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No mar da Criméia (Anton Tchekhov)

I

As trevas tornam-se cada vez mais densas. A noite desce. Gusief, antigo soldado, agora em baixa definitiva, incorpora-se na sua rede e diz baixinho:

— Escuta, Pavel Ivanytch: um soldado me contou que o barco dele chocou-se, no Mar da China, com um peixe que era do tamanho de uma montanha. Será verdade?

Pavel Ivanytch permanece calado, como se não tivesse ouvido nada.

O silêncio volta a reinar. O vento zune por entre as enxárcias. As máquinas, as ondas e as redes produzem monótono ruído. Mas quem tem o ouvido habituado há já muito tempo, quase não percebe dir-se-ia, mesmo, que tudo ao redor está mergulhado em profundo sono.

O tédio gravita sobre os passageiros que se encontram na enfermaria. Dois soldados e um marinheiro voltam doentes da guerra. Passaram o dia inteiro jogando e agora, cansados, deitam-se e dormem.

O mar torna-se um tanto agitado. A rede na qual Gusief está deitado ora sobe, ora desce, lentamente, como um peito arquejante. Algo fez ruído ao cair ao solo; talvez uma caneca.

— O vento partiu as suas correntes e está a correr mar — diz Gusief prestando atenção aos rumores que vêm do convés.

Desta vez, Pavel Ivanytch tosse e exclama com voz irritada:

— Meu Deus! Que idiota que você é! Quando não se põe a dizer que um barco se despedaçou de encontro a um peixe, diz que o vento partiu as correntes, como se fosse uma de carne e osso…

— Não sou eu quem diz isso, são as pessoas de bem.

— São todos uns ignorantes como você. É preciso saber ter a cabeça no lugar e não acreditar em todas as bobagens que se contam pelo mundo. É preciso refletir bem, antes de aceitar uma idéia alheia.

Pavel Ivanytch é sensível ao enjôo. Quando o navio começa a jogar, fica de mau humor e pôr qualquer coisa se irrita. Gusief não compreende pôr que o vizinho de enfermaria se enerva tanto. Não há nada de extraordinário no fato de um barco se despedaçar de encontro a um peixe, havendo, como há, peixes maiores do que montanhas e de pele mais dura que o gelo. É muito natural, também, que o vento rompa as suas cadeias. Há muito tempo contaram a Gusief que lá longe, no fim do mundo, há enormes muralhas de pedra, às quais estão presos os ventos; às vezes eles partem as correntes e lançam-se através dos mares, uivando como cães loucos. Por outra parte, se não fosse verdade que estão acorrentados, onde se escondem quando o mar está calmo?

Gusief fica a pensar longamente nos peixes do tamanho de montanhas, e nas pesadas cadeias recobertas de ferrugem. Depois aborrece-se disso e passa a pensar na sua aldeia, para onde, agora, regressa, depois de cinco anos de serviço no Extremo Oriente. Sua imaginação evoca um vasto dique, recoberto de gelo e de neve. Numa das suas margens ergue-se uma fábrica de louças, construída com tijolos vermelhos, de cuja alta chaminé saem negros rolos de fumaça. Na margem oposta estão espalhadas as casas da aldeia.

Gusief imagina que está vendo sua casa. Seu irmão Alexey, que na sua ausência se tornou o chefe da família, sai do pátio num trenó, acompanhado de seus dois filhos, Vânia e Akulka, ambos com grossas botas; Alexey está um tanto bêbedo. Vânia ri, Akulka traz um xale que quase lhe oculta o rosto.

— Pobres crianças, que frio devem sentir! — pensa Gusief. — Virgem Santa, protegei os coitadinhos!

O marinheiro estendido ao lado de Gusief tem o sono muito agitado e começa a sonhar em voz alta.

— É preciso mandar pôr meia-sola nas botas — exclama. — Se não é melhor jogá-las fora.

