Arquivos

Archive for the ‘Escritores Russos’ Category

Diário de um Louco (Nikolai Gogol)

3 de outubro.

Aconteceu-me hoje uma aventura insólita. Levantei-me bastante tarde e, quando Mavra me trouxe as botas limpas, perguntei-lhe que horas eram. Ao ouvir que já passava muito das dez, comecei a vestir-me com mais pressa. Confesso que não tinha a menor vontade de ir à repartição, pois já sabia com que cara feia o nosso chefe de seção me receberia. Há muito tempo que ele vive dizendo-me: – “Então, irmão, que tens? Que confusão é essa na tua cabeça? De vez em quando te agitas como quem ficou asfixiado pelo vapor da estufa, e atrapalhas o serviço de tal maneira que nem o próprio Satanás o desembaralharia, pões minúscula no título, não colocas nem data nem número!” Maldito palerma! Decerto está com inveja de mim, porque o meu lugar é no gabinete do diretor, onde aparo as penas de S. Exª. Numa palavra, eu não teria ido à repartição se não fosse a esperança de lá encontrar o caixa e, talvez, extorquir daquele judeu alguma coisa por conta do próximo ordenado. Mas que homem! Para ele fazer um adiantamento sobre o mês que vem – Deus do Céu! – mais depressa virá o juízo final. Pode a gente pedir, estar em extrema necessidade, rebentar, que o diabo do velho não adianta nada. Entretanto em casa – todo o mundo sabe – leva bofetões até da cozinheira. Não vejo, aliás, a utilidade de trabalhar na repartição. Não dá vantagem alguma. Já na administração estadual, nos tribunais e nas recebedorias o caso é outro. Lá, cada funcionário se encolhe no seu cantinho e vai escrevinhando, metido num fraque sujo, com uma cara de se escarrar nela; mas veja-se a casa de campo que ele aluga. Ninguém lhe ofereça de presente uma taça de porcelana, pois dirá logo: – “Isso é presente para um doutor”; mas aceitará uma parelha de cavalos, um carro ou uma peliça de castor de trezentos rublos. De aparência tão delicada, fala baixinho: – “Empreste-me, por favor, o canivetezinho para fazer ponta na peninha” – mas depois limpa o requerente de tal forma que mal lhe deixa a camisa do corpo. É verdade que o serviço da repartição é diferente: há uma limpeza como nunca se vê numa repartição estadual; as mesas são de madeira vermelha e,os chefes nos tratam por “o senhor”. Com efeito, se o serviço não tivesse este caráter honroso, confesso que há muito teria deixado a repartição. Vesti um velho capote e apanhei o guarda-chuva, pois chovia torrencialmente. Nas ruas não se via ninguém. a não ser umas camponesas que cobriam a cabeça com as saias, uns comerciantes russos sob guarda-chuvas, e alguns cocheiros.

De nobres, apenas um funcionário trocava pernas. Avistei-o numa encruzilhada e logo disse com os meus botões: – “Bonito, meu caro: em vez de ir à repartição, ficas a andar atrás da pessoa que vai à tua frente, olhando-lhe as perninhas finas.” Belo patife o nosso irmão funcionário! Palavra de honra, um oficial não lhe leva vantagem: basta passar uma mulher de chapéu, e ele a aborda inevitavelmente. Enquanto meditava assim, vi um carro aproximar-se da loja perto da qual me encontrava. Reconheci-o logo: era a caleça do nosso diretor. – “Mas ele nada tem que fazer nesta loja – pensei. – Realmente: é a filha dele.” Encolhi-me rente à parede. Um lacaio abriu a portinhola, e ela saltou do carro feito um passarinho. Como olhava à direita e à esquerda, como levantava as sobrancelhas e as pálpebras… Deus do Céu! senti-me perdido, sim, inteiramente perdido. Foi então para isso que ela resolveu sair em dia tão chuvoso? Digam-me agora que as mulheres não são loucas por todos aqueles trapos. Ela não me reconheceu, pois eu mesmo fiz tudo para esconder o rosto; estava com um capote bastante surrado e, além disso, de feição antiga. Usam-se hoje capotes de gola comprida, e o meu era de gola curta e sem lustre. A cachorrinha dela, como não teve tempo de acompanhá-la até à loja, ficou na rua. Conheço essa cachorra. Chamam-na Medji. Nem decorreu um minuto, e de repente ouvi uma vozinha fina: – Bom dia, Medji. Vejam só! Quem será mesmo? Olhei em redor, e vi aproximarem-se duas damas sob o mesmo guarda-chuva, uma velhinha, a outra moça. Mal haviam passado, ouvi perto de mim a mesma voz: – Que modos feios, Medji! Que diabo! Vi que Medji e outro cachorro, vindo atrás das senhoras, se andavam farejando um ao outro. – “Estarei completamente bêbado? – perguntei a mim mesmo. – Mas isto me acontece raras vezes.” Então vi a própria Medji pronunciar estas palavras: – Não, Fidel, estás enganado. Au, au! Eu tenho estado – au, au! – muito doente. Que cachorra esquisita! Fiquei bastante surpreendido, devo confessá-lo, ao ouvi-la exprimir-se em linguagem humana. Mas depois, ao refletir direitinho no caso, deixei de estranhá-lo. Com efeito, já se deram no mundo muitos fatos parecidos. Dizem que na Grã-Bretanha um peixe veio a terra e pronunciou duas palavras numa língua tão estranha que os sábios, por muito que a procurem determinar, há três anos, ainda não chegaram a nenhum resultado. Li também nos jornais acerca de duas vacas que entraram numa loja e pediram para si uma libra de chá. Mas surpreendi-me outra vez ao ouvir Medji acrescentar: – Eu te escrevi, Fidel. Provavelmente Polkan não te entregou a minha carta.

Assim receba eu o meu ordenado! Nunca em minha vida tinha ouvido dizer que os cachorros sabiam escrever. Só mesmo um fidalgo pode escrever direito. Sem dúvida, há também uns caixeiros e até uns servos que assinam o nome de vez em quando, mas na maioria dos casos aquilo é puramente mecânico; eles não têm nem pontuação nem estilo. Fiquei bastante admirado desse caso. É verdade que de algum tempo para cá tenho ouvido e visto coisas que nunca ninguém ouviu nem viu. – “Bem – disse comigo mesmo – vamos atrás dessa cachorra para saber o que ela é, e o que pensa.” Abri o guarda-chuva e pus-me a seguir as duas damas. Elas atravessaram a Rua da Ervilha, entraram na dos Burgueses, dali passaram à dos Marinheiros, e finalmente se detiveram diante de um casarão junto à ponte Kokuchkin. – “Conheço esta casa – disse comigo mesmo. – É a casa de Zverkof.” Que coincidência! Quanta gente não mora ali: quantos cozinheiros, quantos hóspedes e quantos irmãos funcionários vivendo uns em cima dos outros como cachorros! Ali mora também um amigo meu que sabe tocar trombeta. As senhoras subiram ao quinto andar. – “Está certo – pensei – desta vez não subo, mas anoto o endereço e não deixarei de utilizá-lo na primeira ocasião.”

4 de outubro.

Hoje é quarta-feira, e por isso estive no gabinete do diretor. De propósito cheguei mais cedo, e, sentado à vontade, fiz ponta em todas as penas. O nosso diretor deve ser um homem inteligentíssimo. Seu gabinete está cheio de armários com livros. Já espiei os títulos de alguns: são todos livros de erudição, de tamanha erudição que estão fora do alcance de um homem como eu, pois são escritos em francês ou em alemão. Mas vejam só a cara dele: Oh! que gravidade se irradia daqueles olhos! Nunca o ouvi dizer uma palavra supérflua, salvo talvez quando lhe entregam os papéis e ele pergunta: – “Que tempo faz lá fora?” – “Úmido, Excelência.” Não, ele não pode ser comparado aos outros mortais. É um homem de Estado. No entanto, devo dizer que de mim ele gosta de maneira especial. Se a filhinha também… Alto, canalha, psiu!… Li a Abelha. Que tolos esses franceses! Que pretendem eles? Por Deus, gostaria de pegá-los todos e dar-lhes uma boa chicotada. No mesmo jornal vi uma excelente descrição de um baile, feita por um fazendeiro de Kursk, Os fazendeiros de Kursk escrevem bem. Depois disso, notei que já era mais de meio-dia e meia, e o nosso homem ainda não tinha saído de seu quarto de dormir. Por volta da uma e meia verificou-se um acontecimento que nenhuma pena saberia descrever. Abriu-se a porta. Pensando que fosse o diretor, levantei-me de um pulo com toda a papelada. Mas não; foi ela, ela mesma!

Santos do Céu, como estava vestida, toda de branco feita um cisne! Oh, que esplendor! E que olhares! Só mesmo o Sol, por Deus, só mesmo o Sol! Cumprimentou-me e perguntou: – Papai ainda não esteve aqui? Ai de mim, que voz! Um canário, sem tirar nem pôr! – “Excelência – ia dizer-lhe – não ordene a minha execução, mas se fizer questão da minha morte, mate-me logo com sua mãozinha de filha de general.” Mas, com os diabos, a minha língua não se desemperrava e eu disse apenas: – Ainda não. Ela olhou para mim, para os livros, e deixou cair o lenço. Ergui-me de um salto. O maldito soalho fez-me escorregar, e quase descolei o nariz, mas acabei por me equilibrar, apanhando o lenço. Deus do Céu, que lenço! finíssimo, de batista, âmbar, âmbar de verdade! Exalava-se dele um legítimo perfume de general. Agradeceu-me, sorriu com um movimento imperceptível de seus doces labiozinhos, e saiu. Fiquei sentado mais uma hora, quando de repente apareceu um criado e me disse: – Aksenti Ivanovitch, pode ir embora, o patrão já saiu. Não posso tolerar esta súcia de lacaios. Refestelam-se o dia inteiro na antecâmara e mal se dão ao trabalho de cumprimentar com um aceno de cabeça. Mas isso ainda é o menos. Outro dia um desses idiotas lembrou-se de me oferecer rapé sem se levantar. Pois fica sabendo, criado besta, que eu sou funcionário de origem nobre. De qualquer maneira, tornei o chapéu e vesti eu mesmo o capote, pois esses tais senhores nunca auxiliam a gente a se vestir. Em casa, passei a maior parte do tempo deitado na cama. Depois copiei uns versinhos bonitos:

Uma hora sem a querida Foi um ano a padecer:

- Agora que odeio a vida – Disse – como hei de viver?

- Devem ser de Puchkin.

À noitinha, enrolando-me no capote, postei-me à porta de S. Ex.ª e esperei bastante, a ver se não saía para tomar o carro, na esperança de avistá-la mais uma vez. Mas não, não saiu.

6 de novembro.

O chefe de seção deixou-me louco de raiva. Quando cheguei à repartição, mandou-me chamar ao seu gabinete e disse-me: – Explica-me, por favor, o que estás fazendo. – O que estou fazendo? Mas não estou fazendo coisa alguma – respondi. – Ora essa! Reflete bem. Vê lá, já passaste dos quarenta, é tempo de criares juízo. Que é que estás pensando?

Imaginas que não sei das tuas tratantadas? Então estás fazendo a corte à filha do diretor? Vamos, enxerga-te, vê bem o que és. Um zero, nada mais. Não tens nem meio copeque de teu! Ainda por cima, olha a tua cara no espelho, para ver se acabas com essas idéias. Com os diabos! por ter um rosto meio parecido com uma redoma de farmácia, na cabeça um punhado de cabelos frisados em crista, penteados para cima e fixados com pomada numa espécie de roseta, ele pensa que pode fazer tudo o que lhe vem às ventas? Mas compreendo, sim, compreendo muito bem o motivo por que está irritado comigo. Inveja-me talvez por ter percebido algum sinal de simpatia dirigido a mim e não a ele. Pois eu cuspo-lhe na cara! Grande coisa um conselheiro da corte! Ostenta uma corrente de ouro no relógio, manda fazer botas de trinta rublos – pois bem, o Diabo o leve! Serei eu, porventura, da arraia-miúda, algum filho de alfaiate ou de suboficial? Sou nobre, e posso também ser promovido. Tenho apenas quarenta e dois anos – a idade com que, hoje em dia, se entra em serviço. Deixa estar, amigo! Eu também posso chegar a coronel e, se Deus quiser, a um pouco mais. Posso ter também um dia a minha reputaçãozinha, maior que a tua. Que é que te faz imaginar que não há, além de ti, nenhuma pessoa decente? Dá-me um fraque de Rutch talhado na moda, deixa-me amarrar a gravata como a tua está amarrada – e nem me chegarás aos pés. Falta-me dinheiro, eis a minha infelicidade.

8 de novembro.

Estive no teatro. Representaram uma peça russa, O Bobo Filatka. Houve também uma espécie de vaudeville com versos jocosos sobre os homens da lei, particularmente sobre um escrivão, em estilo bastante livre, de forma que estranhei como a censura deixara passá-los. A respeito dos comerciantes diziam abertamente que enganam o povo, que seus filhos vivem na pândega e procuram introduzir-se na nobreza. No tocante aos jornalistas, houve também um couplet muito engraçado, onde se dizia que estes gostavam de criticar tudo e por isso o autor pedia a proteção do público. Os autores de hoje escrevem peças muito divertidas. Gosto de ir ao teatro. Logo que me aparece um tostão no bolso, não posso afixar de assistir a uma representação, ao contrário de muitos de meus colegas funcionários que vivem como porcos. Um mujique não vai ao teatro a não ser quando lhe dão o ingresso de graça. Também houve uma atriz que cantava muito bem. Lembrei-me dela… alto, canalha… psiu!

9 de novembro.

Cheguei à repartição às oito horas. O chefe de seção fez como se não tivesse notado a minha chegada. Por minha parte, também fiz como se nada houvesse acontecido entre nós. Revi e cotejei alguns papéis. Às quatro horas saí, passei pelo gabinete do diretor, mas não vi ninguém. Depois do jantar, levei a maior parte do tempo na cama.

11 de novembro.

Ontem, sentado no gabinete do diretor, aparei para ele vinte e três penas, e para ela… ai de mim!… para S. Ex.ª, quatro. O diretor gosta de ter na mesa grande número de penas. Ih! deve ser um homem inteligente! Está sempre calado, mas dentro daquela cabeça, penso eu, há um mundo de meditações. Gostaria de saber sobre que coisa ele medita de preferência, o que é que projeta naquela cabeça. Gostaria também de ver mais de perto a vida desses senhores, todas essas complicações e truques da gente da corte, tudo o que fazem na sua roda… tudo isso eu teria vontade de saber. Por várias vezes tentei entabular conversação com S. Ex.ª, mas, com os diabos, a língua sempre se recusa a obedecer; chego apenas a dizer que faz frio ou faz calor, e decididamente não consigo articular nada além disso. Gostaria de dar uma olhada no salão, cuja porta de vez em quando vejo aberta, e ainda mais a um quarto atrás do salão. Ui! que linda decoração, que espelhos e porcelanas! Sim, gostaria de dar uma olhada no aposento em que vive S. Ex.ª. Eis o que eu gostaria de ver: o toucador, com todos os seus frasquinhos e potezinhos, todas aquelas flores que a gente chega a ter medo de cheirar, e todas as suas vestes espalhadas, mais semelhantes ao ar do que a vestidos. Teria vontade de ver um instante o seu quarto de dormir. Aquilo, penso eu, deve ser uma maravilha; aquilo deve ser um paraíso que nem no Céu. E olhar o escabelo sobre o qual ela costuma pôr os pezinhos ao se levantar da cama, e ver como os calça de meias brancas como a neve… ai de mim, ai de mim!… mas basta… psiu! Ontem, de repente fui como que iluminado por um clarão: lembrei-me da conversa dos dois cães que eu surpreendera no Nevski Prospekt. – “Muito bem – disse eu comigo – agora vou saber tudo. É preciso apoderar-me da correspondência trocada entre esses dois cachorros ordinários. Por ela provavelmente ficarei sabendo alguma coisa.” Confesso que já cheguei a chamar Medji e falar-lhe assim: – Olha, Medji, nós agora estamos aqui a sós; se quiseres, vou até fechar a porta para que ninguém nos possa ver. Conta-me tudo o que sabes a respeito de tua senhora, dize-me como ela é. Juro-te que não o revelarei a ninguém.

Mas a esperta cachorrinha encolheu o rabo, contraiu-se toda e saiu do quarto caladinha, como se nada tivesse ouvido. Suspeito há muito tempo que o cachorro é mais inteligente do que o homem. Estou até convencido de que sabe falar, apenas tem uma espécie de teimosia. É um político extraordinário: observa tudo, todos os passos do homem. Não, custe o que custar, hei de ir amanhã à casa de Zverkof, interrogarei Fidel, e, se for possível, interceptarei todas as cartas que Medji lhe escreveu.

12 de novembro.

Às duas da tarde pus-me a caminho com a intenção de visitar Fidel e de interrogá-la. Não posso suportar o cheiro de repolho que se exala de todos os armazéns da Rua dos Burgueses; além deste, da porta de todas as casas vieram fedores tão infernais que passei por elas correndo e tapando o nariz. Demais, os diabos daqueles operários deixam sair tanta fuligem e fumaça de suas oficinas, que não é absolutamente possível passear por ali. Chegando ao sexto andar, toquei a campainha. Apareceu uma criadinha de aparência não de todo má, de rosto sardento. Reconheci-a: era a mocinha que tinha estado com a velha. Corou ao ver-me, e eu compreendi de que se tratava. – Tu precisas, pombinha, é de um marido. – Que é que o senhor deseja? – perguntou-me. – Preciso falar com a vossa cachorrinha. Mas que criada tola! Logo vi como era estúpida. Ao mesmo tempo a cachorra acorreu latindo. Fiz menção de agarrá-la, mas o bicho ordinário quase que me abocanhou o nariz. Nesse meio tempo, percebi a um dos cantos uma cesta de esparto. Pois é disso justamente que eu preciso! Aproximei-me dela, revolvi a palha na caixa de madeira e com extraordinário prazer retirei da mesma um pacote de papeizinhos. Vendo isto, a danada da cachorra mordeu-me primeiro a barriga da perna; depois, ao farejar que eu levava os papéis, pôs-se a ganir, a fazer-me festa, mas eu lhe disse: – Não, minha pombinha, até logo. E fui-me embora correndo. A criadinha deve ter-me tomado por maluco, tal o medo que lhe causei. Chegando a casa, quis-me entregar imediatamente ao trabalho de decifrar as cartas, pois à luz das velas vejo bastante mal. Mavra, porém, tinha-se lembrado de lavar o soalho. Essas finlandesas idiotas lembram-se de limpeza sempre no pior momento. Diante disso fui dar uma voltinha a meditar o acontecido. Agora, de vez, acabarei por saber tudo; todos os pensamentos, todas as molas, tudo hei de descobrir. Essas cartas hão de me revelar tudo. Os cachorros são uma raça inteligente, conhecem todas as relações políticas, e, assim, sem dúvida tudo estará aqui dentro, o retrato e todos os negócios do homem.

Deverá também haver algo a respeito daquela que… mas – psiu!… À noitinha cheguei a casa. Passei a maior parte do tempo deitado na cama.

13 de novembro.

Pois bem, vejamos. A carta é bastante legível. Embora escrita em letra humana, tem algo de canino. Leiamos:

“Querida Fidel, não posso absolutamente acostumar-me ao teu nome burguês. Não podiam dar-te um nome melhor? Fidel, Rosa – soam tão vulgarmente! Mas deixemos isso de lado. Estou bem contente de havermos resolvido escrever-nos.”

A carta está escrita com muita correção. A pontuação, e até a letra iat, estão sempre bem empregadas. Nem o nosso chefe de seção escreve tão bem, embora afirme haver cursado a Universidade. Mas vamos adiante:

“Parece-me que partilhar com outrem os pensamentos, sentimentos e impressões é uma das maiores felicidades do mundo.” Hum! este pensamento é tirado de uma obra traduzida do alemão. Do título é que não me lembro. “Eu digo isto por experiência, embora não tenha corrido mundo além do portão de nossa casa. Será que a minha vida não é feliz? Minha senhorinha, a quem seu papai chama Sophie, ama-me loucamente.” Ai de mim! mas – psiu!… “O paizinho dela acaricia-me também freqüentemente. Bebo chá e café com creme. Ah, ma chère, devo dizer-te que não acho absolutamente nenhum gosto nos grandes ossos roídos que o nosso Polkan devora na cozinha. A mim só me interessam ossos de passarinhos de caça, e estes mesmos só quando ninguém lhes chupou o tutano. Gosto também de molhos misturados, contanto que não lhes ponham alcaparra nem legumes. Em compensação, para mim não há nada pior do que as bolinhas de pão amassado que se dão habitualmente aos cachorros. Um senhor qualquer, sentado à mesa, depois de pegar com as mãos qualquer porcaria, começa a amassar pão com essas mesmas mãos, chama a gente e põe-nos entre os dentes a bolinha. Recusar seria uma falta de consideração, e a gente engole, embora com nojo…” O Diabo que entenda isso! Que tolice! Falar em tal coisa como se não houvesse assunto mais interessante! Vamos ver na outra página. Talvez lá se encontre algo de mais sensato: “É com o maior prazer que te informarei de tudo o que acontecer em nossa casa. Já te falei da personagem principal da casa, a quem Sophie chama papai. É um homem muito estranho.” Até que enfim!

Aqui está: eu sabia que eles têm um olhar de político para tudo. Vejamos, pois, o que diz a respeito do papai: “É um homem muito estranho. Geralmente, mantém-se calado. Fala muito pouco. No entanto, há uma semana, falava sozinho sem parar, dizendo: – “Hei de ganhá-la ou não?” Pegava com uma das mãos um papel, fechava a mão vazia e perguntava: – “Hei de ganhá-la ou não?” Uma vez, até se dirigiu a mim com esta pergunta: – “Que pensas tu, Medji: hei de ganhá-la ou não?” Não podendo compreender absolutamente nada, cheirei-lhe as botas e fui-me embora. Depois, ma chère, ao cabo de uma semana papai apareceu em casa muito alegre. Durante toda a manhã vieram vê-lo senhores uniformizados e deram-lhe parabéns. À mesa ele estava tão contente como nunca o vi, chegou a contar anedotas. Depois do jantar, pôs-me no colo e disse: – “Olha, Medji, eis a tal coisa.” Vi uma espécie de fita. Cheirei-a, mas decididamente não lhe encontrei nenhum perfume. Depois, lambi-a devagar: tinha um gosto meio salgado.” Hum! essa cachorrinha me parece até de mais… Queira Deus não apanhe! Então ele é ambicioso? Devo tomar nota disso para meu governo. “Até logo, ma chère! Vou correndo, etc., etc.. Acabarei esta carta amanhã.” “Bom dia. Eis-me outra vez contigo. Ontem a minha senhora Sophie…” Ah! Vejamos o que faz Sophie. Alto, canalha… Psiu! Deixemo-la continuar: “Minha senhorinha Sophie passou o dia num alvoroço extraordinário. Preparava-se para ir ao baile, e eu, por minha vez, estava contente, porque na ausência dela posso escrever-te. Minha Sophie está sempre contentíssima quando pode ir ao baile, embora quase sempre se aborreça no momento de se vestir. Não posso compreender, ma chère, que prazer se pode sentir em ir ao baile. Sophie chega de lá às seis horas da manhã, e pelo seu ar pálido e exausto quase sempre concluo que não lhe deram de comer, coitadinha. Por mim, confesso, nunca poderia viver assim. Se não me dessem molho com perdiz ou asa de galinha assada… não sei o que seria de mim. Molho com mingau de aveia também é bom. O que, porém, nunca tolerarei, é cenoura, nabo e alcachofra.” É exatamente desigual esse estilo. Vê-se logo que o autor não é homem. Começa de um modo razoável e acaba caninamente. Vamos ver mais uma cartinha. Que compridas! Hum! nem põe data: “Ah, minha querida, como é evidente a aproximação da primavera! Bate-me o coração, como se esperasse alguma coisa. Nos meus ouvidos há como que um ruído perpétuo, a tal ponto que muitas vezes, levantando uma perna, fico parada à porta alguns minutos, atenta. Posso revelar-te que tenho muitos apaixonados. Muitas vezes, sentada à janela, observo-os. Se soubesses que monstros há entre eles!

Há um, de cara feia, um gozo idiota cuja estupidez está gravada no focinho, que passeia pela rua com ar importante e se crê uma personagem para quem se voltam todos os olhares. Pois está enganado. Eu não lhe dei atenção, fiz que não o via. Outro, um buldogue horrível, costuma parar diante da minha janela. Se se erguesse nas patas traseiras, coisa de que um vilão como ele provavelmente é incapaz, superaria de uma cabeça inteira o pai de nossa Sophie, que no entanto é de estatura elevada e corpulento. Esse bobalhão deve ser de uma impertinência insuportável. Rosnei um pouco para ele, mas ele fingiu não perceber. Se pelo menos soubesse fazer caretas… mas só sabe pôr a língua de fora e deixar cair as orelhas enormes, olhando para a janela que nem um mujique. Mas não penses, ma chère, que o meu coração é indiferente a todas as solicitações… ah, não… Se tu visses um cavalheiro que trepou na cerca da casa vizinha, chamado Tresor! Que focinho, ma chère!”

