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O avô e o netinho (Maksim Górki – 1894)


Aguardando a balsa, os dois deitaram-se na sombra da ribanceira e olharam muito tempo as águas turvas e rápidas do Rio Kubanh. Leonhka adormeceu, mas o Vô Arhip sentia dor surda e aborrecida no peito e não pôde dormir. No fundo marrom-escuro da terra os dois vultos encolhidos apenas apareciam, um deles pouco maior que o outro; os rostos cansados, queimados pelo sol e pelas intempéries, poeirentos, eram quase da cor de suas roupas esfarrapadas.
O comprido corpo ossudo do avô estendera-se na estreita nesga da areia amarela, que separava o rio, da ribanceira. O menino adormecido encolhera-se ao lado do velho. Leonhka, criança mirrada e franzina, parecia um galho caído do avô, velha árvore ressequida que a correnteza havia atirado à praia.
O velho descansara a cabeça na palma da mão, o cotovelo dobrado repousava na areia. Olhava a outra margem ensolarada onde, entre os chorões baixos, aparecia a popa escura da balsa. Da balsa partia uma estrada que se perdia na estepe; a linha reta da estrada parecia inflexivelmente severa e pouco convidativa.
Os olhos inflamados piscavam irrequietos e o rosto rugoso, com as feições imóveis, guardava, permanentemente, uma expressão de indizível tristeza; freqüentes acessos de tosse seca sacudiam o velho que, olhando o neto adormecido, protegia a boca com a mão espalmada e procurava sufocar a tosse para não acordá-lo. A tosse rouca e sufocante forçava lágrimas dos olhos inflamados.
Além da tosse e do ruído manso das ondas, que esbarravam na areia, não se ouvia nada na estepe castigada pelo sol inclemente. A planície estendia-se imensa como o mar e só no horizonte, tão longe que a vista enfraquecida pela idade mal e mal distinguia, agitava-se o rico dourado de vasto trigal, que se confundia com o brilhante azul do céu. No fundo azul apareciam as esbeltas formas de três álamos; pareciam aumentar e diminuir de tamanho; a linha do horizonte também subia e descia e, de repente, tudo desaparecia encoberto pela faixa prateada da “miragem das estepes”.
A faixa movediça e traiçoeira da miragem por vezes aproximava-se do rio e, então, tomava a forma de outro rio brilhante que jorrava do firmamento, liso, calmo e majestoso como a sua fonte. Quando isso acontecia, o velho, desconhecendo o fenômeno, esfregava os olhos pensando que o calor e a estepe lhe houvessem prejudicado a visão, como já lhe haviam roubado a força das pernas.
Naquele dia, sentia-se pior ainda que ultimamente. Sentia que a morte andava próxima e o fato em si não o preocupava; não passava de mais uma das contingências do ser humano; preferia, contudo, morrer na terra onde nascera e preocupava-se com a sorte do neto. Para onde iria o órfão?
Pensava nisso diversas vezes por dia e, cada vez que o pensamento lhe aflorava à mente, um frio penoso apertava-lhe o peito e sentia-se tão mal que, se pudesse, voltaria incontinente às plagas pátrias.
“Mas para voltar, lá era longe… não chegaria… morreria em caminho. Aqui, na Kubanh, o povo é rico e dá esmola generosamente, embora seja de gênio soturno e dado a fazer pouco caso. Não gostam de mendigos, porque são ricos e não conhecem a miséria…
Retendo a vista umedecida pelas lágrimas no rosto do neto, o velho passou-lhe a mão carinhosa pelos cabelos.
O menino acordou e, erguendo a cabecinha, olhou o avô com grandes olhos azuis, pensativos e expressivos além da idade e grandes demais para seu rostinho magro, marcado pela varicela, onde um narizinho afilado mostrava sua ponta acima dos lábios finos e pálidos.
– Já vem? — perguntou o garoto e formou viseira com a mão espalmada para proteger a vista dos reflexos do sol, que brincavam na superfície do rio.
– Não, ainda não. Está parada. Que viria fazer aqui? Ninguém chamou, por isso não se mexe… — falou Arhip, pausadamente, continuando a afagar os cabelos da criança. — Dormiu?
Leonhka abanou a cabeça de maneira incerta, não se sabia se isso significava sim ou não; deitou-se de novo na areia e, por algum tempo, nenhum dos dois falou.
— Se eu soubesse nadar, tomaria banho no rio. — disse o menino olhando fixamente o rio. — Como corre! Nós não temos rios como este. Por que corre tanto? Até parece que está com medo de se atrasar para algum encontro…
Descontente, o garoto deu as costas ao rio.
– Sabe de uma coisa — propôs o velho, — tiremos os cintos, amarremos os dois juntos e a ponta podemos prender em sua perna e pronto; pode tomar o seu banho…
– Pois, sim… — retrucou Leonhka, que idéia! Então, acha que você agüenta segurar? Acabamos afogando-nos os dois, isso sim!
– É capaz de me puxar junto, é verdade. Veja só que força. Na primavera, quando vem a cheia, deve ser um horror! Quanto feno não dá aqui, Virgem Santíssima!
O menino não queria conversar e por isso não reagiu às palavras do avô; pegou um pedaço seco de barro e começou a esfarinhá-lo, muito compenetrado.
Arhip observava-o, de olhos semicerrados, pensando em alguma coisa.
– Engraçado, isso com a terra – começou o menino com voz baixa e monótona, batendo palmas para tirar a poeira. – Peguei a bolota, esfreguei e virou poeira… pedacinhos tão pequenos que a vista quase não distingue…
– Mas, é claro — comentou o avô e começou a tossir. Quando passou o acesso perguntou: — Que querias dizer com aquilo?