A aldeia natal desaparece da mente de Gusief, seus pensamentos tornam-se desconexos. Vê a seguir uma enorme cabeça de boi, sem olhos; trenós, cavalos envoltos num espesso halo… Recorda, porém, embora vagamente, ter visto os seus, e isso lhe provoca uma alegria tão intensa que ele estremece da cabeça aos pés.

— Vi a minha gente! Vi a minha gente! — murmura sonhando, com os olhos bem fechados.

No mesmo instante incorpora-se bruscamente, abre os olhos e pede um copo de água. Depois de beber, torna-se a deitar e os sonhos retornam.

E assim até raiar o sol.

II

A escuridão vai diminuindo e a cabina ilumina-se. A princípio vê-se um círculo azul; é o postigo. Logo Gusief começa a distinguir o vizinho de maca, Pavel Ivanytch, o qual dorme sentado porque estendido sufocaria. Tem o semblante acinzentado, o nariz pontiagudo e os olhos muito aumentados pela horrenda magreza, vincadas as frontes, melenas longas… Pelo aspecto não se lhe adivinharia a categoria: intelectual, negociante ou clérigo? Pelas linhas do semblante e pela guedelha, parece um noviço de qualquer convento; porém, quando fala, verifica-se que não é frade. Aniquilado pela tosse, pelo calor e pela doença, respira a muito custo e para falar precisa fazer grande esforço. Notando que Gusief o observa, volve a cabeça e diz:

— Começo a compreender… Agora, sim, compreendo tudo, perfeitamente bem!

— Como, Pavel Ivanytch?

— Olhe… Parecia-me estranho que vocês, tão doentes, estivessem aqui, num barco em terríveis condições higiênicas, respirando numa atmosfera impura, exposto ao enjôo, ameaçados a todo momento pela morte. Agora já não estranho isso. É uma peça de mau gosto que os médicos vos pregaram. Meteram vocês neste barco para se livrarem de vocês. Estavam fartos de vocês. Além disso, não lhes interessa tratar de doentes dessa laia, pois vocês não pagam. E não queriam que morressem no hospital, pois isso sempre causa má impressão. Para se desembaraçarem de vocês, bastava, em primeiro lugar, não possuir consciência nem sentir amor à humanidade; depois, é só enganar o comandante do navio. Quanto ao primeiro ponto, nem é preciso falar; somos, a esse respeito, artistas; e, com alguma prática, o segundo dá sempre bom resultado. Ninguém nota a falta de quatro ou cinco doentes entre quatrocentos soldados e marinheiros em perfeita saúde. Embarcados, vocês são postos no meio dos saudáveis; contados de afogadilho e na confusão da partida, nada se vê de anormal. Inicia-se a viagem, percebem, como é natural, que todos vocês são paralíticos e tuberculosos de último grau, a se arrastarem….

Gusief não compreende Pavel Ivanytch . Supondo que Pavel está desgostoso com ele, diz para desculpar-se:

— Não tenho culpa. Deixei que me embarcassem alegrando-me muito pelo fato de poder voltar para casa.

— Oh! É revoltante — continuou Pavel Ivanytch. — Principalmente porque eles bem sabem que vocês não podem suportar esta longa travessia. Admitamos que vocês cheguem até o Oceano Índico. E depois? … É terrível pensar nisso!… Eis a recompensa de cinco anos de fiel e irrepreensível serviço!

Pavel Ivanytch, com expressão de ira e voz sufocada, diz:

— Os jornais deveriam contar essas sujeiras! Seria uma boa lição para esses canalhas!

Os dois soldados e o marinheiro doente acordaram e puseram-se a jogar baralho.

O marinheiro está meio sentado na maca; os soldados, perto dela, sobre a ponta, em posição incômoda. Um tem o braço enfaixado e o pulso envolto num verdadeiro monte de pensos, de tal maneira que se vale da flexão de cotovelo para segurar as cartas.

O barco baloiça violentamente, o que impede que a gente se levante para tomar chá.