Ó diabo! Que porcaria! Como é possível encher páginas com semelhantes bobagens? Dai-me um homem! Quero ver um homem, preciso de um alimento que nutra e deleite a minha alma; em vez disso, vêm estas bobagens… Viremos a página, talvez o avesso tenha mais nexo:

“Sophie estava sentada à sua mesinha e cosia alguma coisa. Eu estava olhando pela janela, pois gosto de examinar os transeuntes. De repente entra o criado e anuncia o Sr. Teplof. – “Mande-o entrar” – exclamou Sophie. E correu a abraçar-me: – “Ah, Medji, Medji! se soubesses quem é! Um rapaz moreno, um fidalgo da corte. E que olhos! Pretos e luminosos como o fogo.” Nisto, correu para o seu quarto. Um minuto depois entrou o fidalgo da corte, de suíças negras; foi ao espelho, ajeitou os cabelos e girou o olhar pelo quarto. Rosnei um pouco e fui sentar-me no meu lugar. Sophie voltou depressa e curvou-se alegremente, batendo os saltos; mas eu, como se não tivesse visto nada, continuei a olhar pela janela, embora inclinasse a cabeça de lado e procurasse ouvir de que falavam eles. Ah, ma chère, que tolices conversavam! Comentaram, por exemplo, que uma das damas, em vez de executar determinadas figuras na dança, executara outras; que certo Bovof, com seus bofes de camisa, parecia uma cegonha, e quase caíra; que certa Lidina imaginava ter olhos azuis, quando na realidade os tinha verdes – e outras coisas parecidas. Como seria interessante – pensei – comparar esse gentil-homem com Tresor! Que diferença, meu Deus! Antes de tudo, o gentil-homem da Corte tem o rosto largo, completamente liso, e com suíças em redor, como se estivesse cercado de um lenço preto, ao passo que Tresor tem um focinho fino e, no meio da testa, uma mancha sem pêlo. A cintura de Tresor nem se compara com a do fidalgo. Quanto aos olhos, aos gestos, às maneiras, nada têm de comum. Que diferença!

Não sei, ma chère, o que ela encontra no seu Teplof, que está assim tão enlevada por ele…” A mim me parece que a coisa não deve ser tanto assim. Não é possível que ela esteja tão enlevada por Teplof. Mas vejamos:

“Se esse fidalgo lhe agradou, daqui a pouco a veremos gostar até daquele funcionário que está sentado no gabinete de papai. Ah, ma chère, se soubesses que cara horrorosa! Direitinho uma tartaruga num saco…”

Quem será esse funcionário? “Ele tem um nome muito esquisito. Está sempre sentado, aparando as penas. Os cabelos que tem na cabeça parecem palha. Papai o manda a toda parte como a um criado…”

Dir-se-ia que a ordinária da cadela se refere a mim. Mas onde é que eu tenho cabelos como palha?

“Ao olhar para ele, Sophie não pode absolutamente conter o riso.”

Estás mentindo, cadela danada! Que língua infame! Como se eu não soubesse de onde provêm todos esses truques: provêm do chefe de seção. Vê-se que o homem me votou um ódio de morte e agora me prejudica no que pode. Vejamos, no entanto, mais uma carta; talvez lá a coisa se explique por si mesma:

“Ma chère Fidel, perdoa-me haver passado tanto tempo sem te escrever. Estava completamente apaixonada. Teve plena razão o autor que escreveu que o amor é uma segunda vida. Além disso, há aqui em casa atualmente grandes transformações. O fidalgo vem agora todos os dias. Sophie está apaixonada por ele até à loucura. Papai anda muito contente. Já ouvi dizer ao nosso Gregório, que varre o chão e quase sempre conversa com os seus botões, que daqui a pouco haverá casamento, pois papai quer ver Sophie casada quanto antes com um general, um fidalgo da corte ou um coronel do exército…”

Com os diabos! Não posso ler mais… Por toda parte aparece um homem da corte ou um general. Por toda parte, tudo o que há de melhor no mundo é para fidalgos da corte ou generais. Encontra-se um pequeno tesouro, pensa-se atingi-lo com a mão – mas vem um general, e o arrebata. O Diabo os leve. Eu também desejaria tornar-me um general. Não era para obter a mão dela e o resto, não: queria ser general apenas para ver como eles me cortejariam, como me fariam toda espécie de cerimônias e salamaleques, e para depois lhes dizer que escarro em ambos. O Diabo os leve, a esses idiotas. Fiz em pedaços as cartas da cadela tola.

3 de dezembro.

Não pode ser! É mentira!

Esse casamento não se deve realizar. Que importa que ele seja um fidalgo da corte? Isto é apenas uma dignidade, não é nenhum sinal visível que se possa tocar com o dedo. O fato de ele ser fidalgo da corte não lhe acrescenta mais um olho à fronte. Também o nariz dele não é de ouro, é como o meu nariz ou como o de qualquer outra pessoa. Serve para cheirar e não para comer, para espirrar e não para tossir. Mais de uma vez procurei já elucidar de onde provêm todas essas diferenças. Por que eu sou conselheiro-titular? Que quer dizer ser eu conselheiro-titular? Talvez eu seja algum conde ou general, parecendo apenas conselheiro-titular. Talvez eu mesmo ignore quem sou. Veja-se quantos exemplos disso temos em toda a história: aparece um homem simples, nem sequer um nobre, mas um burguês qualquer ou até um camponês, e de um momento para outro se descobre que ele é algum magnata ou barão, ou coisa parecida. Quando de um simples mujique pode sair alguma coisa dessa espécie, o que não poderá sair de um nobre? De repente, por exemplo, eu apareço em uniforme de general, com dragonas no ombro esquerdo, dragonas no ombro direito, uma fita azul de um ombro ao outro – pois então? Em que tom me falará a minha bela senhorinha? Que dirá o pai dela, nosso diretor? Oh, ele é ambiciosíssimo; sem a menor dúvida, é maçom, por mais que procure fingir isto ou aquilo; percebi rapidamente que ele é maçom, porque, ao dar a mão a alguém, estende apenas dois dedos. Será que eu não posso neste mesmo instante ser nomeado general-governador ou intendente, ou algo de parecido? Gostaria de saber por que sou conselheiro-titular. Por que justamente conselheiro-titular?

5 de dezembro.

Toda a manhã de hoje li jornais. Na Espanha estão acontecendo coisas estranhas. Nem consegui analisá-las bem. Escreve-se que o trono está vago e os graúdos se encontram em grande embaraço quanto à eleição de um sucessor; daí provém grande indignação. Acho isso extremamente esquisito. Como pode um trono estar vago? Diz-se que ele deverá ser ocupado por certa doña. Mas uma dona não pode ocupar um trono, de maneira nenhuma. Um trono deve ser ocupado por um rei. Sim, diz-se – mas não há rei. É impossível que não haja rei. Não pode haver Estado sem rei. Há um rei; apenas, ele se encontra em lugar desconhecido. Talvez se encontre lá mesmo, mas algum motivo de família, ou o medo de qualquer potência vizinha, como a França ou outros países, ou algum outro motivo, o obrigue a se esconder.

8 de dezembro.

Pretendia ir hoje à repartição, mas diversos motivos e considerações me impediram de fazê-lo.

Aquele negócio da Espanha não me quer sair da cabeça. Como é possível que eles lá pretendam proclamar rainha a uma doña? Não se há de permitir isto. Antes de tudo, a Inglaterra não consentirá; depois, há a situação política de toda a Europa, o imperador da Áustria, o nosso czar… Confesso que estes acontecimentos me abateram e abalaram de tal forma que decididamente me foi impossível fazer qualquer coisa durante o dia ínterim. Mavra até observou que à mesa eu estava extremamente distraído. De fato, por distração deixei cair dois pratos, que se despedaçaram. Após o jantar fui passear ao pé das montanhas, porém nada consegui apurar durante o passeio. Depois passei a maior parte do tempo na cama a refletir sobre os negócios da Espanha.

Ano 2000, 43 de abril.

O dia de hoje é particularmente solene. A Espanha já tem rei. Ele foi encontrado, afinal. Este rei sou eu. Somente hoje é que o soube. Confesso, foi como se de repente um relâmpago me houvesse iluminado. Não compreendo como pude pensar e crer que era conselheiro-título. Como me pôde entrar na cabeça idéia tão extravagante? Felizmente ninguém se lembrou de me pôr numa casa de loucos. Tudo se esclareceu aos meus olhos. Agora vejo tudo claramente, como na palma da mão. Até hoje, não sei como, tudo diante de mim estava como que envolvido em uma espécie de névoa. E tudo isto, penso eu, vem do fato de que a gente imagina que o cérebro humano se encontra na cabeça. Pois absolutamente não: ele é trazido pelo vento do lado do Mar Cáspio. Para começar, anunciei a Mavra quem eu sou. Ao ouvir que tinha diante de si o rei da Espanha, bateu com uma das mãos na outra e por um triz não morreu de susto. Tolinha! nunca tinha visto o rei da Espanha. Mas eu procurei tranqüilizá-la e com palavras bondosas assegurei-a do meu favor, acrescentando que não estava nada aborrecido por ela às vezes me haver limpado mal as botas. Mas como essa gente é inculta! É impossível falar-lhe em assuntos elevados. Afavra espantou-se, porque está convencida de que todos os reis da Espanha sé parecem com Filipe II. Mas expliquei-lhe que entre mim e este último não há nenhuma semelhança.

Não fui à repartição. Diabo leve a repartição! Não, amigos, não me pegareis mais: não copiarei mais os vossos papéis sujos!

86 de martoubro, entre dia e noite.

Apareceu hoje aqui o executor para me dizer que eu devia voltar à repartição, aonde não comparecia havia três semanas.

Fui, pois,” à repartição, por brincadeira.

O chefe de seção pensava que eu ia cumprimentá-lo e pedir-lhe desculpa, mas encarei-o com indiferença, nem muito aborrecido nem muito benévolo. Sentei-me à minha mesa como se não tivesse visto ninguém. Olhei para toda aquela canalha administrativa e pensei: – “Se soubessem quem está sentado entre vocês! Deus do Céu! Seria uma confusão! O próprio chefe de seção se inclinaria tão profundamente como se inclina agora perante o diretor. Foram colocados diante de mim alguns papéis, para que eu fizesse um extrato deles. Ao fim de poucos minutos, houve um alvoroço geral. Disseram que vinha o diretor. Muitos funcionários correram à porfia para se apresentarem ante ele. Mas eu não me levantei do meu lugar. Quando o diretor passou pela nossa seção, todos abotoaram o casaco, menos eu. Quem é esse diretor para eu me levantar na frente dele? Nunca! Que diretor é ele? É uma rolha e não um diretor, uma simples rolha dessas que servem para tapar garrafas. O que me pareceu mais engraçado que tudo foi eles me empurrarem uns papéis para eu assiná-los. Pensavam que eu ia pôr o nome ao pé da folha: Fulano de Tal, chefe de mesa… Que esperança! Lancei no lugar principal, lá onde o diretor da repartição costuma pôr a sua firma: Fernando VIII. Era de ver que silêncio reverente se fez no mesmo instante. Fiz apenas um sinal com a mão, dizendo: – Dispenso qualquer homenagem de meus súditos! E saí. Fui direito ao gabinete do diretor. Ele não estava. No primeiro momento o lacaio não me quis deixar entrar, mas eu lhe disse umas coisas que o deixaram desarmado. Dirigi-me de chofre ao toucador. Ela estava sentada diante do espelho. Ergueu-se de um salto e fitou-me com espanto. Eu, porém, não lhe disse que era o rei da Espanha; limitei-me a comunicar-lhe que a esperava uma felicidade tão grande que ela nem podia imaginar, e que, apesar das intrigas dos inimigos, acabaríamos por nos unir. Foi tudo o que eu disse, e saí. Como é insidiosa a natureza feminina! Só agora cheguei a compreendê-la. Até agora ninguém tinha adivinhado de quem é que a mulher gosta; fui eu quem o descobriu. Não estou brincando. Os homens de ciência escrevem bobagens, afirmando que ela gosta disto ou daquilo. Pois bem, ela gosta unicamente do Diabo. Senão, vejam sobre quem assenta o binóculo, sentada num camarote de primeira fila. Pensam que é sobre aquele rapaz atarracado, de estrelas? Nada disso. Ela está olhando é paz: ao Diabo que fica atrás das costas ou se esconde no casaco dele. Ainda agora o Diabo lhe fez um sinal com os dedos. Ela vai casar com ele, vai mesmo. Vêem todos esses pais de alta categoria a insinuarem-se em toda parte, a treparem até à Corte, a proclamarem que são patriotas e mais isto e mais aquilo? Pois o que esses patriotas querem são rendas e nada mais!

Vendem a mãe, o pai, o próprio Deus, por dinheiro; são uns ambiciosos, uns vendilhões de Cristo! Tudo isso é ambição e provém do fato de haver debaixo da úvula uma vesícula e, dentro desta, um vermezinho do tamanho de um alfinete. Tudo isso é obra de um barbeiro que mora na Rua da Ervilha. Não lhe sei o nome, mas é sabido que ele com uma parteira procuram espalhar o maometismo por toda parte. Dizem que na França a maioria do povo já professa a fé maometana.

Data nenhuma. Foi um dia sem data.

Fui passear incógnito pelo Nevski Prospekt. Por ali passou o czar, de carruagem. Toda a gente tirou o chapéu, e eu também; não dei o menor sinal de que sou o rei da Espanha. Julguei inconveniente descobrir assim do pé para a mão a minha identidade a todos, pois convém que me apresente em primeiro lugar à Corte. O que me impediu de fazê-lo foi o não possuir um traje nacional espanhol. Se pelo menos pudesse arranjar algum manto! Primeiro quis encomendar um a um alfaiate, mas todos eles são burros, descuram de seu trabalho, atiram-se à especulação e ocupam-se com o calçamento das ruas. Tinha decidido transformar em um manto o novo uniforme de gala que só usara duas vezes ao todo. Mas para que esses tratantes não me estragassem a obra, resolvi eu mesmo cosê-lo e fechei a porta, que ninguém me visse. Talhei-o todo em pedaços com a tesoura, porque o corte deve ser totalmente diverso.

Não me lembro da data. Também mês não houve. Sabe o Diabo o que foi.

O manto está pronto. Ao ver-me vesti-lo, Mavra soltou um grito. Mas não quis ainda apresentar-me à Corte, porque até agora não vieram os emissários da Espanha. Sem emissários, o meu mérito não teria nenhum peso. Aguardo-os de uma hora para outra.

Dia 1.

Espanta-me a demora dos emissários. Que será que os detém? Será a França? Sim, é ela a potência mais desfavorável. Fui ao Correio saber se os emissários espanhóis já chegaram. Mas o chefe do Correio é de uma estupidez extraordinária, não sabe coisa alguma. – Não – disse-me – aqui não há emissários espanhóis de espécie alguma, mas se o senhor quiser escrever cartas, aceitá-las-emos pela tarifa oficial. Diabos te levem! Cartas, para quê? Escrever cartas uma tolice. Só os farmacêuticos é que escrevem cartas…

Madrid, 30 de fevereiro.

Eis-me, afinal, na Espanha. Tudo aconteceu tão depressa que mal pude voltar a mim. Hoje de manhã apareceram lá em casa os emissários espanhóis e me fizeram subir a um carro. A rapidez com que isto se verificou foi extraordinária. Andamos tão depressa que dentro de meia hora chegamos à fronteira espanhola. É verdade que agora em toda a Europa as estradas são de ferro e os vapores viajam a grande velocidade. Estranho país a Espanha: ao entrarmos na primeira sala, encontrei uma multidão de pessoas de cabeça rapada. Adivinhei logo que deviam ser os grandes de Espanha, ou então soldados, pois são estes que usam cabeça rapada. Pareceram-me sumamente estranhas as maneiras do chanceler do governo, o qual me pegou pela mão, arrastou-me a um pequeno quarto e disse: – Senta-te aqui, e se te tratares de rei Fernando, hei de tirar-te essa idéia da cabeça cem pancadas. Sabendo que aquilo era apenas uma provocação, respondi negativamente, ao que o chanceler me deu duas bastonadas nas costas, tão dolorosas que eu quase gritei. Mas contive-me, lembrado de que se tratava de uma cerimônia de cavalaria, um ato de investidura. Com efeito, na Espanha conservam-se até hoje as tradições da cavalaria. Deixado sozinho, resolvi consagrar-me a assuntos do governo. Descobri que a China e a Espanha formam um único país e só por ignorância são consideradas dois Estados diferentes. Aconselho a todos que escrevam num papel Espanha; sairá China.

Estou, porém, preocupadíssimo com um acontecimento que deverá verificar-se amanhã. Às sete horas da manhã produzir-se-á um fenômeno dos mais singulares: a Terra há de sentar-se na Lua. O famoso químico inglês Wellington trata disso. Confesso que sinto profunda inquietação ao imaginar a excessiva maciez e a fragilidade da Lua. Ela é feita regularmente em Hamburgo, e fazem-na muito mal. É estranho que a Inglaterra não tenha reparado neste fato. Quem a faz é um tanoeiro coxo e, ao que parece, louco, que não tem a menor idéia do que seja a Lua. Assim, põe-lhe uma corda com piche e óleo vegetal, e eis por que há em toda a Terra um tal fedor que a gente tem de tapar o nariz. Pela mesma razão a Lua é um globo tão pouco sólido que nela não pode viver gente de maneira alguma; quem vive lá são apenas os narizes. Nós justamente não vemos os próprios narizes porque eles se encontram todos na Lua. Ao refletir que a substância da Terra é muito pesada e pode reduzir os nossos narizes a farinha, fui presa de tamanha inquietação que, calçando meias e sapatos, me dirigi sem demora à sala do Conselho de Estado para mandar a polícia proibir que a Terra se sentasse na Lua.

Os grandes de cabeça rapada, convocados por mim em grande número à Sala do Conselho de Estado, mostraram-se muito inteligentes, e quando eu lhes disse: – “Meus senhores, salvemos a Lua, pois a Terra quer sentar-se nela!” – imediatamente correram a executar minha real vontade. Muitos deles treparam à parede para apanhar a Lua, quando entrou o grande-chanceler. Ao vê-lo, todos deitaram a correr e se dispersaram. Só eu fiquei ali, como rei. Mas, com viva surpresa minha, o chanceler esbordoou-me e mandou-me voltar ao meu quarto. Tamanha influência conservam na Espanha as tradições nacionais.

Janeiro do mesmo ano, mês que chegou depois de fevereiro.

Não posso compreender até agora que terra é a Espanha. Os hábitos nacionais e a etiqueta da Corte são sobremodo esquisitos. Não compreendo, não compreendo, decididamente não compreendo nada. Hoje raparam-me a cabeça, apesar de eu ter gritado com todas as forças que não me queria tornar monge. Nem me lembro mais do que fiz quando começaram a gotejar-me água fria na cabeça. Nunca tinha sentido dor tão infernal. Estava na iminência de enlouquecer, a tal ponto que só a custo me dominaram. Não posso absolutamente compreender o que significa essa estranha cerimônia. É uma cerimônia estúpida, absurda, e não compreendo a estupidez dos reis que não a aboliram. Considerando bem as coisas, pergunto a mim mesmo se não caí nas garras da Inquisição e se o homem que eu tornei por grande-chanceler não é o próprio Grande Inquisidor. Mas não entendo absolutamente como possa um rei ser submetido à Inquisição.

Tudo isso deve ser obra da França, sobretudo de Polignac! Que velhaco esse Polignac! Ele jurou-me ódio mortal. Ei-la a perseguir-me sem tréguas. Mas eu bem sei, meu amigo, quem te inspira: é o inglês. O inglês é um grande político. Insinua-se por toda parte. Todos já sabem que, quando a Inglaterra toma uma pitada, é a França quem espirra.

Dia 25.

Hoje o Grande Inquisidor entrou no meu quarto, mas eu, ouvindo-lhe de longe os passos, escondi-me debaixo de uma cadeira. Não me encontrando, ele começou a chamar-me. Primeiro gritou: – Poprichin! Porém eu não me mexi. Depois: Axenti Ivanof! Conselheiro-titular! Fidalgo! Continuei calado. – Fernando VIII, rei da Espanha! Quis pôr a cabeça de fora, mas depois refleti: – “Não, meu caro, não contes comigo. Já te conheço bem. O que tu queres é derramar-me de novo água fria na cabeça.” Mas ele acabou por me descobrir e fez-me sair do meu esconderijo a bengaladas. As pancadas daquela maldita bengala doem-me extraordinariamente. Tudo isso, porém, é compensado pela descoberta que fiz, a saber, que todos os galos têm uma Espanha, que guardam debaixo da asa. O Grande Inquisidor saiu furioso do meu quarto e ameaçou-me de novos castigos. Mas eu não me importo com a sua fúria impotente. Sei que ele age como máquina, como arma da Inglaterra.

Da 34 ta Ms/gdao orierevef /349.

Não, não tenho forças para agüentar mais! Meu Deus, que fazem eles comigo! Derramam-me na cabeça água fria. Não me dão a menor importância, não me vêem, não me escutam. Que mal lhes fiz? Por que me estão atormentando? Que é que eles querem desta pobre criatura? Que lhes posso dar? Não tenho nada. As minhas forças estão-se acabando, não suporto mais as torturas que me infligem, arde-me a cabeça. Tudo está rodando em torno de mim. Salvem-me! Tirem-me daqui! Dêem-me uma troika com cavalos tão velozes como a tempestade. Senta-te, meu cocheiro, repicai, meus guizos, arrebatai-me, meus cavalos, levai-me para longe desta terra, mais longe, mais longe ainda, para que eu não veja nada mais. Eis que o céu se desdobra ante os meus olhos, com uma estrelinha brilhando ao longe. Eis a floresta com árvores escuras sob o luar. Uma névoa cor de pomba flutua-me em volta dos pés; uma corda ressoa na névoa. De um lado vejo o mar, do outro a Itália; vejo também as choupanas russas. Não é a minha casa que azuleja ali? Não é minha mãe que está sentada à janela? Mãezinha, salva o teu pobre filho! Derrama-lhe lágrimas sobre a cabecinha doente. Olha como o torturam! Aperta ao peito o teu pobre órfão! Ele não tem mais lugar na Terra! Perseguem-no! Mamãe, tem piedade do teu filhinho doente! Vocês já sabem que o rei de Argel tem um tumor exatamente debaixo do nariz?

Extraído do blog Garganta da Serpente

O Tiro (Aleksander Pushkin)

