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Certo dia de Outono (Maksim Górki – 1895)

Certo dia de outono vi-me numa situação muito delicada e incômoda: acabava de chegar a uma cidade onde não conhecia ninguém, não tinha onde me hospedar e meus bolsos estavam vazios.
No decorrer dos primeiros dias vendera todas as peças de roupa que podia dispensar e, finalmente, não restou outro recurso senão dirigir-me ao local chamado “Desembocadura”, bairro onde se achavam os cais da navegação fluvial e onde, por conseguinte, durante a época em que trafegavam os navios, fervia a atividade portuária. Mas cheguei em princípios de outubro, início da estação hibernal quando todo o movimento fluvial pára; assim, todo o bairro estava abandonado e quieto.
Vagueei entre os armazéns fechados e as barracas dos comerciantes trancadas; pisava e repisava a areia úmida na esperança de encontrar algo de comestível, pensando em como seria agradável a sensação de estar alimentado.
Nas circunstâncias da vida civilizada é mais fácil satisfazer a fome espiritual que a física. A pessoa pode perambular pelas ruas, rodeado de casas de aspecto agradável, e supor com razoável certeza que aquelas moradias são confortavelmente organizadas por dentro. Essas observações podem despertar pensamentos aprazíveis sobre arquitetura, condições higiênicas e outras coisas sábias e abstratas. A tal pessoa cruzaria na rua com cidadãos bem trajados, esses cidadãos seriam delicados, dar-Ihe-iam caminho ignorando cortesmente a existência da nossa pessoa hipotética. Asseguro-vos que a alma do homem faminto recebe alimento mais abundante e mais sadio que a do cidadão bem nutrido — eis a situação que permite deduções espirituosas, favoráveis aos homens bem alimentados.
… Anoitecia chovendo, sopravam rajadas frias de vento vindo do norte. O vento assobiava dentro das barracas vazias, sacudia as venezianas dos hotéis fechados, as ondas do rio espumavam sob a força do vento, açoitavam ruidosamente a margem arenosa do rio, e, erguendo, orgulhosas, suas cristas brancas, perseguiam-se mutuamente saltando, pulando e desaparecendo afinal na distância brumosa… Parecia que o rio pressentia a proximidade do inverno e, assustado, procurava fugir das cadeias glaciais que o vento frio poderia forjar a qualquer momento; naquela mesma noite, quiçá, congelando sua superfície até o retorno da primavera. O céu pesado e sombrio derramava sobre a terra, chuva tão miúda que a vista mal conseguia distinguir as gotas; dois salgueiros desnudos e estropiados e um bote, deixado de quilha para cima entre eles, como que agravavam o aspecto tristonho da paisagem.
O bote com seu fundo quebrado, as árvores despidas, velhas e dignas de lástima… tudo em torno, deserto e morto, e o céu a chorar, a chorar… Pareceu-me que tudo morria em volta de mim, que logo eu seria o único ser vivo, mas condenado a morrer devagar, de fome e frio…
Entretanto eu estava no vigor dos meus dezessete anos, época boa de se viver.
Andei, andei pisando a areia, úmida e fria, e meus dentes matraqueavam, incessantemente, executando um hino em honra ao frio e à fome. De repente, tendo contornado uma das barracas na esperança vã de encontrar qualquer coisa para comer, dei com um vulto cujas roupas femininas ensopadas pela chuva se grudaram a seus ombros. Parei e observei curioso o que ela fazia: suas mãos cavavam um buraco, que tendia a passar por baixo da parede de madeira da barraca.
— Para quê faz isso? — indaguei, agachando-me, de cócoras, a seu lado.
A moça soltou um gritinho assustado e pôs-se de pé num salto. Vi então, que se tratava de moça da minha idade, bonitinha, dona de grandes olhos cinzentos que me olhavam assustados. Infelizmente, três pisaduras roxas desfiguravam o jovem rosto. A disposição simétrica das manchas azuladas, pois havia uma embaixo de cada olho e uma no meio da testa, fazia desconfiar que a pessoa que as produzira fosse artista com muita prática do ofício.
