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O bispo (Anton Tchekhov)

I

Na véspera do Domingo de Ramos celebraram-se os últimos ofícios divinos, no Mosteiro de Staro-Petrovsky. Quando distribuíam os ramos, já eram quase dez horas, as luzes baixavam, os pavios queimavam — e tudo parecia envolto em bruma. Na penumbra da igreja, a multidão ondulava como um mar e Monsenhor Piotr, doente há três ou quatro dias, tinha a impressão de que todos os rostos — dos velhos, dos jovens, dos homens, das mulheres — se assemelhavam; de que os olhos de todos quantos se aproximavam para receber o ramo eram iguais, em sua expressão. A semi-escuridão impedia-o de distinguir a porta, a multidão continuava a desfilar, dir-se-ia que interminavelmente. Um coro de mulheres cantava. Uma religiosa lia os cânones.
Sufocava-se. Que calor! E como fora longo o ofício! Monsenhor Piotr estava fatigado, respiração ofegante, curta, seca, ombros doendo de cansaço, as pernas trêmulas. Enervava-se com as exclamações dos homens simples. Subitamente, como em sonho, ou em delírio, pareceu-lhe ver sua mãe, que não via há nove anos, destacar-se da multidão e aproximar-se… sua mãe, ou uma mulher parecida com ela, que, depois de receber o ramo de suas mãos, afastou-se, não sem olhá-lo alegremente, como seu bom e radioso sorriso… até perder-se no meio do povo. E, sem poder conter-se, lágrimas correram pelo seu rosto.
Sua alma estava em paz, tudo corria bem, ele olhava fixamente o coro da esquerda, onde limam os cânones, sem poder reconhecer ninguém, na penumbra, e chorava — as lágrimas brilhando em sua barba e em todo o rosto. Alguém começou a chorar, não muito longe, depois mais alguém; pouco a pouco a igreja encheu-se de soluços contidos… até que, minutos depois o coro do convento entoou um hino, os prantos cessaram e tudo voltou ao normal.
O ofício terminou. Enquanto o bispo tomava assento em seu carro, para voltar à casa, em todo o jardim iluminado pelo luar ressoaram o belo e sonoro carrilhão e os pesados e preciosos sinos. As paredes brancas, as cruzes brancas sobre os túmulos, as bétulas brancas projetando sombras negras, a lua longínqua, no céu, bem sobre o mosteiro, tudo parecia viver, no momento, uma vida singular¸ misteriosa — mais próxima, porém, do homem.
Abril começava, o dia fora tépido e primaveril, começava a gelar, levemente, embora se sentisse, na atmosfera doce e fresca, o sopro da primavera. A estrada que levava à cidade era arenosa, precisava-se andar lentamente os peregrinos ladeando a carruagem, sob a claridade e a maciez do luar. Todos calados, recolhidos; tudo, em torno, acolhedor, jovem, fraterno — árvores, céu, a própria lua. E era bom sonhar que seria sempre assim.
A carruagem chegou, enfim, à cidade e tomou a rua principal. As lojas já estavam fechadas, salvo a de Erakine, o milionário, onde se experimentava a iluminação elétrica, muito tremulante, ainda, em torno da qual as pessoas se agrupavam. Em seguida, atravessou ruas longas e sombrias, ruas desertas; depois, a estrada construída pelo zemstvo — alcançando, enfim, o campo, de onde emanava o odor dos pinheiros. Subitamente, erguida diante de seus olhos, uma muralha branca, ameada, fazendo fundo para um alto campanário inundado de luz, e para cinco cúpulas douradas, resplandecentes: o Mosteiro de São Pancrácio, morada de Monsenhor Piotr. Sobre a qual, também, muito alta e dominando o convento, pairava a lua, tranqüila e sonhadora. A carruagem transpôs o portão, fazendo ranger a areia. Aqui e ali, ao luar, passavam fugitivas silhuetas negras de monges, os passos ressoando nas lajes de pedra.
— Monsenhor, sua mãe chegou, em sua ausência — anunciou um irmão leigo, quando o bispo entrou.
