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Caim e Artêmio (Maksim Górki)

Caim era um judeu, pequeno, irrequieto, de cabeça pequena e rosto pálido e seco; farripas de cabelo ruivo e áspero cobriam-lhe as faces e o queixo, dando-lhe à cara o aspecto de um velho quadro emoldurado em pelúcia e rematado em cima pela pala de um gorro velho e sujo.
Por debaixo dessa pala brilhavam os seus olhinhos pardos, orlados também de pestanas ruivas e mal semeadas. Raras vezes esses olhos se demoravam a fixar o mesmo objeto; corriam sempre, com vivacidade, de um lado para outro, sorridentes, curiosos e aduladores.
Na boca, tinha também um sorriso permanente, e não era difícil adivinhar que aquele excesso de aparente bondade era causado pelo receio que tinha a tudo e a todos; receio esse que, num rápido instante, podia converter-se em pavor.
Por isso, conhecendo-lhe o fraco, compraziam-se muitos em aumentar, com gracejos maliciosos e pesadas ironias, esse sentimento de temor sempre vibrante no judeu, e do qual participavam, não só os seus nervos, mas até as pregas da blusa de algodão que lhe cobria o corpo esquelético, desde os ombros até os pés, num tremor contínuo.
O judeu chamava-se Khaim Aaron Pourvitz, mas toda a gente o conhecia por Caim. Era mais fácil de pronunciar e mais conhecido este nome, além de ter um certo sabor sarcástico. Ainda que dissesse mal com a sua pequenina figura medrosa, todos julgavam que ele profetizava o físico e o moral do judeu, ao mesmo tempo que representava uma afronta.
Vivia entre miseráveis perseguidos pela adversidade, que acham sempre prazer em ofender os outros, visto não disporem de outros meios de se vingar… E o judeu prestava-se admiravelmente a isso; se o ridicularizavam, limitava-se a sorrir como um culpado, e às vezes até ajudava nos gracejos, como se pagasse assim os seus ofensores o direito de permanecer entre eles.
Como era de esperar, vivia do seu negócio. Ia pelas ruas com o cabaz encostado ao ventre, e gritando com voz esganiçada:
— Graxa! Fósforos! Alfinetes! Agulhas!
E assim por diante, numa enumeração interminável de artigos.
Outro traço característico: tinha as orelhas grandes, muito derrubadas para a frente e movendo-se constantemente, como as de um cavalo impacientado.
Exercia a sua profissão em Chikhan, o bairro onde habitavam os miseráveis e famintos, toda a escória da cidade, enfim.
Chikhan era formado apenas por uma rua estreita, de casas altas, velhas e sujas; ali ficavam estabelecidas tabernas, casas de pernoitar, padarias, casas de pasto, lojas de ferros velhos, e outras, onde achavam abrigo ladrões e receptadores de furtos, vendedores ambulantes e vendedoras de hortaliça.
Havia ali, sempre, pouca luz, devido à altura das casas, muita lama e muitos bêbedos, e, no verão, um cheiro insuportável à podridão e aguardente. O sol apenas ali entrava de madrugada, com precaução e de fugida, como se temesse manchar os seus raios naquele monturo.
Por esta rua, situada na vertente da colina, e perto da ribeira, transitavam a toda hora carregadores do porto, marinheiros e moços de frete. Iam ali se embebedar e divertir-se a seu modo; e era ali também que os ladrões esperavam o momento propício de aproveitar em seu favor a embriaguez dos freqüentadores. Sobre os passeios da rua, os vendedores colocavam cestos com pão, bolos, doces, fígado e vários comestíveis quentes, de que faziam grande consumo os carregadores do porto. Os bêbedos cantavam com voz selvagem, injuriando-se; os vendilhões apregoavam as suas mercadorias, importunando por vezes os transeuntes; e os carros rodavam pesadamente, sendo-lhes difícil abrir caminho através dos grupos que se apinhavam, comprando, vendendo, esperando o que fazer ou espreitando ensejo para alguma coisa… Uma confusa gritaria levantava-se, da rua convertida em lodaçal, como um torvelinho chocando contra as paredes das casas, tão sujas, tão esburacadas, que pareciam cobertas de chagas; de tal modo a umidade havia carcomido e manchado o reboco.
Naquele sorvedouro estranho, de lodo, de ruídos ensurdecedores e de frases obscenas, formigavam dezenas de crianças de várias idades, mas igualmente sujas, andrajosas e corruptas. Por ali andavam de manhã à noite; a sua existência dependia em absoluto da piedade dos vendedores e da ligeireza das suas mãozitas para o roubo… À noite, dormiam em qualquer parte, no limiar das portas, nos caixotes que serviam de balcão aos vendedores ou no vão de alguma loja. Ao amanhecer, essas vítimas, descarnadas, raquíticas e escrofulosas, lá estavam de pé, prontas a roubar algum bocado mais apetecível e a mendigar alguma coisa que já não encontrava comprador. A quem pertenciam aquelas crianças? A todos…
Caim fazia o seu negócio em Chikhan dia a dia, apregoando as suas mercadorias, que vendia principalmente às mulheres.
Era freqüente elas pedirem-lhe vinte copeques pela manhã, com a condição de pagarem vinte e dois à tarde; e pagavam sempre. Os negócios de Caim eram muito variados: comprava camisas, gorros, sapatos, e os acordeons dos trabalhadores, que lhos vendiam para se embebedar; e também comprava os vestidos, os casacos e os pobres adornos às mulheres, fazendo depois trocas e vendas com todos estes objetos. Mas era freqüentemente burlado e maltratado. Às vezes chegavam mesmo a roubá-lo, mas ele não se queixava nunca; limitava-se a sorrir, com o seu sorriso tragicamente bondoso.
Sucedia também que alguns vadios, capazes de chegar ao assassinato, levados pela fome ou pela embriaguez, surpreendendo o judeu nalgum recanto escuro, lhe batiam ou o amedrontavam, deitando-o por terra. Trêmulo, prostrado aos pés dos seus agressores, metendo as mãos nos bolsos, o judeu repetia, em tom suplicante:
— Amigos, meus bons amigos, deixem-me ainda alguma coisa. Se não… como sustentarei o meu negócio?
E sorria gesticulando.
– Basta de lamentações!   Dá-nos somente trinta copeques.
Os bons amigos de Caim sabiam que não convém mungir demais uma vaca, desejando que ela continue a dar leite…
Levantando-se, Caim seguia rua abaixo, falando familiarmente com os meliantes, chasqueando e sorrindo; e assim terminava o incidente, com a maior franqueza e simplicidade deste mundo… Nestas aventuras, Caim apenas se fazia ainda mais lívido…
O judeu parecia não viver em muito boas relações com a colônia israelita. Era raro vê-lo acompanhado com algum confrade, e notava-se mesmo que eles lhe votavam um certo desprezo.
Dizia-se que pesava sobre ele uma excomunhão, e tempo houve em que os comerciantes lhe chamavam o Maldito.
Mas isto não era provável, apesar de Caim praticar verdadeiros atos de heresia, pois não guardava a festa do sábado nem se abstinha das comidas proibidas pelo rito hebreu. Faziam-lhe, com insistência, mil perguntas e acusações pela sua desobediência aos preceitos da religião; mas ele, encolhendo os ombros e sorrindo, esquivava-se, fugindo ou gracejando, sem nunca proferir uma palavra que revelasse uma opinião acerca dos costumes e crenças dos judeus.
Até os garotos do bairro o perseguiam, atirando-lhe às costas ou ao cabaz das mercadorias punhados de lama, cascas de melancia e outras imundícies. Caim procurava contê-los com palavras, mas, sempre que podia, ocultava-se misturando-se à multidão; e os garotos não o seguiam por temerem ficar magoados entre a turba.
Assim era a vida para Caim, por todos conhecido e de todos desprezado; vendia, tremia, sorria. E uma vez houve em que a fortuna lhe sorriu também…
Cada recanto da terra tem o seu déspota. Em Chikhan, coubera este papel a Artêmio, galhardo moço de feições corretas, corpulento, audacioso, de rosto oval e perfeito, e fartos cabelos negros e encaracolados, que lhe caíam para a fronte em caprichosos anéis, sobre as sobrancelhas aveludadas e sobre os grandes olhos úmidos e escuros. Tinha o nariz duma correção clássica, os lábios frescos e vermelhos, o bigode negro e farto. Todo o seu perfil era maravilhosamente perfeito, duma beleza simples mas irrepreensível; e seu olhar velado realçava ainda mais a sua beleza, completando-a. Com a sua arrogância, o seu peito amplo e forte, o seu perpétuo sorriso revelador de feliz indiferença, foi Artêmio o terror dos homens e o orgulho das mulheres de Chikhan. Passava a maior parte do dia deitado em qualquer sítio onde o sol batesse; e ali, pesado e indolente, respirava o ar puro e a luz radiante que lhe faziam dilatar os pulmões robustos numa forte e regular palpitação.