I
Paramos na cidade de ***. Sabe-se o que é a vida de um oficial: de manhã, exercícios, instruções e manejo de armas; almoço na casa do comandante ou na taverna do judeu; à tarde, ponche e cartas. Em *** não havia nenhuma casa hospitaleira, nem jovem casadoura; assim, nos reuníamos uns nas casas dos outros, além dos nossos próprios uniformes, não víamos nada.Um único civil freqüentava nosso grupo. Teria uns 35 anos e por isso era tido como velho. Dava-lhe a experiência, ao nossos olhos, grande prestígio. Além disso, sua habitual carranca, modos ríspidos e língua maldizente exerciam forte impressão em nossos espíritos juvenis.Algum mistério envolvia o seu destino. Parecia russo, mas usava nome estrangeiro. Servira na cavalaria, com brilho até; mas, por motivo desconhecido, de repente pediu baixa e veio se estabelecer naquele lugarejo miserável, onde vivia, a um tempo, pobremente e com prodigalidade. Andava sempre a pé, trajando um velho casaco preto, mas, ao mesmo passo, mantinha mesa franca para todos os oficiais de nosso regimento. É verdade que o seu jantar consistia de dois ou três pratos preparados por um veterano; o champanha, porém, corria a jorros. Ninguém lhe conhecia a fortuna, nem as rendas, mas ninguém se atrevia a interrogá-lo a respeito. Tinha regular número de livros, na maioria obras militares, mas também alguns romances, que emprestava de boa vontade sem nunca os pedir de volta; tampouco devolvia os livros que lhe emprestavam. Seu principal exercício era o tiro de pistola. As paredes de seu quarto estavam crivadas de balas, todas fendilhadas, como favos de mel. Preciosa coleção de pistolas era todo o luxo da pobre casa em que vivia. Chegou a adquirir tão incrível habilidade que, caso se propusesse abater com uma bala o penacho de um capacete, nenhum de nós vacilaria em pôr a cabeça debaixo deste. Freqüentemente se falava em duelos. Sílvio (chamá-lo-ei assim) nunca tomava parte na palestra. Quando interrogado sobre se já lhe acontecera bater-se em duelo, respondia com secura, sem entrar em minúcias: via-se que tais perguntas não lhe agradavam. Supúnhamos que talvez lhe pesasse na consciência alguma infeliz vítima de sua terrível habilidade; porém, não nos passava pela cabeça que nele pudesse haver algo parecido com timidez. Há pessoas cujo aspecto basta para afastar suspeitas dessa ordem. Um acontecimento inesperado surpreendeu-nos.Certo dia, almoçávamos uns dez oficiais em casa de Sílvio. Bebemos como de costume, isto é, muitíssimo. Após o almoço começamos a persuadir o dono da casa a que bancasse. Silvio, que não jogava quase nunca, resistiu algum tempo; afinal, mandou trazer o baralho, atirou à mesa cinqüenta ducados e sentou-se para distribuir as cartas. Rodeamo-lo e principiou o jogo. Tinha ele por hábito manter-se em completo silêncio durante a partida, sem nada perguntar nem dar qualquer explicação. Se a um dos parceiros acontecia errar nos cálculos, ele de pronto lhe restituía o que recebera em excesso, ou anotava o excesso recebido pelo outro. Já sabíamos disso, e não o impedíamos de jogar conforme seu sistema, como bem entendesse. Havia entre nós, porém, um oficial transferido pouco antes para o nosso regimento. Este, jogando distraído, anunciou um tresdobro errado. Silvio pegou o giz e acertou a conta, segundo o seu hábito. Pensando que o banqueiro se enganara, o oficial entrou a explicar-se. Sílvio, sem responder, continuava a distribuir as cartas. Perdendo a paciência, o oficial tomou a esponja e apagou o que lhe parecia escrito a mais. Silvio retomou o giz e reproduziu a mesma anotação. Esquentado pelo vinho, pelo jogo e pelo riso dos colegas, o oficial julgou-se gravemente ofendido, agarrou com raiva um castiçal de cobre posto sobre a mesa, e arremessou-o contra Sílvio, que mal teve tempo de evitar o golpe, desviando-se com rapidez. Houve uma algazarra geral. Pálido de furor, Sílvio levantou-se e disse com os olhos cintilantes:— Tenha a bondade de sair, senhor, e agradeça a Deus que isso haja acontecido na minha casa.Não tínhamos a menor dúvida acerca das conseqüências e julgávamos nosso camarada um homem morto. O oficial saiu dizendo que estava pronto a responder pela ofensa como o senhor banqueiro julgasse conveniente. O jogo continuou ainda por alguns minutos; mas, sentindo que o dono da casa não tinha disposição para jogar, deixamo-lo, um após outro, e dispersamo-nos em direção aos nossos alojamentos, a conversar sobre a próxima vaga.No dia seguinte, no manejo, já perguntávamos uns aos outros se o pobre tenente ainda vivia, quando ele próprio surgiu em nosso meio. Entramos sem demora a interrogá-lo. Respondeu que não tivera notícia de Silvio, o que muito nos espantou. Fomos à casa deste, e o encontramos no quintal atirando uma bala sobre outra numa carta de ás colada no portão. Recebeu-nos como de costume e evitou comentar sobre o acontecido da véspera. Três dias se passaram, e o tenente ainda vivia. Todos se perguntavam, admirados: — “Será que Silvio não quererá se bater?” Pois não se bateu. Deu-se por satisfeito com uma explicação fútil e reconciliou-se.Esta atitude o prejudicou sobremodo na opinião da mocidade. O que os moços menos perdoam é a falta de coragem, pois geralmente vêem na ousadia a principal das virtudes viris e a desculpa de todos os defeitos. Tudo, entretanto, aos poucos foi sendo esquecido e Silvio tornou a adquirir sua influência.Só eu não pude reaproximar-me dele. Dotado de imaginação romântica, sentira-me atraído mais que os outros por aquele homem cuja vida constituía um mistério e que se me afigurava o herói de alguma história misteriosa. Ele gostava de mim; pelo menos eu era a única pessoa com quem ele punha de lado seu habitual tom áspero e sarcástico e palestrava sobre assuntos diversos, cordialmente e com graça. Porém, após aquela noite infeliz,, a idéia de que sua honra estava manchada e por sua própria vontade não fora lavada, essa idéia me largava e impedia-me de tratá-lo como dantes. Silvio, que muito inteligente e experimentado, não podia deixar de notar o meu procedimento e adivinhar-lhe os motivos, parecia magoado com ele. Ao menos duas vezes observei que desejava dar-me uma explicação, mas evitei as ocasiões e ele desistiu de procurá-las. Daí por diante, víamo-nos apenas em presença dos meus camaradas, e as nossas cordiais palestras de outrora nunca mais se repetiram.Os habitantes da capital, viciados em distrações, não fazem idéia de muitas impressões bem conhecidas dos habitantes das aldeias e pequenas cidades, como, por exemplo, a espera do dia do correio. Às segundas e sextas-feiras o escritório de nosso regimento se enchia de oficiais: um aguardava dinheiro, outro cartas, outro jornais. De ordinário, as encomendas eram abertas ali mesmo, as notícias comunicadas aos colegas, e o escritório ficava muito animado. Silvio também mandava dirigir a sua correspondência para o nosso regimento e regularmente vinha buscá-la. Certa vez foi-lhe entregue uma encomenda, cujo lacre ele quebrou com visível impaciência. Percorrida a carta, seus olhos fuzilaram. Os oficiais, cada qual preocupado com a própria correspondência, nada perceberam.— Senhores — disse Silvio —, há negócios que exigem a minha partida imediata. Partirei esta noite. Espero que não recusem meu convite para jantar comigo pela última vez. Aguardo-o também — acrescentou, dirigindo-se a mim. — Aguardo-o sem falta.Com essas palavras saiu apressado, enquanto nós, ajustado que nos reuniríamos outra vez na casa dele, fomos cada qual para seu lado.Cheguei à casa de Silvio na hora combinada, e ali encontrei quase todo o regimento. Tudo que Silvio tinha já estava empacotado; restavam apenas as paredes nuas, ostentando os buracos feitos pelos tiros. Sentamos. O dono da casa estava de muito bom humor, que em pouco tempo se comunicou a todos. Espocavam rolhas a cada minuto, copos espumavam, o vinho crepitava sem parar, e todos nós com a maior cordialidade desejamos ao amigo boa viagem e todas as venturas. Levantamos da mesa já noite alta. Quando da procura dos quepes, Silvio, despedindo-se de todos, segurou-me pelo braço e reteve-me no momento exato que eu ia sair.— Preciso lhe falar — disse-me.Fiquei.Os outros se foram e nós dois permanecemos sós, sentados um diante do outro a cachimbar em silêncio. Silvio parecia embaraçado. Da alegria convulsiva de pouco antes não havia o menor vestígio. Sua sinistra palidez, seus olhos fuzilantes e a espessa fumaça que lhe saía da boca davam-lhe um ar diabólico. Passaram-se alguns minutos, até que ele quebrou o silêncio.   — Talvez nunca mais nos vejamos — disse-me —, mas, antes de nos separarmos, queria-lhe dar uma explicação. Há de ter notado que ligo pouco ao que os outros pensam de mim. Mas gosto de você e sinto que me seria penoso deixar subsistir em seu espírito uma impressão injusta.    Interrompeu-se a fim de reencher o cachimbo. Eu mantinha-me calado, de olhos baixos. — Achou estranho — continuou — que eu não houvesse pedido satisfação àquele bêbado estouvado. Mas você há de convir que, tendo euo direito de escolher a arma, a vida dele estava em minhas mãos e a minha quase fora de perigo. Poderia dar-se como causa dessa moderação a minha generosidade, porém não quero mentir. Se pudesse castigá-lo sem arriscar de modo nenhuma minha vida, não lhe teria perdoado.Olhei Silvo com surpresa. Semelhante confissão acabou por me perturbar. Ele voltou a falar:— É isso mesmo. Não tenho o direito de me expor à morte. Há seis anos recebi uma bofetada, e o meu inimigo ainda está vivo.Espicaçou-me a curiosidade:— Então não se bateram? Algum obstáculo terá impedido o encontro?— Batemo-nos — retrucou Silvio —, e eis a lembrança do nosso duelo.Levantou-se e tirou de uma caixa um gorro vermelho com a borla e os galões de ouro e o pôs na cabeça. O gorro estava atravessado por uma bala uma polegada acima da fronte.— Você sabe que servi no regimento de hussardos de *** — continuou ele. — O meu caráter lhe é conhecido. Tenho o costume de sera.    o primeiro, e quando moço isto chegava a ser uma mania. Naquele tempo a briga estava na moda, e eu era o mais brigão do Exército. Nós nos vangloriávamos de grandes bebedeiras; cheguei a vencer em duelo o famigerado B***, cantado por D***. Os duelos ocorriam em nosso exército um por minuto: eu era testemunha ou participante ativo de todos eles. Meus colegas me admiravam; quanto aos comandantes, substituídos a cada momento, me consideravam um mal inevitável. Assim vivia gozando tranqüilamente (ou antes, inquietamente) a minha glória, quando um jovem oficial, de abastada e conhecida família, foi transferido para o nosso regimento. Nunca em minha vida vi tamanho felizardo. Imagine mocidade, espírito, beleza, a alegria mais louca, a mais despreocupada coragem, um nome conhecido, tanto dinheiro que ele nem chegava a contá-lo e que nunca lhe faltaria, e poderá calcular a impressão que ele produziu em nós. A minha hegemonia foi abalada. Seduzido pela minha fama, o jovem quis se fazer meu amigo, mas recebi¬b.    o friamente e ele se afastou de mim sem o menor pesar. Comecei a odiá¬lo. Seu êxito no regimento e na sociedade feminina levou-me a completo desespero. Entrei a provocá-lo, mas o moço respondia a meus epigramas com epigramas que sempre me pareciam mais picantes e agudos que os meus, e era, pelo menos, mais alegres, pois ele brincava e eu estourava de raiva. Enfim, certo dia, vendo-o no baile oferecido por um proprietário polaco, ser objeto da atenção de todas as damas, principalmente da dona da casa — a qual já tivera ligação comigo —, cheguei-me a ele e disse-lhe ao ouvido alguma vulgar insolência. Enfureceu-se e deu-me uma bofetada. Pegamos da espada; várias damas desmaiaram. Fomos, porém, separados. Na mesma noite devíamos encontrar-nos em duelo. Amanhecia. Eu, no lugar combinado, em companhia de três testemunhas, aguardava meu adversário com indizível impaciência. O sol da primavera já surgira e principiara a nos aquecer quando ele apareceu. Vi-o de longe. Vinha a pé, o capote sobre a espada, acompanhado de uma testemunha. Fomos ao seu encontro. Ele se aproximava segurando na mão o quepe cheio de cerejas. As testemunhas mediram os doze passos. Eu devia atirar primeiro, mas a emoção da raiva me era tão forte que não confiava na exatidão do meu tiro e, para ter tempo de me acalmar, cedi¬lhe o direito de atirar primeiro. Meu adversário não concordou. Ficou resolvido recorrermos à sorte. O primeiro tiro coube a ele, sempre favorito do destino. Apontou, e furou-me o gorro. Depois, foi a minha vez. Enfim, eu tinha sua vida em minhas mãos. Fitava-o com avidez, procurando descobrir pelo menos a sombra de uma inquietação. Ele estava diante de minha pistola, tirava do quepe as cerejas maduras e cuspia os caroços, que voavam até mim. Essa indiferença me exasperava. .— “Que me importa? — pensei — tirar-lhe a vida agora que ele a aprecia tão pouco?” Um pensamento perverso atravessou-me o cérebro. Baixei minha arma. — “Parece-me — disse-lhe eu — que está pouco disposto a morrer agora, pois resolveu tomar a merenda; não quero incomodá-lo”.   — “Você não me incomoda, absolutamente — respondeu ele — Tenha a bondade de atirar. Aliás, faça como entender. Fique com seu tiro; por mim, estarei sempre à sua disposição.” Dirigi-me às testemunhas e declarei que por enquanto não fazia questão de atirar. Assim, terminou o duelo. Renunciei à minha patente e exilei-me neste lugarejo. Desde então, porém, não decorreu um dia sem que eu pensasse na vingança. Afinal, chegou minha hora.    Tirou do bolso a carta recebida e passou-a às minhas mãos. Alguém informava-o de Moscou que “a pessoa em apreço” ia casar com uma rapariga jovem e bonita. .— Você já suspeita — continuou — quem é a “pessoa em apreço”. Vou partir para Moscou. Veremos se ele receberá a morte agora, na véspera de suas núpcias, como quando ia acolhê-la com cerejas na mão.Com estas palavras, levantou-se, atirou o gorro ao chão e pôs-se a andar pelo quarto como um tigre em sua jaula. Eu, que o tinha ouvido sem me mexer, sentia-me agitado por estranhos sentimentos contraditórios.Entrou um criado e anunciou que os cavalos estavam prontos. Silvio me apertou a mão com força. Abraçamo-nos. Sentou-se no carro, onde já se viam duas malas, uma com suas pistolas e outra com a sua bagagem. Despedimo-nos mais uma vez, e os cavalos partiram a galope.IICorreram alguns anos. Negócios de família me obrigaram a estabelecer-me numa aldeia no distrito de N***. Ocupado com meus bens, não parava de suspirar em silêncio pela minha antiga existência, ruidosa e despreocupada. O mais penoso para mim foi me acostumar a passar as noites de primavera e de inverno na solidão mais completa. Até o jantar, conseguia matar o tempo desta ou daquela maneira, conversando com o estarote, fiscalizando os trabalhadores, visitando as obras; mas, apenas começava a baixar a noite, não sabia o que fazer. Os poucos livros que achei debaixo dos armários e na despensa, já os sabia de cor; as fábulas que Kirilovna, a despenseira, conhecia, fizera-a contá-las várias vezes; as canções das camponesas só me despertavam saudades. Reconheço que havia ali um licor excelente, porém ele me dava dor de cabeça; aliás, confesso que receava tornar-me um beberrão, um desses ébrios inveterados de que tantos tipos havia em meu distrito. Vizinhos próximos, não os tinha, a não ser dois ou três daqueles ébrios, cuja conversação se constituía principalmente de soluços e suspiros. Preferível a solidão.A quatro verstas de mim havia uma rica propriedade, pertencente à Condessa B***, porém só o administrador vivia ali. A Condessa não visitara a sua propriedade senão uma vez só, no primeiro ano de seu casamento, e mesmo então não passara lá mais de um mês. Mas durante a segunda primavera do meu isolamento correu a notícia que ela viria como marido veranear na sua aldeia. Chegaram os dois, no começo de junho.A chegada de um vizinho rico é um acontecimento na vida dos aldeãos. Os fazendeiros e sua criadagem comentam-na dois meses antes e três anos depois. De mim, confesso que a notícia da chegada de uma vizinha jovem e bonita me provocou forte impressão. Ardia de impaciência por vê-la, e logo no primeiro domingo seguinte à sua vinda, após o almoço, pus-me a caminho da aldeia para me apresentar a ela como seu vizinho mais próximo e seu mais humilde criado.– Um lacaio me introduziu no gabinete do Conde e saiu para me anunciar. O gabinete era ornado com o maior luxo possível. Ao longo das paredes viam-se estantes com livros, um busto de bronze sobre cada uma delas; sobre a lareira havia um grande espelho; o chão estava coberto de estofo verde e tapetes. Havendo perdido, no meu cantinho pobre, o hábito do luxo, e não tendo contemplado, desde muito, a riqueza alheia, fiquei acanhado e aguardei o Conde com a timidez dum solicitante provinciano à espera do ministro. Abriram-se as portas. Entrou um rapaz dos seus trinta e dois anos, de bela aparência. Aproximou-se de mim com fisionomia aberta e amiga. Peguei a retomar coragem, e ia dar os cumprimentos de praxe, porém ele me precedeu. Sentamo-nos. A sua palestra, fluente e cortês, logo me dissipou a reserva de solitário, e já voltava a adotar minhas maneiras normais, quando de repente entrou a Condessa, tornando-me ainda mais enleado. Era realmente de uma grande beleza. O Conde fez a apresentação. Eu queria mostrar-me à vontade, mas quanto mais procurava assumir um ar desembaraçado, tanto mais crescia em mim o sentimento de minha bronquice. Meus hospedeiros, para me darem tempo de reassumir uma atitude e de me acostumar aos novos conhecidos, puseram-se a falar entre si, tratando-me sem constrangimento como a um bom vizinho. Nesse ínterim, pus-me a passar pela sala, observando os livros e os quadros. Não sou conhecedor de pintura, mas um destes me atraiu a atenção. Representava alguma paisagem da Suíça, porém o que me surpreendeu não foi a arte do pintor, e sim o fato de estar o quadro furado por duas balas, alojadas quase no mesmo ponto.– Um belo tiro — disse eu, dirigindo-me ao Conde.– Sim — respondeu —, um tiro notável. O senhor atira bem?– Regularmente — repliquei, contente de ver enfim a conversatomar um rumo que me era familiar. — A trinta passos de distância não erro a dama de uma carta; bem entendido, quando atiro com pistola que já conheço.– É verdade? — perguntou a Condessa com visível atenção.– E tu, meu amigo, acertarás também uma carta a trinta passos?– Temos de experimentá-lo uma vez — respondeu o Conde.– Tempos atrás eu não era mau atirador, mas agora já faz quatro anos que não pego uma pistola.– Assim sendo — observei —, aposto que V. Excia. Já não acerta na carta nem sequer a vinte passos. A pistola exige exercício cotidiano. Eu o sei por experiência própria. No regimento, passava por um dos melhores atiradores. Aconteceu-me certa vez não pegar na pistola durante um mês inteiro; as minhas estavam em conserto. Acreditarão que quando voltei a atirar pela primeira vez, errei quatro vezes sucessivas uma garrafa a vinte e cinco passos de distância. Havia entre nós um capitão, homem espirituoso, gracejador, que estava presente nessa ocasião e que me disse: — “Até parece, amigo, que a tua mão é incapaz de fazer mal a uma garrafa.” Não, Excelência, não devemos descuidar do exercício; sem ele, a gente perde totalmente o hábito. O melhor atirador que tive oportunidade de encontrar atirava todos os dias pelo menos três vezes antes do almoço. Para ele, isto se tornara um hábito como o copo de vodca.O Conde e a Condessa pareciam contentes de me ouvir.– Como é que ele atirava? — perguntou o Conde.– Fazia assim. Via, por exemplo, uma mosca pousada na parede… está rindo, Sra. Condessa? Palavra de honra, estou dizendo a verdade. Bem, via uma mosca pousada na parede. Gritava: — “Kuzka, uma pistola!” Kuska trazia a pistola carregada. Pum! E lá estava a mosca achatada contra a parede!– É incrível! — disse o Conde. — Como se chamava ele?– Sílvio, Excelência.– Sílvio! — exclamou o Conde, levantando-se d um pulo. — O senhor conheceu Silvio?– Como não o teria conhecido, Excelência? Éramos amigos. Ele era recebido em nosso regimento como um camarada. Há cinco anos, porém, que não tenho nenhuma notícia a respeito dele. Então V. Excia. também o conhecia?– Conheci-o bastante. Ele não lhe terá falado de certo incidente estranho?    — V. Excia. Alude à bofetada que ele levou num baile, de certo doidivanas?– Ele disse-lhe o nome desse doidivanas?– Não, Excelência, não me disse… Ah, Excelência — continuei, começando a suspeitar a verdade —, perdoe… eu não sabia… será que foi V. Excia?– Fui eu mesmo — respondeu o Conde com ar muito perturbado. — O quadro atravessado de balas é a lembrança do nosso último encontro.– Meu querido — interrompeu-o a Condessa —, não o conte, pelo amor de Deus; tenho medo de ouvi-lo.– Não — objetou o Conde —, vou contar tudo. Ele sabe como eu ofendi o seu amigo, deve saber também como Silvio se vingou de mim.– Nisto, puxou uma poltrona e fez-me o seguinte relato, que escutei com a mais viva curiosidade.– Casei-me há cinco anos. Viemos passar nesta aldeia o primeiro mês, a lua-de-mel. Devo a esta casa os minutos mais belos da minha vida, mas também uma das minhas recordações mais penosas. Uma tarde fomos dar um passeio a cavalo. Não sei por quê, a montaria de minha mulher empacou; ela assustou-se, entregou-me o cabresto e voltou para casa a pé. Fui na frente dela. No quintal vi uma caleça de viagem, e o criado anunciou-me que havia no meu gabinete um rapaz que não queria dizer o nome, mas insistia em falar comigo. Entrei aqui, nesta sala, e vi na escuridão um homem coberto de poeira, com a barba crescida. Estava aqui, perto da lareira. Aproximei-me dele, procurando lembrar-me dos seus traços. — “Não me reconheces, Conde?” — disse-me com voz trêmula. — “Sílvio!” — exclamei, e confesso que senti os cabelos arrepiarem-se. — “Exatamente — replicou —, vim para descarregar a minha pistola. Estás pronto?” A arma lhe emergia de um dos bolsos. Medi a distância de doze passos e parei lá no canto, pedindo-lhe que atirasse logo, antes de minha esposa voltar. Mas ele se demorou, pediu luz. Mandei trazer velas, fechei as portas, ordenei que não entrasse ninguém e pedi outra vez a Sílvio que atirasse. Ele ergueu a pistola, aprontou… Eu contava os segundos… pensava nela… Passou-se um minuto horrível. Silvio baixou o braço. — “Sinto muito — disse — que a minha pistola não esteja carregada de caroços de cereja… a bala é pesada. Parece-me que o que estamos praticando não é um duelo, mas um assassinato. Não estou acostumado a atirar contra pessoas desarmadas. Principiemos outra vez, vamos decidir pela sorte quem deverá atirar primeiro.” A cabeça rodava-me… parece que não quis consentir. Por fim, carregamos outra pistola, ele enrolou dois bilhetes e colocou-os no gorro atravessado outrora pelo meu tiro; outra vez o primeiro lugar coube a mim. — “Tens uma sorte dos diabos, Conde”, — disse-me com um sorriso de escárnio que jamais esquecerei. Não compreendo o que me aconteceu, como ele pôde obrigar-me a isso… o fato é que atirei e a minha bala furou aquele quadro. (O Conde apontou-me com um dedo o quadro furado. Tinha o rosto em brasa. A Condessa estava mais pálida que o seu lenço; por mim, não pude conter uma exclamação.) Atirei — prosseguiu o Conde —, e, graças a Deus, errei o alvo; entoa Silvio, que naquele momento foi deveras terrível, pôs-se a mirar-me outra vez. De súbito abriu-se a porta, Macha entrou correndo e com um grito lançou-se-me ao pescoço. A presença dela restituiu-me a coragem. — “Querida — disse —, não vês que estamos brincando? Como te espantaste! Vai, bebe um pouco d’água e volta aqui; vou apresentar-te um velho amigo e camarada.” Macha porém continuava intranqüila: — “Diga-me, senhor: meu marido está falando a verdade? — perguntou, voltando-se para o terrível Sílvio.— É verdade que os dois estão brincando?” — Ele brinca sempre, Condessa, — respondeu Silvio. — Certa vez, por brincadeira, deu-me uma bofetada; outra vez, por brincadeira, furou-me este gorro com uma bala. Agora mesmo, brincando, por um triz não acertou em mim. Mas agora sou eu que tenho vontade de brincar…” A esta palavra, fez menção de alvejar-me na presença dela! Macha atirou-se-lhe aos pés. — “Levanta¬te, Macha! — gritei, furioso. — Tem vergonha! E o senhor não vai deixar de atormentar essa pobre mulher? Quer atirar ou não?” — “Não quero — respondeu Sílvio — Estou satisfeito. Vi a tua confusão, o teu medo. Forcei-te a atirar em mim, estou satisfeito. Lembrar-te-ás de mim. Entregou-te à tua consciência.” Nisto ia sair, mas se deteve à porta, olhou para o quadro furado pelo meu tiro, atirou contra ele quase sem apontar, e desapareceu. Minha mulher tinha desmaiado; os criados não se atreviam a detê-lo e miravam-no estupefatos. Ele saiu pela escadaria, chamou o cocheiro e desapareceu antes mesmo que tivesse tempo de tornar a mim.O Conde calou-se. Destarte vim a saber o fim de uma história cujo começo me enchera outrora de espanto. Quanto ao herói dela, nunca maiso encontrei. Contam que Sílvio, no momento da expedição de Alexandre Ypsilanti, comandava destacamento de heteristas e morreu na batalha de Skuliani.

Ruivo (Maksim Górki)