A moça continuava a me olhar e, aos poucos, o temor desapareceu de seus olhos. Em dado momento, ela sacudiu as mãos para tirar a areia que havia grudado, ajeitou o lenço na cabeça, encolheu-se de frio e disse:
— Vai ver que também está com fome? Vá cavando então, cansei-me. Lá — disse indicando a barraca, — decerto há pão… esta barraca ainda negocia…
Comecei a cavar. A moça esperou um pouco, observou-me; agachou-se a meu lado e começou a me ajudar…
Trabalhamos calados. Não posso dizer agora se naquela hora me lembrei do Código Criminal, das leis da moral, da inviolabilidade da propriedade privada ou qualquer outra das coisas importantes que, na opinião das pessoas entendidas, devem ser lembradas a qualquer momento de nossa vida. Desejando ater-me à verdade, na medida do possível, devo confessar que fiquei entretido com a tarefa de abrir entrada na barraca, a tal ponto que me esqueci de qualquer outra coisa que não fosse a especulação sobre o que poderíamos encontrar dentro da barraca…
Anoitecia. A escuridão úmida e fria tornava-se mais palpável, de minuto em minuto. O bramir das ondas parecia ter-se tornado mais abafado; em compensação o tamborilar da chuva tornou-se mais intenso e mais rápido. Ao longe, estalou a matraca do guarda-noturno…
– Será que tem soalho? — perguntou minha companheira, de mansinho. Não entendi de que falava e, por isso, nada respondi.
– Estou perguntando se a barraca tem soalho — se tiver, estamos fritos. Faremos o buraco, só para encontrarmos tábuas impedindo o caminho… Como haveríamos de arrancar as tábuas? É melhor arrancar o cadeado… é um cadeado bem vagabundo…
É raro que uma boa idéia nasça na cabeça de mulher, mas como o leitor pode observar no presente caso, isso não deixa de acontecer… Sempre fui apreciador de boas idéias e sempre tratei de as aproveitar na medida do possível.
Achei o cadeado e arranquei-o com ganchos e tudo… No mesmo instante, que abri a portinhola, minha companheira desapareceu entrada a dentro e, instantes depois, ouvi sua exclamação elogiosa:
– Êta, bichão!
Prezo um pequeno elogio feminino mais do que um discurso enaltecedor, pronunciado por qualquer homem, mesmo que ele seja tão eloqüente como todos os oradores da antigüidade reunidos. Naquele momento, no entanto, não me sentia inclinado a galanteios e por isso sem dar atenção ao elogio, perguntei lacônico e ríspido:
– Há qualquer coisa?
Em cantilena monótona, ela começou a enumerar as descobertas, na medida que topava com elas:
– Uma cesta com garrafas… sacos vazios… guarda-chuva … balde…
Nada disso servia para se comer. Senti minhas esperanças perderem o brilho quando, enfim, veio o grito salvador:
– Ah! Ei-lo!
— Quem?
– Pão… um pão inteiro… mas está molhado… pegue!
Da escuridão veio rolando um pão inteiro, seguido de perto por minha companheira do momento. Quando ela apareceu, eu já havia arrancado um pedaço e mastigava-o.
– Dê-me um pedaço também… temos que dar o fora daqui. Aonde podemos ir? A moça olhou em torno, mas não se via nada senão escuridão molhada e barulhenta.
– Lá adiante está o bote virado… Vamos lá?
– Vamos! Marchamos lado a lado e em caminho arrancávamos pedaços de pão, metendo-os na boca… A chuva engrossava, o rio berrava raivoso, de longe ouvia-se um apito prolongado, que me pareceu ter um quê de irônico, como se alguém muito grande e muito forte, que não tivesse medo de ninguém escarnecesse de tudo e de todos, inclusive de nós dois — heróis anônimos daquela aventura. O som do apito fazia-me mal, mas o mal-estar não impedia que eu comesse, avidamente, e a moça não me ficava nada a dever.
Não sei para quê eu precisei saber o seu nome, mas em dado momento perguntei-lhe.
— Natacha — respondeu a moça mastigando, gostosamente.
Olhei-a e meu coração contraiu-se dolorosamente e, quando olhei de novo a escuridão à minha frente pareceu-me que a cara do meu destino me olhava zombando de mim, sorrindo de maneira enigmática e fria.
A chuva incansável tamborilava sobre o fundo do bote e esse ruído monótono sugeria pensamentos tristes. O vento uivava, forçando entrada pela fenda no casco do bote, onde uma lasca frouxa vibrava sob o impacto e estalava de maneira inquieta num queixume contínuo. Também as ondas do rio rugiam de maneira monótona e desesperada como se estivessem contando algo intoleravelmente tedioso que as aborrecia, de que gostariam de fugir, mas que tinham de contar sem poder evitá-lo. O ruído da chuva misturava com o barulho do rio e a própria terra parecia suspirar, cansada com as eternas mudanças entre o verão, quente e brilhante, e o outono úmido, frio e brumoso.