– Não sei bem — respondeu o menino indeciso. — É que, veja só como é grande esta terra! Quanta coisa não construíram sobre ela… Quantas cidades passamos… quanta gente mora nelas — até dá medo!
Não sabendo desenvolver o pensamento, o garoto emudeceu, olhando em torno.
Depois de uma pausa, o velho aproximou-se do neto e falou carinhosamente:
— Você é esperto, meu filho! Disse bem, tudo é pó… as cidades, as pessoas, nós dois — tudo é pó. Oh, querido se você pudesse estudar!… Iria longe. Mas assim, que vai ser de você?
O avô abraçou a cabecinha da criança e beijou-a.
– Espere, avô — exclamou o menino, libertando-se do abraço. — Como foi mesmo que falou? Poeira? As cidades e tudo?
– Foi assim que Deus criou o mundo, meu bem. Tudo vem da terra, e a própria terra é pó. E tudo morre, tudo passa… é assim mesmo. É por isso que o homem deve ser operoso e modesto. Eu também morro logo… Aonde irá você sem mim?
Leonhka já ouvira muitas vezes esta pergunta e estava farto do falar da morte, por isso virou a cabeça para o outro lado. apanhou um talo de capim e, metendo a ponta na boca, começou a mastigá-lo.
Mas o avô insistiu no assunto porque era sua maior preocupação.
– Por que não responde? Que vai fazer quando eu faltar? — perguntou mansamente inclinando-se sobre o netinho e tossindo de novo.
– Mas, eu já disse, — respondeu o menino distraído e descontente, olhando o avô, de esguelha.
Não gostava dessas conversas, já porque muitas vezes elas terminavam em briga. O avô discorria longamente sobre a proximidade da morte. No começo, o menino escutava compenetrado, assustava-se com os quadros da situação que se seguiria, chorava até, mas de pouco em pouco cansava-se, deixava de ouvir o que o velho dizia, perdendo-se em devaneios próprios. O avô percebia, ofendia-se, queixava-se de que o neto não o amava, não prezava os cuidados que o avô lhe dispensava e acabava acusando-o de desejar sua morte.
— Já disse — e daí? Você ainda é bobinho, não conhece a vida. Que idade tem? Apenas onze anos. E é doentio, não serve para trabalhar. Aonde irá, pois? Acha que gente boa vai ajudar? Se você tivesse dinheiro eles o ajudariam a gastá-lo, isso sim! Isso de pedir esmola é bem amargo, mesmo para mim que sou velho… Deve-se fazer reverência a todos, solicitar uma esmola pelo amor de Deus a cada um que se encontra. Muitos xingam a gente, às vezes batem, ou enxotam… Você pensa que eles consideram o mendigo como gente? Nunca! Já faz dez anos que ando mendigando, sei o que digo. Acham que uma fatia de pão vale mil rublos. Dão um pedaço de pão e acham que os portões do céu já se abrem para os receber, em recompensa. Por que você acha que a maioria dá esmola? Para acalmar sua consciência, não por caridade! Dá um pedaço de pão ao mendigo e pronto, já não se acanha de comer o resto. O homem de barriga cheia é uma fera e nunca tem pena do que está faminto. O farto e o saciado são inimigos — sempre um é uma felpa no olho do outro, por isso nem um, nem o outro pode sentir piedade pelo que é seu inimigo.
O velho ficou agitado pela raiva e saudade; seus lábios começaram a tremer, os olhos reviravam-se nas órbitas entumecidas e vermelhas, as rugas ficaram mais profundas.
Leonhka não gostava de vê-lo assim e, intuitivamente, temia algo impreciso.
— Por isso, pergunto o que vai fazer? Você é uma criancinha fraca e o mundo é mau, engole você de um trago. E eu não quero que isso aconteça… Amo você, meu filhinho!… Só tenho você nesse mundo, e você só tem a mim… Como é que posso morrer? Não posso morrer e deixar você sozinho… Quem cuidaria de você? Senhor! Por que castiga o seu servo? Viver já não agüento — e morrer não devo, porque tenho que cuidar da criancinha inocente… Cuidei dela sete anos… com minhas fracas forças… Jesus! Ajude-me! …
O avô chorou, amargamente, escondendo a cabeça trêmula entre os joelhos.
O rio corria sempre, apressado, pressuroso, suas ondas murmuravam, tentando abafar os soluços do homem velho. O céu sem nuvens brilhava sorrindo e derramava o calor ardente, apreciando, complacente, o murmúrio do rio.
– Chega, não chore, vovô… — falou Leonhka, severamente, olhando para longe. Após uma pausa, encarou o velho, acrescentando: — Já discutimos tudo isso. Não vou perecer, não. Vou trabalhar numa taberna qualquer…
– Matam você de pancada — gemeu o avô, soluçando.
– Talvez não me batam. Quer ver que não? — exclamou o menino com certa vivacidade. — E daí? Não me entrego a qualquer um!
Nessa altura, Leonhka murchou por qualquer motivo e depois de refletir um pouco segredou:
— Ou então entro num convento…
— Que Deus ajudasse! — suspirou Arhip, animando-se, mas nisso sobreveio novo acesso de tosse.
Na ribanceira, acima deles, ouviram-se gritos e o ranger de rodas.
— Baaalsa! ôooo da baalsaaa! — vibrava alguma voz poderosa.
Os mendigos saltaram de pé apanhando as sacolas e os bordões.
