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Figurinhas repetidas

Nelson Rodrigues repetia com frequência alguns assuntos. Bem como a flor de obsessão que o próprio se considerava, Nelson fez dessas constantes uma das peças fundamentais para suas crônicas. E seria de se admirar que após quarenta anos algumas dessas confissões ainda parecessem tão controversas ou reacionárias, mas ao meu ver, elas aos poucos vem se mostrando cada vez mais atuais. Na minha humilde opinião, o motivo para tal — além é claro das enormes qualidades do autor — é que Nelson antes de tudo descrevia pessoas reais como se fossem personagens de ficção. Quando repetia obsessivamente suas opiniões sobre o Alceu, Dom Élder, ou mesmo sobre alguns amigos próximos como Hélio Peregrino e Antônio Calado, ele o fazia sem piedade, pois eram personagens. Alguns dos seus textos beiravam ou ultrapassavam a crueldade, tamanha sinceridade e frieza com a qual ele desmontava em detalhes quase imperceptíveis esses personagens.

E essa para mim é a maior qualidade do Nelson cronista, a sinceridade a qualquer preço. Não digo que isso não gere lá os seus problemas, ao próprio custou anos da amizade com Antônio Calado. Mas porque e pra que eu repito isso aqui? Respondo parafraseando o próprio: Por que volta e meia ainda me surpreendo em ver como é antigo o passado recente. Ao ponto que alguns fatos e personagens de quarenta anos atrás, às vezes parecem ter 40 mil anos de idade. E quanto mais antigas essas diferenças vão se tornando, mais similares os fatos e os personagens começam a se parecer, indiferentes à distância absurda imposta pelo tempo.

Há quem hoje reconheça que Nelson Rodrigues era um gênio. Sim, existem muitos, e eu me incluo nesta lista. Alguns nem o leram, é verdade, e de certa forma até pode-se pensar que contrariam o que o próprio talvez esperasse, pois a admiração pelo autor se tornou mais uma daquelas unanimidades quase incontestáveis. No entanto alguns autores atuais que seguem linhas de pensamento muito parecidas às de Nelson Rodrigues, ainda hoje são vistos e julgados da mesma forma que ele foi julgado à 40 anos. Nesse ponto quero crer que o próprio Nelson, pelo menos se alegraria em poder usar a singela frase de como é antigo o passado recente, pois em nenhum caso a frase parece poder se aplicar melhor.

Algumas idéias e argumentos fundamentais das crônicas de Nelson, podem hoje passar desapercebidos por nós. Ficam escondidos no humor de suas crônicas, no ridículo das suas personagens ou mesmo na intimidade das suas confissões. Mesmo assim me atrevo a refletir sobre alguns pontos para esclarecer um argumento. Nelson cantou a pedra à 40 anos atrás: trocar uma idiotice de direita por uma idiotice de esquerda não resolveria nada. Ele também nos dizia que a denúncia da monstruosidade — mesmo que algumas vezes nos causasse horror — não tinha culpa da monstruosidade em si. Que nem mesmo a razão e o direito justificavam a barbárie. Isso tudo até parece óbvio, se não pensarmos em alguns fatos bem atuais como a menina presa no Pará em uma cela masculina e a ordem posterior da governadora Ana Júlia para demolir a mesma delegacia onde ela foi estuprada inúmeras vezes. Ou ainda, o pré-julgamento brutal dos Nardoni, para não ir muito longe. Por conta de uma conversa recente tive com um outro blogueiro, cito novamente o já tantas vezes mencionado Tropa de Elite. Neste caso especialmente pode-se notar uma grande estranheza. O filme mostra uma realidade violenta, a tortura policial, as condições horríveis em que estes trabalham. Fatos horríveis, mas reais e conhecidos. Talvez o diretor esperasse provocar com isso algum debate, algum protesto, não sei dizer ao certo. No entanto o que se nota até o momento, mesmo tantos meses depois do filme estrear é que ainda não se critica a realidade dos fatos. Se critica a ficção, pois esta mostra a violência, denuncia a monstruosidade. Decidem por isso chamar o diretor de fascista, e acusam quem venha a defender o filme de ser igualmente fascista.