— Você era ordenança? — pergunta Pavel Ivanytch a Gusief.

— Justamente.

— Meu Deus! Meu Deus! — levanta-se Pavel Ivanytch. — Arrancar um homem do seu ninho, obrigá-lo a fazer quinze mil verstas e apanhar a tuberculose, para… para que pergunto-lhes eu?… Para dele fazer a ordenança do capitão Kopeikine ou de um porta-bandeira Durka… Haverá lógica nisso?

— O trabalho não é difícil, Pavel Ivanytch. É só levantar cedo, engraxar as botas, arrumar os quartos, e nada mais. O meu oficial ficava a traçar projetos o dia todo, eu podia dispor do meu tempo, podia ler, passear, conversar com os amigos. Francamente, não posso queixar-me.

— Sim, de fato; o tenente esboçava plantas e você ficava a se aborrecer a quinze mil verstas da sua terra, desperdiçando os melhores anos da sua vida. Traçar plantas!… Não se trata de plantas mas da vida humana, meu caro. E o homem só tem uma vida; devemos poupá-la.

— Realmente, é verdade, Pavel Ivanytch — continua Gusief que mal entende o raciocínio do vizinho. — Um pobre diabo não é bem tratado em parte alguma, nem em casa, nem no serviço. Mas se a gente cumpre sua obrigação, como eu, não tem nada e temer, que necessidade haverá de maltratá-los? Os chefes são pessoas instruídas e compreendem as coisas… Eu, em cinco anos, nunca estive preso e, quanto a ser espancado… não o fui — se Deus não me tolhe a memória — senão uma vez…

— E por quê?

— Por uma rixa. Tenho a mão pesada, Pavel Ivanytch. Quatro chineses, se bem me lembro, entraram no pátio da casa. Acho que procuravam trabalho. Pois bem, para passar o tempo comecei a dar neles. O nariz de um dos réprobos sangrou… O tenente, que tudo vira da janela, me deu uma boa lição.

— Meu Deus! Que imbecil que você é! — murmura Pavel Ivanytch. — Você não compreende nada!

Completamente aniquilado pelo balanço do barco, ele fecha os olhos. A cabeça ora se lhe inclina para trás, ora sobre o peito. Tosse cada vez mais. Depois de curta pausa, diz:

— Por que é que você espancou aqueles coitados?

— À toa. Estava muito aborrecido.

Reina de novo o silêncio. Os dois soldados e o marinheiro passam horas e horas a jogar, por entre blasfêmias e insultos. Mas as oscilações acabam por fatigá-los. Acabam a partida e deitam-se. Mal fecha os olhos, Gusief revê o grande lago, a fábrica, a aldeia… sua aldeia, com seu irmão e seus sobrinhos. Vânia recomeça a rir e a tola da Akulka, pondo as pernas fora do trenó, exclama: “Olhe, ó gente, as minhas botas são novinhas e não como as de Vânia!”

— Ela vai para os seis anos — delira Gusief — e ainda não tem juízo. Em vez de mostrar as botas, devia trazer água para o titio soldado! Depois, dar-lhe-ei bombons.

Depois avista seu amigo Andron, pederneira a tiracolo. Carrega uma lebre que matou. Issaitchik, judeu, segue-o a propor-lhe a troca da lebre por um pedaço de sabão. Ali, à porta da cabana, há uma novilha negra. Eis que surge Domna, sua esposa, que costura uma camisa e chora. Por que chora ela?… E eis, de novo, a cabeça de boi sem olhos e a fumaça preta.

Adormece, mas um ruído no tombadilho o desperta. Alguém, lá em cima, está a gritar; acorrem diversos marinheiros. Parece que alguma coisa enorme e pesada foi levada à ponte ou, então, aconteceu qualquer coisa inesperada. Acorrem mais homens… Terá sucedido alguma desgraça?! Gusief ergue a cabeça, espreita e vê que os dois soldados e o marinheiro recomeçaram o jogo. Pavel Ivanytch, sentado, move os lábios como se quisesse falar; mas não diz nada. Todos ofegam, sufocam, têm sede; o calor continua. Gusief tem a garganta a arder, mas a água morna causa-lhe repugnância. E o barco continua a dançar.

