho absorvia ansiosamente a sinfonia bárbara e produzia sons com a boca fechada, tentando acompanhar a melodia fugidia.
No porão havia menos poeira e por isso enxergava-se melhor. Pude ver sobre a cama da mãe barato relógio de pêndulo. A louça na prateleira continuava suja e grossa camada de poeira cobria tudo. Nos cantos havia grandes teias de aranha e a poeira depositara-se nelas transformando-as em panos fúnebres. O lar do pobre estropiado antes parecia monturo onde as ofensivas características da pobreza saltavam à vista fosse para onde fosse que o observador dirigisse o olhar.
Ouvimos o canto familiar do samovar e, como que assustado por ele, o realejo parou de repente. Em lugar deste, ouvimos a voz feroz de alguém que rosnava:
– …esfarrapados!…
– Tire-me daí — suspirou o menino. — Enxotaram-nos.
Recoloquei-o cuidadosamente em seu caixão-cama; o menino esfregou o peitinho e, tossindo com receio, disse:
– Doe-me o peitinho, não posso respirar ar de verdade por muito tempo… Escute, você já viu diabinhos?
– Não.
– Nem eu. De noite costumo olhar embaixo do fogão para ver se não aparece algum, mas qual — não aparecem. Não é verdade que os diabos aparecem nos cemitérios?
– Para que queres os diabos?
– É interessante. Quem sabe um deles seria bonzinho? Katya, a filha do aguadeiro, viu um diabinho no porão e assustou-se, mas eu não tenho medo dessas coisas.
Acomodando-se melhor em seu leito, o garoto continuou vivamente:
— Gosto até, gosto de pesadelos, viu? Um dia sonhei com uma árvore que cresceu às avessas — as folhas espalhadas pelo chão e as raízes apontando o céu. Até suei de medo e acordei. Outro dia sonhei com a mãe — ela estava deitada toda nua e um cachorro arrancava-lhe o ventre aos pouquinhos. Tirava um bocado e cuspia, tirava outro e cuspia. Outra noite foi a nossa casa que estremeceu e toca a deslizar pela rua batendo as portas e janelas e a gata da funcionária corria atrás da casa…
O rapazinho estremeceu como se sentisse frio, apanhou uma bala e, tirando-lhe o papel, endireitou-o meticulosamente depondo-o no peitoril da janela.
— Desses papéis farei alguma coisa bonita. Ou, então, darei a Katya; ela também gosta de coisinhas bonitas — cacos de louça, pedaços de vidro, papeizinhos, qualquer coisa. Escute, se a gente alimentar bem uma barata ela pode ficar do tamanho de um cavalo?
Era evidente que o menino acreditava nessa possibilidade, por isso respondi:
– Alimentando bem, é capaz.
– Pois então — exclamou radiante — e mamãe, bobona, acha graça!
Terminou, usando palavra ofensiva a qualquer mulher.
– Ela é tola! Um gato então é fácil fazer ficar do tamanho de um cavalo não é?
– É pena que não tenho comida que chegue — seria tão divertido!
O garoto estremeceu de entusiasmo e apertou o peito com as mãozinhas.
— As moscas ficariam do tamanho de cachorros, e as baratas poderiam puxar tijolos. Se eles fossem do tamanho de cavalos, seriam fortes, não seriam?
– Os bigodes iriam atrapalhar…
– Qual nada! Os bigodes serviriam de rédeas. Ou, então, apareceria uma aranha grande, mas a aranha não deveria ficar maior que um gatinho, senão a gente ficaria com medo. Não tenho pernas, mas se tivesse, iria trabalhar e arranjaria comida suficiente para fazer crescer todos os meus bichinhos. Iria comerciar e compraria para mamãe uma casa, lá no campo. Você já esteve no campo?
– Já, muitas vezes.
– Conte-me como é!
Comecei a contar-lhe dos campos e prados. Escutava-me atentamente; as pálpebras desciam-lhe sobre os olhos, a boquinha abria-se e o garoto parecia estar adormecendo; diante disso passei a falar cada vez mais baixo, mas então, apareceu a mãe trazendo o chá, um pacote em baixo do braço e uma garrafa de vodca enfiada entre os seios.
– Pronto! Já cheguei!
– Que beleza… — suspirou o menino, — só grama e flores e mais nada. Mãe, você poderia arranjar um carrinho e me levar ao campo um dia! Senão eu morro algum dia desses, sem conhecer os campos. Você não presta, mãe… — terminou o garoto, tristonho e ofendido.
A mãe não se ofendeu e aconselhou, com brandura:
– Não me xingue, filho, você ainda é pequeno.
– Não me xingue!… Você está bem, pode ir aonde quer, como um cachorro. Você é feliz… Escute — disse virando-se para meu lado — foi Deus quem fez o campo?
– Decerto foi.
– Para quê?
– Para os homens passearem.
— Campo cheio de flores… — suspirou o garoto. — Eu levaria lá o meu zoológico e soltaria todos… que passeassem à vontade. Mas, diga-me, quem fez Deus?
A mulher quase morreu de riso. Caiu na cama, esperneava e gania entre acessos de risadas sufocantes:
– Ai, ai, ai! Que pergunta! Mas que menino! Matou-me! Matou-me de uma vez!
O garoto olhou a mãe com sorriso condescendente e sem irritação, sem maldade, como se usasse um termo carinhoso, proferiu palavra das mais obscenas.
– Parece criança, gosta de dar risadas, só vendo… — e repetiu o termo obsceno.
– Deixe que ria, isso não ofende a ninguém — defendi a mulher.