— Mamãe? Quando? Antes dos últimos ofícios. Perguntou logo onde estava o senhor. Depois, foi para o convento das freiras.
— Então, foi ela mesma que vi na igreja. Ah! Senhor!
E o bispo riu de alegria, enquanto o irmão leigo continuava:
— Madame mandou dizer que voltará amanhã. Trouxe com ela uma menina… deve ser sua neta. Desceu no Albergue de Ovsiannikov.
— Que horas são?
— Mais de onze.
— Que pena!
O bispo ficou um instante no salão, meditativo, como se duvidasse de que fosse tão tarde. Sentou-se, as pernas e os braços cansados, a nuca dolorida. Sentia calor, certo mal-estar. Após curto repouso, retirou-se para seu quarto, onde ainda ficou sentado um instante, pensando na mãe. Ouviu distanciarem-se os passos do irmão leigo e a tosse do padre Sissol, atrás do tabique. O relógio soou meia hora.
O bispo mudou de roupa e pôs-se a dizer as velhas preces que conhecia há muito tempo, pensando em sua mãe. Nove filhos e quase quarenta netos. Em outros tempos morava com o marido, diácono de seu distrito, uma pobre aldeia onde vivera durante muito tempo, dos dezessete aos sessenta anos. Lembrava-se dela desde a mais remota infância, desde os três anos. Amava-a muito. Doce, querida, inolvidável infância! Por que esse tempo se fora para sempre? Assim distante, sem retorno, parecia mais radiosa, mais bela e mais rica do que na realidade. Quando, menino ou adolescente, adoecia, como sua mãe sabia ser terna, sensível! E, agora, suas preces misturavam-se às recordações que se reacendiam, como uma chama cada vez mais viva, que não o impedia de pensar em sua mãe.
Terminada a oração, deitou-se: no escuro, reviu seu pai e sua mãe, Lessopolia e sua cidade natal. Ao rangidos das rodas, os balidos dos carneiros, o carrilhão da igreja nas claras manhãs de verão, os ciganos mendigando às janelas… ah! Como era doce recordar! Lembrou-se do padre de Lessopolia, padre Simeon, um homem terno, tranqüilo, benevolente. Era baixo, magro, mas seu filho seminarista era corpulento, voz forte de baixo. Um dia, o filho do pope irritou-se com a cozinheira e injuriou-a: “Jumenta de Zegouldil!” O Padre Simeon nada disse, mas corou de confusão, porque não conseguia recordar-se da passagem da Sagrada Escritura, que falava nessa jumenta. Seu sucessor, em Lessopolia, o Padre Demiani, bebia até ao delírio, quando via “a ser pente verde” — o que lhe valeu o apelido de Demiane da Serpente. O professor de Lessopolia era o antigo seminarista Matvei Nicolaitch, homem excelente, nada tolo, mas bêbado, também. Não batia nos alunos, mas pendurava, diariamente, na parede da sala de aula, um apanhado de varas de bétula, sobre o qual lia-se uma inscrição em latim, realmente assombrosa: Betula kinderbalsamica secuta. Possuía um cão negro e crespo, chamado Sintaxe. E o bispo ria, à recordação disso tudo.
A oito verstas de Lessopolia, situava-se a aldeia de Obnino, onde existia um ícone miraculoso. No verão, levavam-no, em procissão, pelos lugarejos vizinhos — e, à sua passagem, os sinos repicavam. Monsenhor tinha a impressão de que o ar palpitava de alegria e ele seguia o ícone de cabeça e pés nus, com ingênua fé, sorriso devoto, infinitamente feliz. Em Obnino, lembrava-se, havia sempre muita gente o padre do lugar, padre Aleixo, para ter tempo de chegar ao ofertório, fazia ler por seu sobrinho Hilarion, que era surdo, os papeizinhos e os nomes escritos nos pães de consagração… “pela saúde de…”, “pelo repouso de…” Para lê-los, Hilarion recebia de cinco a dez copeques por missa. Já era um homem grisalho e calvo, sua juventude já passara, quando descobriu um papel em que haviam escrito: “Como podes ser tão tolo, Hilarion?” Pelo menos até aos quinze anos, monsenhor, a quem, então, chamavam Popaul, era muito atrasado e trabalhava muito mal, em aula. Tão mal que haviam pensado em retirá-lo do seminário e colocá-lo em uma loja. E havia, ainda, aquele dia em que, indo buscar as cartas no correio, observara longamente os empregados e lhes perguntara: “Permitam-me indagar como são pagos… Por mês, ou por dia?”