Não há muito tempo, um homem de uns quarenta anos, chamado Vaska e apelidado “Ruivo”, era empregado numa casa de prostitutas de uma cidade do Volga. Devia o apelido ao seu cabelo, que era de um vermelho brilhante e ao seu rosto gordo, que tinha a cor de carne crua.
Com lábios muito grossos e orelhas que se destacavam da cabeça como as asas de um grande vaso, o que nele mais chamava a atenção era a expressão cruel de seus olhos pequenos e incolores. Afundados nas órbitas, brilhavam como dois pedaços de gelo e, apesar da aparência robusta e bem alimentada de seu possuidor, tinham sempre expressão faminta, de uma fome voraz e desesperada.
Baixo e troncudo, usava eternamente uma blusa cossaca, azul, largas calças de lã e botas altas de couro pregueado, sempre bem engraxadas. Seus cabelos encaracolados, quando ele punha seu elegante gorro de peles, formavam uma franja e davam a impressão de que uma grinalda vermelha lhe coroava a cabeça.
Era chamado ruivo por seus camaradas; as mulheres chamavam-no Carrasco, porque ele gostava de torturá-las.
Havia na cidade muitos institutos de ensino superior, e muita gente moça; por isso, a zona de prostituição era todo um bairro, incluindo uma longa avenida e ruas transversais. Vaska era conhecido em todas as casas. Só o seu nome bastava para aterrorizar as mulheres, e quando elas brigavam entre si, ou discutiam com a patroa, esta ameaçava:
– Cuidado! Não me aborreçam, senão eu chamo o Ruivo!
Geralmente esta ameaça era suficiente para acalmar as mulheres e fazê-las esquecer suas queixas, que eram às vezes perfeitamente justas e razoáveis, como, por exemplo, as que se referiam à comida que lhes serviam, ou à proibição de deixar a casa, para dar um passeio.
Mas se a ameaça não fosse suficiente, a patroa mandava chamar Vaska.
Ele vinha, no passo calmo de um homem despreocupado, fechava-se na sala com a patroa, sem fazer comentários, ouvia a narração do crime e o nome da culpada. No fim, dizia simplesmente:
– Está bem…
E punha-se em campo. As mulheres ficavam pálidas e tremiam à sua vista. Ele notava isso, e saboreava-lhes o medo. Se a cena ocorria na cozinha, onde geralmente as mulheres almoçavam ou tomavam chá, ele ficava muito tempo na porta, de pé, olhando para elas, silencioso e imóvel como uma estátua – e elas sofriam tanto naqueles instantes como durante as torturas físicas que ele lhes infligia.
Quando se cansava de contemplá-las, dizia, num tom indiferente, seco:
– Machka, venha cá…
– Vassili Mironich! – a indicada às vezes dizia, numa voz dolorida mas firme — Não me toque! Se você me bater, se você me bater… eu me enforco!
– Venha cá, sua boba, eu te darei a corda… — respondia Vaska, descuidadamente, sem sequer dar à voz um tom de desprezo.
Ele preferia sempre que as culpadas viessem até ele voluntariamente, por si mesmas.
– Eu pedirei socorro!… Eu quebrarei a vidraça!… – desfalecendo de medo, a mulher enumerava tudo o que faria.
– Quebra a vidraça… Eu te farei engolir o vidro. — respondia Vaska.
E na maioria das vezes a recalcitrante desanimava, e caminhava até ele. Se isso demorava muito, Vaska aproximava-se dela, agarrava-a pelos cabelos, e atirava-a ao chão. Eram as próprias amigas da vítima, sofrendo às vezes tanto como esta, que lhe amarravam os pés e as mãos, amordaçavam-na, e a abandonavam ao Carrasco. E ali mesmo, sobre o chão da cozinha, diante de todos, ele executava o castigo.
Se se tratava de uma moça corajosa, capaz de se apresentar na polícia, ele cobria-lhe as costas com um lençol úmido, o que impedia a formação de vergões, e a espancava com uma pesada cinta de couro, que não cortava a pele. Longos cilindros de panos, cheios de areia e pedregulho bem moído, podiam também ser usados. Um golpe nos quadris com semelhante instrumento causa uma dor profunda, que custa a passar…
Contudo, a crueldade da punição dependia mais do tamanho da culpa e da disposição do Ruivo do que do caráter da vítima. Às vezes, mesmo as temerárias ele espancava impiedosamente, sem tomar nenhuma precaução.
Trazia sempre consigo, no bolso traseiro, um chicote formado por três correias presas a um cabo curto de madeira, já polido pelo uso; enrolada em cada correia havia uma espiral de arame fino, que formava uma bainha na ponta. Esse chicote penetrava até os ossos, e, geralmente, para aumentar a dor, o Ruivo aplicava sobre os cortes um emplastro de mostarda, ou panos embebidos em salmoura.
Durante os espancamentos Vaska não demonstrava nenhuma emoção: era sempre o mesmo homem impassível e taciturno, mas seus olhos nunca perdiam a expressão faminta. Apenas, de vez em quando, ele franzia as sobrancelhas, o que tornava seu olhar ainda mais penetrante.
Seus processos de tortura não se limitavam aos diferentes meios de surrar. A imaginação de Vaska era inexaurível no que se referia à invenção de coisas novas e, sem dúvida, ele atingia de quando em quando a máximos de refinamento em suas criações, como, por exemplo, no caso de Vera Kopteva.
Vera trabalhava em uma das boas casas e foi acusada de ter roubado cinco mil rublos de um freguês. Esse freguês, um negociante siberiano, declarou à polícia que estivera no quarto de Vera com esta e uma outra moça, Sara Sherman. Após uma hora mais ou menos, Sara fora-se e ele passara o resto da noite com Vera, na companhia de quem se embebedara.
O processo seguiu seu curso normal. As investigações arrastaram-se como de direito, ambas as acusadas foram presas, julgadas e, por insuficiência de provas, absolvidas.
Contudo, quando chegaram a casa, de volta do tribunal, foram submetidas a nova investigação: a madame estava convencida de que elas eram culpadas e queria sua parte no roubo.
Sara conseguiu provar que nada tinha a ver com o negócio e a patroa resolveu forçar Vera a indicar-lhe onde escondera o dinheiro. Para tal, trancou-a na casa de banhos e sujeitou-a a uma dieta de caviar salgado. Apesar disso, Vera não confessou. Tornou-se necessário recorrer à intervenção de Vaska. A cafetina prometeu-lhe cem rublos pela descoberta do dinheiro.
No meio da noite, o carrasco apareceu diante de Vera, que jazia encolhida num canto do aposento, atormentada pela sede, pela escuridão e pelo medo. Do peito peludo de Vaska desprendia-se uma fumaça azulada que cheirava a enxofre; no lugar de seus olhos estavam duas brasas fosforescentes. Ele chegou o rosto bem perto da mulher e gritou, numa voz aterrada:
– Você roubou! Confesse!
Ela enlouqueceu de terror.
Era inverno. Na manhã seguinte, descalça, pisando a neve funda do pátio, vestida apenas com uma combinação, Vera foi trazida da casa de banhos para o edifício principal. Ela veio rindo baixinho e repetindo alegremente:
– Amanhã eu irei de novo à missa, com mamãe. Irei de novo à missa!
Quando Sara Sherman a viu nesse estado, disse bem alto, na frente de todos, em tranqüila estupefação:
– Mas fui eu que tirei o dinheiro.
Era difícil saber se as mulheres odiavam Vaska mais do que o temiam.
– Todas entregavam-se a ele, tentando ganhar-lhe a simpatia. Todas ansiavam pela honra de ser sua favorita. Ao mesmo tempo, sem que Vaska soubesse, instigavam os fregueses mais amigos e os colegas de Vaska para que lhe dessem uma sova. Mas ele era incrivelmente forte e nunca se embebedava. Seria difícil vencê-lo. Mais de uma vez colocaram arsênico em sua comida, em seu chá, em sua cerveja, e um dia ele chegou a ser envenenado, mas curou-se. Um certo instinto prevenia-o das ciladas que lhe armavam. Contudo, pelo menos aparentemente, o conhecimento do risco que corria por viver entre incontáveis inimigos não aumentava nem diminuía sua fria crueldade para com as mulheres. Com sua habitual impassibilidade, costumava dizer:
– Eu sei que vocês me reduziriam a cacos, se pudessem… Mas não se preocupem. Nada me acontecerá.
E apertando os lábios grossos, fungava na cara das mulheres. Era seu modo de rir-se delas.
Seus companheiros eram empregados nas outras casas, inspetores de polícia, detetives privados – a espécie de gente que vive em redor das prostitutas. Mas, mesmo entre eles, não tinha amigos. Não havia um só de seus conhecidos que gostasse de ver mais do que os outros. Tratava-os a todos com a mais completa indiferença. Bebia com eles, conversava em sua roda sobre os escândalos que todas as noites surgiam na zona. Contudo, nunca deixava a casa em que era empregado; a não ser a serviço, isto é, para administrar uma surra, ou como ele dizia, para infundir o temor de Deus na alma de alguma perdida.
A casa de que tomava conta era de tipo médio. Três rublos para entrar, cinco para passar a noite. A proprietária, Fekla lermolaievna, era uma cinqüentona corpulenta, estúpida mas maliciosa. Considerava muito Vaska, apesar de temê-lo também, e pagava-lhe quinze rublos por mês, dando-lhe ainda casa e comida. Ele morava num pequeno quarto no segundo andar e, graças a ele, reinava na casa a mais perfeita ordem. As onze mulheres que moravam no estabelecimento viviam mansas como cordeiros.
Quando a proprietária estava de bom humor, conversava com os fregueses, e discorria sobre suas mulheres como quem se refere a porcos ou vacas.
– As minhas são de primeira classe – dizia, sorrindo, cheia de orgulho. — São todas novinhas e sadias. A mais velha tem vinte e seis anos. Claro, ela não é uma pessoa com quem se possa ter uma conversa interessante, mas, em compensação, que corpo! Olhem para ela: uma maravilha! Ksiuchka, venha cá…
Ksiuchka vinha, rebolando como um pato. O freguês a examinava, com maior ou menor atenção, e sempre ficava satisfeito com seu corpo.
Ksiuchka era uma moça de altura média, rechonchuda, e dava a impressão de ter sido talhada numa só peça, tão firmes eram as linhas de seu corpo. Tinha seios altos e fartos, rosto redondo, a boca pequena, de lábios grossos, vermelhos e brilhantes. Seus olhos, vazios e absolutamente desprovidos de expressão, pareciam os de uma boneca. O nariz chato e uma franjinha que lhe cobria a testa, tornavam ainda mais acentuada a sua aparência de boneca, e destruíam no menos apressado dos fregueses o desejo de entabular conversação, qualquer que fosse o assunto. Por isso, todos se limitavam a dizer-lhe:
– Venha.
E ela ia, no seu andar bamboleante, sorrindo seu sorriso sem sentido, e rolando os olhos de um lado para o outro. Isto lhe fora ensinado pela madame e se destinava a “seduzir o freguês”. Tinha de tal modo acostumado os olhos a essa operação que a iniciava no momento em que, ao cair da noite, vestida a caráter, entrava no salão ainda vazio. E seus olhos não paravam até à madrugada, não importando que estivesse sozinha, ou apenas com as outras mulheres. Tinha ainda outro hábito curioso: costumava enrolar sua longa trança cor de junco novo em volta do pescoço, deixando cair a ponta entre os seios, onde a segurava com a mão esquerda, como se eternamente usasse um laço ao pescoço.
Sua história, como ela a contava, era curta e sem interesse. Dizia chamar-se Aksinia Kalugina, ter nascido na província de Riasan e ter um dia “pecado” com Fedka, e por isso dado à luz uma criança. Como ama de leite, viera para a cidade com a família de um oficial reformado, mas perdera o emprego porque seu filho morrera. Então, fora “contratada” pela dona do bordel. E ali estava há quatro anos…
– Gosta disso aqui? — perguntavam-lhe.
– Não tenho queixa. Há bastante comida, tenho sapatos, roupa… Pena é que não se tem sossego… E ainda há Vaska… Ele bate na gente, o demônio.
– Mas aqui… é alegre?
– Onde? — indagava — virando a cabeça e correndo os olhos pela sala, como se quisesse saber onde o freguês tinha visto a alegria.
Em torno dela havia ruído e algazarra, e tudo ali lhe era familiar, a madame, as outras mulheres, as tábuas do forro, tudo.
Falava numa voz cheia e grave, e ria só quando lhe faziam cócegas, e o riso fazia tremer-lhe o corpo inteiro, um riso alto e grosseiro, como o de um mujik. A mais estúpida e sadia das mulheres era talvez a menos infeliz.
Naturalmente, era na casa onde trabalhava que Vaska era mais temido e mais odiado. Quando bêbadas, as mulheres não escondiam seus sentimentos, e abertamente queixavam-se de Vaska aos seus fregueses. Mas, como afinal os fregueses não tinham vindo ali para defendê-las, essas queixas não tinham sentido nem resultado. Às vezes uma das moças levava suas lamúrias até ao histerismo, com gritos e choro. Se Vaska a ouvia, sua cabeça vermelha aparecia na porta, e ele dizia na sua voz oca e indiferente:
— Ei!… Você aí, não seja criança.
— Carrasco! Monstro! – gritava a mulher. – Você me desfigurou! Olhe, moço, olhe como ele deixou as minhas costas! — e a mulher tentava rasgar a combinação para mostrar as cicatrizes.
Nessa altura Vaska aproximava-se, tomava a mão da moça, e sem mudar de voz — o que era particularmente terrível —• repreendia-a:
– Não faça barulho! Vamos! Veja o que está dizendo! Cuidado!
As mulheres nunca tinham ouvido de Vaska uma palavra amável, se bem tivesse dormido com quase todas elas. Ele as tomava sem a menor cerimônia. Se uma o agradava, dizia:
– Hoje, vou ficar com você.
E dormia com ela durante alguns dias, semanas, até que, sem explicações, deixava de procurá-la.
— Que demônio! – diziam dele as mulheres. – Parece feito de pedra!
Na casa em que vivia fizera isso com quase todas as mulheres, inclusive com Aksinia. E foi numa das ocasiões em que Aksinia era a favorita que ele lhe deu uma surra impiedosa.
Sadia e preguiçosa, ela gostava muito de dormir, e às vezes adormecia na sala, apesar de todo o barulho. Sentada num dos cantos cessava bruscamente de “seduzir o freguês” com seus estúpidos olhos, que, de repente, se fixavam em alguma coisa; logo suas sobrancelhas desciam vagarosamente, enquanto seu lábio inferior caía um pouco, descobrindo-lhe os dentes grandes e brancos. E, tranqüilamente, começava a roncar, o que provocava verdadeiros acessos de riso entre os fregueses e as outras mulheres. Mas esse riso não acordava Aksinia.
Isso acontecia freqüentemente. Madame gritava com ela e a esbofeteava, mas isso não afugentava seu sono. Aksinia chorava de novo um pouco, e adormecia.
E assim foi, até o Ruivo entender que era tempo de tomar providências.
Uma noite, quando a moça adormeceu num sofá, ao lado de um freguês bêbado que também cochilava, Vaska puxou-a pela mão, acordou-a e, sem dizer nada, levou-a com ele.
– Você vai me bater, de verdade? – perguntou Aksinia.
– É preciso – disse Vaska.
Quando chegaram à cozinha, ele lhe ordenou que se despisse.
– Ao menos não me machuque muito – pediu ela.
— Vamos com isso, vamos…
Antes de tirar a camisa, ela deteve-se.
– Isso também – ordenou Vaska.
– Como você é ruim — suspirou a rapariga, pondo-se nua.
Com a correia, Vaska deu-lhe o primeiro golpe, nas espáduas.
– Vamos para o quintal!
– Vaska, por favor! Estamos no inverno! Vou gelar!
Ele empurrou-a porta a fora, batendo-lhe até chegarem ao quintal. Lá, ordenou-lhe que se deitasse sobre um monte de neve.
– Vaska… como é que você pode fazer isso?
– Vamos, vamos!
Para que seus gritos não pudessem ser ouvidos, ele empurrou-lhe a cabeça, afundando-a na neve, e surrou-a por muito tempo, repetindo a cada golpe:
– Não durma, não durma, não durma…
Quando ele a soltou, entre soluços e lágrimas a rapariga exclamou:
– Você não perde por esperar, Vaska! Há de chegar o seu dia!… Você há de chorar, também! Há um Deus, Vaska!
— Não resmungue — respondeu ele, calmamente. – Durma de novo na sala que eu faço o que fiz hoje e depois derramo água em cima de você…
A vida tem sua sabedoria, que se chama acaso. O acaso às vezes nos premia, mas é mais comum que ele nos castigue e, assim como o sol dá a cada objeto uma sombra, assim a sabedoria da vida dá a cada homem a paga de seus atos. Isto é verdadeiro, é inevitável, e nunca o devemos esquecer…
O dia do acerto de contas chegou também para Vaska.
Uma tarde, quando as mulheres estavam jantando, antes de se arrumarem para ir para a sala, uma delas, Lina Chernogorova, uma moça viva e inteligente, dona de uma linda cabeleira castanha, olhou pela janela e informou:
– Vaska chegou.
As moças resmungaram, aborrecidas.
– E vejam só! – gritou Lina. — Ele está bêbado! Vem uma polícia com ele… Vejam!
Todas correram para a janela:
– Ele veio de carro e está sendo carregado… não pode andar. Meninas! – Lina afinou a voz, tal era sua alegria – Ele sofreu algum desastre!
A cozinha encheu-se de exclamações e risos maldosos — o alegre riso da vingança. As moças foram até a porta, empurrando-se, correndo, para receber o inimigo tombado.
Vaska entrou, nos braços do policial e do cocheiro. Muito pálido, com grandes gotas de suor escorrendo-lhe pela testa, ele vinha arrastando penosamente a perna esquerda.
– Vassili Mironich! O que foi isso? — gritou a madame.
Desencorajado, Vaska sacudiu a cabeça e respondeu numa voz rouca, irreconhecível:
– Eu caí.
– Ele caiu do bonde – explicou o policial. – Caiu, e ficou com a perna debaixo da roda. Está com a perna quebrada.
As moças estavam imóveis, mas seus olhos brilhavam como brasas.
Acomodaram Vaska em seu quarto, puseram-no na cama, e mandaram chamar um médico. Todas em redor do leito, as raparigas trocavam olhares ardentes, mas continuavam em silêncio.
– Saiam! — gritou Vaska. Nenhuma se mexeu.
– Ah! Estão contentes!…
– Não, estamos tristes – respondeu Lina, com um sorriso hipócrita.
– Fekla Iermolaievna, mande-as embora… o que querem elas?… ver?
– Com medo? – perguntou Lina, curvando-se sobre ele.
– Vamos, meninas, vamos… – ordenou a madame.
Elas obedeceram, mas, enquanto se retiravam, cada uma delas o olhava significativamente, e Lina resmungou, agourentamente:
– Nós voltaremos!
Quanto a Aksinia, ela o ameaçou com o punho, e gritou:
– Ó seu demônio! Então está aleijado? Bem feito…
Tamanha audácia surpreendeu suas companheiras.
Longe do quarto, elas foram tomadas por um verdadeiro êxtase de maldade, de vingança, cuja doçura cruel haviam experimentado. Loucas de alegria, escarneceram de Vaska todo o tempo em termos que assustaram a dona da casa. Ela também estava satisfeita de ver o Ruivo punido pelo destino, porque também tinha suas queixas contra ele, principalmente porque ele a tratava como se fosse o patrão e ela a empregada; mas sabia muito bem que sem ele não conseguiria dominar as mulheres e por isso solidarizava-se de um modo um tanto prudente à alegria geral.
O médico veio, enfaixou a perna do acidentado, receitou, e foi-se embora, dizendo à dona da casa que seria bom mandar Vaska para um hospital.
– E então, meninas, devemos estar ao lado do nosso querido doentinho! – exclamou Lina, num tom de decisão desesperada.
Puseram-se a caminho, com risos e gritinhos.
Vaska estava com os olhos fechados. Sem abri-los, ele disse:
– Vocês voltaram…
– Como temos pena de você, Vassili Mironich!
– Como nós gostamos de você!
– Lembra-se você de quando?…
Falavam baixo mas firmemente e, de novo em redor do leito, contemplavam o rosto pálido do Ruivo com olhos alegres mas ameaçadores. Ele também as contemplava, e nunca brilhou tanto em seus olhos a insatisfeita, a insaciável e incompreensível fome que eles sempre exprimiam.
–  Meninas… Cuidado! Eu me levantarei um dia… Lina interrompeu-o:
–  Ora, talvez, com a graça de Deus, você nunca se levante…
Vaska apertou os lábios, e não respondeu.
–  Qual das suas pernas é que dói, querido? – perguntou uma das moças, aproximando-se dos pés da cama, muito pálida, e com a boca entre aberta, mostrando os dentes. – É esta?
Agarrou a perna enfaixada e puxou-a.
Vaska cerrou os dentes e gritou. Seu braço esquerdo também está ferido; levantou o braço direito e, tentando atingir a moça, deu um soco no próprio estômago.
Uma gargalhada geral sacudiu  as paredes.
– Vacas! – gritou ele, com os olhos injetados. — Eu matarei vocês todas!
Mas elas dançavam em redor da cama, beliscavam-no, agarravam-lhe os cabelos, cuspiam-lhe no rosto, puxavam-lhe a perna quebrada. Seus olhos lançavam chispas, e elas riam, xingavam-no, uivavam como cães. A brincadeira estava tomando um caráter incrivelmente cínico. Estavam de vingança, quase delirantes de amarga satisfação.
Todas de branco, seminuas, encorajando-se umas às outras, eram monstruosas e terríveis.
Vaska rugia de impotência, agitando no ar seu braço direito, enquanto a dona da casa, aterrorizada, gritava da porta:
–  Chega! Chega! Eu chamarei a polícia! Vocês o estão matando… o estão matando!
Não a ouviam. O Ruivo as atormentara por anos e anos e elas tinham apenas minutos para se vingar. Tinham pressa…
De repente a algazarra da estranha orgia foi cortada por uma voz cheia e grave, que implorava:
– Chega! É bastante… Tenham piedade, ele também é… ele também… ele também sente dor! Sejam boas, pelo amor de Deus, sejam boas…
Essa voz agiu como uma ducha sobre as raparigas; assustadas, apressadamente afastaram-se do enfermo.
Aksinia é que falara; estava junto à janela, tremendo dos pés à cabeça, e curvava-se suplicantemente em direção às amigas, ora apertando o estômago com as mãos, ora estendendo-as absurdamente para a frente.
Vaska estava imóvel, estirado na cama. Sua camisa estava rasgada, deixando à mostra seu largo peito coberto de pêlo vermelho, que agora se levantava e abaixava rapidamente, como se alguma coisa estivesse batendo dentro dele, tentando desesperadamente escapar. Um ruído esquisito saía-lhe da garganta, e seus olhos estavam fechados.
Reunidas junto à porta, parecendo formar um só e enorme corpo, as mulheres ouviam em silêncio o soluçar indistinto de Aksinia e os estertores de Vaska. Lina, na frente de todas, estava limpando nervosamente a mão direita dos cabelos vermelhos que lhe tinham ficado entre os dedos.
–  E se ele morrer? – cochichou alguém, sem que ninguém se atrevesse a responder.
Uma atrás da outra, evitando fazer barulho, as mulheres saíram vagarosamente do quarto, deixando-o cheio de farrapos espalhados no chão…
Apenas Aksinia ficou.
Respirando agitadamente, ela aproximava-se de Vaska e perguntou-lhe, com sua voz profunda:
– E agora? Que é que eu posso fazer por você?
Ele abriu os olhos, contemplou-a, mas não respondeu.
– Pode falar, agora… Quer que eu vá embora? Eu irei. Talvez você queira água. Quer água?
Vaska sacudiu a cabeça, silenciosamente, e moveu os lábios, mas não falou.
– Então é isso: você não pode nem falar! – disse Aksinia, enrolando a trança no pescoço. — Nós não fomos muito amáveis, está certo… E doeu, Vaska? Tenha paciência, isso passa… é fé no princípio que dói… Eu sei.
Um nervo tremeu no rosto de Vaska, e ele disse, roucamente:
— Água.
E a inexplicável fome sumiu de seus olhos.
Aksinia permaneceu ao lado de Vaska, aparecendo na cozinha apenas para comer, tomar chá, ou buscar qualquer coisa para o doente. As outras mulheres não falavam com ela, não faziam perguntas, e a proprietária não fazia objeções a seu papel de enfermeira, nem a chamava à noite, para atender os fregueses.
Aksinia acostumou-se a sentar junto da janela, no quarto de Vaska, e olhar para fora, para os tetos cobertos de neve, para as árvores brancas de geada, para a fumaça que subia em nuvens negras para o céu. Quando se cansava de olhar, adormecia ali mesmo na cadeira, com os cotovelos apoiados na mesa. À noite, dormia no chão, junto da cama de Vaska.
Os dois quase não conversavam. Vaska pedia água, ou outra qualquer coisa; ela trazia o que ele queria, olhava-o, suspirava, e voltava para a janela.
Assim se passaram quatro dias. A dona da casa ainda não tinha conseguido arranjar lugar para Vaska em nenhum hospital.
Uma tarde, quando a sombra já tinha invadido o quarto do Ruivo, este levantou a cabeça e chamou:
– Aksinia, você está aí?
Ela estava cochilando, mas acordou.
– Onde havia eu de estar? — replicou.
– Venha cá…
Ela aproximou-se do leito, e deteve-se, como de costume, com a trança em redor do pescoço, e a mão esquerda dobrada, segurando-a.
– O que é que você quer?
– Traga a cadeira e sente aqui perto…
Suspirando, ela foi até a janela, trouxe a cadeira e sentou-se junto à cabeceira da cama.
– Que é?
— Nada, eu… Sente-se um pouco…
Na parede em frente estava suspenso o grande relógio de prata de Vaska, que batia rapidamente. Um trenó passou pela rua, e eles ouviram o deslizar das sapatas. Na casa, as moças estavam rindo, e uma delas cantava em voz muito fina:
– “Um estudante faminto tem meu coração…”
– Aksinia! — disse Vaska.
– O que?
– Ouça… Se nós vivêssemos juntos?
– Já não estamos vivendo juntos? — perguntou ela, preguiçosamente.
– Não, não assim. Eu digo, viver direito…
– Está bem.
– Muito bem…
Ele calou-se e ficou muito tempo com os olhos fechados.
– Sim… Saíremos daqui, iremos para bem longe… começaremos tudo de novo.
– Iremos para onde?
– Para qualquer lugar… Eu vou acionar a companhia de bondes por causa do desastre… Eles têm de pagar, é a lei. Além disso, eu tenho algum dinheiro meu, uns seiscentos rublos.
– Quanto? – perguntou ela.
– Seiscentos rublos.
– Tanto assim?! – comentou a rapariga, bocejando.
– Sim… Só com esse dinheiro eu já posso abrir uma casa, por minha conta… e se eu fizer a companhia pagar alguma coisa… Iremos para Simbirsk, ou para Samara… e lá abriremos uma casa… Será a melhor da cidade… Teremos as melhores mulheres… Cobraremos de entrada cinco rublos.
– Você não quer nada! – disse Aksinia, sorrindo.
– Por que não? É assim que vai ser…
— Não diga!…
– É assim que vai ser… Se você quiser, poderemos casar.
– O quê?! — exclamou Aksinia, pestanejando ridiculamente.
– Poderemos casar. — repetiu Vaska, um pouco perturbado.
– Você e eu?
– Sim. É claro.
Aksinia começou a rir. Na cadeira, com as mãos nos quadris, balançando o busto para a frente e para trás, ela alternava sua conhecida risada, cheia e grave, com um risinho estridente, que nunca ninguém ouvira.
– Que é isso? Que é que você tem? — perguntou Vaska, e de novo surgiu em seus olhos o olhar de fome. Ela continuava gargalhando.
– Por que você ri?
Afinal, do meio de seu riso e seus soluços ela conseguiu dizer:
– Estou rindo do nosso casamento. Você acha que essas coisas são para nós? Há três anos ou mais que eu não entro numa igreja! Que engraçado que você é! Eu, sua mulher… Você decerto quer também que eu lhe dê filhos, não? Ah! Ah! Ah!
A idéia de filhos fez-lhe voltar a vontade de rir. Vaska olhava-a em silêncio.
– E você julga que eu iria a algum lugar com você? Que idéia! Você me levaria para longe, e me mataria. Todo mundo sabe como você gosta de maltratar os outros.
– Ora, cale a boca. – disse Vaska, brandamente.
Mas ela continuou falando de sua crueldade lembrando-lhe incidentes passados.
– Fique quieta — pediu ele. E como ela ainda continuasse falando, ele gritou rudemente: — Fique quieta!
Durante aquela tarde não se falaram mais. À noite, Vaska teve febre e delirou; um ronco, um estertor vinha de seu peito. Trincava os dentes, e agitava o braço direito no ar, às vezes batendo no próprio peito.
Aksinia acordou, e por muito tempo ficou ao lado da cama, contemplando o rosto de Vaska, assustada. Depois, acordou-o.
– Que é que você tem? O fantasma da casa estava te estrangulando, ou o que?
– Nada, eu estava sonhando… — respondeu Vaska, fracamente. — Dê-me um pouco de água.
Depois de beber, ele sacudiu a cabeça e declarou: — Não, não abrirei uma casa. Seria melhor uma loja… É melhor. Não quero uma casa.
– Uma loja… — disse Aksinia, pensativa. — Sim, uma loja… É boa coisa, uma loja.
— Você virá comigo? Você virá? — perguntou Vaska, com serena ansiedade.
– Você quer que eu vá, mesmo? — perguntou Aksinia, afastando-se da cama.
– Aksinia Semionovna — disse Vaska, respeitosamente e bem alto, levantando a cabeça do travesseiro — eu juro por…
Acenou com a mão direita, e calou-se.
– Eu não irei a parte alguma com você — respondeu Aksinia sacudindo a cabeça, resolutamente, depois de esperar que ele terminasse a frase. – A parte alguma!
– Se eu quiser, você irá — respondeu Vaska, serenamente.
– Não irei a parte alguma!
– Mas eu não quero assim… Mas se eu quisesse, você iria.
– Não…
– Que diabo! – exclamou Vaska, irritado. — Você anda por aqui o dia inteiro, tratando de mim, e por que não quer?…
– Isso é outra coisa – explicou Aksinia. – Mas, viver com você, não! Tenho medo de você. Você não presta.
– Ora, você!… Que é que você sabe? – exclamou Vaska, amargamente. – “Não presta”! Você é uma boba. “Não presta”, você diz, e pronto. Decerto pensa que é fácil não prestar.
Calou-se, e ficou em silêncio por algum tempo, esfregando o peito com a mão sadia. Depois, ternamente, com a voz cheia de angústia e os olhos cheios de medo, recomeçou:
– Você está vendo só o que está em cima. “Não presta”, bem, tem certeza que é só isso? Ah! Que é que sempre exigiram de mim? Você virá comigo, Aksinia Semionovna?
— Nem mais uma palavra sobre isso! Não irei! – declarou Aksinia teimosamente, afastando-se com um olhar desconfiado.
Não se falaram mais. O luar entrava no quarto, e sob ele o rosto de Vaska parecia cinzento. Por muito tempo ele ficou acordado, ora com os olhos abertos, ora fechando-os. Ouvia os ruídos da casa: dança, cantorias, risos.
Logo ouviu-se o ronco confortável de Aksinia. Cansado, Vaska suspirou.
Dois dias mais, e a dona da casa arranjou um leito num hospital. Uma ambulância veio para buscar Vaska. Os dois enfermeiros o carregaram cuidadosamente, e na cozinha ele viu todas as moças apinhadas no corredor.
Seu rosto tremeu, mas ele nada disse. Elas o encararam severamente, mas era impossível descobrir pelos seus olhos o que pensavam elas à vista de Vaska. Aksinia e madame ajudaram-no a vestir o sobretudo, enquanto reinava na cozinha um silêncio pesado e soturno.
— Adeus — disse Vaska, de repente, de cabeça baixa, sem olhar para as moças. — Adeus!
Algumas acenaram-lhe com a cabeça, em silêncio, mas ele não o percebeu. Lina disse calmamente:
– Adeus, Vassili Mironich.
– Adeus… Sim…
Os dois enfermeiros suspenderam-no pelas axilas e o conduziram do banco até à porta. Aí ele voltou-se para as moças.
– Adeus. Eu sei, eu era…
Duas ou três vozes responderam:
– Adeus, Vassili!
– Para que fingir? – Sacudiu a cabeça e apareceu-lhe no rosto uma expressão estranha, desconhecida nele. -Perdoem-me… Perdão… Pelo amor de Deus… aquelas… que… que eu…
– Eles o estão levando! Eles estão levando embora o meu querido! – gritou Aksinia selvagemente, deixando-se cair no banco.
Vaska assustou-se, e levantou a cabeça. Seus olhos brilhavam raivosamente. Por um momento ouviu atentamente os gritos dela, e depois, com os lábios a tremer, disse gentilmente:
– Que boba! Que grande boba!
– Venha, venha – disseram os enfermeiros, franzindo a testa.
– Adeus, Aksinia, não se esqueça de ir me ver no hospital – exclamou Vaska, bem alto.
Mas Aksinia continuava gemendo:
– Quem me confortará?
Impassíveis, as outras a rodearam, olhando calmamente para as lágrimas que desciam em torrentes de seus olhos.
Lina, curvando-se sobre ela, consolou-a duramente:
– Por que você está chorando, Ksiuchka? Ele não morreu! Você irá vê-lo… você irá vê-lo amanhã…