Em 68, Nelson Rodrigues escrevera uma crônica sobre a violência, chamava-se “A Fotografia do Ódio“. Neste texto, ele contava alguns casos trágicos, como o de um taxista preso por não carregar nenhum documento de identidade. Nos tempos da ditadura isso era punido com cadeia, e como eu já disse o taxista foi preso. Na cadeia foi estuprado por seis ou sete marginais enquanto implorava pela ajuda dos policiais que decidiram ignorar. Saindo da cadeia o homem entrou em casa, se trancou no quarto e se matou com um tiro no ouvido. No final do texto, Nelson fazia um paralelo deste fato sombrio com uma peça teatral de Plínio Marcos, chamada Barrela. Nesta peça, um jovem comum era preso em uma briga de bar e colocado dentro de uma cela com outros marginais e o seu estupro era encenado no palco. Interditou-se a peça. Neste ponto o cronista pergunta: — que faremos nós? Obscena é a denúncia e não a monstruosidade? A moral está salva, porque se emudeceu uma peça?

Não creio que nossos tempos estejam mais duros do que os das confissões, os anos 60 foram muito piores que os dias de hoje. Exceto em um ponto fundamental. Nos tornamos muito mais abjetos do que antes. Hoje, os idiotas da objetividade foram muito além do copy desk do Jornal do Brasil, parecem finalmente ter alcançado todos os lugares possíveis. A aluna de psicologia da PUC, parece finalmente ter se acertado nas mais diversas carreiras, e até o padre de passeata ganhou novas versões nos cultos evangélicos. Nelson Rodrigues nunca foi tão atual, entendê-lo nunca foi tão necessário.

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  1. junho 12, 2008 às 4:41 pm

    Felipe:

    São tantas as nossas diferenças de paradigmas que acho difícil debater. É como um holandês discutir com um filipino, sendo os dois monoglotas. Mas vou tentar.

    Não vi quem tenha chamado José Padilha de fascista. Eu nunca faria isso. ‘Tropa de Elite’ é cinema mainstream e, como tal, sua autoria é coletiva. Invocar a parte pelo todo, José Padilha por ‘Tropa de Elite’, é um erro que muitos críticos cometem ainda hoje em dia – exceções honrosas a Sérgio Rizzo e Ignácio Araújo. Para que um diretor possa ser chamado de ‘autor’ do filme, ele tem de se encaixar naquela gama de pré-requisitos sugerida pelos teóricos da Cahiers du Cinema dos anos 1960. Um verdadeiro autor tem mais controle sobre sua produção do que José Padilha teve sobre ‘Tropa’; e sua carreira tem de ser minimamente prolífica. Podemos comparar com o filme anterior dele, o excelente ‘Ônibus 174’, em que o diretor, contrariando muitos de seus produtores, reverteu a ordem cronológica do documentário e, assim, mandou uma mensagem perfeitamente humanista para os espectadores. Aquele talvez fosse um filme autoral, mas, para ser chamado de autor, Padilha ainda tem um longo caminho a percorrer. ‘Fascista’ é uma palavra que eu só poderia usar contra ele se o conhecesse.

    O diretor não, mas o filme É fascista. Entenda: não é a pessoa, é a idéia. O que o torna fascista não é meramente a violência que ele mostra, a desigualdade que parece ser perenizada nas idéias dos personagens, o uso da justiça pelas próprias mãos, a talvez impensada metáfora dos ‘camisas negras’ do Bope. Se fosse por tudo isso, ‘Tropa de Elite’ ainda seria apenas um divertido filme de ação. O que o torna fascista é a narrativa em off, que lhe presta um teor documental. Que fala diretamente ao espectador, defendendo idéias e fazendo do filme um libelo – não do diretor, como eu disse, mas do coletivo que o produziu. Pior: é uma narrativa em off sem argumentação em contrário. É um manifesto, ainda que não tenha sido essa a intenção. Não é a denúncia da monstruosidade: é a defesa dela.