De repente, algo de anormal acontece a um dos soldados que jogam. Ele confunde o naipe de copas com o de ouros, erra na conta e deixa cair as cartas. Depois, olha em torno de si com um sorriso hediondamente alvar.

— Voltarei logo, camaradas… Esperem… eu… eu… — e estende-se no pavimento.

Os companheiros interrogam-no, estupefatos; ele não responde.

— Stepan! Sente-se mal? — pergunta-lhe o soldado do braço ferido. — Hein? Quer que chame o padre, sim?

— Stepan, beba água, beba, camarada, beba! — diz-lhe o marinheiro.

— Mas por que você lhe empurra a caneca à boca? — exclama Gusief, irritado. — Não vês, então, seu idiota?…

— Como?…

— “Como?..” — repete Gusief arremedando; — ele já não respira… está morto. E ainda perguntas: “Como?” Que idiota, meu Deus!

III

Cessa o baloiço. Pavel Ivanytch está de novo alegre, não se irrita mais por qualquer coisa. Tornou-se até fanfarrão, escarnecedor. Tem o ar de quem deseja contar uma história tão engraçada que provoque dor de barriga.

Pelo postigo aberto, uma brisa suave passa sobre Pavel Ivanytch. Ouvem-se vozes; os remos ferem a água compassadamente… Sob o postigo, alguém regouga; talvez um chinês que se tenha aproximado num bote.

— Sim — diz Pavel Ivanytch, sorrindo zombeteiro — eis-nos no ancoradouro. Um mês mais, e estaremos na Rússia. Sim, cavalheiros, estamos chegando. Os soldados são muito acatados, sim senhor. Chegando em Odessa, seguirei para Carcov, onde tenho um amigo escritor a quem direi: “Vamos, amigo, deixa pôr um minuto os teus escabrosos temas relacionados com mulheres e com amor; deixa de cantar as belezas da natureza e procura divulgar as sujeiras dos seres de duas patas. Trago-te esplêndidos temas…”

Depois de ter pensado um minuto em qualquer coisa, torna:

— Gusief, você sabe como os enganei?

— A quem?

— Aos que mandam no navio…Compreende? Na embarcação não há senão duas classes: a primeira e a terceira. De terceira só viajam os mujiks, também chamados broncos. Se você tiver um jaquetão e um certo ar de cavalheiro ou de burguês, é obrigado a viajar de primeira. Dir-lhe-ão: “ Arranje-se como puder, mas deve pagar quinhentos rublos”. “Qual a razão desse regulamento? Quererá o senhor elevar com isso o prestígio dos intelectuais russos?” “Absolutamente, não. Não lhe permitimos viajar de terceira pelo simples motivo de que não convém às pessoas distintas; passa-se bem mal e é repugnante”. “Muito agradecido, prezado senhor, pela sua solicitude para com as pessoas distintas! Mas, como quer que seja, não disponho de quinhentos rublos. Não fiz negócios escuros, não roubei o Estado, não exerci contrabando, não fiz morrer ninguém sob o açoite. Como posso ser rico? Ora, pense bem. Tenho eu o direito de estabelecer na primeira classe e, sobretudo, insinuar-me entre os intelectuais russos?” — Dado, porém que não é possível vencê-los pelo raciocínio, recorre-se a um ardil. Visto o capote e calço as botas altas; tomando um ar de bêbedo dirijo-me ao bilheteiro:

— Excelência, desejo uma passagem de terceira e que Deus o abençoe.

— Qual é a sua profissão? — pergunta-me o funcionário.