Tinha vinte e cinco anos e havia três que chegara à cidade, num rancho de carregadores; trabalhou durante algum tempo, mas depressa compreendeu que fácil lhe seria viver sem trabalhar, graças à sua força e à sua formosura. De camponês e carregador, transformou-se em amante de tendeiras, taberneiras e outras mulheres de Chikhan. Esta ocupação proporcionava-lhe tabaco, aguardente e comer em abundância; nunca desejou mesmo outra coisa, e, portanto, a vida deslizava-lhe tranqüilamente.
Por causa dele insultavam-se e tinham rixas as raparigas e murmurava-se também das casadas, o que era motivo de graves desavenças. Artêmio, a tudo indiferente, estirava-se ao sol como um galo, até que sentia renascer em si qualquer dos seus poucos desejos, que facilmente satisfazia.
Ordinariamente, ia deitar-se para a colina, em cuja falda se apoiava Chikhan. A seus pés via o rio; mais além, os campos que se perdiam no horizonte; e, destacando-se sobre a imensa campina, aqui e ali, aldeias que pareciam manchas pardacentas. Ao longe, a extensa verdura dos prados, luminosa e tranqüila; e, à esquerda, alargava-se toda a rua, dum extremo ao outro, na sua ruidosa e acabrunhada vida. Examinando bem aquela multidão animada e confusa, ele podia reconhecer muitos moradores de Chikhan, seus amigos e inimigos. Ouvindo o ulular feroz do miserável bairro… sem dúvida pensava em alguma coisa. Em volta de si, estendiam-se altos e espessos matagais; álamos solitários e roídos pelo tempo erguiam-se em meio de sarças e salgueiras, onde vagabundos iam dormir as bebedeiras, jogar as cartas, remendar os andrajos e descansar das fadigas ou das turbulências.
Os andrajosos não gostavam de Artêmio. Este, confiado na sua força, tratava-os com insolência; e além disso era invejado pela maneira fácil como ganhava a vida e porque a ninguém dava contas dos seus atos. O sentimento da camaradagem estava pouco desenvolvido nele, que andava sempre só, desprezando os outros. Quando alguém se aproximava, perguntando alguma coisa, Artêmio respondia e entabulava conversação, mas nunca era o primeiro a falar; se lhe pediam dinheiro para beber, dava-o, mas não convidava nunca os conhecidos. Entre eles, havia o costume de se obsequiarem mutuamente, comendo e bebendo em sociedade.
Era ali, entre matagais, que o iam sempre encontrar os mensageiros de amor enviados ao formoso Artêmio, sob a forma duma rapariguelha desgrenhada e suja, a rua, ou de um garoto andrajoso. Eram criaturas de sete ou oito anos, mas já possuídas da importância da sua missão, falando em voz baixa e misteriosamente.
– Tio Artêmio, a Tia Maria manda-me aqui para te dizer que o marido partiu e que é preciso que alugues uma barca para ir com ela ao campo, hoje…
– Ah! – exclamava indolentemente Artêmio, e os olhos sorriam-lhe.
– Olha que é preciso, não faltes…
– Sim, irei… Mas, dize-me cá. Que figura tem essa Tia Maria?
– Ë uma vendeira, claro está! — respondia o mensageiro, em tom de surpresa.
– Uma vendeira. Ah! sim! É aquela que fica ao pé da loja de ferros velhos?
– Não, a que fica ao pé da loja de ferros velhos, é a Anísia Nicolaievna.
– Sim, sim, já me recordo. Disse isto por dizer; estava gracejando… Conheço muito bem a Tia Maria.
E o mensageiro, não satisfeito, e disposto a desempenhar conscienciosamente a sua missão, explica com insistência:
– Maria é a gorda e vermelha, a que fica junto ao vendedor de peixe…
– Sim, sim; já sei… junto ao vendedor de peixe… Tens uma graça! Então eu não havia de saber? Bem; corre e dize à Tia Maria que já vou. Depressa!
Então o mensageiro, com o seu ar mais persuasivo, suplicava:
– Tio Artêmio, dá-me um copeque.
– Um copeque! E se eu o não tiver? – costumava dizer, Artêmio, metendo as mãos nos bolsos das calças. E sempre achava que dar.
Rindo alegremente, lá ia o mensageiro comunicar a resposta, pedindo à enamorada vendeira de fígado o preço do recado. Aquelas criaturas conhecem a importância do dinheiro, não só porque têm fome, mas porque fumam, bebem aguardente e têm também os seus negócios de amor…
No dia imediato a um caso destes, Artêmio mostrava-se mais que nunca inacessível às impressões da vida, e também mais formoso do que nunca, dessa formosura de animal poderoso e refestelado.
E assim lhe decorria a existência, quase inconsciente e de todo tranqüila, apesar dos zelos e das invejas que provocava; de todo tranqüila, porque a defendiam uns punhos terríveis.
Contudo, algum pensamento atormentador e sombrio se lhe condensava por vezes no olhar velado. As sobrancelhas aveludadas contraíram-se-lhe algo, e um sulco tenebroso cavava-lhe a fronte queimada do sol. Quando isto sucedia, encaminhava-se para Chikhan, e, quando o tumulto do bairro se aproximava, mais os seus olhos se amorteciam e as suas narinas se dilatavam.
Pendente do ombro esquerdo, trazia Artêmio a sua blusa de camponês; o ombro direito, apenas coberto pela camisa, deixava adivinhar a força do braço musculoso. Não gostava de botas e usava sempre alpercatas; as tiras de pano branco entrelaçadas, que lhe serviam de meias, desenhavam também os músculos da perna.
Avançava lentamente, como uma grande nuvem ameaçadora.
No bairro, conhecem-lhe os costumes, e pela sua atitude sabem já o que têm a esperar da visita.
Faz-se ouvir um murmúrio de advertência: “Aí vem Artêmio…”
Todos se precipitam para o deixar passar, retirando os mostruários de venda e as mercadorias,, os fogareiros e outros objetos; sorriem-lhe e saúdam-no com adulação. Todos o temem. Ele avança entre as manifestações de admiração pela sua pessoa e de temor perante a sua força, indiferente e silencioso, realçando, com essa aspereza, a sua formosura selvagem de tigre real.
Prende-se-lhe um pé numa canastra, e imediatamente rolam, pelo chão lamacento, tripas, fígados e bofes. O vendedor pragueja, desesperado.
– E por quê te não afastas? — diz Artêmio, tranqüilamente; mas a sua voz tem um timbre de mau agouro.
– Não podias passar por outro lado, touro? — grita o vendedor.
– Mas se me agrada passar por aqui?
Debaixo dos malares de Artêmio formam-se como que dois tumores, e os seus olhos brilham como ferros em brasa. O vendedor nota isso e murmura:
– Parece que a rua é estreita para ti!
Artêmio continua o seu caminho a passos lentos; a vítima, entrando numa taberna, pede água quente para lavar as mercadorias, e, cinco minutos depois, torna a sair gritando:
– Fígado! Bofe! Coração quente! Marinheiro, vem estrear-me! Faço-te quatro copeques de língua! Tiazinha, compra-me um coração! Quem compra coração quente?…Fígado! Bofe!
A este ruído ensurdecedor, juntam-se emanações putrefatas: o cheiro de aguardente, do suor, do peixe, do alcatrão e da cebola.
A multidão enche a rua, impede a circulação dos carros e grita, vende, compra, ri. Em cima, serpenteia uma faixa de céu azul empanado pelo pó e pelo fumo do bairro, onde até as sombras das casas parecem úmidas e gordurentas.
– Mercearias! Linhas! Agulhas!… – apregoa Caim em voz alta, por detrás de Artêmio, ainda mais terrível para ele do que para os outros.
– Pêras assadas! Comprem e comam! — grita uma vendeira.
– Cebolas! Cebolas verdes! — guincha uma outra.
—- Água fresca! – regougueja um velhote de cara vermelha, sentado ao pé de um barril.
E um, conhecido na rua pela estranha alcunha de Noivo Esfarrapado, vende a um carregador do porto uma camisa suja mas forte, que acaba de despir, e grita para o convencer:
– Bruto! Onde vais tu comprar uma camisa tão luxuosa por vinte copeques! Com ela vestida, podes pedir em casamento uma burguesa rica! Uma milionária até… Que diabo!
No mesmo instante, entre o ruído de todas aquelas vozes, ressoava uma voz infantil e clara…
– Por amor de Deus, dai um copeque a uma criança abandonada… que não tem pai, nem mãe…
O nome de Deus ressoa na rua, estranho a tudo e a todos.
– Artêmio! Anda cá! – exclama com voz meiga a mulher do soldado, Daria Gromova, vendedora de pastéis de carne. — Por onde tens andado? Por que te esqueces de nós?
