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Conversas pra boi dormir

Dez horas, de uma manhã que já parecia sofrer com um calor de meio dia. Com a paciência de qualquer atrasado, desci do elevador já tentando mirar o taxi mais próximo, pensando em encurtar o caminho de volta ao escritório. Tinha uma reunião importante marcada para as onze, qualquer segundo a mais que eu pudesse ganhar valeria qualquer esforço. De frente da portaria eu já estava acenando para algum taxi antes mesmo que eu o visse, e como no centro do Rio de Janeiro, existem mais taxis do que carros de passeio não me surpreendi que um carro parasse para mim antes mesmo que eu o visse, como se já estivesse à minha espreita planejando a corrida antes mesmo de mim. Entrei no carro inquieto e dei o endereço sem dar bom dia — Praia de Botafogo, rápido por favor.

O motorista sem concordar ou discordar, engatou a marcha e saiu como se estivesse mais atrasado do que eu. Passados os primeiros momentos fui me acomodando no banco de trás, normalmente prefiro ir conversando com o motorista no banco da frente, mas já imaginando o desconforto do cinto de segurança me pressionando o terno já suado pelo calor absoluto daquela manhã, resolvi ir no banco de trás.

Com a pressa e as preocupações do atraso também não me arrependi de dispensar a conversa com o motorista, queria sincronizar algun pensamentos com anotações que eu trazia na mala. Ia lendo minhas notas enquanto o motorista cortava os outros carros com rapidez e habilidade, sem movimentos bruscos ou imprudentes. O carro se movia de maneira tão discreta que só notei um solo de piano no fundo quando finalmente já tinha abandonado minhas anotações. Adoro música, e apesar de me considerar bem eclético nunca fui um grande conhecedor de clássicos, mesmo assim fiquei ouvindo com curiosidade, imaginei ser alguma rádio. Acabado o solo, notei o motorista mexendo no aparelho com um cuidado meticuloso para avançar duas faixas do disco. Tendo escolhido outro solo um pouco mais animado, porém tão bonito quanto o anterior. Continuei curioso. O motorista era um homem muito branco, na verdade beirando o vermelho de tão rosado. Tinha um olhar distante, e os olhos azuis acinzentados acompanhavam semicerrados e com alguma indiferença os carros que iam passando. Não era magro nem gordo, parecia ter pouco mais que cinquenta anos. Conforme constava na autorização de permissionário que me estiquei pra ler, seu nome era Gilmar.

Como até hoje nunca me interessei muito por dirigir, nunca tirei a tão necessária carteira de motorista, e muito menos tenho um carro. Sempre gostei de andar com relativa desatenção pelos lugares, mais ocupado com a paisagem ou com alguns poucos pensamentos. Como não raramente tenho que me mover pela cidade à trabalho acabei adquirindo o hábito pouco compatível com minhas rendas de andar bastante de taxi, justificado pelo advento do reembolso que recebo da minha empresa pelas corridas à trabalho. E sendo  um cliente habitual, também já me acostumei a logo após alguns minutos dentro de um taxi começar a ouvir dos motoristas detalhes de alguma história escabrosa que aconteceu durante uma corrida noturna — quase sempre finalizada no bordão: “Por isso que nunca mais rodo a noite nessa cidade!” —  ou ainda, no que me parece ser o assunto favorito nas conversas de taxistas: os detalhes sórdidos de alguém que o taxista está comendo por fora.

Normalmente me divirto com essas histórias, e como repito corridas em alguns pontos com certa frequência, não é raro estabelecer alguma relação de camaradagem rotativa com um ou dois motoristas em pouco tempo. Basicamente o sujeito conta as histórias, e eu ouço sem julgar, já que nem conheço o cara e muito menos a esposa ou namorada dele, o que permite que ele possa ser tão sincero quanto queira ser. E como metade do prazer está em contar à alguém, alguns satisfazem essa vontade dividindo as conquistas com passageiros curiosos como eu.

Lembro de um motorista que me contou arrependido como estava de caso com a mulher de um amigo e outro que relatou orgulhoso o caso com uma moça bem mais nova que ele. “Dezenove aninhos meu amigo, É outra coisa! Outra disposição!”. Falando alto de dentro do sorriso largo.

Já ouvi com cumplicidade muitas das mentiras que contavam às esposas, e me divertia ao ver as expressões de pavor enquanto ouvia os relatos das situações em que quase foram flagrados.

Confesso que toda aquela cena de estar em um taxi ao som de música clássica sem que o motorista tentasse puxar alguma conversa me deixava surpreso. De qualquer forma lá estava eu dessa vez dentro do carro com um silêncio de túmulo. Me perguntava por que ele estava tão quieto. Com curiosidade comecei a observar a expressão do sujeito pelo reflexo do retrovisor. Resolvi puxar o assunto.

— Quem está tocando? Perguntei casualmente.
— Schultz.
— Muito bonito — acrescentei.
— É sim — e voltamos ao silêncio.

Esperei um pouco e vi que algo o inquietava, pôs a mão sobre a testa como quem se lembra de algo e exclamou contrariado: — Minto! É Litz!

Tentando estender a conversa me fiz de entendido de música clássica — o que, como já mencionei, não sou –, perguntei quem interpretava. Ele aparentou ter se animado com a pergunta e disse que era uma brasileira muito talentosa, achava que ela era do Sul do país, ficou tentando relembrar o nome.

-Vanessa alguma coisa, muito boa pianista, só não lembro o sobrenome. Voltamos ao silêncio. No carro só o barulho da estrada e o solo de piano da brasileira que interpretava Litz.

Imaginando que poderia estar transparecendo ser o leigo que sou, por não reconhecer o compositor ou a intérprete resolvi falar abertamente. – Não conheço muito de música clássica, mas achei essa muito bonita. Ele concordou com a cabeça sem nem se dar o trabalho de responder um singelo “É”.

Continuei em silêncio olhando pela janela até o final da corrida. Paguei a corrida sem ouvir uma palavra. E ao abrir a porta lembrei de um conto do Fernando Sabino e tive vontade de gritar “O senhor é um psicopata!” como gritou o personagem no desfecho da história que por coincidência ou não, terminava bem próximo à Praia de Botafogo.

Passados os compromissos no trabalho, sai para encontrar alguns poucos amigos, decidido à tomar nem tão poucos chopps pra aliviar o calor. Como ainda estava de terno resolvi abolir o metrô e me permitir ir de taxi, só que por minha conta dessa vez.

Sete minutos depois de entrar no carro, lá estava eu saboreando a história de como o Osmar, baiano criado no Méier, tinha jogado um assaltante pra fora do carro em movimento à base de pauladas — com o porrete que ele me mostrou guardado ao lado do banco — pra salvar o dinheiro de duas diárias que já estavam atrasadas. E tudo isso por que estava meio bêbado, se não ainda voltava pra passar por cima do safado conforme me falou antes de exclamar pra minha satisfação:

— De noite nessa cidade? Nunca mais, meu amigo!

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