– É, ofender, não ofende — concordou o aleijadinho. — Só fico zangado com ela quando não lava a janela. Peço, peço, digo “Mãe, lave a janela; não consigo ver a luz de Deus!” — e ela esquece sempre…
A mãe, lavando a louça, piscava-me o olho dizendo:
— Que tal meu filhinho? Não fosse ele eu me jogaria no rio, por Deus do céu! Ou me enforcava.
Dizia-o sorrindo.
De repente, o menino perguntou-me:
– Você é bobo?
– Não sei. Por que?
A mãe diz que é…
– Ora, mas não vê por que eu disse? — exclamou a, mulher sem se constranger por Isso. — Trouxe da rua mulher bêbeda, pô-la a dormir e foi-se embora! Foi por isso que falei, não foi por mal — e você conta…
A mulher falava como criança, seu fraseado lembrava o de meninas adolescentes. Seus olhos também eram límpidos, jovens, tanto mais espantoso era seu rosto desfigurado, seu lábio repuxado e dentes a mostra.
— Vamos tomar chá! — convidou ela solenemente. O samovar, sobre uma caixa ao lado do menino, soltava alegres fiapos de vapor e o garoto apanhava-os sonhador e, sentindo na palma da mão a umidade condensada, enxugava nos cabelos cacheados.
— Quando eu for grande, mamãe vai arranjar para mim um carrinho com que eu poderei andar pelas ruas pedindo esmolas. Quando ganhar o bastante para o dia, deixarei as ruas e sairei para os campos…
A mulher suspirou pesarosa: — Ele imagina que os campos são um paraíso! Em vez, lá estão os acampamentos cheios de soldados malvados, camponeses embriagados…
– Mentira — interrompeu-a o garoto. — Pergunte a ele como são os campos. Ele viu.
– E eu, não os vi, também?
– Embriagada?
Discutiram com o ardor e falta de lógica de crianças. Lá fora anoitecia; no céu cor de rosa parou uma grande nuvem imóvel, o porão tornou-se escuro.
O menino tomara uma caneca de chá quente. Transpirou, olhou-nos e disse:
– Comi, bebi e até fiquei com sono — por Deus do céu…
– Então, durma filhinho.
– Mas, se eu dormir ele vai embora. Você não vai fugir?
– Não tenha medo, não; eu não deixo — assegurou a mãe empurrando-me com o joelho.
– Não vá — pediu o menino bocejando. Esticou o corpinho e caiu no leito adormecendo, mas de repente soergueu-se e disse à mãe repreendendo-a:
– Bem que você poderia casar-se com ele, como fazem as outras mulheres; em vez você se dá com todo mundo e eles só batem em você… Ele não bate, é bom…
– Durma, filho, durma — murmurou a mulher debruçando-se sobre o pires com chá.
– Ele é rico…
Por uns instantes, a mulher permaneceu quieta, depois confiou-me como a um velho amigo:
– Assim vivemos, nós dois e mais ninguém. O povo me xinga, dizem que sou rameira! E daí? Não preciso ter vergonha de ninguém. De mais a mais, o senhor vê que cara estragada tenho… qualquer um logo vê para que sirvo. Sim, adormeceu, meu anjinho, minha consolação na vida. Não é bom o meu filhinho?
– Muito bom!
– Não me canso de olhar para ele… É esperto, não é?
– É, sim!
– Só tinha que ser — o pai dele foi um senhor, homem culto; um velhinho. Como a gente chama a esses velhos que têm escritório e vivem escrevendo em papel timbrado?
– Tabelião?
– Isso! Isso mesmo! Foi muito bonzinho, tratava-me bem, fui empregada dele.
A mulher aproximou-se de mim dizendo:
– Morreu de repente. Foi de noite. Mal saí do quarto dele, caiu no chão e morreu! O senhor vende cidra?
– Sim.
– Por sua conta?
– Sou empregado.
A mulher cobriu cuidadosamente as perninhas do filho, arrumou o travesseiro e retomou a narrativa:
– O senhor não precisa de ter nojo de mim, já não estou infectada. Pode perguntar a quem quiser todos me conhecem!
– Eu não tenho nojo.
Pondo a pequena mão com a pele gasta nos dedos e unhas quebradas, ela continuou a falar com acentos de amável gratidão:
– Agradeço-o sinceramente por meu filhinho. Para ele hoje é dia de festa. Foi muito bondoso…
– Tenho que ir.
– Aonde? — perguntou admirada.
– Tenho que fazer.
– Fique!
– Não posso…
Olhou o filho, desviou os olhos para a janela por onde se avistava o céu e insistiu em voz baixa:
— Bem que poderia ficar. Eu cobriria a cara com o lenço… É que eu gostaria de mostrar-me grata pelo filho… Cubro-me, que acha?
Falava de maneira tão irresistivelmente humana, tão ansiosa de agradar! Seus olhos — olhos infantis em rosto deformado —- brilhavam com singular sorriso, não de mendiga, mas de pessoa rica que tem o que dar em agradecimento.
– Mamãe! — gritou o menino de repente, soerguendo-se no leito e estremecendo. — Estão rastejando! Venha! Acuda!
– Está sonhando, coitado — disse a mãe, inclinando-se, protetora.
Saí para o pátio e entreparei pensativo. Pela janela aberta do porão ouvi estranha canção com que a mulher ninava o aleijadinho.
Afastei-me com passos rápidos e lutando para não desatar em soluços.

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  1. airton dias
    julho 14, 2009 às 10:48 am

    como q faz um carrinho para cachorro alejado ela esta doente e eu presiso salvar ela

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