– Tens feito bom negócio? – pergunta Artêmio, tranqüilamente. E, com um ligeiro pontapé, emborca o  cesto de venda. Os pastéis rolam pelo chão, e a vendedora grita, cheia de furor:
—- Vadio! Assassino! Ladrão! E não se abre a terra para te engolir, bruto! Camelo de Astracã!
Em volta dela há gargalhadas; todos sabem que Artêmio será perdoado…
Assim continua o seu caminho, tropeçando em tudo, empurrando e pisando os transeuntes. Por toda a parte o precede este grito de alarma: “Aí vem Artêmio!”
“Aí vem Artêmio!” A estas palavras, mesmo quem as ouve pela primeira vez adivinha uma iminente ameaça, e deixa o passo livre ao gigante, olhando-o com pavor e curiosidade.
Quando um vagabundo o cumprimenta, Artêmio aperta-lhe a mão de tal forma, que o faz gritar dolorosamente, praguejando injúrias. Artêmio agarra-o então pelos ombros, com as suas mãos de ferro, ou aplica-lhe outra qualquer tortura, calmo e olhando silenciosamente a sua vítima, que geme sufocada e arquejante:
— Larga-me, carrasco maldito!
Mas o carrasco era inexorável juiz.
Caim também ia parar, às vezes, às mãos rudes de Artêmio, que se divertia com ele como uma criança com um pequeno escaravelho.
A esta costumada e inexplicável diversão do atleta, chamavam em Chikhan: “a incursão de Artêmio”. Causou-lhe isto numerosas inimizades, mas ninguém se atrevia a arremeter contra a sua força hercúlea.
Uma vez, reuniram-se sete mocetões robustos, e, encorajados por toda a rua, decidiram dar a Artêmio uma lição que ficasse de emenda. Dois pagaram cara a experiência; os outros souberam retirar-se a tempo.
De outra vez, alguns tendeiros, maridos ludibriados, dirigiram-se a um carniceiro da cidade, famoso pela sua força e que já havia saído vencedor em lutas com os hércules do circo. O carniceiro, mediante uma respeitável soma, comprometeu-se a dar-lhe uma sova tão tremenda que o deixasse moribundo. Puseram-nos em frente um do outro, e Artêmio, que não recusava um desafio, partiu a clavícula ao carniceiro, e, dando-lhe um murro no peito, fê-lo cair sem sentidos. Estas aventuras realçaram ainda mais o prestígio de Artêmio, e aumentaram o número dos seus inimigos.
Continuou como sempre as suas incursões, atropelando, ao passar, quanto se lhe atravessavam diante, a tudo e a todos. A que impulsos obedecia ele? Acaso o montanhês, arrancado às suas selvas, queria assim protestar contra a maneira de viver e contra os costumes da cidade? Talvez ele sentisse confusamente que a cidade era a causa da sua perdição e que na alma e no corpo lhe tinha já inoculado o seu veneno; pressentia isso, e vingava-se a seu modo, destruindo, lutando brutalmente contra essa existência que o ia escravizando. As suas incursões acabavam por vezes na prisão, onde os agentes de polícia o tratavam melhor do que aos outros habitantes de Chikhan, assombrados perante a sua força prodigiosa, cheios de curiosidade pela sua audácia e convencidos em absoluto de que Artêmio não era um ladrão, nem o podia ser, por falta de agilidade. Mas, quase sempre, depois duma incursão, Artêmio recolhia-se a qualquer baiuca, onde alguma das suas amantes lhe fornecia todo o necessário. Depois destas explosões de cólera, ficava sombrio e apreensivo, condensando-se-lhe nos olhos uma certa expressão dura e selvagem; a imobilidade das suas feições dava-lhe um ar idiota. Então, uma tendeira qualquer, mulher robusta de trinta anos, tratava-o como se fosse dona daquele animal feroz, mas com certo terror.
– Peço mais dois copos de cerveja? Ou preferes licor? E comer, não queres? Que mal encarado hoje estás, Artêmio!
– Deixa-me em paz! — respondia ele com aspereza.
E a mulher afastava-se um momento; depois insistia de novo, procurando embebedá-lo, pois sabia que, sem beber, Artêmio não esperdiçava carícias.
E aprouve ao destino, tantas vezes irônico, aliar o formoso Artêmio ao judeu Caim.
O caso passou-se deste modo:
Depois de uma incursão, seguida de lauta ceia, Artêmio e a amante dirigiam-se, já cambaleantes, para casa desta última, numa rua estreita e deserta do bairro. Mas ali esperavam-no alguns dos seus inimigos. A bebedeira perturbava-o e Artêmio defendia-se mal. Deitaram-no por terra e durante mais de uma hora zurziram-no impiedosamente, vingando assim todas as humilhações recebidas. A companheira de Artêmio fugira, e, como a noite era escura e o lugar solitário, os agressores podiam saldar, à vontade, as suas contas com Artêmio. Não perderam a ocasião.
Quando o cansaço se apoderou deles, estavam por terra dois corpos imóveis: Artêmio e um homem a quem chamavam Bode-vermelho. Depois de pensar o que deviam fazer, resolveram ocultar o corpo de Artêmio debaixo de um velho lanchão abandonado, junto ao rio; Bode-vermelho, levaram-no consigo.
Quando arrastavam o formoso Artêmio, a dor fê-lo recuperar os sentidos, mas, adivinhando que lhe era mais conveniente dar-se por morto, conteve um grito prestes a escapar-se-lhe dos lábios. Pisaram-no, insultaram-no, e cada um continuava suas proezas naquela terrível aventura.
Michka Vaviloff gaba-se de lhe ter dado muitos pontapés do lado esquerdo, para lhe esfacelar o coração; Sukho-puieff, que lhe tinha espezinhado o estômago, porque, dilacerando aquela víscera, as más digestões lhe esgotariam as forças por mais que lhe dessem de comer: Lomakine confessara que lhe tinha calado o ventre, com igual propósito; nenhum deixava de ufanar-se, e eram excelentes as intenções de todos. Artêmio não perdia uma só palavra da conversa; ao afastarem-se, ouviu-os dizer que era homem morto.
Ficou só, na escuridão, sobre a terra úmida, nessa fresca noite de maio. Fez um esforço para se levantar, mas caiu novamente, exausto de força, vencido por uma terrível dor, aguda e penetrante. Morria de sede; recuperava os sentidos, roído pelo sofrimento. E o rio, marulhando ali perto, parecia rir-se de sua desventura e de sua impotência.
Assim passou toda a noite, sem se mover, não se atrevendo sequer a soltar um suspiro. De uma vez, voltando a si, sentiu qualquer alívio benfazejo: alguém que o auxiliava. A muito custo, pôde abrir um dos olhos e, fazendo esforço, moveu os lábios inchados e dilacerados. O sol entrava pelas frinchas da lancha. Artêmio levou uma das mãos ao rosto, notando que lho cobriam com uns trapos úmidos. Tinha o peito e o ventre igualmente cobertos de trapos umedecidos. Estava despido, e fresco era um alívio para ele.
– Beber! — disse compreendendo que alguém cuidava dele. A mão trêmula desse alguém chegou-lhe aos lábios a boca de uma garrafa.
Artêmio quis ver quem era, mas não pôde voltar a cabeça. E murmurou, com voz débil:
– Aguardente… um copo… Esfrega-me com aguardente… Poderei levantar-me?
– Levantar te? Não, não podes levantar-te. Tens todo o corpo azul, como o de um afogado. Quanto à aguardente, é fácil: há aqui uma garrafa cheia.
Falava-lhe docemente, com timidez, à pressa; e Artêmio reconhecia aquela voz, sem poder recordar a que mulher pertencia.
– Dá-me aguardente.
E de novo, a pessoa que o estava tratando, e que sem dúvida evitava ser vista, estendeu-lhe a garrafa por cima da cabeça. Artêmio, engolindo com dificuldade a aguardente, olhava de soslaio o fundo negro e úmido da lancha, todo revestido de musgo.
A aguardente reanimou-o. Artêmio suspirou profundamente aliviado, e, com voz fraca, disse:
– Puseram-me em bom estado… Mas não as perdem… Hei de curar-me… E então… esperem-me pela volta!…
Não lhe replicaram, mas ele ouviu um ligeiro ruído, como se alguém se afastasse dali… Em torno nada se movia; o marulhar do rio, o canto dos carregadores e a sereia dum vapor, ouviam-se, a distância. A sereia despediu um silvo; depois, enrouquecendo, mugia lugubremente, como se o navio se despedisse, para nunca mais voltar…
Artêmio esperava que alguém lhe falasse, mas tudo estava silencioso, sob o velho lanchão, cujo casco, coberto de limos verdes, se balouçava, como se quisesse esmagá-lo num dos seus vaivéns.
Artêmio sentia compaixão de si mesmo. Sentia-se humilhado, na sua absoluta impotência. Ele, forte e formoso, ver-se inútil e desfigurado! Com as mãos apalpava, a custo, os ferimentos e contusões do peito e do rosto. Depois, cheio de angústia e desespero, chorou e blasfemou.