Rangendo, furiosamente, uma arba entrou na faixa arenosa. Em cima da arba, de pé, estava um cossaco. Preparando novo berro ele inclinara para trás a cabeça, com o gorro peludo colocado de banda; seu possante peito inflara-se como um fole. Os dentes brancos brilhavam emoldurados por uma barba negra sedosa, que começava logo abaixo dos olhos injetados. Trazia a japona descuidadamente jogada sobre um ombro, a camisa desabotoada, deixava aparecer o peito cabeludo e queimado pelo sol. O vulto alto e forte do homem, o cavalo de porte fora do comum, as enormes rodas com grossos aros de ferro, tudo impressionava sugerindo força, saúde e abastança.
— Hoi — ahoi!!
O avô e o neto tiraram os gorros e inclinaram-se respeitosamente.
Viva! — cumprimentou-os a voz sonora do recém-chegado. Percebendo que a balsa começara a se afastar da outra margem, o cossaco examinou os mendigos atentamente
– Vêm da Rússia?
– Da Rússia, sim, patrão! — respondeu o velho, inclinando-se de novo.
– Passam fome por lá, hein?
O homem saltara do carro e começara a firmar o correame do cavalo.
— Até as baratas morrem de fome…
– Essa é boa, até as baratas! Quer dizer que nem migalhas deixaram? Comeram tudo? Vocês são bons para comer, mas para trabalhar, decerto não. Porque trabalhando com vontade, não pode haver fome.
– O principal motivo, patrão, é a terra. Já não produz. Chupamos a força dela.
– A terra? — o cossaco sacudiu a cabeça, incrédulo — A terra tem que produzir sempre, por isso existe. Em vez de culpar a terra, devem culpar as mãos. As mãos é que não prestam; mãos habilidosas conseguem que até uma pedra produza.
A balsa chegara.
Dois cossacos grandes e fortes, firmando-se com possantes pés na coberta da embarcação, deram-lhe tal impulso que ela subiu na areia rangendo. Os homens cambalearam com a brusca parada, largaram o cabo e, entreolhando-se, sopraram o ar recuperando o fôlego.
– Calorzinho, hein? — riu-se o dono da arba mostrando os dentes, enquanto guiava o cavalo pela brida para entrar na balsa; tocara o gorro cumprimentando os balseiros.
– Que é — é! — concordou um dos balseiros e, enfiando as mãos nos vastos bolsos da bombacha, acercou-se do carro examinando seu conteúdo e farejando. Seu companheiro sentara-se na coberta e tirava a bota bufando.
Os mendigos haviam subido a bordo e encostaram-se ao corrimão, observando os cossacos.
– Vamos embora! — ordenou o dono da arba.
– Você não traz nada para beber? — indagou o que examinara o carro. Seu companheiro havia tirado a bota e espiava atentamente pelo cano.
– Não. Para quê? No rio não há água que chegue para matar a sede?
– Água… não falo em água.
– Aguardente, então? Não bebo aguardente.
– Mas por que será que não?… indagou o balseiro, pensativo, olhando a coberta do barco.
– Ora, ora, — Vamos indo!
O balseiro cuspiu nas palmas das mãos e agarrou o cabo. O viajante pôs-se a ajudá-lo.
– E você, vovô, por que não dá uma mãozinha? — perguntou o homem da bota.
– Quem sou eu para ajudar, meu amigo! — respondeu o velho com voz queixosa e abanando a cabeça tristonho.
— Nem precisam de ajuda. Dão conta sozinhos! Como se quisesse provar a veracidade do que dissera, o balseiro estendeu-se na coberta.
Seu companheiro xingou-o de preguiçoso e, não recebendo resposta, firmou ruidosamente os pés, puxando o cabo.
Sob o impacto da correnteza, a balsa estremecia, balançava e avançava lentamente.
Olhando a correnteza, Leonhka sentiu doce tontura e os olhos cansados pelo movimento rápido da água, fecharam-se. Os surdos murmúrios do avô, o ranger do cabo e o som das ondas formavam poderosa canção de ninar; quis deitar-se na coberta, cedendo à sonolência, quando um balanço mais forte o sacudiu e ele caiu.
De olhos escancarados, olhou em volta admirado. Os cossacos riam-se dele, enquanto amarravam a balsa num toco de árvore.
— Adormeceu? Você é fraquinho. Senta no carro, dou-lhe uma carona. Senta, também, vovô!
Agradecendo com voz propositadamente embargada o velho subiu no carro, gemendo. Leonhka também embarcou e a arba partiu levantando nuvens de poeira preta, que provocava no velho violentos acessos de tosse.
O cossaco começou a cantar. Seu canto era estranho; interrompia os sons ao meio e terminava-os assobiando. Parecia que desenrolava a melodia como se fosse um novelo de fio e, quando encontrava um nó, arrebentava-o.
As rodas gemiam queixando-se, a poeira subia em pequenas densas nuvens, a cabeça do velho tremia sacudida pela tosse incessante; o menino pensava que, chegando à aldeia, teria que ir de janela em janela cantando com voz fanhosa: “Nosso Senhor Jesus Cris-tooo”… Novamente os meninos da aldeia provocá-lo-iam e as mulheres fariam perguntas intermináveis a respeito da Rússia. Não gostava de olhar o avô naquelas ocasiões porque ele exagerava a sua tosse, curvava-se mais que normalmente e falava com voz lamentosa, interrompida por soluços, contando coisas que nunca sucederam… Dizia que na Rússia o povo caía morto de fome nas ruas e que não havia quem tirasse os corpos porque todo o mundo andava enfraquecido e estonteado pela fome… O menino sabia que nunca haviam visto nem coisa semelhante e que o velho contava essas lorotas para que as esmolas fossem maiores. Mas para quê serviam as esmolas dadas em espécie de trigo em grão, ou farinha?… Lá em casa era fácil vender, mas aqui na zona de fartura ninguém comprava.
– Vão pedir esmola? — perguntou o cossaco, olhando por sobre o ombro os dois vultos encolhidos.