O Aleijado (Maksim Górki)

Foi numa escura e abafada noite de verão que encontrei, numa viela de arrabalde, um estranho quadro: no meio de grande poça lamacenta uma estranha mulher chapinhava na água suja como crianças gostam de fazer. Cantava, ao mesmo tempo, com voz fanhosa, uma canção indecente.
No dia anterior houvera forte trovoada e a pesada chuva tinha dissolvido o barro, a poça estava funda, a água lodosa chegava quase aos joelhos da criatura; a julgar por sua voz ela devia estar embriagada. Achei que se ela escorregasse poderia afogar-se e resolvi tirá-la de lá.
Puxei os canos das botas, entrei na poça e, agarrando um braço da mulher, tratei de puxá-la para um lugar seco. De início, aparentemente assustada, acompanhou-me docilmente. Mas, quando eu menos esperava uma reação, safou o braço direito, bateu-me no peito e berrou:
— Acuuudam!
Em seguida, tratou de voltar para a poça, arrastando-me com ela.
— Diabo! — murmurava ela — Não vou! Posso viver sem você… quero ver você viver sem mim… Socooorro!
O guarda-noturno apareceu da escuridão e, parando a uns cinco passos de nós, perguntou:
– Quem está fazendo escândalo aqui?
Expliquei-lhe que receava que a mulher se afogasse na lama e que tentara tirá-la de lá; o guarda olhou-a atentamente, escarrou com gosto e mandou:
– Saia daí, Mariana!
– Não quero.
– Estou mandando — Saia!
– Eu não.
– Vai apanhar, peste — avisou-a o guarda com toda a calma e, em seguida, informou-me bonachão: — É moradora daqui, cordoeira, chama-se Maria Froliha. Tem um cigarro?
Fumamos. A mulher andava dentro d’água exclamando:
– Autoridades! Sou eu, a minha autoridade… Se eu quiser, tomo banho e acabou-se!
– Toma banho coisa nenhuma! — advertiu-a o guarda, velho forte e barbudo. — São raras as noites em que ela não faz semelhante escândalo. E tem um filho aleijado em casa…
– É longe a casa dela?
– Merece morrer — afirmou o guarda sem responder à minha pergunta.
– Convém levá-la para a casa dela — sugeri.
O guarda riu-se, iluminou-me o rosto com a brasa do cigarro e afastou-se, ruidosamente, pisando o barro molhado.
– Pode levar… mas, olhe a cara dela primeiro.
A mulher sentou-se no meio da lama e, fazendo gestos como se estivesse remando, cantou com voz esganiçada:
— No mar, no vasto mar…
Perto dela brilhava o reflexo de uma estrela; quando seus movimentos encresparam a água, o brilho desapareceu. Entrei novamente na poça, peguei-a por baixo dos braços, soergui-a e empurrando a cantora com os joelhos fui levando-a para a cerca; a mulher resistia, e desafiava-me:
— Bata-me, pode bater! Bata, não faz mal… seu animal, bata!
Encostei-a à cerca, finalmente, e perguntei-lhe onde morava. Ela ergueu a cabeça olhando-me com olhos que antes pareciam manchas escuras e pude ver então que o nariz havia afundado, motivo por que a ponta ficou erguida e, o lábio superior repuxado pela cicatriz, descobria os dentes miúdos e brancos. Parecia que o rosto pequeno e rechonchudo estivesse sorrindo continuamente, de maneira repelente.
– EStá bem, vamos — concordou a mulher.
Partimos, esbarrando na cerca. A saia molhada chicoteava minhas pernas.
— Vamos, meu bem — murmurava a mulher aparentemente voltando a si. — vou agasalhá-lo… posso consolá-lo.
Levou-me ao quintal de um casarão de dois pavimentos. Cautelosamente, como se fosse cega, procurou caminho entre carroças estacionadas desordenadamente, pilhas de caixas, barris e lenha. Parando diante de um buraco nos alicerces, convidou-me a entrar.
Apoiando-me na parede escorregadia, amparando com a destra o corpo mole da minha protegida, desci a custo uns degraus traiçoeiros, chegando diante de uma porta; apalpando, encontrei o trinco, abri a porta e parei, hesitando em prosseguir.
– Mãe, é você? — indagou na escuridão uma voz mansa.
– Sou-u-u…
Forte odor de matéria decomposta de mistura com cheiro de alcatrão estonteou-me momentaneamente. Um fósforo ardeu, sua luz iluminou por instantes um pálido rosto infantil e apagou-se.
— Quem haveria de ser, senão eu?… — disse a mulher pendendo do meu braço.
Novamente, ardeu um fósforo e, desta vez, fina e estranha mão de criança acendeu pequeno lampião a querosene.
— Meu consolador, querido… — exclamou a mulher no instante em que seu corpo tombava sobre uma baixa e larga cama armada num canto do cubículo.
A criança cuidava do lampião e reduzia a torcida, quando ela começava a soltar fuligem. Seu rostinho compenetrado caracterizava-se por um narizinho pontudo e lábios cheios, de menina. O rosto delicado apresentava feições que pareciam desenhadas com fino pincel de grande mestre e parecia deslocado no úmido e escuro cômodo daquele porão. Conseguindo uma chama boa, encarou-me com estranhos olhos peludos e perguntou:
— Embriagada?
A mãe, largada através da cama, soluçava e ressonava.
– Precisa despi-la — falei.
– Então, dispa-a — respondeu o menino baixando os olhos.
Quando comecei a tirar as saias molhadas”, o menino perguntou:
– Apago a luz?
– Para quê?
A criança nada respondeu e lidando com o corpo inerte da mãe, observei o menino: estava sentado dentro de um caixão colocado embaixo da única janela; o lado do caixão trazia em grandes letras a inscrição:
CUIDADO
N. R. & Cia. Ltda.
A parte inferior da janela achava-se à altura dos ombros do menino; ao longo da parede, havia diversas prateleiras estreitas e nestas enfileiravam-se pilhas de caixas de fósforos e caixinhas de papelão. Ao lado do caixão, que abrigava o menino, havia outro de boca para baixo, coberto com papel amarelo, servindo de mesa. O menino cruzara os bracinhos esquálidos atrás da nuca e fixara a vista nas escuras vidraças.
Terminei de despir a mulher, joguei suas roupas molhadas em cima do fogão, lavei as mãos numa bacia de barro que achei no canto e, enxugando-as no lenço, disse ao menino:
– Então, adeus!
Olhou-me e perguntou ciciando um pouco:
– Apago a luz agora?
– Como quiser.
– Vai embora mesmo, não vai deitar?
Esticou a mão apontando a mãe:
– Com ela?
– Para quê? — indaguei, sem propósito.
– Você há de saber — disse o menino numa simplicidade terrível e, esticando-se, acrescentou:
– Todos deitam.
Fiquei confuso e olhei em redor: à direita vi um fogão disforme, louça suja pendurada numa armação, num canto um rolo de cabo alcatroado e um monte de estopa, lenha e um pau de carregar baldes.
A meus pés o corpo amarelo, adormecido da mulher.
– Dá para ficar um pouco com você? — perguntei
O menino olhou-me de esguelha, ao responder:
– Ela só vai acordar quando for dia.
– Não me importa.
Acomodei-me de cócoras ao lado do caixão e contei-lhe como havia encontrado a mãe dele, tratando de dar um cunho humorístico à narrativa:
— …Sentou-se na lama, ficou a remar com as mãos, cantando sempre…
O menino esboçou um gesto concordando, sorriu mansamente e, coçando o peitinho mirrado, disse:
— É que estava embriagada. Mesmo sóbria ela gosta de brincar. Parece criança.
Pude então observar bem seus olhos. Realmente davam a impressão de estarem cobertos de pêlos; as sobrancelhas muito compridas e pestanas longas e arcadas davam essa impressão. Olheiras azuladas destacavam-se no rosto pálido. Acima da ampla testa branca e lisa aparecia a vasta cabeleira quase ruiva e encaracolada Impossível descrever a expressão de seus olhos. Pude suportar com dificuldade a intensidade daquele olhar que, embora calmamente compenetrado, tinha algo de sobre-humano.
— Que há com as suas pernas?
O menino remexeu no monte de trapos, que lhe serviam de cobertas, e levantando-a com a mão ergueu uma perninha seca, mais parecida com uma raiz ressequida. Pondo-a no bordo do caixão explicou:
– Minhas pernas são assim, as duas. De nascimento. Não andam, não vivem…
– E nas caixinhas, o que há?
– Jardim zoológico — respondeu o menino. Pegou em seguida, a perninha, recolocou-a no fundo do caixote, cobriu-a e sorrindo amistosamente indagou:
– Quer que lhe mostre? Então, sente-se direito; você nunca viu coisa semelhante.
Seus braços compridos e as mãos delgadas moviam-se com surpreendente agilidade enquanto tirava as caixinhas das prateleiras, uma por uma, e as apresentava.
– Não abra, senão fogem! Encosta ao ouvido e escute — que tal?
– Alguma coisa se mexe.
– Isso, é uma aranha safada. O nome dela é Tambor, êeta bicho ladino!
Os maravilhosos olhos do menino brilhavam animados. Os dedos ágeis tiravam as caixinhas, encostavam-nas no ouvido dele, em seguida no meu, enquanto ele explicava:
— Aqui mora uma barata, o nome dela é Anissim. Gosta de contar vantagens, que nem os soldados. Aqui é a casa da mosca. Chama-se Funcionária, é uma peste! Ronca o dia inteiro, xinga a todo o mundo, chegou até a puxar a mãe pelos cabelos. Nem parece mosca — é funcionária, tal e qual, que passa o dia falando mal de todos, mexericando. Aqui está um besouro preto, enorme, é o Patrão; não é mau camarada, só que pau d’água e muito dissoluto. Quando bêbedo fica engatinhando no pátio, pelado, cabeludo, parece um cão preto. Aqui é um besouro, Tio Nicodim, agarrei-o no pátio; é um andarilho malandro, daqueles que pedem esmola dizendo que fazem coleta para a igreja. Mamãe o chama O Barato — também é amante dela. Ela tem amantes à vontade, embora não tenha nariz.
– Ela não bate em você?
– Qual nada! Ela não pode viver longe de mim. Ela é boa, só que bebe, mas na nossa rua todos bebem… Ela é bonita e alegre, o diabo é que bebe muito! Eu peço sempre “deixe, boba, de beber vodca, você pode até ficar rica se deixar”. Ela ri apenas. É mulher — e mulher boba ainda por cima… Mas é boazinha; quando ela acordar você vai ver!
Seu sorriso cativante era tão encantador que senti vontade de chorar, de berrar, de fazer alguma loucura, tal foi a pena e compaixão que senti por ele.
A linda cabecinha balançava no pescocinho magro, parecendo estranha flor tangida pelo vento; o brilho de seus olhos maravilhosos prendia-me mais e mais.
Ao ouvir sua conversa infantil, mas assustadora, eu esquecia por vezes onde me achava, para depois, de repente, voltar à realidade, quando avistava a janela com grades cheias de barro, a bocarra negra do fogão, o monte de estopa e o corpo amarelo da mulher-mãe.
– Gostou do jardim zoológico? — perguntou o menino, orgulhoso.
– Muito.
– Só não tenho borboletas…
– Como se chama?
– Leonhka!
– É meu chará.
– Não diga! E você, que espécie de homem é?
– Nada de especial… como outro qualquer.
– Essa não! Todos os homens são diferentes — são alguma coisa, eu sei. Você é bom.
– Talvez.
– É sim. E acanhado também.
– Essa, por quê?
– Sei que é!
O menino sorriu e piscou-me o olho.
– Mas, por que acha que sou acanhado?
– Está fazendo horas comigo, quer dizer que receia partir de noite!
– Mas, já está amanhecendo.
– Pois é, quando amanhecer irá embora.
– Voltarei para estar com você.
O menino não acreditou, cobriu os maravilhosos olhos com as pestanas e refletindo um pouco perguntou:
– Para quê?
– Para ficar com você. Acho você muito interessante. Posso vir?
– Pode. Muita gente vem aqui…
Suspirou e disse:
– Não acredito que volte…
– Por Deus do céu! Volto, sim!
– Então venha. Venha ver-me, não a mãe, ela que vá lamber sabão! Seremos amigos, nós dois, tá?
– Tá.
– Isso sim. Não faz mal que você é grande. – Que idade tem?
– Vinte e um.
– Eu vou fazer doze. Não tenho amigos, só Katya, filha do aguadeiro, mas a mãe bate nela quando ela vem me ver… Você é gatuno?
– Não. Por que?
Seu rosto é muito feio, tão magro e tem um nariz como os gatunos têm. Dois gatunos costumam vir aqui: um é Sachka, é bobo e mau; o outro é Joãozinho; esse é bem, tão bonzinho como um cachorro. Você tem caixinhas?
– Trarei algumas.
– Traga, sim. Eu não direi a mamãe que você vem…
– Por que não?
– Porque sempre fica contente quando os homens voltam. Gosta tanto de homens — é uma vergonha! Ela é engraçada — minha mãe. Estava com quinze anos quando me deu à luz — e nem sabe como foi! Quando você volta?
– Amanhã, à noite.
– À noite, ela já estará bêbada de novo. Que você faz para ganhar a vida, já que não é ladrão?
– Vendo cidra bávara.
– Não diga? Traga uma garrafa, sim?
– Claro. Bem, tenho que ir indo.
– Então vá. Mas, volta mesmo?
– Sem falta!
O menino estendeu-me ambas as mãozinhas magras e peguei-as com ambas as minhas apertando aqueles ossinhos finos e frios; tratei de sair sem olhar para ele.
Amanhecia. Vênus, o astro da madrugada, brilhava acima das úmidas e dilapidadas casas. Numa carroça próxima do portão dormia um camponês; seus enormes pés descalços sobravam para fora do veículo, a barba dura, aparada em ponta, espetava o céu, os dentes brancos que apareciam através dos fios da barba davam a impressão de que o homem estivesse rindo fazendo pouco caso de tudo e de todos. Um velho cachorro, em cujo lombo aparecia um lugar depilado, onde ele havia levado um jato de água fervente, aproximou-se de mim, cheirou minhas calças e soltou um lamento obrigando-me a sentir pena dele.
As poças d’água nas ruas que, durante a noite foram apenas repugnantes, refletiam o azul do céu e brilhavam sob os raios do sol nascente — esse embelezamento parecia deslocado, desnecessário e portanto ofensivo.
No dia seguinte falei com as crianças que moravam na minha rua e pedi-lhes que apanhassem besouros e borboletas, fui à farmácia e comprei umas caixinhas bonitas, arranjei duas garrafas de cidra, bolachas, balas, uns pães doces — e assim armado fui visitar o meu chará.
O menino recebeu os presentes maravilhado, abrindo desmesuradamente os olhos que, à luz do dia, eram mais encantadores ainda que de noite.
— Oo — ho! — ho! — exclamou com voz baixa que não parecia a de uma criança, — quanta coisa trouxe! Então você é rico? Mas como pode ser isso? — é mal vestido, mas é rico — e diz que não é ladrão? Mas que caixinhas lindas! Meu Deus, nem quero tocar nelas com as mãos sujas… Que é isso? Um besouro, mas que lindo! Parece de bronze, é esverdeado até! ó diabo, quer fugir? Deixe disso!
De repente, gritou todo alegre:
– Mãe! Venha cá, lave-me as mãos! Venha ver só o que ele trouxe! É aquele mesmo, de ontem, o que trouxe você para casa como se fosse um guarda — tudo é dele! É meu chará também…
– Precisa agradecê-lo — ouvi às costas uma estranha voz.
O menino abanou a cabeça diversas vezes, concordando :
— Obrigado, muito obrigado!
O porão estava cheio de estranha poeira cabeluda e através dela tive pena ao entrever em cima do fogão a cabeça despenteada e o rosto disforme da mulher, o
brilho de seus dentes num eterno sorrir que ela nunca podia apagar em seu rosto aleijado.
– Boa tarde!
– Boa tarde! — respondeu a mulher; sua voz rouca era baixa mas animada, quase alegre. Olhava-me de olhos apertados; pareceu-me perceber certa ironia.
O menino esqueceu minha presença; mastigava uma bolacha, cantarolava de boca cheia e cuidadosamente abria as caixinhas — as compridas pestanas lançavam sombras nas faces realçando o azul das olheiras. Através das vidraças sujas, aparecia um sol baço e apagado como o rosto de homem velho iluminando os cabelos encaracolados do garoto. Sua camisa estava desabotoada e pude ver as pulsações de seu coração que, a cada batida, agitava a pele fina do aleijadinho.
A mãe desceu do fogão, molhou a ponta de uma toalha e, pegando a mão esquerda do garoto, quis lavá-la.
— Fugiu! Pare! Fugiu! — gritou Leonhka e começou a remexer nos panos malcheirosos, descobrindo as pernas azuis, imóveis. A mulher riu-se e aos gritos — Pega o fujão! — ajudou na busca.
Quando pegou o besouro colocou-o na mão espalmada e olhando-o com os olhos cor do céu, disse-me com ar de intimidade como se fôssemos amigos de longa data:
– Desses há muito!
– Não esmague! — advertiu-a o garoto. — Sabe, um dia quando ela estava bêbada, sentou-se em cima do meu zoológico — nem sei quantos bichinhos esmagou!
– Esqueça isso, meu bem!
– Trabalhei tanto para enterrá-los!
– Mas, em compensação, quantos não apanhei e trouxe para você.
– Apanhou! Apanhou, sim, mas acontece que aqueles outros eram ensinados. Os que morrem eu enterro embaixo do fogão, sabe? Lá é meu cemitério… Eu tinha uma aranha, chamava-se Minca — era tão parecida com um dos amantes da mãe, um que está na cadeia agora, gorduchão, alegre…
– Filho meu, querido — disse a mulher acariciando a cabecinha do menino com sua mão pequena de dedos rombudos. Empurrou-me com o cotovelo e sorrindo com os olhos perguntou:
– Não é bonito meu filhinho? Que olhinhos tem, hein?
– Tome um olho e me dê as pernas — propôs o garoto sorrindo sem parar de observar o besouro. — Que bicho! Parece de ferro… gordão… Mãe! É parecido com o monge para quem você fez a escada de cordas, lembra?
– Lembro-me, claro!
Rindo-se começou a me contar:
— Sabe, apareceu um dia um monge, grandalhão, custou a entrar até. Perguntou-me então: “Pode fazer uma escada de cordas para mim?” Eu nem ouvira falar em tais escadas; então, respondi que não, que nunca havia feito. “Eu ensino”, disse ele. Abriu a sotaina e não é que toda a barriga dele estava enleada com uma corda fina, mas forte, forte? Ensinou-me. Fiquei fazendo a tal escada, enquanto pensava: para quê será que ele precisa da escada? Deus o livre que tencione assaltar uma igreja!
A mulher riu-se abraçando o filho e acariciando-o sempre.
— Quando ele veio buscar a escada eu falei: Se for para coisa desonesta não entrego. Ele riu-se, assim com ar de espertalhão e respondeu: “Não, isso é para trepar no muro; o nosso muro é muito alto, somos pobres pecadores e o pecado mora do lado de lá do muro — entendeu?” Entendi e rimo-nos juntos, rimos tanto!
— É, você ri muito, até demais — disse o garoto tal e qual um adulto repreendendo uma criança. — Que tal se você fizesse chá para nós?
– Não temos açúcar…
– Compre então…
– Dinheiro também não temos.
– Gastou tudo em bebida! Peça a ele…
Virando-se para mim, o rapazinho perguntou:
– Você tem dinheiro?
Dei dinheiro à mulher; ela não esperou mais nada — saltou
de pé, agarrou o encardido samovar e desapareceu pela porta afora, cantarolando.
— Mãe! Lave a janela. Está escuro, não enxergo nada! Minha mãe é esperta, só vendo — confiou-me o garoto distribuindo cuidadosamente as caixinhas e colocando-as nas prateleiras de papelão dependuradas com barbantes amarrados a pregos, que haviam sido enfiados nos tijolos úmidos. — É muito trabalhadeira. Quando começa a desmanchar cabos para fazer estopa, fica uma poeira! Peço então que ela me leve para fora para respirar ar fresco e ela diz: “tenha paciência filho, agüente mais um pouco, sem você fico triste! Gosta muito de mim. Trabalha e canta — conhece milhares dê canções,
O menino começou a reproduzir uma das canções que aprendera com a mãe, mas foi interrompido pelos sons de um realejo que começou a gemer no pátio. O menino alvoroçado pediu-me que o erguesse à janela para que pudesse escutar melhor.
Levantei o frágil esqueleto contido no invólucro de pele fina e cinzenta. Leonhka enfiou a cabecinha pela janela aberta e ficou ansiosamente imóvel; só as perninhas impotentes balançavam arranhando a parede. O realejo lançava ao ar farrapos irreconhecíveis de uma melodia qualquer, uma criança gritava deliciada e um cão uivava. O aleijadinho absorvia ansiosamente a sinfonia bárbara e produzia sons com a boca fechada, tentando acompanhar a melodia fugidia.
No porão havia menos poeira e por isso enxergava-se melhor. Pude ver sobre a cama da mãe barato relógio de pêndulo. A louça na prateleira continuava suja e grossa camada de poeira cobria tudo. Nos cantos havia grandes teias de aranha e a poeira depositara-se nelas transformando-as em panos fúnebres. O lar do pobre estropiado antes parecia monturo onde as ofensivas características da pobreza saltavam à vista fosse para onde fosse que o observador dirigisse o olhar.
Ouvimos o canto familiar do samovar e, como que assustado por ele, o realejo parou de repente. Em lugar deste, ouvimos a voz feroz de alguém que rosnava:
– …esfarrapados!…
– Tire-me daí — suspirou o menino. — Enxotaram-nos.
Recoloquei-o cuidadosamente em seu caixão-cama; o menino esfregou o peitinho e, tossindo com receio, disse:
– Doe-me o peitinho, não posso respirar ar de verdade por muito tempo… Escute, você já viu diabinhos?
– Não.
– Nem eu. De noite costumo olhar embaixo do fogão para ver se não aparece algum, mas qual — não aparecem. Não é verdade que os diabos aparecem nos cemitérios?
– Para que queres os diabos?
– É interessante. Quem sabe um deles seria bonzinho? Katya, a filha do aguadeiro, viu um diabinho no porão e assustou-se, mas eu não tenho medo dessas coisas.
Acomodando-se melhor em seu leito, o garoto continuou vivamente:
— Gosto até, gosto de pesadelos, viu? Um dia sonhei com uma árvore que cresceu às avessas — as folhas espalhadas pelo chão e as raízes apontando o céu. Até suei de medo e acordei. Outro dia sonhei com a mãe — ela estava deitada toda nua e um cachorro arrancava-lhe o ventre aos pouquinhos. Tirava um bocado e cuspia, tirava outro e cuspia. Outra noite foi a nossa casa que estremeceu e toca a deslizar pela rua batendo as portas e janelas e a gata da funcionária corria atrás da casa…
O rapazinho estremeceu como se sentisse frio, apanhou uma bala e, tirando-lhe o papel, endireitou-o meticulosamente depondo-o no peitoril da janela.
— Desses papéis farei alguma coisa bonita. Ou, então, darei a Katya; ela também gosta de coisinhas bonitas — cacos de louça, pedaços de vidro, papeizinhos, qualquer coisa. Escute, se a gente alimentar bem uma barata ela pode ficar do tamanho de um cavalo?
Era evidente que o menino acreditava nessa possibilidade, por isso respondi:
– Alimentando bem, é capaz.
– Pois então — exclamou radiante — e mamãe, bobona, acha graça!
Terminou, usando palavra ofensiva a qualquer mulher.
– Ela é tola! Um gato então é fácil fazer ficar do tamanho de um cavalo não é?
– É pena que não tenho comida que chegue — seria tão divertido!
O garoto estremeceu de entusiasmo e apertou o peito com as mãozinhas.
— As moscas ficariam do tamanho de cachorros, e as baratas poderiam puxar tijolos. Se eles fossem do tamanho de cavalos, seriam fortes, não seriam?
– Os bigodes iriam atrapalhar…
– Qual nada! Os bigodes serviriam de rédeas. Ou, então, apareceria uma aranha grande, mas a aranha não deveria ficar maior que um gatinho, senão a gente ficaria com medo. Não tenho pernas, mas se tivesse, iria trabalhar e arranjaria comida suficiente para fazer crescer todos os meus bichinhos. Iria comerciar e compraria para mamãe uma casa, lá no campo. Você já esteve no campo?
– Já, muitas vezes.
– Conte-me como é!
Comecei a contar-lhe dos campos e prados. Escutava-me atentamente; as pálpebras desciam-lhe sobre os olhos, a boquinha abria-se e o garoto parecia estar adormecendo; diante disso passei a falar cada vez mais baixo, mas então, apareceu a mãe trazendo o chá, um pacote em baixo do braço e uma garrafa de vodca enfiada entre os seios.
– Pronto! Já cheguei!
– Que beleza… — suspirou o menino, — só grama e flores e mais nada. Mãe, você poderia arranjar um carrinho e me levar ao campo um dia! Senão eu morro algum dia desses, sem conhecer os campos. Você não presta, mãe… — terminou o garoto, tristonho e ofendido.
A mãe não se ofendeu e aconselhou, com brandura:
– Não me xingue, filho, você ainda é pequeno.
– Não me xingue!… Você está bem, pode ir aonde quer, como um cachorro. Você é feliz… Escute — disse virando-se para meu lado — foi Deus quem fez o campo?
– Decerto foi.
– Para quê?
– Para os homens passearem.
— Campo cheio de flores… — suspirou o garoto. — Eu levaria lá o meu zoológico e soltaria todos… que passeassem à vontade. Mas, diga-me, quem fez Deus?
A mulher quase morreu de riso. Caiu na cama, esperneava e gania entre acessos de risadas sufocantes:
– Ai, ai, ai! Que pergunta! Mas que menino! Matou-me! Matou-me de uma vez!
O garoto olhou a mãe com sorriso condescendente e sem irritação, sem maldade, como se usasse um termo carinhoso, proferiu palavra das mais obscenas.
– Parece criança, gosta de dar risadas, só vendo… — e repetiu o termo obsceno.
– Deixe que ria, isso não ofende a ninguém — defendi a mulher.
– É, ofender, não ofende — concordou o aleijadinho. — Só fico zangado com ela quando não lava a janela. Peço, peço, digo “Mãe, lave a janela; não consigo ver a luz de Deus!” — e ela esquece sempre…
A mãe, lavando a louça, piscava-me o olho dizendo:
— Que tal meu filhinho? Não fosse ele eu me jogaria no rio, por Deus do céu! Ou me enforcava.
Dizia-o sorrindo.
De repente, o menino perguntou-me:
– Você é bobo?
– Não sei. Por que?
A mãe diz que é…
– Ora, mas não vê por que eu disse? — exclamou a, mulher sem se constranger por Isso. — Trouxe da rua mulher bêbeda, pô-la a dormir e foi-se embora! Foi por isso que falei, não foi por mal — e você conta…
A mulher falava como criança, seu fraseado lembrava o de meninas adolescentes. Seus olhos também eram límpidos, jovens, tanto mais espantoso era seu rosto desfigurado, seu lábio repuxado e dentes a mostra.
— Vamos tomar chá! — convidou ela solenemente. O samovar, sobre uma caixa ao lado do menino, soltava alegres fiapos de vapor e o garoto apanhava-os sonhador e, sentindo na palma da mão a umidade condensada, enxugava nos cabelos cacheados.
— Quando eu for grande, mamãe vai arranjar para mim um carrinho com que eu poderei andar pelas ruas pedindo esmolas. Quando ganhar o bastante para o dia, deixarei as ruas e sairei para os campos…
A mulher suspirou pesarosa: — Ele imagina que os campos são um paraíso! Em vez, lá estão os acampamentos cheios de soldados malvados, camponeses embriagados…
– Mentira — interrompeu-a o garoto. — Pergunte a ele como são os campos. Ele viu.
– E eu, não os vi, também?
– Embriagada?
Discutiram com o ardor e falta de lógica de crianças. Lá fora anoitecia; no céu cor de rosa parou uma grande nuvem imóvel, o porão tornou-se escuro.
O menino tomara uma caneca de chá quente. Transpirou, olhou-nos e disse:
– Comi, bebi e até fiquei com sono — por Deus do céu…
– Então, durma filhinho.
– Mas, se eu dormir ele vai embora. Você não vai fugir?
– Não tenha medo, não; eu não deixo — assegurou a mãe empurrando-me com o joelho.
– Não vá — pediu o menino bocejando. Esticou o corpinho e caiu no leito adormecendo, mas de repente soergueu-se e disse à mãe repreendendo-a:
– Bem que você poderia casar-se com ele, como fazem as outras mulheres; em vez você se dá com todo mundo e eles só batem em você… Ele não bate, é bom…
– Durma, filho, durma — murmurou a mulher debruçando-se sobre o pires com chá.
– Ele é rico…
Por uns instantes, a mulher permaneceu quieta, depois confiou-me como a um velho amigo:
– Assim vivemos, nós dois e mais ninguém. O povo me xinga, dizem que sou rameira! E daí? Não preciso ter vergonha de ninguém. De mais a mais, o senhor vê que cara estragada tenho… qualquer um logo vê para que sirvo. Sim, adormeceu, meu anjinho, minha consolação na vida. Não é bom o meu filhinho?
– Muito bom!
– Não me canso de olhar para ele… É esperto, não é?
– É, sim!
– Só tinha que ser — o pai dele foi um senhor, homem culto; um velhinho. Como a gente chama a esses velhos que têm escritório e vivem escrevendo em papel timbrado?
– Tabelião?
– Isso! Isso mesmo! Foi muito bonzinho, tratava-me bem, fui empregada dele.
A mulher aproximou-se de mim dizendo:
– Morreu de repente. Foi de noite. Mal saí do quarto dele, caiu no chão e morreu! O senhor vende cidra?
– Sim.
– Por sua conta?
– Sou empregado.
A mulher cobriu cuidadosamente as perninhas do filho, arrumou o travesseiro e retomou a narrativa:
– O senhor não precisa de ter nojo de mim, já não estou infectada. Pode perguntar a quem quiser todos me conhecem!
– Eu não tenho nojo.
Pondo a pequena mão com a pele gasta nos dedos e unhas quebradas, ela continuou a falar com acentos de amável gratidão:
– Agradeço-o sinceramente por meu filhinho. Para ele hoje é dia de festa. Foi muito bondoso…
– Tenho que ir.
– Aonde? — perguntou admirada.
– Tenho que fazer.
– Fique!
– Não posso…
Olhou o filho, desviou os olhos para a janela por onde se avistava o céu e insistiu em voz baixa:
— Bem que poderia ficar. Eu cobriria a cara com o lenço… É que eu gostaria de mostrar-me grata pelo filho… Cubro-me, que acha?
Falava de maneira tão irresistivelmente humana, tão ansiosa de agradar! Seus olhos — olhos infantis em rosto deformado —- brilhavam com singular sorriso, não de mendiga, mas de pessoa rica que tem o que dar em agradecimento.
– Mamãe! — gritou o menino de repente, soerguendo-se no leito e estremecendo. — Estão rastejando! Venha! Acuda!
– Está sonhando, coitado — disse a mãe, inclinando-se, protetora.
Saí para o pátio e entreparei pensativo. Pela janela aberta do porão ouvi estranha canção com que a mulher ninava o aleijadinho.
Afastei-me com passos rápidos e lutando para não desatar em soluços.