O apartamento embaixo do bote carecia de conforto; era apertado e úmido, pelo fundo rachado entravam miúdas e frias gotas de chuva impelidas por furiosas rajadas de vento… Nós, os inquilinos temporários, permanecemos calados, estremecendo de frio. Lembro-me que senti sono: Natacha reduzida a uma bolota, recostara-se ao costado do bote. Ela abraçara os joelhos e não desviava os olhos do rio, olhos que, realçados pelas manchas azuis das pisaduras no rosto pálido, pareciam enormes, imóveis e mudos. Começou a me infundir receio… quis conversar com ela, mas não sabia por onde começar.
Ela mesma iniciou a conversa:
– Que vida miserável! — disse, distintamente e com convicção.
Contudo, aquilo não fora queixa. Houvera tanta indiferença em sua entonação que não restara margem para lamento. Simplesmente ela raciocinara como pôde, chegou a determinada conclusão e pronunciou-a em voz alta. Não me foi possível contradizê-la sem trair meus princípios, por isso continuei calado. A moça, como se despercebesse minha presença, ficou de novo quieta e imóvel.
– Quem sabe seria melhor se a gente morresse… — disse Natacha, após certo tempo; desta vez, suas palavras foram pronunciadas em voz baixa e pensativa, mas sem expressar mágoa. Aparentemente ela pensou na vida, examinou suas possibilidades e, calmamente, chegou ao resultado que para se proteger contra as agruras do destino, nada lhe restava senão morrer.
Diante desta clareza de raciocínio, senti profundo mal-estar e percebi que se eu continuasse calado acabaria chorando, envergonhar-me-ia se o fizesse diante de um ser feminino, mormente porque ela se abstinha desta demonstração de fraqueza. Resolvi romper o silêncio.
– Quem surrou você? — perguntei, incapaz de me lembrar de tópico mais inteligente.
– Foi Pachka, como sempre — respondeu a moça, calmamente.
– Quem é?
– Meu amante, padeiro…
– Surra você a miúdo?
– Quando bebe, surra.
Num gesto repentino, a moça aproximou-se de mim e começou a falar de si e suas relações com Pachka. Disse que era mulher “de vida fácil”, enquanto ele tinha bigodes ruivos e tocava muito bem sanfona. Pachka freqüentava a casa de tolerância, onde ela vivia, e ela gostou do homem porque estava sempre alegre e limpo. Usava um casaco de quinze rublos e botas feitas a mão, com enfeites. Portanto, ela apaixonou-se pelo rapaz e ele ficou sendo seu amante. Quando suas relações se estabilizaram, ele começou a tirar-lhe o dinheiro que ela ganhava dos outros fregueses; com esse dinheiro comprava bebidas e, quando embriagado, surrava-a. Isso ainda seria suportável, se ele não namorasse as outras moças na presença dela…
– Então, isso não me deve ofender? Não sou pior que as outras. Quer dizer que ele faz isso de propósito para fazer pouco caso de mim, o patife. Anteontem pedi à dona que me desse folga para dar um passeio, fui à casa dele e encontrei lá a Dunia, bêbeda como só ela. Ele também estava tocado. Disse-lhe então: “Patife! Você é um patife! Tapeador!” Surrou-me então todinha — com os punhos, puxando-me o cabelo — de todo o jeito… Isso ainda poderia passar, o pior é que me rasgou a roupa toda… Como há de ser isso? Como hei de me apresentar à dona? Rasgou tudo, blusa, vestido, eram novinhos… Arrancou-me o lenço da cabeça… Meu Deus! Como hei de me arranjar? Ao pronunciar as últimas palavras, a voz dela elevou-se num grito desesperado.
O vento uivava, tornando-se cada vez mais frio e forte… Comecei a bater os dentes, de novo. Natacha também encolhia-se de frio e chegou tão perto de mim que, apesar da escuridão, pude perceber o brilho de seus olhos.
– Que patifes são os homens todos! Se pudesse espezinhá-los-ia a todos! Se visse um morrendo, escarrar-lhe-ia na cara, mas não teria pena dele! Caras sem- vergonha! Fazem bonito, agradam, abanam a cauda, mas quando a boba faz a vontade, pronto — acabou-se! Já começam a maltratar a coitada! Demônios piolhentos!
A moça possuía variado repertório de maldições, mas quando as pronunciava não havia entonação raivosa, não transparecia ódio para com os “demônios pioIhentos”; em contraste às palavras que dizia, sua voz era estranhamente calma.