— Sou do clero. Meu pai foi um “pope” honesto. Muito sofreu pôr dizer sempre a verdade aos poderosos deste mundo. Eu também sempre digo a verdade…

Pavel Ivanytch cansa-se de falar; respira com dificuldade. Mas prossegue:

— Sim, sempre digo a verdade sem rebuço… Não temo coisa alguma nem ninguém. Nesse ponto, há entre mim e vocês considerável diferença. Vocês não enxergam nada. Ignorantes, cegos, esmaga-os o peso da própria inferioridade. Acreditam que o vento está amarrado com correntes e outras bobagens. Vocês beijam a mão que vos fere. Um espertalhão qualquer, vestido de peliça, rouba tudo que vocês têm e depois vos atira quinze kopeks de gorjeta, e vocês dizem: — “Dê-me, Excelência, a honra de lhe beijar a mão”. Párias, asquerosos… Quanto a mim, sou bem diferente. Levo uma vida consciente. Vejo tudo, como a águia ou o abutre que se eleva muito acima da terra. Compreendo tudo. Sou a encarnação do protesto. Protesto contra o arbitrário, contra o beato hipócrita, contra os suínos triunfantes. E sou indomável. Nem mesmo a Inquisição espanhola me obrigaria a calar. Sim… Se me arrancassem a língua, minha mímica protestaria. Lancem-me num cubículo, tranquem a porta: bradarei tão fortemente, que serei ouvido a uma versta de distância; ou então, me deixarei morrer de fome para que a lôbrega consciência dos carrascos sinta um peso a mais. Todos os conhecidos me dizem: — “Pavel Ivanytch, na verdade você é insuportável!” Mas eu me orgulho dessa reputação. Enfim, que me matem! Minha sombra voltará aterradoramente. Prestei três anos de serviço no Extremo Oriente, e lá deixei uma reputação para cem, porque me incompatibilizei com todo mundo. Os amigos escrevem-me: “Não apareça!”, pois conhecem meu caráter belicoso. E eu embarco! e volto a despeito dos seus avisos!… Sim, essa é a vida que eu compreendo. Isso sim é que se pode chamar a vida.

Gusief deixa de escutar e olha através do postigo. Uma canoa oscila sobre a água transparente, cor de turquesa pálida, banhada em cheio pelo sol deslumbrante e abrasador. Nela, de pé e nus, alguns chineses oferecem gaiolas de canários e gritam:

— Canta bem! Canta muito bem!

Outra canoa bate contra a primeira: passa uma embarcaçãozinha a vapor. E eis ainda outra canoa, em que se vê um gordo chinês, que come arroz com pauzinhos. A água gorgulha preguiçosamente; há gaivotas brancas voando com indolência.

— Oh! aquele gorducho… — pensa Gusief. — Seria gozado dar uns sopapos nesse animal de cara amarela.

Dormindo em pé, aparece-lhe que toda a natureza cabeceia com sono. O tempo corre veloz. O dia se escoa sem que se dê pôr isso e do mesmo modo a noite vem chegando…

O barco desamarrou e prossegue para destino ignorado.

IV

Passaram-se os dias. Pavel Ivanytch já não está sentado, mas curvado. Tem os olhos fechados e o nariz afinou-se ainda mais.

— Pavel Ivanytch! — grita-lhe Gusief. — Ouviu, Pavel Ivanytch?

— Como é? Isso vai ou não vai?

— Assim, assim… — responde Pavel Ivanytch, arquejante. — Ao contrário, vai até melhor… Olhe, passo até deitado… A coisa vai melhorando.

— Então, que Deus seja louvado!

— Sim, estou melhor. Quando me comparo a vocês, sinto compaixão…Tenho os pulmões fortes; a tosse me vem do estômago… Sou capaz de suportar o inferno. Por que falar no mar Vermelho? Além do mais, considera a minha doença e os remédios do ponto de vista crítico… e vocês são uns pobres diabos… É terrível para vocês… muito, muito terrível. Tenho verdadeira pena de vocês.