Chorava e blasfemava desesperadamente, contraindo as pálpebras; e as lágrimas, grossas e ardentes, caíam-lhe pelas faces até as orelhas, aliviando-o.
– Agora… que se preparem! – murmurava, soluçando. Pareceu-lhe que a seu lado alguém chorava.
– Quem está aí? – gritou em tom ameaçador. E naquele instante teve medo, sem compreender por quê.
Essa pergunta não obteve resposta.
Então Artêmio, fazendo um esforço supremo, levantou—se sobre um cotovelo, e, lançando um grito brutal de dor, viu, na sombra, contraído e acachapado, feito uma bola, o pequeno corpo de alguém que se ocultava com o rosto entre os joelhos. Os ombros tremiam-lhe.
Artêmio disse:
– Aproxima-te!
Mas o outro, imóvel, continuava tremendo como que agitado por estranha febre.
Os olhos de Artêmio turvavam-se de dor e de surpresa, e, ao ver-se desobedecido, rugiu:
– Aproxima-te!
Mas, em resposta, só obteve palavras cheias de medo.
– Que mal te fiz? Por quê te mostras feroz contra mim? Não tratei de ti, não te lavei, não te dei aguardente? Não chorei quando tu choravas, e não sofri por te ver gemer? Oh! meu Deus, meu Deus! Até o bem que faço se converte em mal para mim! Que dano te causei eu?
O desgraçado entrecortava estas palavras de soluços, e por fim calou-se; estava no chão, e, apertando a cabeça entre as mãos movia-a para um e outro lado.
– Caim! És tu?
– Sim, sou eu…
– És tu? Aproxima-te. Anda cá, pateta!
Artêmio estava surpreso e ao mesmo tempo possuído de alegre comoção. Teve desejos de rir, quando o judeu se aproximou dele, arrastando-se timidamente, enquanto os olhos pequeninos lhe tremiam e se lhe franzia o rosto, aquele rosto ridículo e triste.
– Não tenhas medo, vem cá. Palavra, que não te bato. – Julgou necessário tranqüilizar assim o judeu.
Caim, mais perto dele já, parou: olhava e sorria com expressão tímida e suplicante, como se visse já espezinhado o seu corpo encolhido de terror.
– Pois eras tu? Quem te mandou aqui? Foi Anísia?
– Ninguém. Vim porque quis.
– Por que quiseste? É mentira.
– Não é mentira. Não minto… Vim porque quis… acredita. E vou dizer-te como, escuta… Tomava eu chá, quando ouvi dizer: “Esta noite deram uma sova em Artêmio, e deixaram-no por morto”. Não acreditei: tratando-se de ti, dava-me isso vontade de rir. “São estúpidos — pensei eu! – Esse homem é como Sansão; quem seria capaz de o vencer?” Mas vinham uns e outros e repetiam sempre: “Já lá tem a sua conta!” E falavam de ti, chasqueando e rindo, todos muito satisfeitos. Acreditei, então. Soube onde te haviam deixado; muitos vieram ver-te… “Venceram o homem mais valente da terra!” Tive pena… perdoa-me que o diga. Julguei conveniente lavar-te, e com a água recuperaste os sentidos… Que alegria a minha! Não me acreditas por eu ser judeu? Pois podes acreditar… Vou dizer-te o que pensei e qual a razão da minha alegria… Não te zangarás comigo?
– Vê este sinal da cruz? Que um raio me parta! — jurou Artêmio, com energia.
Caim, aproximando-se mais baixou a voz.
– Tu bem sabes como é horrível a minha vida, bem o sabes. Não me tens tu mesmo batido muitas vezes? Não se ri toda a gente do miserável judeu? E por quê? Vou dizer-te a verdade; não podes zangar-te comigo, porque juraste. Só digo que tu, como todos os outros, persegues o miserável judeu. E por quê razão? O judeu não é filho também do mesmo Deus, desse Deus que nos dotou, a ti e a mim, de alma semelhante?
Caim falava depressa, fazendo pergunta sobre pergunta, sem nunca esperar resposta. Brotavam-lhe dos lábios as palavras, com que ele tinha gravado no coração os ultrajes e as ofensas recebidas. Tudo ressuscitava nele, transbordando como uma torrente. Artêmio sentia-se acanhado na sua presença, e acabou por lhe dizer:
– Escuta, Caim. Esquece tudo isso. Eu seja maldito, se daqui em diante te voltar a pôr a mão… Juro-o! Nem consentirei que alguém o faça. Se alguém se atrever, despedaço-o! Ouviste?
– Ah! Ah! – exclamou Caim, triunfante. – Agora! Tu fizeste-me muito mal, e apesar disso julgo-te menos culpado do que os outros. Todos me desprezam e maltratam; tu como eles todos, mas também maltratas e desprezas os outros. Tens ofendido outros mais cruelmente do que a mim. Por isso pensava eu: “Este homem valente e robusto, ofende-me e bate-me, não por seu eu judeu, mas porque sou tão desprezível como os outros a quem ele despreza”. Assim… tive sempre por ti respeito e admiração. Temia-te e admirava-te, sabendo que podias arrancar as entranhas a um leão e vencer os filisteus. Tu, humilhava-os… e era um prazer para mim ver como tu os humilhava… Eu desejo também ser temível e forte… mas… sou uma pulga miserável.
Artêmio ria.
– É verdade! És como uma pulga.
Não compreendia bem as palavras de Caim, mas agradava-lhe tê-lo ao pé de si. E, com a lamúria indignada do judeu, muitos pensamentos lhe cruzavam o cérebro, lentamente.
– Que horas serão? Perto de meio-dia, provavelmente. Nenhuma das minhas amantes veio saber de mim. Veio apenas o judeu, ajuda-me e diz que me estima… O judeu a quem eu maltratei e ofendi muitas vezes. E admira a minha força! Recobrarei eu essa força? Se ela volta, meu Deus!
Artêmio suspirava pesadamente, e imaginava ver já os seus inimigos castigados e esmagados como ele mesmo o estava, e atirados a qualquer canto. Mas a esses iriam vê-los os seus amigos… O judeu não.
Artêmio contemplava Caim e pareceu-lhe que as suas palavras lhe amargavam a boca. Cuspiu e suspirou de novo.
E Caim falava sem cessar, com a cara contraída e todo o corpo num estremecimento:
—- … E quando tu choravas, eu chorei também. Receava pela tua força…
– Eu pensava então que alguém se estava rindo de mim — disse Artêmio, sorrindo melancolicamente.
– Admirei sempre a tua força… E pedia a Deus: “Padre Nosso, que estás no Céu e na terra, faze com que eu seja útil a este homem. Faze com que eu possa servir e que o seu vigor me defenda; que a sua energia me livre dos constantes vexames que padeço. Faze com que os meus verdugos morram às suas mãos. Assim orava, pedindo ao meu Deus que te transformasse em meu defensor, e em protetor da minha fraqueza o meu maior inimigo; assim como quis dar a Mais do que eu um protetor na pessoa do Czar, que venceu todos os povos… E tu começaste a chorar… Eu chorava também; mas imediatamente um grito teu perturbou as minhas orações.
– Mas como podia eu adivinhar, pateta? – exclamava Artêmio, sorrindo tristemente.
Mas Caim não ouvia. Balançava-se, gesticulava, arengava sempre, atropelando as palavras em uma apaixonada lamúria, em que vibram a alegria, a esperança, a adoração pela força desse homem agora estropiado, o temor e a tristeza.
– Chegou enfim a minha hora. Estou só, ao pé de ti… Todos te abandonaram e eu sirvo-te… Hás de curar-te, não é verdade, Artêmio? Não te fizeram nenhum ferimento grave? Surgirás de novo forte e poderoso?
-Sim; hei de curar-me… Nada temas… Por teres sido bom para mim, velarei por ti como se fosses uma criança.
Pouco a pouco, Artêmio ia-se reanimando; pareciam-lhe as dores menos agudas e raciocinava melhor. “É preciso interessar-me por este pobre Caim — pensava; — é tão bom e tão sincero…” e Artêmio sorria, a esta idéia… Durante algum tempo, sentiu um vago desejo que não sabia definir. E compreendendo por fim:
– Mas tenho fome! Se pudesses arranjar-me alguma coisa para comer!
O judeu levantou-se com tal rapidez, que tropeçou numa estaca. O rosto aparecia-lhe transfigurado; refletia-se nele uma forte expressão de energia, ao mesmo tempo simples e infantil. “Artêmio, o atleta terrível, pedia-lhe de comer, a ele, Caim!”
— Eu te darei tudo o que queiras. Já o tenho aqui preparado, a um canto. Quem está doente, precisa alimentar-se bem; sei isso bem. Pelo caminho comprei um rublo de comida!