Caim e Artêmio (Maksim Górki)

Caim era um judeu, pequeno, irrequieto, de cabeça pequena e rosto pálido e seco; farripas de cabelo ruivo e áspero cobriam-lhe as faces e o queixo, dando-lhe à cara o aspecto de um velho quadro emoldurado em pelúcia e rematado em cima pela pala de um gorro velho e sujo.
Por debaixo dessa pala brilhavam os seus olhinhos pardos, orlados também de pestanas ruivas e mal semeadas. Raras vezes esses olhos se demoravam a fixar o mesmo objeto; corriam sempre, com vivacidade, de um lado para outro, sorridentes, curiosos e aduladores.
Na boca, tinha também um sorriso permanente, e não era difícil adivinhar que aquele excesso de aparente bondade era causado pelo receio que tinha a tudo e a todos; receio esse que, num rápido instante, podia converter-se em pavor.
Por isso, conhecendo-lhe o fraco, compraziam-se muitos em aumentar, com gracejos maliciosos e pesadas ironias, esse sentimento de temor sempre vibrante no judeu, e do qual participavam, não só os seus nervos, mas até as pregas da blusa de algodão que lhe cobria o corpo esquelético, desde os ombros até os pés, num tremor contínuo.
O judeu chamava-se Khaim Aaron Pourvitz, mas toda a gente o conhecia por Caim. Era mais fácil de pronunciar e mais conhecido este nome, além de ter um certo sabor sarcástico. Ainda que dissesse mal com a sua pequenina figura medrosa, todos julgavam que ele profetizava o físico e o moral do judeu, ao mesmo tempo que representava uma afronta.
Vivia entre miseráveis perseguidos pela adversidade, que acham sempre prazer em ofender os outros, visto não disporem de outros meios de se vingar… E o judeu prestava-se admiravelmente a isso; se o ridicularizavam, limitava-se a sorrir como um culpado, e às vezes até ajudava nos gracejos, como se pagasse assim os seus ofensores o direito de permanecer entre eles.
Como era de esperar, vivia do seu negócio. Ia pelas ruas com o cabaz encostado ao ventre, e gritando com voz esganiçada:
— Graxa! Fósforos! Alfinetes! Agulhas!
E assim por diante, numa enumeração interminável de artigos.
Outro traço característico: tinha as orelhas grandes, muito derrubadas para a frente e movendo-se constantemente, como as de um cavalo impacientado.
Exercia a sua profissão em Chikhan, o bairro onde habitavam os miseráveis e famintos, toda a escória da cidade, enfim.
Chikhan era formado apenas por uma rua estreita, de casas altas, velhas e sujas; ali ficavam estabelecidas tabernas, casas de pernoitar, padarias, casas de pasto, lojas de ferros velhos, e outras, onde achavam abrigo ladrões e receptadores de furtos, vendedores ambulantes e vendedoras de hortaliça.
Havia ali, sempre, pouca luz, devido à altura das casas, muita lama e muitos bêbedos, e, no verão, um cheiro insuportável à podridão e aguardente. O sol apenas ali entrava de madrugada, com precaução e de fugida, como se temesse manchar os seus raios naquele monturo.
Por esta rua, situada na vertente da colina, e perto da ribeira, transitavam a toda hora carregadores do porto, marinheiros e moços de frete. Iam ali se embebedar e divertir-se a seu modo; e era ali também que os ladrões esperavam o momento propício de aproveitar em seu favor a embriaguez dos freqüentadores. Sobre os passeios da rua, os vendedores colocavam cestos com pão, bolos, doces, fígado e vários comestíveis quentes, de que faziam grande consumo os carregadores do porto. Os bêbedos cantavam com voz selvagem, injuriando-se; os vendilhões apregoavam as suas mercadorias, importunando por vezes os transeuntes; e os carros rodavam pesadamente, sendo-lhes difícil abrir caminho através dos grupos que se apinhavam, comprando, vendendo, esperando o que fazer ou espreitando ensejo para alguma coisa… Uma confusa gritaria levantava-se, da rua convertida em lodaçal, como um torvelinho chocando contra as paredes das casas, tão sujas, tão esburacadas, que pareciam cobertas de chagas; de tal modo a umidade havia carcomido e manchado o reboco.
Naquele sorvedouro estranho, de lodo, de ruídos ensurdecedores e de frases obscenas, formigavam dezenas de crianças de várias idades, mas igualmente sujas, andrajosas e corruptas. Por ali andavam de manhã à noite; a sua existência dependia em absoluto da piedade dos vendedores e da ligeireza das suas mãozitas para o roubo… À noite, dormiam em qualquer parte, no limiar das portas, nos caixotes que serviam de balcão aos vendedores ou no vão de alguma loja. Ao amanhecer, essas vítimas, descarnadas, raquíticas e escrofulosas, lá estavam de pé, prontas a roubar algum bocado mais apetecível e a mendigar alguma coisa que já não encontrava comprador. A quem pertenciam aquelas crianças? A todos…
Caim fazia o seu negócio em Chikhan dia a dia, apregoando as suas mercadorias, que vendia principalmente às mulheres.
Era freqüente elas pedirem-lhe vinte copeques pela manhã, com a condição de pagarem vinte e dois à tarde; e pagavam sempre. Os negócios de Caim eram muito variados: comprava camisas, gorros, sapatos, e os acordeons dos trabalhadores, que lhos vendiam para se embebedar; e também comprava os vestidos, os casacos e os pobres adornos às mulheres, fazendo depois trocas e vendas com todos estes objetos. Mas era freqüentemente burlado e maltratado. Às vezes chegavam mesmo a roubá-lo, mas ele não se queixava nunca; limitava-se a sorrir, com o seu sorriso tragicamente bondoso.
Sucedia também que alguns vadios, capazes de chegar ao assassinato, levados pela fome ou pela embriaguez, surpreendendo o judeu nalgum recanto escuro, lhe batiam ou o amedrontavam, deitando-o por terra. Trêmulo, prostrado aos pés dos seus agressores, metendo as mãos nos bolsos, o judeu repetia, em tom suplicante:
— Amigos, meus bons amigos, deixem-me ainda alguma coisa. Se não… como sustentarei o meu negócio?
E sorria gesticulando.
– Basta de lamentações!   Dá-nos somente trinta copeques.
Os bons amigos de Caim sabiam que não convém mungir demais uma vaca, desejando que ela continue a dar leite…
Levantando-se, Caim seguia rua abaixo, falando familiarmente com os meliantes, chasqueando e sorrindo; e assim terminava o incidente, com a maior franqueza e simplicidade deste mundo… Nestas aventuras, Caim apenas se fazia ainda mais lívido…
O judeu parecia não viver em muito boas relações com a colônia israelita. Era raro vê-lo acompanhado com algum confrade, e notava-se mesmo que eles lhe votavam um certo desprezo.
Dizia-se que pesava sobre ele uma excomunhão, e tempo houve em que os comerciantes lhe chamavam o Maldito.
Mas isto não era provável, apesar de Caim praticar verdadeiros atos de heresia, pois não guardava a festa do sábado nem se abstinha das comidas proibidas pelo rito hebreu. Faziam-lhe, com insistência, mil perguntas e acusações pela sua desobediência aos preceitos da religião; mas ele, encolhendo os ombros e sorrindo, esquivava-se, fugindo ou gracejando, sem nunca proferir uma palavra que revelasse uma opinião acerca dos costumes e crenças dos judeus.
Até os garotos do bairro o perseguiam, atirando-lhe às costas ou ao cabaz das mercadorias punhados de lama, cascas de melancia e outras imundícies. Caim procurava contê-los com palavras, mas, sempre que podia, ocultava-se misturando-se à multidão; e os garotos não o seguiam por temerem ficar magoados entre a turba.
Assim era a vida para Caim, por todos conhecido e de todos desprezado; vendia, tremia, sorria. E uma vez houve em que a fortuna lhe sorriu também…
Cada recanto da terra tem o seu déspota. Em Chikhan, coubera este papel a Artêmio, galhardo moço de feições corretas, corpulento, audacioso, de rosto oval e perfeito, e fartos cabelos negros e encaracolados, que lhe caíam para a fronte em caprichosos anéis, sobre as sobrancelhas aveludadas e sobre os grandes olhos úmidos e escuros. Tinha o nariz duma correção clássica, os lábios frescos e vermelhos, o bigode negro e farto. Todo o seu perfil era maravilhosamente perfeito, duma beleza simples mas irrepreensível; e seu olhar velado realçava ainda mais a sua beleza, completando-a. Com a sua arrogância, o seu peito amplo e forte, o seu perpétuo sorriso revelador de feliz indiferença, foi Artêmio o terror dos homens e o orgulho das mulheres de Chikhan. Passava a maior parte do dia deitado em qualquer sítio onde o sol batesse; e ali, pesado e indolente, respirava o ar puro e a luz radiante que lhe faziam dilatar os pulmões robustos numa forte e regular palpitação.
Tinha vinte e cinco anos e havia três que chegara à cidade, num rancho de carregadores; trabalhou durante algum tempo, mas depressa compreendeu que fácil lhe seria viver sem trabalhar, graças à sua força e à sua formosura. De camponês e carregador, transformou-se em amante de tendeiras, taberneiras e outras mulheres de Chikhan. Esta ocupação proporcionava-lhe tabaco, aguardente e comer em abundância; nunca desejou mesmo outra coisa, e, portanto, a vida deslizava-lhe tranqüilamente.
Por causa dele insultavam-se e tinham rixas as raparigas e murmurava-se também das casadas, o que era motivo de graves desavenças. Artêmio, a tudo indiferente, estirava-se ao sol como um galo, até que sentia renascer em si qualquer dos seus poucos desejos, que facilmente satisfazia.
Ordinariamente, ia deitar-se para a colina, em cuja falda se apoiava Chikhan. A seus pés via o rio; mais além, os campos que se perdiam no horizonte; e, destacando-se sobre a imensa campina, aqui e ali, aldeias que pareciam manchas pardacentas. Ao longe, a extensa verdura dos prados, luminosa e tranqüila; e, à esquerda, alargava-se toda a rua, dum extremo ao outro, na sua ruidosa e acabrunhada vida. Examinando bem aquela multidão animada e confusa, ele podia reconhecer muitos moradores de Chikhan, seus amigos e inimigos. Ouvindo o ulular feroz do miserável bairro… sem dúvida pensava em alguma coisa. Em volta de si, estendiam-se altos e espessos matagais; álamos solitários e roídos pelo tempo erguiam-se em meio de sarças e salgueiras, onde vagabundos iam dormir as bebedeiras, jogar as cartas, remendar os andrajos e descansar das fadigas ou das turbulências.
Os andrajosos não gostavam de Artêmio. Este, confiado na sua força, tratava-os com insolência; e além disso era invejado pela maneira fácil como ganhava a vida e porque a ninguém dava contas dos seus atos. O sentimento da camaradagem estava pouco desenvolvido nele, que andava sempre só, desprezando os outros. Quando alguém se aproximava, perguntando alguma coisa, Artêmio respondia e entabulava conversação, mas nunca era o primeiro a falar; se lhe pediam dinheiro para beber, dava-o, mas não convidava nunca os conhecidos. Entre eles, havia o costume de se obsequiarem mutuamente, comendo e bebendo em sociedade.
Era ali, entre matagais, que o iam sempre encontrar os mensageiros de amor enviados ao formoso Artêmio, sob a forma duma rapariguelha desgrenhada e suja, a rua, ou de um garoto andrajoso. Eram criaturas de sete ou oito anos, mas já possuídas da importância da sua missão, falando em voz baixa e misteriosamente.
– Tio Artêmio, a Tia Maria manda-me aqui para te dizer que o marido partiu e que é preciso que alugues uma barca para ir com ela ao campo, hoje…
– Ah! – exclamava indolentemente Artêmio, e os olhos sorriam-lhe.
– Olha que é preciso, não faltes…
– Sim, irei… Mas, dize-me cá. Que figura tem essa Tia Maria?
– Ë uma vendeira, claro está! — respondia o mensageiro, em tom de surpresa.
– Uma vendeira. Ah! sim! É aquela que fica ao pé da loja de ferros velhos?
– Não, a que fica ao pé da loja de ferros velhos, é a Anísia Nicolaievna.
– Sim, sim, já me recordo. Disse isto por dizer; estava gracejando… Conheço muito bem a Tia Maria.
E o mensageiro, não satisfeito, e disposto a desempenhar conscienciosamente a sua missão, explica com insistência:
– Maria é a gorda e vermelha, a que fica junto ao vendedor de peixe…
– Sim, sim; já sei… junto ao vendedor de peixe… Tens uma graça! Então eu não havia de saber? Bem; corre e dize à Tia Maria que já vou. Depressa!
Então o mensageiro, com o seu ar mais persuasivo, suplicava:
– Tio Artêmio, dá-me um copeque.
– Um copeque! E se eu o não tiver? – costumava dizer, Artêmio, metendo as mãos nos bolsos das calças. E sempre achava que dar.
Rindo alegremente, lá ia o mensageiro comunicar a resposta, pedindo à enamorada vendeira de fígado o preço do recado. Aquelas criaturas conhecem a importância do dinheiro, não só porque têm fome, mas porque fumam, bebem aguardente e têm também os seus negócios de amor…
No dia imediato a um caso destes, Artêmio mostrava-se mais que nunca inacessível às impressões da vida, e também mais formoso do que nunca, dessa formosura de animal poderoso e refestelado.
E assim lhe decorria a existência, quase inconsciente e de todo tranqüila, apesar dos zelos e das invejas que provocava; de todo tranqüila, porque a defendiam uns punhos terríveis.
Contudo, algum pensamento atormentador e sombrio se lhe condensava por vezes no olhar velado. As sobrancelhas aveludadas contraíram-se-lhe algo, e um sulco tenebroso cavava-lhe a fronte queimada do sol. Quando isto sucedia, encaminhava-se para Chikhan, e, quando o tumulto do bairro se aproximava, mais os seus olhos se amorteciam e as suas narinas se dilatavam.
Pendente do ombro esquerdo, trazia Artêmio a sua blusa de camponês; o ombro direito, apenas coberto pela camisa, deixava adivinhar a força do braço musculoso. Não gostava de botas e usava sempre alpercatas; as tiras de pano branco entrelaçadas, que lhe serviam de meias, desenhavam também os músculos da perna.
Avançava lentamente, como uma grande nuvem ameaçadora.
No bairro, conhecem-lhe os costumes, e pela sua atitude sabem já o que têm a esperar da visita.
Faz-se ouvir um murmúrio de advertência: “Aí vem Artêmio…”
Todos se precipitam para o deixar passar, retirando os mostruários de venda e as mercadorias,, os fogareiros e outros objetos; sorriem-lhe e saúdam-no com adulação. Todos o temem. Ele avança entre as manifestações de admiração pela sua pessoa e de temor perante a sua força, indiferente e silencioso, realçando, com essa aspereza, a sua formosura selvagem de tigre real.
Prende-se-lhe um pé numa canastra, e imediatamente rolam, pelo chão lamacento, tripas, fígados e bofes. O vendedor pragueja, desesperado.
– E por quê te não afastas? — diz Artêmio, tranqüilamente; mas a sua voz tem um timbre de mau agouro.
– Não podias passar por outro lado, touro? — grita o vendedor.
– Mas se me agrada passar por aqui?
Debaixo dos malares de Artêmio formam-se como que dois tumores, e os seus olhos brilham como ferros em brasa. O vendedor nota isso e murmura:
– Parece que a rua é estreita para ti!
Artêmio continua o seu caminho a passos lentos; a vítima, entrando numa taberna, pede água quente para lavar as mercadorias, e, cinco minutos depois, torna a sair gritando:
– Fígado! Bofe! Coração quente! Marinheiro, vem estrear-me! Faço-te quatro copeques de língua! Tiazinha, compra-me um coração! Quem compra coração quente?…Fígado! Bofe!
A este ruído ensurdecedor, juntam-se emanações putrefatas: o cheiro de aguardente, do suor, do peixe, do alcatrão e da cebola.
A multidão enche a rua, impede a circulação dos carros e grita, vende, compra, ri. Em cima, serpenteia uma faixa de céu azul empanado pelo pó e pelo fumo do bairro, onde até as sombras das casas parecem úmidas e gordurentas.
– Mercearias! Linhas! Agulhas!… – apregoa Caim em voz alta, por detrás de Artêmio, ainda mais terrível para ele do que para os outros.
– Pêras assadas! Comprem e comam! — grita uma vendeira.
– Cebolas! Cebolas verdes! — guincha uma outra.
—- Água fresca! – regougueja um velhote de cara vermelha, sentado ao pé de um barril.
E um, conhecido na rua pela estranha alcunha de Noivo Esfarrapado, vende a um carregador do porto uma camisa suja mas forte, que acaba de despir, e grita para o convencer:
– Bruto! Onde vais tu comprar uma camisa tão luxuosa por vinte copeques! Com ela vestida, podes pedir em casamento uma burguesa rica! Uma milionária até… Que diabo!
No mesmo instante, entre o ruído de todas aquelas vozes, ressoava uma voz infantil e clara…
– Por amor de Deus, dai um copeque a uma criança abandonada… que não tem pai, nem mãe…
O nome de Deus ressoa na rua, estranho a tudo e a todos.
– Artêmio! Anda cá! – exclama com voz meiga a mulher do soldado, Daria Gromova, vendedora de pastéis de carne. — Por onde tens andado? Por que te esqueces de nós?
– Tens feito bom negócio? – pergunta Artêmio, tranqüilamente. E, com um ligeiro pontapé, emborca o  cesto de venda. Os pastéis rolam pelo chão, e a vendedora grita, cheia de furor:
—- Vadio! Assassino! Ladrão! E não se abre a terra para te engolir, bruto! Camelo de Astracã!
Em volta dela há gargalhadas; todos sabem que Artêmio será perdoado…
Assim continua o seu caminho, tropeçando em tudo, empurrando e pisando os transeuntes. Por toda a parte o precede este grito de alarma: “Aí vem Artêmio!”
“Aí vem Artêmio!” A estas palavras, mesmo quem as ouve pela primeira vez adivinha uma iminente ameaça, e deixa o passo livre ao gigante, olhando-o com pavor e curiosidade.
Quando um vagabundo o cumprimenta, Artêmio aperta-lhe a mão de tal forma, que o faz gritar dolorosamente, praguejando injúrias. Artêmio agarra-o então pelos ombros, com as suas mãos de ferro, ou aplica-lhe outra qualquer tortura, calmo e olhando silenciosamente a sua vítima, que geme sufocada e arquejante:
— Larga-me, carrasco maldito!
Mas o carrasco era inexorável juiz.
Caim também ia parar, às vezes, às mãos rudes de Artêmio, que se divertia com ele como uma criança com um pequeno escaravelho.
A esta costumada e inexplicável diversão do atleta, chamavam em Chikhan: “a incursão de Artêmio”. Causou-lhe isto numerosas inimizades, mas ninguém se atrevia a arremeter contra a sua força hercúlea.
Uma vez, reuniram-se sete mocetões robustos, e, encorajados por toda a rua, decidiram dar a Artêmio uma lição que ficasse de emenda. Dois pagaram cara a experiência; os outros souberam retirar-se a tempo.
De outra vez, alguns tendeiros, maridos ludibriados, dirigiram-se a um carniceiro da cidade, famoso pela sua força e que já havia saído vencedor em lutas com os hércules do circo. O carniceiro, mediante uma respeitável soma, comprometeu-se a dar-lhe uma sova tão tremenda que o deixasse moribundo. Puseram-nos em frente um do outro, e Artêmio, que não recusava um desafio, partiu a clavícula ao carniceiro, e, dando-lhe um murro no peito, fê-lo cair sem sentidos. Estas aventuras realçaram ainda mais o prestígio de Artêmio, e aumentaram o número dos seus inimigos.
Continuou como sempre as suas incursões, atropelando, ao passar, quanto se lhe atravessavam diante, a tudo e a todos. A que impulsos obedecia ele? Acaso o montanhês, arrancado às suas selvas, queria assim protestar contra a maneira de viver e contra os costumes da cidade? Talvez ele sentisse confusamente que a cidade era a causa da sua perdição e que na alma e no corpo lhe tinha já inoculado o seu veneno; pressentia isso, e vingava-se a seu modo, destruindo, lutando brutalmente contra essa existência que o ia escravizando. As suas incursões acabavam por vezes na prisão, onde os agentes de polícia o tratavam melhor do que aos outros habitantes de Chikhan, assombrados perante a sua força prodigiosa, cheios de curiosidade pela sua audácia e convencidos em absoluto de que Artêmio não era um ladrão, nem o podia ser, por falta de agilidade. Mas, quase sempre, depois duma incursão, Artêmio recolhia-se a qualquer baiuca, onde alguma das suas amantes lhe fornecia todo o necessário. Depois destas explosões de cólera, ficava sombrio e apreensivo, condensando-se-lhe nos olhos uma certa expressão dura e selvagem; a imobilidade das suas feições dava-lhe um ar idiota. Então, uma tendeira qualquer, mulher robusta de trinta anos, tratava-o como se fosse dona daquele animal feroz, mas com certo terror.
– Peço mais dois copos de cerveja? Ou preferes licor? E comer, não queres? Que mal encarado hoje estás, Artêmio!
– Deixa-me em paz! — respondia ele com aspereza.
E a mulher afastava-se um momento; depois insistia de novo, procurando embebedá-lo, pois sabia que, sem beber, Artêmio não esperdiçava carícias.
E aprouve ao destino, tantas vezes irônico, aliar o formoso Artêmio ao judeu Caim.
O caso passou-se deste modo:
Depois de uma incursão, seguida de lauta ceia, Artêmio e a amante dirigiam-se, já cambaleantes, para casa desta última, numa rua estreita e deserta do bairro. Mas ali esperavam-no alguns dos seus inimigos. A bebedeira perturbava-o e Artêmio defendia-se mal. Deitaram-no por terra e durante mais de uma hora zurziram-no impiedosamente, vingando assim todas as humilhações recebidas. A companheira de Artêmio fugira, e, como a noite era escura e o lugar solitário, os agressores podiam saldar, à vontade, as suas contas com Artêmio. Não perderam a ocasião.
Quando o cansaço se apoderou deles, estavam por terra dois corpos imóveis: Artêmio e um homem a quem chamavam Bode-vermelho. Depois de pensar o que deviam fazer, resolveram ocultar o corpo de Artêmio debaixo de um velho lanchão abandonado, junto ao rio; Bode-vermelho, levaram-no consigo.
Quando arrastavam o formoso Artêmio, a dor fê-lo recuperar os sentidos, mas, adivinhando que lhe era mais conveniente dar-se por morto, conteve um grito prestes a escapar-se-lhe dos lábios. Pisaram-no, insultaram-no, e cada um continuava suas proezas naquela terrível aventura.
