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	<title>O Conselheiro Acácio</title>
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	<description>Hipérboles hiperboreanas e prolixas pra acalentar bovinos</description>
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		<title>Guts (Chuck Palahniuk)</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Sep 2011 19:47:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conselheiro Acácio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Chuck Palahniuk]]></category>
		<category><![CDATA[Escritores Americanos]]></category>
		<category><![CDATA[Clube da Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[Chuck Palahniuk Inspire. Inspire o máximo de ar que conseguir. Essa estória deve durar aproximadamente o tempo que você consegue segurar sua respiração, e um pouco mais. Então escute o mais rápido que puder. Um amigo meu aos 13 anos ouviu falar sobre “fio-terra”. Isso é quando alguém enfia um consolo na bunda. Estimule a [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&amp;blog=2378334&amp;post=1555&amp;subd=conselheiroacacio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><img class="aligncenter size-medium wp-image-1556" title="Chuck Palahniuk" src="http://conselheiroacacio.files.wordpress.com/2011/09/chuck-palahniuk.jpg?w=400&#038;h=354" alt="" width="400" height="354" /><strong><em>Chuck Palahniuk</em></strong></p>
<p style="text-align:justify;">Inspire.</p>
<p style="text-align:justify;">Inspire o máximo de ar que conseguir. Essa estória deve durar aproximadamente o tempo que você consegue segurar sua respiração, e um pouco mais. Então escute o mais rápido que puder.</p>
<p style="text-align:justify;">Um amigo meu aos 13 anos ouviu falar sobre “fio-terra”. Isso é quando alguém enfia um consolo na bunda. Estimule a próstata o suficiente, e os rumores dizem que você pode ter orgasmos explosivos sem usar as mãos. Nessa idade, esse amigo é um pequeno maníaco sexual. Ele está sempre buscando uma melhor forma de gozar. Ele sai para comprar uma cenoura e lubrificante. Para conduzir uma pesquisa particular. Ele então imagina como seria a cena no caixa do supermercado, a solitária cenoura e o lubrificante percorrendo pela esteira o caminho até o atendente no caixa. Todos os clientes esperando na fila, observando. Todos vendo a grande noite que ele preparou.</p>
<p style="text-align:justify;">Então, esse amigo compra leite, ovos, açúcar e uma cenoura, todos os ingredientes para um bolo de cenoura. E vaselina.</p>
<p style="text-align:justify;">Como se ele fosse para casa enfiar um bolo de cenoura no rabo.</p>
<p style="text-align:justify;">Em casa, ele corta a ponta da cenoura com um alicate. Ele a lubrifica e desce seu traseiro por ela. Então, nada. Nenhum orgasmo. Nada acontece, exceto pela dor.</p>
<p style="text-align:justify;">Então, esse garoto, a mãe dele grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para descer, naquele momento.</p>
<p style="text-align:justify;">Ele remove a cenoura e coloca a coisa pegajosa e imunda no meio das roupas sujas debaixo da cama.</p>
<p style="text-align:justify;">Depois do jantar, ele procura pela cenoura, e não está mais lá. Todas as suas roupas sujas, enquanto ele jantava, foram recolhidas por sua mãe para lavá-las. Não havia como ela não encontrar a cenoura, cuidadosamente esculpida com uma faca da cozinha, ainda lustrosa de lubrificante e fedorenta.</p>
<p style="text-align:justify;">Esse amigo meu, ele espera por meses na surdina, esperando que seus pais o confrontem. E eles nunca fazem isso. Nunca. Mesmo agora que ele cresceu, aquela cenoura invisível aparece em toda ceia de Natal, em toda festa de aniversário. Em toda caça de ovos de páscoa com seus filhos, os netos de seus pais, aquela cenoura fantasma paira por sobre todos eles. Isso é algo vergonhoso demais para dar um nome.</p>
<p style="text-align:justify;">As pessoas na França possuem uma expressão: “sagacidade de escadas.” Em francês:<em>esprit de l’escalier</em>. Representa aquele momento em que você encontra a resposta, mas é tarde demais. Digamos que você está numa festa e alguém o insulta. Você precisa dizer algo. Então sob pressão, com todos olhando, você diz algo estúpido. Mas no momento em que sai da festa….</p>
<p style="text-align:justify;">Enquanto você desce as escadas, então – mágica. Você pensa na coisa mais perfeita que poderia ter dito. A réplica mais avassaladora.</p>
<p style="text-align:justify;">Esse é o espírito da escada.</p>
<p style="text-align:justify;">O problema é que até mesmo os franceses não possuem uma expressão para as coisas estúpidas que você diz sob pressão. Essas coisas estúpidas e desesperadas que você pensa ou faz.</p>
<p style="text-align:justify;">Alguns atos são baixos demais para receberem um nome. Baixos demais para serem discutidos.</p>
<p style="text-align:justify;">Agora que me recordo, os especialistas em psicologia dos jovens, os conselheiros escolares, dizem que a maioria dos casos de suicídio adolescente eram garotos se estrangulando enquanto se masturbavam. Seus pais o encontravam, uma toalha enrolada em volta do pescoço, a toalha amarrada no suporte de cabides do armário, o garoto morto. Esperma por toda a parte. É claro que os pais limpavam tudo. Colocavam calças no garoto. Faziam parecer… melhor. Ao menos, intencional. Um caso comum de triste suicídio adolescente.</p>
<p style="text-align:justify;">Outro amigo meu, um garoto da escola, seu irmão mais velho na Marinha dizia como os caras do Oriente Médio se masturbavam de forma diferente do que fazemos por aqui. Esse irmão tinha desembarcado num desses países cheios de camelos, na qual o mercado público vendia o que pareciam abridores de carta chiques. Cada uma dessas coisas é apenas um fino cabo de latão ou prata polida, do comprimento aproximado de sua mão, com uma grande ponta numa das extremidades, ou uma esfera de metal ou uma dessas empunhaduras como as de espadas. Esse irmão da Marinha dizia que os árabes ficavam de pau duro e inseriam esse cabo de metal dentro e por toda a extremidade de seus paus. Eles então batiam punheta com o cabo dentro, e isso os faziam gozar melhor. De forma mais intensa.</p>
<p style="text-align:justify;">Esse irmão mais velho viajava pelo mundo, mandando frases em francês. Frases em russo. Dicas de punhetagem.</p>
<p style="text-align:justify;">Depois disso, o irmão mais novo, um dia ele não aparece na escola. Naquela noite, ele liga pedindo para eu pegar seus deveres de casa pelas próximas semanas. Porque ele está no hospital.</p>
<p style="text-align:justify;">Ele tem que compartilhar um quarto com velhos que estiveram operando as entranhas. Ele diz que todos compartilham a mesma televisão. Que a única coisa para dar privacidade é uma cortina. Seus pais não o vem visitar. No telefone, ele diz como os pais dele queriam matar o irmão mais velho da Marinha.</p>
<p style="text-align:justify;">Pelo telefone, o garoto diz que, no dia anterior, ele estava meio chapado. Em casa, no seu quarto, ele deitou-se na cama. Ele estava acendendo uma vela e folheando algumas revistas pornográficas antigas, preparando-se para bater uma. Isso foi depois que ele recebeu as notícias de seu irmão marinheiro. Aquela dica de como os árabes se masturbam. O garoto olha ao redor procurando por algo que possa servir. Uma caneta é grande demais. Um lápis, grande demais e áspero. Mas escorrendo pelo canto da vela havia um fino filete de vela derretida que poderia servir. Com as pontas dos dedos, o garoto descola o filete da vela. Ele o enrola na palma de suas mãos. Longo, e liso, e fino.</p>
<p style="text-align:justify;">Chapado e com tesão, ele enfia lá dentro, mais e mais fundo por dentro do canal urinário de seu pau. Com uma boa parte da cera ainda para fora, ele começa o trabalho.</p>
<p style="text-align:justify;">Até mesmo nesse momento ele reconhece que esses árabes eram caras muito espertos. Eles reinventaram totalmente a punheta. Deitado totalmente na cama, as coisas estão ficando tão boas que o garoto nem observa a filete de cera. Ele está quase gozando quando percebe que a cera não está mais lá.</p>
<p style="text-align:justify;">O fino filete de cera entrou. Bem lá no fundo. Tão fundo que ele nem consegue sentir a cera dentro de seu pau.</p>
<p style="text-align:justify;">Das escadas, sua mãe grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para ele descer naquele momento. O garoto da cenoura e o garoto da cera eram pessoas diferentes, mas viviam basicamente a mesma vida.</p>
<p style="text-align:justify;">Depois do jantar, as entranhas do garoto começam a doer. É cera, então ele imagina que ela vá derreter dentro dele e ele poderá mijar para fora. Agora suas costas doem. Seus rins. Ele não consegue ficar ereto corretamente.</p>
<p style="text-align:justify;">O garoto falando pelo telefone do seu quarto de hospital, no fundo pode-se ouvir campainhas, pessoas gritando. Game shows.</p>
<p style="text-align:justify;">Os raios-X mostram a verdade, algo longo e fino, dobrado dentro de sua bexiga. Esse longo e fino V dentro dele está coletando todos os minerais no seu mijo. Está ficando maior e mais expesso, coletando cristais de cálcio, está batendo lá dentro, rasgando a frágil parede interna de sua bexiga, bloqueando a urina. Seus rins estão cheios. O pouco que sai de seu pau é vermelho de sangue.</p>
<p style="text-align:justify;">O garoto e seus pais, a família inteira, olhando aquela chapa de raio-X com o médico e as enfermeiras ali, um grande V de cera brilhando na chapa para todos verem, ele deve falar a verdade. Sobre o jeito que os árabes se masturbam. Sobre o que o seu irmãos mais velho da Marinha escreveu.</p>
<p style="text-align:justify;">No telefone, nesse momento, ele começa a chorar.</p>
<p style="text-align:justify;">Eles pagam pela operação na bexiga com o dinheiro da poupança para sua faculdade. Um erro estúpido, e agora ele nunca mais será um advogado.</p>
<p style="text-align:justify;">Enfiando coisas dentro de você. Enfiando-se dentro de coisas. Uma vela no seu pau ou seu pescoço num nó, sabíamos que não poderia acabar em problemas.</p>
<p style="text-align:justify;">O que me fez ter problemas, eu chamava de Pesca Submarina. Isso era bater punheta embaixo d’água, sentando no fundo da piscina dos meus pais. Pegando fôlego, eu afundava até o fundo da piscina e tirava meu calção. Eu sentava no fundo por dois, três, quatro minutos.</p>
<p style="text-align:justify;">Só de bater punheta eu tinha conseguido uma enorme capacidade pulmonar. Se eu tivesse a casa só para mim, eu faria isso a tarde toda. Depois que eu gozava, meu esperma ficava boiando em grandes e gordas gotas.</p>
<p style="text-align:justify;">Depois disso eram mais alguns mergulhos, para apanhar todas. Para pegar todas e colocá-las em uma toalha. Por isso chamava de Pesca Submarina. Mesmo com o cloro, havia a minha irmã para se preocupar. Ou, Cristo, minha mãe.</p>
<p style="text-align:justify;">Esse era meu maior medo: minha irmã adolescente e virgem, pensando que estava ficando gorda e dando a luz a um bebê retardado de duas cabeças. As duas parecendo-se comigo. Eu, o pai e o tio. No fim, são as coisas nais quais você não se preocupa que te pegam.</p>
<p style="text-align:justify;">A melhor parte da Pesca Submarina era o duto da bomba do filtro. A melhor parte era ficar pelado e sentar nela.</p>
<p style="text-align:justify;">Como os franceses dizem, Quem não gosta de ter seu cú chupado? Mesmo assim, num minuto você é só um garoto batendo uma, e no outro nunca mais será um advogado.</p>
<p style="text-align:justify;">Num minuto eu estou no fundo da piscina e o céu é um azul claro e ondulado, aparecendo através de dois metros e meio de água sobre minha cabeça. Silêncio total exceto pelas batidas do coração que escuto em meu ouvido. Meu calção amarelo-listrado preso em volta do meu pescoço por segurança, só em caso de algum amigo, um vizinho, alguém que apareça e pergunte porque faltei aos treinos de futebol. O constante chupar da saída de água me envolve enquanto delicio minha bunda magra e branquela naquela sensação.</p>
<p style="text-align:justify;">Num momento eu tenho ar o suficiente e meu pau está na minha mão. Meus pais estão no trabalho e minha irmão no balé. Ninguém estará em casa por horas.</p>
<p style="text-align:justify;">Minhas mãos começam a punhetar, e eu paro. Eu subo para pegar mais ar. Afundo e sento no fundo.</p>
<p style="text-align:justify;">Faço isso de novo, e de novo.</p>
<p style="text-align:justify;">Deve ser por isso que garotas querem sentar na sua cara. A sucção é como dar uma cagada que nunca acaba. Meu pau duro e meu cú sendo chupado, eu não preciso de mais ar. O bater do meu coração nos ouvidos, eu fico no fundo até as brilhantes estrelas de luz começarem a surgir nos meus olhos. Minhas pernas esticadas, a batata das pernas esfregando-se contra o fundo. Meus dedos do pé ficando azul, meus dedos ficando enrugados por estar tanto tempo na água.</p>
<p style="text-align:justify;">E então acontece. As gotas gordas de gozo aparecem. É nesse momento que preciso de mais ar. Mas quando tento sair do fundo, não consigo. Não consigo colocar meus pés abaixo de mim. Minha bunda está presa.</p>
<p style="text-align:justify;">Médicos de plantão de emergência podem confirmar que todo ano cerca de 150 pessoas ficam presas dessa forma, sugadas pelo duto do filtro de piscina. Fique com o cabelo preso, ou o traseiro, e você vai se afogar. Todo o ano, muita gente fica. A maioria na Flórida.</p>
<p style="text-align:justify;">As pessoas simplesmente não falam sobre isso. Nem mesmo os franceses falam sobre tudo. Colocando um joelho no fundo, colocando um pé abaixo de mim, eu empurro contra o fundo. Estou saindo, não mais sentado no fundo da piscina, mas não estou chegando para fora da água também.</p>
<p style="text-align:justify;">Ainda nadando, mexendo meus dois braços, eu devo estar na metade do caminho para a superfície mas não estou indo mais longe que isso. O bater do meu coração no meu ouvido fica mais alto e mais forte.</p>
<p style="text-align:justify;">As brilhantes fagulhas de luz passam pelos meus olhos, e eu olho para trás… mas não faz sentido. Uma corda espessa, algum tipo de cobra, branco-azulada e cheia de veias, saiu do duto da piscina e está segurando minha bunda. Algumas das veias estão sangrando, sangue vermelho que aparenta ser preto debaixo da água, que sai por pequenos cortes na pálida pele da cobra. O sangue começa a sumir na água, e dentro da pele fina e branco-azulada da cobra é possível ver pedaços de alguma refeição semi-digerida.</p>
<p style="text-align:justify;">Só há uma explicação. Algum horrível monstro marinho, uma serpente do mar, algo que nunca viu a luz do dia, estava se escondendo no fundo escuro do duto da piscina, só esperando para me comer.</p>
<p style="text-align:justify;">Então… eu chuto a coisa, chuto a pele enrugada e escorregadia cheia de veias, e parece que mais está saindo do duto. Deve ser do tamanho da minha perna nesse momento, mas ainda segurando firme no meu cú. Com outro chute, estou a centímetros de conseguir respirar. Ainda sentido a cobra presa no meu traseiro, estou bem próximo de escapar.</p>
<p style="text-align:justify;">Dentro da cobra, é possível ver milho e amendoins. E dá pra ver uma brilhante esfera laranja. É um daqueles tipos de vitamina que meu pai me força a tomar, para poder ganhar massa. Para conseguir a bolsa como jogador de futebol. Com ferro e ácidos graxos Ômega 3.</p>
<p style="text-align:justify;">Ver essa pílula foi o que me salvou a vida.</p>
<p style="text-align:justify;">Não é uma cobra. É meu intestino grosso e meu cólon sendo puxados para fora de mim. O que os médicos chamam de prolapso de reto. São minhas entranhas sendo sugadas pelo duto.</p>
<p style="text-align:justify;">Os médicos de plantão de emergência podem confirmar que uma bomba de piscina pode puxar 300 litros de água por minuto. Isso corresponde a 180 quilos de pressão. O grande problema é que somos todos interconectados por dentro. Seu traseiro é apenas o término da sua boca. Se eu deixasse, a bomba continuaria a puxar minhas entranhas até que chegasse na minha língua. Imagine dar uma cagada de 180 quilos e você vai perceber como isso pode acontecer.</p>
<p style="text-align:justify;">O que eu posso dizer é que suas entranhas não sentem tanta dor. Não da forma que sua pele sente dor. As coisas que você digere, os médicos chamam de matéria fecal. No meio disso tudo está o suco gástrico, com pedaços de milho, amendoins e ervilhas.</p>
<p style="text-align:justify;">Essa sopa de sangue, milho, merda, esperma e amendoim flutua ao meu redor. Mesmo com minhas entranhas saindo pelo meu traseiro, eu tentando segurar o que restou, mesmo assim, minha vontade é de colocar meu calção de alguma forma.</p>
<p style="text-align:justify;">Deus proíba que meus pais vejam meu pau.</p>
<p style="text-align:justify;">Com uma mão seguro a saída do meu rabo, com a outra mão puxo o calção amarelo-listrado do meu pescoço. Mesmo assim, é impossível puxar de volta.</p>
<p style="text-align:justify;">Se você quer sentir como seria tocar seus intestinos, compre um camisinha feita com intestino de carneiro. Pegue uma e desenrole. Encha de manteiga de amendoim. Lubrifique e coloque debaixo d’água. Então tente rasgá-la. Tente partir em duas. É firme e ao mesmo tempo macia. É tão escorregadia que não dá para segurar.</p>
<p style="text-align:justify;">Uma camisinha dessas é feita do bom e velho intestino.</p>
<p style="text-align:justify;">Você então vê contra o que eu lutava.</p>
<p style="text-align:justify;">Se eu largo, sai tudo.</p>
<p style="text-align:justify;">Se eu nado para a superfície, sai tudo.</p>
<p style="text-align:justify;">Se eu não nadar, me afogo.</p>
<p style="text-align:justify;">É escolher entre morrer agora, e morrer em um minuto.</p>
<p style="text-align:justify;">O que meus pais vão encontrar depois do trabalho é um feto grande e pelado, todo curvado. Mergulhado na árgua turva da piscina de casa. Preso ao fundo por uma larga corda de veias e entranhas retorcidas. O oposto do garoto que se estrangula enquanto bate uma. Esse é o bebê que trouxeram para casa do hospital há 13 anos. Esse é o garoto que esperavam conseguir uma bolsa de jogador de futebol e eventualmente um mestrado. Que cuidaria deles quando estivessem velhinhos. Seus sonhos e esperanças. Flutuando aqui, pelado e morto. Em volta dele, gotas gordas de esperma.</p>
<p style="text-align:justify;">Ou isso, ou meus pais me encontrariam enrolado numa toalha encharcada de sangue, morto entre a piscina e o telefone da cozinha, os restos destroçados das minhas entranhas para fora do meu calção amarelo-listrado.</p>
<p style="text-align:justify;">Algo sobre o qual nem os franceses falam.</p>
<p style="text-align:justify;">Aquele irmão mais velho na Marinha, ele ensinou uma outra expressão bacana. Uma expressão russa. Do jeito que nós falamos “Preciso disso como preciso de um buraco na cabeça…,” os russos dizem, “Preciso disso como preciso de dentes no meu cú……</p>
<p style="text-align:justify;">Mne eto nado kak zuby v zadnitse.</p>
<p style="text-align:justify;">Essas histórias de como animais presos em armadilhas roem a própria perna fora, bem, qualquer coiote poderá te confirmar que algumas mordidas são melhores que morrer.</p>
<p style="text-align:justify;">Droga… mesmo se você for russo, um dia vai querer esses dentes.</p>
<p style="text-align:justify;">Senão, o que você pode fazer é se curvar todo. Você coloca um cotovelo por baixo do joelho e puxa essa perna para o seu rosto. Você morde e rói seu próprio cú. Se você ficar sem ar você consegue roer qualquer coisa para poder respirar de novo.</p>
<p style="text-align:justify;">Não é algo que seja bom contar a uma garota no primeiro encontro. Não se você espera por um beijinho de despedida. Se eu contasse como é o gosto, vocês não comeriam mais frutos do mar.</p>
<p style="text-align:justify;">É difícil dizer o que enojaria mais meus pais: como entrei nessa situação, ou como me salvei. Depois do hospital, minha mãe dizia, “Você não sabia o que estava fazendo, querido. Você estava em choque.” E ela teve que aprender a cozinhar ovos pochê.</p>
<p style="text-align:justify;">Todas aquelas pessoas enojadas ou sentindo pena de mim….</p>
<p style="text-align:justify;">Precisava disso como precisaria de dentes no cú.</p>
<p style="text-align:justify;">Hoje em dia, as pessoas sempre me dizem que eu sou magrinho demais. As pessoas em jantares ficam quietas ou bravas quando não como o cozido que fizeram. Cozidos podem me matar. Presuntadas. Qualquer coisa que fique mais que algumas horas dentro de mim, sai ainda como comida. Feijões caseiros ou atum, eu levanto e encontro aquilo intacto na privada.</p>
<p style="text-align:justify;">Depois que você passa por uma lavagem estomacal super-radical como essa, você não digere carne tão bem. A maioria das pessoas tem um metro e meio de intestino grosso. Eu tenho sorte de ainda ter meus quinze centímetros. Então nunca consegui minha bolsa de jogador de futebol. Nunca consegui meu mestrado. Meus dois amigos, o da cera e o da cenoura, eles cresceram, ficaram grandes, mas eu nunca pesei mais do que pesava aos 13 anos.</p>