– Depois faremos contas e te pagarei dez rubros. Posso pagá-los. Não os tenho, mas em dizendo: dá-me! – dão-me tudo o que quero.
Ria abertamente, e Caim, vendo-o rir, alegrava-se e ria também.
– Bem o sei, bem o sei. Dize-me o que queres, e tudo terás. Por ti, sou capaz de tudo.
– Bravo! Começa por dar fricções de aguardente. As fricções primeiro, e depois o comer. Mas tu saberás fazer isto?
– Por quê não? Hei de fazê-lo como se fosse um médico.
– Então, mãos à obra; e, quando acabares, me levantarei.
– Levantar-te? Isso é impossível!
– É impossível? Tu verás. Pensas que vou ficar aqui deitado? Tem graça. Dá-me depressa as fricções, para ires depois à casa da pasteleira Mokewna, dizer-lhe que quero instalar-me lá na cocheira; que ponha palha. É ali que irei convalescer e restaurar as forças. Hão de pagar-te bem o trabalho. Descansa.
– Acredito — respondeu Caim, deitando aguardente no peito de Artêmio e dando princípio às fricções. — Creio em ti, mais do que em mim próprio. Ah! Eu conheço-te bem…
– Fricciona, fricciona… Mais força… mais força ainda… Julgas que me dói? É até agradável. Com mais força, vá! – rugia Artêmio.
– Farei tudo o que me peças. Se te agrada, atiro-me ao rio — dizia Caim, continuando nos seus protestos de dedicação.
– Bom, bom… Mas! Agora as costas… Com mais força… Ah! Renegados! Em que estado me deixaram!… E, como sempre, a causa de tudo é uma mulher. Se não fosse uma mulher, eu não teria bebido. E estando em perfeito juízo, quem se atreveria comigo? Ninguém!
Caim, desempenhando admiravelmente o seu papel de enfermeiro, insinuou:
– As mulheres!… As mulheres são os pecados do mundo. Nós, os judeus, temos uma oração da manhã, que diz: “Bendito sejas, Deus Eterno, Senhor do mundo; bendito sejas, porque me não fizeste mulher…”
– Eh! Eh! Isso é verdade? – exclamou Artêmio. -Vocês dizem essa oração? É curioso! Na verdade, o que é a mulher? É um animal perverso, não há dúvida, mas, apesar disso, não podemos viver sem ela. Rezar a Deus dessa forma, é que é ofensivo para as mulheres. Pensas que não têm também sentimentos?
Imóvel e enorme, Artêmio, cujas contusões ainda mais volumoso o tornavam, continuava estendido no chão; e a seu lado Caim, pequeno e enfezado, cansado e ofegante, esfregava-lhe as costas, o peito, a barriga; o cheiro da aguardente fazia-o tossir.
A todo o instante passava gente pela margem do rio; ouviam-se conversações e rumor de passos.
Uma estreita faixa de areia separava do rio a velha lancha emborcada. O sítio era pouco freqüentado, mas, naquele dia, sem dúvida, tinha para todos um particular interesse. Caim e Artêmio viam continuamente aproximar-se os curiosos, que se sentavam no fundo do barco, batendo com os pés nas tábuas. Isto irritava Caim. Deixou de falar, e, arrastando-se silenciosamente para junto de Artêmio, sorriu compadecido e assustado:
– Tu ouves?
– Ouço — respondia Artêmio, satisfeito. — Querem saber quando estarei restabelecido. Precisam preparar a costelas… Ah! Ah! As almas do diabo! Evidentemente, foi grande contratempo para eles não me terem rebentado… A proeza de nada lhes serviu.
– Sabes o que te digo? — advertiu Caim receoso, falando ao ouvido de Artêmio. – Sabes o que te digo? Se me vou embora e te deixo só, entram aqui, e…
Artêmio riu a bandeiras despregadas.
– Pois tu, pobre diabo! Pois tu julgas que têm medo de ti? Que não se aproximam por tua causa?
– Posso servir de testemunha.
– Se te dessem um murro… Ah! Ah! Ah! ias servir de testemunha… para o outro mundo.
O riso de Artêmio tirou o medo de Caim. O judeu sentia agora, em seu peito débil e oprimido, uma feliz e absoluta confiança. A sua vida tomava outro rumo; diante dele erguia-se, agora, um braço forte contra todos os golpes e todas as injúrias, que até então o tinham torturado impunemente.
Decorrera cerca de um mês.
Era meio-dia, a hora em que Chikhan tem maior animação e vida; quando os vendedores se vêem rodeados por grupos compactos de trabalhadores que chegam do porto e do cais, com o ventre vazio e a imperiosa necessidade de comer; quando toda a rua cheira a carnes cozidas. A essa hora, disse alguém a meia voz:
Vem aí Artêmio.
Alguns esfarrapados que andavam pela rua, aguardando ocasião favorável para a prática das suas proezas, desapareceram rapidamente, sem ninguém saber por onde.
Os moradores de Chikhan começaram a voltar os olhos para um e outro lado, com inquietação e curiosidade.
Artêmio era esperado com vivo interesse e houve discussões acaloradas sobre o modo por que ele faria a sua apresentação.
Como sempre, Artêmio avançava tranqüilamente, como um homem pacato que se passeia. Nada de particular havia no seu aspecto. Como de costume, vestia camisa e blusa, trazia o gorro inclinado sobre uma orelha, e caíam-lhe para a testa, como dantes, os anéis do seu cabelo preto. Trazia o polegar da mão direita metido no cinto e a mão esquerda no bolso das calças; ao caminhar, arqueava-se-lhe o peito de atleta; unicamente o seu rosto se tinha transformado um pouco, adquirindo uma expressão inteligente, o que sempre sucede depois de uma doença. Avançava, respondendo às saudações e cumprimentos, com uma leve inclinação de cabeça.
Todos o seguiam com os olhos, e erguia-se um ligeiro murmúrio de surpresa e admiração perante aquela força indestrutível, que ninguém conseguira abater. Havia no bairro muita gente preocupada com o seu restabelecimento, falando com animosidade e injuriando os que não tinham sabido destruir os pulmões do gigante e partir-lhe todas as costelas; porque é impossível haver um homem que não possa ser morto. Outros faziam conjecturas sobre o modo por que o atleta se vingaria do Bode-vermelho e da sua quadrilha.
Mas, quanto maior é o poder, mais atrai. A maioria inclinava-se, rendendo culto à força de Artêmio, cujo prestígio aumentara.
E Artêmio entrou na Gabrilovka, o clube de Chikhan.
Quando à porta da taberna apareceu a sua alta e potente figura, ainda ali havia poucos fregueses; e, entre sufocadas exclamações de surpresa, não faltou quem precipitadamente se escondesse no recanto mais afastado e escuro da úmida cave, enegrecida pelo fumo do tabaco, suja e gordurenta.
Sem fixar coisa alguma, os olhos de Artêmio percorreram lentamente toda a cave, e os seus lábios responderam à adulação do taberneiro Savka Kliebnicoff, com uma pergunta:
– Ainda não veio Caim?
– Não deve tardar… Costuma vir a esta hora. Sentou-se perto duma janela gradeada de ferro, pediu chá, e descansando sobre a mesa as mãos enormes, pôs-se a olhar os que estavam, com ar indiferente.
Eram dez homens, todos esfarrapados, e tinham-se apinhado em volta de duas mesas, observando dissimuladamente, dali, o colosso. Quando os seus olhos se cruzavam com os de Artêmio, sorriam-lhe amigáveis e humildes, desejosos de se aproximar e travar conversa, sem que atrevessem a fazê-lo, porque Artêmio se mostrava sombrio e reservado. Kliebnicoff, ocupado ao balcão, cantarolava, observando-o de soslaio.
Pela janela entrava o ruído ensurdecedor da rua: injúrias violentas, juramentos e exclamações dos vendedores. Perto, caíam garrafas, partindo-se no chão. Artêmio começava a aborrecer-se, naquela baiúca mal ventilada. E, levantando a voz, disse tranqüilamente:
– E vocês, suas feras, por quê é que tão depressa se tornaram mansos? Que significam os vossos olhares e o vosso silêncio?
—- Nós estamos prontos a conversar contigo, se tu quiseres — disse o Noivo-esfarrapado, levantando-se e acercando-se de Artêmio.
Era um homem delgado, vestido com uma blusa de algodão e umas calças de soldado; calvo, barba em ponta, e olhos avermelhados, pequenos e maliciosos.
– Segundo dizem, estiveste doente? — perguntou cautelosamente, sentando-se em frente de Artêmio.
– Sim, e depois?
– Nada. Mas o que tiveste?
– Não o sabes?
– Como hei de sabê-lo? Não fui eu que o tratei…
– Não mintas mais, canalha! — disse Artêmio com um sorriso. — Para que mentes, se sabes o que foi?
– Sim, é verdade, sei! — respondeu sorrindo o Noivo-esfarrapado.