    Quase sempre considero necessário separar a obra do autor. Elia Kazan podia ser um rato de esgoto, e talvez fosse, mas deixou para o mundo obras como ‘Vidas Amargas’ e ‘Um Bonde Chamado Desejo’. Nelson Rodrigues é hoje, como você colocou, uma das unanimidades que ele mesmo dizia que era burra. Hoje em dia pega mal criticá-lo. Há quem o tenha chamado de Shakespeare brasileiro, o que é, para dizer o mínimo, um escândalo. Mas quem não gosta dele fica em silêncio, porque os outros podem lhe atribuir a pecha de burro ou de inculto. É o que a cientista política Elisabeth Noelle-Neumann chamou de Espiral do Silêncio.

    Bom, de minha parte vou quebrar o silêncio. A obra de Nelson Rodrigues talvez mereça ser cantada em verso e prosa aos quatro ventos. Não gosto, mas reconheço. São as peças, algumas das crônicas, que entraram para o cânone. Mas separemos o homem da obra. Este homem, que hoje ninguém tem coragem de criticar, é o intelectual que apoiava o generalíssimo Garrastazu enquanto Plínio Marcos tomava choque nos colhões.

    Se Nelson Rodrigues é atual, na minha opinião, é porque o país nunca se livrou de sua vocação autoritária. Basta ver que as idéias da ditadura continuam aí, tendo filhotes. Como pessoa, Rodrigues personificava essa idéia à perfeição. Como autor, poderia ter dado vazão a outras vozes que não a sua própria. Elas também têm sua razão de ser. Se houvesse aceitado isso, ele talvez pudesse ilustrar melhor uma sociedade que, sabe-se hoje, é pluralista mesmo quando calada. ‘Tropa de Elite’ também se ressente disto.

    Abs

    LB

  2. junho 12, 2008 às 7:51 pm

    Acho que se colocarmos mais um papagaio ou um português junto com esse holandês e esse filipino viramos uma boa piada, mas de qualquer jeito vamos lá 😉

    Gostei muito do seu ponto de vista, as intenções do primeiro texto me parecem muito mais claras agora. Entretanto, continuo discordando. O que o próprio Nelson Rodrigues e alguns outros artistas da época — como Plínio Marcos — se limitavam a defender era simplesmente uma abordagem menos politizada, mais artística. A arte pela arte — falando de uma forma meio pedante — ao invés da arte pela política ou pela ideologia. No caso de Plínio suas idéias incomodavam mais a ditadura da época que as de Nelson, é um fato. Mas o talento de nenhum dos dois está nisso, está na qualidade das sua próprias obras. Se fossem a favor da ditadura ou a favor do pão com ovo, provavelmente o conjunto teria sido tão bom quanto.

    Nelson, assim como outros grandes nomes da época — por exemplo Rubem Braga — não aceitava o empobrecimento da arte por conta de massificações ideológicas. Era “lírico” demais para aceitar isso. Se dentro dessas ideologias existiam boas idéias e boas intenções, também existiam más idéias e más intenções. Mas aí é outro assunto a ser discutido. Temos que reconhecer que hoje é bem mais fácil afirmar quais teriam sido os melhores caminhos, afinal o tempo nos concedeu uma posição privilegiada para esta observação.