<p style="text-align:justify;">Outro problema foi que meus pais pagaram muita grana naquela piscina. No fim meu pai teve que falar para o cara da limpeza da piscina que era um cachorro. O cachorro da família caiu e se afogou. O corpo sugado pelo duto. Mesmo depois que o cara da limpeza abriu o filtro e removeu um tubo pegajoso, um pedaço molhado de intestino com uma grande vitamina laranja dentro, mesmo assim meu pai dizia, “Aquela porra daquele cachorro era maluco.”</p>
<p style="text-align:justify;">Mesmo do meu quarto no segundo andar, podia ouvir meu pai falar, “Não dava para deixar aquele cachorro sozinho por um segundo….”</p>
<p style="text-align:justify;">E então a menstruação da minha irmã atrasou.</p>
<p style="text-align:justify;">Mesmo depois que trocaram a água da piscina, depois que vendemos a casa e mudamos para outro estado, depois do aborto da minha irmã, mesmo depois de tudo isso meus pais nunca mencionaram mais isso novamente.</p>
<p style="text-align:justify;">Nunca.</p>
<p style="text-align:justify;">Essa é a nossa cenoura invisível.</p>
<p style="text-align:justify;">Você. Agora você pode respirar.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu ainda não.</p>
<p><em><strong>* Retirado do blog <a title="Lendas Urbanas" href="http://lendasurbanas.wordpress.com/2007/03/13/guts-chuck-palahniuk/" target="_blank">Lendas Urbanas</a></strong></em></p>
<br />Filed under: <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/category/escritores-americanos/chuck-palahniuk/'>Chuck Palahniuk</a>, <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/category/escritores-americanos/'>Escritores Americanos</a> Tagged: <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/tag/chuck-palahniuk/'>Chuck Palahniuk</a>, <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/tag/clube-da-luta/'>Clube da Luta</a>, <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/tag/conto/'>Conto</a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/conselheiroacacio.wordpress.com/1555/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/conselheiroacacio.wordpress.com/1555/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1555/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1555/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1555/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1555/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1555/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1555/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1555/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1555/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/conselheiroacacio.wordpress.com/1555/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/conselheiroacacio.wordpress.com/1555/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1555/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1555/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&amp;blog=2378334&amp;post=1555&amp;subd=conselheiroacacio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<pubDate>Sun, 06 Mar 2011 01:05:21 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[João do Rio]]></category>
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		<description><![CDATA[Rua do Ouvidor &#8212; 1890 Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado épartilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&amp;blog=2378334&amp;post=1545&amp;subd=conselheiroacacio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><img class="size-medium wp-image-1547" title="ouvidor-1890" src="http://conselheiroacacio.files.wordpress.com/2011/03/ouvidor-1890.jpg?w=440&#038;h=440" alt="" width="440" height="440" /><br />
<strong><em>Rua do Ouvidor &#8212; 1890</em></strong></p>
<p style="text-align:justify;">Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado épartilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia,mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma,tudo varia — o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste efica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.</p>
<p style="text-align:justify;">A rua! Que é a rua? Um cançonetista de Montmartre fá-la dizer:<br />
<em>Je suís la rue, femme êternellement verte,</em><br />
<em>Je n’ai jamais trouvé d’autre carrière ouverte</em><br />
<em>Sinon d’être la rue, et, de tout temps, depuis</em><br />
<em>Que ce pénible monde est monde, je la suis&#8230;</em></p>
<p style="text-align:justify;">A verdade e o trocadilho! Os dicionários dizem: “Rua, do latim ruga, sulco. Espaço entre as casas e as povoações por onde se anda e passeia”. E Domingos Vieira, citando asOrdenações: “Estradas e rua pruvicas antiguamente usadas e os rios navegantes se som cabedaes que correm continuamente e de todo o tempo pero que o uso assy das estradas e ruas pruvicas”.A obscuridade da gramática e da lei! Os dicionários só são considerados fontes fáceis de completo saber pelos que nunca os folhearam. Abri o primeiro, abri o segundo, abri dez, vinteenciclopédias, manuseei in-folios especiais de curiosidade. A rua era para eles apenas um alinhado de fachadas por onde se anda nas povoações. Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! Em Benares ou em Amsterdão, em Londres ou Buenos Aires, sob os céus mais diversos, nos maisvariados climas, a rua é a agasalhadora da miséria. Os desgraçados não se sentem de todo sem o auxílio dos deuses enquanto diante dos seus olhos uma rua abre para outra rua. A rua é o aplausodos medíocres, dos infelizes, dos miseráveis da arte. Não paga ao Tamagno para ouvir berros atenorados de leão avaro, nem à velha Patti para admitir um fio de voz velho, fraco e legendário.Bate, em compensação, palmas aos saltimbancos que, sem voz, rouquejam com fome para alegrá-la e para comer. A rua é generosa. O crime, o delírio, a miséria não os denuncia ela. A ruaé a transformadora das línguas. Os Cândido de Figueiredo do universo estafam-se em juntar regrinhas para enclausurar expressões; os prosadores bradam contra os Cândido. A rua continua,matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons futuros. A ruaresume para o animal civilizado todo o conforto humano. Dá-lhe luz, luxo, bem-estar, comodidade e até impressões selvagens no adejar das árvores e no trinar dos pássaros.</p>
<p style="text-align:justify;">A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis deter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopéia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essamiséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas. A rua criou todas as blagues todos os lugares-comuns. Foi ela que fez a majestade dosrifões, dos brocardos, dos anexins, e foi também ela que batizou o imortal Calino. Sem o consentimento da rua não passam os sábios, e os charlatães, que a lisonjeiam lhe resumem abanalidade, são da primeira ocasião desfeitos e soprados como bolas de sabão. A rua é a eterna imagem da ingenuidade. Comete crimes, desvaria à noite, treme com a febre dos delírios, paraela como para as crianças a aurora é sempre formosa, para ela não há o despertar triste, quando o sol desponta e ela abre os olhos esquecida das próprias ações, é, no encanto da vida renovada, nochilrear do passaredo, no embalo nostálgico dos pregões — tão modesta, tão lavada, tão risonha, que parece papaguear com o céu e com os anjos&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">A rua faz as celebridades e as revoltas, a rua criou um tipo universal, tipo que vive em cada aspecto urbano, em cada detalhe, em cada praça, tipo diabólico que tem dos gnomos e dossilfos das florestas, tipo proteiforme, feito de risos e de lágrimas, de patifarias e de crimes irresponsáveis, de abandono e de inédita filosofia, tipo esquisito e ambíguo com saltos de felinoe risos de navalha, o prodígio de uma criança mais sabida e cética que os velhos de setenta invernos, mas cuja ingenuidade é perpétua, voz que dá o apelido fatal aos potentados e nuncateve preocupações, criatura que pede como se fosse natural pedir, aclama sem interesse, e pode rir, francamente, depois de ter conhecido todos os males da cidade, poeira d’ouro que se fazlama e torna a ser poeira — a rua criou o garoto!</p>
<p style="text-align:justify;">Essas qualidades nós as conhecemos vagamente. Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso terespírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dosesportes — a arte de flanar. É fatigante o exercício?</p>
<p style="text-align:justify;">Para os iniciados sempre foi grande regalo. A musa de Horácio, a pé, não fez outra coisanos quarteirões de Roma. Sterne e Hoffmann proclamavam-lhe a profunda virtude, e Balzac fez todos os seus preciosos achados flanando. Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nosdicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é irpor aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças osajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti de casaca aplaudirem o maior tenor do Lírico numaópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem fazer nada e acharabsolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amorcausa inveja.</p>
<p style="text-align:justify;">É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisasnecessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à porta do café,como Poe no Homem da Multidões, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões, as preocupações e até os crimes dos transeuntes. É uma espécie de secreta à maneira de SherlockHolmes, sem os inconvenientes dos secretas nacionais. Haveis de encontrá-lo numa bela noite numa noite muito feia. Não vos saberá dizer donde vem, que está a fazer, para onde vai.Pensareis decerto estar diante de um sujeito fatal? Coitado! O flâneur é o bonhomme possuidor de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura, porque deambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence da inutilidade da cólera e da necessidade do perdão.</p>
<p style="text-align:justify;">O flâneur é ingênuo quase sempre. Pára diante dos rolos, é o eterno “convidado dosereno” de todos os bailes, quer saber a história dos boleiros, admira-se simplesmente, e conhecendo cada rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe ahistória dos amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga idéia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio. O balão que sobe ao meio-dia no Castelo,sobe para seu prazer; as bandas de música tocam nas praças para alegrá-lo; se num beco perdido há uma serenata com violões chorosos, a serenata e os violões estão ali para diverti-lo. E de tantover que os outros quase não podem entrever, o flâneur reflete. As observaçõs foram guardadas na placa sensível do cérebro; as frases, os ditos, as cenas vibram-lhe no cortical. Quando oflâneur deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia, a alma das ruas. E é então que haveis depasmar da futilidade do mundo e da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de observação&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo e imóvel.</p>
<p style="text-align:justify;">Balzac dizia que as ruas de Paris nos dão impressões humanas.São assim as ruas de todasas cidades, com vida e destinos iguais aos do homem.</p>
<p style="text-align:justify;">Por que nascem elas? Da necessidade de alargamento das grandes colmeias sociais, deinteresses comerciais, dizem. Mas ninguém o sabe. Um belo dia, alinha-se um tarrascal, corta-se um trecho de chácara, aterra-se lameiro, e aí está: nasceu mais uma rua. Nasceu para evoluir,para ensaiar primeiros passos, para balbuciar, crescer, criar uma individualidade. Os homens têm no cérebro a sensação dessa semelhança, e assim como dizem de um rapagão:</p>
<p style="text-align:justify;">— Quem há de pensar que vi este menino a engatinhar!<br />
Murmuram:<br />
— Quem há de dizer que esta rua há dez anos só tinha uma casa!</p>
<p style="text-align:justify;">Um cavalheiro notável, ao entrar comigo certa vez na Rua Senador Dantas, não se conteve:</p>
<p style="text-align:justify;">— É impossível passar por aqui sem lembrar que a velhice começa a chegar. Quando vim da província esta rua tinha apenas duas casas no antigo jardim do Convento, e eu tomava choppsno Guarda Velha a três vinténs!</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Eu sorria, mas o pobre sujeito importante dizia isso como se recordasse os dois primeiros dentes de um homenzarrão, com uma dentadura capaz atualmente de morder as algibeiras de uma sociedade inteira. Era arecordação, a saudade do passado começo. Há nada mais enternecedor que o princípio de uma rua? É ir vê-lo nos arrabaldes. A princípio capim, um braço a ligar duas artérias. Percorre-o sem pensar meia dúzia de criaturas. Um diacercam à beira um lote de terreno. Surgem em seguida os alicerces de uma casa. Depois de outra e mais outra. Um combustor tremeluz indicando que ela já se não deita com as primeiras sombras. Três ou quatro habitantesproclamam a sua salubridade ou o seu sossego. Os vendedores ambulantes entram por ali como por terreno novo a conquistar. Aparece a primeira reclamação nos jornais contra a lama ou o capim. É o batismo. As notas policiaiscontam que os gatunos deram num dos seus quintais. É a estréia na celebridade, que exige o calçamento ou o prolongamento da linha de bondes. E insensivelmente, há na memória da produção, bem nítida, bem pessoal, umaindividualidade topográfica a mais, uma individualidade que tem fisionomia e alma. </em><br />
Algumas dão para malandras, outras para austeras; umas são pretensiosas, outras riem aos transeuntes e o destino as conduz como conduz o homem, misteriosamente, fazendo-asnascer sob uma boa estrela ou sob um signo mau, dando-lhes glórias e sofrimentos, matando-as ao cabo de um certo tempo.</p>
<p style="text-align:justify;">Oh! sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres,delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastampara contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, spleenéticas,snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Vede a Rua do Ouvidor. É a fanfarronada em pessoa, exagerando, mentindo, tomandoparte em tudo, mas desertando, correndo os taipais das montras1 à mais leve sombra de perigo.Esse beco inferno de pose, de vaidade, de inveja, tem a especialidade da bravata. E fatalmenteoposicionista, criou o boato, o “diz-se&#8230;“ aterrador e o “fecha-fecha” prudente. Começou porchamar-se Desvio do Mar. Por ela continua a passar para todos os desvios muita gente boa. Notempo em que os seus melhores prédios se alugavam modestamente por dez mil réis, era a Ruado Gadelha. Podia ser ainda hoje a Rua dos Gadelhas, atendendo ao número prodigioso depoetas nefelibatas que a infestam de cabelos e de versos. Um dia resolveu chamar-se do Ouvidorsem que o senado da câmara fosse ouvido. Chamou-se como calunia, e elogia, como insulta eaplaude, porque era preciso denominar o lugar em que todos falam de lugar do que ouve; eparece que cada nome usado foi como a antecipação moral de um dos aspectos atuais dessairresponsável artéria da futilidade.</p>
<p style="text-align:justify;">A Rua da Misericórdia, ao contrário, com as suas hospedarias lôbregas, a miséria, adesgraça das casas velhas e a cair, os corredores bafientos, é perpetuamente lamentável. Foi aprimeira rua do Rio. Dela partimos todos nós, nela passaram os vice-reis malandros, osgananciosos, os escravos nus, os senhores em redes; nela vicejou a imundície, nela desabotoou aflor da influência jesuítica. Índios batidos, negros presos a ferros, domínio ignorante e bestial, oprimeiro balbucio da cidade foi um grito de misericórdia, foi um estertor, um ai! tremendoatirado aos céus. Dela brotou a cidade no antigo esplendor do Largo do Paço, dela decorreram,como de um corpo que sangra, os becos humildes e os coalhos de sangue, que são as praças,ribeirinhas do mar. Mas, soluço de espancado, primeiro esforço de uma porção de infelizes, elacontinuou pelos séculos afora sempre lamentável, e tão augustiosa e franca e verdadeira na suador que os patriotas lisonjeiros e os governos, ninguém, ninguém se lembrou nunca de lhe tirardas esquinas aquela muda prece, aquele grito de mendiga velha: — Misericórdia!</p>
<p style="text-align:justify;">Há ruas que mudam de lugar, cortam morros, vão acabar em certos pontos que ninguémdantes imaginara — a Rua dos Ourives; há ruas que, pouco honestas no passado, acabaramtomando vergonha — a da Quitanda. Essa tinha mesmo a mania de mudar de nome. Chamou-sedo Açougue Velho, do lnácio Castanheira, do Sucusarrará, do Tomé da Silva, que sei eu? Atémesmo Canto do Tabaqueiro. Acabou Quitanda do Marisco, mas, como certos indivíduos queorganizam o nome conforme a posição que ocupam, cortou o marisco e ficou só Quitanda. Háruas, guardas tradicionais da fidalguia, que deslizam como matronas conservadoras — a dasLaranjeiras; há ruas lúgubres, por onde passais com um arrepio, sentindo o perigo da morte — oLargo do Moura por exemplo. Foi sempre assim. Lá existiu o Necrotério e antes do Necrotério láse erguia a Forca. Antes da autópsia, o enforcamento. O velho largo macabro, com a alma deTropmann e de Jack, depois de matar, avaramente guardou anos e anos, para escalpelá-los, parachamá-los, para gozá-los, todos os corpos dos desgraçados que se suicidam ou morremassassinados. Tresanda a crime, assusta. A Prainha também. Mesmo hoje, aberta, alargada com prédios novos e a trepidação contínua do comércio, há de vos dar uma impressão de vago horror.À noite são mais densas as sombras, as luzes mais vermelhas, as figuras maiores. Por que teráessa rua um aspecto assim? Oh! Porque foi sempre má, porque foi sempre ali o Aljube, alipadeceram os negros dos três primeiros trapiches do sal, porque também ali a forca espalhou amorte!</p>
<p style="text-align:justify;">Há entretanto outras ruas, que nascem íntimas, familiares, incapazes de dar um passo semque todas as vizinhas não saibam. As ruas de Santa Teresa estão nestas condições. Umcavalheiro salta no Curvelo, vai a pé até o França, e quando volta já todas as ruas perguntam quedeseja ele, se as suas tenções são puras e outras impertinências íntimas. Em geral, procura-se omistério da montanha para esconder um passeio mais ou menos amoroso. As ruas de SantaTeresa, é descobrir o par e é deitar a rir proclamando aos quatro ventos o acontecimento. Umadas ruas, mesmo, mais leviana e tagarela do que as outras, resolveu chamar-se logo Rua doAmor, e a Rua do Amor lá está na freguesia de S. José. Será exatamente um lugar escolhido peloAmor, deus decadente? Talvez não. Há também na freguesia do Engenho Velho uma ruaintitulada Feliz Lembrança e parece que não a teve, segundo a opinião respeitável da poesiaanônima:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Na Rua Feliz Lembrança</em><br />
<em>Eu escapei por um triz</em><br />
<em>De ser mandado à tábua.</em><br />
<em>Ai! que lembrança infeliz</em><br />
<em>Tal nome pôr nesta rua!</em></p>
<p style="text-align:justify;">Há ruas que têm as blandícias de Goriot e de Shylock para vos emprestar a juro, paraesconder quem pede e paga o explorador com ar humilde. Não vos lembrais da Rua doSacramento, da rua dos penhores? Uma aragem fina e suave encantava sempre o ar. Defronte àigreja, casas velhas guardavam pessoas tradicionais. No Tesouro, por entre as grades de ferro,uma ou outra cara desocupada. E era ali que se empenhavam as jóias, que pobres entesangustiados iam levar os derradeiros valores com a alma estrangulada de soluços; era ali querefluíam todas as paixões e todas as tristezas, cujo lenitivo dependesse de dinheiro&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Há ruas oradoras, ruas de meeting — o Largo do Capim que assim foi sempre, o Largode S. Francisco; ruas de calma alegria burguesa, que parecem sorrir com honestidade — a Ruade Haddock Lobo; ruas em que não se arrisca a gente sem volver os olhos para trás a ver se nosvêem —a Travessa da Barreira; ruas melancólicas, da tristeza dos poetas; ruas de prazer suspeitopróximo do centro urbano e como que dele muito afastadas; ruas de paixão romântica, quepedem virgens loiras e luar.</p>
<p style="text-align:justify;">Qual de vós já passou a noite em claro ouvindo o segredo de cada rua? Qual de vós jásentiu o mistério, o sono, o vício, as idéias de cada bairro?</p>