Monsenhor benzeu-se e, voltando-se para outro lado, fugindo a recordar, adormeceu. Ainda teve tempo de pensar e de sorrir: “Mãe chegou…”
A lua entrava pela janela, iluminando o assoalho e povoando-o de sombras. Um grilo cantava. Atrás do tabique, no compartimento vizinho, o Padre Sissol roncava e seu roncar de velho tinha qualquer coisa de solitário, de repousado, talvez mesmo de vagabundo. Em outros tempos, Sissol havia sido ecônomo da diocese — e era agora chamado de “ex-padre ecônomo”. Tinha setenta anos, morava em um convento a dezesseis verstas da cidade. Três dias antes, chegara ao Convento de São Pulcrácio, onde monsenhor o retivera para, nas horas possíveis, conversar com ele sobre seu tempo perdido, sobre negócios e hábitos locais…
A uma hora e meia soaram as matinas. Ouviu-se o padre Sissol tossir, resmungar, erguer-se e passear descalço de um quarto a outro. Monsenhor chamou:
— Padre Sissol!
Sissol voltou ao seu quarto e apareceu, pouco depois, já de botas calçadas, com uma vela na mão. Vestira a batina sobre a camisola e trazia, à cabeça, um velho solidéu desbotado. Sentando-se na cama, monsenhor disse:
— Não consigo dormir. Devo estar doente… sei lá o que tenho. Estou com febre.
— Deve Ter sido a friagem, monsenhor. Precisa fazer uma fricção com sebo…
Esperou ainda um instante. Bocejou…
— Senhor, perdoai a este pobre pecador!
Acrescentou:
— Instalaram eletricidade, hoje, em casa de Ekarine. É uma coisa que não me agrada.
O Padre Sissol já era idoso. Muito magro, curvado, sempre descontente, olhar colérico, olhos proeminentes como os dos caranguejos. Repetiu, retirando-se:
— Não me agrada, mesmo. Não me agrada, absolutamente!

II

No dia seguinte, Domingo de Ramos, monsenhor celebrou a missa, na catedral, dirigindo-se, depois, à casa do bispo da diocese e, em seguida à de uma velha generala, muito doente. Voltou à casa e, a uma hora, estava sentado à mesa, em companhia de duas visitantes, muito caras a seu coração: sua velha mãe e sua sobrinha Katia, menina de uns oito anos. Durante a refeição, um, sol primaveril iluminou a janela, resplandeceu sobre a toalha branca e sobre os cabelos ruivos de Katia. Através dos duplos caixilhos, ouvia-se o crocitar dos corvos e o canto dos estorninhos, no jardim. A velha senhora dizia:
— Há exatamente nove anos que não nos vemos. Ontem, no convento, o que senti quando o vi, meu Deus! Não mudou em nada, apenas emagreceu um pouco e sua barba está mais longa. Rainha do Céu, Mãe Nossa! Não pude deixar de chorar… ninguém pôde deixar de chorar, quando oficiou as completas. Não sei por que, bruscamente, pus-me a chorar… por quê? Nem eu mesma o sei… É a vontade divina!