Entretanto, as palavras dela produziram em mim efeito muito mais emocionante e violento que os mais eloqüentes e pessimísticos livros ou discursos que li e ouvi antes, depois e mesmo hoje em dia. Isso aconteceu porque a agonia do moribundo é sempre mais natural e mais impressionante que uma descrição por mais artisticamente bem feita que seja.
Sentia-me mal, provavelmente mais por causa do frio que devido ao que me dissera a companheira. Gemi em surdina e rangi os dentes.
Quase instantaneamente senti o contato de duas mãozinhas frias; uma afagou-me o pescoço e a outra passou pela minha face. Ao mesmo tempo, uma voz doce e assustada perguntava:
– Que tem?
Custei a acreditar que a pergunta partiu da mesma pessoa, que pouco antes dissera que todos os homens eram patifes e desejou-lhes a morte. Mas não havia dúvida, pois em seguida ela começou a falar apressada:
— Que sente? Está com frio? Está congelando? Mas que bobo que é! Ficou o tempo todo sem dizer nada, feito coruja! Por que não disse antes que está com frio… bem… deite no chão… estique-se direitinho… e eu deito… assim! Abrace-me com força agora… mais forte! Então, agora vai sentir menos frio… depois, vamos deitar costas contra costas… a noite há de passar… Que foi que houve, deu a bebedeira? Foi despedido?… Não há de ser nada!
Consolava-me… Dava-me coragem…
Que eu fosse maldito! Três vezes maldito! Quanta ironia encerrava aquela situação! Imaginem só! Eu, naquela época estava intensamente preocupado com os destinos da humanidade, sonhava em reorganizar a estrutura social, lia livros tão diabolicamente insondáveis que a profundeza de sua sabedoria era provavelmente inacessível aos próprios autores que os escreveram — eu que envidava todos os esforços possíveis para me tornar “expoente máximo da força ativista” — e, naquela noite, uma simples meretriz aquecia-me com o calor de seu corpo; menos que simples meretriz — um ser humano perseguido, maltratado, sem lar, sem futuro, cuja vida nada valia — um ser humano a quem não me lembrei de oferecer minha ajuda antes que ela me ajudasse — e mesmo que me tivesse lembrado, duvido que teria sido capaz de lhe ser útil.
Oh, estava prestes a acreditar estar sonhando, estar vivendo tudo aquilo num pesadelo incongruente.
Mas não, nem que quisesse não poderia convencer-me de estar sonhando; a chuva continuava a borrifar-me o rosto, seios femininos comprimiam-se contra o meu peito e seu hálito morno bafejava-me o rosto; é verdade que o bafo trazia um nadinha de cheiro de vodca, mas nem por isso era muito revigorante… O vento uivava, a chuva descia ruidosa, as ondas martelavam a praia, abraçávamo-nos com toda a força, mas não parávamos de tremer. Tudo era muito real e tenho a certeza de que nunca houve quem tivesse tido pesadelo tão penoso e deprimente.
Natacha falava. Falava tão carinhosamente e de maneira tão compreensiva como só mulheres sabem falar. Sob a ação de sua voz amiga, de suas palavras ingênuas e cálidas, uma luzinha começou a arder no meu peito e algo derreteu no meu coração.
Naquele instante, lágrimas abundantes brotaram dos meus olhos e levaram com sua enxurrada muito ódio, tédio, estupidez e sujeira, que se haviam acumulado no decorrer do tempo… Natacha dizia:
– Chega, meu bem, não chore! Acalme-se! Deus há de permitir que fique bom e ache outro emprego… e tudo o mais…
Beijava-me. Beijava-me seguidamente e com ardor…
Foram os primeiros beijos que a vida me oferecera e foram os mais doces, pois os que ganhei daí em diante me custaram muito caro e de nada valeram.
– Chega de chorar, bobinho! Arranjo serviço para você se não tem para onde ir… Eram as palavras que eu ouvia como em sonho…
… Ficamos abraçados até o amanhecer…
Quando o dia clareou, saímos do nosso apartamento, de gatinhas, e dirigimo-nos à cidade… Despedimo-nos amistosamente e nunca mais nos encontramos, embora eu tivesse procurado durante mais de meio ano aquela Natacha querida com quem passei uma noite de chuva… uma noite de outono..
Se ela morreu, foi uma bênção para ela! Que repouse em paz! Se estiver viva, desejo-lhe que sua alma encontre a paz! Faço votos para que nunca se sinta decaída … pois, isso seria um sofrimento inútil para ela e para a vida…

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