– Então para que mentias?
– Porque, em certos casos, é prudente mentir…
– Prudente?… Canalha que tu és…
– Se te tivesse dito logo a verdade, é possível que não gostasses…
– Era preciso, para isso, que eu te desse qualquer importância…
– Obrigado.   Não me oferece um copo de aguardente para celebrar o teu restabelecimento?
– Pede-o.
O Noivo-esfarrapado, animando-se, pediu meia garrafa.
– Que bela vida, a tua! Como tu vives, Artêmio! Nunca te falta dinheiro.
– E depois?
– Nada… As mulheres tiram-te de apuros… As malditas mulheres…
– E a ti, nem sequer te vêem…
– Paciência. Nem todos temos os pés tão preciosos para seguir pelo teu caminho — suspirou o Noivo.
– As mulheres gostam dos homens fortes e sadios. E tu, o que és? Nada. Eu sou um homem… Um homem, ouviste bem?
Era este sempre o tom em que Artêmio falava a vagabundos. A sua voz indiferente e arrastada, imprimia um cunho especial às palavras, que eram sempre rudes e agressivas. Compreendia talvez que aquela gente, em muitas coisas de pior condição, era em muito e por mais inteligente do que ele.
Caim chegou com a sua caixa de venda encostada ao peito, e um fato de percal amarelo no braço esquerdo. Tomado do seu habitual temor, permanecia à entrada da taberna, estendendo o pescoço e examinando, com um sorriso inquieto, o interior da baiúca. Vendo Artêmio, todo o seu rosto brilhou de alegria.
Artêmio olhava-o e sorria.
– Aproxima-te – disse ele a Caim. E dirigindo-se ao Noivo-esfarrapado, continuou: – E tu vai-te, dá lugar a este homem honrado.
A cara arrepiada, grosseira e vermelha, do Noivo, ficou um momento petrificada pela surpresa e pela ira. Levantou-se, olhou os companheiros, tão surpreendidos como ele, e. fitando Caim, que se aproximava lento e silenciosamente, cuspiu para o chão com raiva.
– Pff!
Depois, acercou-se novamente dos companheiros, entre os quais se ergueram murmúrios sarcásticos e furores covardemente reprimidos. Caim sorria satisfeito, e desvanecido, e olhava de vez em quando para os vagabundos.
Artêmio disse-lhe, então:
– Queres tomar chá comigo, comerciante? Pediremos pastéis. Não desejas comer pastéis? Por que motivo estás a olhar para aqueles? Bah! Cospe-lhe na cara, sem medo… Espera! Vais ver o que lhes digo.
Levantou-se, e, deixando cair a blusa que trazia aos ombros, aproximou-se da mesa onde estavam os despeitados. Aprumado e vigoroso, com o peito levantado, os braços arqueados e dispostos para a luta, soberbo em toda a plenitude da sua força, acercou-se do grupo, com um sorriso de escárnio nos lábios; eles, vendo-o perto, emudeceram e dispuseram-se a fugir.
– Vá! – disse Artêmio. – Que querem?
Desejaria  atirar-lhes à cara uma frase  terrivelmente cruel, mas nada lhe ocorreu, e conteve-se.
– Está bem, – respondeu o Noivo, a meia voz. – Se nada mais tens a dizer-nos, é melhor que nos deixes em paz. Vai-te para onde não faças dano!
– Cala-te! – ordenou Artêmio, franzindo o sobrolho. – Estás raivoso e rói-te a inveja, por eu ser amigo de Caim e te desprezar a ti… Pois ficai-o sabendo bem: o judeu vale mais que vocês todos, porque pratica a bondade humana e vocês nem o conhecem. Tem sido um mártir até agora, mas, de futuro, protejo-o eu. Se alguém o ofende, que se acautele. Juro que me não me limito a desancá-lo. Hei de sugar-lhe todo o sangue, gota a gota!
Os seus olhos tinham um brilho feroz, as veias do pescoço pareciam quererem rebentar e as faces estremeciam-lhe.
– Que me tenham espancado, encontrando-me bêbedo… pouco importa! Não perdi a energia e tenho mais duro ainda o coração! Ficai-o sabendo: defenderei Caim: e se alguém se atreve a molestá-lo, com uma palavra que seja, asseguro que não torna a repetir. Que se lembrem disto…
E, respirando satisfeito, como quem se livra dum fardo incômodo, voltou-lhe as costas.
– Boa idéia! — murmurou o Noivo-esfarrapado, ao ver que Artêmio se sentava novamente junto de Caim.
O judeu tinha presenciado aquela cena, fixando em Artêmio os seus olhos assombrados, cheios de um indizível sentimento.
— Ouviste? — perguntou Artêmio. – Já ficas sabendo. Quando algum te ofender, prevines-me. E eu lhe quebrarei os ossos…
Caim murmurava qualquer coisa: uma oração a Deus, ou um agradecimento ao homem. O Noivo e os seus amigos cochichavam; depois, abandonaram a taberna, um a um. O Noivo, ao passar junto de Artêmio, cantarolou:
Um sábio sem ter dinheiro
Não vale nada…
E com ele o bruto goza Vida folgada.
Olhou o colosso, frente a frente, e, acompanhando a cantiga duma careta expressiva, continuou:
Venha dinheiro,
E comprarei os brutos
Do mundo inteiro…
E saiu para a rua, apressadamente.
Artêmio pôs-se a vociferar, olhando em volta. Na cova escura e asfixiante, só tinham ficado três pessoas: Artêmio, Caim e Kliebnicoff ao balcão.
Os olhinhos de raposa do taberneiro, cruzaram-se, em um olhar humilde, com os do atleta.
– Fizeste bem, Artêmio — disse ele, acariciando a barba. – Procedeste segundo os preceitos do Evangelho… Como na parábola do Bom Samaritano… Caim estava coberto de chagas e de pus, e tu te aproximaste dele…
Artêmio não ouvia essas palavras, mas sim o seu eco. Esse eco, repercutindo-se pela abóbada, e reforçado naquele ambiente empestado e denso, penetrava nos ouvidos. Artêmio, silencioso, movia a cabeça vagarosamente, como se aquela voz lhe perturbasse os pensamentos. E as palavras do taberneiro, vibrando sem cessar naquela pesada atmosfera, insistentes e pertinazes, faziam-lhe mal. Artêmio sentia o coração oprimido.
Olhava obstinadamente Caim. Queimando-se e soprando, com a cabeça caída para a mesa, o judeu sorvia o chá, avidamente, levando a xícara aos lábios com mão trêmula. De vez em quando, Artêmio surpreendia um olhar furtivo de Caim, e os olhos do judeu tornavam-no ainda mais triste e preocupado. Uma sufocada sensação de desgosto, cuja causa desconhecia, lhe esmagava o peito. Olhava ferozmente em volta de si, e os seus olhos cada vez se tornavam mais sombrios. Na cabeça, rodavam-lhe, como pedras de moinho, pensamentos ainda mal definidos. Dantes não o inquietavam; mas vieram surpreendê-lo durante a doença… e não sabia como libertar-se da sua opressão.
As janelas, gradeadas como as de um cárcere, deixavam entrar o ruído ensurdecedor da rua; a abóbada suspendia-se pesadamente acima deles, com a sua viscosa e suja umidade; o chão estava coberto de manchas gordurosas; aquela criatura enfezada e medrosa, toda em estremecimentos, olhava a medo e calava-se… E, pelos campos, os trigos maduros doiravam a terra. Nos campos, para além do rio, a erva crescia, tudo palpitava de vida; e quando o vento agitava as searas, arrastava de lá perfumes tentadores…
– Por quê não dizes nada, Caim? – perguntou Artêmio. — Ainda me temes? Ah! És um infeliz!
Caim levantou a cabeça, inclinando-a novamente, de uma forma estranha. O seu rosto tinha uma torturada expressão de dúvida.
— Que podia eu dizer-te? Com que língua posso falar-te? Com esta? – e Caim mostrava a ponta da língua. — Com a mesma que me serve, quando falo a outro qualquer? Devo eu falar contigo como falaria a um outro? Pensas tu que não compreendo quanto te vexa sentares-te a meu lado? Quem sou eu e quem és tu? Pensa nisto, Artêmio, alma bondosa e tão grande como a de Judas Macabeu! Que farias tu, se soubesses a razão por que Deus te criou? Ah! Ninguém conhece os desígnios de Deus; ninguém pode adivinhar para que foi dada a vida. Mal sabes quantos dias e quantas noites eu tenho levado a pensar nisto: para que vivo eu? De que serve a minha alma? De que serve o meu espírito? Que sou eu para os outros homens? Sou como uma escarradeira a que eles arrojam a sua saliva empeçonhada. E os homens, o que são para mim? Canalhas, que de todos os modos me ferem o corpo e a alma… Que faço eu no mundo? O que faço, se só conheço a desgraça, e não me doira a existência nem um raio de luz?