A despeito do tom carinhoso com que falava, sentia-se que não estava à vontade, não sabendo se deveria dizer-lhe tu, ou vós, rir, ou não — muito mais esposa de diácono, do que mãe de bispo. Sem pestanejar, Katia fixava monsenhor seu tio, como se procurasse adivinhar que homem era ele. Cabelos penteados em forma de auréola, presos por uma travessa e por uma fita de veludo, nariz arrebitado, olhos astuciosos — e tão inquieta que, antes de sentar-se à mesa, quebrara um copo. Agora, enquanto falava, sua avó ia afastando dela ora um copo de vinho, ora um pequeno cálice. Monsenhor ouvia sua mãe e lembrava-se de que, outrora, há muitos anos, ela o levava e a seus irmãos à casa dos parentes que considerava ricos. Naquele tempo, preocupava-se por seus filhos… Hoje, por seus netos… E havia trazido Katia…
— Sua irmã Varia tem quatro filhos. Katia é a mais velha. Ivan, meu genro, caiu doente, antes da Assunção, só Deus sabe de quê, e morreu, em três dias. Agora, minha Varia é obrigada a mendigar pelas ruas.
— E Nicanor? — perguntou monsenhor, referindo-se a seu irmão mais velho.
— Não vai mal, graças a Deus. Digo que não vai mal e agradeço a Deus, porque tem do que viver. Somente meu neto Nicolai não quis ser padre; está na faculdade, estudando para médico. Acha que será melhor… mas quem sabe? É a vontade de Deus.
— Nicolai corta cadáveres — disse Katia, derramando água sobre os joelhos.
Calmamente, a avó disse, tirando-lhe o copo das mãos:
— Fica quieta, pequena. Reza, enquanto comes.
Acariciando ternamente o ombro e o braço da mãe, monsenhor disse:
— Há quanto tempo não nos vemos! Senti muitas saudades suas, no estrangeiro, mamãe. Muitas, mesmo.
— Obrigada.
— À noite, sentava-me junto à janela, sozinho, ouvindo a música lá fora. Então, subitamente, a nostalgia tomava-me de assalto… e eu creio que teria dado tudo para poder voltar a vê-la.
Ela sorriu, seu rosto iluminou-se. Mas logo retomou o seu ar sério e disse:
— Obrigada.
Repentinamente, o humor do bispo transformou-se. Olhava sua mãe, sem poder compreender de onde vinha aquela expressão respeitosa, tímida em seu rosto e em sua voz. Não a reconhecia. Sentiu-se triste. Depois, como na véspera, sua cabeça tornou-se pesada, suas pernas começaram a doer… o peixe pareceu-lhe insípido… não conseguia acalmar a sede…
Após o jantar, recebeu a visita de duas senhoras, ricas, proprietárias, que se demoraram mais de uma hora, em silêncio, pesando no ambiente, com seus rostos alongados; do arquimandrita, homem taciturno e surdo, que fora tratar de negócios. As vésperas soaram, o sol escondeu-se atrás da floresta e o dia terminou. Regressando da igreja, monsenhor fez apressadamente suas orações e meteu-se na cama, agasalhando-se muito.
O peixe do almoço lhe deixara uma sensação desagradável. O luar o incomodava. Ouviu vozes: em um outro compartimento, no salão, provavelmente o Padre Sissol conversava sobre política.
— Os japoneses estão em guerra. Estão se batendo. Os japoneses, minha cara senhora, são a mesma coisa que os montenegrinos… são da mesma raça. Estiveram juntos sob o jugo turco…
Ouviu a voz da mãe:
— Então, depois de termos feito nossas orações, depois de bebermos chá, fomos à casa do Padre Iegor, em Novokhatnoia…
E, a cada cinco minutos, repetiu: “depois de tomarmos chá…” Dir-se-ia que, em toda a sua vida, ela só aprendera a tomar chá. Lentamente, vagamente, voltavam à memória do monsenhor o pequeno e o grande seminário. Por mais de três anos, fora professor de grego… já não podia ler sem óculos… Quando recebeu a tonsura, foi nomeado inspetor. Em seguida, defendeu tese. Aos trinta e dois anos, era diretor do seminário. Já sagrado arquimandrita. A vida tornou-se, então, de tal maneira fácil e agradável, tão longa que parecia não Ter fim. Foi quando caiu doente. Emagreceu muito, ficou quase cego e, a conselho médico, abandonou tudo e partiu para o estrangeiro.