<p style="text-align:justify;">A alma da rua só é inteiramente sensível a horas tardias. Há trechos em que a gente passacomo se fosse empurrada, perseguida, corrida — são as ruas em que os passos reboam,repercutem, parecem crescer, clamam, ecoam e, em breve, são outros tantos passos ao nossoencalço. Outras que se envolvem no mistério logo que as sombras descem — o Largo de Paço.Foi esse largo o primeiro esplendor da cidade. Por ali passaram, na pompa dos pálios e dosbaldaquins d’ouro e púrpura, as procissões do Enterro, do Triunfo, do Senhor dos Passos; por ali,ao lado da Praia do Peixe, simples vegetação de palhoças, o comércio agitava as suas primeiraselegâncias e as suas ambições mais fortes. O largo, apesar das reformas, parece guardar atradição de dormir cedo. À noite, nada o reanima, nada o levanta. Uma grande revolução morreno seu bojo como um suspiro; a luz leva a lutar com a treva; os próprios revérberos parecedormitarem, e as sombras que por ali deslizam são trapos da existência almejando o fimpróximo, ladrões sem pousada, imigrantes esfaimados&#8230; Deixai esse largo, ide às ruelas daMisericórdia, trechos da cidade que lembram o Amsterdão sombrio de Rembrandt. Há homensem esteiras, dormindo na rua como se estivessem em casa. Não nos admiremos. Somos reflexos.O Beco da Música ou o Beco da Fidalga reproduzem a alma das ruas de Nápoles, de Florença,das ruas de Portugal, das ruas da África, e até, se acreditarmos na fantasia de Heródoto, das ruasdo antigo Egito. E por quê? Porque são ruas da proximidade do mar, ruas viajadas, com a visãode outros horizontes. Abri uma dessas pocilgas que são a parte do seu organismo. Haveis de verchineses bêbados de ópio, marinheiros embrutecidos pelo álcool, feiticeiras ululando cançõessinistras, toda a estranha vida dos portos de mar. E esses becos, essas betesgas têm a perfídia dosoceanos, a miséria das imigrações, e o vício, o grande vício do mar e das colônias&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Se as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm idéias, filosofia e religião. Há ruasinteiramente católicas, ruas protestantes, ruas livres-pensadoras e até ruas sem religião.Trafalgar Square, dizia o mestre humorista Jerome, não tem uma opinião teológica definitiva. Omesmo se pode dizer da Praça da Concórdia de Paris ou da Praça Tiradentes. Há criatura maissem miolos que o Largo do Rocio? Devia ser respeitável e austero. Lá, Pedro I, trepado numbelo cavalo e com um belo gesto, mostra aos povos a carta da independência, fingindo dar umgrito que nunca deu. Pois bem: não há sujeito mais pândego e menos sério do que o velho ex-Largo do Rocio. Os seus sentimentos religiosos oscilam entre a depravação e a roleta.Felizmente, outras redimem a sociedade de pedra e cal, pelo seu culto e o seu fervor. A RuaBenjamin Constant está neste caso, é entre nós um tremendo exemplo de confusão religiosa.Solene, grave, guarda três templos, e parece dizer com circunspecção e o ar compenetrado decertos senhores de todos nós conhecidos:</p>
<p style="text-align:justify;">— Faço as obras do Coração de Jesus, creio em Deus, nas orações, nos bentinhos e sónão sou positivista porque é tarde para mudar de crença. Mas respeito muito e admiro TeixeiraMendes&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Nós, os homens nervosos, temos de quando em vez alucinações parciais da pele, doresfulgurantes, a sensação de um contacto que não existe, a certeza de que chamam por nós. As ruastêm os rolos, as casas mal assombradas, e há até ruas possessas, com o diabo no corpo. Em S.Luís do Maranhão há uma rua sonâmbula muito menos cacete que a ópera célebre do mesmonome. Essa rua é a Rua de Santa Ana, a lady Macbeth da topografia. Deu-se lá um crimehorrível. Às dez horas, a rua cai em estado sonambúlico e é só gritos, clamores: sangue! sangue!</p>
<p style="text-align:justify;">Ruas assim ainda mostram o que pensam. Talvez as outras tenham maiores delírios, massão como os homens normais — guardam dentro do cérebro todos os pensamentosextravagantes. Quem se atreveria a resumir o que num minuto pensa de mal, de inconfessável, omais honesto cidadão? Entre as ruas existem também as falsas, as hipócritas, com a alma deTartufo e de Iago. Por isso os grandes mágicos do interior da África Central, que dos sertõesadustos levavam às cidades inglesas do litoral sacos d’ouro em pó e grandes macacos tremendos,têm uma cantiga estranha que vale por uma sentença breve de Catão:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>O di ti a uê, chê</em><br />
<em>F’u, a uá ny</em><br />
<em>Odé, odá, bi ejô</em><br />
<em>Sa lo dê</em></p>
<p style="text-align:justify;">Sentença que em eubá (dialeto do reino iorubá Egbá, língua geral dos negros oriundos da atual Nigéria), o esperanto das hordas selvagens, quer dizer apenas isto: rua foifeita para ajuntamentos. Rua é como cobra. Tem veneno. Foge da rua!</p>
<p style="text-align:justify;">Mas o importante, o grave, é ser a rua a causa fundamental da diversidade dos tiposurbanos. Não sei se lestes um curioso livro de E. Demolins, Comment la route crée le typesocial. É uma revolução no ensino da Geografia. “A causa primeira e decisiva da diversidade dasraças, diz ele, é a estrada, o caminho que os homens seguirem. Foi a estrada que criou a raça e otipo social. Os grandes caminhos do globo foram, de qualquer forma, os alambiques poderosos.que transformaram os povos. Os caminhos das grandes estepes asiáticas, das tundras siberianas,das savanas da América ou das florestas africanas insensivelmente e fatalmente criaram o tipotártaro-mongol, o lapão-esquimó, o pele-vermelha, o índio, o negro”.</p>
<p style="text-align:justify;">A rua é a civilização da estrada. Onde morre o grande caminho começa a rua, e, por isso,ela está para a grande cidade como a estrada está para o mundo. Em embrião, é o princípio, acausa dos pequenos agrupamentos de uma raça idêntica. Daí, em muitos sítios da terra as aldeiasterem o único nome de rua. Quando aumentam e crescem depois, ou pela devoção da maioriados habitantes ou por uma impressão de local, acrescentam ao substantivo rua o complementoque das outras as deve diferençar. Em Portugal esse fato é comum. Há uma aldeia de 700habitantes no Minho que se chama modestamente Rua de S. Jorge, uma outra no Douro que é aRua da Lapela, e existem até uma Rua de Cima e uma Rua de Baixo.</p>
<p style="text-align:justify;">Nas grandes cidades a rua passa a criar o seu tipo, a plasmar o moral dos seus habitantes,a inocular-lhes misteriosamente gostos, costumes, hábitos, modos, opiniões políticas. Vós todosdeveis ter ouvido ou dito aquela frase:</p>
<p style="text-align:justify;">— Como estas meninas cheiram a Cidade Nova!</p>
<p style="text-align:justify;">Não é só a Cidade Nova, sejam louvados os deuses! Há meninas que cheiram a Botafogo,a Haddock Lobo, a Vila Isabel, como há velhas em idênticas condições, como há homenstambém. A rua fatalmente cria o seu tipo urbano como a estrada criou o tipo social. Todos nósconhecemos o tipo do rapaz do Largo do Machado: cabelo à americana, roupas amplas à inglesa,lencinho minúsculo no punho largo, bengala de volta, pretensões às línguas estrangeiras, calçasdobradas como Eduardo VII e toda a snobopolis do universo. Esse mesmo rapaz, dadas idênticasposições, é no Largo do Estácio inteiramente diverso. As botas são de bico fino, os fatos emgeral justos, o lenço no bolso de dentro do casaco, o cabelo à meia cabeleira com muito óleo. Seformos ao Largo do Depósito, esse mesmo rapaz usará lenço de seda preta, forro na gola dopaletot, casaquinho curto e calças obedecendo ao molde corrente na navegação aérea — calças àbalão.</p>
<p style="text-align:justify;">Esses três rapazes da mesma idade, filhos da mesma gente honrada, às vezes até parentes,não há escolas, não há contactos passageiros, não há academias que lhes tranformem o gosto porcerta cor de gravatas, a maneira de comer, as expressões, as idéias — porque cada rua tem umstock especial de expressões, de idéias e de gostos. A gente de Botafogo vai às “primeiras” doLírico, mesmo sem ter dinheiro. A gente de Haddock Lobo tem dinheiro mas raramente vai aoLírico. Os moradores da Tijuca aplaudem Sarah Bernhardt como um prodígio. Os moradores daSaúde amam enternecidamente o Dias Braga. As meninas das Laranjeiras valsam ao som dasvalsas de Strauss e de Berger, que lembram os cassinos da Riviera e o esplendor dos kursaals3.As meninas dos bailes de Catumbi só conhecem as novidades do senhor Aurélio Cavalcante. Asconversas variam, o amor varia, os ideais são inteiramente outros, e até o namoro, essaencantadora primeira fase do eclipse do casamento, essa meia ação da simpatia que se funde emdesejo, é abolutamente diverso. Em Botafogo, à sombra das árvores do parque ou no grandeportão, Julieta espera Romeu, elegante e solitária; em Haddock Lobo, Julieta garruleia embandos pela calçada; e nas casas humildes da Cidade Nova, Julieta, que trabalhou todo o diapensando nessa hora fugace, pende à janela o seu busto formoso&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Oh! sim, a rua faz o indivíduo, nós bem o sentimos. Um cidadão que tenha passadometade da existência na Rua do Pau Ferro não se habitua jamais à Rua Marquês de Abrantes! Osintelectuais sentem esse tremendo efeito do ambiente, menos violentamente, mas sentem. Euconheci um elegante barão da monarquia, diplomata em perpétua disponibilidade, que anecessidade forçara a aceitar de certo proprietário o quarto de um cortiço da Rua Bom Jardim. Opobre homem, com as suas poses à Brummell, sempre de monóculo entalado, era o escândalo darua. Por mais que saudasse as damas e cumprimentasse os homens, nunca ninguém se lembravade o tratar senão com desconfiança assustada. O barão sentia-se desesperado e resumira a vida3 Cassino.num gozo único: sempre que podia, tomava o bonde de Botafogo, acendia um charuto, e ia porali altivo, airoso, com a velha redingote4 abotoada, a “caramela” de cristal cintilante&#8230; Estava noseu bairro. Até parece, dizia ele, que as pedras me conhecem!</p>
<p style="text-align:justify;">As pedras! As pedras são a couraça da rua, a resistência que elas apresentam ao novotranseunte. Refleti que nunca pisastes pela primeira vez uma rua de arrabalde sem que o vossopasso fosse hesitante como que, inconscientemente, se habituando ao terreno; refleti nessascoisas sutis que a vida cria, e haveis de compreender então a razão por que os humildes limitamtodo o seu mundo à rua onde moram, e por que certos tipos, os tipos populares, só o sãorealmente em determinados quarteirões.</p>
<p style="text-align:justify;">As ruas são tão humanas, vivem tanto e formam de tal maneira os seus habitantes, que háaté ruas em conflito com outras. Os malandros e os garotos de uma olham para os de outra comopara inimigos. Em 1805, há um século, era assim: os capoeiras da Praia não podiam passar porSanta Luzia. No tempo das eleições mais à navalha que à pena, o Largo do Machadinho e a RuaPedro Américo eram inimigos irreconciliáveis. Atualmente a sugestão é tal que eles se intitulampovo. Há o povo da Rua do Senado, o povo da Travessa do mesmo nome, o povo de Catumbi.Haveis de ouvir, à noite, um grupo de pequenos valentes armados de vara:</p>
<p style="text-align:justify;">— Vamos embora! O povo da Travessa está conosco.</p>
<p style="text-align:justify;">É a Rua do Senado que, aliada à Travessa, vai sovar a Rua Frei Caneca&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Como outrora os homens, mais ou menos notáveis, tomavam o nome da cidade ondetinham nascido — Tales de Mileto, Luciano de Samosata, Epicarmo de Alexandria — os chefesda capadoçagem5 juntam hoje ao nome de batismo o nome da sua rua. Há o José do Senado, oJuca da Harmonia, o Lindinho do Castelo, e ultimamente, nos fatos do crime, tornaram-secélebres dois homens, Carlito e Cardosinho, só temidos em toda a cidade, cheia de Cardosinhose de Carlitos, porque eram o Carlito e o Cardosinho da Saúde. Direis que é uma observaçãopuramente local? Não, cem vezes não! Em Paris, a Ville-Lumière, os bandos de assassinostomam freqüentemente o nome da rua onde se organizaram; em Londres há ruas dos bairrostrágicos com esse predomínio, e na própria história de Bizâncio haveis de encontrar ruas tãoguerreiras que os seus habitantes as juntavam ao nome como um distintivo.</p>
<p style="text-align:justify;">E assim os tipos populares.</p>
<p style="text-align:justify;">Tive o prazer de conhecer dois desses tipos, em que mais vivamente se exteriorizava ainfluência psicológica da rua: o Pai da Criança e a Perereca.</p>
<p style="text-align:justify;">O Pai da Criança estava deslocado, na decadência. Esse ser repugnante nascera comouma depravação da Rua do Ouvidor. Quando o vi doente, nas tascas da Rua Frei Caneca, comojá não estava na sua rua, não era mais notável. Os garotos já não riam dele, ninguém o seguia, eo nojento sujeito conversava nas bodegas, como qualquer mortal, da gatunice dos governos. Sófui descobrir a sua celebridade quando o vi em plena Ouvidor, cheio de fitas, vaiado, cuspindoinsolências, inconcebível de descaro e de náusea. A Perereca, ao contrário. Na Rua do Ouvidorseria apenas uma preta velha. Na Rua Frei Caneca era o regalo, o delírio, a extravagância. Osmalandrins corriam-lhe ao encalço atirando-lhe pedras, os negociantes chegavam às portas, todasas janelas iluminavam-se de gargalhadas. E por quê? Porque esses tipos são o riso das ruas eassim como não há duas pessoas que riam do mesmo modo não há duas ruas cujo riso seja omesmo.</p>
<p style="text-align:justify;">Se a rua é para o homem urbano o que a estrada foi para o homem social, é claro que apreocupação maior, a associada a todas as outras idéias do ser das cidades, é a rua. Nóspensamos sempre na rua. Desde os mais tenros anos ela resume para o homem todos os ideais,os mais confusos, os mais antagônicos, os mais estranhos, desde a noção de liberdade e dedifamação — idéias gerais — até a aspiração de dinheiro, de alegria e de amor, idéiasparticulares. Instintivamente, quando a criança começa a engatinhar, só tem um desejo: ir para arua! Ainda não fala e já a assustam: se você for para a rua encontra o bicho! Se você sair apanha palmadas! Qual! Não há nada! É pilhar um portão aberto que o petiz não se lembra mais debichos nem de pancadas!</p>
<p style="text-align:justify;">Sair só é a única preocupação das crianças até uma certa idade. Depois continuar a sairsó. E quando já para nós esse prazer se usou, a rua é a nossa própria existência. Nela se fazemnegócios, nela se fala mal do próximo, nela mudam as idéias e as convicções, nela surgem asdores e os desgostos, nela sente o homem a maior emoção.</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Quando se encontra o amor</em><br />
<em>Na rua, sem o saber&#8230;</em></p>
<p style="text-align:justify;">— Ponho-o no olho da rua! brada o pai ao filho no auge da fúria.<br />
Aí está a rua como expressão da maior calamidade.</p>
<p style="text-align:justify;">— Você está em casa, venha para a rua se é gente!<br />
Aí temos a rua indicando sítio livre para a valentia a substituir o campo de torneiomedieval.</p>
<p style="text-align:justify;">— É mais deslavado que as pedras da rua!Frase em que se exprime uma sem-vergonhice inconcebível.</p>
<p style="text-align:justify;">— É mais velho que uma rua!Conceito talvez errado porque há ruas que morrem moças.<br />
Às vezes até a rua é a arma que fere e serve de elogio conforme a opinião que dela setem.</p>
<p style="text-align:justify;">— Ah! minha amiga! Meu filho é muito comportado. Já vai à rua sozinho&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">— Ah! meninas, o filho de d. Alice está perdido! Pois se até anda sozinho na rua!<br />
E a rua, impassível, é o mistério, o escândalo, o terror&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Os políticos vivem no meio da rua aqui, na China, em Tombuctu, na França; ospresidentes de república, os reis, os papas, no pavor de uma surpresa da rua — a bomba, arevolta; os chefes de polícia são os alucinados permanentes das ruas; todos quantos queremsubir, galgar a inútil e movediça montanha da glória, anseiam pelo juízo da rua, pela aprovaçãoda via pública, e há na patologia nervosa uma vasta parte em que se trata apenas das moléstiasproduzidas pela rua, desde a neurastenia até à loucura furiosa. E que a rua chega a ser a obsessãoem que se condensam todas as nossas ambições. O homem, no desejo de ganhar a vida com maisabundância ou maior celebridade, precisava interessar à rua. Começou pois fazendo discursosem plena ágora (Praça central das cidades da antiga Grécia, em torno da qual se fazia a vida urbana), discursos que, desde os tempos mais remotos aos meetings contemporâneos daestátua de José Bonifácio, falam sempre de coisas altivas, generosas e nobres. Um belo dia, a ruaproclamou a excelente verdade: que as palavras leva-as o vento. Logo, nós assustados,imaginamos o homem-sandwich, o cartaz ambulante; mandamos pregar-lhe, enquanto dorme,com muita goma e muita ingenuidade, os cartazes proclamando a melhor conserva, o doce maisgostoso, o ideal político mais austero, o vinho mais generoso, não só em letras impressas mascom figuras alegóricas, para poupar-lhe o trabalho de ler, para acariciar-lhe a ignorância, paraalegrá-la. Como se não bastassem o cartaz, a lanterna mágica, o homem-sandwich,desveladamente, aos poucos, resolvemos compor-lhe a história e fizemos o jornal — esseformidável folhetim-romance permanente, composto de verdades, mentiras, lisonjas, insultos eda fantasia dos Gaboriau (Émile Gaboriau, escritor francês do século XIX, tido como o criador do romance policial.) que somos todos nós&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Há uma estética da rua, afirmou Bulls. Sim. Há. Porque as atrizes de fama, os oradoresmais populares, os hércules mais cheios de força, os produtos mais evidentes dos blocoscomerciais, vivem de procurar agradá-la. Desse orgulho transitório surgiu para a rua a glóriapolicroma da arte. O temor de serem esquecidos criou para cada uma a roupagem variada,encheu-as como Melusinas de pedra, como fadas cruéis que se teme e se satisfaz, de vestidos múltiplos, de cores variegadas, de fanfreluches 8de papel, da ardência fulgurante das montras decambiantes luzentes; deu-lhes uma perpétua apoteose de sacrifício à espera do milagre do lucroou da popularidade. A estética, a ornamentação das ruas, é o resultado do respeito e do medo quelhes temos&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">No espírito humano a rua chega a ser uma imagem que se liga a todos os sentimentos eserve para todas as comparações. Basta percorrer a poesia anônima para constatar a flagranteverdade. É quase sempre na rua que se fala mal do próximo. Folheemos uma coleção de fados.Lá está a idéia:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Adeus, ó Rua Direita</em><br />
<em>Ó Rua da Murmuração.</em><br />
<em>Onde se faz audiência</em><br />
<em>Sem juiz nem escrivão.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Aliás muito tímida, como devendo ser cantada por quem tem culpa no cartório. Mas, seum apaixonado quer descrever o seu peito, só encontra uma comparação perfeita.</p>
<p style="text-align:justify;"><em>O meu peito é uma rua</em><br />
<em>Onde o meu bem nunca passa,</em><br />
<em>É a rua da amargura</em><br />
<em>Onde passeia a desgraça.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Se sente o apetite de descrever, os espécimens são sem conta.</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Na rua do meu amor</em><br />
<em>Não se pode namorar:</em><br />
<em>De dia, velhas à porta,</em><br />
<em>De noite, cães a ladrar.</em></p>
<p style="text-align:justify;">E é suave lembrar aquele sonhador que, defronte da janela da amada e desejando realizaro impossível para lhe ser agradável, só pôde sussurrar esta vontade meiga:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Se esta rua fosse minha</em><br />
<em>Eu mandava ladrilhar</em><br />
<em>De pedrinhas de brilhante</em><br />
<em>Para meu bem passar.</em></p>
<p style="text-align:justify;">O povo observa também, e diz mais numa quadra do que todos nós a armar o efeito deperíodos brilhantes. Sempre recordarei um tocador de violão a cantar com lágrimas na voz comodiante do inexorável destino:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Vista Alegre é rua morta</em><br />
<em>A Formosa é feia e brava</em><br />
<em>A Rua Direita é torta</em><br />
<em>A do Sabão não se lava&#8230;</em></p>
<p style="text-align:justify;">Toda a psicologia das construções e do alinhamento em quatro versos! A rua chega apreocupar os loucos. Nos hospícios, onde esses cavalheiros andam doidos por se ver cá fora,8 Ornamento de pouco valor.encontrei planos de ruas ideais, cantores de rua, e um deles mesmo chegou a entregar-me umlongo poema que começava assim:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>A rua&#8230;</em><br />
<em>Cumprida, cumprida, atua&#8230;</em><br />
<em>Olê! complicada, complicada, alua</em><br />
<em>A rua</em><br />
<em>Nua!</em></p>
<p style="text-align:justify;">Essa idéia reflete-se nas religiões, nos livros sagrados, na arte de todos os tempos, cadavez mais afiada, cada vez mais sensível. Na literatura atual a rua é a inspiração dos grandesartistas, desde Victor Hugo, Balzac e Dickens, até às epopéias de Zola, desde o funambulismo deBanville até o humorismo de Mark Twain. Não há um escritor moderno que não tenha cantado arua. Os sonhadores levam mesmo a exagerá-la, e hoje, devido certamente à corrente socialista,há toda uma literatura em que a alma das ruas soluça. Os poetas refinados levam a mórbidainspiração a cantar os aspectos parciais da rua. Como os românticos cantavam os pés, os olhos, aboca e outras partes do corpo das apaixonadas, eles cantam o semblante das casas vazias, osrevérberos de gás como Rodenbach:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Le dimanche, en semaine, et par tous les temps</em><br />
<em>L’un est debout, un autre, il semble, s’agenouille.</em><br />
<em>Et chacun se sent seul comme dans une foule.</em><br />
<em>Les revérbéres des banlieues</em><br />
<em>Sont des cages oú des oiseaux déplient leurs queues.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Os pregões, as calçadas, e houve até um — Mário Pederneiras —que nos deu asutilíssima e admirável psicologia das árvores urbanas:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Com que magoado encanto</em><br />
<em>Com que triste saudade</em><br />
<em>Sobre mim atua</em><br />
<em>Esta estranha feição das árvores da rua.</em><br />
<em>E elas são, entretanto,</em><br />
<em>A única ilusão rural de uma cidade!</em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>As árvores urbanas</em><br />