Falava com veemência, baixando a voz; e como sempre, quando a sua alma atormentada e triste se comovia, um estremecimento agitava-lhe as faces.
Artêmio não compreendia bem aquelas reflexões; mas, escutando-o, adivinhava as queixas de Caim. Isto aborrecia-o e impacientava-o mais ainda, produzindo-lhe quase uma dor física.
– Bem! Aí voltas às tuas lamentações – e meneava a cabeça, contrariado. — Já sabes que prometi defender-te.
Caim sorriu com amargura.
– Como poderias tu defender-me contra o meu Deus? Ele também me persegue…
– Seguramente. Nada posso contra Deus – respondeu Artêmio com ingenuidade, aconselhando o judeu em tom compassivo. — Tem paciência… Nada se pode fazer contra Deus.
Caim, olhando o seu protetor, sorria… Sorria, compadecendo-se dele. Tinha chegado a hora de também poder compadecer-se de alguém. Teve a desgraça compaixão da força, e entre uma e outra estabeleceu-se uma corrente que se aproximava.
– És casado? — perguntou Artêmio.
– Sim; tenho uma família numerosa… Demasiadamente numerosa para os meus poucos recursos.
– Que fatalidade! – E ao dizer isto, Artêmio queria poder explicar a si mesmo, como houve uma mulher capaz de unir-se ao judeu; e olhava-o com maior curiosidade, tão raquítico, tão insignificante e débil, tão sujo e tímido.
– Tive cinco filhos; restam-me quatro. Minha filha Khaia tossia muito, tossia sempre… e morreu. Meu Deus! Minha pobre mulher também está enferma. Tosse como a filha, tosse constantemente.
– Tens muita coisa que te preocupe! – disse Artêmio, e ficou pensativo.
Entraram na taberna vários vendedores, e, dirigindo-se ao balcão, falaram em voz baixa a Kliebnicoff. Este contava-lhes alguma coisa, misteriosamente; olhavam todos de soslaio para o formoso Artêmio e para o mísero Caim, sorrindo com ar de mofa. O judeu reparou nesses olhares e estremeceu. Artêmio, embebido nas suas cogitações, via-se já nos campos, empunhado a foice e ouvindo cair com suave murmúrio a erva cortada…
– Vai-te, Artêmio; e se te agrada mais ficar, irei eu. Esta gente ri-se de ti, por causa.
– Quem se atreve a rir? — gritou Artêmio, voltando à realidade das coisas, e lançando em volta olhares furiosos.
Mas todos os fregueses pareciam estar sérios e entretidos uns com os outros. Artêmio não encontrou a quem provocar. E, franzindo o sobrecenho, disse a Caim:
– Mentes. Mentes como de costume e queixas-te sem razão… Cuidado. Isto não é brincadeira… Queixa-te quando te ofenderem. Ou acaso o fizeste para me experimentar?
Caim sorriu-se e calou-se.
Estiveram silenciosos algum tempo. Depois Caim, levantando-se, pegou na caixa das mercadorias e dispôs-se a sair. Artêmio estendeu-lhe a mão.
– Vai-te?… Que faças bom negócio. Eu fico.
Com as duas mãos fracas e pequenas, Caim apertou a mão do colosso e saiu.
Chegando à rua, procurou um canto onde se escondesse, para observar. Quase a seguir, apareceu Artêmio à porta da taberna. O seu rosto franzido como o de quem receia tropeçar com qualquer coisa desagradável. Fixava a vista nos grupos dos que passavam. Depois, o seu rosto retomou a habitual expressão de indolência e de indiferença, e encaminhou-se para o alto da colina. Procurava sem dúvida o seu costumado retiro.
Caim seguiu-o, com um olhar triste, até o perder de vista; depois apoiou a fronte pálida à grade de ferro do escuro armazém onde se tinha refugiado.
As ameaças de Artêmio deram resultado; ninguém mais perseguiu o judeu.
Caim via claramente que as sarças do seu caminho eram menos pungentes. Agora passavam por ele como se não o vissem, como se ele tivesse deixado de existir. E como dantes ele deslizava por entre todos, apregoando as suas mercadorias; mas nem poisavam intencionalmente já, nem lhe batiam, nem lhe escarravam na caixa da venda. Mas, em compensação, sentia agora a hostilidade, a frieza, as reservas que o humilhavam tanto como os motejos e as agressões.
Atento a quanto o podia interessar, observava as novas atitudes tomadas por todos, perguntando a si mesmo o que resultaria de tudo aquilo. Pensou muito, sem compreender o motivo por que o tratavam assim. E recordava-se de que, tempos antes, lhe falavam amigavelmente umas vezes por outras, perguntando-lhe como iam os seus negócios, e até gracejando com ele, sem maldade.
Caim estava pensativo. Não é raro um homem julgar ditoso o seu passado escutando tudo atentamente, e com olhares perscrutadores. Um dia, chegou-lhe aos ouvidos uma canção, composta pelo Noivo-esfarrapado, o trovador e o poeta da rua, que ganhava a vida tocando e cantando. Serviam-lhe de instrumento oito colheres de pau, que ele fazia girar entre os dedos ou batia contra as bochechas e o ventre; obtinha assim o acompanhamento preciso para as canções que ele próprio compunha. A música era pouco agradável, mas exigia em quem a executava uma agilidade de prestidigitador. E a agilidade, em todas as suas manifestações, era muito apreciada pelos moradores de Chikhan.
Uma vez, Caim foi tropeçar justamente contra um grupo, no meio do qual, munido das suas colheres, o Noivo fazia habilidades e gritava com vivacidade:
– Nobres cavalheiros e futuros presidiários! Ouvi uma canção que acabo de tirar do forno, quentinha. Custa um copeque por cabeça, só um copeque. Atenção!
Entra o sol pela janela,
E toda a casa é um encanto…
Se em vez do sol entro eu,
A ninguém agrado tanto.
– Isso já é velho! Olha que novidade! – exclamou um espectador.
– Sem dúvida! Já a tenho cantado várias vezes! Mas não dou o pão sem receber a paga — disse o Noivo, batendo com as colheres, e continuando:
Não é a vida a minha vida, É da sorte uma traição. Meu pai morreu enforcado
E enforcado meu irmão,
Mas chegada a minha vez, A corda quebrou então…
– Que desgraça! – gritavam algumas vozes, entre o público.
Cada um deu um copeque ao Noivo-esfarrapado; conheciam-lhe o feitio e estavam certos de que não era inventada a história da nova canção.
– Vou começar. Lá vinha outra!
As colheres bateram furiosamente:
Aliança concedeu.
Querem agora imitá-los
Um asno mais um judeu. Salta o boi montes e vales, Vai a aranha às cavaleiras… O judeu vende o imbecil
A casadas e solteiras…
Ai, amores!
Quem quiser ter o imbecil, Há de pagar-lhe os favores!
– Alto! Saúdo respeitosamente o senhor Caim. Ilustre comerciante, agrada-te a minha canção? Não a fiz para ouvidos de judeu… Anda! vai aos teus negócios, que não queremos ver-te…
Caim, sorrindo ao artista, afastou-se com o coração alanceado por um pressentimento.
Era feliz desde que Artêmio o protegia; mas ao mesmo tempo receava novas desgraças. Descia a rua com a sua caixa de mercadorias, certo de não ser atropelado e de não lhe roubarem os seus copeques. Via todos os dias o seu amigo Artêmio, mas não se acercava dele, preso sempre à mesma timidez, e esperando que o atleta se lhe dirigisse primeiro, o que raras vezes sucedia.
– Oh lá! Como vai isso? – perguntava-lhe.
– Bem, obrigado. Vivo, graças a ti — respondia Caim, cujos olhos brilhavam de alegria.
– Ninguém te tem ofendido?
-E quem se atreveria a isso, sabendo que me proteges?
– Bem. Se te acontecer qualquer coisa, avisa-me.
— Eu te direi o que houver.
– Está bem! – e os olhos de Artêmio fixavam-se com severidade na figurinha de Caim; depois despedia-o: – Vai tratar dos teus negócios.
Caim separava-se do seu protetor, reparando nos olhares trocistas e maliciosos do público – aqueles olhares que dantes tanto o faziam tremer.
Passou-se um mês.
Uma tarde, quando Caim se dispunha a ir para casa, encontrou-se com Artêmio. O atleta chamou-o. Caim, aproximando-se rapidamente, notou que Artêmio estava sombrio e ameaçador como uma nuvem de outono.
– Já terminaste os teus afazeres? – perguntou.
– Sim; ia agora para casa.
– Tenho que te dizer. Vem comigo.
Pesado e enorme, começou a andar. Caim seguia-o.
Deixaram a rua e continuaram pelo caminho que margina o rio, e onde Artêmio depressa encontrou um sítio a seu gosto, um barranco perto da água.
– Senta-te! – disse para Caim.