As ondas já não fazem o barco jogar, mas a atmosfera é cálida e pesada como um barco a vapor. Gusief apóia a cabeça nos joelhos e põe-se a pensar na sua aldeia. Com o calor que faz, é um prazer pensar na aldeia, completamente coberta de neve nesta época do ano. Sonha que está passeando de “ troika “ através dos campos gelados. Os cavalos espantados sem motivo, correm como loucos e atravessam o dique num único salto. Os camponeses procuram detê-los, mas Gusief pouco se importa. Sente-se possuído pôr intensa alegria. É com prazer que recebe no rosto e nas mãos a glacial carícia do vento, e a neve a lhe cair pelo cabelo, pelo pescoço e pelo peito o imunda de felicidade.

Não se sente menos contente quando, em dado momento, o carro vira, atirando-o na neve. Levanta-se satisfeito, coberto de neve da cabeça aos pés, e fica a se sacudir entre gostosas gargalhadas. Ao redor, os camponeses também soltam risadas e os cachorros, nervosos, ladram. Realmente formidável.

Pavel Ivanytch entreabre um olho, fita Gusief e pergunta:

— Teu oficial roubava?

— Não sei Pavel Ivanytch. Essas coisas não são de nossa conta.

Volta a reinar profundo silêncio. Gusief mergulhou de novo nos seus sonhos. De quando em quando toma um pouco de água. O calor é tão forte que ele não tem vontade nenhuma de falar nem de ouvir, e teme que a qualquer momento alguém lhe dirija a palavra.

Uma, duas horas transcorrem. À tarde sucede a noite; mas Gusief parece não ter notado nada; continua na mesma posição, a fronte nos joelhos, a pensar na sua aldeia, no frio, na neve.

Ouvem-se passos, vozes. Ao cabo de cinco minutos tudo volta a cair no silêncio.

— Que a terra lhe seja leve! — murmura o soldado do braço ferido. — Era um homem que deixava a gente nervoso.

— Quem? — pergunta Gusief esfregando os olhos. — De quem é que estás falando?

— Ora, de quem? De Pavel Ivanytch! Morreu. Levaram-no para cima.

— Como? — murmura Gusief como se não compreendesse. Fica longo tempo a meditar e por fim, com um suspiro, diz: — Então tudo se acabou! Que Deus o perdoe!

— O que é que você acha? — pergunta o soldado. — Você acha que ele será admitido no Paraíso?

— Ele quem?

— Pavel Ivanytch, homem!

— Ah!… Creio que sim. Sofreu muito. Além disso, era do clero. Seu pai era “pope” e rogará a Deus pelo filho.

O soldado senta-se na cama de Gusief e olhando-o fixamente, diz em voz baixa:

— Também você, Gusief, não há de viver muito. Não voltará a ver a sua terra.

— Quem disse isso!? O médico? O enfermeiro?

— Ninguém, mas a gente vê logo. Percebe-se muito bem quando uma pessoa está para morrer. Você não come, emagrece dia a dia… causa medo. Enfim, é a tuberculose. Não digo isso para o assustar, mas apenas no seu próprio interesse. Deveria receber os Sacramentos… Além disso, se você tem dinheiro deve deixá-lo com o comissário do navio…

— Nem escrevi para minha gente — suspira Gusief. — Morrerei e eles não saberão de nada.

— Como não saberão? Quando você morrer eles escreverão para as autoridades militares de Odessa, que, por sua vez, avisarão sua família.

Gusief está profundamente perturbado. Vagos desejos o afligem. Toma um pouco de água, volta a perscrutar o mar através do postigo, porém nada consegue acalmá-lo. Nem mesmo a lembrança da aldeia consegue, agora, tranqüilizá-lo. Tem a impressão de que se permanecer mais um minuto na enfermaria cairá sufocado.

— Estou muito mal, meus irmãos — diz baixinho. — Não posso continuar aqui… Quero ir lá para cima. Quem quer ajudar-me?