<em>São, em geral, conselheiras e frias</em><br />
<em>Sem as grandes expansões e as grandes alegrias</em><br />
<em>Das provincianas.</em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Não têm sequer os plácidos carinhos</em><br />
<em>Dessas largas manhãs provinciais e enxutas.</em><br />
<em>Nem a orquestra dos ninhos</em><br />
<em>Nem a graça vegetal das frutas.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Os artistas modernos já não se limitam a exprimir os aspectos proteiformes da rua, aanalisar traço por traço o perfil físico e moral de cada rua. Vão mais longe, sonham a rua ideal,como sonharam um mundo melhor. Williams Morris, por exemplo, imaginou nas Novelas departe alguma a rua socialista e rara, com edifícios magníficos, sem mendigos e sem dinheiro.Rimbaud, nas Illuminations, teve a idéia da rua babélica, reproduzindo nos edifícios, sob o céucinzento, todas as maravilhas clássicas da arquitetura. Bellamy, no Locking Bockward, jásonhava o agrupamento dos grandes armazéns; e hoje, entre essas ruas de sonho, que GustavoKhan considera as ruas utópicas e que talvez se tornem realidade um dia, é o estranho e infernalsulco descrito por Wells na História dos tempos futuros, rua em que tudo dependerá desindicatos formidáveis, em que tudo será elétrico, em que os homens, escravos de meia dúzia,serão como os elos de uma mesma corrente arrastados pelo trabalho através dos casarões.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas, a quem não fará sonhar a rua? A sua influência é fatal na palheta dos pintores, naalma dos poetas, no cérebro das multidões. Quem criou o reclamo? A rua! Quem inventou acaricatura! A rua! Onde a expansão de todos os sentimentos da cidade? Na rua! Por isso para dara expressão da dor funda, o grande poeta Bilac fez um dia:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>A Avenida assombrada e triste da saudade</em><br />
<em>Onde vem passear a procissão chorosa</em><br />
<em>Dos órfãos do carinho e da felicidade.</em></p>
<p style="text-align:justify;">E certo poeta árabe, reconhecendo com a presciência dos vates que só a rua nos pode dara expressão do sofrimento absoluto como da alegria completa, escreveu a celebrada Praça doriso ao nascer da aurora; o riso de cristal das crianças, o riso perlado das mulheres, o riso gravedos homens a formar um conjunto de tanta harmonia que as árvores também riam no canto dospássaros, e a própria umbela azul do céu se estriava d’ouro no imenso riso do sol..</p>
<p style="text-align:justify;">Neste elogio, talvez fútil, considerei a rua um ser vivo, tão poderoso que conseguemodificar o homem insensivelmente e fazê-lo o seu perpétuo escravo delirante, e mostrei mesmoque a rua é o motivo emocional da arte urbana mais forte e mais intenso. A rua tem ainda umvalor de sangue e de sofrimento: criou um símbolo universal. Há ainda uma rua, construída naimaginação e na dor, rua abjeta e má, detestável e detestada, cuja travessia se faz contra a nossavontade, cujo trânsito é um doloroso arrastar pelo enxurro de uma cidade e de um povo. Todosacotovelam-se e vociferam aí, todos, vindos da Rua da Alegria ou da Rua da Paz, atravessandoas betesgas (Viela, rua estreita.) do Saco do Alferes ou descendo de automóvel dos bairros civilizados, encontram-seaí e aí se arrastam, em lamentações, em soluços, em ódio à vida e ao Mundo. No traçado dascidades ela não se ostenta com as suas imprecações e os seus rancores. É uma rua esconsa enegra, perdida na treva, com palácios de dor e choupanas de pranto, cuja existência se conhecenão por um letreiro à esquina, mas por uma vaga apreensão, um irredutível sentimento deangústia, cuja travessia não se pode jamais evitar. Correi os mapas de Atenas, de Roma, deNínive ou de Babilônia, o mapa das cidades mortas. Termas, canais, fontes, jardins suspensos,lugares onde se fez negócio, onde se amou, lugares onde se se cultuaram os deuses — tudo desapareceu.Olhai o mapa das cidades modernas. De século em século a transformação é quaseradical. As ruas são perecíveis como os homens. A outra, porém, essa horrível rua de todosconhecida e odiada, pela qual diariamente passamos, essa é eterna como o medo, a infâmia, ainveja. Quando Jerusalém fulgia no seu máximo esplendor, já ela lá existia. Enquanto em Atenasartistas e guerreiros recebiam ovações, enquanto em Roma a multidão aplaudia os gladiadorestriunfais e os césares devassos, na rua aflitiva cuspinhava o opróbrio e chorava a inocência.Cartago tinha uma rua assim, e ainda hoje Paris, New York, Berlim a têm, cortando a suaalegria, empanando o seu brilho, enegrecendo todos os triunfos e todas as belezas. Qual de vósnão quebrou, inesperadamente, o ângulo em arestas dessa rua? Se chorastes, se sofrestes acalúnia, se vos sentistes ferido pela maledicência, podereis ter a certeza de que entrastes naobscura via! Ah! Não procureis evita-la! Jamais o conseguireis. Quanto mais se procura dela sairmais dentro dela se sofre. E não espereis nunca que o mundo melhore enquanto ela existir.</p>
<p style="text-align:justify;">Não éuma rua onde sofrem apenas alguns entes, é a rua interminável, que atravessa cidades, países,continentes, vai de pólo a pólo; em que se alanceiam todos os ideais, em que se insultam todas asverdades, onde sofreu Epaminondas e pela qual Jesus passou. Talvez que extinto o mundo, apagados todos os astros, feito o universo treva, talvez ela ainda exista, e os seus soluçossinistramente ecoem na total ruína, rua das lágrimas, rua do desespero — interminável rua da amargura.</p>
<br />Filed under: <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/category/escritores-brasileiros/'>Escritores Brasileiros</a>, <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/category/escritores-brasileiros/joao-do-rio/'>João do Rio</a> Tagged: <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/tag/conto/'>Conto</a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/conselheiroacacio.wordpress.com/1545/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/conselheiroacacio.wordpress.com/1545/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1545/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1545/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1545/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1545/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1545/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1545/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1545/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1545/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/conselheiroacacio.wordpress.com/1545/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/conselheiroacacio.wordpress.com/1545/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1545/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1545/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&amp;blog=2378334&amp;post=1545&amp;subd=conselheiroacacio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O Aumento (Dino Buzzati)</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Jun 2010 04:49:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conselheiro Acácio</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-medium wp-image-1530" title="reajuste090204105410" src="http://conselheiroacacio.files.wordpress.com/2010/06/reajuste090204105410.jpg?w=300&#038;h=212" alt="" width="300" height="212" /></p>
<p style="text-align:justify;">Quando ficou sabendo que seu jovem colega Bossi, a mais recente admissão da firma, ganhava mais de vinte mil liras por mês do que ele, Giovanni Battistela viu-se tomado de uma raiva espantosa. E teve uma coragem do que em condições normais lhe pareceria uma loucura: de fazer-se receber pelo diretor e dizer-lhe poucas e boas. E ei-lo que se apresenta no solene escritório em cujo fundo estava sentado o chefe.<br />
- Por favor, por favor. Pode se aproximar&#8230;<br />
- Queria me desculpar, senhor comendador, mas&#8230;<br />
- Desculpar por quê? Não me fale em se desculpar. Não faltava mais nada, meu caro Battistela. Eu é que devo lhe agradecer por ter vindo.<br />
- O senhor!?<br />
- Eu, sim. E estou contente, contentíssimo em revê-lo. Mas por favor, sente-se, sim, porque as pessoas que nos são caras, em quem temos mais confiança, são precisamente aquelas que mais negligenciamos. Esta é a cruel lei da vida, não é mesmo? Diga, diga, meu caro Battistela, há quanto tempo não trocamos duas palavras em santa paz? Semanas, não é mesmo? Semanas o quê! Meses, talvez. Muitos meses. Eu mesmo não me surpreenderia se, em vez de meses, fossem anos&#8230;<br />
- Faz exatamente dois anos e meio&#8230;<br />
- Dois anos e meio! Mas acredite, meu caro Battistela, que durante esses dois anos e meio, todas as noites &#8211; sabe disso? -, na hora em que fazemos nosso exame de consciência, eu pensava sempre no senhor. Todas as noites antes de dormir, dizia comigo mesmo: &#8220;E Battistela? E o excelente Battistela? Não estás te esquecendo dele?&#8221; Era o que eu mesmo me dizia: &#8220;Quando irás te decidir a lhe dar o cargo que ele merece?<br />
Um trabalhador como ele, uma coluna mestra da administração, um homem desses, hoje cada vez mais raros&#8230;&#8221; Assim falava eu, e todas as noites sentia remorsos, pode acreditar.<br />
- Pois então, senhor comendador&#8230;<br />
- Estou disposto a ajudá-lo, não era isso que ia me perguntar? Ah, não fale, não me diga nada. Acha que eu não tenho o condão de captar o seu pensamento? Palavra por palavra, poderei lhe repetir tudo quanto tinha a intenção de me dizer&#8230; Que existe quem, com muito menos títulos, está ganhando mais do que o senhor, que isso é uma injustiça, que o senhor perdeu a paciência etc. etc. Não é isso mesmo?<br />
- É, realmente.<br />
- E o senhor, meu caro Battistela, teve um ímpeto de exasperação, não é verdade? Quem não teria tido, não é mesmo? A injustiça consegue transformar criaturas mansas e humildes em verdadeiros tigres, não é mesmo?<br />
- Bem, em suma&#8230;<br />
- Está vendo? E o senhor pensava que eu não compreenderia, que eu não sabia, que eu não me interessava. Homem de pouquíssima fé!&#8230; Bem, este deve ser um belo dia para nós. Esta noite ambos estaremos satisfeitos um com o outro. Que me diz de 150?<br />
- Como?<br />
- Creio que agora o senhor ganha entre 95 e 98, se não me engano, não é isso?<br />
- 97.<br />
- Bem. Podemos dar um passo adiante. Um pequeno passo. Cento e cinqüenta. Não chega?<br />
- Bem, confesso que não esperava&#8230;<br />
- Está vendo? Não sou mais aquele dragão, aquele carniceiro, aquele devorador de cristãos, aquele lobo esfomeado &#8211; não é isso que dizem de mim?<br />
- Eu&#8230;eu lhe agradeço.<br />
- Não tem nada que me agradecer. Eu é que lhe agradeço pelo seu trabalho&#8230; Um cigarro?<br />
- Obrigado, não fumo&#8230;<br />
- Bravo, é mais uma virtude&#8230; Quanto a mim, fumo como um desesperado&#8230; Bem, bem, quer me parecer que ficou tudo resolvido&#8230;<br />
- Bem, quer dizer, não quero mais tirar o seu tempo&#8230;<br />
- Não sou eu que vou retê-lo, meu caro Battistela. E faço os melhores votos para que&#8230; &#8211; suspirou. &#8211; É pena!<br />
- &#8220;É pena&#8221;, por quê?<br />
- Nada, nada&#8230; Eu&#8230; para você&#8230; eu tinha outros projetos. Mas agora é inútil&#8230; O que está feito, está feito.<br />
- Outros projetos?<br />
- Sim, projetos, que eu fazia&#8230; Mas, agora&#8230;<br />
- Comendador, não quer fazer a gentileza de me dizer&#8230;?<br />
- Não, eu te conheço. Aquilo que se faz para o seu bem, o senhor leva a mal&#8230;<br />
- Isso não é verdade&#8230;<br />
- Seria como lhe dar uma prova de confiança, uma demonstração de amizade. Seria. Mas compreendo que poderia lhe dar uma impressão esquisita&#8230;<br />
- Esquisita como?<br />
- Além do mais é um assunto&#8230; é um assunto extremamente reservado&#8230;<br />
- Não confia em mim?</p>
<p style="text-align:justify;">O diretor levantou-se devagar, atravessou o escritório com ar circunspecto, fechou a porta com a chave, parou como se escutasse a passagem de alguém lá fora, avizinhou o indicador dos lábios num gesto de silêncio, voltou à escrivaninha e começou a falar em voz baixa:<br />
- Battistela&#8230; me escuta&#8230; Eu estou ficando velho&#8230;<br />
- Não é verdade.<br />
- Velho, sim. O coração às vezes anda falhando. De um dia para o outro&#8230;<br />
- Não diga isso nem brincando&#8230;<br />
- E onde? Aqui mesmo, nesta escrivaninha? No meu posto, quem sabe? Mas escuta, Battistela&#8230;<br />
- Estou ouvindo.<br />
- Recomendo que guarde isso só para você. Porque em você eu confio&#8230; De algum tempo para cá fala-se em grandes mudanças&#8230;<br />
- Mudanças?<br />
- Com certeza já deve ter ouvido falar, pelo menos por alto: mudança de proprietários, segundo se diz, passando a firma para as mãos de outro grupo financeiro. E sabe o que isso significa?<br />
- Que os chefes atuais vão-se embora e outros virão.<br />
- E isso não lhe diz mais nada? Não compreende o que pode acontecer em tais circunstâncias?<br />
- Não faço a menor idéia&#8230;<br />
- Podem vir medidas de contenção de despesas. Porque se esta mudança ocorrer, o motivo é um só: é que as coisas não vão bem, que a crise está sendo sentida também por nós. Razão, portanto, para que a preocupação dos novos donos seja, sem dúvida, a de poupar ao máximo. E de que maneira? É simplicíssimo. Sabe o que se faz, nestes casos?<br />
- Não. O quê?<br />
- Redimensionamento. Bela palavra, não é? Redimensionamento. Sabe o que ela significa? Significa desembaraçar-se do peso excessivo, eis a solução genial. Elimina-se a escória. Aperta-se o cinto. Passa-se uma vista d&#8217;olhos na folha de pagamento. E quem tem alta remuneração, zapt! Estes são os primeiros a se fritarem. Como em todos os casos, são só os peixes miúdos que se salvam.<br />
- E então?<br />
- E então, quer que eu fique contente com a idéia de ver liquidado um elemento como o senhor? O meu dever, neste caso, uma vez que tenho um peso na consciência, é o de alertá-lo, meu caro Battistela. Não só o de alertá-lo, como o de ajudá-lo a evitar essa possível ameaça.<br />
- Evitar?<br />
- Claro. Quero subtraí-lo à dizimação, mimetizá-lo, colocá-lo numa posição segura. Mas é inútil. Os senhores, os jovens, não se dão conta de que&#8230;<br />
- Ao contrário. Pode dizer, comendador, pode dizer&#8230;<br />
- Quer que eu lhe fale com o coração nas mãos? Como se o senhor fosse o meu próprio filho? Bem, se eu fosse o senhor, frente a uma conjectura desta ordem, sabe que coisa&#8230;<br />
- Que coisa o senhor faria?<br />
- É fácil compreender. A moral da história é a seguinte: melhorando a sua situação financeira, no fundo eu lhe prestei um péssimo serviço. Foi a mesma coisa que se eu o atirasse na rua para falar tipo pão-pão, queijo-queijo&#8230;<br />
- De maneira que eu&#8230;<br />
- Caro Battistela, não quero que amanhã venha a ter motivos para me recriminar. Se amanhã o senhor vier a me perguntar: mas, comendador, por que não me avisou antes? Por que não me abriu os olhos? Meu querido, as coisas estão chegando a um ponto tal que, mude-se ou não de patrões, um dia eu me verei constrangido a adotar medidas severas. E por que haverá de ser com o seu sacrifício?<br />
- Mas, eu&#8230; Bem, não estou compreendendo&#8230; Está me falando de aumento? Acha que é melhor eu esperar?<br />
- Não, nada de esperar! Se prevenir, sim. O que fazem os soldados, quando os inimigos abrem fogo? Abaixam a cabeça, agacham-se no chão para não serem atingidos. Agache-se também, Battistela.<br />
- Agachar-me?<br />
- Em sentido figurado, bem entendido. No momento, convém uma manobra, uma dissimulação, um subterfúgio estratégico. No momento, convém exagerar no seu zelo. Compreendeu, Battistela?<br />
- Realmente&#8230;<br />
- E depois, que importância teria para o senhor, que é solteiro, uma pequena redução no salário? Se em vez de 97 fossem apenas 80, isso não causaria a morte de ninguém. Digo-lhe isso porque agora até os ordenados de 90 estão dando na vista! Mas em compensação&#8230; considere a segurança, a tranqüilidade, a certeza de não ir de encontro com nenhum desprazer.<br />
- Redução de salário?<br />
- Está vendo como eu não estava enganado? Como era melhor me manter calado? O senhor já está dando às minhas palavras uma interpretação negativa!<br />
- O senhor disse oitenta mil?<br />
- Setenta talvez fosse melhor, mas creio que oitenta será o suficiente&#8230;<br />
- Mas comendador&#8230;<br />
- Eu sabia. O senhor é um rapaz inteligente, pega as coisas no ar, toma decisões com rapidez&#8230; Pense agora se eu, em vez de lhe falar sobre isso, me calasse&#8230; O senhor teria lá o seu aumento. De cinqüenta mil por mês. Mas, e depois? Ia se meter em poucas e boas! Seria carregado pela primeira onda. Menos mal, menos mal que existe alguém que lhe quer bem&#8230;<br />
- Quer dizer que acha mesmo que o aumento&#8230;?<br />
- Não resta a menor dúvida, meu filho: seria o mesmo que estar com uma corda no pescoço.<br />
- Bem, comendador, eu lhe agradeço. O senhor me poupou de um grande aborrecimento.<br />
- Não precisa agradecer&#8230; Vá, volte contente, volte tranqüilo para o seu trabalho. E, meu caro Battistela, saiba que o meu desgosto é apenas um: o de não poder fazer pelo senhor &#8211; eu lhe juro &#8211; um pouco mais do que fiz.</p>
<br />Filed under: <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/category/escritores-italianos/dino-buzzati/'>Dino Buzzati</a>, <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/category/escritores-italianos/'>Escritores Italianos</a> Tagged: <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/tag/conto/'>Conto</a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/conselheiroacacio.wordpress.com/1528/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/conselheiroacacio.wordpress.com/1528/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1528/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1528/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1528/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1528/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1528/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1528/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1528/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1528/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/conselheiroacacio.wordpress.com/1528/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/conselheiroacacio.wordpress.com/1528/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1528/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1528/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&amp;blog=2378334&amp;post=1528&amp;subd=conselheiroacacio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Como a criatividade está sendo estrangulada pela lei (Larry Lessig)</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Apr 2010 16:01:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conselheiro Acácio</dc:creator>
				<category><![CDATA[TED.com]]></category>
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		<description><![CDATA[Uma das melhores palestras que vi até hoje no TED. Vale a pena assistir. Filed under: TED.com, Vídeos Tagged: Video<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&amp;blog=2378334&amp;post=1519&amp;subd=conselheiroacacio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma das melhores palestras que vi até hoje no <a href="http://www.ted.com" target="_blank">TED</a>. Vale a pena assistir.</p>
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<br />Filed under: <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/category/videos/ted-com/'>TED.com</a>, <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/category/videos/'>Vídeos</a> Tagged: <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/tag/video/'>Video</a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/conselheiroacacio.wordpress.com/1519/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/conselheiroacacio.wordpress.com/1519/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1519/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1519/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1519/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1519/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1519/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1519/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1519/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1519/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/conselheiroacacio.wordpress.com/1519/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/conselheiroacacio.wordpress.com/1519/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1519/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1519/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&amp;blog=2378334&amp;post=1519&amp;subd=conselheiroacacio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Os idiotas confessos (Nelson Rodrigues)</title>
		<link>http://conselheiroacacio.wordpress.com/2010/04/12/os-idiotas-confessos-nelson-rodrigues/</link>
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		<pubDate>Mon, 12 Apr 2010 15:19:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conselheiro Acácio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Escritores Brasileiros]]></category>
		<category><![CDATA[Nelson Rodrigues]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>