O judeu sentou-se, tímido, olhando o seu defensor. Artêmio, tranqüilamente, começou a fazer um cigarro, enquanto Caim olhava o céu, a floresta de mastros que se levantavam na margem oposta e a água que parecia dormir no silêncio da tarde, fazendo ao mesmo tempo mil conjecturas acerca do que Artêmio teria para lhe dizer.
– Bem… Como vai isso?
– Perfeitamente; já nada temo.
– Bem.
– Graças a ti.
– Ouve.
Decorreram alguns instantes. Artêmio fumava e respirava com avidez. O judeu, perseguido por um triste pressentimento, aguardava com receosa angústia o que o seu amigo tinha para dizer-lhe.
– Então, já ninguém te ofende? Já não te perseguem?
– Por medo de ti. São como cães humildes, e tu… como um leão soberbo. Eu sou…
– Espera!
– Que vais dizer-me? – perguntou, com voz trêmula.
– Que vou dizer-te?… Não é fácil explicá-lo.
– De que se trata?
– Vai ver… Falemos francamente… e acabemos com isto.
– Mas o que é?
– Isto não pode continuar assim. Não posso mais… não posso mais.
– O quê? Não podes mais… o quê?
– Desagrada-me isto… Esta vida não é própria de um homem como eu… — disse Artêmio, suspirando.
– Mas em que modo de vida falas?
– Tudo isto… Sim. Tu e tudo… Já não quero saber de nada… não me importa o que te suceda…
O corpo de Caim contraiu-se, como se o esmagassem dum só golpe.
– Se te maltratarem; se te mortificarem… sofre… Não venhas queixar-te… não te posso ajudar… nem te defenderei. Compreendeste? Não posso mais.
Caim guardou um silêncio de morte.
Artêmio, terminadas estas palavras, respirou com mais liberdade, como se tivesse conseguido libertar-se de um peso que o oprimia. E prosseguiu com mais clareza.
– Estou resolvido a pagar o serviço que me prestaste. Quanto queres? Dou-te o que me pedires. Mas não me obrigues a ter piedade… É um sentimento que desconheço… Quis encher-me de compaixão, dominar-me, vencer-me… Só aparentemente o consegui. Pensando: “Faz-me pena, não soube ter pena… Foi um engano, não tenho dó de ti.
– Por quê sou judeu? —- perguntou Caim, humildemente.
Artêmio olhou-o de lado, pronunciando ao mesmo tempo esta frase, que lhe saía do coração:
– Que… Judeu? Todos somos judeus, perante o Eterno.
– Então, por quê?
– Porque não. Não tenho compaixão de ti, nem de ninguém… Compreende-me… A outro não o explicaria… não me daria a esse trabalho. Dava-lhe um pontapé, e ele me compreenderia. Mas a ti…
– Quem me defenderá, agora, contra a canalha? Quem há de livrar-me dos meus inimigos? – perguntava, triste e humildemente, Caim, repetindo as palavras do salmo.
– Já não posso. Seria impossível! — respondeu Artêmio, fazendo com a cabeça sinais negativos. — Não tenho dó de ti. Para recompensar o que por mim fizeste, dou-te dinheiro.
– Ah! Deus Todo Poderoso! Deus Eterno! Deus vingador! Surge e arroja sobre a terra o Juízo Final! – orava Caim convulsivamente.
Era um anoitecer de outono suave e brando. O rio refletia os últimos raios de sol poente, doce e triste. As figuras de Artêmio e de Caim perdiam-se na sombra do barranco.
– Reflete um pouco — insistia, com entoação melancólica e persuasiva, o atleta. — Que hei de fazer? Compreendes que… preciso de me vingar… Lembra-te de que me surpreenderam e espancaram brutalmente…
Estava agitado, batia os dentes; depois, apoiando a cabeça entre as mãos:
– Conheço-os bem… a todos.
– A todos? — perguntou Caim, abatido.
– A todos. Preciso de ajustar contas com eles, e tu és um obstáculo, um estorvo para mim.
– Por quê?
– Não, não és tu precisamente que me estorvas; mas sinto raiva contra todos os homens. Sou pior que todos? Mão o sei. E tu? Não és nada, e eu tropecei em ti. Compreendes?
– Não — disse Caim, com humildade.
—- Não compreendes? Vamos! Estás doido! É preciso que eu sinta piedade por ti? Sim ou não? Pois bem: agora não posso sentir piedade por ninguém. Não vibra em mim nenhum rasgo de compaixão. Quantas vezes hei de repetir-te isto?
E, dando uma palmada no ombro do judeu, continuou.
– Não me compadeço de ninguém. Compreendes?
Houve um prolongado silêncio. Em volta dos dois homens, naquele ambiente perfumado e morno, pairavam no ar os murmúrios das ondas, que apareciam e desapareciam, como suspiros e queixas arrastados pela corrente.
– Que pensas fazer agora? – perguntou Caim; mas Artêmio não respondeu; estava como que adormecido; pensava talvez. – Como hei de viver, sem que tu me protejas? — acrescentou o judeu, levantando a voz.
Artêmio não respondeu. Depois, levantando os olhos para o céu, disse:
– Só tu deves decidir do que tens a fazer.
– Meu Deus! Meu Deus!
Não posso aconselhar a ninguém como há de viver
– acrescentou pausadamente Artêmio.
E como tinha dito o que desejava dizer, ficou-se tranqüilo e sereno.
– Eu tinha já adivinhado que tudo acabaria assim. Quando me aproximei de ti para te socorrer, quando te vi quase morto, quando tu tinhas o corpo cheio de ferimentos… já adivinhava que tu não serias por muito tempo meu protetor – disse Caim, dirigindo um olhar súplice ao formoso Artêmio. Mas este havia já fechado os olhos.
– Tomaste, acaso, essa resolução, por se rirem de ti? – perguntou Caim, receoso em voz baixa.
– Isso que me importa? – e Artêmio sorria, abrindo os olhos. – Se quisesse, levava-te aos ombros por toda a rua, sem temer que ninguém se risse. Que riam! Mas assim nada ficará resolvido. É preciso fazer tudo em harmonia com a verdade… a verdade como a sentimos n’alma. Eu, irmão, digo-o francamente: não gosto de te ver aqui… É a verdade…
– Portanto, queres que me afaste, que me vá embora…
– Sim; vai-te, antes que seja noite. Nada temas por hoje… Nada receias. Ninguém ouviu o que dissemos.
– E tu não o dirás?
– Não, mas não te aproximes de mim.
– Está bem! – murmurou o judeu com tristeza.
– Seria melhor que te fosses com teu negócio para outra parte – acrescentou Artêmio, com soberana indiferença. – A vida é que é dura, todos procuram fazer ao próximo o maior dano possível…
– Mas para onde hei de ir?
– Isso é contigo.
– Adeus, Artêmio.
E, com a mesma indiferença, estendeu-lhe a mão enorme, apertando fortemente os dedos mirrados do judeu.
– Não fiques mal comigo.
– Não fico — suspirou Caim, com voz entrecortada de soluços.
– Perfeitamente: será melhor assim. Pensando bem, acabarás por me dares razão. Tu és diferente de mim; não posso ter-te por companheiro. E é possível que eu viva só para ti? Já vês…
– Adeus.
– Passa bem.
Caim afastou-se, pela margem do rio, de cabeça baixa, todo curvado para o chão.
Artêmio, o formoso, acompanhava-o com os olhos; e momentos depois tornou a estirar-se na areia, apoiando a cabeça nas mãos e fitando o céu, donde a luz ia desaparecendo. Caía a noite.
Sons indecisos vibravam e desvaneciam-se, no ar. O rio, monótono e triste, marulhava sobre a margem.
Depois de ler caminhado um pouco, Caim retrocedeu, acercando-se novamente de Artêmio, ainda estendido no chão, e perguntou humildemente:
– Não será possível que tenhas mudado de idéias?
Houve um silêncio.
– Artêmio! – chamou Caim, depois de esperar por muito tempo uma resposta. — Estiveste zombando de mim? Tudo isso não seria para me assustar?… – continuava o judeu, com a voz trêmula e as lágrimas nos olhos. – Artêmio, recorda-te daquela noite em que me aproximei de ti para socorrer. Ninguém te acudiu, então; todos te abandonaram.
Teve como resposta apenas um fraco gemido. Artêmio dormia. Caim permaneceu por muito tempo junto do atleta, contemplando fixamente o seu rosto sereno e tranqüilo, cujas feições o sono tornava suaves. O peito de Artêmio movia-se num ritmo cadenciado, e, sob o bigode negro, apareciam-lhe os dentes brancos e fortes. Parecia sorrir.
Com um profundo suspiro, o judeu inclinou a cabeça ainda mais, e afastou-se de novo pela margem do rio. Tremia de horror diante da vida.
Caiu a noite. A lua iluminou a ribeira silenciosa e deserta…

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