Michka Vaviloff gaba-se de lhe ter dado muitos pontapés do lado esquerdo, para lhe esfacelar o coração; Sukho-puieff, que lhe tinha espezinhado o estômago, porque, dilacerando aquela víscera, as más digestões lhe esgotariam as forças por mais que lhe dessem de comer: Lomakine confessara que lhe tinha calado o ventre, com igual propósito; nenhum deixava de ufanar-se, e eram excelentes as intenções de todos. Artêmio não perdia uma só palavra da conversa; ao afastarem-se, ouviu-os dizer que era homem morto.
Ficou só, na escuridão, sobre a terra úmida, nessa fresca noite de maio. Fez um esforço para se levantar, mas caiu novamente, exausto de força, vencido por uma terrível dor, aguda e penetrante. Morria de sede; recuperava os sentidos, roído pelo sofrimento. E o rio, marulhando ali perto, parecia rir-se de sua desventura e de sua impotência.
Assim passou toda a noite, sem se mover, não se atrevendo sequer a soltar um suspiro. De uma vez, voltando a si, sentiu qualquer alívio benfazejo: alguém que o auxiliava. A muito custo, pôde abrir um dos olhos e, fazendo esforço, moveu os lábios inchados e dilacerados. O sol entrava pelas frinchas da lancha. Artêmio levou uma das mãos ao rosto, notando que lho cobriam com uns trapos úmidos. Tinha o peito e o ventre igualmente cobertos de trapos umedecidos. Estava despido, e fresco era um alívio para ele.
– Beber! — disse compreendendo que alguém cuidava dele. A mão trêmula desse alguém chegou-lhe aos lábios a boca de uma garrafa.
Artêmio quis ver quem era, mas não pôde voltar a cabeça. E murmurou, com voz débil:
– Aguardente… um copo… Esfrega-me com aguardente… Poderei levantar-me?
– Levantar te? Não, não podes levantar-te. Tens todo o corpo azul, como o de um afogado. Quanto à aguardente, é fácil: há aqui uma garrafa cheia.
Falava-lhe docemente, com timidez, à pressa; e Artêmio reconhecia aquela voz, sem poder recordar a que mulher pertencia.
– Dá-me aguardente.
E de novo, a pessoa que o estava tratando, e que sem dúvida evitava ser vista, estendeu-lhe a garrafa por cima da cabeça. Artêmio, engolindo com dificuldade a aguardente, olhava de soslaio o fundo negro e úmido da lancha, todo revestido de musgo.
A aguardente reanimou-o. Artêmio suspirou profundamente aliviado, e, com voz fraca, disse:
– Puseram-me em bom estado… Mas não as perdem… Hei de curar-me… E então… esperem-me pela volta!…
Não lhe replicaram, mas ele ouviu um ligeiro ruído, como se alguém se afastasse dali… Em torno nada se movia; o marulhar do rio, o canto dos carregadores e a sereia dum vapor, ouviam-se, a distância. A sereia despediu um silvo; depois, enrouquecendo, mugia lugubremente, como se o navio se despedisse, para nunca mais voltar…
Artêmio esperava que alguém lhe falasse, mas tudo estava silencioso, sob o velho lanchão, cujo casco, coberto de limos verdes, se balouçava, como se quisesse esmagá-lo num dos seus vaivéns.
Artêmio sentia compaixão de si mesmo. Sentia-se humilhado, na sua absoluta impotência. Ele, forte e formoso, ver-se inútil e desfigurado! Com as mãos apalpava, a custo, os ferimentos e contusões do peito e do rosto. Depois, cheio de angústia e desespero, chorou e blasfemou.
Chorava e blasfemava desesperadamente, contraindo as pálpebras; e as lágrimas, grossas e ardentes, caíam-lhe pelas faces até as orelhas, aliviando-o.
– Agora… que se preparem! – murmurava, soluçando. Pareceu-lhe que a seu lado alguém chorava.
– Quem está aí? – gritou em tom ameaçador. E naquele instante teve medo, sem compreender por quê.
Essa pergunta não obteve resposta.
Então Artêmio, fazendo um esforço supremo, levantou—se sobre um cotovelo, e, lançando um grito brutal de dor, viu, na sombra, contraído e acachapado, feito uma bola, o pequeno corpo de alguém que se ocultava com o rosto entre os joelhos. Os ombros tremiam-lhe.
Artêmio disse:
– Aproxima-te!
Mas o outro, imóvel, continuava tremendo como que agitado por estranha febre.
Os olhos de Artêmio turvavam-se de dor e de surpresa, e, ao ver-se desobedecido, rugiu:
– Aproxima-te!
Mas, em resposta, só obteve palavras cheias de medo.
– Que mal te fiz? Por quê te mostras feroz contra mim? Não tratei de ti, não te lavei, não te dei aguardente? Não chorei quando tu choravas, e não sofri por te ver gemer? Oh! meu Deus, meu Deus! Até o bem que faço se converte em mal para mim! Que dano te causei eu?
O desgraçado entrecortava estas palavras de soluços, e por fim calou-se; estava no chão, e, apertando a cabeça entre as mãos movia-a para um e outro lado.
– Caim! És tu?
– Sim, sou eu…
– És tu? Aproxima-te. Anda cá, pateta!
Artêmio estava surpreso e ao mesmo tempo possuído de alegre comoção. Teve desejos de rir, quando o judeu se aproximou dele, arrastando-se timidamente, enquanto os olhos pequeninos lhe tremiam e se lhe franzia o rosto, aquele rosto ridículo e triste.
– Não tenhas medo, vem cá. Palavra, que não te bato. – Julgou necessário tranqüilizar assim o judeu.
Caim, mais perto dele já, parou: olhava e sorria com expressão tímida e suplicante, como se visse já espezinhado o seu corpo encolhido de terror.
– Pois eras tu? Quem te mandou aqui? Foi Anísia?
– Ninguém. Vim porque quis.
– Por que quiseste? É mentira.
– Não é mentira. Não minto… Vim porque quis… acredita. E vou dizer-te como, escuta… Tomava eu chá, quando ouvi dizer: “Esta noite deram uma sova em Artêmio, e deixaram-no por morto”. Não acreditei: tratando-se de ti, dava-me isso vontade de rir. “São estúpidos — pensei eu! – Esse homem é como Sansão; quem seria capaz de o vencer?” Mas vinham uns e outros e repetiam sempre: “Já lá tem a sua conta!” E falavam de ti, chasqueando e rindo, todos muito satisfeitos. Acreditei, então. Soube onde te haviam deixado; muitos vieram ver-te… “Venceram o homem mais valente da terra!” Tive pena… perdoa-me que o diga. Julguei conveniente lavar-te, e com a água recuperaste os sentidos… Que alegria a minha! Não me acreditas por eu ser judeu? Pois podes acreditar… Vou dizer-te o que pensei e qual a razão da minha alegria… Não te zangarás comigo?
– Vê este sinal da cruz? Que um raio me parta! — jurou Artêmio, com energia.
Caim, aproximando-se mais baixou a voz.
– Tu bem sabes como é horrível a minha vida, bem o sabes. Não me tens tu mesmo batido muitas vezes? Não se ri toda a gente do miserável judeu? E por quê? Vou dizer-te a verdade; não podes zangar-te comigo, porque juraste. Só digo que tu, como todos os outros, persegues o miserável judeu. E por quê razão? O judeu não é filho também do mesmo Deus, desse Deus que nos dotou, a ti e a mim, de alma semelhante?
Caim falava depressa, fazendo pergunta sobre pergunta, sem nunca esperar resposta. Brotavam-lhe dos lábios as palavras, com que ele tinha gravado no coração os ultrajes e as ofensas recebidas. Tudo ressuscitava nele, transbordando como uma torrente. Artêmio sentia-se acanhado na sua presença, e acabou por lhe dizer:
– Escuta, Caim. Esquece tudo isso. Eu seja maldito, se daqui em diante te voltar a pôr a mão… Juro-o! Nem consentirei que alguém o faça. Se alguém se atrever, despedaço-o! Ouviste?
– Ah! Ah! – exclamou Caim, triunfante. – Agora! Tu fizeste-me muito mal, e apesar disso julgo-te menos culpado do que os outros. Todos me desprezam e maltratam; tu como eles todos, mas também maltratas e desprezas os outros. Tens ofendido outros mais cruelmente do que a mim. Por isso pensava eu: “Este homem valente e robusto, ofende-me e bate-me, não por seu eu judeu, mas porque sou tão desprezível como os outros a quem ele despreza”. Assim… tive sempre por ti respeito e admiração. Temia-te e admirava-te, sabendo que podias arrancar as entranhas a um leão e vencer os filisteus. Tu, humilhava-os… e era um prazer para mim ver como tu os humilhava… Eu desejo também ser temível e forte… mas… sou uma pulga miserável.
Artêmio ria.
– É verdade! És como uma pulga.
Não compreendia bem as palavras de Caim, mas agradava-lhe tê-lo ao pé de si. E, com a lamúria indignada do judeu, muitos pensamentos lhe cruzavam o cérebro, lentamente.
– Que horas serão? Perto de meio-dia, provavelmente. Nenhuma das minhas amantes veio saber de mim. Veio apenas o judeu, ajuda-me e diz que me estima… O judeu a quem eu maltratei e ofendi muitas vezes. E admira a minha força! Recobrarei eu essa força? Se ela volta, meu Deus!
Artêmio suspirava pesadamente, e imaginava ver já os seus inimigos castigados e esmagados como ele mesmo o estava, e atirados a qualquer canto. Mas a esses iriam vê-los os seus amigos… O judeu não.
Artêmio contemplava Caim e pareceu-lhe que as suas palavras lhe amargavam a boca. Cuspiu e suspirou de novo.
E Caim falava sem cessar, com a cara contraída e todo o corpo num estremecimento:
—- … E quando tu choravas, eu chorei também. Receava pela tua força…
– Eu pensava então que alguém se estava rindo de mim — disse Artêmio, sorrindo melancolicamente.
– Admirei sempre a tua força… E pedia a Deus: “Padre Nosso, que estás no Céu e na terra, faze com que eu seja útil a este homem. Faze com que eu possa servir e que o seu vigor me defenda; que a sua energia me livre dos constantes vexames que padeço. Faze com que os meus verdugos morram às suas mãos. Assim orava, pedindo ao meu Deus que te transformasse em meu defensor, e em protetor da minha fraqueza o meu maior inimigo; assim como quis dar a Mais do que eu um protetor na pessoa do Czar, que venceu todos os povos… E tu começaste a chorar… Eu chorava também; mas imediatamente um grito teu perturbou as minhas orações.
– Mas como podia eu adivinhar, pateta? – exclamava Artêmio, sorrindo tristemente.
Mas Caim não ouvia. Balançava-se, gesticulava, arengava sempre, atropelando as palavras em uma apaixonada lamúria, em que vibram a alegria, a esperança, a adoração pela força desse homem agora estropiado, o temor e a tristeza.
– Chegou enfim a minha hora. Estou só, ao pé de ti… Todos te abandonaram e eu sirvo-te… Hás de curar-te, não é verdade, Artêmio? Não te fizeram nenhum ferimento grave? Surgirás de novo forte e poderoso?
-Sim; hei de curar-me… Nada temas… Por teres sido bom para mim, velarei por ti como se fosses uma criança.
Pouco a pouco, Artêmio ia-se reanimando; pareciam-lhe as dores menos agudas e raciocinava melhor. “É preciso interessar-me por este pobre Caim — pensava; — é tão bom e tão sincero…” e Artêmio sorria, a esta idéia… Durante algum tempo, sentiu um vago desejo que não sabia definir. E compreendendo por fim:
– Mas tenho fome! Se pudesses arranjar-me alguma coisa para comer!
O judeu levantou-se com tal rapidez, que tropeçou numa estaca. O rosto aparecia-lhe transfigurado; refletia-se nele uma forte expressão de energia, ao mesmo tempo simples e infantil. “Artêmio, o atleta terrível, pedia-lhe de comer, a ele, Caim!”
— Eu te darei tudo o que queiras. Já o tenho aqui preparado, a um canto. Quem está doente, precisa alimentar-se bem; sei isso bem. Pelo caminho comprei um rublo de comida!
– Depois faremos contas e te pagarei dez rubros. Posso pagá-los. Não os tenho, mas em dizendo: dá-me! – dão-me tudo o que quero.
Ria abertamente, e Caim, vendo-o rir, alegrava-se e ria também.
– Bem o sei, bem o sei. Dize-me o que queres, e tudo terás. Por ti, sou capaz de tudo.
– Bravo! Começa por dar fricções de aguardente. As fricções primeiro, e depois o comer. Mas tu saberás fazer isto?
– Por quê não? Hei de fazê-lo como se fosse um médico.
– Então, mãos à obra; e, quando acabares, me levantarei.
– Levantar-te? Isso é impossível!
– É impossível? Tu verás. Pensas que vou ficar aqui deitado? Tem graça. Dá-me depressa as fricções, para ires depois à casa da pasteleira Mokewna, dizer-lhe que quero instalar-me lá na cocheira; que ponha palha. É ali que irei convalescer e restaurar as forças. Hão de pagar-te bem o trabalho. Descansa.
– Acredito — respondeu Caim, deitando aguardente no peito de Artêmio e dando princípio às fricções. — Creio em ti, mais do que em mim próprio. Ah! Eu conheço-te bem…
– Fricciona, fricciona… Mais força… mais força ainda… Julgas que me dói? É até agradável. Com mais força, vá! – rugia Artêmio.
– Farei tudo o que me peças. Se te agrada, atiro-me ao rio — dizia Caim, continuando nos seus protestos de dedicação.
– Bom, bom… Mas! Agora as costas… Com mais força… Ah! Renegados! Em que estado me deixaram!… E, como sempre, a causa de tudo é uma mulher. Se não fosse uma mulher, eu não teria bebido. E estando em perfeito juízo, quem se atreveria comigo? Ninguém!
Caim, desempenhando admiravelmente o seu papel de enfermeiro, insinuou:
– As mulheres!… As mulheres são os pecados do mundo. Nós, os judeus, temos uma oração da manhã, que diz: “Bendito sejas, Deus Eterno, Senhor do mundo; bendito sejas, porque me não fizeste mulher…”
– Eh! Eh! Isso é verdade? – exclamou Artêmio. -Vocês dizem essa oração? É curioso! Na verdade, o que é a mulher? É um animal perverso, não há dúvida, mas, apesar disso, não podemos viver sem ela. Rezar a Deus dessa forma, é que é ofensivo para as mulheres. Pensas que não têm também sentimentos?
Imóvel e enorme, Artêmio, cujas contusões ainda mais volumoso o tornavam, continuava estendido no chão; e a seu lado Caim, pequeno e enfezado, cansado e ofegante, esfregava-lhe as costas, o peito, a barriga; o cheiro da aguardente fazia-o tossir.
A todo o instante passava gente pela margem do rio; ouviam-se conversações e rumor de passos.
Uma estreita faixa de areia separava do rio a velha lancha emborcada. O sítio era pouco freqüentado, mas, naquele dia, sem dúvida, tinha para todos um particular interesse. Caim e Artêmio viam continuamente aproximar-se os curiosos, que se sentavam no fundo do barco, batendo com os pés nas tábuas. Isto irritava Caim. Deixou de falar, e, arrastando-se silenciosamente para junto de Artêmio, sorriu compadecido e assustado:
– Tu ouves?
– Ouço — respondia Artêmio, satisfeito. — Querem saber quando estarei restabelecido. Precisam preparar a costelas… Ah! Ah! As almas do diabo! Evidentemente, foi grande contratempo para eles não me terem rebentado… A proeza de nada lhes serviu.
– Sabes o que te digo? — advertiu Caim receoso, falando ao ouvido de Artêmio. – Sabes o que te digo? Se me vou embora e te deixo só, entram aqui, e…
Artêmio riu a bandeiras despregadas.
– Pois tu, pobre diabo! Pois tu julgas que têm medo de ti? Que não se aproximam por tua causa?
– Posso servir de testemunha.
– Se te dessem um murro… Ah! Ah! Ah! ias servir de testemunha… para o outro mundo.
O riso de Artêmio tirou o medo de Caim. O judeu sentia agora, em seu peito débil e oprimido, uma feliz e absoluta confiança. A sua vida tomava outro rumo; diante dele erguia-se, agora, um braço forte contra todos os golpes e todas as injúrias, que até então o tinham torturado impunemente.
Decorrera cerca de um mês.
Era meio-dia, a hora em que Chikhan tem maior animação e vida; quando os vendedores se vêem rodeados por grupos compactos de trabalhadores que chegam do porto e do cais, com o ventre vazio e a imperiosa necessidade de comer; quando toda a rua cheira a carnes cozidas. A essa hora, disse alguém a meia voz:
Vem aí Artêmio.
Alguns esfarrapados que andavam pela rua, aguardando ocasião favorável para a prática das suas proezas, desapareceram rapidamente, sem ninguém saber por onde.
Os moradores de Chikhan começaram a voltar os olhos para um e outro lado, com inquietação e curiosidade.
Artêmio era esperado com vivo interesse e houve discussões acaloradas sobre o modo por que ele faria a sua apresentação.
Como sempre, Artêmio avançava tranqüilamente, como um homem pacato que se passeia. Nada de particular havia no seu aspecto. Como de costume, vestia camisa e blusa, trazia o gorro inclinado sobre uma orelha, e caíam-lhe para a testa, como dantes, os anéis do seu cabelo preto. Trazia o polegar da mão direita metido no cinto e a mão esquerda no bolso das calças; ao caminhar, arqueava-se-lhe o peito de atleta; unicamente o seu rosto se tinha transformado um pouco, adquirindo uma expressão inteligente, o que sempre sucede depois de uma doença. Avançava, respondendo às saudações e cumprimentos, com uma leve inclinação de cabeça.
Todos o seguiam com os olhos, e erguia-se um ligeiro murmúrio de surpresa e admiração perante aquela força indestrutível, que ninguém conseguira abater. Havia no bairro muita gente preocupada com o seu restabelecimento, falando com animosidade e injuriando os que não tinham sabido destruir os pulmões do gigante e partir-lhe todas as costelas; porque é impossível haver um homem que não possa ser morto. Outros faziam conjecturas sobre o modo por que o atleta se vingaria do Bode-vermelho e da sua quadrilha.
Mas, quanto maior é o poder, mais atrai. A maioria inclinava-se, rendendo culto à força de Artêmio, cujo prestígio aumentara.
E Artêmio entrou na Gabrilovka, o clube de Chikhan.
Quando à porta da taberna apareceu a sua alta e potente figura, ainda ali havia poucos fregueses; e, entre sufocadas exclamações de surpresa, não faltou quem precipitadamente se escondesse no recanto mais afastado e escuro da úmida cave, enegrecida pelo fumo do tabaco, suja e gordurenta.
Sem fixar coisa alguma, os olhos de Artêmio percorreram lentamente toda a cave, e os seus lábios responderam à adulação do taberneiro Savka Kliebnicoff, com uma pergunta:
– Ainda não veio Caim?
– Não deve tardar… Costuma vir a esta hora. Sentou-se perto duma janela gradeada de ferro, pediu chá, e descansando sobre a mesa as mãos enormes, pôs-se a olhar os que estavam, com ar indiferente.
Eram dez homens, todos esfarrapados, e tinham-se apinhado em volta de duas mesas, observando dissimuladamente, dali, o colosso. Quando os seus olhos se cruzavam com os de Artêmio, sorriam-lhe amigáveis e humildes, desejosos de se aproximar e travar conversa, sem que atrevessem a fazê-lo, porque Artêmio se mostrava sombrio e reservado. Kliebnicoff, ocupado ao balcão, cantarolava, observando-o de soslaio.
Pela janela entrava o ruído ensurdecedor da rua: injúrias violentas, juramentos e exclamações dos vendedores. Perto, caíam garrafas, partindo-se no chão. Artêmio começava a aborrecer-se, naquela baiúca mal ventilada. E, levantando a voz, disse tranqüilamente:
– E vocês, suas feras, por quê é que tão depressa se tornaram mansos? Que significam os vossos olhares e o vosso silêncio?
—- Nós estamos prontos a conversar contigo, se tu quiseres — disse o Noivo-esfarrapado, levantando-se e acercando-se de Artêmio.
Era um homem delgado, vestido com uma blusa de algodão e umas calças de soldado; calvo, barba em ponta, e olhos avermelhados, pequenos e maliciosos.
– Segundo dizem, estiveste doente? — perguntou cautelosamente, sentando-se em frente de Artêmio.
– Sim, e depois?
– Nada. Mas o que tiveste?
– Não o sabes?
– Como hei de sabê-lo? Não fui eu que o tratei…
– Não mintas mais, canalha! — disse Artêmio com um sorriso. — Para que mentes, se sabes o que foi?
– Sim, é verdade, sei! — respondeu sorrindo o Noivo-esfarrapado.
– Então para que mentias?
– Porque, em certos casos, é prudente mentir…
– Prudente?… Canalha que tu és…
– Se te tivesse dito logo a verdade, é possível que não gostasses…
– Era preciso, para isso, que eu te desse qualquer importância…
– Obrigado.   Não me oferece um copo de aguardente para celebrar o teu restabelecimento?
– Pede-o.
O Noivo-esfarrapado, animando-se, pediu meia garrafa.
– Que bela vida, a tua! Como tu vives, Artêmio! Nunca te falta dinheiro.
– E depois?
– Nada… As mulheres tiram-te de apuros… As malditas mulheres…
– E a ti, nem sequer te vêem…
– Paciência. Nem todos temos os pés tão preciosos para seguir pelo teu caminho — suspirou o Noivo.
– As mulheres gostam dos homens fortes e sadios. E tu, o que és? Nada. Eu sou um homem… Um homem, ouviste bem?
Era este sempre o tom em que Artêmio falava a vagabundos. A sua voz indiferente e arrastada, imprimia um cunho especial às palavras, que eram sempre rudes e agressivas. Compreendia talvez que aquela gente, em muitas coisas de pior condição, era em muito e por mais inteligente do que ele.
Caim chegou com a sua caixa de venda encostada ao peito, e um fato de percal amarelo no braço esquerdo. Tomado do seu habitual temor, permanecia à entrada da taberna, estendendo o pescoço e examinando, com um sorriso inquieto, o interior da baiúca. Vendo Artêmio, todo o seu rosto brilhou de alegria.
Artêmio olhava-o e sorria.
– Aproxima-te – disse ele a Caim. E dirigindo-se ao Noivo-esfarrapado, continuou: – E tu vai-te, dá lugar a este homem honrado.
A cara arrepiada, grosseira e vermelha, do Noivo, ficou um momento petrificada pela surpresa e pela ira. Levantou-se, olhou os companheiros, tão surpreendidos como ele, e. fitando Caim, que se aproximava lento e silenciosamente, cuspiu para o chão com raiva.
– Pff!
Depois, acercou-se novamente dos companheiros, entre os quais se ergueram murmúrios sarcásticos e furores covardemente reprimidos. Caim sorria satisfeito, e desvanecido, e olhava de vez em quando para os vagabundos.
Artêmio disse-lhe, então:
– Queres tomar chá comigo, comerciante? Pediremos pastéis. Não desejas comer pastéis? Por que motivo estás a olhar para aqueles? Bah! Cospe-lhe na cara, sem medo… Espera! Vais ver o que lhes digo.