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		<description><![CDATA[Antigamente, o idiota era o idiota. Nenhum ser tão sem mistério e repito: — tão cristalino. O sujeito o identificava, a olho nu, no meio de milhões. E mais: — o primeiro a identificar-se como tal era o próprio idiota. Não sei se me entendem. No passado, o marido era o último a saber. Sabiam [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&amp;blog=2378334&amp;post=1510&amp;subd=conselheiroacacio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><img class="aligncenter size-medium wp-image-1513" title="homer-brain2" src="http://conselheiroacacio.files.wordpress.com/2010/04/homer-brain2.jpg?w=300&#038;h=225" alt="" width="300" height="225" /></p>
<p style="text-align:justify;">Antigamente, o idiota era o idiota. Nenhum ser tão sem mistério e repito: — tão cristalino. O sujeito o identificava, a olho nu, no meio de milhões. E mais: — o primeiro a identificar-se como tal era o próprio idiota. Não sei se me entendem. No passado, o marido era o último a saber. Sabiam os vizinhos, os credores, os familiares, os conhecidos e os desconhecidos. Só ele, marido, era obtusamente cego para o óbvio ululante.</p>
<p style="text-align:justify;">Sim, o traído ia para as esquinas, botecos e retretas gabar a infiel: — &#8220;Uma santa! Uma santa!&#8221;. Mas o tempo passou. Hoje, dá-se o inverso. O primeiro a saber é o marido. Pode fingir-se de cego. Mas sabe, eis a verdade, sabe. Lembro-me de um que sabia endereço, hora, dia etc. etc. solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.</p>
<p style="text-align:justify;">Pois o idiota era o primeiro a saber-se idiota. Não tinha nenhuma ilusão. E uma das cenas mais fortes que vi, em toda a minha infância, foi a de uma autoflagelação. Um vizinho berrava, atirando rútilas patadas: — &#8220;Eu sou um quadrúpede!&#8221;. Nenhuma objeção. E, então, insistia, heróico: — &#8220;Sou um quadrúpede de 28 patas!&#8221;. Não precisara beber para essa extroversão triunfal. Era um límpido, translúcido idiota.</p>
<p style="text-align:justify;">E o imbecil como tal se comportava. Nascia numa família também de imbecis. Nem os avós, nem os pais, nem os tios, eram piores ou melhores. E, como todos eram idiotas, ninguém pensava. Tinha-se como certo que só uma pequena e seletíssima elite podia pensar. A vida política estava reservada aos &#8220;melho-res&#8221;. Só os &#8220;melhores&#8221;, repito, só os &#8220;melhores&#8221; ousavam o gesto político, o ato político, o pensamento político, a decisão política, o crime político. Por saber-se idiota, o sujeito babava na gravata de humildade. Na rua, deslizava, rente à parede, envergonhado da própria inépcia e da própria burrice. Não passava do quarto ano primário. E quando cruzava com um dos &#8220;melhores&#8221;, só faltava lamber-lhe as botas como uma cadelinha amestrada. Nunca, nunca o idiota ousaria ler, aprender, estudar, além de limites ferozes. No romance, ia até ao Maria, a desgraçada.</p>
<p style="text-align:justify;">Vejam bem: — o imbecil não se envergonhava de o ser. Havia plena acomodação entre ele e sua insignificância. E admitia que só os &#8220;melhores&#8221; podem pensar, agir, decidir. Pois bem. O mundo foi assim, até outro dia. Há coisa de três ou quatro anos, uma telefonista aposentada me dizia: — &#8220;Eu não tenho o intelectual muito desenvolvido&#8221;. Não era queixa, era uma constatação. Santa senhora! Foi talvez a última idiota confessa do nosso tempo.</p>
<p style="text-align:justify;">De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foram em maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais descobriram: — a vergonhosa inferioridade numérica dos &#8220;melhores&#8221;. Para um &#8220;gênio&#8221;, 800 mil, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de cretinos. E, certo dia, um idiota resolveu testar o poder numérico: — trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisou uma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.</p>
<p style="text-align:justify;">Se o orador fosse Cristo, ou Buda, ou Maomé, não teria a audiência de um vira-lata, de um gato vadio. Teríamos de ser cada um de nós um pequeno Cristo, um pequeno Buda, um pequeno Maomé. Outrora, os imbecis faziam platéia para os &#8220;superiores&#8221;. Hoje, não. Hoje, só há platéia para o idiota. É preciso ser idiota indubitável para se ter emprego, salários, atuação, influência, amantes, carros, jóias etc. etc.</p>
<p style="text-align:justify;">Quanto aos &#8220;melhores&#8221;, ou mudam, e imitam os cretinos, ou não sobrevivem. O inglês Wells, que tinha, em todos os seus escritos, uma pose profética, só não previu a &#8220;invasão dos idiotas&#8221;. E, de fato, eles explodem por toda parte: são professores, sociólogos, poetas, magistrados, cineastas, industriais. O dinheiro, a fé, a ciência, as artes, a tecnologia, a moral, tudo, tudo está nas mãos dos patetas.</p>
<p style="text-align:justify;">E, então, os valores da vida começaram a apodrecer. Sim, estão apodrecendo nas nossas barbas espantadíssimas. As hierarquias vão ruindo como cúpulas de pauzinhos de fósforos. E nem precisamos ampliar muito a nossa visão. Vamos fixar apenas o problema religioso. A Igreja tem uma hierarquia de 2 mil anos. Tal hierarquia precisa ser preservada ou a própria Igreja não dura mais quinze minutos. No dia em que um coroinha começar a questionar o papa, ou Jesus, ou Em que pese a Virgem Maria, será exatamente o fim.</p>
<p style="text-align:justify;">É o que está acontecendo. Nem se pense que a &#8220;invasão dos idiotas&#8221; só ocorreu no Brasil. Se fosse uma crise apenas brasileira, cada um de nós podia resmungar: — &#8220;Subdesenvolvimento&#8221; — e estaria encerrada a questão. Mas é uma realidade mundial. Em que pese a dessemelhança de idioma e paisagem, nada mais parecido com um idiota do que outro idiota. Todos são gêmeos, estejam uns aqui, outros em Cingapura.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas eu falava de que mesmo? Ah, da Igreja. Um dia, ao voltar de Roma, o dr. Alceu falou aos jornalistas. E atira, pela janela, 2 mil anos de fé. É pensador, um alto espírito e, pior, uma grande voz católica. Segundo ele, durante os vinte séculos, a Igreja não foi senão uma lacaia das classes dominantes, uma lacaia dos privilégios mais hediondos. Portanto, a Igreja é o próprio Cinismo, a própria Iniqüidade, a própria Abjeção, a própria Bandalheira (e vai tudo com a inicial maiúscula).</p>
<p style="text-align:justify;">Mas quem diz isso? É o Diabo, em versão do teatro de revista? Não. É uma inteligência, uma cultura, um homem de bem e de fé. De mais a mais, o dr. Alceu tinha acabado de beijar a mão de Sua Santidade. Vinha de Roma, a eterna. E reduz a Igreja a uma vil e gigantesca impostura. Mas se ele o diz, e tem razão, vamos, já, já, fechar a Igreja e confiscar-lhe as pratas.</p>
<p style="text-align:justify;">Cabe então a pergunta: — &#8220;O dr. Alceu pensa assim?&#8221;. Não. Em outra época, foi um dos &#8220;melhores&#8221;. Mas agora é preciso adular os idiotas, conquistar-lhes o apoio numérico. Hoje, até o gênio se finge imbecil. Nada de ser gênio, santo, herói ou simplesmente homem de bem. Os idiotas não os toleram. E as freiras põem short, maiô e posam para Manchete como se fossem do teatro rebolado. Por outro lado, d. Hélder quer missa com reco-reco, tamborim, pandeiro e cuíca. É a missa cômica e Jesus fazendo passista de Carlos Machado. Tem mais: — o papa visitará a América Latina. Segundo os jornais, teme-se que o papa seja agredido, assassinado, ultrajado etc. etc. A imprensa dá a notícia com a maior naturalidade, sem acrescentar ao fato um ponto de exclamação. São os idiotas, os idiotas, os idiotas.</p>
<p style="text-align:justify;">[19/8/1968]</p>
<p style="text-align:justify;">
<br />Filed under: <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/category/escritores-brasileiros/'>Escritores Brasileiros</a>, <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/category/escritores-brasileiros/nelson-rodrigues/'>Nelson Rodrigues</a> Tagged: <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/tag/cronica/'>Crônica</a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/conselheiroacacio.wordpress.com/1510/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/conselheiroacacio.wordpress.com/1510/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1510/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1510/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1510/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1510/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1510/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1510/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1510/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1510/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/conselheiroacacio.wordpress.com/1510/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/conselheiroacacio.wordpress.com/1510/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1510/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1510/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&amp;blog=2378334&amp;post=1510&amp;subd=conselheiroacacio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O Estranho caso de Benjamin Button (F. Scott Fitzgerald)</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Apr 2010 04:24:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conselheiro Acácio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Escritores Americanos]]></category>
		<category><![CDATA[F. Scott Fitzgerald]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[I No longínquo ano de 1860 a maneira correta de nascer era em casa. Presentemente, segundo me dizem, os sumo-sacerdotes da medicina decretaram que os primeiros vagidos dos recém-nascidos devem ser soltos no ar antiestético de um hospital, de preferência de um hospital em voga. Por isso, Mr. e Mrs. Roger Button estavam cinqüenta anos [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&amp;blog=2378334&amp;post=1505&amp;subd=conselheiroacacio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><a href="http://conselheiroacacio.files.wordpress.com/2010/04/benjamin-button.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-1506" title="benjamin-button" src="http://conselheiroacacio.files.wordpress.com/2010/04/benjamin-button.jpg?w=300&#038;h=222" alt="" width="300" height="222" /></a><br />
I<br />
No longínquo ano de 1860 a maneira correta de nascer era em casa. Presentemente, segundo me dizem, os sumo-sacerdotes da medicina decretaram que os primeiros vagidos dos recém-nascidos devem ser soltos no ar antiestético de um hospital, de preferência de um hospital em voga. Por isso, Mr. e Mrs. Roger Button estavam cinqüenta anos à frente do estilo da época quando, num dia do Verão de 1860, decidiram que o seu primeiro bebê nasceria num hospital. Jamais se saberá se este anacronismo teve alguma influência na espantosa história que estou prestes a contar. Contarei o que aconteceu e deixarei que julguem por si mesmos. Os Roger Button ocupavam uma posição invejável, tanto social como financeiramente, na Baltimore de antes da guerra. Eram aparentados com Esta Família e com Aquela Família, o que, como todos os habitantes do Sul sabiam, lhes conferia o direito de pertencerem àquele enorme pariato que povoava largamente a Confederação. Esta era a sua primeira experiência relacionada com o fascinante velho costume de ter bebês. Mr. Button sentia-se, naturalmente, nervoso. Esperava que fosse um menino para poder enviá-lo para o Yale College, no Connecticut, em cuja instituição ele próprio fora conhecido durante quatro anos pela alcunha um tanto quanto óbvia de «Bainha».</p>
<p style="text-align:justify;">Na manhã de Setembro consagrada ao enorme evento levantou-se nervosamente às seis horas da manhã, vestiu-se, ajustou um impecável plastrão e correu apressadamente pelas ruas de Baltimore a caminho do hospital, a fim de averiguar se a escuridão da noite trouxera nova vida no seu seio. Quando se encontrava a cerca de cem metros do Hospital Particular de Maryland para Damas e Cavalheiros viu o Dr. Keene, o médico da família, descendo os degraus da frente, esfregando as mãos uma na outra como se estivesse a lavá-las — tal como é exigido a todos os médicos pela ética consuetudinária da sua profissão. Mr. Roger Button,presidente da Roger Button &amp; Co., Grossista de Ferragens, começou a correr na direção do Dr. Keene com muito menos dignidade do que a esperada de um cavalheiro sulista daquele pitoresco período. — Dr. Keene! — chamou. — Ó Dr. Keene! O médico ouviu-o, deu meia volta e parou à espera, com uma expressão curiosa a fixar-se no rosto severo e clínico à medida que Mr. Button se aproximava. — O que aconteceu? — perguntou Mr. Button, ao chegar, numa agitação ofegante. — O que foi? Como está ela? Um menino? Quem é? O que&#8230; — Fale com lógica! — ordenou o Dr. Keene, asperamente. Parecia um bocado agastado. — A criança nasceu? — perguntou, suplicante, Mr. Button. O Dr. Keene franziu a testa.</p>
<p style="text-align:justify;">— Bem, sim, suponho&#8230; é como quem diz&#8230; — E lançou outro olhar curioso a Mr. Button. — A minha mulher está bem? — Está. — É menino ou menina? — Essa agora! — explodiu o Dr. Keene, extremamente irritado. — Peço-lhe que vá e veja com os seus olhos. Escandaloso! — Soltou a última palavra como se tivesse apenas uma sílaba. Depois virou-se, a resmungar: — Imagina que um caso como este beneficia a minha reputação profissional? Outro igual me arruinaria&#8230; arruinaria qualquer um. — Mas, afinal, o que se passa? — perguntou Mr. Button, em pânico. — Trigêmeos? — Não, não se trata de trigêmeos! — respondeu o médico, cortante. — Sabe que mais? Vá e veja com os seus olhos. E arranje outro médico. Trouxe-o a este mundo, meu rapaz, e há quarenta anos que sou médico da sua família, mas agora acabou-se! Estou farto. Não quero voltar a vê-lo, nunca mais, nem ao Sr., nem a qualquer dos seus familiares! Passe bem! Virou as costas, bruscamente. E, sem dizer mais uma palavra, entrou na carruagem que o esperava na beira do passeio e partiu com ar severo. Mr. Button ficou parado no passeio, estupefato e a tremer da cabeça aos pés. Que horrível tragédia acontecera? Perdera de súbito toda a vontade de ir ao Hospital Particular de Maryland para Damas e Cavalheiros, e foi com extrema dificuldade que, um momento depois, impôs a si mesmo subir a escada e transpor a porta principal.</p>
<p style="text-align:justify;">Uma enfermeira estava sentada à secretária, na obscuridade opaca do átrio. Engolindo a vergonha que o atormentava, Mr. Button dirigiu-se a ela. — Bom dia — ela o saudou, a olhá-lo agradavelmente. — Bom dia. Eu sou&#8230; eu sou Mr. Button. Perante tais palavras, uma expressão de absoluto terror alastrou-se pelo rosto da jovem. Levantou-se como se fosse fugir do átrio, contendo-se apenas com aparente e grande dificuldade. — Quero ver o meu filho — disse Mr. Button. A enfermeira soltou um gritinho. — Oh&#8230; com certeza! — exclamou, esganiçadamente. — É lá em cima. Lá bem em cima. Suba! Apontou-lhe a direção e Mr. Button, alagado por uma transpiração fria, virou-se, cambaleante, e começou a subir para o segundo andar. No átrio superior dirigiu-se a outra enfermeira que se aproximou dele com uma bacia na mão. — Sou Mr. Button — articulou ele, a custo. — Desejo ver a minha&#8230; Catrapus! A bacia caiu ruidosamente e rolou na direção da escada. Catrapus! Catrapus! Iniciou uma descida metódica, como se partilhasse o terror geral que aquele cavalheiro provocava. — Quero ver o meu filho! — insistiu Mr. Button, à beira do colapso. Catrapus! A bacia chegara ao andar de baixo. A enfermeira dominou-se e lançou a Mr. Button um olhar de profundo desprezo.</p>
<p style="text-align:justify;">— Pois não, Mr. Button — concordou, em voz abafada. — Pois não! Mas se soubesse em que estado pôs a todos nós, esta manhã! Absolutamente escandaloso! O hospital jamais terá uma sombra de reputação depois&#8230; — Apresse-se! — gritou ele, roucamente. — Não posso suportar isto! — Nesse caso, venha por aqui, Mr. Button. Ele arrastou-se atrás dela. Ao fundo de um comprido corredor chegaram a um quarto de onde saía uma variedade de gritos — um quarto que, na verdade, viria a ser conhecido como o «quarto da gritaria». Entraram. Ao longo das paredes encontrava-se meia dúzia de berços de balanço, de esmalte branco, cada um com uma etiqueta atada à cabeceira. — Bem — perguntou Mr. Button, ofegante —, qual é o meu? — Está ali — respondeu a enfermeira. Os olhos de Mr. Button seguiram o dedo estendido, e eis o que viu: embrulhado num volumoso cobertor branco, e parcialmente entalado num dos berços, estava um velho que aparentava cerca de setenta anos de idade. Tinha o cabelo ralo quase branco e pingava-lhe do queixo uma comprida barba cor de fumo que se agitava absurdamente, para trás e para diante, ao sabor da brisa que entrava pela janela. Olhou para cima, para Mr. Button, com uns olhos turvos e sem vida dos quais espreitava uma pergunta intrigada.</p>
<p style="text-align:justify;">— Estarei doido? — berrou Mr. Button, cujo terror se transformara em fúria. — Isto é alguma horrível brincadeira de hospital? — A nós não parece brincadeira nenhuma — respondeu, em tom grave, a enfermeira. — E não sei se o senhor é louco ou não&#8230; mas este é, sem sombra de dúvida, o seu filho. O suor frio duplicou na testa de Mr. Button. Fechou os olhos e depois abriu-os e voltou a olhar. Não havia engano algum: estava olhando para um homem de setenta anos&#8230; um bebê de setenta anos cujos pés pendiam dos lados do berço em que repousava. O velho olhou placidamente de um para o outro, durante um momento, e, de súbito, perguntou numa voz esganiçada e senil: — É o meu pai? Mr. Button e a enfermeira estremeceram violentamente. — Porque, se é — continuou o velho, ranzinza —, quero que me tire deste lugar&#8230; ou, pelo menos, que lhes diga para pôr uma cadeira de balanço confortável aqui. — De onde demônio você veio? Quem é? — explodiu Mr. Button, exasperado. — Não sei lhe dizer exatamente quem sou — respondeu a voz esganiçada e rabugenta — porque nasci há poucas horas apenas&#8230; mas o meu sobrenome é, sem dúvida, Button. — Está mentindo! É um impostor! O velho voltou-se, fatigado, para a enfermeira.</p>
<p style="text-align:justify;">— Bonita maneira de dar as boas-vindas a um recém-nascido — queixou-se, em voz fraca. — Por que não lhe diz que está enganado? — Está enganado, Mr. Button — afirmou a enfermeira, com firmeza. — Este é o seu filho e terá de se resignar com isso. Vamos pedir-lhe que o leve consigo para casa o mais brevemente possível&#8230; ainda hoje. — Para casa? — repetiu Mr. Button, incrédulo. — Sim, nós não podemos ficar com ele aqui. Não podemos mesmo, compreende? — O que muito me agrada — guinchou o velho. — É um belo lugar para um jovem de gostos tranqüilos. Com toda esta gritaria e todos estes berros não tenho conseguido pregar os olhos. Pedi qualquer coisa para comer — a sua voz adquiriu um tom esganiçado de protesto — e trouxeram-me uma mamadeira de leite! Mr. Button deixou-se cair numa cadeira ao lado do filho e ocultou o rosto com as mãos. — Valha-me Deus! — murmurou, horrorizado. — O que dirão as pessoas? O que devo fazer? — Tem de levá-lo para casa — insistiu a enfermeira. — Imediatamente! Uma imagem grotesca surgiu, com terrível clareza, diante dos olhos do homem torturado, uma imagem de si mesmo a caminhar pelas ruas cheias de gente da cidade com aquela pavorosa aparição a andar silenciosamente ao seu lado. «Não posso. Não posso», gemeu.</p>
<p style="text-align:justify;">O que diria às pessoas que parassem para lhe falar? Teria de apresentar este&#8230; aquele septuagenário: «Este é o meu filho, nasceu esta manhã, cedo.» Depois o velho apertaria o cobertor em volta do corpo e seguiriam o seu caminho, passando pelas lojas movimentadas, pelo mercado de escravos — durante um sombrio momento, Mr. Button desejou veementemente que o filho fosse preto —, passando pelas casas luxuosas do bairro residencial, passando pelo lar dos velhos&#8230; — Então! Controle-se! — ordenou a enfermeira. — Ouça — avisou, de súbito, o velho —, se pensa que vou a pé para casa embrulhado neste cobertor, está redondamente enganada. — Os bebês sempre usam cobertores. Com uma risadinha maliciosa, o velho levantou um pequeno cueiro branco. — Olhem! — exclamou a voz de cana rachada. — Isto é o que tinham para mim. — Os bebês sempre usam isso — sentenciou a enfermeira, presumidamente. — Pois bem — respondeu o velho —, este bebê não vai usar nada dentro de cerca de dois minutos. O cobertor dá comichão. Podiam ter me dado, ao menos, um lençol. — Não o tire! Não o tire! — apressou-se Mr. Button a dizer. Depois voltou-se para a enfermeira e perguntou: — O que é que eu faço?</p>
<p style="text-align:justify;">— Vá à baixada e compre algumas roupas para o seu filho. A voz do rebento de Mr. Button seguiu-o pelo corredor afora: — E uma bengala, pai. Preciso de uma bengala. Mr. Button bateu brutalmente com a porta de saída&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">II</p>