– Pois é, meu senhor! — respondeu Arhip, suspirando.
– Fique de pé, velhinho, quero lhe mostrar a minha casa. Vocês podem vir pernoitar.
O velho tentou levantar-se, mas caiu machucando o lado contra o gradil e gemeu.
— É duro ser velho. — comentou o cossaco, lamentando-o. — Não faz mal, não precisa olhar,, quando chegar a hora de se recolherem, pergunte onde é a casa de André, o Preto — sou eu. Agora, apeem-se; adeus.
Os mendigos viram-se diante de um bosque de álamos. Através dos troncos apareciam os telhados e cercas da aldeia e por todos os lados havia outros grupos de árvores. As folhas verdes cobriram-se de poeira cinzenta e os troncos apresentavam rachaduras produzidas pelo calor.
Diante deles, começava uma rua ladeada por duas cercas e os dois se encaminharam para lá com o passo compassado de quem estava habituado a caminhar muito.
– Como é, Leonhka, vamos juntos ou separados? — indagou o velho e, sem aguardar resposta, acrescentou: — É melhor irmos juntos; quando você fica só recebe muito pouca coisa. Não aprendeu a pedir…
– E para quê precisamos de muito? De qualquer modo não conseguimos comer tudo… — respondeu o menino aborrecido, olhando em torno.
– Para quê? Bobinho! E se aparecer alguém que compre? É para isso!… Ganha-se um dinheirinho e o dinheiro é tudo. Se tivermos dinheiro, você não se perde quando eu morrer.
Sorrindo, carinhosamente, Arhip passou a mão na cabeça da criança.
– Sabe quanto eu consegui guardar desde que caminhamos, hein?
– Quanto? — perguntou o garoto indiferente.
– Onze rublos e cinqüenta copeques!… Viu?
A criança não se mostrou impressionada nem com a importância, nem com a voz triunfante do avô.
– Você ainda é muito criança, mesmo! — suspirou o ancião. — Então vamos separados?
– Cada um por si…
– Está bem. Encontramo-nos em frente da igreja.
— Sei…
O avô entrou pôr uma viela à esquerda, o menino continuou a caminhar pela mesma rua. Não deu nem dez passos, quando ouviu uma exclamação rachada: “Benfeitores bondosos!” Parecia que alguém passou a mão nas cordas de uma cítara desafinada, começando pelos baixos e continuando até as mais finas. O menino apressou o passo, estremecendo. Detestava ouvir o avô pedinchar, sentia-se mal, constrangido e quando recusavam a esmola, chegava a sentir medo de que o velho começasse a chorar.
Ainda ouvia o pedinchar penoso que flutuava no ar quente da aldeia. A povoação quieta parecia adormecida. Leonhka aproximou-se da cerca e sentou-se na sombra de uma cerejeira cujos ramos se projetavam até a rua. Ouviu o zumbido atarefado de uma abelha.
O garoto tirou a sacola dos ombros, deitou-a na terra e descansando nela a cabecinha ficou a observar o intrincado desenho formado pelos ramos contra o fundo azul do céu. Abrigado de um lado pela cerca e do outro pelo capim alto, o menino adormeceu.
Acordou ouvindo estranhos sons, que vibravam no ar já refrescado pelo anoitecer. Alguém chorava desconsolado. O choro era infantil, ruidoso e insistente. Os soluços terminavam em sons suaves, dolentes, mas em seguida recomeçavam com renovado ímpeto, aproximando-se sempre. O menino levantou a cabeça e observou a rua através do capim.
Pela rua vinha uma garota de uns sete anos de idade, trajava roupa limpa e bem arrumada. O choro deixou os olhos vermelhos e o rostinho inchado; de quando em quando a menina levantava a saia branca para enxugar os olhos. Andava devagar, arrastando os pés descalços na poeira que formava espessa nuvem em torno dela. Aparentemente não sabia aonde e para que fim caminhava. Seus olhos pretos, grandes, estavam tristes e magoados; duas orelhinhas rosadas apareciam atrevidamente através dos cabelos castanhos que, revoltos, caíam sobre a testa, cobriam as faces e chegavam até os ombros.
Leonhka achou-a muito engraçadinha, mesmo chorando, engraçadinha e alegre… pensou que devia ser muito levada.
— Por que chora? — perguntou Leonhka, levantando-se quando ela chegou perto.
A menina estacou estremecendo e parou de chorar, embora ainda soluçasse de mansinho. Olhou o menino por alguns segundos, de repente seus lábios estremeceram, o peitinho levantou-se sob a blusa, o choro rompeu de novo e ela continuou o caminho.
Leonhka sentiu um aperto no coração e partiu seguindo-a.
– Não chore… você já é grande. Gente grande não chora — dizia o menino mesmo antes de a alcançar. Quando se emparelhou com a menina, olhou-a no rosto e perguntou de novo: — Por que chora tanto?
É e-e — respondeu a menininha. — Se acontecesse a você uma coisa dessas… — de repente, sentou-se no meio da rua e, cobrindo o rosto com as mãos, soltou um uivo desesperado.
– Ora! – Leonhka fez um gesto desdenhoso. — Mulher! Não passa de mulherzinha… que coisa!
Mas a observação filosófica não adiantou a nenhum dos dois. Vendo como entre os dedinhos rosados coavam lágrimas e mais lágrimas, o garoto sentiu muita pena dela e quase chorou também. Curvou-se para a menina e com muito cuidado, brandamente, tocou em seus cabelos, mas, mais que depressa retirou a mão ousada. A menina continuava a chorar e não dizia nada.