Levantou-se, e, deixando cair a blusa que trazia aos ombros, aproximou-se da mesa onde estavam os despeitados. Aprumado e vigoroso, com o peito levantado, os braços arqueados e dispostos para a luta, soberbo em toda a plenitude da sua força, acercou-se do grupo, com um sorriso de escárnio nos lábios; eles, vendo-o perto, emudeceram e dispuseram-se a fugir.
– Vá! – disse Artêmio. – Que querem?
Desejaria  atirar-lhes à cara uma frase  terrivelmente cruel, mas nada lhe ocorreu, e conteve-se.
– Está bem, – respondeu o Noivo, a meia voz. – Se nada mais tens a dizer-nos, é melhor que nos deixes em paz. Vai-te para onde não faças dano!
– Cala-te! – ordenou Artêmio, franzindo o sobrolho. – Estás raivoso e rói-te a inveja, por eu ser amigo de Caim e te desprezar a ti… Pois ficai-o sabendo bem: o judeu vale mais que vocês todos, porque pratica a bondade humana e vocês nem o conhecem. Tem sido um mártir até agora, mas, de futuro, protejo-o eu. Se alguém o ofende, que se acautele. Juro que me não me limito a desancá-lo. Hei de sugar-lhe todo o sangue, gota a gota!
Os seus olhos tinham um brilho feroz, as veias do pescoço pareciam quererem rebentar e as faces estremeciam-lhe.
– Que me tenham espancado, encontrando-me bêbedo… pouco importa! Não perdi a energia e tenho mais duro ainda o coração! Ficai-o sabendo: defenderei Caim: e se alguém se atreve a molestá-lo, com uma palavra que seja, asseguro que não torna a repetir. Que se lembrem disto…
E, respirando satisfeito, como quem se livra dum fardo incômodo, voltou-lhe as costas.
– Boa idéia! — murmurou o Noivo-esfarrapado, ao ver que Artêmio se sentava novamente junto de Caim.
O judeu tinha presenciado aquela cena, fixando em Artêmio os seus olhos assombrados, cheios de um indizível sentimento.
— Ouviste? — perguntou Artêmio. – Já ficas sabendo. Quando algum te ofender, prevines-me. E eu lhe quebrarei os ossos…
Caim murmurava qualquer coisa: uma oração a Deus, ou um agradecimento ao homem. O Noivo e os seus amigos cochichavam; depois, abandonaram a taberna, um a um. O Noivo, ao passar junto de Artêmio, cantarolou:
Um sábio sem ter dinheiro
Não vale nada…
E com ele o bruto goza Vida folgada.
Olhou o colosso, frente a frente, e, acompanhando a cantiga duma careta expressiva, continuou:
Venha dinheiro,
E comprarei os brutos
Do mundo inteiro…
E saiu para a rua, apressadamente.
Artêmio pôs-se a vociferar, olhando em volta. Na cova escura e asfixiante, só tinham ficado três pessoas: Artêmio, Caim e Kliebnicoff ao balcão.
Os olhinhos de raposa do taberneiro, cruzaram-se, em um olhar humilde, com os do atleta.
– Fizeste bem, Artêmio — disse ele, acariciando a barba. – Procedeste segundo os preceitos do Evangelho… Como na parábola do Bom Samaritano… Caim estava coberto de chagas e de pus, e tu te aproximaste dele…
Artêmio não ouvia essas palavras, mas sim o seu eco. Esse eco, repercutindo-se pela abóbada, e reforçado naquele ambiente empestado e denso, penetrava nos ouvidos. Artêmio, silencioso, movia a cabeça vagarosamente, como se aquela voz lhe perturbasse os pensamentos. E as palavras do taberneiro, vibrando sem cessar naquela pesada atmosfera, insistentes e pertinazes, faziam-lhe mal. Artêmio sentia o coração oprimido.
Olhava obstinadamente Caim. Queimando-se e soprando, com a cabeça caída para a mesa, o judeu sorvia o chá, avidamente, levando a xícara aos lábios com mão trêmula. De vez em quando, Artêmio surpreendia um olhar furtivo de Caim, e os olhos do judeu tornavam-no ainda mais triste e preocupado. Uma sufocada sensação de desgosto, cuja causa desconhecia, lhe esmagava o peito. Olhava ferozmente em volta de si, e os seus olhos cada vez se tornavam mais sombrios. Na cabeça, rodavam-lhe, como pedras de moinho, pensamentos ainda mal definidos. Dantes não o inquietavam; mas vieram surpreendê-lo durante a doença… e não sabia como libertar-se da sua opressão.
As janelas, gradeadas como as de um cárcere, deixavam entrar o ruído ensurdecedor da rua; a abóbada suspendia-se pesadamente acima deles, com a sua viscosa e suja umidade; o chão estava coberto de manchas gordurosas; aquela criatura enfezada e medrosa, toda em estremecimentos, olhava a medo e calava-se… E, pelos campos, os trigos maduros doiravam a terra. Nos campos, para além do rio, a erva crescia, tudo palpitava de vida; e quando o vento agitava as searas, arrastava de lá perfumes tentadores…
– Por quê não dizes nada, Caim? – perguntou Artêmio. — Ainda me temes? Ah! És um infeliz!
Caim levantou a cabeça, inclinando-a novamente, de uma forma estranha. O seu rosto tinha uma torturada expressão de dúvida.
— Que podia eu dizer-te? Com que língua posso falar-te? Com esta? – e Caim mostrava a ponta da língua. — Com a mesma que me serve, quando falo a outro qualquer? Devo eu falar contigo como falaria a um outro? Pensas tu que não compreendo quanto te vexa sentares-te a meu lado? Quem sou eu e quem és tu? Pensa nisto, Artêmio, alma bondosa e tão grande como a de Judas Macabeu! Que farias tu, se soubesses a razão por que Deus te criou? Ah! Ninguém conhece os desígnios de Deus; ninguém pode adivinhar para que foi dada a vida. Mal sabes quantos dias e quantas noites eu tenho levado a pensar nisto: para que vivo eu? De que serve a minha alma? De que serve o meu espírito? Que sou eu para os outros homens? Sou como uma escarradeira a que eles arrojam a sua saliva empeçonhada. E os homens, o que são para mim? Canalhas, que de todos os modos me ferem o corpo e a alma… Que faço eu no mundo? O que faço, se só conheço a desgraça, e não me doira a existência nem um raio de luz?
Falava com veemência, baixando a voz; e como sempre, quando a sua alma atormentada e triste se comovia, um estremecimento agitava-lhe as faces.
Artêmio não compreendia bem aquelas reflexões; mas, escutando-o, adivinhava as queixas de Caim. Isto aborrecia-o e impacientava-o mais ainda, produzindo-lhe quase uma dor física.
– Bem! Aí voltas às tuas lamentações – e meneava a cabeça, contrariado. — Já sabes que prometi defender-te.
Caim sorriu com amargura.
– Como poderias tu defender-me contra o meu Deus? Ele também me persegue…
– Seguramente. Nada posso contra Deus – respondeu Artêmio com ingenuidade, aconselhando o judeu em tom compassivo. — Tem paciência… Nada se pode fazer contra Deus.
Caim, olhando o seu protetor, sorria… Sorria, compadecendo-se dele. Tinha chegado a hora de também poder compadecer-se de alguém. Teve a desgraça compaixão da força, e entre uma e outra estabeleceu-se uma corrente que se aproximava.
– És casado? — perguntou Artêmio.
– Sim; tenho uma família numerosa… Demasiadamente numerosa para os meus poucos recursos.
– Que fatalidade! – E ao dizer isto, Artêmio queria poder explicar a si mesmo, como houve uma mulher capaz de unir-se ao judeu; e olhava-o com maior curiosidade, tão raquítico, tão insignificante e débil, tão sujo e tímido.
– Tive cinco filhos; restam-me quatro. Minha filha Khaia tossia muito, tossia sempre… e morreu. Meu Deus! Minha pobre mulher também está enferma. Tosse como a filha, tosse constantemente.
– Tens muita coisa que te preocupe! – disse Artêmio, e ficou pensativo.
Entraram na taberna vários vendedores, e, dirigindo-se ao balcão, falaram em voz baixa a Kliebnicoff. Este contava-lhes alguma coisa, misteriosamente; olhavam todos de soslaio para o formoso Artêmio e para o mísero Caim, sorrindo com ar de mofa. O judeu reparou nesses olhares e estremeceu. Artêmio, embebido nas suas cogitações, via-se já nos campos, empunhado a foice e ouvindo cair com suave murmúrio a erva cortada…
– Vai-te, Artêmio; e se te agrada mais ficar, irei eu. Esta gente ri-se de ti, por causa.
– Quem se atreve a rir? — gritou Artêmio, voltando à realidade das coisas, e lançando em volta olhares furiosos.
Mas todos os fregueses pareciam estar sérios e entretidos uns com os outros. Artêmio não encontrou a quem provocar. E, franzindo o sobrecenho, disse a Caim:
– Mentes. Mentes como de costume e queixas-te sem razão… Cuidado. Isto não é brincadeira… Queixa-te quando te ofenderem. Ou acaso o fizeste para me experimentar?
Caim sorriu-se e calou-se.
Estiveram silenciosos algum tempo. Depois Caim, levantando-se, pegou na caixa das mercadorias e dispôs-se a sair. Artêmio estendeu-lhe a mão.
– Vai-te?… Que faças bom negócio. Eu fico.
Com as duas mãos fracas e pequenas, Caim apertou a mão do colosso e saiu.
Chegando à rua, procurou um canto onde se escondesse, para observar. Quase a seguir, apareceu Artêmio à porta da taberna. O seu rosto franzido como o de quem receia tropeçar com qualquer coisa desagradável. Fixava a vista nos grupos dos que passavam. Depois, o seu rosto retomou a habitual expressão de indolência e de indiferença, e encaminhou-se para o alto da colina. Procurava sem dúvida o seu costumado retiro.
Caim seguiu-o, com um olhar triste, até o perder de vista; depois apoiou a fronte pálida à grade de ferro do escuro armazém onde se tinha refugiado.
As ameaças de Artêmio deram resultado; ninguém mais perseguiu o judeu.
Caim via claramente que as sarças do seu caminho eram menos pungentes. Agora passavam por ele como se não o vissem, como se ele tivesse deixado de existir. E como dantes ele deslizava por entre todos, apregoando as suas mercadorias; mas nem poisavam intencionalmente já, nem lhe batiam, nem lhe escarravam na caixa da venda. Mas, em compensação, sentia agora a hostilidade, a frieza, as reservas que o humilhavam tanto como os motejos e as agressões.
Atento a quanto o podia interessar, observava as novas atitudes tomadas por todos, perguntando a si mesmo o que resultaria de tudo aquilo. Pensou muito, sem compreender o motivo por que o tratavam assim. E recordava-se de que, tempos antes, lhe falavam amigavelmente umas vezes por outras, perguntando-lhe como iam os seus negócios, e até gracejando com ele, sem maldade.
Caim estava pensativo. Não é raro um homem julgar ditoso o seu passado escutando tudo atentamente, e com olhares perscrutadores. Um dia, chegou-lhe aos ouvidos uma canção, composta pelo Noivo-esfarrapado, o trovador e o poeta da rua, que ganhava a vida tocando e cantando. Serviam-lhe de instrumento oito colheres de pau, que ele fazia girar entre os dedos ou batia contra as bochechas e o ventre; obtinha assim o acompanhamento preciso para as canções que ele próprio compunha. A música era pouco agradável, mas exigia em quem a executava uma agilidade de prestidigitador. E a agilidade, em todas as suas manifestações, era muito apreciada pelos moradores de Chikhan.
Uma vez, Caim foi tropeçar justamente contra um grupo, no meio do qual, munido das suas colheres, o Noivo fazia habilidades e gritava com vivacidade:
– Nobres cavalheiros e futuros presidiários! Ouvi uma canção que acabo de tirar do forno, quentinha. Custa um copeque por cabeça, só um copeque. Atenção!
Entra o sol pela janela,
E toda a casa é um encanto…
Se em vez do sol entro eu,
A ninguém agrado tanto.
– Isso já é velho! Olha que novidade! – exclamou um espectador.
– Sem dúvida! Já a tenho cantado várias vezes! Mas não dou o pão sem receber a paga — disse o Noivo, batendo com as colheres, e continuando:
Não é a vida a minha vida, É da sorte uma traição. Meu pai morreu enforcado
E enforcado meu irmão,
Mas chegada a minha vez, A corda quebrou então…
– Que desgraça! – gritavam algumas vozes, entre o público.
Cada um deu um copeque ao Noivo-esfarrapado; conheciam-lhe o feitio e estavam certos de que não era inventada a história da nova canção.
– Vou começar. Lá vinha outra!
As colheres bateram furiosamente:
Aliança concedeu.
Querem agora imitá-los
Um asno mais um judeu. Salta o boi montes e vales, Vai a aranha às cavaleiras… O judeu vende o imbecil
A casadas e solteiras…
Ai, amores!
Quem quiser ter o imbecil, Há de pagar-lhe os favores!
– Alto! Saúdo respeitosamente o senhor Caim. Ilustre comerciante, agrada-te a minha canção? Não a fiz para ouvidos de judeu… Anda! vai aos teus negócios, que não queremos ver-te…
Caim, sorrindo ao artista, afastou-se com o coração alanceado por um pressentimento.
Era feliz desde que Artêmio o protegia; mas ao mesmo tempo receava novas desgraças. Descia a rua com a sua caixa de mercadorias, certo de não ser atropelado e de não lhe roubarem os seus copeques. Via todos os dias o seu amigo Artêmio, mas não se acercava dele, preso sempre à mesma timidez, e esperando que o atleta se lhe dirigisse primeiro, o que raras vezes sucedia.
– Oh lá! Como vai isso? – perguntava-lhe.
– Bem, obrigado. Vivo, graças a ti — respondia Caim, cujos olhos brilhavam de alegria.
– Ninguém te tem ofendido?
-E quem se atreveria a isso, sabendo que me proteges?
– Bem. Se te acontecer qualquer coisa, avisa-me.
— Eu te direi o que houver.
– Está bem! – e os olhos de Artêmio fixavam-se com severidade na figurinha de Caim; depois despedia-o: – Vai tratar dos teus negócios.
Caim separava-se do seu protetor, reparando nos olhares trocistas e maliciosos do público – aqueles olhares que dantes tanto o faziam tremer.
Passou-se um mês.
Uma tarde, quando Caim se dispunha a ir para casa, encontrou-se com Artêmio. O atleta chamou-o. Caim, aproximando-se rapidamente, notou que Artêmio estava sombrio e ameaçador como uma nuvem de outono.
– Já terminaste os teus afazeres? – perguntou.
– Sim; ia agora para casa.
– Tenho que te dizer. Vem comigo.
Pesado e enorme, começou a andar. Caim seguia-o.
Deixaram a rua e continuaram pelo caminho que margina o rio, e onde Artêmio depressa encontrou um sítio a seu gosto, um barranco perto da água.
– Senta-te! – disse para Caim.
O judeu sentou-se, tímido, olhando o seu defensor. Artêmio, tranqüilamente, começou a fazer um cigarro, enquanto Caim olhava o céu, a floresta de mastros que se levantavam na margem oposta e a água que parecia dormir no silêncio da tarde, fazendo ao mesmo tempo mil conjecturas acerca do que Artêmio teria para lhe dizer.
– Bem… Como vai isso?
– Perfeitamente; já nada temo.
– Bem.
– Graças a ti.
– Ouve.
Decorreram alguns instantes. Artêmio fumava e respirava com avidez. O judeu, perseguido por um triste pressentimento, aguardava com receosa angústia o que o seu amigo tinha para dizer-lhe.
– Então, já ninguém te ofende? Já não te perseguem?
– Por medo de ti. São como cães humildes, e tu… como um leão soberbo. Eu sou…
– Espera!
– Que vais dizer-me? – perguntou, com voz trêmula.
– Que vou dizer-te?… Não é fácil explicá-lo.
– De que se trata?
– Vai ver… Falemos francamente… e acabemos com isto.
– Mas o que é?
– Isto não pode continuar assim. Não posso mais… não posso mais.
– O quê? Não podes mais… o quê?
– Desagrada-me isto… Esta vida não é própria de um homem como eu… — disse Artêmio, suspirando.
– Mas em que modo de vida falas?
– Tudo isto… Sim. Tu e tudo… Já não quero saber de nada… não me importa o que te suceda…
O corpo de Caim contraiu-se, como se o esmagassem dum só golpe.
– Se te maltratarem; se te mortificarem… sofre… Não venhas queixar-te… não te posso ajudar… nem te defenderei. Compreendeste? Não posso mais.
Caim guardou um silêncio de morte.
Artêmio, terminadas estas palavras, respirou com mais liberdade, como se tivesse conseguido libertar-se de um peso que o oprimia. E prosseguiu com mais clareza.
– Estou resolvido a pagar o serviço que me prestaste. Quanto queres? Dou-te o que me pedires. Mas não me obrigues a ter piedade… É um sentimento que desconheço… Quis encher-me de compaixão, dominar-me, vencer-me… Só aparentemente o consegui. Pensando: “Faz-me pena, não soube ter pena… Foi um engano, não tenho dó de ti.
– Por quê sou judeu? —- perguntou Caim, humildemente.
Artêmio olhou-o de lado, pronunciando ao mesmo tempo esta frase, que lhe saía do coração:
– Que… Judeu? Todos somos judeus, perante o Eterno.
– Então, por quê?
– Porque não. Não tenho compaixão de ti, nem de ninguém… Compreende-me… A outro não o explicaria… não me daria a esse trabalho. Dava-lhe um pontapé, e ele me compreenderia. Mas a ti…
– Quem me defenderá, agora, contra a canalha? Quem há de livrar-me dos meus inimigos? – perguntava, triste e humildemente, Caim, repetindo as palavras do salmo.
– Já não posso. Seria impossível! — respondeu Artêmio, fazendo com a cabeça sinais negativos. — Não tenho dó de ti. Para recompensar o que por mim fizeste, dou-te dinheiro.
– Ah! Deus Todo Poderoso! Deus Eterno! Deus vingador! Surge e arroja sobre a terra o Juízo Final! – orava Caim convulsivamente.
Era um anoitecer de outono suave e brando. O rio refletia os últimos raios de sol poente, doce e triste. As figuras de Artêmio e de Caim perdiam-se na sombra do barranco.
– Reflete um pouco — insistia, com entoação melancólica e persuasiva, o atleta. — Que hei de fazer? Compreendes que… preciso de me vingar… Lembra-te de que me surpreenderam e espancaram brutalmente…
Estava agitado, batia os dentes; depois, apoiando a cabeça entre as mãos:
– Conheço-os bem… a todos.
– A todos? — perguntou Caim, abatido.
– A todos. Preciso de ajustar contas com eles, e tu és um obstáculo, um estorvo para mim.
– Por quê?
– Não, não és tu precisamente que me estorvas; mas sinto raiva contra todos os homens. Sou pior que todos? Mão o sei. E tu? Não és nada, e eu tropecei em ti. Compreendes?
– Não — disse Caim, com humildade.
—- Não compreendes? Vamos! Estás doido! É preciso que eu sinta piedade por ti? Sim ou não? Pois bem: agora não posso sentir piedade por ninguém. Não vibra em mim nenhum rasgo de compaixão. Quantas vezes hei de repetir-te isto?
E, dando uma palmada no ombro do judeu, continuou.
– Não me compadeço de ninguém. Compreendes?
Houve um prolongado silêncio. Em volta dos dois homens, naquele ambiente perfumado e morno, pairavam no ar os murmúrios das ondas, que apareciam e desapareciam, como suspiros e queixas arrastados pela corrente.
– Que pensas fazer agora? – perguntou Caim; mas Artêmio não respondeu; estava como que adormecido; pensava talvez. – Como hei de viver, sem que tu me protejas? — acrescentou o judeu, levantando a voz.
Artêmio não respondeu. Depois, levantando os olhos para o céu, disse:
– Só tu deves decidir do que tens a fazer.
– Meu Deus! Meu Deus!
Não posso aconselhar a ninguém como há de viver
– acrescentou pausadamente Artêmio.
E como tinha dito o que desejava dizer, ficou-se tranqüilo e sereno.
– Eu tinha já adivinhado que tudo acabaria assim. Quando me aproximei de ti para te socorrer, quando te vi quase morto, quando tu tinhas o corpo cheio de ferimentos… já adivinhava que tu não serias por muito tempo meu protetor – disse Caim, dirigindo um olhar súplice ao formoso Artêmio. Mas este havia já fechado os olhos.
– Tomaste, acaso, essa resolução, por se rirem de ti? – perguntou Caim, receoso em voz baixa.
– Isso que me importa? – e Artêmio sorria, abrindo os olhos. – Se quisesse, levava-te aos ombros por toda a rua, sem temer que ninguém se risse. Que riam! Mas assim nada ficará resolvido. É preciso fazer tudo em harmonia com a verdade… a verdade como a sentimos n’alma. Eu, irmão, digo-o francamente: não gosto de te ver aqui… É a verdade…
– Portanto, queres que me afaste, que me vá embora…
– Sim; vai-te, antes que seja noite. Nada temas por hoje… Nada receias. Ninguém ouviu o que dissemos.
– E tu não o dirás?
– Não, mas não te aproximes de mim.
– Está bem! – murmurou o judeu com tristeza.
– Seria melhor que te fosses com teu negócio para outra parte – acrescentou Artêmio, com soberana indiferença. – A vida é que é dura, todos procuram fazer ao próximo o maior dano possível…
– Mas para onde hei de ir?
– Isso é contigo.
– Adeus, Artêmio.
E, com a mesma indiferença, estendeu-lhe a mão enorme, apertando fortemente os dedos mirrados do judeu.
– Não fiques mal comigo.
– Não fico — suspirou Caim, com voz entrecortada de soluços.
– Perfeitamente: será melhor assim. Pensando bem, acabarás por me dares razão. Tu és diferente de mim; não posso ter-te por companheiro. E é possível que eu viva só para ti? Já vês…
– Adeus.
– Passa bem.
Caim afastou-se, pela margem do rio, de cabeça baixa, todo curvado para o chão.
Artêmio, o formoso, acompanhava-o com os olhos; e momentos depois tornou a estirar-se na areia, apoiando a cabeça nas mãos e fitando o céu, donde a luz ia desaparecendo. Caía a noite.
Sons indecisos vibravam e desvaneciam-se, no ar. O rio, monótono e triste, marulhava sobre a margem.
Depois de ler caminhado um pouco, Caim retrocedeu, acercando-se novamente de Artêmio, ainda estendido no chão, e perguntou humildemente:
– Não será possível que tenhas mudado de idéias?
Houve um silêncio.
– Artêmio! – chamou Caim, depois de esperar por muito tempo uma resposta. — Estiveste zombando de mim? Tudo isso não seria para me assustar?… – continuava o judeu, com a voz trêmula e as lágrimas nos olhos. – Artêmio, recorda-te daquela noite em que me aproximei de ti para socorrer. Ninguém te acudiu, então; todos te abandonaram.
Teve como resposta apenas um fraco gemido. Artêmio dormia. Caim permaneceu por muito tempo junto do atleta, contemplando fixamente o seu rosto sereno e tranqüilo, cujas feições o sono tornava suaves. O peito de Artêmio movia-se num ritmo cadenciado, e, sob o bigode negro, apareciam-lhe os dentes brancos e fortes. Parecia sorrir.
Com um profundo suspiro, o judeu inclinou a cabeça ainda mais, e afastou-se de novo pela margem do rio. Tremia de horror diante da vida.
Caiu a noite. A lua iluminou a ribeira silenciosa e deserta…

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 284 outros seguidores