<p style="text-align:justify;">— Bons dias — disse Mr. Button, nervosamente, ao empregado da Chesapeake Dry Goods Company. — Preciso comprar roupas para o meu filho. — Que idade tem o seu filho? — Cerca de seis horas — respondeu Mr. Button, sem a necessária reflexão. — A seção de artigos para bebês fica nos fundos. — Bem, não creio&#8230; não tenho certeza de que é isso que quero. É que&#8230; trata-se de um bebê invulgarmente grande. Excepcionalmente&#8230; hum&#8230; grande. — Eles têm os tamanhos maiores para bebês. — Onde fica a seção para meninos? — perguntou Mr. Button, mudando desesperadamente de rumo. Tinha a sensação de que o empregado farejaria, com certeza, o seu vergonhoso segredo. — Aqui mesmo. — Bem&#8230; — hesitou. Repugnava-lhe a idéia de vestir no filho roupas de homem. Se ao menos conseguisse encontrar um traje infantil muito grande poderia cortar-lhe aquela comprida e horrorosa barba, pintar-lhe o cabelo branco de castanho e ocultar, assim, o pior e manter algum do seu amorpróprio — para não falar no seu lugar na sociedade de Baltimore. Mas uma inspeção desesperada na seção para meninos revelou não existirem trajes que servissem ao recém-nascido Button.</p>
<p style="text-align:justify;">Pôs a culpa na loja, evidentemente — em casos assim, culpa-se a loja. — Que idade disse que o seu rapaz tem? — perguntou curiosamente o empregado. — Tem&#8230; dezesseis. — Oh, queira perdoar. Pensei que tinha dito seis horas. Encontrará a seção para jovens na coxia seguinte. Mr. Button virou-se desanimadamente. Depois parou, recuperou o ânimo e estendeu o dedo para um manequim vestido que se encontrava na vitrine. — Ali está! — exclamou. — Levo aquele traje, o que o manequim está vestindo. O empregado olhou fixamente. — Mas — protestou — aquele não é um traje para criança. Quero dizer, poderá ser, mas para usar como traje de fantasia. O senhor mesmo poderia usá-lo! — Embrulhe-o — insistiu nervosamente o freguês. — É aquele que eu quero. O estupefato empregado obedeceu. De novo no hospital, Mr. Button entrou no berçário e quase atirou o embrulho ao filho. — Aqui estão as suas roupas — rosnou. O velho tirou o barbante do embrulho e observou o conteúdo com um olhar intrigado. — Parecem um pouco esquisitas para mim — queixou-se. — Não quero fazer papel de macaco&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">— Já fez de mim um macaco! — explodiu Mr. Button, furiosamente. — Não se preocupe com o quanto parece esquisito. Vista-as&#8230; ou eu&#8230; ou eu te desanco. — Engoliu com dificuldade depois de dizer a última palavra, mas sentiu, apesar disso, que dissera as palavras adequadas. — Está bem, pai. — Este assentimento era uma simulação grotesca de respeito filial. — Já viveu mais tempo do que eu e, por isso, sabe mais do que eu. Farei como quer. Como acontecera antes, o som da palavra «pai» fez Mr. Button estremecer violentamente. — E apresse-se. — Estou me apressando, pai. Quando o filho acabou de se vestir, Mr. Button olhou para ele, deprimido. O vestuário constava de meias de bolinhas, calças cor-de-rosa e uma camisa com cinto e uma larga gola branca. Sobre esta agitava-se uma comprida barba esbranquiçada que descia quase até à cintura. O efeito não era nada bom. — Espere! Mr. Button empunhou uma tesoura hospitalar e, com três tesouradas rápidas, amputou uma grande extensão da barba. Mas, apesar dessa melhoria, o conjunto ficou aquém da perfeição. O restolho esparso do cabelo que restara, os olhos lacrimosos e os dentes velhos e amarelos pareciam destoar peculiarmente do aspecto vistoso do traje. No entanto, Mr. Button manteve-se inexorável e estendeu a mão:</p>
<p style="text-align:justify;">— Anda, vamos! — disse, firmemente. O filho deu-lhe, confiante, a mão. — Como vai me chamar, pai? — perguntou em voz trêmula, enquanto saíam do berçário. — Apenas por «bebê», durante algum tempo? Até se lembrar de um nome melhor? Mr. Button soltou um grunhido. — Não sei — respondeu, irritado. — Acho que vamos te chamar de Matusalém.</p>
<p style="text-align:justify;">III</p>
<p style="text-align:justify;">Mesmo depois de lhe terem cortado o cabelo muito curto e, em seguida, o terem pintado de um preto disperso e pouco natural, de lhe terem barbeado o rosto tão rente que até cintilava e de lhe terem vestido roupas de rapazinho, feitas sob medida por um alfaiate espantado, foi impossível a Mr. Button ignorar o fato de o filho ser uma fraca desculpa como primeiro bebê da família. Apesar da corcova da idade, Benjamin Button — pois era assim que o tratavam em vez de, pelo apropriado, mas detestável, nome de Matusalém — tinha um metro e setenta de altura. O vestuário não ocultava isso, do mesmo modo que o aparar e o tingir das sobrancelhas não disfarçavam o fato de, por baixo delas, os seus olhos estarem baços, lacrimosos e cansados. Por isso, a ama que fora contratada de antemão foi-se embora após um único olhar e num estado de grande indignação. Mas Mr. Button persistiu no seu inabalável propósito. Benjamin era um bebê e continuaria a ser um bebê. A princípio, declarou que, se não gostava de leite morno, continuaria sem comer nada, mas por fim deixou-se convencer e, optando pelo meio termo, permitiu que o filho comesse pão com manteiga e, até, papas de aveia. Um dia levou para casa uma roca e, ao dá-la a Benjamin, impôs-lhe, clara e firmemente, que «brincasse com ela». O velho aceitou-a com ar enfastiado e ouviam-no sacudi-la obediente e intervaladamente ao longo do dia.</p>
<p style="text-align:justify;">Não restavam, porém, dúvidas de que a roca o aborrecia e, quando estava sozinho, encontrava outros divertimentos mais apaziguadores. Por exemplo, um dia Mr. Button descobriu que, ao longo da semana anterior, fumara mais charutos do que nunca — fenômeno que foi explicado poucos dias depois quando, ao entrar inesperadamente no quarto do bebê, o encontrou envolto numa tênue névoa azulada e Benjamin tentando, com ar culpado, esconder a bituca de um havano escuro. É claro que isso justificava uma forte surra, mas Mr. Button descobriu que não era capaz de dá-la. Limitou-se a adverti-lo de que «aquilo tolheria o seu desenvolvimento». Apesar disso, persistiu na sua atitude. Levava para casa soldadinhos de chumbo, comboios de brincar, grandes e simpáticos animais feitos de algodão e, para fortalecer a ilusão que estava criando — pelo menos para si mesmo —, perguntou veementemente ao empregado da loja de brinquedos se «havia o risco de a tinta se soltar do pato cor-derosa se o bebê o metesse na boca». Mas, não obstante todos os seus esforços paternais, Benjamin recusava interessar-se pelos brinquedos. Descia sorrateiramente a escada dos fundos e voltava para o quarto de bebê com um volume da Enciclopédia Britânica sobre o qual se debruçava uma tarde inteira, enquanto as suas vacas de pano e a sua Arca de Noé ficavam esquecidas no chão. De pouco valiam</p>
<p style="text-align:justify;">os esforços de Mr. Button contra semelhante teimosia. A princípio, a sensação que o caso provocou em Baltimore foi prodigiosa. Não é possível determinar o que semelhante revés teria custado, socialmente, aos Button e aos seus familiares porque o deflagrar da Guerra Civil desviou a atenção da cidade para outras coisas. Algumas pessoas inabalavelmente corteses espremiam os miolos em busca de elogios para fazer aos pais — e, por fim, descobriram o engenhoso expediente de declarar que o bebê se parecia com o avô, fato que, em virtude do estado de decadência padrão de todos os homens de setenta anos, não podia ser negado. Mr. e Mrs. Roger Button não gostavam e o avô de Benjamin sentia-se furiosamente insultado. Quando saiu do hospital, Benjamin aceitou a vida tal como a encontrou. Alguns rapazinhos foram visitá-lo e ele passou uma tarde atormentado, com as articulações emperradas, tentando se interessar por piões e bolinhas de gude — conseguiu até, inteiramente por acaso, quebrar o vidro da janela de uma cozinha com uma pedra disparada por um estilingue, proeza que deliciou, secretamente, o seu pai. Daí em diante, Benjamin foi capaz de quebrar qualquer coisa todos os dias, mas fazia-o apenas por ser isso que esperavam dele e por ser prestativo por natureza. Quando o antagonismo inicial do avô desapareceu, Benjamin e esse cavalheiro passaram a encontrar enorme prazer na companhia mútua.</p>
<p style="text-align:justify;">Esses dois, tão distantes um do outro em idade e experiência, sentavam-se juntos horas a fio e, como velhos cupinchas, discutiam com incansável monotonia as lentas ocorrências quotidianas. Benjamin sentia-se mais à vontade na presença do avô do que na dos pais — estes pareciam sempre um tanto quanto temerosos dele e, apesar da autoridade ditatorial que exerciam sobre o filho, tratavam-no com freqüência por «Senhor». Ele sentia-se tão intrigado como qualquer outra pessoa com a idade aparentemente avançada do seu corpo e do seu cérebro ao nascer. Leu a esse respeito no jornal médico, mas descobriu que nunca antes fora noticiado caso algum como o seu. Por insistência do pai fazia um esforço sincero para brincar com outros rapazes e participava freqüentemente nos jogos menos violentos — o futebol abalava-o demais e ele temia que, se sofresse uma fratura, os seus velhos ossos recusassem a unir-se de novo. Quando tinha cinco anos mandaram-no para o jardim da infância, onde foi iniciado na arte de colar papel verde sobre papel cor de laranja, desenhar mapas coloridos e fazer infindáveis colares de cartolina. Tinha tendência para cochilar e adormecer no meio dessas tarefas, hábito que, simultaneamente, irritava e assustava a sua jovem professora. Para alívio de Benjamin, ela queixou-se aos seus pais, que o retiraram da escola. Os Roger Button disseram aos amigos que pensavam que o filho era novo demais.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando completou doze anos, os pais já tinham se habituado a ele. Na verdade, a força do hábito é tão forte que já não achavam o filho diferente de qualquer outra criança — a não ser quando alguma curiosa anomalia lhes recordava esse fato. Mas um dia, poucas semanas depois de ter feito doze anos, quando se via no espelho, Benjamin fez, ou pensou que fez, uma espantosa descoberta. Estariam os olhos a enganá-lo ou o seu cabelo passara, nos doze anos de sua vida, de branco para cinzaferro sob a pintura encobridora? Estaria o labirinto de rugas do seu rosto a tornar-se menos pronunciado? Estaria a sua pele mais saudável e firme e, até, com um toque de avermelhada cor invernal? Não saberia dizer. Sabia, porém, que já não estava corcovado e que o seu estado físico melhorara desde os primeiros dias de sua vida. «Será possível?», pensou, ou melhor, quase não se atreveu a pensar. Foi falar com o pai. — Sou crescido — anunciou, com determinação. — Quero usar calças compridas. O pai hesitou. — Bem — disse, por fim —, não sei. Catorze anos é a idade para vestir calças compridas&#8230; e você só tem doze. — Mas tem que concordar — protestou Benjamin — que sou grande para a minha idade. O pai olhou-o com um ar de ilusória especulação. — Oh, não estou muito certo disso. Eu era do seu tamanho quando tinha doze anos.</p>
<p style="text-align:justify;">Não era verdade: fazia tudo parte do pacto silencioso que Roger Button fizera consigo próprio para acreditar na normalidade do filho. Por fim, chegaram a um acordo: Benjamin continuaria a pintar o cabelo. Tentaria de novo, e com mais empenho, brincar com rapazes da sua idade. Não usaria óculos nem andaria de bengala na rua. Em troca dessas concessões era-lhe permitido o seu primeiro traje de calças compridas&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">IV</p>
<p style="text-align:justify;">Tenciono dizer pouco a respeito da vida de Benjamin Button entre os seus doze e os seus vinte e um anos. Basta registrar que foram anos de normal nãocrescimento. Quando tinha dezoito anos Benjamin andava ereto como um homem de cinqüenta, tinha mais cabelo e de um tom cinzento-escuro, os seus passos eram firmes e a sua voz perdera o tom de cana rachada e descera para um barítono saudável. Por isso, o pai mandou-o para o Connecticut a fim de fazer exames de admissão no Yale College. Benjamin foi aprovado nos exames e tornou-se membro da turma dos calouros. No terceiro dia após a matrícula recebeu uma notificação de Mr. Hart, o escrivão da faculdade, para se apresentar no seu gabinete a fim de elaborar o seu horário. Benjamin olhou para o espelho e achou que o seu cabelo precisava de uma nova aplicação de tinta castanha, mas uma procura ansiosa na gaveta da escrivaninha revelou que o frasco da tinta para o cabelo não se encontrava lá. Lembrouse, então: gastara o resto no dia anterior e jogara o frasco fora. Encontrava-se perante um dilema. Tinha que comparecer no gabinete do escrivão dali a cinco minutos. A isso não podia esquivar-se: tinha que ir tal qual se encontrava. E foi. — Bom dia — disse o escrivão cortesmente. — Vem informar-se a respeito do seu filho.</p>
<p style="text-align:justify;">— Bem, na verdade, chamo-me Button&#8230; — começou Benjamin, mas Mr. Hart não o deixou acabar. — Tenho muito prazer em conhecê-lo, Mr. Button. Estou à espera do seu filho, de um momento para o outro. — Sou eu! — explodiu Benjamin. — Sou um calouro. — O quê?! — Sou um calouro. — Está, com certeza, brincando. — De modo algum. O escrivão franziu a testa e olhou para um cartão que tinha à sua frente. — Como é possível, se Mr. Benjamin Button está aqui registrado como tendo dezoito anos? — É essa a minha idade — afirmou Benjamin, corando ligeiramente. O escrivão olhou-o, enfadado. — Não espera, certamente, que eu acredite nisso, Mr. Button. Benjamin sorriu, cansado. — Tenho dezoito anos — repetiu. O escrivão apontou, carrancudo, para a porta. — Saia! — ordenou. — Saia da universidade e saia da cidade. É um louco perigoso. — Tenho dezoito anos. Mr. Hart abriu a porta. — O atrevimento! — gritou. — Um homem da sua idade tentando entrar aqui como calouro.</p>
<p style="text-align:justify;">Com que então, dezoito anos? Pois bem, dou-lhe dezoito minutos para sair da cidade. Benjamin Button saiu do gabinete com dignidade e meia dúzia de estudantes que esperavam no átrio seguiram-no curiosamente com o olhar. Quando se afastara um pouco, Benjamin voltou-se, encarou o enraivecido escrivão, que continuava parado à entrada da porta, e repetiu, com voz firme: — Tenho dezoito anos. Seguido por um coro de risadas trocistas do grupo de estudantes, Benjamin pôs-se a caminho. Mas não estava destinado a safar-se com tanta facilidade. Na sua caminhada melancólica para a estação ferroviária percebeu que estava sendo seguido por um grupo, depois por um cortejo e, finalmente, por uma densa massa de estudantes. Correra o boato de que um louco transpusera a entrada da sala de exames de admissão em Yale e tentara impingir a treta de que era um jovem de dezoito anos. Alastrou pela universidade uma sanha de agitação. Homens descabelados saíam correndo das salas de aula, a equipe de futebol abandonou o treino e juntou-se à turba, as mulheres dos professores, com chapéus de lado e anquinhas fora do lugar, corriam aos gritos atrás do cortejo, do qual emanava uma sucessão contínua de comentários que tinham como alvo as delicadas susceptibilidades de Benjamin Button. — Deve ser o Judeu Errante! — Devia ir para a escola primária, com a sua idade! — Olhem para o menino-prodígio!</p>
<p style="text-align:justify;">— Achava que isto era o lar dos velhos! — Vai para Harvard! Benjamin estugou o passo e, pouco depois, começou a correr. Iria para Harvard e, então, eles se arrependeriam dos seus agressivos sarcasmos! Seguro dentro do trem para Baltimore, pôs a cabeça fora da janela e gritou: — Vão se arrepender-se disso! — Ah! Ah! Ah! — riram-se os estudantes. — Ah! Ah! Ah! Foi o maior erro que o Yale College jamais cometeu&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">V</p>
<p style="text-align:justify;">Em 1880 Benjamin Button tinha vinte anos e assinalou o seu aniversário indo trabalhar para o pai na Roger Button &amp; Co., Grossista de Ferragens. Nesse mesmo ano começou a «sair socialmente» — ou seja, o pai insistiu em levá-lo a vários bailes em voga. Roger Button tinha, então, cinqüenta anos e ele e o filho faziam cada vez mais companhia um ao outro — na verdade, desde que Benjamin deixara de pintar o cabelo (que ainda estava grisalho) pareciam ter mais ou menos a mesma idade e poderiam passar por irmãos. Uma noite, em Agosto, meteram-se na carruagem, ambos vestidos a rigor, e seguiram para um baile na casa de campo de Shevlin, que ficava logo à saída de Baltimore. Estava uma noite maravilhosa. A lua cheia cobria a estrada com a cor baça da platina e flores de colheita tardia exalavam para o ar parado aromas semelhantes a risadas baixas, que mal se ouviam. O campo aberto, atapetado dezenas de metros em redor por trigo luminoso, estava tão transluzente como durante o dia. Era quase impossível não ser afetado pela pura beleza do céu — quase. — Há um grande futuro no negócio dos tecidos — dizia Roger Button. Não era um homem espiritual e o seu sentido de estética não ia além do rudimentar.</p>
<p style="text-align:justify;">«Tipos velhos como eu não aprendem novos truques — observou, em tom profundo. — São vocês, jovens com energia e vitalidade, que têm um grande futuro pela frente. Muito acima, na estrada, as luzes da casa de campo dos Shevlin surgiram à vista e, pouco depois, ouviu-se um ruído suspirante que dir-se-ia rastejar persistentemente direito a eles — poderia ter sido o belo lamento de violinos ou o roçar do trigo prateado debaixo da Lua. Pararam atrás de um belo carro puxado por um cavalo e cujos passageiros estavam apeando à porta. Saiu uma senhora, depois um cavalheiro idoso e depois uma jovem senhora bela como o pecado. Benjamin estremeceu. Uma mudança quase química pareceu dissolver e recompor os próprios elementos do seu corpo. Percorreu-o um calafrio, subiu-lhe o sangue às faces e à testa e sentiu um latejar constante nos ouvidos. Era o primeiro amor. A jovem era esbelta e frágil, com cabelo cor de cinza ao luar e cor de mel sob os crepitantes candeeiros a gás do alpendre. Cobria-lhe os ombros uma mantilha espanhola de um suavíssimo amarelo salpicado de borboletas pretas, e os seus pés eram botões cintilantes na fímbria do vestido com anquinhas. — Aquela — disse Roger Button, inclinando-se para o filho — é Hildegarde Moncrief, filha do general Moncrief. Benjamin acenou friamente com a cabeça.</p>
<p style="text-align:justify;">— Bonita criaturinha — comentou, com indiferença. Mas, quando o criado negro se afastou com a carruagem, acrescentou: — Podia apresentarme, pai. Aproximaram-se de um grupo do qual Miss Moncrief era o centro. Educada segundo a antiga tradição, fez uma mesura acentuada. Sim, concedialhe uma dança. Ele agradeceu e afastou-se — estonteado. O compasso de espera, até que chegasse a sua vez, prolongou-se interminavelmente. Benjamin manteve-se junto da parede, silencioso e impenetrável, observando com olhos mortíferos os jovens de Baltimore que se moviam ao redor de Hildegarde Moncrief e cujos rostos revelavam uma admiração apaixonada. Como lhe pareciam detestáveis e insuportavelmente rosados! As suas costeletas castanhas encaracoladas despertavam nele um sentimento equivalente a indigestão. Mas quando chegou a sua vez e deslizou com ela pelo chão mutável ao ritmo da música da mais recente valsa parisiense, os seus ciúmes e ansiedades dissolveram-se e escorreram dele como um manto de neve. Cego pelo arrebatamento, sentiu que a vida estava apenas começando. — O senhor e o seu irmão chegaram aqui ao mesmo tempo que nós, não chegaram? — perguntou Hildegarde, olhando-o com olhos que pareciam brilhante esmalte azul. Benjamin hesitou. Se ela o tomava pelo irmão do seu pai seria adequado esclarecê-la? Recordou-se da sua experiência em Yale e decidiu não fazê-lo.</p>
<p style="text-align:justify;">Seria indelicado contradizer uma dama; seria criminoso macular aquela requintada ocasião com a história grotesca de sua origem. Mais tarde, talvez. Por isso, acenou com a cabeça, sorriu, escutou e sentiu-se feliz. — Gosto de homens da sua idade — disselhe Hildegarde. — Os rapazes novos são tão patetas! Dizem-me quanto champanhe beberam na faculdade e quanto dinheiro perderam em jogos de cartas. Os homens da sua idade sabem apreciar as mulheres. Benjamin sentiu-se à beira de uma declaração, mas, com um esforço, sufocou o impulso. — Tem, precisamente, a idade romântica — continuou ela —, cinqüenta anos. Os vinte e cinco são experientes demais; os trinta têm tendência para a palidez devido ao excesso de trabalho; quarenta é a idade das longas histórias que demoram um charuto inteiro a serem contadas; os sessenta são&#8230; oh, os sessenta estão perto demais dos setenta, mas os cinqüenta são a idade madura. Adoro os cinqüenta. Cinqüenta anos pareceram a Benjamin uma idade gloriosa. Ansiou apaixonadamente por ter cinqüenta anos. — Eu sempre disse — continuou Hildegarde — que preferiria casar com um homem de cinqüenta anos que cuidasse de mim a casar com um homem de trinta e ter que cuidar dele. O resto da noite pareceu a Benjamin banhado por uma bruma cor de mel. Hildegarde concedeu-lhe mais duas danças e descobriram que estavam maravilhosamente de acordo em todas as questões atuais.</p>
<p style="text-align:justify;">Ela iria passear de carro com ele no domingo seguinte e, então, aprofundariam essas questões. De regresso para casa na carruagem, pouco antes do romper da alvorada, quando as primeiras abelhas zumbiam e a desfalecente Lua bruxuleava no orvalho fresco, Benjamin teve a vaga noção de que o seu pai estava falando de ferragens por atacado. — &#8230;E o que pensa que deveria merecer a nossa maior atenção, depois dos martelos e dos pregos? — perguntava o Button sênior. — O amor — respondeu Benjamin, distraidamente. — Tambores? — admirou-se Roger Button. — Mas eu já resolvi a questão dos tambores. Benjamin fitou-o com olhos pasmos no preciso momento em que uma réstia de luz se abria subitamente no céu, do lado oriental, e um papafigos piava agudamente nas árvores trêmulas&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">VI</p>