— Bom — diz o soldado. — Vou acompanhá-lo, já que não pode ir só. Apoie-se no meu ombro.

Gusief obedece. O soldado segura-o com a sua mão sã e ambos sobem vagarosamente a escada que conduz ao convés.

Em cima, o tombadilho está cheio de marinheiros e de soldados deitados no chão. São tantos que é difícil abrir caminho.

— Sente-se — diz o soldado. — Eu o seguro.

Não se vê muito bem. Não há luz no tombadilho, nem nos mastros, nem no mar. Uma sentinela, de pé na extremidade do navio, está tão imóvel que parece adormecida. Dir-se-ia que o barco se encontra abandonado ao seu próprio destino e que ninguém se importa em lhe dar um rumo.

— Vão atirar Pavel Ivanytch ao mar — murmura o soldado. — Vão costurá-lo num saco e atirá-lo às ondas.

— Sim — responde Gusief suavemente. — É do regulamento.

— É melhor morrer em terra. De vez em quando a mãe da gente vem chorar junto ao túmulo, ao passo que aqui…

— Sim, eu também preferiria morrer na minha casa, na aldeia…

Penosamente, os dois se erguem e começam a andar. Em certo trecho sente-se pronunciado cheiro de forragem e de esterco: vem de um curral improvisado no tombadilho, onde se encontram oito vacas. Um pouco mais adiante, há um potro amarrado. Gusief estende a mão para acariciá-lo, mas o cavalo sacode furiosamente a cabeça e mostra os dentes, com eloqüente intenção de mordê-lo.

— Bicho do inferno! — protesta Gusief.

Ele e o soldado apoiam-se na balaustrada e ficam a olhar em silêncio ora o mar, ora o céu. Sob a abóbada celeste, calma e muda, reinam a inquietação e as trevas. As ondas se entrechocam ruidosamente. Cada uma procura erguer-se mais do que a outra e se atropelam, e se Empurram, furiosas e disformes, coroadas de branca espuma.

O mar é impiedoso. Se o navio não fosse tão grande e tão sólido, as ondas o destroçariam sem piedade, tragando cruelmente todos quantos viajam nele, sem distinguir os bons dos maus. O próprio barco não é menos cruel. Semelhando um estranho monstro, corta com a quilha milhões de ondas. Não teme nem a noite, nem o vento, nem o espaço infinito, nem a solidão. Se a superfície do mar estivesse cheia de seres humanos, cortá-los-ia da mesma maneira, sem tampouco, fazer distinção entre os bons e justos e os pecadores.

— Onde estamos agora? — pergunta Gusief.

— Não sei. Acho que no oceano.

— Não se vê terra…

— Que dúvida! Antes de oito dias não veremos nem sombra de terra!

Ambos continuam perscrutando a espuma branca e fosforescente, mergulhados no mais completo silêncio. Cada um parece perdido em remotos pensamentos. Gusief é o primeiro a falar:

— Eu não tenho medo do mar. É lógico que, de noite, a gente não vê bem. Mas mesmo assim, se agora me mandassem, num bote, a pescar a cem quilômetros daqui, iria com muito gosto. Ou, se por exemplo, tivesse que salvar alguém que tivesse caído na água, eu me atiraria sem vacilar. Isto é, caso se tratasse de um cristão. É claro que eu não arriscaria a vida por um turco ou por um chinês.

— Não tem medo da morte?

— Tenho sim, principalmente quando penso na minha casa. Sem a minha presença tudo irá por água abaixo. Meu irmão é uma verdadeira calamidade, um beberrão que bete na mulher todo o santo dia e não respeita os pais. Sim, sem mim tudo irá mal. Minha gente ver-se-á obrigada, talvez, a pedir esmolas para não morrer de fome.

Cala-se por alguns instantes e por fim conclui:

— Vamos para baixo. Não posso mais suster-me em pé. Além disso, a atmosfera está muito pesada… Já é hora de dormir.