    Como eu disse antes, não existe arte política, panfletária, fascista ou de qualquer outro tipo. Existe arte de boa qualidade e arte de má qualidade. Maiakóvski é um bom exemplo disso! Fez diversos panfletos comunistas, e eram bonitos, líricos, poéticos! As intenções eram boas? As causas eram boas? Quem julga? O público julga. O tempo. Os nossos preconceitos e as nossas experiências e expectativas de uma forma geral. Como você mesmo mencionou, “Elia Kazan podia ser um rato de esgoto, e talvez fosse, mas deixou para o mundo obras como ‘Vidas “Amargas’ e ‘Um Bonde Chamado Desejo’”. Da mesma forma Céline era a favor do nazismo, e nos deixou “Viagem ao fundo da noite” e “Morte a crédito”. O mesmo ocorreu com diversos outros nomes famosos. Então te pergunto: qual a relação entre a qualidade de um bom filme ou um bom livro com os seus autores? Céline era nazista. Ele tinha suas próprias convicções para ser assim, e mesmo que isso não justifique nada, facilita a compreender sua personalidade e suas idéias. Mas que se atente a necessidade de se opor a estas convicções e idéias de uma forma racional, nunca passionalmente. Não acredito que devemos dizer que algo é mal só por que nos parece mal. E sim por que concluímos que é assim. Aí está a dificuldade das unanimidades, elas podem ser bem intencionadas, mas são inúteis se não tiverem uma base consistente e acabam viabilizando qualquer monstruosidade em nome de uma boa intenção. Tender para qualquer um dos lados, esquerda ou direita, é incompatível com à famosa “justiça nas trocas”.

    Por isto é importante entender Nelson Rodrigues, há quarenta anos ele viu isso tudo. E mesmo não tendo sido o primeiro ou o último, defendeu a idéia muito bem nas suas crônicas. Quando apoiava o generalíssimo Garrastazu, apoiava onde acreditava que devia ser apoiado, nunca na tortura ou na barbárie que ele mesmo condenava. É bom lembrar que na mesma época, além de Plínio Marcos o próprio filho de Nelson Rodrigues também tomavam alguns choques nos colhões. Digo isso não insistindo na defesa do Nelson ou do Padilha, mas insistindo na perspectiva do autor. Do conjunto que produziu a obra. Pois afinal de contas, acaba dando quase no mesmo se pensarmos no produto gerado por esse tal “esforço criativo” — sendo mais pedante ainda.

    Minha conclusão neste caso é esta: Nelson é necessário simplesmente por que continuamos não separando a teoria da prática. Continuamos discutindo detalhes periféricos e fugindo das questões fundamentais. Já reparou como se costuma criticar muito mais o personagem do Capitão Nascimento do que os inúmeros policiais corruptos reais que existem por aí? E mesmo quando se discute a corrupção de um policial, não fazemos uma tentativa para enxergar a nossa própria corrupção, a nossa própria parcela de culpa. Aprendemos a conviver com pequenas aberrações, evitamos vê-las diariamente. Nos irritamos quando alguém joga uma perspectiva diferente na nossa cara. É natural. Mas não creio que o caminho para resolver algum problema, especialmente um tão complexo como a violência, seja através de mais violência. Por isso acredito que esta também não foi a intenção do filme. E mesmo que fosse, seria uma posição a ser respeitada e discutida racionalmente. Se houvessem argumentos racionais e lógicos que indicassem que um estado truculento nos faria caminhar para a merecida utopia tropical com a qual todos sonhamos, a solução seria simples, a vida seria mais fácil. Mas não é. E sabemos disso. Ou deveríamos saber. Afinal de contas cada um de nós sempre interpreta uma mensagem de modo subjetivo e individual, antes de formar algum juízo sempre levamos em conta nossas próprias experiências pessoais e o contexto social em que recebemos estas mensagens. Como diz o ditado popular: A maldade esta nos olhos de quem vê 😉

  3. julho 6, 2008 às 12:35 pm

    Que maravilha de Post . Parabems pelo trabalho e pela escolha deste topic, me alegro muito por trabalhos como este, e sabe que algum ainda se intereca pelos valiosos Coselhos, que as vezes sao um aviso vindo De Deus pai!!!! Obrigado pela Dedicacao!

  4. julho 17, 2008 às 11:20 am

    Obrigado pelo elogio Frank, apareça mais vezes 😉

    Abraços!

  5. setembro 17, 2009 às 1:51 am

    Parabems pelo trabalho e pela escolha deste topic, me alegro muito por trabalhos como este, e sabe que algum ainda se intereca pelos valiosos Coselhos, que as vezes sao um aviso vindo De Deus pai

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