<p style="text-align:justify;">Quando, passados seis meses, o compromisso de Miss Hildegarde Moncrief para com Mr. Benjamin Button foi dado a conhecer (digo «dado a conhecer» porque o general Moncrief declarou que preferia cair sobre a sua espada a anunciá-lo), a excitação atingiu um clímax febril no seio da sociedade de Baltimore. A história quase esquecida do nascimento de Benjamin foi recordada e espalhada aos sete ventos do escândalo de forma ao mesmo tempo pícara e incrível. Disse-se que Benjamin Button era, realmente, o pai de Roger Button, que era o seu irmão que estivera quarenta anos preso, que era John Wilkes Booth disfarçado e, finalmente, que tinha dois pequenos chifres cônicos brotando da cabeça. Os suplementos de domingo dos jornais nova-iorquinos brincaram com o caso, usando esboços fascinantes que mostravam a cabeça de Benjamin Button presa a um peixe, a uma serpente e, por fim, a um corpo de sólido latão. Tornou-se jornalisticamente conhecido como o Homem Mistério de Maryland. Mas, como geralmente acontece, a verdadeira história teve uma circulação muito pequena. No entanto, todos concordavam com o general Moncrief, segundo o qual era «criminoso» uma jovem encantadora, que podia ter casado com qualquer janota de Baltimore, lançar-se assim nos braços de um homem que tinha, com certeza, cinqüenta anos. Em vão Mr. Roger Button publicou a certidão de nascimento do filho, em letras gordas, no Blaze</p>
<p style="text-align:justify;">de Baltimore. Ninguém acreditou. Bastava olhar para Benjamin e ver. Da parte das duas pessoas mais interessadas não houve a mínima hesitação. Tantas das teorias acerca do seu noivo eram falsas que Hildegarde se recusou obstinadamente a acreditar, até mesmo na verdadeira. Em vão o general Moncrief chamou a atenção da filha para o elevado grau de mortalidade entre os homens de cinqüenta anos ou pelo menos, entre os homens que pareciam tê-los; em vão lhe falou da instabilidade do negócio grossista de ferragens. Hildegarde escolhera casar pela maturidade — e casou!</p>
<p style="text-align:justify;">VII</p>
<p style="text-align:justify;">Num ponto, pelo menos, os amigos de Hildegarde Moncrief estavam enganados: o negócio grossista de ferragens. Nos quinze anos decorridos entre o casamento de Benjamin Button, em 1880, e a aposentadoria de seu pai, em 1895, a fortuna da família duplicou — e isso deveu-se, em grande parte, ao sócio mais jovem da firma. Escusado seria dizer que Baltimore acabou por acolher o casal no seu seio. Até o velho general Moncrief se reconciliou com o genro quando Benjamin lhe deu o dinheiro necessário para publicar a sua História da Guerra Civil em vinte volumes, que fora recusada por nove proeminentes editores. Esses quinze anos trouxeram muitas mudanças ao próprio Benjamin. Tinha a impressão de que o sangue lhe corria nas veias com novo vigor. Começou a ser um prazer levantar-se de manhã, caminhar com passo vigoroso pela rua movimentada e cheia de sol, trabalhar incansavelmente com os seus embarques de martelos e os seus carregamentos de pregos. Foi em 1890 que efetuou a sua famosa jogada comercial: apresentou a sugestão de que todos os pregos usados para pregar os caixotes em que os pregos são embarcados constituem propriedade do expedidor, proposta que se tornou um estatuto, foi aprovada pelo Juiz Supremo Fossile e poupou a Roger Button &amp; Company, Grossista de Ferragens, mais de seiscentos pregos por ano.</p>
<p style="text-align:justify;">Além disso, Benjamin descobriu que estava se sentindo cada vez mais atraído pelo lado alegre da vida. Foi característico do seu crescente entusiasmo pelo prazer o fato de ter sido o primeiro homem de Baltimore a possuir e conduzir um automóvel. Ao encontrá-lo na rua, os seus contemporâneos fitavam invejosamente a sua imagem de saúde e vitalidade. «Parece tornar-se mais novo de dia para dia», comentavam. E se, a princípio, o velho Roger Button, agora com sessenta e cinco anos, pecara por não dar ao filho as devidas boas-vindas, reparava agora, finalmente, essa falta tratando-o com o que equivalia a adulação. Chegamos a um assunto desagradável que convém ultrapassar o mais depressa possível. Havia apenas uma coisa que preocupava Benjamin Button: a esposa deixara de atraí-lo. Nessa altura, Hildegarde era uma mulher de trinta e cinco anos, com um filho, Roscoe, de catorze. Nos primeiros tempos de casamento Benjamin adorara-a. Mas, com o passar dos anos, o seu cabelo cor de mel tornara-se um castanho insípido, o azulesmalte dos seus olhos adquirira o aspecto de louça de barro barata e, além disso, e sobretudo, ela tornara-se acomodada demais na sua maneira de ser, plácida demais, satisfeita demais, débil demais nos seus arroubos e sóbria demais no seu gosto. Quando noiva fora ela quem «arrastara» Benjamin para bailes e jantares, mas agora a situação invertera-se. Saía socialmente com ele, mas sem entusiasmo, devorada já por aquela eterna inércia que, um dia, começa a viver com cada um de nós e permanece conosco até o fim. O descontentamento de Benjamin foi se tornando cada vez mais forte.</p>
<p style="text-align:justify;">No início da Guerra Hispano-Americana, em 1898, a sua casa tivera para ele tão pouco encanto que resolvera alistar-se no exército. Graças à influência do seu negócio, obteve uma patente de capitão e revelou-se tão adaptável ao trabalho que o passaram a major e, por fim, a tenente-coronel, bem a tempo de participar na célebre arrancada pela San Juan Hill acima. Ficou ligeiramente ferido e recebeu uma medalha. Benjamin afeiçoara-se tanto à atividade e à excitação da vida no exército que lamentou abandoná-la, mas o seu negócio requeria atenção e, por isso, ele renunciou à sua comissão de serviço e voltou para casa. Foi recebido na estação por uma charanga e escoltado até sua casa.</p>
<p style="text-align:justify;">VIII</p>
<p style="text-align:justify;">Acenando com uma grande bandeira de seda, Hildegarde saudou-o no alpendre e ele, ao mesmo tempo que a beijava, sentiu, com um baque no coração, que aqueles três anos tinham cobrado o seu tributo. Ela era agora uma mulher de quarenta anos, com uma leve e tímida linha de cabelos grisalhos na cabeça. Tal visão deprimiu-o. No andar de cima, no quarto, viu a sua própria imagem refletida no espelho familiar. Aproximou-se mais e examinou, ansioso, o próprio rosto, comparando-o, decorrido um momento, com uma fotografia sua, fardado, tirada imediatamente antes da guerra. — Santo Deus! — exclamou, em voz alta. O processo continuava. Não restava dúvida alguma: parecia agora um homem de trinta anos. Em vez de encantado, sentiu-se inquieto: ele estava se tornando mais novo. Até então esperara que, uma vez atingida uma idade física equivalente à sua idade cronológica, o grotesco fenômeno que assinalara o seu nascimento deixaria de funcionar. Estremeceu, arrepiado. O seu destino parecia-lhe assustador, incrível. Quando desceu, Hildegarde esperava-o. Parecia irritada e ele perguntou-se se teria descoberto, finalmente, que havia alguma coisa errada. Foi num esforço para aliviar a tensão entre ambos que tocou no assunto, ao jantar, de um modo que considerou delicado.</p>
<p style="text-align:justify;">— Bem — comentou, em tom ligeiro —, todo mundo diz que pareço mais novo do que nunca. Hildegarde fitou-o com desdém. E fungou. — Acha que é motivo para se gabar? — Não estou me gabando — afirmou ele, muito pouco à vontade. Hildegarde fungou de novo. — Que idéia! — exclamou e, passado um momento, acrescentou: — Achava que teria dignidade suficiente para acabar com isso. — Como posso fazê-lo? — Não vou discutir contigo. Mas há uma maneira certa e uma maneira errada de fazer as coisas. Se resolveu ser diferente de todos, não creio que possa detê-lo, mas, com franqueza, não me parece uma atitude muito delicada. — Mas, Hildegarde, não posso evitá-lo. — Pode, sim. É, pura e simplesmente, teimoso. Pensa que não quer ser como qualquer outra pessoa. Sempre foi e sempre será assim. Mas pense no que aconteceria se todo mundo visse as coisas como você vê. Como seria o mundo? Como se tratava de um argumento tolo e irrespondível, Benjamin não respondeu. E, a partir desse momento, abriu-se, e começou a alargar, um abismo entre ambos. Perguntou, até, a si mesmo que possível fascínio ela exercera sobre ele. Como se o abismo não chegasse, descobriu, à medida que o novo século avançava, que a sua sede de divertimento era cada vez maior. Não havia uma festa em Baltimore, fosse qual fosse a sua natureza, em que não estivesse presente, dançando com as</p>
<p style="text-align:justify;">mais bonitas das jovens mulheres casadas, conversando com as mais populares das debutantes e achando a sua companhia encantadora, enquanto a mulher, uma velhota agourenta, se sentava entre os dois-de-paus, ora numa atitude de altiva desaprovação, ora seguindo os seus movimentos com olhar grave, intrigado e recriminador. «Olhem!», comentavam as pessoas. «Que pena! Um tipo jovem daquela idade ligado a uma mulher de quarenta e cinco anos. Deve ser vinte anos mais novo do que ela.» Tinham-se esquecido — como é inevitável que as pessoas se esqueçam — que na passada década de 1880 as suas mamães e os seus papais também tinham feito comentários a respeito deste mesmo desarmônico casal. A crescente infelicidade de Benjamin, em casa, era compensada pelos seus muitos novos interesses. Dedicou-se ao golfe e teve grande êxito. Tomou gosto pela dança: em 1906 era perito em «The Boston» e em 1908 foi considerado competente no «Maxime», enquanto em 1909 o seu «Castle Walk» causava inveja a todos os homens jovens da cidade. É claro que as suas atividades sociais interferiam, em certa medida, no seu negócio, mas a verdade é que trabalhara duramente no ramo de ferragens por atacado e achava que podia entregá-lo ao filho, Roscoe, recentemente licenciado pela Harvard. O certo é que, freqüentemente, ele e o filho eram confundidos um com o outro. Isso agradava a Benjamin, que não tardou a esquecer o medo insidioso que se apoderara dele no regresso da Guerra Hispano-Americana e passou a sentir um ingênuo prazer com a sua aparência. Havia apenas um senão no delicioso ungüento: detestava aparecer em público com a mulher. Hildegarde tinha quase cinqüenta anos e o aspecto dela fazia-o sentir-se absurdo&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">IX</p>
<p style="text-align:justify;">Num certo dia de Setembro de 1910 — poucos anos depois de a Roger Button &amp; Co., Grossista de Ferragens, ter passado para as mãos do jovem Roscoe Button — um homem que aparentava vinte anos inscreveu-se como calouro na Universidade de Harvard, em Cambridge. Não caiu na asneira de anunciar que não voltaria a ver os cinqüenta anos e também não mencionou que o filho se formara na mesma instituição dez anos antes. Foi admitido e atingiu quase de imediato uma situação proeminente na turma, em parte por parecer um pouco mais velho do que os outros calouros, cuja idade média rondava os dezoito anos. Mas o seu êxito deveu-se em grande medida ao fato de, no jogo de futebol com a Yale, ter jogado tão brilhantemente, com tanto ímpeto e uma fúria tão intensa e implacável que marcara sete touchdowns e catorze field goals por Harvard e fizera com que onze homens da Yale, ou seja, uma equipe inteira, fossem levados um por um do campo, todos eles inconscientes. Foi o homem mais célebre da universidade. Pode parecer estranho, mas no seu terceiro ano — ou júnior — dificilmente conseguiu «chegar» à equipe. Os treinadores diziam que ele perdera peso e parecia, até, aos mais observadores, que não estava tão alto como antes. Já não marcava touchdowns — na realidade, foi mantido na equipe prin-</p>
<p style="text-align:justify;">cipalmente na esperança de que a sua enorme reputação causasse terror e desorganização à equipe da Yale. No seu ano sênior não chegou, sequer, a fazer parte da equipe. Tornara-se tão débil e frágil que, um dia, alguns estudantes do segundo ano o tomaram por um calouro, incidente que o humilhou tremendamente. Passou a ser conhecido como uma espécie de prodígio — um sênior que, seguramente, não tinha mais de dezesseis anos — e sentiu-se muitas vezes chocado com a mundaneidade de alguns dos seus condiscípulos. Os estudos tinham-se tornado mais difíceis para ele — tinha a sensação de que eram avançados demais. Ouvira os seus condiscípulos falar da St. Midas, a famosa escola secundária onde tantos deles tinham se preparado para a universidade, e decidiu que, terminado o curso, ele próprio iria para a St. Midas onde a vida abrigada entre rapazes do seu tamanho seria mais agradável para si. Terminado o curso em 1914 regressou para casa, em Baltimore, com o diploma da Harvard na algibeira. Como Hildegarde residia agora na Itália, Benjamin foi viver com o filho, Roscoe. Mas, apesar de ter sido de modo geral bem recebido, não havia, obviamente, nenhum entusiasmo nos sentimentos de Roscoe em relação a ele — havia mesmo uma tendência perceptível, da parte do filho, para pensar que, enquanto vagueava pela casa mergulhado numa divagação adolescente, o pai atrapalhava um pouco. Roscoe era agora casado e notável na vida de Balti-</p>
<p style="text-align:justify;">more e não queria que surgisse nenhum escândalo relacionado com a sua família. Benjamin, que deixara de ser persona grata entre os debutantes e o grupo mais jovem da nata da faculdade, deu consigo muito isolado e só, excetuando a camaradagem de três ou quatro rapazes de quinze anos do bairro. A idéia de ir para a St. Midas School era recorrente nele. — Ouça — lembrou, um dia, a Roscoe —, já lhe disse não sei quantas vezes que quero ir para a escola secundária. — Está bem, vá — respondeu Roscoe, secamente. O assunto desagradava-lhe e queria evitar uma discussão. — Não posso ir sozinho — disse Benjamin, desanimadamente. — Terá que me matricular e levar lá. — Não tenho tempo — replicou Roscoe, com brusquidão, e depois semicerrou os olhos e olhou pouco à vontade para o pai. — Na verdade — acrescentou —, seria melhor não continuar com essa idéia muito mais tempo. Seria melhor travar. Seria melhor&#8230; seria melhor&#8230; — Fez uma pausa e o seu rosto tornou-se escarlate enquanto procurava as palavras adequadas — &#8230; seria melhor dar uma volta e recomeçar no sentido inverso. Isto já foi longe demais para ser uma brincadeira. Deixou de ter graça. Você&#8230; você se comporte! Benjamin olhou-o, à beira das lágrimas. — Mais uma coisa — continuou Roscoe —, quando tivermos visitas em casa quero que me trate por «tio»&#8230; não por «Roscoe», mas por tio, compre-</p>
<p style="text-align:justify;">endeu? Parece absurdo um rapaz de quinze anos tratar-me pelo meu nome próprio. Talvez seja melhor me tratar sempre por tio, para se habituar. Olhando severamente para o pai, Roscoe virou as costas e afastou-se&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">X</p>
<p style="text-align:justify;">Terminada esta entrevista, Benjamin subiu desalentadamente para o andar de cima e fitou-se no espelho. Não fazia a barba há três meses, mas não conseguia encontrar nada no rosto além de uma tênue penugem branca com a qual parecia desnecessário preocupar-se. Quando regressara para casa de Harvard, Roscoe abordara-o com a proposta de que devia usar óculos e costeletas de imitação coladas às faces, o que o levara a pensar, momentaneamente, que a farsa dos seus primeiros anos iria se repetir. Mas as costeletas tinham-lhe dado comichão e envergonhado. Chorou e Roscoe abrandou, relutantemente. Benjamin abriu um livro de histórias para meninos, Os Escoteiros em Bimini Bay, e começou a lê-lo. Mas dava consigo a pensar persistentemente na guerra. A América juntara-se à causa dos Aliados no mês anterior e Benjamin queria alistar-se, mas, infelizmente, os dezesseis anos eram a idade mínima e ele não parecia tão velho. De qualquer modo, a sua verdadeira idade, cinqüenta e sete anos, também o teria desqualificado. Bateram à porta e o mordomo apareceu com uma carta com um grande cabeçalho oficial ao canto endereçada a Mr. Benjamin Button. Benjamin abriu-a avidamente e leu, encantado, o que dizia. Informava-o de que muitos oficiais na reserva que tinham servido na Guerra Hispano-Americana esta-</p>
<p style="text-align:justify;">vam sendo chamados de novo para prestar serviço com um posto mais elevado e isso o incluía como brigadeiro-general no Exército dos Estados Unidos com ordem para se apresentar imediatamente. Benjamin levantou-se de um pulo, praticamente a tremer de entusiasmo. Era aquilo que ele queria. Pegou no boné e dez minutos depois entrou numa grande alfaiataria na Charles Street e pediu, no seu hesitante tom agudo, que lhe tirassem as medidas para um uniforme. — Quer brincar de soldado, meu filho? — perguntou, indiferente, um empregado. Benjamin corou. — Olhe, não se preocupe com o que eu quero! — replicou, irritado. — Me chamo Button e moro na Mt. Vernon Place. Por isso sabe que posso pagar. — Bem — admitiu o empregado, hesitante —, se não pode, suponho que o seu pai pode. Tiraram-lhe as medidas e, uma semana depois, o seu uniforme estava pronto. Teve dificuldade em obter a adequada insígnia de general porque o empregado teimava em insistir que um bonito distintivo da I.W.C.A. ficaria igualmente bem e seria muito mais divertido para brincar. Sem dizer nada a Roscoe, saiu de casa, uma noite, e viajou de trem para Camp Mosby, na Carolina do Sul, onde iria comandar uma brigada de Infantaria. Num abafado dia de Abril aproximou-se da entrada do acampamento, pagou ao taxista que o trouxera da estação e voltou-se para a sentinela de serviço.</p>
<p style="text-align:justify;">— Chame alguém para levar a minha bagagem! — ordenou, brusco. A sentinela olhou-o com ar de censura. — Aonde vai com essa farda de general, meu filho? Benjamin, veterano da Guerra HispanoAmericana, virou-se rapidamente para ele com os olhos a cuspir fogo, mas, infelizmente, com um tremor agudo na voz. — Ponha-se em sentido! — tentou dizer com voz de trovão. Fez uma pausa para recuperar o fôlego&#8230; e, de súbito, viu a sentinela bater os calcanhares e pôr a carabina em cena. Benjamin disfarçou um sorriso de contentamento, mas quando olhou ao seu redor o sorriso desvaneceu-se. Não fora ele que inspirara a atitude de obediência, mas, sim, um imponente coronel de artilharia que se aproximava a cavalo. — Coronel! — exclamou esganiçadamente. O coronel aproximou-se, segurou as rédeas e olhou friamente para ele com um fulgor no olhar. — É filho de quem, rapazinho? — perguntou, bondosamente. — Diabos me levem se não tardo a mostrarlhe de quem o rapazinho é filho! — replicou Benjamin, em tom feroz. — Desça desse cavalo! O coronel desatou a rir ruidosamente. — O quer, meu general? — Aqui está! — gritou Benjamin desesperadamente. — Leia isto — e estendeu o certificado ao coronel.</p>
<p style="text-align:justify;">O coronel leu e os seus olhos pareceram querer saltar das órbitas. — Onde arranjou isto? — perguntou, ao mesmo tempo que enfiava o documento na algibeira. — Obtive-o do governo, como não tardará a descobrir! — Venha comigo — ordenou o coronel, com uma expressão peculiar. — Vamos ao quartelgeneral e conversaremos a este respeito. Venha. O coronel voltou-se e pôs o cavalo a passo na direção do quartel-general. Benjamin não podia fazer nada a não ser segui-lo com o máximo de dignidade possível — ao mesmo tempo que prometia a si mesmo uma implacável vingança. Mas essa vingança não se materializou. Dois dias depois, no entanto, seu filho Roscoe materializou-se vindo de Baltimore, encalorado e contrafeito após uma viagem apressada, e acompanhou o choroso general sem uniforme no regresso a sua casa.</p>
<p style="text-align:justify;">XI</p>
<p style="text-align:justify;">O primeiro filho de Roscoe Button nasceu em 1920. No entanto, durante os festejos inerentes, ninguém achou adequado mencionar que o rapazinho encardido, que aparentava cerca de dez anos e brincava pela casa com soldadinhos de chumbo e um circo em miniatura, era o próprio avô do bebê. Ninguém antipatizava com o rapazinho em cujo rosto fresco e alegre havia uma sombra, apenas uma sombra, de tristeza, mas, para Roscoe, a sua presença era uma fonte de tormento. De acordo com a gíria de sua geração, Roscoe não considerava o assunto «eficiente». Parecia-lhe que o pai, ao recusar-se a aparentar sessenta anos, não se comportara como um «macho de sangue bem vermelho» — esta era a expressão favorita de Roscoe —, mas sim de um modo curioso e perverso. Na realidade, pensar no assunto um máximo de meia hora empurrava-o para a beira da insanidade. Roscoe acreditava que os espalha-brasas deviam manter-se jovens, mas aplicar a norma em semelhante escala era&#8230; enfim, era contraproducente. E Roscoe ficou por aí. Cinco anos depois, o rapazinho de Roscoe tinha idade suficiente para brincadeiras infantis com o pequeno Benjamin sob a vigilância da mesma ama. Roscoe levou ambos para o jardim da infância no mesmo dia e Benjamin descobriu que brincar com fitas de papel colorido, fazer esteiras, correntes</p>