– Escute! — disse Leonhka, depois de prolongada pausa, pois sentia necessidade urgente de ajudar a menina, — diga-me o que foi… Alguém bateu em você? Isso passa!… Ou foi outra coisa? Diga-me, por favor..
A menina não tirou as mãos do rosto, mas finalmente meneou a cabecinha desconsolada e, mesmo soluçando, disse dando de ombros:
— O lenço… perdi o lenço! Papai trouxe da cidade… azulzinho… cheio de flores… eu pus — e perdi! — começou a chorar mais alto, mais sentida, soluçando e gritando alguma coisa que parecia o-o-o-o-o-o!
Sentindo-se incapaz de lhe valer, Leonhka afastou-se um pouco, temeroso e ficou a olhar o céu escurecido. Sentia-se deprimido e lamentava a menina.
— Não chore, quem sabe ainda aparece… — murmurou o garoto e afastou-se mais um pouco, pensando que o pai certamente iria surrar a menina. Imaginou o pai, um grande cossaco moreno surrando a criança que, sufocada pelas lágrimas, tremendo de medo e de dor, arrasta-se a seus pés…
O menino afastou-se, mas mal deu uns passos retrocedeu, parou diante dela e encostando-se na cerca quis lembrar-se de alguma coisa para dizer, bem carinhosa… consoladora…
— Não fica bem você ficar sentada aqui, pequerrucha! Chega de chorar… Vá para casa e diga direitinho como foi… diga que perdeu… Está com medo da surra?
Falou brandamente, condoído e vendo que a menina começava a se levantar, exclamou sorrindo contente:
— Assim é melhor! Vá para casa, vá. Quer que a acompanhe e conte tudo? Não deixo baterem, quer?
Leonhka endireitou os ombros, orgulhoso, e olhou em volta desafiando alguém.
– Não precisa, não… – murmurou a menina, limpando a saia e soluçando ainda.
– Se quiser eu vou! – ofereceu-se Leonhka de novo e colocou o gorro de lado, como vira os valentões fazerem.
Estava diante dela em atitude corajosa, de pés afastados, o que estranhamente realçou seus andrajos. Firmava o bordão decididamente e seus olhos grandes, geralmente tão tristes, brilhavam resolutos e orgulhosos…
A garotinha olhou-o, disfarçadamente, e esfregando as lágrimas no rostinho empoeirado, suspirou, dizendo:
— Não, não vá. Mamãe não gosta de mendigos.
A menina foi embora, mas duas vezes ainda virou o rostinho, olhando-o.
Leonhka sentiu novamente tédio. Imperceptivelmente mudou de atitude, curvou-se, ficou submisso como sempre, pendurou a sacola às costas, mas quando viu a menininha desaparecer atrás da esquina gritou-lhe:
— Adeus!
Ela olhou-o mais uma vez, sem parar e desapareceu.
Já anoitecia e reinava o mormaço que prenuncia as tempestades. Os topos dos altos álamos ainda refletiam os últimos raios vermelhos do sol, mas a sombra que já envolvia a ramagem parada fazia-os parecerem mais altos que de dia. O céu tornava-se escuro e aveludado e já não parecia tão distante. De alguma parte, vinham vozes de diversas pessoas conversando, em outra parte cantavam. Os sons graves do canto também pareciam pesados e deprimentes como o mormaço.
Leonhka ficou mais abatido ainda e sentiu até um temor estranho, sem conhecer a causa. Resolveu procurar o avô e avançou rapidamente rua acima. Repugnava-lhe pedir esmola. Andando, percebeu que seu coração batia mais célere que de costume e que tinha preguiça não só de andar, mas até de pensar… Mas não esquecia a menininha e pensava: “Que estará acontecendo com ela? Se for filha de gente rica, decerto apanha, porque os ricos são sovinas; se for pobre, talvez apenas ralhem com ela… Nas casas pobres gostam mais das crianças porque vêem nelas futuros braços que poderão ajudar no trabalho”. Um pensamento seguia o outro, mas a tristeza, que o acompanhava qual uma sombra, tornava-se mais pesada, mais amarga, de minuto a minuto.
As sombras também tornavam-se mais sufocantes. Homens e mulheres, que passavam por ele, não lhe davam atenção alguma; já estavam habituados com os pedintes que, vindos da Rússia, invadiam a Kubanh. Também Leonhka mal olhava para seus rostos e suas figuras robustas; apressava-se a chegar à igreja cuja cruz avistava através das copas das árvores.
Ouviu o ruído dos rebanhos que voltavam do pasto. Eis a igreja, baixa, mas grande, de cinco cúpulas, paredes pintadas de azul, cruzes douradas que se perdiam por trás dos altos álamos que cercavam a igreja.
O avô aproximava-se também, arcado sob o peso da sacola bem recheada; protegia a vista com a mão espalmada, procurando o netinho.
Atrás do avô, vinha um cossaco grande e forte, de gorro enfiado sobre os olhos e bengala na mão.
— Que é isso? A sacola está vazia? — perguntou o ancião avistando o menino, que parara em frente da porta da igreja. — Veja quanto eu consegui! — disse o velho tirando sua sacola e depositando-a no chão a muito custo. — Gente boa aqui, generosa! Por que você está tão triste?
– A cabeça me dói… respondeu o garoto, sentando-se ao lado do avô.
– Não diga… Cansou-se… é o calor… Já vamos à procura da pousada. Como era mesmo o nome daquele homem?
– André, o Preto.
– Vamos indagar assim mesmo — onde mora André, o Preto, boa gente? Aí vem vindo um homem… Sim… gente boa… gente rica — todos comem pão de trigo. Boa noite, amigo!
O cossaco aproximou-se dos mendigos, parou e respondeu pausadamente:
— Boa noite!
Em seguida, olhando os dois, com grandes olhos inexpressivos, coçou-se.