Na sala vizinha, Sissol perguntou:
— E depois?
— Depois, bebemos chá — respondeu sua mãe.
— Meu pai, sua barba é verde! — disse, subitamente,Katia.
Lembrando-se de que, realmente, a barba grisalha do Padre Sissol tinha reflexos verdes, monsenhor pôs-se a rir.
Ouviu a voz colérica do Padre Sissol:
— Meu Deus, que maldição de criança! Como é mal-educada! Fica quieta!
Monsenhor reviu a igreja branca, novinha, onde oficiava no estrangeiro… Recordou o ruído do mar tranqüilo. Seu apartamento constituía-se de cinco peças, altas e claras. Em seu gabinete de trabalho, havia uma escrivaninha nova e uma biblioteca; ele escrevia e lia muito. Lembrou-se de sua nostalgia de então; de um mendigo cego que, diariamente, cantava, sob suas janelas, canções de amor, acompanhadas de guitarra, e de que, cada vez que o ouvia, pensava no passado. Mas oito anos haviam decorrido, ele fora chamado à Rússia e, agora, era bispo sufragâneo — todo seu passado desaparecido muito longe, na bruma, como um sonho…
Com uma vela na mão, Padre Sissol entrou no quarto. Espantou-se:
— Já está dormindo, monsenhor?
— Que tem isso?
— É muito cedo, ainda… Comprei uma vela de sebo e gostaria de friccionar suas costas…
— Estou com febre. E muita dor de cabeça. Evidentemente, é preciso fazer alguma coisa — disse monsenhor, sentando-se.
Sissol tirou-lhe a camisa e fez-lhe uma fricção no peito e nas costas, com sebo.
— Assim… assim… Senhor Jesus! … Assim… Hoje estive na cidade, em casa de… como se chama mesmo ele…? Em casa do Arquiprior Sidonski… Tomei chá com ele… Não simpatizo com ele… Senhor Jesus… Assim… Assim… Pois é, não simpatizo com ele…

III

O bispo da diocese, homem idoso e obeso, vencido pelo reumatismo, ou pela gota, não se levantava da cama há mais de um mês. Monsenhor Piotr visitava-o diariamente e dava audiência, em seu lugar. Agora, que também sofria, pensava, chocado, no vazio e na pequenez de tudo quanto lhe pediam, de tudo por que se lamuriavam os que iam procurá-lo. A timidez e o atraso dessas pessoas o irritavam. Todas as frivolidades, todas as coisas ociosas o esmagavam: tinha a impressão de que, enfim, compreendia o bispo titular que, outrora, em sua juventude, escrevera um Tratado do Livre Arbítrio, e parecia-lhe que, agora, sua personalidade se constituía apenas de detalhes, que tudo esquecera, que não pensava mais em Deus. No estrangeiro, desacostumara-se da vida russa — e agora sentia muito seu peso. Chocava-se com a grosseria do povo, com os pedidos tolos dos que apelavam a seu auxílio, com a incultura dos seminaristas e professores, autênticos selvagens, na maioria das vezes. O correio que enviava, ou recebia, existia na proporção de dez para mil — e que correio! Os deãos de todas as dioceses davam notas à conduta dos padres, jovens e velhos, a suas mulheres, a suas crianças e era preciso comentar tudo isso, escrever cartas sérias a respeito, ler. Não lhe restava, positivamente, um só minuto de liberdade, seu espírito sempre inquieto, só sentindo tranqüilidade na igreja.