<p style="text-align:justify;">e belos e curiosos desenhos era a brincadeira mais fascinante do mundo. Uma vez foi mal comportado e teve que ficar de castigo num canto — nessa altura chorou —, mas na maior parte do tempo havia horas divertidas na sala alegre, com o sol a entrar pelas janelas e a mão bondosa de Miss Bailey a pousar um momento, de vez em quando, no seu cabelo ouriçado. O filho de Roscoe passou para a primeira classe ao fim de um ano, mas Benjamin permaneceu no jardim da infância. Sentia-se muito feliz. Às vezes, quando outras crianças falavam do que fariam quando crescessem, perpassava uma sombra pelo seu pequeno rosto como se ele compreendesse, de um modo vago e infantil, que nunca partilharia aquelas coisas. Os dias fluíam monotonamente. Ele voltou, pelo terceiro ano, para o jardim da infância, mas tornara-se agora pequeno demais para compreender para que serviam as reluzentes folhas de papel. O professor falava com ele, mas, embora tentasse compreender, Benjamin não compreendia absolutamente nada. Tiraram-no do jardim da infância. A sua ama, Nana, no seu vestido engomado de algodão listrado, tornou-se o centro do minúsculo mundo dele. Nos dias luminosos passeavam no parque. Nana apontava para um grande monstro cinzento e dizia «elefante» e depois Benjamin repetia, e à noite, quando o despiam para se deitar, ele não se cansava de lhe repetir, em voz alta: «Elifante, elifante, elifante.» Às vezes Nana deixava-o saltar em cima da cama e isso</p>
<p style="text-align:justify;">era divertido, porque, se descemos de modo exatamente certo, ressaltamos e ficamos de novo em pé, e se dizemos «Ah» durante muito tempo enquanto saltamos obtemos um agradável efeito vocal intermitente. Ele adorava tirar uma grande bengala do cabide e andar por ali batendo com ela em cadeiras e mesas e a dizer: «Luta, luta, luta.» Quando haviam pessoas presentes as senhoras idosas riam-se dele, com um riso que lembrava um cacarejo, o que lhe interessava, e as senhoras jovens tentavam beijá-lo, o que ele consentia com plácido enfado. E quando o longo dia terminava, às cinco horas, subia com Nana para o andar de cima e deixava-se alimentar, à colheradas, com papas de aveia e comidas moles. Não havia recordações penosas no seu sono infantil; não lhe acudiam lembranças dos seus arrojados anos na faculdade, dos anos esplendorosos em que fizera palpitar o coração de muitas jovens. Havia apenas os lados brancos e seguros do seu berço, Nana e um homem que o visitava de vez em quando e uma grande bola cor de laranja para a qual Nana apontava pouco antes da sua crepuscular hora de dormir e a que chamava «Sol». Quando o Sol se punha os olhos dele ficavam ensonados: não havia sonhos, não havia sonhos que o assombrassem. O passado — a carga violenta à frente dos seus homens pela San Juan Hill acima; nos primeiros anos do seu casamento trabalhava até tarde, pela penumbra estival, na movimentada cidade para a jovem Hildegarde a quem amava; os dias anteriores a isso em que se sentava fumando com o avô, pela</p>
<p style="text-align:justify;">noite adentro, na velha casa sombria dos Button na Monroe Street —, tudo isso se desvanecera como sonhos irreais, como se nunca tivesse existido. Não se lembrava. Não se lembrava com clareza se o leite estava morno ou frio da última vez que comera nem de como os dias passavam — havia apenas o seu berço e a presença familiar de Nana. E depois esqueceu-se de tudo. Quando tinha fome gritava — mais nada. Durante as tardes e as noites respirava e havia sobre ele suaves resmungos e murmúrios que mal ouvia, odores levemente diferenciados, luz e escuridão. Depois escureceu tudo e o seu berço branco, e os rostos obscuros que pairavam sobre ele, e o aroma morno e doce do leite desvaneceram-se por completo da sua mente.</p>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;"><strong><em>Título original: The Curious Case of Benjamin Button Autor: F. Scott Fitzgerald  &#8211; Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues, Lisboa, 2008 Composição, impressão e acabamento: Multitipo — Artes Gráficas, Lda. 1ª edição, Lisboa, Janeiro, 2009 2ª edição, Lisboa, Janeiro, 2009 3ª edição, Lisboa, Fevereiro, 2009 Depósito legal no 288 506/09</em></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><em>Obra digitalizada por Sandra Amaral Adaptado para o Português do Brasil por Yuna — Toca Digital<br />
Data da digitalização: Fevereiro de 2009</em></strong></p>
<br />Filed under: <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/category/escritores-americanos/'>Escritores Americanos</a>, <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/category/escritores-americanos/f-scott-fitzgerald/'>F. Scott Fitzgerald</a> Tagged: <a href='http://conselheiroacacio.wordpress.com/tag/conto/'>Conto</a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/conselheiroacacio.wordpress.com/1505/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/conselheiroacacio.wordpress.com/1505/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1505/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1505/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1505/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1505/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1505/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1505/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1505/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1505/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/conselheiroacacio.wordpress.com/1505/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/conselheiroacacio.wordpress.com/1505/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1505/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1505/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&amp;blog=2378334&amp;post=1505&amp;subd=conselheiroacacio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Dear God (XTC)</title>
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		<pubDate>Mon, 04 Jan 2010 16:20:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conselheiro Acácio</dc:creator>
				<category><![CDATA[XTC]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://conselheiroacacio.wordpress.com/2010/01/04/dear-god-xtc/"><img src="http://img.youtube.com/vi/TdCjStCHQJI/2.jpg" alt="" /></a></span>
<br />Publicado em XTC Tagged: Música, Video <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/conselheiroacacio.wordpress.com/1500/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/conselheiroacacio.wordpress.com/1500/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1500/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1500/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1500/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1500/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1500/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1500/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1500/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1500/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/conselheiroacacio.wordpress.com/1500/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/conselheiroacacio.wordpress.com/1500/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1500/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1500/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&amp;blog=2378334&amp;post=1500&amp;subd=conselheiroacacio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Ray Charles &#8211; Hallelujah I Love Her So (1955)</title>
		<link>http://conselheiroacacio.wordpress.com/2009/11/16/ray-charles-hallelujah-i-love-her-so-1955/</link>
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		<pubDate>Mon, 16 Nov 2009 23:49:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conselheiro Acácio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Músicos]]></category>
		<category><![CDATA[Ray Charles]]></category>
		<category><![CDATA[1955]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Video]]></category>

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		<description><![CDATA[Acho que já ouvi essa música hoje umas vinte vezes&#8230; Let me tell you &#8217;bout a girl I know She is my baby and she lives next door Every mornin&#8217; &#8216;fore the sun comes up She brings me coffee in my favorite cup That&#8217;s why I know, yes, I know Hallelujah, I just love her [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&amp;blog=2378334&amp;post=1484&amp;subd=conselheiroacacio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acho que já ouvi essa música hoje umas vinte vezes&#8230;</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://conselheiroacacio.wordpress.com/2009/11/16/ray-charles-hallelujah-i-love-her-so-1955/"><img src="http://img.youtube.com/vi/Cf0X7QuK4LI/2.jpg" alt="" /></a></span>
<h3></h3>
<p>Let me tell you &#8217;bout a girl I know<br />
She is my baby and she lives next door<br />
Every mornin&#8217; &#8216;fore the sun comes up<br />
She brings me coffee in my favorite cup<br />
That&#8217;s why I know, yes, I know<br />
Hallelujah, I just love her so</p>
<p>When I&#8217;m in trouble and I have no friend<br />
I know she&#8217;ll go with me until the end<br />
Everybody asks me how I know<br />
I smile at them and say, &#8220;She told me so&#8221;<br />
That&#8217;s why I know, oh, I know<br />
Hallelujah, I just love her so</p>
<p>Now, if I call her on the telephone<br />
And tell her that I&#8217;m all alone<br />
By the time I count from one to four<br />
I hear her [KNOCK-KNOCK-KNOCK-KNOCK] on my door</p>
<p>In the evening when the sun goes down<br />
When there is nobody else around<br />
She kisses me and she holds me tight<br />
And tells me, &#8220;Daddy, everything&#8217;s all right&#8221;<br />
That&#8217;s why I know, yes, I know<br />
Hallelujah, I just love her so</p>
<p>Now, if I call her on the telephone<br />
And tell her that I&#8217;m all alone<br />
By the time I count from one to four<br />
I hear her [KNOCK-KNOCK-KNOCK-KNOCK] on my door</p>
<p>In the evening when the sun goes down<br />
When there is nobody else around<br />
She kisses me and she holds me tight<br />
And tells me, &#8220;Daddy, everything&#8217;s all right&#8221;<br />
That&#8217;s why I know, yes, I know<br />
Hallelujah, I just love her so<br />
Oh, hallelujah<br />
Don&#8217;t you know, I just love her so<br />
She&#8217;s my little woman, waitin&#8217; all this time<br />
Babe, I&#8217;m a little fool for you, little girl&#8230;<br />
(FADE OUT)</p>
<br />Publicado em Músicos, Ray Charles Tagged: 1955, Música, Video <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/conselheiroacacio.wordpress.com/1484/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/conselheiroacacio.wordpress.com/1484/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1484/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1484/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1484/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1484/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1484/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1484/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1484/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1484/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/conselheiroacacio.wordpress.com/1484/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/conselheiroacacio.wordpress.com/1484/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1484/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1484/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&amp;blog=2378334&amp;post=1484&amp;subd=conselheiroacacio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>A importância da desimportância</title>
		<link>http://conselheiroacacio.wordpress.com/2009/11/12/a-importancia-da-desimportancia/</link>
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		<pubDate>Thu, 12 Nov 2009 23:07:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conselheiro Acácio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Meus Textos]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Meus]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;Um homem carrega seus livros&#8221;. A frase ressoa na minha cabeça como se a ouvisse pela primeira vez. Estranhamente o autor da frase não se lembra dela. Tinha eu onze, talvez doze anos. Lembro que me causou fortíssima impressão. Somente anos depois pude notar que foi ali que começou minha atração quase maníaca pela estética [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&amp;blog=2378334&amp;post=1475&amp;subd=conselheiroacacio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><img class="aligncenter size-medium wp-image-1476" title="I Love Realism" src="http://conselheiroacacio.files.wordpress.com/2009/11/85401788.jpg?w=240&#038;h=300" alt="I Love Realism" width="240" height="300" /></p>
<p style="text-align:justify;">&#8220;Um homem carrega seus livros&#8221;. A frase ressoa na minha cabeça como se a ouvisse pela primeira vez. Estranhamente o autor da frase não se lembra dela. Tinha eu onze, talvez doze anos. Lembro que me causou fortíssima impressão. Somente anos depois pude notar que foi ali que começou minha atração quase maníaca pela estética das frases.</p>
<p style="text-align:justify;">E só foi bem depois disso que me convenci que a beleza por si só já era mais do que um meio ou um motivo, mas um fim em si,  só então é que pude me desculpar por mais essa futilidade confessa. E ainda que alguém discorde, se pensarmos que em nossas vidas tudo de importante volta e meia vem empacotado com um bolo de futilidades&#8230; eu hoje não perderia tempo tentando me justificar.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas volto a frase. Estou na sala da casa dos meus pais, meu pai curvado na estante recolhe seus últimos livros antes de sair de casa. Eu pergunto o que ele está fazendo, a frase ressoa, e meu interesse por livros torna-se instantâneo. Dramaticamente instantâneo, para o bem ou para o mal.</p>
<p style="text-align:justify;">À partir daquele momento surgia uma nova necessidade, se a frase não fosse dita, eu talvez colecionasse selos ou moedas ao invés de livros. Ninguém acredita em destino a não ser quando um pedaço de reboco despenca do alto de um prédio pra nossa cabeça. A tragédia é inerente a condição humana, e perceber as coisas como inevitáveis ajuda a confortar o inesperado. Hoje acho que aquele momento foi determinante e inevitável, influenciou minha personalidade para o resto da vida. E não é fácil admitir o acaso, mesmo que o bom senso nos implore a entender que foi uma mera casualidade.</p>
<p style="text-align:justify;">Digo isso pra me fazer entender, não é de hoje que me chamam de velho. Todas as minhas namoradas repetiram isso em algum momento e meus amigos mais próximos não escondem o espanto e não cansam de lembrar minha vergonhosa velhice precoce. Como alguém prefere Coltrane à sei lá o que esteja na moda? Nem eu mesmo consigo entender. Nenhum amigo meu ouvia Coltrane, Miles ou Charlie Parker, nem sabiam que eles existiam. E o motivo não é fútil, não havia quem os conhecesse por perto. Grande parte das coisas diferentes que conheci veio pelos livros. Eu nunca correria pra uma loja de disco a quilômetros de distância da minha casa se não tivesse lido um romancezinho besta (que infelizmente não lembro o nome) contando as histórias de um saxofonista americano exilado em Paris; sem isso eu nunca me perguntaria que tipo de música era aquela, e sem conhecer, nunca saberia se iria gostar ou não.</p>
<p style="text-align:justify;">Dia desses eu folheava um livro do Hesse, me veio a pergunta: como seria minha vida se eu nunca tivesse lido Demian, ou ainda o Lobo da Estepe. o Lobo é o maior culpado da minha vergonhosa senilidade, depois que li a primeira vez devo ter envelhecido uns dez anos tentando superar os questionamentos que o livro causou. É certo que não devemos nos cobrar tanto ou tentar avançar além das nossas pernas, poucas coisas aliás, são mais inconvenientes que uma criança ou um jovem de bom senso. Hoje admito isso de bom grado, e não escondo o desejo de diminuir sucessivamente o pouco bom senso que acumulei ou fingi ter acumulado até o mínimo possível. Pretendo aos 40 já ter atingido o mesmo nível de um bêbe, quem sabe?!</p>
<p style="text-align:justify;">Não tenho como evitar, mas estou convencido que a glória do dia-a-dia está reservada ao idiota da objetividade, ao Medalhão do Machado, ao Conselheiro Acácio do Eça. E se não fossem essas figuras eu talvez fosse o canalha fundamental que o Nelson Rodrigues tanto condenava. Não fosse Oscar Wilde e seu Dorian Gray, eu talvez desse mais importância ao meu trabalho. Não fosse o Hesse, eu talvez me desesperasse sem saber que existe uma certa unidade que eu posso buscar.</p>
<p style="text-align:justify;">Hoje, quem não me conhece tão bem, até pode pensar que a maior importância da minha vida sejam os meus livros e os meus discos, e por isso eu sou um velho &#8212; ou pior um jovem travestido de velho. Mas eu particularmente não penso, nem tento pensar nisso. Não faz muito  tempo que passei a reconhecer que a maior importância na vida de alguém é buscar ou criar alguma coisa bela. Ainda que não tenha sentido ou utilidade. Ainda que não consiga.</p>
<p>Pra mim, os livros são só uma maneira de continuar buscando essas coisas enquanto eu estou sozinho em casa. Nunca os permito serem substitutos da realidade, são desimportantes, e por isso mesmo essenciais.</p>
<br />Publicado em Meus Textos Tagged: Crônica, Meus <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/conselheiroacacio.wordpress.com/1475/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/conselheiroacacio.wordpress.com/1475/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1475/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1475/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1475/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1475/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1475/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1475/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1475/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1475/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/conselheiroacacio.wordpress.com/1475/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/conselheiroacacio.wordpress.com/1475/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1475/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1475/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&amp;blog=2378334&amp;post=1475&amp;subd=conselheiroacacio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>CANdYRAT Records</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Nov 2009 16:19:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conselheiro Acácio</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um selo pra lá de foda que descobri por acaso pela internet. Os caras tem uma seleção incrível de músicos, tentei achar um cara ruim em todo o site e não consegui, todos são bons e a maioria excelente. Alguns dos meus novos favoritos aí embaixo: Publicado em Andy McKee, Músicos, Sergio Altamura, Stefano Barone [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&amp;blog=2378334&amp;post=1470&amp;subd=conselheiroacacio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um selo pra lá de foda que descobri por acaso pela internet. Os caras tem uma seleção incrível de músicos, tentei achar um cara ruim em todo o site e não consegui, todos são bons e a maioria excelente. Alguns dos meus novos favoritos aí embaixo:</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://conselheiroacacio.wordpress.com/2009/11/04/candyrat-records/"><img src="http://img.youtube.com/vi/Ddn4MGaS3N4/2.jpg" alt="" /></a></span>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://conselheiroacacio.wordpress.com/2009/11/04/candyrat-records/"><img src="http://img.youtube.com/vi/wDFP_MbvyGc/2.jpg" alt="" /></a></span>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://conselheiroacacio.wordpress.com/2009/11/04/candyrat-records/"><img src="http://img.youtube.com/vi/Xr4YRsa5DPo/2.jpg" alt="" /></a></span>
<br />Publicado em Andy McKee, Músicos, Sergio Altamura, Stefano Barone Tagged: Música, Video <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/conselheiroacacio.wordpress.com/1470/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/conselheiroacacio.wordpress.com/1470/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1470/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1470/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1470/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/conselheiroacacio.wordpress.com/1470/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1470/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/conselheiroacacio.wordpress.com/1470/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1470/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1470/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/conselheiroacacio.wordpress.com/1470/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/conselheiroacacio.wordpress.com/1470/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1470/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1470/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&amp;blog=2378334&amp;post=1470&amp;subd=conselheiroacacio&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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