V

Gusief desce para a enfermaria e deita-se. Vagos desejos, cuja natureza não pode precisar, continuam a atormentá-lo. Sente um peso no peito; dói-lhe a cabeça. Sua boca está seca que sente dificuldade em mover a língua. Cai em profunda sonolência e logo depois, esgotado pelo calor e pela atmosfera carregada, adormece. Os mais fantásticos sonhos voltam a repetir-se!!!

Dorme, assim, dois dias seguidos. Ao cair da tarde do terceiro, os marinheiros vêm buscá-lo e levam-no para o convés.

Costuram-no num saco, no qual introduzem, também, para torná-lo mais pesado, dois enormes pedaços de ferro. Metido no saco Gusief parece uma cenoura: volumoso na cabeça e afinado nas pernas.

Ao pôr do sol colocam o cadáver sobre uma prancha que tem uma das extremidades apoiada na balaustrada e a outra num caixão de madeira. Ao redor enfileiram-se os soldados e os marinheiros todos de gorro na mão.

— Bendito seja Deus todo-poderoso pelos séculos dos séculos — diz com tom solene o sacerdote.

— Amém! — respondem os marinheiros.

Todos fazem o sinal-da-cruz e ficam a olhar as ondas. É algo estranho ver um homem metido num saco e a ponto de ser lançado ao mar. No entanto, é uma coisa que pode suceder a qualquer um de nós!

O sacerdotes deixa cair um pouco de terra sobre Gusief a faz profunda reverência. A seguir, canta-se o Ofício.

O oficial de plantão soergue um dos extremos da prancha. Gusief desliza de cabeça para baixo, dá uma volta no ar e cai na água. Por alguns instantes fica a boiar, coberto de espuma, como se estivesse envolto em rendas; por fim, desaparece.

Submerge rapidamente. Chegará ao fundo? Segundo os marinheiros, a profundidade do mar nestas paragens alcança quatro quilômetros.

Após fazer vinte metros, começa a descer mais lentamente. O cadáver vacila, como se hesitasse em continuar a viagem. Finalmente, arrastado pela corrente, prossegue a marcha diagonalmente.

Não demora em tropeçar com um cardume de peixinhos — dos chamados “pilotos”, os quais, ao divisarem o enorme vulto, estacam assombrados e, como se obedecessem a uma ordem, voltam-se, todos ao mesmo tempo, e, como minúsculas flechas, atiram-se a Gusief.

Minutos depois aproxima-se uma enorme massa escura: um tubarão. Lentamente, com fleuma, como se não notasse a presença de Gusief, coloca-se sob o saco de maneira a dar a impressão de que o cadáver está de pé sobre o seu ombro. Visivelmente satisfeito, o tubarão dá, depois várias voltas na água e, sem se apressar, escancara a enorme boca, armada de duas fileiras de dentes. Os “pilotos” estão encantados. Mantêm-se um pouco afastados e admiram o espetáculo atentamente.

Depois de brincar um pouco com o corpo de Gusief, o tubarão crava os dentes de mansinho, no tecido da mortalha, a qual no mesmo instante abre-se de cima a baixo. Um pedaço de ferro tomba no lombo do tubarão, assusta os “ pilotos” e desce rapidamente.

Enquanto isso, lá no alto, no céu, onde o sol pouco a pouco se oculta, as nuvens vão-se acumulando. Uma delas parece um arco-de-triunfo, outra um leão; outra ainda uma tesoura. Através de uma das nuvens projeta-se até o centro da abóbada do céu um amplo raio verde. Ao lado dele surge, pouco a pouco, um colorido de lilás bem pálido. Sob este esplêndido céu, o oceano torna-se a princípio obscuro; logo, porém, passa, por sua vez, a tingir-se de cores tão suaves, alegres e belas que a língua humana é incapaz de descrevê-las.

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