Leonhka olhava-o apenas curioso, mas Arhip pestanejava traindo nervosismo; o homem fitava-os calado; a certa altura começou a pescar o comprido bigode com a língua. Tendo conseguido o seu intento, mastigou um pouco o bigode, empurrou-o de novo com a língua e só então decidiu-se a romper o silêncio que já se tornava penoso.
– Vamos à Sala do Conselho!
– Para quê? — perguntou o ancião agitado.
Leonhka sentiu um estremecimento de mau agouro.
– Precisa… A ordem é essa. Vamos!
Deu-lhes as costas e começou a andar, mas notando que os dois não se mexiam, parou e gritou meio zangado.
– Que estão esperando?
Isso bastou para que avô e neto o seguissem apressados.
O menino observava o velho atentamente e viu que seus lábios estremeciam e a velha cabeça tremia, enquanto ele procurava alguma coisa com a mão metida no peito da camisa. Desconfiou que o avô teria feito alguma coisa que não devia, como o fizera outro dia num povoado por onde passaram. Lá, o velho havia “desapertado” umas roupas estendidas para secar e fora apanhado. Caçoaram dele então, xingaram, chegaram mesmo a bater-lhe e expulsaram-nos do povoado, em plena noite. Pernoitaram na praia de uma enseada e o mar não parou de rosnar ameaçadoramente a noite toda. O avô gemeu até amanhecer o dia, rezou, murmurando, acusando-se de ladrão e pedindo perdão a Deus.
– Leonhka…
Leonhka assustou-se com a cotovelada do velho e olhou-o. O rosto do avô ficara chupado, cor de cera e tremia.
O cossaco andava a cinco passos à frente dos mendigos fumando no cachimbo, decepando as ervas daninhas à beira do caminho com sua bengala. Não lhes dava atenção.
— Tome… jogue no mato e marque o lugar… para apanhar mais tarde — sussurrou o avô num fio de voz, apenas audível e enfiou na mão do netinho um pedaço de pano amassado em bola.
Leonhka estremeceu de medo e aproximou-se da cerca onde havia uma touceira de bardanas. Observando atentamente as costas da escolta, estendeu o braço e largou o pano no meio da touceira…
Ao cair, a bolota abriu-se e Leonhka viu um lenço azul com florzinhas, mas essa visão real foi obliterada pela figurinha soluçante da meninazinha que surgiu diante dele tão real, tão viva que o menino já não viu nem o avô a seu lado, nem o cossaco a sua frente — só via a menina, escutava seus soluços e via as lágrimas pingando na poeira.
Ainda continuava nesse estado de semiconsciência quando entrou na Sala do Conselho, ouviu o surdo rumor de vozes sem as entender, relutando mesmo em compreender o que se dizia. Através de uma estranha névoa, viu quando pegaram a sacola do avô, esvaziaram-na sobre a mesa e ouviu o ruído abafado dos objetos, que caíam no tampo da grande mesa. Em seguida, uma porção de gorros de peles rodearam o monte de objetos e, visto através da névoa, o movimento dos gorros parecia sinistro e ameaçador… De repente, dois grandalhões agarraram o ancião que se debatia, murmurando alguma coisa com voz rouca…
– Sofro inocentemente, meus senhores! Deus sabe que sou inocente! — guinchou o ancião, de súbito.
Corando, o garoto sentou-se no chão.
Chegou a sua vez. Levantaram-no do chão, puseram-no sentado num banco e revistaram sua roupa andrajosa que mal cobria o corpinho, mirrado.
— A Danilovna está mentindo, aquela bruxa! — gritou alguma voz poderosa, sob cujo impacto os ouvidos do menino doeram.
– Quem sabe se não esconderam em alguma parte? — gritou outra voz, ainda mais zangada.
As vozes sonoras pareciam pancadas, quando atingiam a consciência da criança, que só de pavor perdeu os sentidos e mergulhou nas trevas assustadoras, que se abriram diante dele.
Quando o menino voltou a si, sua cabecinha repousava no regaço do avô e, do rosto ainda mais rugoso e mais lastimável que de costume, pingavam lágrimas sobre a testa do garoto e faziam cócegas ao rolarem pelas suas faces e pescoço.
— Desmaiou, meu coração?! Vamo-nos daqui, querido. Vamos, soltaram-nos os malditos!
Leonhka levantou-se, mas sua cabeça parecia estar cheia de algum líquido pesado que a faria cair de seus ombros a qualquer momento… Agarrou a cabeça com as duas mãos e oscilou gemendo.
— Dói a cabecinha? Coitadinho do meu netinho! Torturaram-nos… essas feras! Sumiu um punhal e uma menina perdeu o lencinho e pronto — vieram para cima de nós!… ó meu Deus!… por que nos castiga?
A voz fanhosa do avô magoava o menino e alguma chama ardente no seu íntimo o obrigou a se afastar do ancião e a olhar em volta. Estavam sentados na saída do povoado, na sombra escura de uma árvore. Era noite fechada, a lua pairava no céu e sua luz prateada deixou a estepe menor, mas mais vazia, mais desolada e triste. Do horizonte subiam espessas nuvens que se moviam majestosas, lançavam sombras ameaçadoras sobre a estepe e logo sconderam a lua. Do povoado, ouviam-se vozes e começaram a brilhar luzes.
– Vamos, querido, temos que ir…
— Fiquemos mais um pouco — pediu Leonhka.
Gostava da estepe. Andando de dia, causava-lhe prazer olhar ao longe onde a cúpula do firmamento repousava sobre o possante peito arcado da planície… Imaginava que além daquela linha havia cidades maravilhosas habitadas por gente bondosa que não esperava que lhes pedissem pão — ofereciam-no de bom grado… Quando, porém, da vasta campina surgia diante dele um povoado tão parecido aos muitos que já haviam visto, o menino ficava triste e sentia-se logrado.