Também não conseguia acostumar-se ao medo que inspirava, involuntariamente, apesar de sua doçura e de sua discrição. Todos os habitantes da paróquia ficavam intimidados, contritos em sua presença —humildes e assustados. Mesmo os velhos arquimandritas anulavam-se diante dele — e, bem recentemente, uma solicitante, a velha esposa de um pope de província, sentira tanto medo, ao defrontá-lo, que não pudera articular uma só palavra e partira sem nada lhe solicitar. E ele que, em seus sermões, jamais pudera ser severo, que jamais dirigira, a quem quer que fosse, uma censura, pois sentia piedade, perdia a linha, encolerizava-se e atirava todos os pedidos no chão. Desde que chegara, ninguém lhe havia falado sinceramente, humanamente, com simplicidade. Sua própria mãe não era a mesma. Por que falava sem cessar e ria tanto com Sissol, enquanto com ele, seu filho, era tão grave, tão taciturna, tolhida por um constrangimento que não combinava com ela? A única pessoa que sentia à vontade, em sua presença, dizendo tudo o que queria dizer, era o velho Sissol, que durante toda a sua vida servira a bispos, dos quais já enterrara onze. E também ele, monsenhor, sentia-se à vontade com ele, embora fosse, incontestavelmente, um homem difícil e ardiloso.
Na terça-feira, depois da missa, ao receber os solicitantes, no bispado, monsenhor agitou-se, exaltou-se. Ao entrar em casa, sempre indisposto, desejava deitar-se. Mal chegou, porém, anunciaram-lhe o jovem solicitante Erakine, generoso benfeitor das boas obras, que lhe pedia audiência, para tratar de um assunto muito importante. Não pôde recusar-se. Erakine demorou perto de uma hora; falava alto, quase aos gritos — e monsenhor custara a entender o que dizia.
Ao sair, disse:
— Deus permita que assim seja! É absolutamente necessário! De acordo com as circunstâncias, Reverendíssima Excelência! Desejo ardentemente que assim seja!
Após Erakine, recebeu a madre superiora de um longínquo convento. E quando ela se retirou, soaram as vésperas; teve que voltar à igreja.
À noite, os monges entoaram um canto harmonioso e inspirado. Um jovem monge, de barba negra, oficiava. E monsenhor, ouvindo os versos sobre o esposo que veio à meia-noite e, encontrando a casa enfeitada, não sentia arrependimento de seus pecados, nem aflição, mas sim calma e paz interior, deixou seu pensamento voar para um distante passado — sua infância e sua juventude, quando se cantava também esse esposo que chega à meia-noite a essa casa adornada. Agora, esse passado parecia-lhe vivo, magnífico, radioso, como talvez nunca o tivesse sido. Quem sabe, em outro mundo, em outra vida, também recordemos nosso longínquo passado e nossa vida terrena, sentindo-os, assim, vivos e próximos… quem sabe?
Estava escuro. Sentado perto do altar, monsenhor deixava correr suas lágrimas, sonhando que atingira a tudo que era acessível a um homem de sua posição. Tinha fé. Mas nem tudo estava claro, faltava-lhe qualquer coisa, não queria morrer: essa qualquer coisa que lhe faltava era, talvez, o essencial de sua vida, com o que confusamente sonhara, outrora. No presente, a mesma esperança em um futuro, acompanhando-o, desde o seminário, desde que estivera fora de seu país.
E pensava, ouvindo atentamente os cânticos:
— Como estão cantando bem, hoje! Como cantam bem!

IV

Na quinta-feira, oficiou na catedral e também na cerimônia de lava-pés. Quando o serviço terminou e os fiéis se retiraram, fazia sol, o tempo estava quente, alegre, a água murmurava nos riachos — e nos arredores, vindo do campo, soava o canto ininterrupto das andorinhas, um canto pleno de ternura, convidando ao repouso. As árvores, despertas, pareciam sorrir gentilmente e o céu insondável, ilimitado, perdia-se muito longe, só Deus saberia onde.
Em casa, Monsenhor Piotr tomou chá, mudou de roupa e deitou-se, pedindo ao irmão leigo que fechasse as janelas. A escuridão invadiu o quarto. Mas que cansaço, que dor nas pernas e nas costas, que sensação de peso, de frio, que zoada nos ouvidos! Fazia muito tempo que não dormia longamente. Tinha a impressão de que o que o impedia de adormecer era um quase nada que se erguia em seu cérebro, logo que fechava os olhos. Como na véspera, chegavam-lhe, de compartimentos vizinhos, através dos tabiques, vozes, ruídos de copos, de colheres… Sua mãe contava, alegremente, uma estória pitoresca, semeada de provérbios. Padre Sissol respondia, com voz sombria e descontente:
— Ah! Que gente! Que coisa! Ainda esta!