Naquela noite ficou a olhar pensativamente o horizonte de onde surgiam as pesadas nuvens. Imaginava que fossem a fumaça produzida pelas milhares de chaminés da cidade de seus sonhos… A tosse seca do avô interrompeu os devaneios.
Leonhka olhou atentamente o rosto molhado pelas lágrimas e a boca que, ansiosamente, apanhava golfadas de ar.
O rosto iluminado pelo luar e estranhamente sulcado por traços de sombra lançados pelos pêlos do gorro e pelos fios da barba e das sobrancelhas, a boca a se mover espasmodicamente e os olhos escancarados irradiando incompreensível brilho triunfante — infundiam ao mesmo tempo temor e piedade, reforçando o estranho e novo sentimento que nascera no íntimo do netinho e o obrigava a se afastar do avô…
– Está bem, fiquemos mais um pouco, está bem. — murmurava o ancião e com sorriso tolo, nos lábios contorcidos, procurava alguma coisa metendo a mão por trás do peito da camisa.
Leonhka não quis olhá-lo e desviou a vista, apreciando, de novo a paisagem.
– Leonhka!… Veja só! – exclamou o avô soluçando triunfante e, contorcendo-se num violento acesso de tosse, estendeu-lhe um objeto brilhante e comprido. Prata cinzelada… prata, compreende! Vale no mínimo cinqüenta rublos.
O velho tremia de dor e cobiça.
Leonhka estremeceu e afastou bruscamente a mão do avô.
– Esconda depressa, vovô! Esconda pelo amor de Deus! — murmurou o menino, súplice, olhando em redor, temeroso.
– Ora, que há, bobinho? Está com medo? Olhei pela janela aberta e vi-o… Peguei, escondi na roupa… depois joguei na moita. Quando vínhamos, saindo do povoado, fingi derrubar o gorro… inclinei-me e apanhei-o… Eles são bobos!… O lenço também apanhei — ei-lo! O velho sacudiu, orgulhosamente o lenço diante do netinho.
A névoa que flutuava diante da visão espiritual do garoto partiu-se e ele viu nitidamente o seguinte quadro: ele e o avô andando apressados pela rua da aldeia, caminhando rapidamente e assustados e ele, o menino da visão, sente que todos têm o direito de bater neles, de cuspir-lhes no rosto, de os xingar… Toda a paisagem, as cercas, casas e árvores balançam como que varridos por forte vento e ouve-se o rugido de vozes irritadas. A penosa caminhada parece não ter fim, não se vê o fim da rua que a massa compacta das casas vacilantes oblitera. Ora, as casas avançam contra eles querendo esganá-los — ora, fogem escarnecendo dos fugitivos… De repente, de uma das janelas, soa o brado estridente “Gatunos! Gatunos! Ladrão, ladrãozinho!…” Lançando um olhar temeroso, Leonhka viu a meninazinha que encontrara chorando e tentara proteger… Captando seu olhar, a menina mostrou-lhe a língua, enquanto seus olhinhos brilhavam raivosos, ferindo o garoto.
Essa rápida visão desapareceu tão depressa como viera, mas deixou no rosto do menino um sorriso mau que ele não teve dúvida de mostrar ao avô.
Arhip continuava a dizer alguma coisa, sufocava de tosse, gesticulava e enxugava o suor que lhe brotava da testa.
Enorme nuvem negra e esfarrapada havia engolido a lua e o menino quase não podia distinguir as feições do avô… Evocou mentalmente a imagem da garota e, colocando-a ao lado do velho, como que pesou-os comparando-os. O velho doente, fraco, esfarrapado e ganancioso — comparado com a menininha bonita, sadia e forte apesar de suas lágrimas sentidas — pareceu-lhe inútil e tão mau como um bruxo dos contos de fadas. Como pôde acontecer tal coisa? Por que a magoara? Não era parente dela…
O velho resmungava sempre com voz rouca, sufocada:
– Se eu pudesse juntar pelo menos uns cem rublos!… Poderia então morrer sossegado…
– Basta! — explodiu o garoto de repente. — Chega! “Morreria! Morreria!…” Mas não morre… Em vez rouba! — o menino gritou fora de si e pôs-se de pé num salto — Velho ladrão! U-u-uh! — ganiu Leonhka tomado de um paroxismo de raiva impotente e, fechando o punho, sacudiu-o, no rosto de Arhip que se calou de repente; em seguida, o menino deixou-se cair sentado e continuou a falar cerrando os dentes: — Roubou de uma criança… bonito! É velho, mas não larga mão de roubar… Quando morrer, vai pagar por esse pecado.
De súbito, a planície toda estremeceu iluminada por luz azulada… A escuridão que a revestira, oscilou desaparecendo por alguns instantes… Ensurdecedor trovão sacudiu terra e céu e rolou estepe afora, enquanto massa disforme de nuvens negras corria célere pelo céu, apagando a luz do firmamento.
Escureceu por completo. Distante, um relâmpago riscou a escuridão e, um segundo depois, novo trovão, desta vez abafado e surdo, rompeu o silêncio… Em seguida, silêncio absoluto que parecia não ter fim nunca.
Leonhka fazia o sinal da cruz. O velho ficou imóvel e silente, parecia grudado ao tronco da árvore onde se encostara.
— Vovô! — sussurrou o garoto presa de terror diante do novo trovão que esperava a todo o momento — Vovô, vamos voltar ao povoado.