E monsenhor sentia-se novamente contrariado, mortificado, porque sua velha mãe se mostrava natural e simples, com os estranhos, enquanto diante dele, seu filho, intimidava-se, pronunciando raras palavras, que não correspondiam a seus pensamentos. Até mesmo… pelo menos lhe parecera… até mesmo procurava pretextos para se levantar, quando ele estava presente, constrangida, evitando ficar sentada em sua presença. E seu pai? Sem dúvida, se fosse vivo, também não poderia falar, diante dele…
No quarto vizinho, um objeto caiu ao chão e quebrou-se. Teria sido obra de Katia, deixando cair uma xícara, ou um pires, pois logo se ouviu a voz do Padre Sissol, irritado:
— Maldita menina! Senhor, perdoa-me estas palavras de pecador! Que flagelo!
Depois, fez-se silêncio. Ouviam-se, apenas, os ruídos vindos de fora. Quando monsenhor reabriu os olhos, viu Katia, observando-o, imóvel. Com seus cabelos ruivos, levantados por uma travessa em forma de auréola — como sempre. Perguntou-lhe:
— És tu, Katia? Quem está a todo instante abrindo e fechando lá em baixo?
— Não ouço nada — respondeu Katia.
— Alguém acaba de passar.
— É em sua barriga, tio.
Ele riu e acariciou-lhe a cabeça.
— Então, teu primo Nicolai corta cadáveres? — perguntou, depois de um curto silêncio.
— Sim… Está estudando.
— Ele é gentil?
— Muito. Só que tem que beber, É terrível.
— E teu pai? De que morreu?
— Papai era muito fraco… magro… magro… De repente, ficou atacado da garganta. Eu e meu irmão também adoecemos… meu irmão Fiodor, sabe? Todos ficaram doentes da garganta. Pai morreu, tio, mas nós todos ficamos bons.
Seu queixo começou a tremer, lágrimas brotaram de seus olhos, rolaram pelo rosto. Disse, com voz fraca, chorando agora amargamente:
— Monsenhor,, mamãe e eu somos tão desgraçadas… Dê-nos um pouco de dinheiro… Faça-nos esta caridade, querido tio!
Monsenhor sentiu, também, lágrimas brotando em seus olhos. A emoção o impediu, por um momento, de falar. Depois, acariciou, mais uma vez, a cabeça da menina, bateu-lhe carinhosamente nas costas e respondeu:
— Bem… bem, minha querida. Está chegando o dia da Páscoa… Voltaremos a falar neste assunto. Vou ajudá-las, sim… vou ajudá-las…
Viu a mãe entrar, timidamente, para uma oração diante do ícone. Notando que ele não dormia, perguntou-lhe:
— Quer tomar uma sopinha?
— Não, obrigado. Estou sem fome.
—Está muito abatido… mas também como não ficar doente? Os dias inteiros sem repousar… meu Deus, só de olhá-lo sinto pena! Felizmente, a Semana Santa está próxima e, se Deus quiser, ;poderá descansar e poderemos conversar. Agora, não quero incomodá-lo com as minhas tagarelices. Vem, Katia… Deixa monsenhor dormir um pouco.
Lembrou-se de que, quando era pequeno, há muitos anos, sua mãe falava ao deão no mesmo tom, ao mesmo tempo brincalhão e respeitoso… Somente seus olhos, extraordinariamente bondosos, o olhar tímido, preocupado, que ela lhe lançara, ao sair, deixavam transparecer que era sua mãe. Fechou os olhos. Mas não adormeceu. Ouviu, por suas vezes, o relógio soar — e a tosse do Padre Sissol, atrás do tabique. Uma carroça, ou uma caleça, a se julgar pelo ruído, aproximou-se da escadaria. Uma pancada súbita, uma porta batendo… O irmão leigo entrou:
— Monsenhor!
— Sim?
— Os cavalos estão prontos: já é hora do ofício da Paixão.
— Que horas são?
— Sete e quinze.
— Vestiu-se e dirigiu-se à catedral. Durante a leitura dos evangelhos, era obrigado a fica de pé, imóvel, no meio da igreja. O primeiro evangelho, o mais belo e o mais longo, ele próprio o dizia. Sentiu-se novamente forte e bem disposto.
Esse primeiro evangelho — “Glória a Ti, ó Filho do Homem” — ele sabia de cor. Às vezes, enquanto o recitava, olhava em torno e via um mar de olhos. E ouvia o crepitar dos círios. Mas não lhe pareciam os mesmos fiéis dos anos precedentes, nem mesmo os reconhecia… Eram as mesmas gentes dos tempos de sua infância e de sua juventude, que seriam sempre as mesmas a cada ano que passasse… Até quando? Só Deus o sabia.
Seu pai era diácono, seu avô padre, seu bisavô diácono… toda a sua ascendência, talvez, depois da evangelização da Rússia, pertencera ao clero — e o amor de seu ministério, do sacerdócio, do carrilhão, era, nele, inato, profundo, desenraizável. Era na igreja, sobretudo quando oficiava, que se sentia mais ativo, disposto, feliz. E era o que lhe acontecia, naquele instante.
Somente depois da leitura do oitavo evangelho, sentiu que sua voz enfraquecera, nem mesmo sua tosse se ouvia, a cabeça doendo-lhe terrivelmente: teve medo de cair. Com efeito, suas pernas estavam completamente entorpecidas, a ponto de, pouco a pouco, não mais as sentir. Não compreendia como e sobre que se sustentava, por que não caía…
Terminado o ofício, faltavam quinze para meia-noite. Voltando à casa, trocou de roupa e deitou-se imediatamente, sem mesmo dizer suas orações. Não podia falar, sentia-se incapaz de manter-se em pé. E foi exatamente enquanto se cobria que um súbito desejo de partir o dominou… partir para o estrangeiro, uma irresistível vontade… Parecia-lhe que teria dado sua vida para não mais ver aqueles horríveis postigos, aqueles tetos baixos — e não mais sentir o pesado cheiro do convento. Se ao menos existisse um homem a quem pudesse falar, abrir sua alma!
Ouviu por muito tempo passos no quarto vizinho, sem conseguir lembrar-se de quem eram. Por fim, a porta abriu-se e o Padre Sissol entrou com uma vela e trazendo-lhe uma xícara de chá.
— Já está deitado, monsenhor? Vim fazer-lhe uma fricção, com vodca e vinagre. Uma boa fricção sempre faz bem. Senhor Jesus! Estou acabando de chegar de nosso convento… Ele não me agrada, não me agrada! Vou-me embora amanhã, Excelência… Não desejo ficar nem mais um dia. Senhor Jesus… Pronto!
O Padre Sissol não gostava de permanecer por muito tempo em um lugar e já estava com a impressão de que passara o ano inteiro em São Pancrácio. Além disso, ouvindo-o, era difícil saber onde ficava sua casa, se ele amava alguém, ou qualquer coisa, se acreditava em Deus… Ele próprio não compreendia por que era monge… Aliás, ele não pensava mais nisso, há muito tempo se apagara, em sua memória, qualquer recordação da época em que recebera a tonsura… parecia-lhe que já nascera monge.
— Parto amanhã. Estou me despedindo de tudo isso.
— Gostaria de conversar com o senhor… Mas nunca houve ocasião — disse monsenhor, em voz baixa, penosamente. — Não conheço ninguém aqui… não estou a par de nada…
— Pois ficarei até Domingo, se quiser. Mas não além de Domingo… Ah! Não!
Monsenhor prosseguiu, em voz baixa:
— Que espécie de bispo sou eu? Deveria Ter sido pope, de aldeia, diácono… ou simples monge… Tudo isso me acabrunha… me acabrunha…
— Como? Senhor Jesus, que idéia! Vamos, durma, monsenhor… Que estranha idéia! Boa noite!

* Tradução de Maria Jacintha

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