O firmamento estremeceu de novo e iluminou a terra com a tétrica luz azulada, seguida de barulho ensurdecedor de milhões de chapas de aço caindo sobre a terra indefesa…
— Vovô! — gritou Leonhka novamente.
Sua voz abafada pelo trovejar pareceu o som de pequeno sino rachado.
— Que há? Está com medo? — perguntou o velho, continuando imóvel.
Grossas gotas de chuva começaram a cair e o seu ruído parecia ser misterioso aviso de perigo iminente. Na distância, o rumor da chuva era uniforme e assemelhava-se ao de enorme escova esfregando a estepe, mas perto deles percebia-se o impacto individual de cada gota. O trovejar avançava sobre eles e as pausas entre os relâmpagos ficavam menores.
— Não irei ao povoado! Prefiro morrer afogado aqui mesmo… já que sou um velho cão velhaco… e que o trovão acabe de me matar! — dizia Arhip, sufocando. — Não vou! Vá sozinho… O povoado é ali… Vá! Não quero você aqui! Vá!! Suma-se!!
O murmurar do velho transformara-se em gritos surdos, roucos e ameaçadores.
– Vovô! Perdoe-me! — pediu o garoto aproximando-se do velho.
– Não vou! Não perdôo… Cuidei de você sete anos! Fiz tudo por você! Vivi para você!… só para você… então eu preciso de alguma coisa para mim? Estou morrendo… e você me chama de ladrão… para quem roubei? Para você… tudo isso é seu… tome… tome… pegue! Fiz economia para você… roubei para você também… Deus vê tudo… sabe que roubava… Vai castigar esse cão velho… por ser ladrão… Já me castigou… Senhor! Castigaste-me, hein? Castigaste — não foi? Mataste-me com a mão da criança. Está certo… é justo! És justo, Senhor! Manda buscar minha alma… ôoooh!
A voz do velho transformou-se em uivo agudo, que apavorou o menino.
Os trovões explodiam seguidos, como que perseguindo-se, querendo transmitir à terra alguma mensagem muito importante. O firmamento, dilacerado pelos relâmpagos, contorcia-se e a planície, ora vasta sob a luz sepulcral, ora contraída quando, mergulhada na escuridão, apavorava…
As luzes convidativas do povoado desapareceram atrás da massa compacta da chuva inclemente que apagou todas as distâncias.
Leonhka desfalecia de pavor, de frio e de uma imprecisa sensação de culpa nascida do grito assustador do avô. Seus olhos imóveis olhavam à frente, o medo não lhe permitia pestanejar mesmo quando a água da chuva, acumulada nos cabelos, invadia seus olhos. Escutava atento a voz do avô, afogada pelo tumulto da tormenta.
O garoto percebia que o velho continuava imóvel, mas parecia-lhe que o ancião desapareceria a qualquer momento, deixando-o só e abandonado. Sem querer, foi se achegando ao avô e quando seu cotovelo esbarrou no velho o menino estremeceu na expectativa de algo apavorante.
Um relâmpago rasgou a escuridão e iluminou os dois vultos encolhidos, pequeninos, miseráveis, inundados pela água da chuva, a escorrer abundantemente da árvore que os abrigara enquanto pôde.
O ancião fazia gestos e murmurava alguma coisa, mas sua voz sufocada tornava-se cada vez mais fraca.
Olhando o rosto do velho, Leonhka soltou um grito de pavor: à luz azulada do relâmpago, julgou ver um cadáver em que apenas um par de olhos desvairados acusavam vida.
– Vovô! Vamos! – gritou o menino, escondendo a cabecinha nos joelhos do velhote.
Arhip debruçou-se sobre a criança e enlaçou-a fortemente com os braços e, apertando-a contra o peito; soltou um uivo penetrante como o de um lobo na armadilha.
Enlouquecido pelo uivo animal do velho o menino libertou-se do abraço, pôs-se de pé num salto, e fugiu qual flecha disparada, sem saber para onde. A chuva cegava-o, o garoto caía, levantava-se e disparava de novo, fundando na escuridão tão densa que parecia palpável.
O ruído da chuva era frio, indiferente, monótono. Parecia que na estepe nunca houvera e jamais haveria coisa alguma além da chuva, do trovão e dos relâmpagos.
Na manhã seguinte; os meninos da aldeia correram à estepe para ver os efeitos da tempestade da véspera, mas voltaram em seguida dando o alarma. Declararam ter encontrado o cadáver do mendigo da véspera que certamente fôra assassinado porque a seu lado estava um punhal.
Quando os cossacos vieram verificar o que houvera, viram que o ancião ainda vivia. Quando os homens se aproximaram, ele tentou erguer-se mas não pôde. Já não falava e seus olhos apenas indagavam e procuravam algo sem encontrar e perguntavam sem obter resposta.
Arhip morreu ao anoitecer e foi enterrado debaixo da árvore onde fôra encontrado porque a maioria julgou inconveniente enterrá-lo em terra benta: porque fôra forasteiro, ladrão e morrera sem confissão. Ao lado dele, na lama, haviam encontrado o punhal e o lenço.
Dois ou três dias depois encontraram Leonhka.
Um bando de corvos começou a girar acima de uma baixada na estepe e, quando foram ver o que havia, acharam o menino: jazia na lama, de bruços, os braços abertos em cruz.
Primeiro, quiseram enterrá-lo no cemitério, mas acabaram sepultando-o ao lado do avô. Levantaram um monte de terra sobre a sepultura e colocaram nele tosca cruz de pedra.

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  1. agosto 26, 2008 às 1:04 pm

    Parabéns pela excelência do blog…prabéns mesmo!

  2. agosto 26, 2008 às 1:45 pm

    Obrigado pelo elogio Cesar! Apareça mais vezes!

    Abraços

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